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Células

por Thynus, em 10.09.14

Tudo começa com uma única célula. A primeira célula divide-se em duas, e as duas em quatro, e assim por diante. Após apenas 47 duplicações, você tem 10 mil trilhões (10 000 000 000 000 000) de células em seu corpo e está pronto para entrar em ação como um ser humano. [Na verdade, um monte de células se perde no processo de desenvolvimento, de modo que o número final é incerto. Dependendo da fonte consultada, o número pode variar em muitas ordens de grandeza. A cifra de 10 mil trilhões é de Margulis e Sagan, Microcosmos].
Cada uma dessas células sabe exatamente o que fazer para preservar e acalentá-lo, do momento de sua concepção até seu último alento.
Você não tem segredos para suas células. Elas sabem muito mais sobre você do que você próprio. Cada uma possui uma cópia do código genético completo – o manual de instruções para seu corpo; portanto, além da função específica que desempenha, ela conhece todas as outras funções do corpo. Jamais você terá de lembrar a uma célula que ela deve ficar de olho nos níveis de trifosfato de adenosina ou encontrar um lugar para o esguicho extra de ácido fólico que acabou de surgir inesperadamente. Ela fará isso para você, e milhões de outras coisas também.
Cada célula na natureza é algo maravilhoso. Mesmo as mais simples estão bem além dos limites da engenhosidade humana. Para construir a célula de lêvedo mais básica, por exemplo, seria preciso miniaturizar o mesmo número de componentes de um Boeing 777 e encaixá-los numa esfera com apenas cinco mícrons de diâmetro (New Scientist, 2 de dezembro de 2000, p. 37). Depois, seria preciso persuadir aquela esfera a se reproduzir.
Mas células de levedo não são nada comparadas com a s células humanas. Estas, além de mais variadas e complexas, são bem mais fascinantes devido a suas interações complexas. Suas células são um país de 10 mil trilhões de cidadãos, cada um dedicado, de forma intensivamente específica, ao seu bem-estar geral. Não há nada que elas não façam por você. Elas permitem que você sinta prazer e formule pensamentos. Graças a elas, você se levanta, se espreguiça ou dá cambalhotas. Quando você come, são a s células que extraem os nutrientes, distribuem a eneriga e eliminam os resíduos – tudo aquilo que você aprendeu na aula de biologia do colégio –, mas também se lembram de deixá-lo com fome, antes de mais dada, e o recompensam com uma sensação de bem-estar depois, de modo que você não se esquecerá de comer novamente. Mantêm seus cabelos crecendo, seus ouvidos com cera, seu cérebro ronronando. Administram cada cantinho de seu ser. Virão em sua defesa no instante em que você estiver ameaçado. Não hesitarão em morrer por você – bilhões delas fazem isso diariamente. E durante toda a sua vida você jamais agradeceu a uma delas que fosse. Portanto, dediquemos um momento agora a abordá-las com a admiração e a gratidão que merecem. Entendemos um pouco como a s células cumprem suas funções – como depositam gordura, produzem insulina ou realizam muitos dos outros atos necessários para preservar uma entidade complicada como você –, mas só um pouco. Você possui pelo menos 200 mil tipos diferentes de proteínas labutando dentro de seu corpo, e até agora só compreendemos o que 2% delas realizam (Brown, Tlie energy of life, p. 83) (Outros aumentam a cifra para 50%; depende, aparentemente, do significado que se atribui a “entender”.)
Surpresas no nível celular ocorrem o tempo todo. Na natureza, o óxido nítrico é uma toxina poderosa e um componente comum da poluição do ar. Portanto, é natural que os cientistas ficassem um tanto surpresos quando, em meados da década de 1980, descobriram que ele era produzido, com curiosa dedicação, por células humanas. Sua finalidade era, no início, um mistério, mas depois os cientistas começaram a encontrá-lo por toda parte: controlando o fluxo de sangue e os níveis de energia das células, atacando cânceres e outros patógenos, regulando o sentido do olfalo, até ajudando nas ereções do pênis (Brown, op. cit., p. 229). Aquela descoberta também explicava por que a nitroglicerina, o conhecido explosivo, atenua a dor do coração a que se acostuma chamar de angina. (Ela é convertida em óxido nítrico na corrente sanguínea, relaxando o revestimento muscular dos vasos, o que permite ao sangue fluir mais livremente.) (Alberts et al., Essential cell biology , p. 489). No espaço de apenas uma década, essa substância gasosa tranformou-se de toxina estranha em elixir abundante.
