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Verdadeiro, falso e construção de sentido em Nietzsche e Deleuze
1.

 

O mundo verdadeiro, alcançável para o sábio, o devoto, o virtuoso — ele vive nele, ele é ele.

(A mais velha forma da idéia, relativamente sagaz, simples, convincente. Paráfrase da tese: “Eu, Platão, sou a verdade”.)

 

 

2.

 

O verdadeiro mundo, inalcançável no momento, mas prometido para o sábio, o devoto, o virtuoso (“para o pecador que faz penitência”).

(Progresso da idéia: ela se torna mais sutil, mais ardilosa, mais inapreensível — ela se torna mulher, torna-se cristã...)

 

 

3.

 

O mundo verdadeiro, inalcançável, indemonstrável, impossível de ser prometido, mas, já enquanto pensamento, um consolo, uma obrigação, um imperativo.

(O velho sol, no fundo, mas através de neblina e ceticismo; a idéia tornada sublime, pálida, nórdica, königsberguiana.)37

 

 

4.

 

O mundo verdadeiro — alcançável? De todo modo, inalcançado. E, enquanto não alcançado, também desconhecido. Logo, tampouco salvador, consolador, obrigatório: a que poderia nos obrigar algo desconhecido?...

(Manhã cinzenta. Primeiro bocejo da razão. Canto de galo do positivismo.)

 

 

5.

 

O “mundo verdadeiro” — uma idéia que para nada mais serve, não mais obriga a nada —, idéia tornada inútil, logo refutada: vamos eliminá-la!

(Dia claro; café-da-manhã; retorno do bon sens [bom senso] e da jovialidade; rubor de Platão; algazarra infernal de todos os espíritos livres.)

 

 

6.

 

Abolimos o mundo verdadeiro: que mundo restou? o aparente, talvez?... Não! Com o mundo verdadeiro abolimos também o mundo aparente!

(Meio-dia; momento da sombra mais breve; fim do longo erro; apogeu da humanidade; incipit zaratustra [começa Zaratustra].)38
 

(Friedrich Nietzsche - Crepúsculo dos Ídolos)

Notas:
37 -  “königsberguiana”: alusão a Kant, natural e habitante da cidade de Königsberg, na então Prússia (atualmente Kaliningrado, na Rússia). O “imperativo” do item anterior diz respeito, então, ao “imperativo categórico” de Kant.
38 -  “incipit zaratustra”: ou seja, começa a nova era inaugurada por ele. O livro Assim falou Zaratustra começa com uma passagem publicada originalmente no final da primeira edição de A gaia ciência (seção 342), intitulada “Incipit tragoedia” (“Começa a tragédia”), e termina com Zaratustra exclamando: “Esta é a minha manhã, alça-se o meu dia; sobe nesse instante, sobe, ó grande Meio-Dia!”.

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publicado às 17:14



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