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MEDOS CONTEMPORÂNEOS

por Thynus, em 31.05.16
Temer o amor é temer a vida, e os que temem a vida já estão meio mortos.
 
Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte, 
mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez.
 
 
O medo como emoção
Somos seres assustados. O mundo nunca viu gente tão acuada como nós. Não envelhecemos, apodrecemos. A maturidade está fora de moda. O espelho é nosso algoz. Os mais jovens, em pânico, fingindo que não, sofrem diante de pais e mães ridículos em seus modos e rostos falsamente juvenis. Com a morte do amadurecimento, morre o narrador, como diria o filósofo alemão Walter Benjamin. Ninguém mais assume a responsabilidade de falar do significado da vida. Todos querem fingir que tudo pode ser uma balada. “Eu me invento”, eis o mandamento máximo do ressentido. Denegação absoluta.
De fato, é difícil resistir ao pânico do envelhecimento. Mas, hoje em dia, é pior, porque são tantos os idosos, que sabemos que a maioria esmagadora não sabe nada de especial, apenas perdem as funções vitais e se tornam obsoletos. Como resistir a esse desespero? Algumas cirurgias e livros de autoajuda, além de terapias baratas, nos ajudam a resistir ao terror do envelhecimento (dread of old age, como diz o historiador americano Cristopher Lasch, que cunhou o conceito “cultura do narcisismo” em seu livro homônimo). O resultado é a aposta em envelhecer, mas se tornar, com os anos, um retardado feliz. À medida que a pele murcha e o corpo cai, a alma se faz ridícula. Há saída para isso? Talvez sendo extemporâneo, recusando-se a ser contemporâneo. Um horror estético talvez funcione mais, já que as ideias não parecem sobreviver ao esmagamento da solidão do envelhecimento. Ver o que há de ridículo em fazer parte da balada dos apavorados pode ter algum efeito. O velho sábio despreza os ritos do mundo porque já cansou dele.
Como dizia o mestre Carpeaux, espero chegar à idade avançada com aquela tranquilidade de quem busca o “escurecimento” presente em telas como os últimos autorretratos de Rembrandt. Essa noite que busca revelar apenas o que há de essencial na vida e romper com as contingências da mentira. Pobre juventude que habita um mundo em que é escolhida como guru. Quando um jovem é colocado na condição de guia, está condenado a querer sempre ser jovem, e todo jovem que permanece jovem logo se descobre um retardado.
O medo de ser pai e mãe está intimamente associado ao medo do amadurecimento. Alguns dizem mesmo estar preocupados com a evolução espiritual e, por isso, não podem ter filhos. A infertilidade feminina por razões culturais, como a que vivemos hoje em dia, serve e é causa, ao mesmo tempo, desse medo da responsabilidade de ter filhos. O discurso normalmente segue o sentido de falar de outras realizações, principalmente nas mulheres. Nos homens, sendo mais facilmente bobos do que as meninas, a desculpa é que as mulheres não são de confiança e não merecem investimento. Não deixam de ter certa razão esses medrosos, pois as mulheres, após o feminismo, não parecem mesmo acolher o esforço dos mais generosos entre nós. E como ficou muito mais fácil achar sexo e elas pagam pelo jantar e pelo motel, por que se preocupar em bancá-las? Triste condição delas, livres, envelhecidas e cheias de papo, eles, tristes e retardados, com medo das mulheres. Os filhos, cada vez mais raros (até as escolas e universidades sentem isso na queda de matrículas), serão em breve a principal espécie em extinção. E vai piorar quando o aborto ascender à categoria de ganho das políticas de direitos humanos.
E a solidão? O mundo nunca foi tão cheio de gente que se comunica e fala o que pensa. Quase tudo que é dito soa irrelevante. Nunca se disse tanta besteira, porque somos banais e, ao falarmos, falamos de nós mesmos e nossas pequenas taras. Mas a solidão corrói. Vivemos em meio a uma vida social que varia entre balada e depressão, acuada por um futuro em que a solidão será o resultado final de escolhas “conscientes”, e não imposição de alguma regra monástica, em meio a uma solidão sem espiritualidade, com ares de ressaca sem gozo prévio. Inundados por esse mar de irrelevância cantada em prosa e verso, a solidão chegará, enfim, depois de muita fé em si mesmo. A noite é o paraíso maldito dos “livres”, como diria o sociólogo Zygmunt Bauman. Sempre existiram razões para a solidão de valor, mas esta é rara e exige certa personalidade sofisticada e singular, não é a solidão da vida contemporânea. A solidão da vida contemporânea aparece por trás da alegria montada para as fotos, também irrelevantes. Nunca se tirou tanta foto e nunca se viu tão pouco uma. A solidão nos ataca como um enxame de abelhas.
E, claro, o medo do amor. Alguns dizem mesmo que ele não existe. Evidentemente que nem todos o conhecem e alguns nunca o conhecerão, mas o fato é que alguns felizardos o experimentam. Uma das dificuldades do amor é que ele não está necessariamente ligado à felicidade, e pode ser mesmo o contrário da felicidade. Mas alguém afirmar que seja uma invenção da literatura medieval é confessar sua pobreza afetiva. O amor exige demais para personalidades narcísicas como a contemporânea, que gira ao redor de suas misérias bem pessoais. O medo do amor se alastra por toda parte com seu efeito amargo de agonia. Pode-se perguntar se amamos mais no passado. Tendo a achar que sim, talvez pela ingenuidade, talvez pela falta de opção, talvez porque as mulheres eram mais bonitas com seus vestidos dos anos 1940 e, acima de tudo, eram menos ressentidas. Talvez o amor seja como a moral, simplesmente a decoração que faz um quarto ser mais belo do que apenas o lugar onde se dorme.
O filósofo irlandês Edmund Burke (século XVIII) dizia que, quando os jacobinos descobrissem que a rainha era apenas uma mulher, logo descobririam que uma mulher era apenas um animal. Veredito final: para os homens, o feminismo teve esse efeito. Descobrimos que a mulher era apenas um animal, e não a deusa das fotos e dos nossos sonhos. Pouco adianta resgatar o valor sonhado dizendo que animais têm direitos e que ela, sendo um animal, também teria direito ao amor. Direitos não garantem amor. A politização da vida em breve vai acabar com a vida, tal como floresceu na Terra.

