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Este é um ponto da investigação em que é preciso deixar a análise histórica, caso se queira fazer justiça à experiência dos homens. De fato, diante do excesso de iniqüidade, eles sentiram que seu coração vacilava e que a razão soçobrava; que faltava um precedente histórico; que eles estavam diante de uma espécie nova e desconhecida. A maior parte das grandes testemunhas deste século XX gritaram aos céus. Alguns estimaram que ele estava vazio; outros, que se poderia suplicar-lhe, jurar-lhe, esperar. Na realidade, quando se lê Orwell, Platonov, Akhmatova, Mandelstam, Levi, adivinha-se que essas duas respostas ao desafio metafísico coabitam ou altemam-se obscuramente nas mesmas almas.
 
 
O mal
 
Plotino definia o mal como “a privação do bem”. Os escolásticos precisaram: a privação de um bem devido. A cegueira, por exemplo, é um mal, porque faz parte do homem o direito de ver. Se ele é incapaz de ver o invisível, apesar de ter bons olhos, ele não pode se lamentar, pois a vista não é feita para ver as coisas mais além de um campo limitado. A ideia é então de que o mal se define negativamente. Ele é puro nada, um vazio no ser. Parece-me que essa definição não dá conta suficientemente do horror que se apoderou das pessoas diante do que o comunismo e o nazismo lhes infligiram.
O que causava esse horror era menos o mal do que, principalmente, a vontade do mal. O homem quer naturalmente ser feliz. Sua vontade está normalmente voltada para o que ele considera como seu bem. Como sua imaginação é curta, não custa imaginar – e os filósofos mais antigos explicaram-no – que o homem se engana facilmente sobre o que é o seu bem, que ele comete atos ruins porque ele não vê o que isso pode lhe custar. Ao roubar, se busca evidentemente um bem, a violação produz prazer, matar apazigua a cólera, mentir permite sair de uma situação embaraçosa. É preciso, porém, pagar um preço. No entanto, nós reencontramos uma outra categoria de atos que não são seguidos por nenhum prazer imaginável pelo homem comum, atos que parecem desumanamente desinteressados. Aqueles que os praticam parecem atraídos pela pura transgressão da regra. Eles causam medo porque não são compreendidos, parecem estar alheios à humanidade comum. Compreendemos muito bem o ladrão, o violador, o assassino, porque encontramos em nossa alma pontos de ressonância, e não é necessário adentrar-se profundamente em nós mesmos para encontrarmos em algum grau a avidez, a luxúria, a violência. Porém, diante deste tipo de atos, ficamos desconcertados como ficaríamos diante de um milagre, um milagre ao contrário, uma exceção negativa às leis comuns da natureza. O homem deseja seu bem, mas não há lá nenhum bem concebível. E porque aqueles que sofreram o comunismo ou o nazismo, ou que apenas o estudaram com alguma aplicação, foram permanentemente perseguidos pela indagação: por quê? Por que comprometer o esforço de guerra, dispender dinheiro, sobrecarregar os transportes, mobilizar soldados para irem descobrir num celeiro uma menina judia escondida apenas para assassiná-la? Por que, quando não existe nenhuma oposição organizada, tudo estando submisso e obediente, prender milhões de pessoas, mobilizar o aparato policial e judiciário para fazê-los confessar crimes inimagináveis e manifestamente absurdos e, uma vez que confessados, reunir o povo para fazê-lo representar a comédia da indignação e obrigá-lo a participar na execução? Por que, na véspera de uma guerra programada, fuzilar a metade do corpo de oficiais generais?
Mas o que parecia ainda mais incompreensível é que esses crimes enormes e ineptos eram cometidos por homens medíocres, e até particularmente medíocres, mediocremente inteligentes e morais. Encontravam-se às vezes na imensa massa de executantes individualidades perversas por caráter, sádicos que sentiam prazer em fazer sofrer. Eram a exceção. Como os perversos certamente prosperavam, eles eram utilizados para certas tarefas, mas só até um certo ponto; no mais, eram afastados em nome da disciplina e algumas vezes até punidos. Em seu desejo de compreender, as vítimas não podiam mais apegar-se à explicação da perversidade de que o homem é capaz e freqüentemente portador. Era preciso ir mais alto, na direção do “sistema”. Mas a racionalidade, ainda que delirante, do sistema era desmentida por essas ações autodestrutivas que iam contra o interesse do projeto.
