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A ambivalência da palavra

por Thynus, em 28.01.15
Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: 
a flecha lançada, a palavra pronunciada 
e a oportunidade perdida.
 
A palavra foi dada ao homem para explicar os seus pensamentos, 
e assim como os pensamentos são os retratos das coisas, 
da mesma forma as nossas palavras são retratos dos nossos pensamentos.
Molière
 
A maioria de nós prefere olhar para fora 
do que para dentro de si mesmo.
Albert Einstein 
 
O fruto de cada palavra retorna a quem a pronunciou.
Abu Shakur 
 
A química da gramática é feita de beleza e lodo, que misturada à prática, faz da porção um todo
 
A frase que abre o Evangelho segundo São João, "No princípio era o Verbo" (João 1:1), é completamente verdadeira no que diz respeito ao começo do mundo estritamente humano. Não há dúvida de que a forma de vida estritamente humana surgiu quando foi possível ao homem falar. A linguagem é o que nos torna humanos. Infelizmente, é também o que nos torna humanos demais. De um lado, é a mãe da ciência e da filosofia, e de outro produz toda sorte de superstição, preconceito e loucura. Ajuda-nos e nos destrói; torna possível a civilização e também produz aqueles assustadores conflitos que degradam a civilização.
O comportamento humano difere do animal exatamente porque seres humanos podem falar, e animais não. Mesmo os animais inteligentes, por não poderem falar, não podem fazer coisas que nos parecem absolutamente rudimentares, que crianças bem pequenas poderiam fazer assim que aprendessem a falar.
Houve uma interessante experiência realizada pelo grande psicólogo gestaltista alemão Wolfgang Kõhler, que trabalhou por muitos anos com chimpanzés. Kõhler constatou que seus chimpanzés podiam usar pauzinhos como instrumentos para puxar bananas penduradas fora do seu alcance. Eram inteligentes o bastante para ver que esse instrumento — o pauzinho — podia ser usado para encompridar seu braço e alcançar a banana. Mas Kõhler constatou que os animais só usavam o pauzinho para apanhar a banana se os dois, banana e pauzinho, estivessem à vista ao mesmo tempo. Se a banana estivesse • diante deles e o pauzinho atrás, não conseguiam usar o pauzinho; não conseguiam manter a banana em mente o tempo suficiente para olhar em torno e apanhar o pauzinho, e então usá-lo.
O motivo é bastante claro. Temos palavras para banana e pauzinho, que nos permitem pensar sobre esses objetos quando não estão à vista. Até uma criança pequena, conhecendo as palavras "banana" e "pauzinho", tem uma noção conceituai de sua relação, e conseqüentemente pode pensar em "pauzinho" em conjunção com "banana", mesmo quando o pauzinho estiver atrás dela; e poderá lembrar-se disso até apanhar o pauzinho e pegar as «bananas.
O fato de os animais não poderem reter seu conhecimento das coisas por um período longo, e conseqüentemente perderem interesse nelas, explica seu comportamento (para nós) absurdo em muitas situações. Eles interrompem constantemente uma linha de ação para fazer alguma outra coisa, e podem voltar à primeira atividade ou esquecer a coisa toda. Em contrapartida, graças à linguagem, os seres humanos são capazes de perseguir um objetivo, ou de reagir em relação a um princípio ou um ideal por longos períodos de tempo. Em certo sentido, podemos dizer que a linguagem é um recurso que permite aos seres humanos continuarem a fazer a sangue frio o bem e o mal que os animais só conseguem fazer a sangue quente, sob influência de alguma paixão.
Essa continuidade é ilustrada não apenas na vida de seres humanos individuais; é ilustrada também de maneira muito convincente na vida das sociedades inteiras, onde a linguagem pode ser descrita como um recurso para conectar o presente com o passado e o futuro. Se a concepção lamarquiana da herança das características adquiridas é totalmente inaceitável, e biologicamente irreal, é verdadeira no nível social, psicológico e lingüístico: a linguagem fornece-nos meios para tirarmos vantagens dos frutos da experiência passada. Existe uma coisa chamada herança social. As aquisições de nossos ancestrais são-nos transmitidas pela linguagem escrita e falada, e por isso podemos herdar características adquiridas não pelo plasma do embrião mas pela tradição.
Infelizmente, a tradição pode transmitir tanto as coisas boas quanto as más. Pode transmitir preconceitos e superstições, assim como ciência e códigos éticos decentes. Mais uma vez vemos a estranha ambivalência desse dom extraordinário. É como os contos de fadas, em que há uma fada boa e outra má, mas nesse caso o dom da fada boa, que é esse surpreendente dom da linguagem, também é o dom da fada má. É uma das ironias do nosso destino que a coisa maravilhosa que Helen Keller descreve tão eloqüentemente como doadora de vida e criadora do pensamento também seja uma das coisas mais perigosas e destrutivas que temos.
No começo da vida humana, como uma aventura estritamente humana, havia o Verbo. Mas o que acontece quando não há linguagem? O que acontece em crianças bem pequenas e animais?
Qual a vida do que pode ser chamada experiência imediata? Vale a pena fazer aqui uma pequena digressão para analisar algumas das idéias da filosofia hindu. Os filósofos hindus sempre afirmaram que a coisa que cria nosso mundo especificamente humano é o que chamam nama-rupa (nome e forma). Nome pode ser definido como forma subjetivizada, e forma é a projeção do nome no mundo exterior; e as duas coisas criam para os seres humanos esse mundo de objetos separados que existem no tempo. Contudo, o indivíduo iluminado vai além da gramática. Ele tem o que podemos chamar "uma gramática que transcende a experiência" que lhe permite viver na consciência da continuidade divina do mundo, e ver um continuamente manifesto em muitos. A pessoa iluminada existe, por assim dizer, depois do surgimento da linguagem; vive na linguagem e depois passa para além dela. Mas que espécie de mundo existe antes que a linguagem seja introduzida? Que tipo de mundo é o mundo da experiência imediata não-verbalizada?
