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INCERTIDÃO DE ÓBITO

por Thynus, em 31.07.17
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Quando forem de pedra 
os teus olhos: 
uns te darão por falecido. 
 
Quando forem de fogo 
os insetos que te devoram: 
talvez então te digam defunto. 
 
Mas nem pedra nem fogo 
te darão ausência: 
no teu ombro 
pousa o voo dos regressos. 
 
A vida 
é um prematuro sonho. 
 
Só morre 
quem nunca viveu.
 

(Mia Couto - Vagas e Lumes)

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publicado às 12:40

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 Quem não daria qualquer coisa para viver sem dor, feliz e em plenas condições físicas? Sobretudo a partir da maturidade, é difícil que uma peça ou outra do nosso corpo não dê defeito.
Felizmente, temos um remédio universal para a dor: o amor. O que antes era uma metáfora ou uma mensagem de curandeiros hoje começa a fazer sentido à luz de estudos científicos mais recentes.
Um deles, publicado na prestigiosa revista científica Plos One e realizado pela Escola de Medicina da Universidade de Stanford, descobriu, mediante avaliações de imagem, que o amor intenso ativa as mesmas áreas do cérebro que a dor física.
São regiões cerebrais primitivas relacionadas às variações de humor, à recompensa e à dor. De fato, os analgésicos usados para combater a dor atuam sobre essas mesmas regiões.
Diante dessas surpreendentes descobertas, cabe perguntar se algum dia os médicos chegarão a receitar “amor” como tratamento para muitas doenças que hoje são consideradas crônicas e incuráveis.
Enquanto isso, vamos viver com mais amor, restabelecer relações enfraquecidas, estagnadas ou à beira do abismo, reviver amizades e acender a faísca da vida a dois.
Talvez dessa forma possamos prevenir a dor e, ao mesmo tempo, fazer com que a vida se torne mais agradável.
 
(Allan Percy - Shakespeare para enamorados) 

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publicado às 00:57


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Poesias da alma e do coração  

 

EXISTEM DOIS TIPOS DE pessoas: aquelas que vivem a vida e aquelas que são meras espectadoras.

Muitas pessoas se queixam da vida que levam e falam o que realmente gostariam de fazer, mas, apesar disso, não movem um dedo para conseguir o que querem. Escolhem a opção mais cômoda: a de reclamar e se culpar antes de colocar a mão na massa.

Se você quiser mudar seu destino e começar a criá-lo, existem alguns passos que podem ajudar:

Decida quem você quer ser. Quando olhar para o futuro, não veja o que quer fazer, mas quem quer ser. Entregue-se a seus sonhos e suas paixões.

Seja honesto consigo mesmo e com os outros. A coerência pessoal é fundamental para a felicidade.

Escute, mas sem se deixar influenciar sistematicamente. Preste atenção nas críticas construtivas e nas opiniões das outras pessoas, mas não permita que os pensamentos limitadores dos outros o impeça.

Não se conforme com qualquer coisa. Esqueça o caminho fácil e procure o que vai lhe oferecer mais desafios e aprendizado.

Planeje seu destino. Decida o que quer fazer e depois planeje seus objetivos a curto e médio prazo. Estabeleça metas que possa alcançar, passo a passo, e que vão levá-lo ao seu destino.

Segundo Patrick Snow, autor de Creating Your Own Destiny (Criando seu próprio destino): “Só aqueles que veem o invisível podem conseguir o impossível. Acreditar em sua visão é a chave para criar seu próprio destino.”

 

(Allan Percy - Einstein para despistados) 

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publicado às 22:47

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POR MAIS QUE NÓS nos recusemos a aceitar, o passado é um episódio concluído e o futuro, um tempo incerto que ninguém pode garantir. É comum projetar as esperanças em fatos que, por não terem acontecido ainda, aparentemente podem ser modificados à vontade. Mas não é o que de fato acontece.
É claro que devemos lutar contra uma sociedade que só transmite mensagens para o futuro; que nos aconselha a pagar a prazo, fazer hipotecas, trabalhar muito agora para aproveitar depois e que, definitivamente, anula o momento presente.
Mas a realidade é que só podemos moldar o hoje.
No início do século XX, o escritor Henry James fez menção a essa frase: “Viva tudo que puder; não fazer isso é um erro. Não importa tanto o que você vai fazer, desde que tenha sua vida. Se não tiver isso, o que vai ter? O momento apropriado é qualquer um que a gente ainda tenha a sorte de ter. Viva!”
No mesmo sentido, o escritor e moralista francês Jean de La Bruyère se pronunciou com a célebre frase: “As crianças não têm passado nem futuro, por isso desfrutam do presente, coisa que raramente ocorre conosco.”
Pode ser que La Bruyère tenha atingido o ponto central desse assunto ao elogiar a valorização da vida por parte das crianças. Elas são as únicas que entendem que o presente é o único momento que podem controlar de acordo com sua vontade.