(Luiz Felipe Pondé - A era do ressentimento)

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publicado às 13:41


FUGA MUNDI

por Thynus, em 30.05.16
Por que dediquei este livro a todos que estão fugindo? Porque fugir do mundo é sempre uma opção que povoa minha mente. Na verdade, alimento o sonho de um dia fugir. Este livro elenca algumas das razões para esse desejo de fuga.
A fuga mundi é um tema recorrente na Filosofia e na espiritualidade. Na Antiguidade, estoicos defendiam a fuga mundi como um modo de se defender das ilusões e frustrações causadas pela vida em sociedade. Pensavam em viver próximos à natureza e, com ela, reaprender o fato de que tudo está morrendo. E, ao final, é sempre da morte que fugimos, ou de suas representações. O homem contemporâneo é, talvez, o mais covarde que já caminhou sobre a Terra, sobre a qual deixará sua marca de incompetência em lidar com a morte, a dor e o fracasso.
Monges de várias religiões fugiram e fogem do mundo em busca de alguma forma mais sólida de vida, no silêncio, na solidão, longe do vazio da vida civilizada. Deus, na tradição hebraica, colocou sua tenda no deserto e nas trevas. Isso significa muita coisa para quem Nele crê. Apesar de não ter fé, considero Deus muito inteligente.
Muitos continuam fugindo por recusarem os vícios de um mundo dado a vaidades. Nossa época, com suas luzes e seus direitos, será lembrada como um período de trevas por conta de nossa irrelevância, causada por preocupações excessivamente pessoais. Gente medíocre a nossa volta que imagina um mundo de gente feliz. Eis os idiotas do bem.