William James falou no mundo da experiência imediata, numa frase muito característica, como "uma confusão cheia de cores e zumbidos"' dando idéia de que o animal e a criancinha vivem num caos de sensações. Mas investigações recentes na etologia dos animais e nas percepções de crianças pequenas revelaram que a experiência imediata realmente não é tanto zumbido e cor quanto James supunha. O que emerge mais surpreendentemente das experiências científicas recentes é que a percepção não é uma recepção passiva de material do mundo exterior; é um processo ativo de seleção e imposição de padrões. O sistema nervoso dos animais e dos seres humanos é projetado de tal maneira que automaticamente peneira, daquela confusão de cores e zumbidos, aqueles elementos biologicamente úteis. Quanto aos animais, ele seleciona dessa confusão precisamente os elementos que os ajudam a sobreviver; o animal vê somente duas classes de objetos — os comestíveis e os perigosos.
Uma das coisas que têm sido reveladas no estudo do universo animal é o quanto muitos deles são limitados e estranhos. O grande biólogo alemão barão J. J. con Uexküll escreveu muito sobre o que chamava o Umwelt dos animais, os diferentes universos em que vivem criaturas de diferentes classes e espécies. O assunto é fascinante. Faz com que percebamos como é arbitrária nossa idéia da realidade, embora nossa idéia da realidade seja incomparavelmente maior do que a do mais alto dos animais inferiores. Deus sabe que tipo de mundo habitaria uma criatura com sentidos mais eficientes e mente melhor do que a nossa!
Como exemplo do quanto são estranhos alguns desses universos animais, quero citar o caso da rã, que me foi comunicado recentemente por Patrick D. Wall, do Instituto de Tecnologia de Massachussets. Aparentemente,  as novas pesquisas com rãs indicam que, embora elas tenham olhos mecanicamente muito bons, sua visão é extremamente limitada. Obviamente a confusão colorida e cheia de zumbidos chega aos seus olhos, mas o que seu sistema nervoso seleciona, das inumeráveis sensações que chegam, é limitado àquilo que se move. Podemos imaginar uma rã sentada sobre uma folha de lírio aquático, olhando a água. Há um peixinho nadando, e enquanto ele nada a rã o enxerga; o peixinho se imobiliza por um momento, e imediatamente some do universo da rã; quando recomeça a nadar, voltar a entrar no mundo da rã, e assim prossegue. O universo da rã deve, pois, ser absolutamente estranho, uma contínua emergência e desaparecimento de objetos.
Qual seria a filosofia de uma rã — a metafísica dos aparecimentos e desaparecimentos?
Talvez haja um Platão das rãs, que invente os mais extraordinários sistemas para explicar essa fantástica realidade.
Universos muito mais limitados são os de animais de níveis de organização ainda mais baixos que a rã. Mesmo animais como cães e macacos têm universos bem diferentes do nosso.
Simplesmente não percebem certas coisas que para nós são muito importantes. O cão não percebe o pôr-do-sol ou as flores numa árvore, que nos parecem muito belos. Apenas cheira o tronco da árvore, e encontra nela algo muito satisfatório.
Quando chegamos aos seres humanos, vemos que o sistema nervoso faz uma seleção dessa confusão de zumbidos e cores, da mesma maneira que o sistema nervoso animal, mas não escolhe tão rigorosamente. Pela consciência humana passa muito mais do que jamais passará pela do animal,
mesmo os animais superiores. Na mente humana penetra uma quantidade tão imensa de realidade, há tamanha profusão de material, que nisso James tem razão: apesar da seleção neurológica e da abstração, a profusão é uma confusão. E é aqui que entra a linguagem.
Processamos um nível mais alto de abstração por meio da linguagem, e selecionamos dessa maneira consciente, semiconsciente ou pré-consciente aqueles materiais que nos são biologicamente úteis; e, como não estamos inteiramente à mercê de nossas necessidades biológicas, também escolhemos aqueles materiais que são importantes socialmente, ou do ponto de vista estético, ou seja o que for.
Os materiais que obtemos pela abstração são imediatamente traduzidos por símbolos que podemos compreender. Evidentemente, temos essa tendência inata de transformar todas as nossas experiências em símbolos mais ou menos equivalentes, bem como uma necessidade inata de ordem e significação.
Os símbolos podem ser do tipo nãoverbal, mas a linguagem é, de longe, o sistema simbólico mais organizado. E é pela linguagem que impomos uma ordem simbólica e um significado simbólico à profusão que, como foi apreendida diretamente, nos parece terrivelmente confusa.
Esse processo de abstração e seleção nos é extremamente útil do ponto de vista biológico.
Na verdade está bastante claro que não poderíamos viver sem ele. É-nos útil, como cientistas e tecnólogos, no nosso esforço de controlarmos o ambiente. Também nos é útil como seres sociais.
Mas aqui chegamos mais uma vez à ambivalência do processo lingüístico e simbólico. Se impomos ordem e significado à nossa experiência imediata, é-nos igualmente fácil impor uma ordem e um significado mau ou bom. Saboreamos o processo de simbolização; é como se fosse uma espécie de prazer, a arte pela arte. Mas muitas vezes, no nosso entusiasmo de impor ordem e significado à experiência imediata, através de símbolos, fazemos uma enorme confusão de experiências e criamos um padrão simbólico que nos mete numa série interminável de problemas.

(Aldous Huxley - A Situação Humana)

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publicado às 19:05


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