(Allan Percy - Einstein para despistados)

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publicado às 22:33


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O CONTO POPULAR AS QUATRO ESTAÇÕES narra a história de um homem que tinha quatro filhos e queria que eles aprendessem a não julgar as coisas tão depressa. Então ele enviou cada um, separadamente, para visitar uma pereira que ficava muito longe.

O primeiro filho foi no inverno, o segundo, na primavera, o terceiro, no verão e o filho mais jovem foi no outono.

Quando voltaram, o pai os chamou e pediu que, juntos, descrevessem o que tinham visto.

O primeiro filho contou que a árvore era horrível, dobrada e retorcida.

O segundo discordou e disse que ela estava coberta de brotos verdes e cheia de promessas.

Já o terceiro filho relatou que a árvore estava carregada de flores, tinha um aroma muito doce, uma aparência muito bonita e era a coisa mais linda que já vira.

O último dos filhos não concordou com os irmãos e falou que a pereira estava madura, com muitos frutos e cheia de vida.

Então o pai explicou aos filhos que todos estavam certos, pois eles só tinham visto uma das estações da vida da árvore.

Disse-lhes ainda que não devem julgar uma árvore – ou uma pessoa – conhecendo só uma de suas estações, e que a essência do que são – o prazer, o regozijo e o amor que o acompanham – só pode ser avaliada no fim, quando todas as estações já passaram.

 

(Allan Percy - Einstein para despistados)

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publicado às 22:51


Voz do povo, voz de Deus

por Thynus, em 26.07.17

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Políticos Surdos para esta "Voz do Povo"


 

O vox populi, vox Dei parece referir­-se à opinião pública, ao consenso da cidade, unânime ou em maioria decisiva num determinado julgamento. Vale a sentença ditada pela coletividade.

Creio tratar­-se de outra origem, mais diretamente ligada a um processo de consulta divina, sendo o povo o oráculo, a pítia da transmissão.

Hermes, o Mercúrio de Roma, possuía em Acaia, ao norte do Peloponeso, um templo onde se manifestava, respondendo às consultas dos devotos pela singular e sugestiva fórmula das vozes anônimas. Purificado o consulente, dizia em sussurro ao ouvido do ídolo o seu desejo secreto, formulando a súplica angustiada. Erguia­-se, tapando as orelhas com as mãos, e vinha até o átrio do templo, onde arredava os dedos, esperando ouvir as primeiras palavras dos transeuntes.

Essas palavras eram a resposta do oráculo, a decisão do deus. Vox populi, vox Dei, na sua expressiva legitimidade.

Teófilo Braga expõe a superstição em Portugal: “A voz humana tem poderes mágicos; um feiticeiro: – Para saber se uma pessoa era morta ou viva, dizia à janela: – Corte do Céu, ouvi­-me! Corte do Céu, falai­-me! Corte do Céu, respondei­-me! Das primeiras palavras que ouvia na rua acharia a resposta” (Sentenças das inquisições, ap. Boletim da Soc. de Geografia). Na Foz do Douro, costumam as mulheres andar às vozes para inferi­rem pelas palavras casuais que ouvem do estado das pessoas que estão ausentes. D. Francisco Manoel de Melo, nos Apólogos dia­logais (mais precisamente no Relógios falantes, 24 da edição brasi­leira de 1920), refere esta superstição: “e com o próprio engano com que elas traziam a outras cachopas do São João às quartas­-­feiras, e da Virgem do Monte às sextas, que vão mudas à romaria, espreitando o que diz a gente que passa; donde afirmam que lhes não falta a resposta dos seus embustes, se hão de casar com Fulano ou não; e se Fulano vem da Índia com bons ou maus propósitos; ou se se apalavrou lá em seu lugar com alguma mes­tiça filha de Bracmene”. As vozes também se escutam da janela e a pessoa que se submete a esta sorte prepara­-se com esta oração:

Meu São Zacarias,

meu santo bendito!

foste cego, surdo e mudo,

tiveste um filho

e o nome que lhe puseste João:

Declara­-me nas vozes do povo se eu...

