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Um dia, no ônibus, passávamos em frente a uma obra quando alguém próximo ao cobrador disse:
- Olha esse prédio!
O cobrador:
- Deve ser coisa do Oscar Niemeyer.
E o primeiro novamente:
- É, só ele pra fazer essas coisas diferentes.
De qual obra se falava? Não importa. Sabe-se muito bem que esse ônibus poderia estar passando em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba ou Paris, Argel, Milão. O interessante desse ocorrido não é a surpresa do usuário em ver a obra, mas, sim, o fato de o cobrador saber de qual arquiteto se tratava.
Esse alcance nenhum outro arquiteto, mesmo no mundo, atingiu. Tal abrangência não se deu por acaso ou porque Niemeyer tivesse 104 anos. O reconhecimento universal de Oscar Niemeyer é motivado pela sua extrema competência em surpreender constantemente o frequentador e sempre inovar sua linha autoral inquestionável.
Repare bem: os personagens do pequeno fato citado no início deste texto não dizem se gostam ou não da obra - o próprio arquiteto dizia que não é isso o mais importante na arquitetura, mas a surpresa deve ser permanente em seus projetos.
O que dizer, por exemplo, da entrada da Catedral Metropolitana de Brasília? Se a forma se revela pelo exterior, onde o arquiteto resolve o programa arquitetônico com um gesto único que se repete 16 vezes, o espaço interno poderia ser facilmente esperado. Porém, genialmente o autor faz um pequeno túnel de entrada, misterioso, com teto baixo e escuro - para quando o fiel entrasse na Catedral se surpreendesse com a luz, com a amplitude e com a beleza do espaço. Aquele gesto aparentemente singelo torna-se totalmente surpreendente.
Ou então na espetacular implantação da sua Casa de Canoas, onde o usuário sobe um pequeno morro para primeiro avistar a casa pelo alto, de modo que se veja a forma curvilínea da laje e a enorme rocha que, de problema, tornou-se o elemento presente em todos os ambientes da casa. Nessa mesma obra, o arquiteto organizou o programa da casa de forma magistral: como o jardim, terraço, piscina, salas e a bela vista são os espaços de convívio, a solução adotada foi jogar os ambientes íntimos no andar inferior, subterrâneo, fazendo com que a casa parecesse pequena, porém um grande local de encontro. Seja pela forma, estrutura ou simplicidade na solução do programa, pouquíssimos arquitetos conseguem se reinventar a toda obra, como Oscar Niemeyer.
Essa inquietação na busca constante de inovação é que o faz estudar filosofia, literatura, mais recentemente astronomia. E o que o mantém com extrema lucidez.
Se alguns dizem que Le Corbusier é o arquiteto mais influente do século 20 - e o próprio Niemeyer assume a influência que o colega franco-suíço teve em sua formação -, ouso dizer que Oscar Niemeyer é o maior arquiteto do século passado. E mais: ele é, assumidamente ou não, uma das grandes fontes de inspiração para muitos dos arquitetos ganhadores do prêmio Pritzker dos últimos anos.
Na obra do SANAA, escritório japonês ganhador do Pritzker em 2010, é evidente a semelhança entre o Onishi Hall e o pavilhão Serpentine com a Casa de Canoas e a marquise do Ibirapuera, respectivamente. Sejima e Nishizawa, os fundadores do escritório, são tão fãs do arquiteto brasileiro que quando vieram ao país por conta da exposição do escritório no Instituto Tomie Ohtake, fizeram questão de visitar inúmeras obras de Niemeyer - além de irem ao Rio de Janeiro para conhecê-lo pessoalmente.
O mesmo fez o holandês Rem Koolhaas, um dos mais influentes arquitetos da atualidade, que esteve em seu escritório de Copacabana em 1999. O mais importante arquiteto português, Álvaro Siza, é mais próximo de Niemeyer e o visitou algumas vezes, principalmente durante a construção da Fundação Iberê Camargo de Porto Alegre. Na última conversa entre os dois, registrada no livro "Oscar Niemeyer - Form & Space" do fotógrafo japonês Yukio Futagawa, discutiu-se a política atual e Siza, fumante assíduo, sequer tocou em seu maço durante duas horas. Niemeyer fumou três cigarrilhas.
Já o lorde inglês da arquitetura, Norman Foster, não conhece o colega brasileiro pessoalmente, mas é evidente em seu projeto para o arco do estádio Wembley, em Londres, a influência do projeto do Maracanã, nunca construído, de Niemeyer.
Relatos como esses são inúmeros, e aqui cito apenas colegas ganhadores do Pritzker. Mas talvez a mais importante constatação venha do historiador Eric Hobsbawn: "Não há como pensar no século 20 sem pensar em Oscar Niemeyer".
Ora, essa frase foi dita nos anos 1990. De lá para cá, o maior arquiteto brasileiro casou-se novamente, lançou uma revista, teve uma dezena de livros publicados, um documentário feito, mais de quinze obras inauguradas, 50 projetos e continuava indo ao escritório todas as tardes.

(Rodrigo Ohtake)



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publicado às 23:45



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