(Luiz Felipe Pondé - A era do ressentimento)

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publicado às 07:49


A TRAGÉDIA DO SECULARISMO

por Thynus, em 30.05.16
O mundo contemporâneo é marcado pela opção secular. Esta se caracteriza por uma vida “racional” e programada, distante de doutrinas religiosas, pautada pela democracia liberal de consumo e pelo conhecimento agregado da ciência. O mundo secular nasceu com a modernidade e o encolhimento da vida religiosa comunitária em nome de uma vida profissional, individualista e industrial nas cidades. A emancipação feminina e gay amplia esse quadro. A vida em comunidade encolheu na sua totalidade. O casal secular tem filhos apenas como projeto pessoal e com forte expectativa de retorno afetivo. No máximo dois filhos por casal, um ou nenhum. “Amamos” mais nossos filhos e de modo obsessivo. Mas esse “amor” é muito mais projeção de nossos desejos do que amor por eles. O amor do narcísico ressentido vem sempre acompanhado de uma grande contabilidade de afetos. Alguns de nós exigem mesmo que os filhos nasçam com nossos defeitos a fim de fazer um statement contra a engenharia genética que esconde nossa projeção narcísica. Somos uns eugênicos que fingem odiar a Ciência e amar a natureza que condena os filhos a serem limitados como nós. O casal religioso, quase sempre fundamentalista, tem mais filhos. Apesar dos seculares simpatizarem com a teoria darwinista como oposição à proposta religiosa criacionista e dogmática, eles esquecem que seleção natural é demografia: quem reproduz mais sobrevive. A vida secular está condenada no mundo. Deverá atingir graus demográficos críticos até 2100, como demonstra o demógrafo Eric Kaufmann no seu brilhante Shall the Religious Inherit the Earth?. As mulheres religiosas no Ocidente têm uma média de 2,1 filhos por mulher, enquanto as seculares mal chegam a 0,5 por mulher. Isso indica claramente que, apesar de os seculares produzirem muitas ideias sobre como deve ser uma vida perfeita, equilibrada e saudável, os religiosos produzem mais bebês, o que conta muito mais em termos de adaptação da espécie. As modas de alimentação, pedagógicas e políticas pautadas por causas do Facebook, que marcam a vida dos seculares, de nada adiantam em termos de sobrevivência. O secularismo é estéril e como tal será tratado pelos historiadores no futuro. A batalha contra a vida religiosa prática se perde a cada mulher que toma pílula e luta pelo aborto. Além de reproduzir pouco, os seculares matam seus fetos no ventre infértil da mulher livre. Ela faz mais sexo, mas reproduz pouco. Não importa o que você ou eu pensamos sobre o modo certo de se viver, o que importa é se fecundamos alguma mulher em nossa vida.

(Luiz Felipe Pondé - A era do ressentimento)

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publicado às 07:30


OLHAR TEÓRICO: A AGONIA DO MUNDO

por Thynus, em 30.05.16
“SONHAMOS EM SER
IMORTAIS MAS
SEMPRE ACABAMOS
POR EXPERIMENTAR O
MUNDO FINITO E
O LIMITE DE NOSSOS
SONHOS.”

