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Porque somos infelizes?

por Thynus, em 21.07.11
Se sei que devo morrer não entendo porque devo ser feliz. A diferença entre o homem e o animal está toda nesta consciência, pelo que a infelicidade é o elemento constitutivo da condição humana, que num tempo as religiões e hoje as psicoterapias ou drogas descobertas procuram narcotizar em vão. Mas pode-se realmente pensar em encontrar a felicidade através da negação da característica da condição humana? Como escreve oportunamente Edoardo Boncinelli: "A infelicidade não é um acidente, é um destino."
Além de Boncinelli, que aborda o problema de uma perspectiva genética, o livro apresenta o trabalho de eminentes psiquiatras e psicanalistas, como Maurizio Andolfi, Vittorino Andreoli, Eugenio Borgna, Bruno Callieri e Paolo Crepet que cuida desta coletânea de ensaios, cuja intenção é desmascarar os falsos remédios que nos são propostos todos os dias por quem tira proveito da da infelicidade difundida, para vender aquilo que já Ésquilo chamava de "esperanças cegas (thuphlás elpídas)." Com a clareza do cientista que não se encanta com as esperanças cegas, Boncinelli adverte-nos que a natureza gera-nos para a continuidade da espécie e não para a felicidade do indivíduo. Mas para que os indivíduos não se desmotivem, uma vez alcançada esta consciência, a natureza fornece uma série de enganos que são os desejos do indivíduo, os seus planos, os seus investimentos, os seus entusiasmos, particularmente vividos na idade juvenil que é também a estação mais fecunda para a geração. "Resistiríamos até à idade reprodutiva - o alvo que interessa à natureza – se não tivéssemos esse tipo de trapaça para crianças, que não nos deixa ver perfeitamente a dureza do mundo?" – pergunta-se Boncinelli e responde: "Estou certo que não. Temos uma fase de transição, mas longa, de menor lucidez e damos graças a Deus. Doutra forma estou convencido de que muitas pessoas abandonariam este mundo bem antes da morte natural.". A esta infelicidade de base, que podemos chamar "biológica" se acrescenta uma "cultural" causado pelo facto de que o indivíduo promove desejos, projectos, investimentos que, escreve Boncinelli, são "uma mola na base de toda a civilização e de toda a evolução cultural, mas também uma bola de ferro nos pés, uma corrente, um desconforto, uma amplificação da infelicidade sobre toda a vida ", porque os nossos desejos são quase sempre desproporçionados com a nossa capacidade de realização, e a diferença entre o desejo e a sua realização é fonte de uma nova infelicidade.

Sobre esta tema voltam as belas páginas de Eugenio Borgna que, depois de ter examinado todas as formas patológicas de felicidade e infelicidade, e os remédios farmacêuticos que absorvem os sintomas, mas não dão um horizonte de significado, afunda radicalmente o olhar sobre a condição trágica do homem que não pode viver sem uma produção de sentido, em vista da morte que é a implosão de todo o significado. Tomada na sua dimensão abissal, esta infelicidade não é tratável com medicação, mas pode ser minimizada através da intensificação das relações interpessoais, daquelas afectivas àquelas de cuidados, recuperando a essência constitutiva do homem que a natureza prevê como "animal social".

Mas que tipo de sociedade é esta que nos rodeia? Uma sociedade que nos enche de objectos a serem consumidos, escreve Paul Crepet, que estão no lugar de relações falhadas. Uma sociedade que mede a felicidade pelos rendimentos e não pela circulação dos sentimentos, até ao ponto, sempre em nome dos rendimentos, de fazer da infelicidade um businnes. Na verdade, escreve Crepet: "assistentes sociais, religiosos, psicólogos, psicoterapeutas, psiquiatras, filósofos, organizações voluntárias, farmacêuticos, até mesmo as prostitutas veriam a sua renda reduzida se, de uma só vez, ou se por magia, a maior parte dos infelizes deixassem de o ser. "Para não falar também do controle social que colhe uma indiscutível vantagem da infelicidade: "porque é mais fácil controlar pessoas resignadas e impotentes, ao invés de pessoas vitais e com idéias"

Sobre a infelicidade colectiva vivem também as religiões "prometendo uma felicidade pós-mortem", garantindo assim a suportação da infelicidade nesta terra, até induzir a viver os momentos de felicidade com um sentimento mal disfarçado de culpa, porque provar a felicidade nesta terra poderia reduzir a fé na vida após a morte. Mas, apropriadamente observa Crepet, não menos insidiosa, é a mensagem subjacente em todas as formas de publicidade que, para convidar-nos a consumir, diz-nos que a vida é agora (Life is now). E se a religião alimenta-se de infelicidade, projetando a felicidade noutro mundo, a cultura da nossa sociedade, focalizada no presente, exclui que o futuro da vida individual e social pode ser melhor que hoje.

Mas se esta é a condição humana, não é que para viver é necessário, pelo menos em parte, cortejar a nossa loucura? Esta é a mensagem do psiquiatra Vittorino Andreoli, segundo a qual: "Para viver é preciso estar fora da realidade, ser portanto como os loucos que a esqueceram, para poder suportar estar no mundo e continuar a ser homens, homens sem sentido, porque, de facto a condição humana não tem nenhum."

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publicado às 20:13



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