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Umberto Eco e os padres

por Thynus, em 22.01.15
Nossa situação é realmente precária! Ter pouco tempo para viver, com muito
trabalho, necessidade, medo e dor, sem nem mesmo saber de onde vimos, para onde
vamos e por que vivemos, e ainda ter de suportar padres de todas as cores, com suas
respectivas revelações a propósito, além de ameaças contra os infiéis.
(Arthur Schopenhauer - A ARTE DE INSULTAR) 

 

 

Os padres... Como os conheci? Na casa do vovô, creio; tenho a obscura lembrança de olhares fugidios, dentaduras estragadas, hálitos pesados, mãos suadas que tentavam me acariciar a nuca.

Que nojo. Ociosos, pertencem às classes perigosas, como os ladrões e os vagabundos. O sujeito se faz padre ou frade só para viver no ócio, e o ócio é garantido pelo número deles.

Se fossem, digamos, um em mil almas, os padres teriam tanto o que fazer que não poderiam ficar de papo para o ar comendo, capões. E entre os padres mais indignos o governo escolhe os mais estúpidos, e os nomeia bispos.

Você começa a tê-los ao seu redor assim que nasce, quando o batizam; reencontra-os na escola, se seus pais tiverem sido suficientemente carolas para confiá-lo a eles; depois, vêm a primeira comunhão, o catecismo e a crisma; lá está o padre no dia do seu casamento, a lhe dizer o que você deve fazer no quarto e no dia seguinte no confessionário, a lhe perguntar, para poder se excitar atrás da treliça, quantas vezes você fez aquilo.

Falam-lhe do sexo com horror, mas todos os dias você os vê sair de um leito incestuoso sem sequer lavar as mãos, e vão comer e beber o seu Senhor, para depois cagá-lo e mijá-lo.

Repetem que seu reino não é desse mundo, e metem as mãos em tudo o que podem roubar. A civilização não alcançará a perfeição enquanto a última pedra da última igreja não houver caído sobre o último padre, e a Terra estiver livre dessa corja.

Os comunistas difundiram a ideia de que a religião é o ópio dos povos. É verdade, porque serve para frear as tentações dos súditos, e se não existisse a religião haveria o dobro de pessoas sobre as barricadas, ao passo que nos dias da Comuna não eram suficientes e foi possível dispersá-las sem muito trabalho. Mas, depois que escutei aquele médico austríaco falar das vantagens da droga colombiana, eu diria que a religião é também a cocaína dos povos, porque a religião impeliu e impele às guerras, aos massacres dos infiéis, e isso vale para cristãos, muçulmanos e outros idólatras, e, se os negros da África se limitavam a se massacrar entre si, os missionários os converteram e os fizeram tornar-se tropa colonial, adequadíssima a morrer na primeira linha e a estuprar as mulheres brancas quando entram em uma cidade. Os homens nunca fazem o mal tão completa e entusiasticamente como quando o fazem por convicção religiosa.

Os piores de todos são certamente os jesuítas. Tenho como que a sensação de lhes haver pregado algumas peças, ou talvez tenham sido eles que me fizeram mal, ainda não recordo bem. Ou talvez tenham sido seus irmãos carnais, os maçons. Como os jesuítas, apenas um pouco mais confusos. Aqueles ao menos têm lá uma teologia e sabem como manobrá-la, esses a têm em demasia e nisso perdem a cabeça. Dos maçons, falava-me meu avô. Com os judeus, eles cortaram a cabeça do rei. E geraram os carbonários, maçons um pouco mais estúpidos porque se deixavam fuzilar, antes, e depois se deixaram cortar a cabeça por terem errado ao fabricar uma bomba ou se tornaram socialistas, comunistas e communards; isto é, partidários da Comuna. Todos no paredão. Bom trabalho, Thiers.

Maçons e jesuítas. Os jesuítas são maçons vestidos de mulher.

 

(Umberto Eco - O Cemitério de Praga)

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publicado às 17:38


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