 
Senso comum e olhar científico
Antes de avançar, um reparo teórico importante. Não lido com a ideia de uma história “integrada” ou “orgânica”, portadora de um “telos” (sentido) como é a História para Hegel ou Marx; prefiro abordagens como a do sociólogo americano Daniel Bell em sua obra magistral The Cultural Contradictions of Capitalism. Se você pensa, como eu, que o mundo contemporâneo tem problemas, mas não crê na religião de Marx, leia esse livro. Penso que a esquerda só atrapalha nosso esforço de compreensão das contradições do capitalismo, justamente porque ela é infantil e mitológica em sua visão de mundo.
Para Bell, a sociedade e a História são “disjuntivas em suas dimensões constituintes”, ou seja, não está indo para lugar nenhum e é bem contraditória se somarmos todos os elementos que compõem a sociedade e a vida como um todo. Não há integração ou organicidade nenhuma, nem essa bobagem de que está na moda falar: vivemos numa “sociedade em rede” em que as pessoas se comunicam cada vez mais construindo um mundo melhor. O fato das pessoas se comunicarem e de haver relações econômicas globais e computadores “que se comunicam”, não implica “redes” de significado integrado ou processual, isto é, não há nenhum avanço total da sociedade. Cada pessoa ou grupo se move em culturas de significado e valores distintos e conflitantes, como diria o filósofo britânico Isaiah Berlin, no século XX. Cada um vê o mundo de um jeito e muitas vezes de formas antagônicas e excludentes. No Brasil, essa bobagem atingiu mesmo o nível político partidário (“A Rede”) para fingir que não é partido. Como se darmos as mãos imaginariamente num grande círculo de “boa vontade” fosse um ato possível. Até Jesus, aquele visionário ingênuo, não acreditaria em “abraçar” o planeta como forma de amor. Essa ideia é um caso típico de bens invisíveis de consumo que os inteligentinhos adoram cultuar em seu jantares seguros e chiques na zona oeste de São Paulo. O “bem” virou mais um objeto de consumo.
A disjunção da qual fala Bell (o fato de a história não estar indo para lugar nenhum e viver em conflito consigo mesma) se dá entre as dimensões que, segundo ele, compõem a sociedade, a saber:
1. Estrutura tecnoeconômica, responsável pela geração e distribuição da produção que visa reduzir a escassez natural da condição humana (a vida é pobre e frágil e lutamos contra isso o tempo todo).
2. Política, instância que gera e administra o poder e a violência legítima numa sociedade (a organização de quem manda e quem obedece de forma legal).
3. Cultural, dimensão que produz, organiza e distribui os significados que tornam uma sociedade uma identidade de sentido (as religiões, assim como as tendências de comportamento, nascem nessa dimensão, apesar de se materializarem também nas duas anteriores). Essa identidade de sentido nos diz quem somos e por que vivemos do modo que vivemos.
A disjunção dessas três dimensões se dá dentro das sociedades modernas avançadas (conceito muito mais geopolítico e cultural do que geográfico ou temporal), gerando conflitos contínuos dentro da estrutura, causando problemas intermináveis a serem administrados pelas instâncias responsáveis por cada uma delas ou pelo conjunto disjuntivo (ou desintegrado) da vida social, política e cultural.
Assumo essa disjunção como pano de fundo amplo do que chamo “era do ressentimento” e de “contemporâneo”. Ambos os conceitos se estendem pelas três dimensões, apesar de que nascem na cultural e é prioritariamente nela que me movo ao longo desses ensaios e aforismos, mesmo quando resvalo em temas tecnoeconômicos ou políticos. O fato de a sociedade contemporânea ser cada vez mais disjuntiva (conflituosa, contraditória, sem nenhuma cura possível) em sua operação, faz com que o movimento de nossa História tenda cada vez mais ao conflito e jamais a um “mundo de paz e igualdade”, como falam os idiotas do bem. Estamos mais no âmbito do agon grego (conflito, agonia) do que do messianismo barato que sustenta o marxismo hegeliano.
Não há nenhuma metafísica nesse mundo em que me movo (como há no marxista), apenas homens e mulheres numa batalha cotidiana para lidar com essa disjunção que atravessa a nós todos, do trabalho ao amor, do consumo às crenças religiosas, dos sonhos noturnos aos pesadelos da vigília diurna.

(Luiz Felipe Pondé - A era do ressentimento)

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 O olhar que evita as posturas relacionadas ao senso comum é o olhar do estranhamento.