É por essa razão que a personalidade criminosa de alguns dirigentes – sobretudo Stalin restituindo-lhes uma certa parte de humanidade, contava a seu favor e lhes valia uma certa gratidão: dava uma certa explicação e restabelecia uma certa coerência. Porque a história oferece numerosos exemplos de tiranos criminosos; havia então precedentes e nada de novo sob o sol: a angústia diante do desconhecido ficava atenuada. No entanto, os mais lúcidos sabiam que o pretenso tirano não era o único, pois ele não agia em função de seu interesse particular. Ele próprio era tiranizado por algo de caráter superior. Era necessário concluir, então, que o crime estava encadeado à loucura. Mas não se tratava de uma loucura normal, como aquela que vemos nos tiranos loucos, porque a loucura comporta um elemento aleatório e afeta zonas em que o repouso e o jogo podem se alojar.
Assim, os romenos ficaram por um momento aliviados pelas trapalhadas do casal Ceausescu. Mas, nos piores momentos, a loucura ideológica criou um bloco compacto, sem o menor interstício em que se refugiar, e tudo andava mal.
 
 
O demônio e a pessoa
 
Foi assim espontaneamente que espíritos, mesmo pouco religiosos, eram tentados a olhar por cima da ordem humana inteligível e entrever a direção superior de uma ordem diferente. Não era só o peso da injustiça, a proximidade do mal, mas também a impotência de referi-los ao que quer que fosse de conhecido que os levava a interrogar os céus. Eles eram levados a isso, porque os dois regimes professavam um ódio ativo contra todas as religiões que honrassem uma ordem divina diferente daquela estabelecida pelos homens. O nazismo odiava o Deus de Abraão; o comunismo, todo tipo de deus e particularmente aquele Deus. A organização religiosa dos países conquistados foi sempre imediatamente modificada. Ela foi liquidada (a Albânia proclamou-se o primeiro país ateu do mundo), frequentemente reduzida à servidão e pervertida. Cristãos, judeus, muçulmanos, budistas, taoístas, confucionistas foram perseguidos como tais, e a perseguição não foi temporária, mas permanente. Ela não tinha nenhuma utilidade política, sendo antes uma loucura inconveniente, que durou até o último dia.
Foi assim que vários mártires desses regimes encararam a ação de uma ordem sobre-humana, “angelical”, capaz de exercer um poder direto. Um poder que não passaria verdadeiramente pela mediação da vontade ruim dos homens, mas que os levaria a agir à sua revelia de forma que eles não soubessem, talvez apenas confusamente, o que faziam. Que adormeceria o senso comum e a consciência moral, e transformaria o homem, submetido a um tipo de encantamento, em uma marionete da qual ele puxaria os fios. Nessa intuição, o último tirano não é nem Hitler, nem Lenin, nem Mao, mas o Príncipe desse mundo em pessoa.
Em pessoa: a palavra é ambígua. Boécio deu uma definição da pessoa que tem servido muito: “uma substância individuada de natureza racional”. Nessa linha teológica, pode-se estimar que essa substância criada, se ela perde sua ordenação a seu Criador e a seu próprio fim, sofre contradições que a mutilam ou decompõem. Pode-se especular, dado que não se sabe nada de positivo sobre o mundo angelical, que a substância do anjo ruim, por causa de seu nível superior, é muito mais devorada do que a do homem dominado pela vontade ruim. O ato de aniquilamento que ele provoca se realiza primeiro sobre si mesmo, de forma que sua substância – que para nós, os homens, evoca uma natureza positiva, indestrutível, arruinada, mas não destruída pelo pecado – se reduz progressivamente à sua pura vontade do mal. Em razão da capacidade de mal superior de que ele é dotado, o que subsiste nele de cúmplice natural, a pessoa, tenderia assintoticamente para a impessoalidade. A pessoa angelical decaída suportaria o máximo possível de impessoalidade. Especulação, sem dúvida, mas ela dá razão à noção de pessoa impessoal que se encontra tão universalmente na literatura das testemunhas, sufocadas pelo tédio, pela pobreza, pela banalidade daqueles que as fazem sofrer, morrer, como pela impessoalidade de toda a hierarquia do poder, incluída até mesmo sua cúpula. Elas ficavam assim assustadas pelo contraste entre o incrível poder de destruição desses aparelhos, de uma maravilhosa engenhosidade, capaz de entrar no maior detalhe, e seu incrível poder de organizar, de construir ou simplesmente de deixar existir as coisas mais humildemente necessárias à vida, até para sua própria perdurabilidade.