Da Ilha de São Miguel, escreve Arruda Furtado (Materiais para o estudo dos povos açorianos, 42): “Quando qualquer pessoa quer saber notícias que lhe hão de vir de um amante, vai de noite num passeio até o adro da igreja em que está o Santo Cristo, rezando umas contas e com outra pessoa atrás para ir ouvindo melhor o que se diz pelo caminho e dentro das casas, e isto sem que nenhuma delas diga uma só palavra. Quando voltam, vêm combinando o que ouviram e dali concluem que novas hão de vir” (O povo português etc., II, Lisboa, 1885).

J. Leite de Vasconcelos (Tradições populares de Portugal, Porto, 1882) registrara identicamente. Quando se quer saber qualquer coisa, chega­-se à janela, à hora das trindades (outros dizem que a qualquer hora) e diz­-se: “Meu São Zacarias, meu santo bendito! foste cego, surdo e mudo, tiveste um filho e o nome que lhe puseste João: Declara­-me nas vozes do povo se eu...” (formula­-se aqui o que se deseja saber). Em seguida cor­rem­-se às ruas, sem parar, recolhendo­-se os ditos que se ouvem, e aplicando­-os ao fim, no que eles têm de aplicável. A fórmula diz­-se três vezes, e a cerimônia dura três noites seguidas (Minho). No Porto, antes de se correrem às ruas, vai­-se rezar à Senhora das Verdades (ao pé da Sé), e enquanto anda pelas ruas, não se fala com ninguém. A isto se chama ir às vozes. (O Sr. Martins Sarmento, que me deu a informação do Minho, acrescentou­-me: cf. Vox populi, vox Dei.)

No Brasil as vozes são especialmente dedicadas a Santa Rita. O Barão de Studart escreveu sobre essa superstição: “Para adivinhar o futuro, reza­-se o Rosário de Santa Rita, ao mesmo tempo que se procura ouvir na rua ou da janela a palavra ou frase que será a resposta ao que se pretende saber. Reza­-se o Rosário de Santa Rita, substituindo­-se os Padre­-Nossos do rosário comum pe­las palavras: ‘Rita, sois dos Impossíveis, de Deus muito estima­da, Rita, minha padroeira, Rita, minha advogada’, e substituindo as Ave­-Marias pelo estribilho: ‘Rita, minha advogada’” (Anto­logia do folclore brasileiro).

O Dr. Getúlio César testemunhou a contemporaneidade da crendice no Ceará: “No Ceará, na cidade de Granja, em uma noite de lindo pleni­lúnio, minha atenção foi desviada para uns grupos de senhoras que passeavam pelas ruas, aproximando­-se si­lenciosamente das pessoas que palestravam nas calçadas. Procuran­do saber do que se tratava, o hoteleiro me explicou: – São pessoas que desejam saber notícias dos parentes distantes, no Amazonas. Fazem oração (o Rosário de Santa Rita) e esperam ouvir dos que conversam a resposta desejada. Um pode ser, talvez, nunca, muito breve, sim, não etc., são palavras e frases que vêm dar respostas à pergunta que fizeram quando rezavam o rosário. Afirmam ser isso positivo e recorrem ao rosário com absoluta confiança. As senhoras quando querem ter uma resposta segura para algum casamento em perspectiva ou demorado, ou quando desejam saber notícias de alguém que longe está, lançam mão do recurso fácil e positivo: o Rosário de Santa Rita. E, assim, nas noites escolhi­das, de ordinário ao luar, porque há muita gente passeando pelas ruas, saem elas em grupos silenciosos, rezando em um rosário. Nos Padres­-­-Nossos dizem: – Minha Santa Rita dos Impossíveis, de Jesus muito estimada, sede minha protetora, Rita, minha advogada: valei­-me pelas três coroas com que fostes coroada, a primeira de solteira, a segunda de casada, a terceira de freira professa, tocada de divindade. E nas Ave­-Marias: – Valei­-me, Santa Rita do meu amor, pelas cinco chagas de Nosso Senhor. Uma palavra qualquer dita por alguém que passa e que tinha uma ligeira conexão com o assunto da pergunta feita será, como atrás dissemos, a resposta que pode trazer tristeza ou alegria, mas que será recebida como se fosse uma mensagem celeste” (Crendices do Nordeste, Rio de Janeiro, 1941).