Você possui “umas poucas centenas” de tipos diferentes de células, de acordo com o bioquímico belga Christian de Duve,(De Duve, A guided tour of the Hving cell, vol. 1, p. 21) e elas variam enormemente em tamanho e forma: células nervosas cujos filamentos conseguem estender por alguns metros, glóbulos vermelhos minúsculos em forma de disco, células fotorreceptoras em forma de bastonete que contribuem para a visão etc. Elas também vêm em uma ampla variedade de tamanhos, cujo contraste máximo ocorre no momento da concepção, quando um único espermatozóide palpitante enfrenta um óvulo 85 mil vezes maior (o que dá uma nova perspectiva à noção de superioridade masculina). Em média, porém, uma célula humana possui cerca de vinte mícrons de largura (cerca de dois centésimos de milímetro): pequena demais para ser vista, mas suficientemente espaçosa para conter milhares de estruturas complicadas, como mitocôndrias e milhões e milhões de moléculas. No sentido mais literal, as células variam igualmente na vivacidade. Suas células da pele estão todas mortas. É um tanto estranho pensar que cada centímetro de sua superfície está morto. Se você é um adulto de tamanho médio, estará carregando cerca de dois quilos de pele morta, da qual alguns bilhões de fragmentos minúsculos se desprendem a cada dia.(Bodanis, The secret family , p. 106). Se você passar o dedo por uma estante empoeirada, estará deixando um rastro de pele velha.
A maioria das células vivas raramente dura mais de um mês, entretanto, existem algumas exceções notáveis. As células do fígado conseguem sobreviver vários anos, embora os componentes existentes no interior delas possam se renovar em poucos dias (De Duve, op. cit., vol. 1, p. 68). As células do cérebro duram tanto tempo quanto você. Você recebe uns 100 bilhões ao nascer, e essa é sua cota para o resto da vida. Estimou-se que perdemos cerca de quinhentas delas por hora. Portanto, se você precisa pensar seriamente em algo, não perca tempo. A boa notícia é que os componentes individuais das células do cérebro são constantemente renovados. Assim, como ocorre com as células do fígado, nenhuma parte delas tende a ter mais de um mês. Na verdade, comenta-se que não há nenhuma parte de nós – nem mesmo uma molécula desgarrada (Bodanis, op. cit., p. 81) – que fosse nossa nove anos atrás. Você pode não perceber, mas no nível celular somos todos jovens.
A primeira pessoa a descrever uma célula foi Robert Hooke, que vimos pela última vez disputando com Isaac Newton a primazia pela descoberta da lei do quadrado inverso. Hooke realizou muitas coisas em seus 68 anos – era, ao mesmo tempo, um teórico consumado e um homem prático em criar instrumentos engenhosos e úteis –, mas nenhuma realização despertou mais admiração que seu popular livro Microphagia: or some phy siological descriptions of miniature bodies made by magnify ing glasses [Microfagia: ou algumas descrições fisiológicas de corpos minúsculos obtidas por lentes de aumento], produzido em 1665. A obra revelou a um público encantado um universo do muito pequeno bem mais diversificado, apinhado e finamente estruturado do que qualquer pessoa chegara a imaginar.
Entre os aspectos microscópicos identificados pela primeira vez por Hooke estavam pequenas câmaras em plantas, que ele chamou de “células” porque se assemelhavam a celas de monges.[Em inglês, tanto célula como cela são designados pela palavra cell. (N.T.)]
