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O homem—um ser sociável

por Thynus, em 28.06.16
Num dia frio de inverno, alguns porcos-espinhos resolveram se aglomerar bem próximos uns dos outros para proteger-se do frio com o calor recíproco. No entanto, logo sentiram também os espinhos recíprocos, que os obrigaram a se afastar novamente uns dos outros. Quando então a necessidade de se esquentar voltou a aproximá-los, o segundo mal se repetiu, de modo que ficaram oscilando de um lado para o outro entre os dois sofrimentos, até encontrarem uma distância adequada em que pudessem se manter da melhor forma possível. Sendo assim, a necessidade da sociedade, que nasce do vazio e da monotonia do próprio íntimo, aproxima os homens uns dos outros. No entanto, suas inúmeras características repulsivas e seus erros insuportáveis voltam a afastá-los. A distância intermediária que, por fim, conseguem encontrar e que possibilita uma coexistência está na cortesia e nas boas maneiras. Àquele que não mantém essa distância, diz-se na Inglaterra: keep your distance! Com ela, a necessidade de calor recíproco é satisfeita de modo incompleto, porém não se sentem os espinhos alheios. Entretanto, quem possui muito calor in-terno prefere renunciar à sociedade para não provocar nem receber achaques.

   (Arthur Schopenhauer - A ARTE DE INSULTAR)  

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publicado às 01:34


O homem—um ser egoísta

por Thynus, em 28.06.16
O motor principal e fundamental no homem, bem como nos animais, é o egoísmo, ou seja, o impulso à existência e ao bem-estar. [...] Na verdade, tanto nos animais quanto nos seres humanos, o egoísmo chega a ser idêntico, pois em ambos une-se perfeitamente ao seu âmago e à sua essência. Desse modo, todas as ações dos homens e dos animais surgem, em regra, do egoísmo, e a ele também se atribui sempre a tentativa de explicar uma determinada ação. Nas suas ações baseia-se também, em geral, o cálculo de todos os meios pelos quais procura-se dirigir os seres humanos a um objetivo. Por natureza, o egoísmo é ilimitado: o homem quer de todo modo conservar sua existência, quer ficar totalmente livre das dores que também incluem a falta e a privação, quer a maior quantidade possível de bem-estar e todo prazer de que for capaz, e chega até mesmo a tentar desenvolver em si mesmo, quando possível, novas capacidades de deleite. Tudo o que se opõe ao ímpeto do seu egoísmo provoca o seu mau humor, a sua ira e o seu ódio: ele tentará aniquilá-lo como a um inimigo. Quer possivelmente desfrutar de tudo e possuir tudo; mas, como isso é impossível, quer, pelo menos, dominar tudo: "Tudo para mim e nada para os outros" é o seu lema. O egoísmo é gigantesco: ele rege o mundo.

 (Arthur Schopenhauer - A ARTE DE INSULTAR)

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publicado às 01:34


O homem e os animais

por Thynus, em 28.06.16
Do mesmo modo como freqüentemente a inteligência do meu cão e, de vez em quando, sua estupidez me surpreenderam, tive experiência semelhante com o gênero humano. Inúmeras vezes a incapacidade, a total falta de discernimento e a bestialidade deste último me indignaram e me arrancaram o antigo suspiro:
Ilumani generis mater nutrixque profecto stultitia est
[A estultícia é, de fato, a mãe e a ama-de-leite do gênero humano].
O mundo não é uma obra malfeita, e os animais não são produtos fabricados para o nosso consumo. [...] Aconselho os fanáticos e os padres a não se contradizerem muito nessa questão: pois, desta vez, não apenas a verdade, mas também a moral está do nosso lado.

   (Arthur Schopenhauer - A ARTE DE INSULTAR)  

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publicado às 01:33


O mundo

por Thynus, em 28.06.16
O mundo é a minha representação.
Deve-se dar razão a Aristóteles quando ele diz: "A natureza é demoníaca, não divina", [cf. De divinatione per somnum 2, 463 a 1445]. Poderíamos traduzir: "O mundo é o inferno."
Se quiséssemos conduzir o mais obstinado otimista por hospitais, lazaretos e câmaras de martírio cirúrgicas, por prisões, câmaras de tortura e estábulos de escravos, passando por campos de batalha e tribunais, depois abrir-lhe todas as moradas da miséria, onde esta se esconde dos olhares da fria curiosidade, e por fim fizéssemos com que ele olhasse dentro da torre da fome de Ugolino, certamente ele também acabaria por entender de que tipo é esse meilleur des mondes possibles.
O mundo é mesmo o inferno, e os homens são, por um lado, as almas atormentadas e, por outro, o demônio que nele habita.
O mundo é o pior de todos os mundos possíveis.
Em qualquer parte do mundo, não há que se procurar muito: a necessidade e a dor o preenchem, e em todos os cantos o tédio encontra-se à espera dos que conseguiram escapar de ambas. Além disso, nele impera a maldade, e o dispara-te tem a palavra decisiva.
Para termos sempre à mão uma bússola confiável, que nos oriente na vida, e para reconhecermos esta última sempre sob a luz correta, sem nunca ficarmos em dúvida, nada mais oportuno do que nos acostumarmos a considerar o mundo como um local de expiação, ou seja, uma espécie de instituição penal, a penal colony — um eriasterion, como já o denominavam os mais antigos filósofos [...] Entre os males de uma instituição penal está também a companhia que se encontra nela. Quem de algum modo for digno de companhia melhor, saberá, mesmo sem eu dizer, que tipo de companhia se encontra no mundo.
Em todos os lugares do mundo, a regra é a canalha. Por acaso esse mundo foi feito por um deus? Não, antes por um demônio.