Durante meu curso de Direito no Recife, 1924­-1928, ouvi inúmeras vezes alusões às vozes e à eficácia das consultas. As igrejas mais preferidas eram São José de Ribamar e Santo Antô­nio. Rezavam, ignoro se o Rosário de Santa Rita ou se a Salve­-Rainha até o nos mostrai, diante dos altares e saindo procuravam ouvir uma palavra dita por um transeunte, aplicando­-a à pergunta mental que se fizera. A denominação é a mesma: – ir às vozes, consultar as vozes, ouvir as vozes. Era comum e natural. A dona da pensão em que me hospedara na Rua do Imperador era devota. Ia sempre a São José de Ribamar, ficando no adro, à espera das vozes anônimas do povo.

O Prof. Raffaele Castelli menciona a mesma superstição na Itália, notadamente na Sicília. A mãe da noiva, depois de orar, oculta­-se detrás de uma porta de igreja e a primeira palavra ouvida é a resposta sobre o futuro da filha. Em Palermo algumas igrejas eram populares por essa tradição. Uma reminiscência clássica, que indica a persistência do costume, ocorre decisivamente na vida de Santo Agostinho (354­-430), quando professor de retórica em Milão. Debatia­-se numa crise espiritual, passeando num jardim. “Estando nisto, ouvi uma voz da casa que estava ali perto, como se fosse não sei se de menino ou menina, com uma canção que dizia, e repetia muitas vezes: – toma, , toma, ; e eu, mudado o rosto, entre a considerar se porventura os meninos costumavam cantar semelhante cantiga em algum jogo; e não me lembrava de a ter ouvido em parte alguma; e reprimindo o ímpeto das lágrimas, me levantei, não entendendo ser me mandada outra coisa divinamente, senão que abrisse o livro e lesse o primeiro capítulo, que se me oferecesse” (Confissões, livro VIII, cap. XII). Leu então a Epístola de São Paulo aos Romanos e converteu­-se. A voz anônima cantando o tolle, lege, tolle, lege fora aviso celestial.

Dessa antiguidade de aplicar as vozes aos fatos imediatos e pessoais, há delicioso registro do ¿Don Quijote de la Mancha (II, LXXIII): “A la entrada del cual, según dice Cide Hamete, vió Don Quijote que en las eras del lugar estaban riñando dos mu­chachos, y el uno dijo al otro: – No te canses, Periquillo, que no la has de ver en todos los días de tu vida. – Oyólo Don Quijote, y dijo a Sancho: – ¿No adviertes, amigo, lo que aquel mu­chacho ha dicho: ‘no la has de ver en todos los días de tu vida?’. – Pues bien: ¿qué importa – respondió Sancho – que haya dicho eso el muchacho? – ¿Qué? – replicó Don Quijote – ¿No ves tú que aplicando aquella palabra a mi intención, quiere significar que no tengo de ver más a Dulcinea?”. Do século XV é o depoimento da velha Celestina, provecta alcoviteira, enumerando entre os bons agouros deparados quando ia para casa da moça Melibeia: ¡La primera palabra que oí por la calle fué de achaque de amores!” (La Celestina, ato IV).

Há na noite de São Pedro (29 de junho) a famosa Adivinhação de São Pedro, que é uma consulta às vozes. Passa­-se um copo de água pela chama da fogueira, reza­-se: “Pedro, confes­sor de Nossa Senhora, Jesus Cristo, Nosso Senhor vos chamou e disse: – Pedro, tomai estas chaves do Céu, são vossas! Por elas vos rogo, glorioso São Pedro, que se isto tiver de acontecer (faz­-se o pedido) três anjos do Céu e três vozes do mundo digam três vezes: Amém! Amém! Amém! Não tendo de acontecer, três vozes do mundo digam três vezes: – Não! Não! Não!”. Fica­-se com água na boca, numa janela ou porta, esperando a resposta das vozes da rua.

Em Portugal, pelas festas do Natal, com água na boca, aguar­dam, atrás duma porta ou janela, o nome do futuro esposo. No Brasil, há semelhantemente durante o São João.

Cervantes registra o mesmo na comédia Pedro de Urdemalas (1610­-1611), fazendo­-o declamar: ­

Ha de esperar hasta el día.

señal de su casamiento;

sé tú primero en nombrarte

en su calle, de tal arte,

que claro entienda tu nombre.

Certamente esse processo de consultar a vontade divina através das vozes dispersas da multidão podia ter determinado a frase Vox populi, vox Dei, lembrada por Martins Sarmento, o grande arqueólogo de Guimarães, e não a indeterminada convergência intemporal da opinião pública. A voz do povo é a voz de Deus, o Deus dos cristãos, como o fora de Hermes ou Mercúrio, agora na intenção das fórmulas rogativas de Santa Rita dos Impossíveis, ou do profeta Zacarias, ou do apóstolo São Pedro. O oráculo de Acaia é a mais antiga forma dessa técnica.

