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A Náusea

por Thynus, em 05.12.10
A Náusea é uma dimensão metafísica e uma atitude psicológica nos confrontos da existência, que nos invade completamente, a tal ponto que as coisas, o “em-si”, têm uma incidência enorme sobre a consciência, o “para-si”: as sensações suscitadas pelas coisas são antes demais repulsa e desgosto, justificados pelo facto de que aquilo que nos circunda nos toca, contra a nossa vontade, e nos oprime. Os objectos que quotidianamente observamos à nossa volta constituem um "excesso", possuem tal plenitude e grandeza que resultam sufocantes e geradores de vómito (alguns estudiosos revêem uma certa analogia da náusea com a Metamorfose de Kafka, também essa marcada por um senso de horror por tudo aquilo que nos toca e nos oprime. Eis como o protagonista do romance-diário, Antoine Roquentin, estabelecendo-se durante três anos em Bouville – onde se desenrolam os acontecimentos - para completar as suas investigações históricas sobre o marquês de Rollebon, vivido no período setecentista, experimenta pela primeira vez a Náusea, e a descreve assim: «(...) A Náusea apanhou-me, deixei-me cair por cima do banco, não sabia mais onde estava; via as cores girar lentamente à minha volta, tinha vontade de vomitar. (...) Desde aquele momento a Náusea não mais me deixou, possui-me». Nestas poucas linhas nota-se muito claramente como este tipo de sensação afecta tanto a parte sensível (os sentidos) como a parte racional (o conhecimento) da consciência o indivíduo. A condição humana acaba por configurar-se, portanto, como um solitário e angustiante experimentar as coisas que estão à nossa volta, chegando mesmo a provar aquilo a que o autor chama "horror de existir" . Neste ponto a Náusea não se configura mais como um estado doloroso transeunte, «não é mais uma doença nem um ímpeto passageiro: sou eu mesmo», escreve Sartre. Na cena seguinte, que se desenrola no jardim público, Roquentin observa a raiz de um castanheiro e só naquele instante se dá conta de ter compreendido a verdadeira natureza das coisas, ou seja, a sua insensatez e a sensação de sufoco que elas suscitam. Somente a solidão em que imergiu o protagonista consentirá a este último tomar as distâncias da inautenticidade do mundo dos outros e do comum divertissement. Do momento em que o sujeito central de todo o romance é a contingência, a injustificabilidade dos objectos à nossa volta que não compreende tudo aquilo que pertence à esfera dos Salauds, os porcalhões, ou seja, aqueles que mentem a si mesmos e aos outros com o único fim de dar um sentido, o mais alto e nobre possível, à própria existência: é a atitude que noutros lugares Sartre chama “má fé”. Esta última diferencia-se da mentira em quanto põe em perigo a própria estrutura da consciência. A ma fé é, por outras palavras, mentira contra si mesmo e sobre si mesmo; de facto, aquele que mente deve conhecer a verdade para poder dissimulá-la e aquele ao qual se mente deve crer neste engano. Parafraseando Sartre em o Ser e o Nada, «para que seja possível a má fé, é preciso que a sinceridade mesma esteja na má fé».
Eis sumariamente o que é a Náusea: o indivíduo aparece, portanto só, perdido, desgostoso do mundo em que vive e não sabe como comportar-se. Mas existe um comportamento que impede, pelo menos em parte, a Náusea de paralisar-nos no desgosto e no horror: socorrer-se da própria liberdade e assumir-se a responsabilidade de toda a acção. Liberdade e responsabilidade são, portanto, junto com a solidão e o exílio, duas das categorias fundamentais que melhor descrevem a "condition umaine" contemporânea. O indivíduo está só em cada instante, embora viva em sociedade, e está por isso mesmo condenado tanto a decidir como a agir; é, portanto, livre de escolher, livre de viver - mesmo sendo condicionado pelos outros - e livre até mesmo de não ser livre, ou seja, livre de deixar-se viver, no sentido que a sua existência acaba manipulada e decidida pelos outros (é claro que, neste caso, trata-se de uma existência inautêntica, não querida e não escolhida com plena autonomia).

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