   (Arthur Schopenhauer - A ARTE DE INSULTAR) 

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publicado às 01:32


A leitura

por Thynus, em 27.06.16
Ler significa pensar com a cabeça alheia em vez de pensar com a própria. O furor que a maioria dos eruditos sente ao ler constitui uma espécie de fuga vacui do vazio de pensamentos em sua própria cabeça, que faz força para atrair para dentro de si o que lhe é estranho: para terem pensamentos, precisam aprender nos livros como os corpos inanimados recebem movimento apenas do exterior, enquanto os dotados de pensamento próprio são como os corpos vivos, que se movem por si mesmos.
Em relação à nossa leitura, a arte de não ler é extremamente importante. Ela consiste em não aceitar o que o público mais amplo sempre lê, como panfletos políticos ou literários, romances, poesias e similares, que só fazem rumor naquele momento e até atingem muitas edições no seu primeiro e último ano de vida.
Exigir que um indivíduo conserve em sua mente tudo o que já leu é como querer que ele ainda traga dentro de si tudo o que já comeu na vida.

  (Arthur Schopenhauer - A ARTE DE INSULTAR) 

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publicado às 23:12

A suposta falta de direitos dos animais, a ilusão de que nosso comportamento para
com eles não tenha valor ético ou de que, como se diz na linguagem daquela moral, não
haja deveres para com eles são uma brutalidade e um barbarismo próprio do Ocidente,
cuja origem se encontra no judaísmo.
  (Arthur Schopenhauer - A ARTE DE INSULTAR) 
 
 
Outro erro fundamental do cristianismo [...], absolutamente inexplicável e que manifesta diariamente suas terríveis conseqüências, é o fato de ele, contra a natureza, ter arrancado o homem do mundo animal ao qual pertence em essência e ter dado valor apenas a ele, considerando os animais até mesmo como coisas [...]. O referido erro fundamental é, porém, a conseqüência da criação que parte do nada, segundo a qual o Criador (cap. 1 e 9 da Gênese) entrega ao homem todos os animais — como se estes fossem coisas e sem nenhuma recomendação de bons tratos, como faz o vendedor de cães quando se separa dos seus filhotes — para que ele os domine, ou seja, faça com eles o que bem entender; em seguida, no segundo capítulo, o criador eleva o homem ao grau de primeiro professor de zoologia, encarregando-o de escolher os nomes que os animais teriam de carregar para sempre, o que novamente constitui apenas um símbolo da sua total dependência do homem, em outras palavras, a privação de seus direitos. Sagrada Ganga! Mãe de nossa espécie!
Um anúncio do tão benemérito Círculo de Munique para a proteção dos animais, com data de 27 de novembro de 1852, empenha-se com a melhor das intenções para citar da Bíblia "os preceitos que pregam a consideração pelos animais" e menciona os seguintes trechos: Provérbios de Salomão 12, 10; Eclesiástico 7, 24; Salmos 147, 9; 104, 14; jó 39, 41; Mateus 10, 29. Mas tudo isso não passa de uma pia fraus que conta com o fato de que ninguém irá procurar tais passagens na Bíblia: apenas a primeira, bastante conhecida, diz algo a respeito, ainda que tenuamente. As restantes certamente falam dos animais, mas não da consideração por eles. E o que diz o primeiro versículo? "O justo sente compaixão pelo próprio rebanho." — "Compaixão!" — Que expressão! Tem-se compaixão de um pecador, de um malfeitor, não de um animal inocente e fiel, que freqüentemente provê o ali-mento do seu dono e não recebe nada em troca a não ser uma forragem escassa. "Compaixão!" Não compaixão, mas justiça é o que se deve aos animais.