Consulta­-se a Deus e o Povo responde, transmitindo a mensagem. Voz do povo, voz de Deus, evidentemente nessa acepção.

 

(Luís da Camara Cascudo - Coisas que o povo diz)

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publicado às 19:14


O HABITANTE (ao meu pai)

por Thynus, em 25.07.17
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Se partiste, não sei. 
Porque estás, 
tanto quanto sempre estiveste. 
 
Essa tua, 
tão nossa, presença 
enche de sombra a casa 
como se criasse, 
dentro de nós, 
uma outra casa. 
 
No silêncio distraído 
de uma varanda 
que foi o teu único castelo, 
ecoam ainda os teus passos 
feitos não para caminhar 
mas para acariciar o chão. 
 
Nessa varanda te sentas 
nesse tão delicado modo de morrer 
como se nos estivesses ensinando 
um outro modo de viver. 
 
Se o passo é tão celeste 
a viagem não conta 
senão pelo poema que nos veste. 
 
Os lugares que buscaste 
não têm geografia. 
 
São vozes, são fontes, 
rios sem vontade de mar, 
tempo que escapa da eternidade. 
 
Moras dentro, 
sem deus nem adeus.
 
(Mia Couto - Vagas e Lumes) 

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publicado às 20:40

Não faça na vida pública
aquilo que faz na privada
 
 
"Em tempos difíceis, em algumas pessoas crescem asas; outras compram muletas."
 