Quem tem o poder no regime nazista ou comunista puro? Esta simples pergunta, à qual pareceria mais fácil de responder em relação a não importa que regime, porque o possuidor de todos os poderes é visível em todos os lados, até mesmo de uma visibilidade obsessiva – o Führer, o Secretário-Geral, o Partido –, constituía um profundo enigma para aqueles que eram capazes de uma profunda reflexão filosófica: Jünger, Platonov, Orwell, Milosz, Zinoviev... Eles deixaram entender o que as almas religiosas – Mandelstam, Akhmatova, Bulgakov, Rauschning, Herbert, Soljenitsyn – proclamaram: é o diabo! Era ele quem comunicava a seus súditos sua inumana a impessoalidade. Dostoievski e Vladimir Soloviev tinham tido antecipadamente a intuição. Não fazer referência a esse personagem seria não ouvir fielmente todas essas testemunhas, mantendo a consciência da reserva em que nós devemos nos manter em relação ao centro misterioso que eles chamaram dessa maneira e cuja proximidade conhecem por experiência e por evidência.
 
 
A salvação
 
Nada marca mais o traço bíblico no comunismo e no nazismo que sua vontade comum de salvar o mundo, incluindo nos meios de salvação a supressão de qualquer traço bíblico. Nas religiões “pagãs”, a ordem natural contém em si mesma a ideia divina e basta para fazê-la conceber. Ela é equivalente à ordem divina. Basta contemplá-la, conhecê-la, imitá-la. A filosofia antiga – e, tanto quanto eu saiba, a hindu e a chinesa – não prometia uma salvação universal, só aquela de uma pequena elite através de exercícios espirituais longos e difíceis, ao final dos quais a pessoa se tornava apta a viver feliz, em conformidade com a natureza, suas estruturas eternas. A ideia de salvação, enquanto supõe um “êxodo” em relação ao mundo, ou ainda a ideia de “mudar” o mundo em sua totalidade, lhe são inconcebíveis.
A salvação marxista-leninista é otimista. Ela é comparável à salvação anunciada pela profecia bíblica. Seu objetivo é superar a natureza como ela é, o homem como ele é; chegar a um tempo messiânico de paz e de justiça, em que o lobo conviva com o cordeiro, em que as disciplinas e as frustrações do casamento, da família, da propriedade, do direito, da penúria sejam abolidas. Finalmente, é a própria morte que é vencida: houve devaneios sobre esse tema no começo da revolução bolchevique, alimentados por um certo Fedorov, um quimérico da ressurreição científica dos corpos e da imortalidade. “O homem novo”, produto do socialismo, é um tipo de corpo glorioso tal como a profecia o entrevê. E sua salvação está nas mãos do homem. Ela é obtida por meios políticos. Non Domino sed nobis.
Apenas uma pequena minoria acredita hoje na existência dos mandamentos divinos. Se ela ainda acredita nisso – como acreditavam muitos judeus e cristãos que mais tarde se tornaram – deveria ver no primeiro piscar de olhos a contradição entre o progresso de que o homem assume a direção e a lição bíblica. O conceito de progresso, entendido no sentido de uma transformação em profundidade do ser humano, sob a ação da história ou de uma vontade político-histórica, não pode ser aceito, pois ele faz depender da ação política uma transformação que, segundo a Bíblia, só se deve a uma graça divina. Quando o que só é possível pela ação divina se toma o objetivo da ação humana, esta visa realizar o impossível. A ação violenta contra a natureza fracassa e logo se transforma em destruição da natureza e, com ela, do humano. Pelágio pensava que, numa certa medida, o homem poderia salvar a si próprio, pela força de vontade e de ascese. Santo Agostinho estimava que o pelagiano se oprimia sem com isso melhorar. Assim fazia o “herói positivo” da lenda bolchevique. De fato, ele piorava, pois o pelagiano pensava atingir a virtude, no sentido comum do termo, e o herói positivo uma virtude definida pela ideologia, isto é, um vício. Além disso, o velho pelagiano não visava, da mesma forma que a filosofia antiga, senão a um progresso individual. O novo é coletivizado. A transferência ao poder político da ideia pelagiana é mais destruidora, pois é o outro, enfim, são todos os outros, que serão corrigidos pela educação, se necessário pela reeducação, em um muro cercado por arame farpado.