 

 
 

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publicado às 01:35


A perda da transcendência

por Thynus, em 29.05.16
Quando “caio” de amores, não há dúvida de que, a menos que eu seja Narciso, estou mesmo seduzido por um ser exterior a mim, por uma pessoa que me escapa e até porque, além do mais, sou muitas vezes dependente dela. Há, pois, nesse sentido, transcendência. Mas é claro também que essa transcendência do outro é em mim que sinto. Mais ainda: ela se situa naquilo que, dentro de mim, é o mais íntimo na esfera do sentimento, ou, como se diz, do “coração”. Não se poderia encontrar metáfora mais bonita da imanência do que essa imagem do coração. Este é, por excelência, ao mesmo tempo o lugar da transcendência — do amor do outro como irredutível a mim — e da imanência do sentimento amoroso ao que minha pessoa tem de mais íntimo. Transcendência na imanência, portanto.
(Luc Ferry - Aprender a Viver)
 
...Uma terceira forma de transcendência, diferente das duas primeiras, pode ainda ser pensada. Ela já fixa raízes no pensamento de Kant, em seguida caminha até nós por intermédio da fenomenologia de Husserl. Trata-se do que Husserl, que gostava bastante do jargão filosófico, chamava de “transcendência na imanência”. A fórmula não é muito eloquente, mas encobre uma ideia de grande profundidade.
Eis como, segundo contam, o próprio Husserl gostava de explicar a seus alunos — pois, como muitos grandes filósofos, Kant, Hegel, Heidegger, que foi seu aluno, e tantos outros, ele era antes de tudo um grande professor.
Husserl tomava de um cubo — ou um paralelepípedo retangular, pouco importa —, por exemplo, uma caixa de fósforos, e o mostrava aos alunos fazendo-os observar o seguinte: não importando a maneira como se mostrasse o cubo em questão, não veríamos nunca mais que três faces ao mesmo tempo, embora ele tivesse seis.
E daí?, você me dirá. O que isso significa e o que se pode concluir no plano filosófico?
Antes de tudo, o seguinte: não há onisciência, não há saber absoluto, pois todo visível (no caso, o visível é simbolizado pelas três faces expostas do cubo) se apresenta sempre sobre um fundo de invisível (as três faces escondidas). Em outras palavras, toda presença supõe uma ausência, toda imanência, uma transcendência escondida, toda doação de objeto, alguma coisa que se tira.

(Luc Ferry - Aprender a Viver)