POR GENTILEZA, A SENHORA PODIA me dizer onde fica a privada?” A anfitriã, ao ouvir a palavra “privada”, assusta-se e ruboriza-se. “Privada” não é palavra que se fale. Trata de remendar: “Ah, o banheiro... O banheiro fica no fim daquele corredor...” O homem encaminha-se para o local indicado, intrigado: “Eu já tomei banho. Não quero tomar banho de novo...”. Mas logo, ao entrar no banheiro, vê que a anfitriã estava enganada. Lá não há nem banheira nem chuveiro. Só há uma privada — que é, precisamente, aquilo que ele está procurando.
Não é educado falar “privada”. “Vou à privada...”: isso não se diz, principalmente pelo fato de que essa palavra é sinônima de “latrina”, palavra de música feia, há muito fora de uso, exceto nos escritos do Manoel de Barros, que diz: “Também as latrinas desprezadas que servem para ter grilos dentro — elas podem um dia milagrar violetas”. Mas como as pessoas comuns não leem o Manoel de Barros, não se pode esperar que elas, ao ouvir a palavra “latrina”, pensem em violetas.
O educado é “banheiro”. E também “toilette”, que, segundo o dicionário, é “ato de se lavar, pentear e vestir. Mas quando uma pessoa pergunta pelo banheiro ou pelo toalete ela não está pensando em tomar banho ou se lavar. Está pensando em outra coisa.
A primeira vez que fui aos Estados Unidos, arranhando inglês, numa escola, premido por forças fisiológicas, procurei o dito quarto. E logo vi, numa porta, escrito: “Private”. Achei que “private” era “privada”. Entrei pela porta. Mas logo descobri que “private” queria dizer que aquele era um cômodo onde eu não podia entrar. Quando, pela primeira vez, desci num aeroporto nos Estados Unidos, e vi placas indicando “rest-rooms”, achei que eram salas “vip”, com poltronas confortáveis, onde as pessoas descansavam, porque “rest-room”, traduzido literalmente, é “quarto de repouso”. Mas não era. Era o lugar onde estavam as privadas e mictórios.
Estou propondo que se recupere a dignidade da palavra “privada”. Pois suspeito que ela esteja ligada a “privacidade”, como o “private” americano. A privada é o lugar onde estamos sós e ninguém tem o direito de nos incomodar. Lugar de refúgio, santuário de solidão. Quando a gente está na privada, não tem de se comportar direito, não tem de prestar atenção ao que os outros estão dizendo. É um lugar de liberdade e honestidade. Em reuniões, quando a agitação é muita, esse recurso é muito eficaz. “Vocês me dão licença...” Sem explicar nada, todo mundo sabe que nos retiramos por motivos imperiosos. Não sabem que o que a gente deseja é ficar sozinho. Ali a gente não tem de estar sorrindo, não tem de achar as piadas engraçadas, pode se dar ao luxo de não falar.
Mas o meu interesse atual pelas privadas liga-se à minha vocação para educador. Acho que as privadas podem se tornar lugares desemburrecedores, que excitam a inteligência.
Educação, como se sabe, se faz com livros. Mas, com os inúmeros estímulos da televisão e a correria da vida, as pessoas leem cada vez menos e, com isso, ficam burras cada vez mais. Mas a privada, onde nada nos perturba e ninguém tem o direito de nos interromper (a menos que você seja dos tolos que levam o telefone para a privada...), é um lugar excepcional para a leitura.
Vi, muitos anos atrás, nos Estados Unidos, uma coisa insólita, que jamais passaria pela minha cabeça: um papel higiênico que tinha, em cada folha, um aforismo, máxima ou conselho. O usuário não resistia à tentação e, antes de fazer o uso normal do papel, lia o que estava escrito, o que contribuía decisivamente para a sua formação intelectual e espiritual. Imaginei uma melhoria nessa ideia: livros inteiros impressos no papel higiênico. Assim, aos poucos, assentada na privada, a pessoa iria lendo as grandes obras da literatura mundial. Vai aqui uma sugestão para as fábricas de papel higiênico. Um bom mote de propaganda seria: “Use o papel higiênico Inteligente, que dá cultura antes de limpar”. Se, no futuro, aparecerem tais papéis higiênicos inteligentes no mercado, quererei receber minha porcentagem de direitos autorais. E invocarei vocês, leitores, como testemunhas de que a ideia original foi minha.
Mas, deixando de lado essas digressões, passo ao que me interessa: estou sugerindo aos pais e mães, preocupados com a educação dos filhos e com sua própria educação, que transformem as privadas em bibliotecas. Uma minibiblioteca, é claro. Mas essa minibiblioteca seria suficiente para operar grandes transformações nos que leem enquanto assentados no trono. A vantagem de tal providência seria uma transformação na língua, pois que as privadas, em vez de serem chamadas eufemisticamente de “banheiro”, seriam orgulhosamente chamadas de “biblioteca privada”. “Por gentileza, a senhora poderia me dizer onde fica a biblioteca privada? Estou sentindo uma premente necessidade de cultura...”. E a anfitriã responderia orgulhosamente:
“No fim do corredor. Lá o senhor encontrará livros fascinantes para ler...”
As modificações nas privadas seriam mínimas. Uma pequena estante... Os artesãos de madeira que expõem nas feiras de artesanato bem que poderiam fazer essas pequenas estantes a serem afixadas ao alcance da mão da pessoa que está assentada. Se isso não for possível, uma mesinha serve. Aqueles momentos, então, seriam momentos de prazer duplo, fisiológico e intelectual.
Vou dizer os livros que, na minha opinião, devem estar na “biblioteca privada”.
Um livro com as tirinhas do Calvin. Se você ainda não conhece o Calvin, saiba que, quando o jornal chega, vou direto às dele para virar criança. O Calvin é sempre uma pitada de sabedoria infantil no mundo louco dos adultos. O Calvin é uma alegria. Há livros com coleções de tirinhas.
Alguns números de Asterix. Quem não conhece o Asterix está perdendo uma das grandes alegrias da vida. São estórias de um pequeno herói gaulês e do seu amigo gordão, de força imbatível, Obelix. Aconselho, especialmente, os números Asterix legionário e Obelix & Cia. Quem lê Obelix & Cia. fica sabendo tudo o que é preciso saber sobre o capitalismo, rindo e sem precisar aprender economês.
De Herman Hesse, Para ler e pensar — uma coletânea de pensamentos curtos sobre os mais variados tópicos, amor, morte, política, educação, arte. Fica mais sábio quem lê.
Da Adélia Prado, Solte os cachorros — hilariante. Não é poesia; é prosa.
Não pode faltar poesia. Para os iniciantes, aconselho a leitura de Mário Quintana. E o Manoel de Barros: Livro sobre nada.
Livros de arte. A coleção Taschen, encontrada em qualquer livraria, é maravilhosa. Baratos. Você pode escolher: Picasso, Monet, Dali, Miguel Ângelo, Rafael, Klimt, Klee (leia-se klee, e não “kli”), Botticelli, Von Stuck e muitos outros. As crianças e os adultos se deleitarão. Também o Meu primeiro livro de arte.
Gostaria que alguns livros meus também fizessem parte dessa “biblioteca privada”. Crônicas: O amor que acende a Lua, O retorno e/terno, Sobre o tempo e a eterna/idade. E livros infantis: A menina e o pássaro encantado, A volta do pássaro encantado, Os três porquinhos.
E um livro de peso que, quando lido, fica leve: Confesso que vivi, de Neruda.
Você vai notar uma coisa curiosa: as visitas à “biblioteca pri-vada” vão ficar mais frequentes e mais demoradas... Eu não disse, no início, que as privadas podem ter uma função cultural?
 