A salvação nazista é pessimista. Ela requer superar as ilusões introduzidas na humanidade pelo veneno bíblico, e particularmente evangélico, fruto do “ressentimento”. Trata-se de retornar a uma ordem natural concebida na luz negra do tragicismo romântico: reencontrar a pureza original da terra e do sangue, corrompida pela sociedade mercantil e tecnicista e a mistura bastarda das raças. O apelo do nazismo se dirige aos heróis que aceitam morrer, àqueles que renunciaram à ilusão da verdade e da justiça e que estão prontos para seguir até o fim a vontade da raça, do Volk, encarnada no líder. O super-homem é um cavaleiro impassível, leal, vencedor ou vencido, mas sempre nobre e belo. Nós já vimos suficientemente que o ideal desembocou num regimento de SS descerebrados, em uma hierarquia de indolentes coroada por um demente, em uma guerra maluca de aniquilamento.
As duas doutrinas opostas compartilham ainda assim a ideia de uma salvação coletiva advinda da história – ideia bíblica –, se opondo ao ahistoricismo dos filósofos antigos, hindus e chineses. Nesse esquema, as duas doutrinas juntaram uma coleção de noções tiradas das ciências naturais, das ciências históricas, transformando o imenso saber acumulado pelo século XIX em um automatismo mental de uma pobreza sobrenatural. De fato, não é algo, em conformidade com a natureza da inteligência humana, que esses dois sistemas insanos possam se apresentar como sendo seu produto. Não se pode explicar que tantos espíritos normal e às vezes superiormente constituídos – professores, cientistas, pensadores capazes e eminentes – tenham sofrido uma paralisia e um desvio similares do senso comum. As explicações pela psiquiatria são tão metafóricas quanto a imagem empregada a propósito do nazismo, aquela do flautista de Hamelin. Mas, ao evocar essa lenda, estamos bem próximos de citar aquele que está por trás do flautista, aquele que, segundo as Escrituras, é o “pai da mentira”, “homicida e mentiroso desde o começo”.
 
 
'Biblismo” nazista
 
Afirma-se que Gobineau e Nietzsche, de quem às vezes os nazistas reclamavam, não eram anti-semitas. De fato, eles faziam profissão de fé de admiração  pelos judeus, porque estes eram uma “raça superior”, uma “aristocracia” (Gobineau); porque eles não se dissolviam na massa dos “últimos homens” engendrados pela democracia, porque o anti-semitismo era no máximo uma vulgaridade democrática (Nietzsche). Não é necessário aprofundarmo-nos muito para adivinhar, sob a aparência de admiração, a inveja, o ciúme. No nacionalismo alemão, a exaltação da nação e do povo assume ou imita a forma da eleição providencial do povo judeu. E uma eleição que não deve nada à providência, mas que é um produto da história e da natureza, e faz com que o povo alemão receba a herança pan-humana transmitida pela sucessão dos povos. O nacionalismo russo contentou-se em transpor aos eslavos e ao povo russo o que era prometido aos germanos e aos alemães.
Porque são a natureza e a terra que fazem a eleição, é coerente que o povo judeu seja a negação viva da natureza e da terra.
E o que sublinha o jovem Hegel; “O primeiro ato pelo qual Abraão se torna o pai de uma nação é uma cisão que dilacera os vínculos entre a vida comum e o amor, a totalidade dos vínculos das relações nas quais ele viveu até ali com os homens e a natureza.” “Abraão era um estranho na Terra [...]. O mundo inteiro, seu oposto absoluto, era mantido vivo por um Deus que lhe era estranho, um Deus de que nenhum elemento da natureza devia participar E somente graças ao Deus que ele entraria também em relação com o mundo [...]. Era impossível para ele não amar nada.” “Havia no Deus invejoso de Abraão e de sua descendência a exigência espantosa de que ele e sua nação fossem os únicos a ter um Deus.”