Apesar de mais velho, o roqueiro Bruce Springsteen preservou sua vitalidade criativa e de desempenho. Suas novas canções são tão boas quanto seus clássicos, e ele as canta por generosas três horas sem perder o prazer e a alegria. Mas o jovem casal que está sentado ao meu lado é a imagem congelada da desolação. Na fileira da frente, quatro homens se levantam de repente com cara de quem vai reclamar com o administrador do evento. Será que essas pessoas estão genuinamente decepcionadas? O que mais elas podiam querer? E os que ainda parecem estar de bom humor conversam, riem e bebem cerveja durante todo o show como se estivessem num bar e a música tocasse numa tela num canto distante. Esse concerto está sendo apresentado num estádio, e dos milhares de pessoas que estão de pé no meio do campo, mais perto do palco e com muito espaço livre, poucas estão dispostas a dançar. É um clima muito diferente dos primeiros tempos do rock, quando a plateia enlouquecia, lotava teatros e se descontrolava nas ruas. Uma imagem da noite é dada por uma família algumas fileiras à minha frente, todos loiros e vestidos com roupas da moda, que ignoram totalmente o show para fotografar uns aos outros com as câmeras dos celulares.
É fácil entender por que tantos comentaristas falam da tendência niveladora da cultura contemporânea. A constante exposição ao entretenimento tornou muita gente incapaz de manter o interesse, quanto mais a transcendência.
Há uma indiferença equivalente na alta cultura, causada pelos efeitos neutralizadores do relativismo, que torna tudo igualmente significativo e portanto igualmente insignificante. Fazer elogios entusiasmados a escritores, músicos ou artistas é considerado ingênuo, infantil, com certeza embaraçoso. Para um crítico, expressar uma simples aprovação seria uma falta de tato imperdoável. Na cultura popular, a tirania do “legal” tem o mesmo efeito dissuasivo. A linguagem é diferente, mas a estratégia é a mesma – considerar a indiferença o máximo de sofisticação. O entusiasmo não é aceitável porque é uma afronta à indiferença.
Além da crônica e generalizada indiferença, há a crônica e generalizada ingratidão – uma consequência inevitável da nossa era de prerrogativas de direitos. Se tudo é merecido, não há por que ser grato. Mas a gratidão é a base da afirmação e da transcendência. Mas o que é transcendência? O termo abrange um grande número de crenças, sentimentos, atitudes e estados imprecisamente definidos e sobrepostos, que incluem fé religiosa, misticismo, exaltação, alegria, êxtase e prazer, descendo ao simples entusiasmo e à absorção, depois descendo mais ainda ao ato de beber uma jarra de margaritas e dançar em cima da mesa numa noite de sábado.
O mundo de ninguém
 O denominador comum entre as várias formas de sentimento é fugir de si mesmo – o que vai do desejo espiritual de se perder em Deus a um desejo mais materialista de perder a cabeça nos fins de semana. O paradoxo é que a experiência mais intensa do self é a perda do self. É por isso que os estados de transcendência são breves. Estar fora de si é divertido, mas não é prático – e, quanto mais tempo se fica perdido, mais difícil é voltar. Portanto, quanto mais intensa a experiência, mais curta sua duração. Perder-se numa absorção pode durar horas, já o êxtase infelizmente é breve (embora os praticantes do sexo tântrico discordem).
A transcendência é importante porque parece ser necessária para escapar de vez em quando ao fardo da consciência de si. Até as culturas mais antigas procuravam essa válvula de escape. Nas sociedades “primitivas” de todo o mundo havia rituais muito semelhantes que envolviam pintar o rosto e dançar com acompanhamento rítmico.1 Eram especialmente comuns as danças em círculo ou em fila – e é reconfortante saber que, quando os parentes de minha mulher curtem uma das suas “grandes noitadas” que culminam num hokey-cokey(Dança folclórica de longa tradição, muito conhecida nos países de língua inglesa. Além da melodia e do ritmo, o hokey-cokey tem uma letra própria que vai sugerindo os gestos da dança. (N. da T.)) e numa conga, estou participando de um ritual que tem no mínimo 10.000 anos. Os observadores ocidentais das danças “primitivas” em geral ficavam assustados com o que interpretavam como abandono e frenesi destinados a criar um clima propício à orgia – mas muitos dos rituais eram cuidadosamente planejados e disciplinados, comportados, e ocorriam apenas em certas épocas do calendário, em agradecimento pelo esforço da comunidade. As culturas primitivas entendiam que o êxtase não é fácil nem vem de graça, mas tinha que ser aprendido e merecido.
Na Europa esse êxtase ritual persistiu nos festejos de carnaval da Idade Média, mas foi violentamente reprimido tanto pelo calvinismo quanto pela Contrarreforma. A dança, originalmente praticada em grupo, reduziu-se no século XIX a uma atividade praticada por casais e, no final do século XX, era praticamente uma performance solo. Agora a pessoa precisa ser seu próprio xamã e inventar sua própria dança xamânica.