 (Arthur Schopenhauer - A ARTE DE INSULTAR)

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publicado às 22:55


Os maus-tratos impostos aos animais

por Thynus, em 27.06.16
O homem aprisiona a ave, que foi feita para voar cruzando meio mundo, num decímetro cúbico em que ela pouco a pouco morre, languescendo e cantando, pois
L'uccello nella gabbia
canta non di piacere ma di rabbia
[O pássaro na gaiola canta não por prazer, mas de raiva].
Como se não bastasse, o homem ainda amarra na corrente seu amigo mais fiel, o cão, que é tão inteligente! Nunca consegui ver um cão sem sentir enorme compaixão por ele e profunda indignação por seu dono, e com satisfação relembro o caso, relatado há alguns anos pelo Times, do lorde que mantinha um cachorro grande preso corrente e um dia, ao atravessar o jardim, aproximou-se para acariciá-lo e teve imediatamente o braço dilacerado de cima a baixo — com razão! Com isso, o cão quis lhe dizer: "Você não é meu dono, mas meu demônio, que faz da minha breve existência um verdadeiro inferno." Que isso aconteça a todos os que prendem os cães às correntes.

(Arthur Schopenhauer - A ARTE DE INSULTAR)  

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publicado às 17:43


Juízes populares

por Thynus, em 27.06.16
Em vez de juízes instruídos e experientes, que envelheceram desvendando cotidianamente as artimanhas e os truques dos ladrões, dos assassinos e dos trapaceiros, de tal modo que aprenderam a descobrir seus crimes, sentam agora nos tribunais o compadre alfaiate e o compadre sapateiro que, com sua inteligência habitual, desajeitada, grosseira, inexperiente, tola e que não é capaz nem mesmo de manter uma atenção contínua, tentam descobrir a verdade do tecido enganador da fraude e da aparência enquanto pensam no seu pedaço de pano e no seu couro e desejam voltar para casa. Não possuem a menor idéia da diferença entre verossimilhança e certeza; fazem, antes, uma espécie de calculus probabilium em sua mente estulta, com base no qual depois decidem tranqüilamente o que fazer com a vida alheia. [...] Permitir que um júri popular julgue os crimes contra o Estado e seu chefe, bem como os delitos de imprensa, é o mesmo que entregar o ouro ao bandido.

(Arthur Schopenhauer - A ARTE DE INSULTAR) 

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publicado às 17:26


Os judeus

por Thynus, em 27.06.16
Não podemos nos esquecer de que o povo escolhido por Deus, após ter roubado no Egito, por ordem especial e expressa de Jeová, os recipientes de ouro e prata que seus velhos amigos lhe haviam confiado, empreenderam massacres e saques na "terra prometida". Tendo o assassino Moisés como líder e obedecendo à ordem expressa e sempre repetida do mesmo Jeová de não sentir nenhuma piedade, de cometer os homicídios mais cruéis e exterminar todos os habitantes, inclusive as mulheres e crianças (Josué, 10 e 11), seu objetivo era arrancar a terra prometida dos seus legítimos proprietários, uma vez que estes não eram circuncisos e não conheciam Jeová, o que constituía uma razão suficiente para justificar todas as atrocidades cometidas contra eles. Pelos mesmos motivos, a infâmia cometida pelo patriarca Jacó e seus eleitos contra Hemor, o rei de Salem, e seu povo (Gênese, 34, 1) nos é contada de maneira gloriosa justamente porque estes últimos eram ateus.

(Arthur Schopenhauer - A ARTE DE INSULTAR) 

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publicado às 17:25

Já está mais do que na hora de a ética ser, de uma vez por todas, submetida a um sério interrogatório. Há mais de meio século ela repousa naquela cômoda almofada que Kant lhe preparara: o imperativo categórico da razão prática. Nos nossos dias, esse imperativo costuma ser apresentado sob o título menos suntuoso, porém mais fácil e corrente, de "lei moral", sob o qual, após uma ligeira reverência à razão e à experiência, ele se insinua sem ser visto. Entretanto, uma vez dentro de casa, não cessa de dar ordens e comandos, sem fornecer mais explicações. O fato de Kant, enquanto inventor do imperativo e depois de tê-lo usado para eliminar erros grosseiros, ficar tranqüilo com ele era justo e necessário. Porém, não é nada fácil ter de ver até os asnos rolarem na almofada preparada por ele e desde então cada vez mais acolhedora: refiro-me aos compiladores cotidianos de compêndios que, com a confiança serena que acompanha a falta de juízo, presumem ter fundado a ética quando se reportam apenas àquela lei moral que, segundo eles, reside na nossa razão, e depois quando se estendem tranqüilos sobre aquele tecido de frases prolixas e confusas, com o qual conseguem tornar incompreensíveis as situações mais claras e simples da vida. Ao empreender tal iniciativa, nem chegam a se questionar seriamente se tal lei moral também estaria de fato escrita, como um código confortável da moral, na nossa cabeça, no nosso peito ou no nosso coração. Sendo assim, confesso o prazer peculiar que sinto ao tirar da moral aquela larga almofada e declaro com toda franqueza meu propósito de demonstrar que a razão prática e o imperativo categórico de Kant constituem hipóteses totalmente injustificadas, infundadas e inventadas.

(Arthur Schopenhauer - A ARTE DE INSULTAR) 

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publicado às 17:03

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