Sua relação com Deus suprime os judeus da humanidade. Eles não podem pertencer a nenhuma comunidade, pois o sagrado, por exemplo, o eleusiniano, dessa comunidade lhes é eternamente estranho, “eles não o vêem nem o sentem”. Eles não participam tampouco do heroísmo épico. “No Egito, grandes coisas foram realizadas para os judeus, mas eles mesmos não empreenderam ações heróicas; por eles.
O Egito sofreu todo tipo de calamidades e de misérias, e foi em meio a essas lamentações universais que eles, expulsos pelos infelizes egípcios, se retiraram, embora só sentindo a alegria maligna do covarde cujo inimigo se acha aniquilado sem que ele mesmo intervenha.” Seu último ato no Egito é também um “roubo”.
Hegel considera intolerável a pretensão dos judeus à eleição, a absoluta dependência que eles confessam em relação a um Deus que ele julga, por seu lado (pelo menos em sua juventude, porque depois ele evoluiu), estranho ao homem, inimigo de sua nobreza e de sua liberdade. O espírito de Abraão, porque ele continha a ideia desse Deus, faz do judeu “o único favorito”, convicção de que também é a raiz de seu “desprezo pelo mundo inteiro”. Escravos proclamados de seu Deus, os judeus não podem ter acesso à dignidade do homem livre: “Os gregos deviam ser iguais porque são todos livres; os judeus, porque são todos incapazes de independência.” E por isso que Hegel, abertamente adepto de Marcião, considera o Deus dos cristãos como fundamentalmente diferente do Deus judeu: “Jesus não combatia só uma parte do destino judeu, pois ele não tinha vínculo com nenhuma parte dele, opondo-se a ele em sua totalidade.”
Hegel traduz, no tom da grande filosofia, sentimentos, conscientes ou não, que existem na alma pagã quando ela é colocada na presença do mistério sobrenatural de Israel, que ela sente, de fato, como estranho, inimigo de toda natureza; que existem também nas almas batizadas. Esses obscuros afetos foram bem mais conceitualizados pelo pensamento alemão do que pelos outros. Harnack, que foi a grande autoridade teológica da Alemanha wilhelmiana e do protestantismo liberal europeu, fez, na Universidade de Berlim, diante de todos os estudantes, conferências reunidas sob o título A essência do cristianismo. Esta essência se desenvolve em quatro grandes momentos históricos: o momento judeu, o momento grego, o momento latino e, enfim, o momento alemão, que é a realização mais pura. Ele escreveu um livro a favor de Marcião, não hesitou em fazer um paralelo com Martin Lutero, o fundador do “cristianismo alemão”. Os russos, por seu lado, produziriam uma abundante literatura sobre o cristianismo russo, o Cristo russo, até mesmo a Rússia-Cristo. Léon Bloy e Péguy reclamam para a França um privilégio de preferência da parte de Deus. No entanto, neste país, a temática antijudaica não foi orquestrada pelos grandes espíritos, só pelos medíocres.
O drama foi que ela se instalou nas almas ruins e dementes dos líderes nazistas. Eis Hitler, caricaturizando Hegel diante de Rauschning: “O judeu é uma criatura de um outro Deus. É preciso que ele tenha saído de uma outra origem humana. O ariano e o judeu, eu os oponho um ao outro e, se eu dou a um o nome de homem, sou obrigado a dar um nome diferente ao outro. Eles estão tão afastados um do outro quanto as espécies animais da espécie humana. Não que eu chame o judeu de animal. Ele está muito mais abaixo do animal do que nós, arianos. É um ser estranho à ordem natural, um ser fora da natureza.”
