Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]



 
O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais
 na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.
Fernando Pessoa
 
Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, 
mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez.
William Shakespeare
 

Quem não sabe o que é a vida, como poderá saber o que é a morte?
Confúcio
 
A morte não é nada para nós, pois, 
quando existimos, não existe a morte, 
e quando existe a morte, não existimos mais.
Epicuro
 

Quem não tem medo da vida também não tem medo da morte.
Arthur Schopenhauer
 
Enquanto tiveres um desejo, terás uma razão para viver. A satisfação é a morte.
George Bernard Shaw
 
Aprende a viver bem, e bem saberás morrer.
Confúcio 
 
 
Schopenhauer enfrentou a morte como tudo na vida: com extrema lucidez. Sem esquivar-se, sem entregar-se a fáceis crenças espirituais, continuou racional até o fim. E pela razão, disse ele, que descobrimos a morte: vemos os outros morrerem e, por analogia, concluímos que também morreremos. E é pela razão que chegamos à conclusão óbvia de que a morte é o fim da consciência e a destruição irreversível do eu.
Disse também que há duas formas de encarar a morte: pela razão ou pela ilusão e a religião, com sua esperança de que existe consciência e vida após a morte. Assim, a existência da morte e o medo dela são o pai do pensamento e a mãe da filosofia e da religião.
Por toda a vida, Schopenhauer lidou com a onipresença da morte. Em seu primeiro livro, escrito aos vinte e poucos anos, afirmou: "A vida é apenas a morte sendo evitada e adiada. (...) Cada vez que respiramos, afastamos a morte que nos ameaça e assim lutamos com ela a cada segundo".
Como ele descreveu a morte? Sua obra traz muitas metáforas sobre o tema: somos ovelhas pastando e a morte é o açougueiro que escolhe com cuidado uma ovelha e depois outra; ou somos como crianças num teatro ansiosas para a peça começar e, felizmente, sem saber o que vai nos acontecer; ou, ainda, somos marinheiros evitando os rochedos e remoinhos do mar, seguindo para o grande e catastrófico naufrágio final.
As descrições que faz do ciclo da vida mostram sempre uma viagem inexorável e desesperada.
Como o nosso começo é diferente do fim! No começo, temos o delírio do desejo e o êxtase do prazer sensual; no fim, a destruição de todos os órgãos e o cheiro do cadáver em decomposição. O caminho, do nascimento à morte, é sempre um declive no bem-estar e na alegria. Infância sonhadora, juventude alegre, vida adulta difícil, velhice frágil e em geral lastimável, a tortura da última doença e, finalmente, a agonia da morte. Não parece que a vida é um tropeço cujas consequências aos poucos ficam mais óbvias?
Será que Schopenhauer temia a morte? Em seus últimos anos, demonstrou muita calma em relação a ela. De onde vinha essa calma? Se o medo da morte é onipresente, se a morte nos ameaça a vida inteira, se é tão temida que muitas religiões surgiram para diminuir esse medo, então como o isolado e leigo filósofo conteve tal medo? Seus métodos se baseavam em analisar as origens da angústia da morte. Tememos a morte porque ela é estranha e desconhecida? Então, diz ele, estamos enganados, pois a morte é muito mais conhecida do que pensamos. Não só sentimos o que ela é todos os dias, no sono ou em estados de inconsciência, mas todos nós passamos por um estado de não-ser antes de sermos concebidos. Tememos a morte porque ela é má? (Pense nos horríveis desenhos e ilustrações que costumam representar a morte.) Nesse ponto, também, ele insiste que estamos enganados: "É absurdo considerar a não existência como ruim: cada mal, como cada bem pressupõe existência e consciência. (...) e claro que não é ruim perder o que não se pode ter". O filósofo pede para lembrarmos que a vida é sofrimento, um mal em si. Então, será ruim perder uma coisa ruim? A morte, diz ele, deveria ser considerada uma benção, um alívio da inexorável angústia da existência bípede. "Deveríamos saudar a morte como um fato feliz e desejado, em vez de, como costuma ser, com medo e tremor. Deveríamos insultar a vida por interromper nossa agradável não existência",
e ele faz sua polêmica afirmação: "Se batermos nas lápides e perguntarmos aos mortos se querem voltar à vida, balançarão a cabeça dizendo que não". E cita frases parecidas de Platão, Sócrates e Voltaire.
Além de seus argumentos racionais, Schopenhauer tem mais um, que beira o misticismo. Ele namora (mas não se casa) com a ideia de uma espécie de imortalidade. Acredita que nossa natureza interior é indestrutível porque somos apenas uma manifestação da força da vida, a vontade, a coisa em si que continua existindo eternamente. Assim, a morte não é o fim, pois, quando nossa insignificante vida acaba, nós nos reintegramos com a força vital primária e atemporal.
A ideia de reintegrar-se a essa força vital após a morte dava um alívio a Schopenhauer e a muitos leitores dele (como, por exemplo, Thomas Mann e seu protagonista Thomas Buddenbrooks), mas, como não implica um eu contínuo, muitos acham que é apenas um pequeno consolo. (O consolo que Thomas Buddenbrooks sente também é passageiro e acaba poucas páginas depois.) Schopenhauer criou um diálogo entre dois filósofos gregos em que a ideia da imortalidade não é muito confortadora. Na conversa, Filaleto tenta convencer Trasímaco (um grande céptico) que a morte não assusta, pois a essência humana é indestrutível. Os argumentos de ambos são tão lúcidos e firmes que o leitor fica sem saber o que pensa o autor. O céptico Trasímaco não se convence e dá a palavra final.
FILALETO: — Quando você diz eu, eu, eu quero existir, não é só você quem diz. Tudo diz, tudo o que tiver o menor traço de consciência. É o grito não do indivíduo, mas da própria existência. (...) ele apenas admite o que você e sua vida são realmente, ou seja, a vontade universal de viver. A questão vai lhe parecer pueril e muito ridícula.
TRASÍMACO: — Você é pueril e ridículo como todos os filósofos, e se um homem da minha idade perde quinze minutos de conversa com um tolo desses, é apenas porque me diverte e passa o tempo. Tenho mais o que fazer, adeus.
Schopenhauer tinha outro método para afastar a angústia da morte: quanto mais realização pessoal houver, menor será a angústia da morte. Se alguns acham que sua ideia de unidade universal é fraca, esse outro argumento é, sem dúvida, forte. Médicos que tratam de pacientes terminais já notaram que a angústia é maior nos que acham que tiveram uma vida mal realizada. A sensação de completude, de ter "consumado a vida", como diz Nietzsche, reduz a angústia da morte.
E o que diz Schopenhauer? Será que ele viveu bem e bastante? Cumpriu sua missão? Ele tinha certeza que sim. Veja o final de suas notas autobiográficas. 
Sempre quis morrer rápido, pois quem viveu só a vida inteira saberá avaliar melhor esse tema solitário. Em vez de sumir em meio às tolices e bufonerias preparadas para os lastimáveis bípedes humanos, vou terminar feliz, consciente de estar voltando para onde vim (...) e de ter cumprido minha missão.
O mesmo sentimento (orgulho de ter percorrido seu talentoso caminho) aparece em versos curtos que fecham seu último livro.
Estou cansado, no final da estrada, 
A fronte exausta mal consegue suportar os louros.
Mesmo assim, vejo com alegria o que fiz, 
Sem me intimidar com a opinião dos outros.
Quando foi lançado seu último livro, Parerga e Paralipomena, ele constatou: — Estou muito satisfeito de ver o nascimento de meu último filho. É como se tirassem de meus ombros um peso que carrego desde os vinte e quatro anos. Ninguém imagina o que seja.
Na manhã do dia vinte e um de setembro de 1860, a criada preparou o café da manhã de Schopenhauer, limpou a cozinha, abriu as janelas da casa e saiu. O filósofo já havia tomado seu banho frio e estava lendo no sofá na sala, que era um cômodo grande e arejado, mobiliado com simplicidade. Ao lado do sofá, no tapete preto de pele de urso estava deitado Atman, seu querido poodle. Na parede do sofá havia um grande retrato a óleo de Goethe, vários desenhos mostrando cães, Shakespeare e o imperador romano Cláudio. Em outras partes da sala havia daguerreótipos de Schopenhauer; na escrivaninha, um busto de Kant e, num canto da mesa, um busto de Christoph Wieland, filósofo que incentivou o jovem Schopenhauer a estudar filosofia. Num canto, ficava a estimada estátua dourada de Buda.
Pouco depois de a criada sair, o médico que lhe fazia visitas periódicas entrou na sala e encontrou seu cliente caído no canto do sofá. Um "ataque do pulmão" (embolia pulmonar) o levara desse mundo, sem dor. Seu rosto não estava alterado nem mostrava a agonia da morte.
O funeral num dia chuvoso foi mais desagradável do que o normal, devido ao cheiro de carne putrefata no pequeno e fechado necrotério. Dez anos antes, Schopenhauer tinha dado instruções claras para ser enterrado pelo menos cinco dias após a morte, até a decomposição começar. Talvez esse tenha sido um último gesto de misantropia, ou talvez de medo de sofrer uma catalepsia, interrupção temporária das funções vitais e ser enterrado vivo. O necrotério ficou tão cheio e o cheiro tão forte, que várias pessoas tiveram de sair durante o longo e empolado obituário feito por seu testamenteiro Wilhelm Gwinner, que começou dizendo:
Este homem que viveu entre nós, mas se manteve um estranho, era possuidor de raros sentimentos. Ninguém aqui presente está ligado a ele por laços de sangue. Morreu isolado como viveu.
Sobre o túmulo de Schopenhauer foi colocada uma pesada lápide de granito belga. O testamento pedia que dela constasse apenas seu nome, mais nada — nem data, nem ano ou palavra.
O homem enterrado naquele modesto túmulo queria que sua obra falasse por ele. (1)