(Rubem  Alves - Pimentas, Para provocar um incedio não é preciso fogo)  
 
Se, no futuro, aparecerem tais papéis higiênicos inteligentes no mercado, quererei ir receber minha porcentagem de direitos autorais.

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publicado às 14:17


Filosofia do Gato

por Thynus, em 25.07.17
De todas as criaturas de Deus, somente uma não pode ser castigada. Essa é o gato. Se fosse possível cruzar o homem com o gato, melhoraria o homem, mas pioraria o gato.
Mark Twain
 
Eu estou só. O gato está só. As árvores estão sós. Mas não o só da solidão: o só da solistência.
Guimarães Rosa  
.desmotivaciones
 
OLHO PARA O MEU GATO e medito. Medito teologias. Diziam os teólogos de séculos atrás que a harmonia da natureza deve ser o espelho em que os seres humanos devem buscar suas perfeições. O gato é um ser da natureza. Olho para o gato como um espelho. Não percebo nele nenhuma desarmonia. Sinto que devo imitá-lo.
Camus observou que o que caracteriza os seres humanos é a sua recusa a serem o que são. Eles não estão felizes com o que são. Querem ser outros, diferentes. Por isso somos neuróticos, revolucionários e artistas. Do sentimento de revolta surgem as criações que nos fazem grandes. Mas nesse momento eu não quero ser grande. Quero simplesmente ter a saúde de corpo e de alma que tem o meu gato. Ele está feliz com a sua condição de gato. Não pensa em criações que o farão grande.
Deitado ao lado do aquecedor (que manhã mais fria!), ele se entrega, sem pensar, às delícias do calor macio. Nesse momento, ele é um monge budista: nenhum desejo o perturba. Desejos são perturbações na tranquilidade da alma. Ter um desejo é estar infeliz: falta-me alguma coisa, por isso desejo... Mas para o meu gato nada falta. Ele é um ser completo. Por isso pode se entregar ao calor do momento presente sem desejar nada. E esse “entregar-se ao momento presente sem desejar nada” tem o nome de preguiça. Preguiça é a virtude dos seres que estão em paz com a vida.
Por pura brincadeira, escrevi um livrinho sobre demônios e pecados. Os demônios continuam soltos pelo mundo do jeito que sempre estiveram. Só que agora fazem uso de disfarces. Até se rebatizaram com nomes diferentes, científicos. Lidando com os demônios, usei palavras filosóficas e psicanalíticas de exorcismo. Lidando com os pecados, usei palavras éticas de condenação.
Tudo ia muito bem até que cheguei ao pecado da preguiça. Preguiça é fazer nada. Nossa tradição religiosa nada sabe da espiritualidade oriental do taoísmo, que faz do “fazer nada”, wu-wei, a virtude suprema.
E aí, então, aquilo que deveria ser uma condenação do pecado da preguiça virou um elogio às delícias e virtudes da preguiça.
Alguém disse que preferia os gatos aos cachorros porque não há gatos policiais. Policiais existem para fazer cumprir a lei, o dever. Dentro de mim, desgraçadamente, mora aquele cão policial a que Freud deu o nome de superego: ele rosna ameaças e culpas todas as vezes em que me deito na rede.
Meu gato, na sua imperturbável preguiça, me dá uma lição de filosofia. Não me dá ordens. Ele deve ter aprendido do Tao-Te-Ching, que diz que o homem verdadeiramente bom não faz coisa alguma...
Estou velho e quero que me seja dado o privilégio de me entregar à filosofia do meu gato: fazer nada. Com consciência limpa, repetir com Fernando Pessoa: “Ai que prazer não cumprir um dever. Ter um livro para ler e não o fazer....
Assim, proponho que se acrescente aos direitos humanos já escritos, um outro, para os velhos: “Todos os velhos têm o direito à felicidade da preguiça”. Pois, como o Riobaldo disse: “Ah, a gente, na velhice, carece de ter sua aragem de descanso...”.
Assim,
“vou descansar meu fardo no chão,

À margem do rio...

Não vou mais me preocupar com a guerra...

Vou pôr no chão minha espada e meu escudo,

À margem do rio...”.