Rauschning afirma ainda a esse respeito: “Não pode haver dois povos eleitos. Nós somos o povo de Deus.” E pura retórica, pois Hitler era absolutamente ateu do Deus judeu e do Deus cristão. Mas mostra como o anti-semitismo delirante de Hitler se adapta bem à forma bíblica de uma perversa imitatio da história sagrada judaica. O povo ariano, eleito, a raça germânica escolhida purifica a terra alemã como Israel purificou a terra de Canaã. É a primeira etapa da história da salvação. A segunda é a eliminação do cristianismo judaizado, que leva ao cúmulo a covardia judaica e o abastardamento democrático. A terceira é o triunfo das almas magnânimas, que poderão a rigor referir-se a um cristianismo germanizado ou, melhor ainda, aos velhos deuses do panteão natural pré-cristão. Nietzsche e Wagner, depois de terem passado pela centrifugadora da ideologia nazista, poderiam ser propostos, mutilados, tornados selvagens, embrutecidos, como os padroeiros da nova cultura.
 
 
'Biblismo” comunista
 
Se o nazismo oferece uma farsa do Antigo Testamento, o comunismo oferece ao mesmo tempo a do Antigo e do Novo. A perversa imitatio do judaísmo e do cristianismo, que faz parte do seu “charme”, é um fato tão reconhecido que bastam algumas palavras para caracterizá-lo.
Esta ideologia propõe um mediador e um redentor. O “proletariado”, o “explorado”, aquele que não tem nada, vai abrir ao mundo a porta de sua libertação. Ele é para as outras classes o que Israel é entre as nações, o que o “resto de Israel” é para Israel. Ele é o servidor de Isaías que sofre e é o Cristo. Ele é o fruto da história naturalizada, como o outro é a história sagrada. O comunismo é, sob diversos aspectos, sedutor tanto para o judeu como para o cristão que crê reconhecer a boa nova anunciada aos pobres e aos fracos. Ele é um universalismo, porque nele não há mais nem judeu nem grego, nem escravo nem homem livre, nem homem nem mulher, tal como prometeu São Paulo. Ele abole as barreiras nacionais, o que equivale à salvação prometida às “nações”. Ele contribui para a paz e a justiça do reino messiânico. Ele supera o regime do interesse, termina com “as águas glaciais do cálculo egoísta”. O amor puro de Fenelon e o desinteresse kantiano vão desabrochar nesse clima novo.
O comunismo prometia aos judeus a supressão da carga dos mandamentos, do ódio da Torá, da segregação das nações. Ele lhes tirava o peso de ser judeu. Suprimia também, de fato, as causas permanentes da opressão. Era uma alternativa à vida judaica que não era uma passagem ao cristianismo e ao islamismo, igualmente desprezados, e que não os protegia, porque a marca judia subsistia depois da conversão, como a história havia demonstrado. O comunismo era então uma entrada em um mundo novo, sem no entanto haver lugar para pagar uma traição ou uma apostasia formais, porque o objetivo religioso da Torá, a paz e a justiça, era supostamente garantido e porque a comunidade poderia continuar existindo idealmente, de forma que o nome de judeu pudesse ser usado sem pudor, não implicando responsabilidade e obrigações particulares, mas simplesmente como a marca de uma origem gloriosa, pois, pela opressão, ele estava aparentado com o “proletariado”. Enfim, a passagem ao comunismo – estamos tentados a dizer: o Êxodo – poderia parecer a realização da emancipação e da secularização, cujo élan era, há um século, irresistível.
Os cristãos, por seu lado, eram diretamente intimados a renegar a sua fé em Deus. Mas ela estava, como uma fruta madura, a ponto de cair. Diante das vagas de assalto que se sucediam desde o começo do lluminismo, a fé tinha cada vez mais dificuldade em conservar um status defensável em termos racionais. Nenhum outro grande espírito, desde Leibniz, se apoiava na autoridade dos dogmas, nem buscava a verdade aprofundando-se neles. Se grandes autores ainda confessavam a fé cristã, ou, como Kant e Hegel, lhe davam uma interpretação racional no marco de seu sistema, ou, como Rousseau, Kierkegaard e Dostoievski, admitiam a sua completa irracionalidade. Ou ainda pensavam deduzi-la das necessidades da moral, da ação prática, das obras. Mas ela era desalojada desse último refúgio pela ideia comunista, que tinha bons argumentos para acusar o cristianismo de ser o ópio do povo, de ser uma fuga ilusória, um consolo impotente diante de um estado de injustiça de que a fé cristã, por sua simples existência, era cúmplice. Uma importante parte do pensamento cristão, durante todo um século, de Lamennais a Tolstoi, e para além deles, era muito mais tentada a se fundir com o humanitário do que a apresentação deste como mais verdadeiramente cristão e animado por um entusiasmo e um fervor que tinham desaparecido da religião tradicional. Tornar-se comunista dá o sentimento de realizar, de forma enfim realista, o mandamento de amor ao próximo, enquanto a razão era garantida porque agora ela era restabelecida na base certa da ciência.
