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AS VAIDADES

por Thynus, em 28.01.15
“UMA DE NOSSAS TRAGÉDIAS ESTÁ
NO FATO DE QUE QUASE SEMPRE É O
FRACASSO QUE TORNA A VIDA REAL.”
(L.F. Pondé)

Há muito que leio a Bíblia, apesar de ter nascido sem o órgão da fé. Uma ideia que, para mim, é insuperável, e muito estranha ao mundo contemporâneo, é a de que nada existe de novo embaixo do sol. Nosso mundo, tomado pela moda como ontologia (a essência do mundo contemporâneo é seu caráter lifestyle como modo de ser), tem dificuldade em apreender o que seriam grandes rotinas que se repetem desde muitos milênios e que se impõem a nós.
Claro que mudanças acontecem. As tecnologias avançam, a Medicina avança, as ideias políticas circulam. Mas a questão sobre um nível perene da realidade se coloca noutro plano, aquele de processos que se repetem e nos fazem perguntar se há algo de novo sob o sol, como nos fala o sábio bíblico do texto Eclesiastes. Nascer, crescer, plantar, colher, reproduzir e morrer são algumas marcas desses processos ou instantes. Diante de uma sociedade afeita a modas, pergunto-me se a experiência cotidiana não está contida numa incapacidade humana de mudar nossa condição na Terra: por que estamos aqui? Para onde vamos? Qual é o sentido de tanta labuta? Normalmente, diante de um ataque cardíaco ou da morte de um ente amado, a sensação de que a tagarelice contemporânea e sua excessiva crença em si mesma mais atrapalham do que ajudam é gritante.
Outro exemplo pontual é a tentativa de reinventar as relações entre os seres humanos, definindo-as como políticas ou construções sociais. Ridículos chegam a afirmar que podemos nos definir até no sexo. Caminhamos como se a vida fosse livre como a escolha de um desodorante, apesar de que, no silêncio do dia a dia, nos afogamos na incapacidade de dar nomes aos nossos impulsos e sentimentos. Entre a crença nos instintos como símbolo de algum equilíbrio natural (a natureza é o lugar do desequilíbrio, e não do equilíbrio!) e a utopia de um homem inventado por ideias, fracassamos diante da necessidade de comer, dormir, nascer e morrer, apesar do grito geral a favor de um mundo de luxos e direitos.
A pergunta no livro Eclesiastes acerca da vaidade como fundo de tudo sob o sol está ancorada no significado mais profundo da palavra latina (vanitas) que traduz neste livro bíblico a expressão do hebraico antigo “nuvem de nada, vento que passa”. Vanitas, antes de ser uma luta contra o envelhecimento e a falta de beleza, significa o vazio que nos ronda e que se materializa em nossos limites tão indesejados. No mundo contemporâneo, pensamos que podemos votar contra o medo, o fracasso, a inveja, a mentira e a hipocrisia. Essa negação do fato de que não existe almoço de graça prepara a negação maior de que, no limite, não somos o que a Psicanálise chama de “ser da falta”. Como crianças malcriadas que atingiram os 40 anos, gritamos contra a “injustiça” do universo contra nós e declaramos esse vazio uma falta de respeito. A maquiagem como “mentira da beleza” é menos enganosa do que uma cultura que gosta de se reafirmar como livre da gravidade e do trabalho de sol a sol. O suor é, assim, declarado uma forma de preconceito contra nosso direito à eternidade.

(Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé -  A Era do Ressentimento)

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publicado às 19:02


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