(Rubem  Alves - Pimentas, Para provocar um incedio não é preciso fogo)
A 6ª feira do gato...

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publicado às 11:14


Bruxas e Vassouras

por Thynus, em 25.07.17
 
As bruxas em geral são assim. Não estão jamais interessadas nas coisas ou nas pessoas, mas na utilidade eventual destas.
 
Todos temos um bruxo ou bruxa dentro de nós. Queremos poder transformar momentos ruins em bons. Gostaríamos de ter a varinha mágica que mudaria nossa vida.
Paola Rhoden  
NUNCA ENTENDI AS RAZÕES POR que as bruxas usavam vassouras como meio de transporte. Pelo que sei as bruxas são entidades dotadas de grande poder e não há razões para que saiam pelos céus exibindo a sua indigência, usando esse objeto sujo como se fosse um disco voador. (Há de se considerar essa hipótese, de que as bruxas tenham trocado as vassouras pelos discos voadores. Mas sobre ela não tenho comprovação científica.) Eu preferiria, para seguir as estórias das mil e uma noites, que elas viajassem num tapete persa mágico ou que cavalgassem um macio dragão que soltasse fogo pelas ventas, tal como fez o Bastian Baltazar Bux, cavalgando o dragão Fuchur, do livro História sem fim. (Esse livro é uma delícia. Você gostará e também os seus filhos...) Mas todas as coisas, mesmo as mais estranhas, têm as suas razões. Aprendi que é fato comprovado: as bruxas viajavam por terras maravilhosas e desconhecidas tendo uma vassoura no meio das pernas. Aconteceu assim. Ia eu numa das minhas caminhadas matutinas pela Fazenda Santa Elisa, quando me vi diante de uma árvore cheia das flores brancas vulgarmente chamadas trombetas, pendentes dos galhos como pequenos lustres. Essa flor eu a conheço desde a minha infância. Elas são grandes, lindas e perigosas. Sua brancura esconde poderes alucinógenos incomparáveis, ultrapassando em muito os produtos que se encontram no mercado. Podem ser letais. Sei de um pesquisador sóbrio que só de manipular essa flor no laboratório ficou doidão. Tenho várias delas em Pocinhos, mas admiro sua beleza de longe. Gostaria de saber o que acontece com os insetos que as polinizam. Ficam doidões? Comentei esse fato com o pesquisador que me acompanhava e ele me informou que, segundo informações da Internet, há uma curiosa relação entre essa flor, nome científico datura, e a lenda das bruxas que voam montadas em vassouras. Quem quiser que entre no Google: +datura+witch. As bruxas são uma invenção da Inquisição. Para justificar a sua queima nas fogueiras pela glória de Deus, diziam que eram adoradoras do Demônio. E mais, que até transavam com o dito. Na verdade, as mulheres que a Inquisição amaldiçoou com o nome de bruxas eram sacerdotisas de uma antiquíssima religião anterior ao cristianismo, religião matriarcal baseada na Terra, no ciclo dos astros, no tempo e nas plantas e animais. Faziam, com frequência, uso de plantas psicoativas em busca de sabedoria e de experiências com o sagrado. Uma das poções alucinógenas usadas por elas tinha o nome de “unguento voador” feito com uma mistura de ervas, uma delas sendo a trombeta ou datura, que era também conhecida como “o suco da alegria”. A datura, misturada com várias outras ervas, era fervida em óleo provavelmente num caldeirão e depois bebida num ritual. Aquelas que a tomavam tinham alucinações, delírios e amnésia. A experiência devia ser boa, caso contrário teria sido abandonada. Aconteceu, entretanto, que, em decorrência dos seus perigos, as sacerdotisas trataram de inventar uma versão mais suave e segura. Em vez de beber, esfregar nas mucosas. Esfregar nas mucosas da boca não resolve porque é o mesmo que beber. Sobram outras mucosas... Assim, ao fazer a poção mágica, uma vassourinha de pelos macios ia mexendo a beberagem. A vassourinha de pelos macios era então usada para umedecer as mucosas das regiões entre as pernas, genitais. Assim, vinham-lhes deliciosas alucinações e elas voavam, montadas na vassourinha... Está assim explicada a lenda das bruxas montadas nas vassouras. Mas bruxa velha, com nariz adunco e comprido, chapéu preto e pontudo, isso é invenção de padre. Acho que as sacerdotisas podiam até ser muito bonitas...

(Rubem  Alves - Pimentas, Para provocar um incedio não é preciso fogo)

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