 
 
Heresias
 
A religião cristã é instável desde o seu nascimento. Ela abriga um conjunto de dificuldades, uma massa de motivos de dúvida, e tem necessidade de um esforço constante para manter seu equilíbrio. Mas raramente as crises que aparecem sucessivamente ao sabor das circunstâncias históricas obedecem a esquemas regulares já conhecidos. Há, no comum dos cristãos, corredores de avalanche que foram seguidos desde os primeiros séculos da nossa era e que sempre permanecerão ali. As grandes heresias inaugurais são retomadas com outras roupagens por correntes que se julgam novas e por pessoas inconscientes de seguirem tendências antigas. Elas não sabem que estão trilhando os caminhos dos heréticos de que eles ignoram o nome e, mais ainda, o parentesco doutrinário que as liga a eles.
No caso que analisamos, os caminhos heréticos estão entre os mais antigos do cristianismo: o gnosticismo, o marcionismo e o milenarismo.
O gnosticismo, na verdade, não é especificamente cristão. Ele é parasita tanto do judaísmo quanto do islamismo. Ele ocupa um domínio tão vasto que não posso abordá-lo aqui de outra forma senão por alusão. O marxismo-leninismo é, antes de tudo, eu já o afirmei, uma visão central do mundo natural e histórico, polarizado entre um bem e um mal, que discernem e separam os iniciados no verdadeiro aber. São eles que fazem penetrar no espírito dos homens o conhecimento salvador e fazem o mundo se mover na direção do bem definitivo. Essa estrutura-mãe está presente na maior parte dos gnosticismos, principalmente naqueles que, no tempo de Corinto, horrorizavam São João ou, nos tempos de Valentim, o Santo Irineu. Que esse núcleo gnóstico pretenda se apoiar, a partir de Marx, na ciência positiva, que perca sua luxúria mitológica, sua cor poética, e mesmo que caia na repetição prosaica de Lenin, isso não significa que ele tenha desaparecido. É verdade que muitos “cristãos progressistas” desejavam render-lhe homenagem por sua atitude religiosa primitiva e tinham dificuldade em compreender por que o comunismo se considerava ateu de forma militante, enquanto que eles aprovavam a ação prática, o “método de análise”, como eles diziam, isto é, a teoria do conjunto. Outros terminaram aceitando este ateísmo por um tipo de “salto da fé” ao contrário, e como um sacrifício supremo que eles faziam à lógica de sua persuasão.
O marcionismo, que é uma espécie do gênero do gnosticismo, pertence ao mundo cristão. Ele é um produto histórico precoce (do começo do século II) da separação contenciosa da Igreja com a Sinagoga. Marcião estimava que o Deus de Abraão, o Deus criador e justiceiro, não era o mesmo que o Deus do amor salvador de que Jesus era a emanação. Ele tinha então arrancado do corpo escriturário o Antigo Testamento e a parte do Novo que lhe estava diretamente vinculada. A revelação cristã se dissocia então da revelação mosaica, de que Marcião nega que ela tenha etapas históricas que levaram à chegada do Messias. O messias de Marcião não encontra as suas provas, a sua genealogia na profecia bíblica. Sua legitimidade está condicionada ao valor da persuasão da “mensagem” tirada apenas do Evangelho (aliás, depurado) e dos adendos da mitologia gnóstica que o completam e guiam a sua interpretação. Esse Cristo traz uma mensagem anticósmica e antinomista: uma moral diferente, sublime, heróica, paradoxal. Ela tem a vocação de substituir a moral comum que os mandamentos bíblicos tinham ratificado. O inferno também, segundo Marcião, albergava os justos do Antigo Testamento, servidores do Deus criador, enquanto que o Deus salvador recebia em seu paraíso os sodomitas e os egípcios que tinham se recusado a aderir à Lei antiga. Os judeus, à luz desta heresia, representavam adequadamente a figura do mundo extinto e da ética ultrapassada, obra do mau Deus.