Hooke calculou que um centímetro quadrado de cortiça conteria cerca de 195 milhões daquelas
pequenas câmaras (Nuland, How we live, p. 100) – a primeira aparição de um número tão grande na história da ciência. O microscópio já existia havia mais ou menos uma geração, mas o que distinguia os de Hooke era a supremacia técnica. Eles conseguiam ampliações de trinta vezes, tornando-os a última palaAssim, Hooke e os demais membros da Roy al Society de Londres se surpreenderam quando, uma década depois, começaram a receber desenhos e informes de um negociante de tecidos ignorante, proveniente da cidade holandesa Delft, que conseguira ampliações de até 275 vezes. O nome do negociante era Antoni van Leeuwenhoek. Apesar de sua parca educação formal e da inexperiência em ciência, era um observador atento e dedicado e um gênio técnico. Até hoje não se sabe como ele obteve ampliações tão magníficas de simples de dispositivos manuais, que não passavam de modestos pinos de madeira com uma minúscula bolha de vidro engastada, bem mais parecidos com lentes de aumento do que com o que consideramos um microscópio, mas na verdade diferentes dos dois. Leeuwenhoek criava um instrumento novo para cada experimento que realizava e mantinha segredo total sobre suas técnicas, embora às vezes desse dicas aos britânicos de como melhorar suas resoluções. [Leeuwenhoek foi grande amigo de outro notável de Delft, o artista Jan Vermeer. Em meados do século XVII, Vermeer, que até então havia sido um artista competente, mas não excepcional, subitamente desenvolveu o domínio da luz e da perspectiva, pelo qual se celebrizou. Embora nunca se tenha provado, suspeitou-se por muit o tempo que ele usou uma câmara escura, um dispositivo para projetar imagens em uma superfície plana mediante uma lente. Nenhum desses dispositivos constava dos bens pessoais de Vermeer após sua morte; acontece, porém, que o executor do testamento de Vermeer foi ninguém menos que Antoni van Leeuwenhoek, o mais misterioso produtor de lentes da época.]
 Durante um período de cinquenta anos – que começou, notavelmente quando ele tinha mais de quarenta anos –, Leeuwenhoek enviou quase duzentos relatórios à Roy al Society, todos escritos em baixo holandês, o único idioma que dominava. Leeuwenhoek não fornecia interpretações, apenas os fatos descobertos, acompanhados de desenhos primorosos. Enviou relatórios sobre tudo o que pudesse ser examinado com proveito: bolor de pão, o ferrão de uma abelha, células sanguíneas, dentes, cabelos, sua própria saliva, excremento e sémen (estes últimos com pedidos de desculpas por sua natureza repulsiva) – quase tudo nunca visto antes por microscópio.
Depois que ele relatou ter visto “animálculos” (Jardine, Ingenious pursuits, p. 93) em uma amostra de água de pimenta, em 1676, os membros da Roy al Society passaram um ano procurando os “pequenos animais” com os melhores dispositivos que a tecnologia inglesa era capaz de produzir, até enfim obter a ampliação certa. O que Leeuwenhoek havia encontrado eram protozoários. Ele calculou que existiam 8,28 milhões desses seres minúsculos em uma única gota d’água (Thomas, Man and natural worid, p. 167) – mais que número de pessoas na Holanda. O mundo pululava de vida em formas e números de que ninguém antes suspeitara.
 Inspiradas pelas descobertas fantásticas de Leeuwenhoek, outras pessoas começaram a espiar em microscópios com tanta paixão que às vezes encontravam coisas inexistentes. Um respeitado observador holandês, Nicolaus Hartsoecker, convenceu-se de ter visto “minúsculos homens préformados” em células do esperma. Ele chamou os seres pequenos de “homúnculos” (Schwartz, Sudden origins, p. 167) e, por algum tempo, muitas pessoas acreditaram que todos os seres humanos – na verdade, todos os animais – eram tão-só versões amplamente aumentadas de seres precursores completos, mas minúsculos. O próprio Leeuwenhoek ocasionalmente exagerou no entusiasmo. Em um de seus experimentos menos bem-sucedidos, tentou estudar as propriedades explosivas da pólvora observando uma pequena explosão de perto. Quase perdeu a visão. {Carey (org.), The Fáber book of science, p. 28}.
