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Contingência em Sartre

por Thynus, em 05.12.10

A noção de contingência não é exclusiva do pensamento existencialista. Encontramo-la, por exemplo, em São Tomás. A filosofia tomista dá muita importância a esta noção, indicando que todas as coisas finitas são contingentes, pois constam da composição metafísica essência/existência. Com esta afirmação, Tomás de Aquino quer marcar o radical carácter indigente das coisas finitas, o necessitar inevitavel-mente de outras coisas para existir e para ser o que são. São Tomás crê que é precisamente esta falta de fundamento em seu ser que exige que exista um ser necessário, a que chama Deus.
Também o empirismo tinha assinalado a contingência, a pura facticidade, como um dos rasgos básicos da realidade.
Sartre segue a linha empirista, mas destacando as consequências existenciais deste facto, a fragilidade da existência, a existência como algo gratuito, tese que resume de um modo literário assinalando que as coisas “estão a mais” (e nós também). A grande diferença entre o pensamento tomista e o de Sartre está em que Tomás de Aquino considera que há algo exterior ao próprio mundo que lhe serve a este de fundamento e que torna inteligível a totalidade das coisas, lhes dá um sentido. Sartre, no entanto, recusa a noção de Deus (inclusive chega a considerá-la absurda), declara-se ateu, pelo que radicaliza ao máximo a compreensão do carácter gratuito da existência. O mundo não foi criado por algum ser transcendente, existe, mas poderia perfeitamente deixar de existir, e isto se translada às coisas concretas: estas não existem como consequência de um suposto plano ou projeto da natureza ou de Deus, têm existência bruta, são assim, mas poderiam ser perfeitamente de outro modo ou não existir. O mesmo ocorre com o homem: estamos “arremessados à existência”, a nossa presença no mundo não responde a intenção nem necessidade alguma, carece de sentido, a vida é absurda, o nascimento é absurdo, a morte é absurda.
Os seguintes textos de “A náusea” resumem perfeitamente a consciência sartreana da contingência, da gratuidade da existência:
“Éramos um montão de existências incómodas, molestadas por nós mesmos; não tínhamos a menor razão de estar ali, nem uns nem outros; cada um dos existentes, confuso, vagamente inquieto, se sentia a mais com respeito aos outros. “A mais”: foi a única relação que pude estabelecer entre as árvores, as cancelas, os pedregulhos.... E eu –fraco, lânguido, obsceno, dirigindo, removendo melancólicos pensamentos–, também eu estava a mais. Afortunadamente não o sentia, mais bem compreendia-o, mas estava incómodo porque me dava medo senti-lo (ainda tenho medo, medo de que me agarre pela nuca e me levante como uma onda). Sonhava vagamente em suprimir-me, para destruir pelo menos uma dessas existências supérfluas. Porém a minha mesma morte teria estado a mais. A mais o meu cadáver, o meu sangue nessas pedregulhos, entre essas plantas, no fundo desse jardim sorridente. E a carne carcomida teria estado a mais na terra que a recebesse; e meus ossos, finalmente limpos, descarnados, asseados e limpos como dentes, ainda estariam a mais; eu estava a mais por toda a eternidade.”
“O essencial é a contingência. Quero dizer que, por definição, a existência não é a necessidade. Existir é estar aí, simplesmente; os existentes aparecem, deixam-se encontrar, mas nunca é possível deduzi-los. Creio que existe quem tenha compreendido isto. Só que tentou superar esta contingência inventando um ser necessário e causa de si. Mas nenhum ser necessário pode explicar a existência; a contingência não é uma máscara, uma aparência que pode dissipar-se; é o absoluto, e como consequência, a gratuidade perfeita. Tudo é gratuito: esse jardim, esta cidade, eu mesmo.”
Possivelmente esta concepção da gratuidade absoluta da realidade, da ausência de sentido, projecto ou necessidade no mundo, seja o elemento mais característico do existencialismo sartreano. Daí que a experiência filosófica mais importante seja a da compreensão, não só intelectual, mas também vital, do absurdo da existência. Sartre chama “náusea” a esta experiência originária do ser, e desenvolve-a em obras diversas, mas particularmente na sua novela.

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publicado às 23:34



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