(Irvin D. Yalom - A Cura de Schopenhauer)

(1) "Para os gregos, o que caracteriza a morte é a perda da identidade. Os mortos são, antes de mais nada, “sem-nome” ou mesmo “sem-rosto”. Todos que deixam a vida se tornam “anônimos”, perdem a individualidade, deixam de ser pessoas. Ulisses, durante a sua viagem (direi mais adiante em quais circunstâncias), ao ser obrigado a descer aos infernos, onde estão aqueles que não têm mais vida, é tomado por surda e terrível angústia. Contempla horrorizado todo aquele povo no Hades. O que mais o preocupa é a indistinta massa de sombras que nada mais identifica. Aterroriza-o o barulho que fazem: um barulho confuso, um burburinho, uma espécie de rumor surdo dentro do qual não se pode reconhecer voz alguma e menos ainda qualquer palavra que faça sentido. É essa despersonalização que caracteriza a morte aos olhos dos gregos, e a vida boa deve ser, tanto quanto possível e pelo tempo que se puder, o contrário absoluto desse tom acinzentado infernal." ((Luc Ferry - "A sabedoria dos mitos gregos") Somos convocados, portanto, para a vida e a vive-la com ENTUSIASMO: "O homem começa a morrer na idade em que perde o entusiasmo" (Honoré de Balzac).

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:21


Comentar:

Comentar via SAPO Blogs

Notificações de respostas serão enviadas por e-mail.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D

subscrever feeds