Em 1683 Leeuwenhoek descobriu as bactérias, contudo esse foi o máximo de progresso alcançado num período de 150 anos, devido às limitações da tecnologia. Somente em 1831 alguém veria pela primeira vez o núcleo de uma celular: o botânico escocês Robert Brown, aquele visitante frequente, mas misterioso, da história da ciência. Brown, que viveu de 1773 a 1858, escolheu o termo núcleo em virtude do latim nucula, que significa “pequena noz” ou “semente”. Mas só em 1839 se percebeu que toda matéria viva é celular.{Nuland, op. cit., p. 101}. Foi o alemão Theodor Schwann quem teve esse insight, que, além de relativamente tardio em termos de insight científico, não foi aceito por completo de início. Somente na década de 1860, após alguns trabalhos memoráveis de Louis Pasteur na França, provou-se de forma conclusiva que a vida não pode surgir espontaneamente; ela deve vir de células preexistentes. A crença passou a ser conhecida como “teoria celular”, e constitui a base da biologia moderna.
A célula foi comparada com muitas coisas, de “uma refinaria química complexa” (pelo físico James Trefil) a “uma vasta e apinhada metrópole” (o bioquímico Guy Brown).{Trefil, 101 thingsy ou don’tknow aboutscience and no one else does either, p. 133; Brown, p. 78}. Uma célula é ambas essas coisas e nenhuma delas. Compaara-se a uma refinaria por se dedicar à atividade química em grande escala, e a uma metrópole por ser apinhada, movimentada e plena de interações que parecem confusas e aleatórias, mas que possuem claramente algum sistema. Porém, é um lugar bem mais apavorante que qualquer cidade ou fábrica que você já viu. Para início de conversa, não existe acima e abaixo dentro da célula (a gravidade não se aplica significativamente na escala celular), e nenhum espaço, nem mesmo da largura de um átomo, fica ocioso. Existe atividade por toda parte e um zunzum incessante de energia elétrica. Você pode não se sentir tremendamente elétrico, mas é. A comida que ingerimos e o oxigênio que respiramos são combinados nas células para gerar eletricidade. A razão pela qual não damos choques enormes uns nos outros nem chamuscamos o sofá ao nos sentarmos é que tudo isso está acontecendo em escala minuscula: um mero 0,1 volt percorrendo distâncias medidas em nanômetros. No entanto, se a escala fosse aumentada, isso redundaria numa descarga de 20 milhões de volts por metro, mais ou menos a mesma carga transmitida pelo corpo principal de um temporal violento {Brown, op. cit., p. 87}.
Quaisquer que sejam o tamanho ou a forma das células, quase todas seguem fundamentalmente o mesmo plano: possuem um invólucro ou membrana externa, um núcleo onde residem as informações genéticas necessárias para manter você em funcionamento, e um espaço movimentado entre os dois chamado citoplasma. Uma membrana não é, como a maioria de nós imagina, um invólucro durável, borrachento, que exigiria um alfinete afiado para se furar. Pelo contrário, constitui-se de uma espécie de material goruroso conhecido como lipídio, com a consistência aproximada de “óleo de máquina de tipo leve”, para citar Sherwin B. Nuland.{Nuland, op. cit., p. 103}. Se isso parece surpreendentemente insubstancial, lembre que, no nível microscópico, as coisas se comportam de modo diferente. Para algo na escala molecular, a água torna-se uma espécie de gel resistente e um lipídio é como ferro.
Se você pudesse visitar uma célula, não iria gostar nem um pouco. Ampliada para uma escala em que os átomos tivessem mais ou menos o tamanho de ervilhas, uma célula seria uma esfera com cerca de 800 metros de diâmetro e sustentada por uma estrutura complexa de vigas denominada citoesqueleto. Dentro dela, milhões e milhões de objetos – alguns do tamanho de bolas de basquete, outros do tamanho de carros – passariam zunindo feito balas. Não haveria nenhum lugar onde você pudesse permanecer sem ser atingido e despedaçado, milhares de vezes a cada segundo, de todas as direções. Mesmo para os ocupantes permanentes, o interior de uma célula é um lugar perigoso. Cada filamento de DNA é atacado ou danificado em média uma vez a cada 8,4 segundos – 10 mil vezes ao dia – por substâncias químicas e outros agentes que o golpeiam ou descuidadamente o retalham, e cada uma dessas feridas precisa ser logo reparada para a célula não perecer.
