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Os sonhos da noite, quando dormimos, falam-nos do passado e às vezes servem para esclarecer o subconsciente. Mas há também outros sonhos, os sonhos de dia, os sonhos acordados que nos falam do futuro; neles exprimem-se os desejos mais profundos, os anseios e as esperanças do espírito, do supraconsciente, poderíamos dizer. Quando o homem sonha assim e pressente o que há-de vir, o que vai surgir no fim, esse reino de paz e de justiça onde há-de triunfar a vida e o amor, então o homem está mais acordado do que nunca. De facto o homem vive da esperança mais do que das recordação, e só quando espera e sonha o impossível abre-se diante dos seus olhos um mundo de possibilidades e recobra forças para fazê-las amadurecer com o seu trabalho, pacientemente. Então, quando sonha, procura um lugar para a utopia, concretiza mais os seus ideais e vai resgatando o passado para um futuro melhor.
António Gedeão sabia-o muito bem, quando cantou a "Pedra Filosofal":


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.


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publicado às 23:45


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