Gnosticismo e marcionismo, sempre associados, jamais deixaram de trabalhar a imaginação e de subverter o pensamento cristão. Ainda que condenados a seu nascimento como a pior das heresias, subsistiram como uma tentação permanente, saltando de um século ao outro e nunca tanto quanto no nosso. Eles foram o ponto fraco do ensino, uma fissura no terreno da fé, que permitiram a tantos cristãos lançarem-se no gnosticismo político do comunismo e no marcionismo frenético do nazismo.
Como estavam sempre intimamente ligados, sua associação provocou um novo ponto de contato entre o nazismo e o comunismo.
No gnosticismo comunista, o esquema historicista suplanta abertamente o sentido bíblico da história, e tanto o Deus criador como o Deus salvador são recusados: o primeiro sendo substituído pela história natural da humanidade, e O segundo pela ação voluntária do Partido. O assalto contra a Igreja cristã foi então imediato e fez em poucos anos mais mártires do que os que ela tivera desde o seu nascimento. Mas todos os deuses e todas as religiões eram igualmente inimigos, o que fez com que a Sinagoga fosse igualmente atacada, assim como a própria ideia de comunidade. O anti-semitismo puro e simples sucedeu, desde o fim dos anos 30, ao antijudaísmo inicial. Depois de 1945, foi proibido distinguir os judeus entre as “vítimas do fascismo”, mencionar a Shoah, tolerar o sionismo a partir do momento em que ele se afirmou como um movimento nacional independente. O comunismo é ciumento e não aceita “outros deuses diante de si”.
O nazismo se concentrou na versão marcionita do gnosticismo. Ele aceitou formal e provisoriamente um outro Deus diferente do de Abraão. Ele perseguiu os cristãos fiéis. Ele tratou de se enriquecer com elementos tomados do esoterismo e do ocultismo do final do século. Ele quis despertar o neopaganismo dos velhos deuses alemães, fazendo assim injúrias por essa outra contrafação ao que a mitologia alemã tinha de honroso, de belo e de comum com aquela de Homero. Nos dois sistemas de salvação, comunista e nazista, é difícil distinguir, no ódio que confunde judeus e cristãos, se os primeiros são detestados por estarem na origem dos segundos ou os segundos por serem os filhos dos primeiros. Qualquer que seja a ordem seguida, a perseguição atinge um depois do outro.
A terceira heresia é o milenarismo. Em seus efeitos históricos, ele conflui com o messianismo. Ele é uma expectativa de mudança radical no interior da história. O messianismo bíblico espera o advento de uma figura real capaz de restaurar uma aliança de paz em Israel e nas Nações. O milenarismo primitivo cristão acreditava que Cristo retornaria à Terra para reinar gloriosamente mil anos com os justos ressuscitados. Essas doutrinas sofreram no século XX derivações seculares. Foi assim que a ideia messiânica contaminou as formas mais extremas do nacionalismo: o povo alemão, o povo russo, tinham esperanças da redenção final da história humana. O milenarismo é uma impaciência de fazer advir o Reino de Deus e uma vontade de tomar em suas mãos esse acontecimento. Ele pode ser compreendido como um tipo de pelagianismo paroxístico, coletivizado e politizado. A história moderna é abalada por essas crises heróicas: os taboritas da Boêmia, os anabatistas de Münster, a ala extremista da revolução inglesa, Sabbatai Zvi. Elas são mais sangrentas quando, livres da ideia de Deus, visam à instauração de um regnum hominis. É raro que, valendo-se dessas crises, a separação entre judeus e cristãos não seja envenenada por aqueles mesmos que atacavam suas respectivas religiões, das quais não subsiste mais nenhum sinal senão o ódio recíproco.
 
(ALAIN BESANÇON - A INFELICIDADE DO SÉCULO, SOBRE O COMUNISMO,
 O NAZISMO
 E A UNICIDADE DA SHOAH)
A política é o ópio do povo

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