As proteínas são especialmente animadas, rodopiando, pulsando e voando umas de encontro às outras até 1 bilhão de vezes por segundo.{Brown, op. cit., p. 80}. As enzimas, elas próprias um tipo de proteína, precipitam-se por toda parte, realizando até mil tarefas por segundo. Como formigas operárias muito aceleradas, elas ativamente constroem e reconstroem moléculas, retirando um pedaço de uma, acrescentanfo um pedaço a outra. Algumas monitoram as proteínas que passam e marcam com uma substância química aquelas que estão irreparavelmente danificadas ou imperfeitas. Uma vez selecionadas, as proteínas condenadas prosseguem até uma estrutura chamada proteassoma, onde são desfeitas; seus componentes são usados para construir proteínas novas. Alguns tipos de proteína existem por menos de meia hora; outras sobrevivem algumas semanas. Mas todas têm existências inconcebivelmente frenéticas. Como observa de Duve: “O mundo molecular deve necessariamente permanecer além dos poderes da nossa imaginação, devido à velocidade incrível com que as coisas ocorrem ali”.{De Duve, op. cit., vol. 2, p. 293}.
Mas se você diminui o ritmo para uma velocidade em que as interações possam ser observadas, as coisas não parecem tão intimidantes. É possível ver que uma célula consiste simplesmente em milhões de objetos – lisossomos, endossomos, ribossomos, ligantes, peroxissomos, proteínas de todos os tamanhos e formas – colidindo com milhões de outros objetos e realizando tarefas corriqueiras: extraindo energia de nutrientes, montando estruturas, fazendo reparos. Tipicamente uma célula conterá cerca de 20 mil tipos diferentes de proteínas, dos quais cerca de 2 mil estarão representados, cada um, por pelo menos 50 mil moleculas. “Isso significa”, diz Nuland, “que, mesmo se contarmos somente aquelas moléculas presentes em quantidades de mais de 50 mil cada, o total ainda será um mínimo de 100 milhões de moléculas de proteína em cada célula. Tal cifra desconcertante dá uma ideia da imensidão pululante da atividade bioquímica dentro de nós.”{Nuland, op. cit., p. 157}.
 Trata-se de um processo imensamente exigente. O seu coração precisa bombear 343 litros de sangue por hora, mais de 8 mil litros por dia, 3 milhões de litros por ano – o suficiente para encher quatro piscinas olímpicas – a fim de oxigenar todas essas células. (E isso em repouso. Durante um exercício, a quantidade pode aumentar até seis vezes.) O oxigênio é absorvido pelas mitocôndrias. Estas são as centrais elétricas das células, e existem cerca de mil delas, em uma célula típica, embora o número varie consideravelmente, dependendo da função da célula e de quanta energia ela requer.
Você deve se lembrar, de um capítulo anterior, de que se acredita que as mitocôndrias se originaram como bactérias cativas e que agora vivem essencialmente como inquilinas em nossas células, preservando suas próprias instruções genéticas, dividindo-se conforme seu próprio cronograma, falando sua própria língua. Você também deve se lembrar de que estamos falando à mercê da boa vontade delas. Isso porque praticamente todo alimento e oxigênio que absorvemos são entregues, após o processamento, às mitocôndrias, onde são convertidos em uma molécula chamada trifosfato de adenosina, ou ATP.
Você pode não ter ouvido falar do ATP, mas é o que o mantém funcionando. As moléculas de ATP são, essencialmente, pequenas baterias que se deslocam pela célula fornecendo energia para todos os processos da célula, e seu número é enorme. Em qualquer dado momento, uma célula típica de seu corpo conterá cerca de 1 bilhão de moléculas de ATP, e em dois minutos cada uma delas terá se exaurido e outro bilhão terá tomado seu lugar.{Alberts et al., p. 110}. Diariamente você produz e gasta um volume de ATP equivalente a aproximadamente metade do peso do seu corpo.{ Nature, “Darwirfs motors”, 2 de maio de 2002, p. 25}. Sinta o calor de sua pele. É o ATP em ação.
 Quando as células não são mais necessárias, elas morrem com o que só podemos chamar de total dignidade. Demolem todos os suportes e escoras que as mantêm coesas e, tranquilamente, devoram suas partes componentes. O processo é conhecido como apoptose ou morte celular programada. A cada dia, bilhões de suas células morrem em seu benefício e bilhões de outras arrumam a bagunça. As células também podem ter uma morte violenta – por exemplo, quando infectadas –, mas quase sempre morrem porque recebem ordem de morrer. Na verdade, se não forem instruídas a viver – se não receberem algum tipo de instrução ativa de outra célula –, elas automaticamente se matam. As células precisam de muito apoio.
Quando, como acontece às vezes, uma célula não expira da maneira prescrita, mas começa a dividir-se e a proliferar caoticamente, chamamos o resultado de câncer. Células cancerosas não passam de células confusas. As células cometem esse erro com certa regularidade, porém o corpo dispõe de mecanismos elaborados para enfrentar o problema. É muito raro o processo fugir de controle. Em média, os seres humanos sofrem uma malignidade fatal a cada 100 milhões de bilhões de divisões de células.{Ridley , Genome, p. 237}. O câncer é azar no sentido pleno do termo.
O espantoso nas células não é que as coisas às vezes dêem errado, e sim que funcionem tão perfeitamente por décadas a fio. Para isso, elas enviam e monitoram o tempo todo fluxos de mensagens – uma cacofonia de mensagens – vindas do corpo inteiro: instruções, consultas, correções, pedidos de ajuda, atualizações, avisos para se dividir ou expirar. A maioria desses sinais chega por mansageiros chamados hormônios, entidades químicas tais como insulina, adrenalina, estrogênio e testosterona, que transmitem informações de locais remotos como as glândulas tiróide e endócrinas. Outras mensagens chegam por telégrafo do cérebro ou dos centros regionais em um processo chamado sinalização parácrina. Por fim, as células se comunicam diretamente com os vizinhos para garantir que suas ações sejam coordenadas.
Talvez o mais incrível é que tudo se resume em uma ação frenética e aleatória, uma sequência de encontros incessantes coordenados por nada mais que regras elementares de atração e repulsão. É evidente que nenhuma presença pensante está por detrás de qualquer ação das células. Tudo apenas acontece perfeita e repetidamente, e de forma tão confiável que é raro chegarmos a nos conscientizar daquilo, embora de algum modo esse processo produza não apenas ordem dentro da célula, como também uma harmonia perfeita por todo o organismo. De maneiras que mal começamos a entender, trilhões e trilhões de reações químicas reflexivas resultam em um ser humano móvel, pensante, tomador de decisões – ou mesmo um besouro de estrume menos reflexivo, mas mesmo assim incrivelmente organizado. Cada ser vivo, nunca esqueça, é uma maravilha da engenharia atômica.
Na verdade, alguns organismos que consideramos primitivos desfrutam de um nível de organização celular que faz com que a nossa pareça prosaica. Separe as células de uma esponja (passando-a por uma peneira, por exemplo), depois mergulhe-as numa solução, e elas voltarão a se reunir e formar uma esponja. Você pode fazer isso mil vezes, que elas obstinadamente voltarão a se juntar, porque, como eu, você e todos os demais seres vivos, possuem um impulso irresistível: de continuar a ser.
Tudo isso por causa de uma molécula curiosa, determinada e mal-compreendida que nem viva está, e quase sempre não faz absolutamente nada. Chama-se DNA, e para começar a entender sua importância suprema para a ciência e para nós, precisamos recuar uns 160 anos até a Inglaterra vitoriana e o momento em que o naturalista Charles Darwin teve o que foi considerado “a melhor ideia individual que alguém já teve”{Dennett, Darwin’s dangerous idea, p. 21} – e depois, por motivos que requerem uma pequena explicação, manteve-a trancada numa gaveta pelos quinze anos seguintes.

(BILL BRYSON - Breve história de quase tudo)

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