No mundo moderno, as religiões monoteístas tornaram-se a forma aceitável de transcendência – e quando isso desapareceu, no século XX, surgiu a religião laica do socialismo internacional. Mas foi ficando cada vez mais difícil acreditar num paraíso acima do mundo ou numa utopia à frente dele.
Uma alternativa é localizar a transcendência ideal nem acima nem à frente, mas no próprio mundo – o panteísmo. Para escapar à ira dos fiéis, o panteísmo quase sempre pretendeu ser uma versão do monoteísmo – mas essencialmente pagão. A tradição sufi, uma versão do islamismo que floresceu na Pérsia no fim do primeiro milênio e ainda é uma presença contemporânea, justifica seu panteísmo com o argumento de que Deus criou o mundo para ser conhecido através dele, explicando a Seu profeta: “Sou um Tesouro Escondido e desejei ser conhecido, e por isso fiz a Criatura, para poder ser conhecido!”2 Afinal, talvez esse anseio por reconhecimento não seja tão moderno – Deus pode ter criado o mundo para ser venerado como a suprema celebridade. Para os sufis, tudo no mundo era uma epifania, e o mundo não era apenas encantado, mas divino – uma crença que inspirou o poeta Jelaluddin Rumi a criar a dança giratória dos dervixes e poemas igualmente frenéticos.
“Há uma incandescente semente interior.
Você a preenche com seu próprio ser, ou ela morre.
Sou apanhado nesta energia circulante! Seus cabelos!
Qualquer um calmo e sensato fica insano!”3
Spinoza também era panteísta e falou desse “ser eterno e infinito que chamamos de Deus ou Natureza”,4 embora a palavra “Deus” possa ter sido acrescentada à frase para aplacar os crentes. E muitos poetas, de Wordsworth a Rilke, adotaram formas de panteísmo que inspiram uma afirmação extática, porque a fuga do self se dá numa união mística com tudo o que existe.
As formas intensas e duradouras de felicidade parecem derivar do panteísmo. Eu deveria fundar uma Igreja dos Panteístas Contemporâneos, que teria como profetas Rumi, Spinoza, Wordsworth e Rilke. Essa religião teria a vantagem de criar constantes e sérias dificuldades. Ninguém acharia fácil sentir a presença divina numa sala de espera de cinema ou num saguão de embarque – e só Rumi em pessoa poderia acreditar no Bem-Amado imanente no meio de um shopping center. O mais provável é que esses lugares inspirassem uma crença maniqueísta no homem como criatura decaída e no mundo como reino de trevas eternas. Naturalmente, nossa era prefere o caminho mais rápido e fácil para a transcendência: as drogas. Segundo a neurociência, o problema é que as drogas que causam bem-estar – cannabis, cocaína, heroína, ecstasy – não reproduzem exatamente o êxtase natural, mas produzem efeitos equivalentes ao prolongar ou suprimir outros efeitos, e esses sucessivos prolongamentos e supressões causam dano permanente ao cérebro.5 Os pequenos ganhos de curto prazo resultam em grandes perdas a longo prazo – demonstração psicológica de uma verdade: não existe caminho fácil e livre para o paraíso. Por outro lado, a euforia natural e conquistada cria novas e duradouras associações benéficas.
Acredita-se que outra popular forma de transcendência – a paixão amorosa – produza euforia sem esforço, mas ela também acarreta complicações a longo prazo (veja mais detalhes no capítulo 12).
Para mim, um descrente, o auge da euforia é a exaltação, melhor ainda que o êxtase sexual, que entretanto perde por muito pouco. Felizmente, essas duas supremas excelências não se excluem. É possível experimentá-las ao mesmo tempo, e aquele que for abençoado com tal graça não só se fundirá misticamente na Grande Cadeia do Ser como também será uno com Deus no paraíso eterno.
Mas a exaltação é fugidia e rara, uma entre várias experiências de alta intensidade que incluem a inspiração artística, a epifania (no sentido de uma significância mística, mas laica, como foi descrita por Joyce e Proust), o insight, a solução de problemas e a intuição. São experiências que não podem ser alcançadas pela vontade, mas que surgem abrupta e inesperadamente, oferecem certeza absoluta sem necessidade de explicação e são intensamente prazerosas, mas breves. Parecem aleatórias e gratuitas – mas a dádiva aparentemente imerecida é em geral a recompensa por um esforço árduo, persistente e paciente. No caso da inspiração artística, esse esforço é a disciplina de aprender e praticar o ofício. No caso do insight e da solução de problemas, é um pensamento prolongado e inconsciente.
No caso da intuição, é a observação e análise da experiência. No caso da epifania, é o hábito da atenção intensa ao mundo físico. Mas o que prepara a mente para a exaltação, uma experiência que oferece o êxtase da revelação sem a revelação? Minha hipótese é que o cérebro oferece a exaltação como recompensa por esforços anteriores – uma espécie de cartão de fidelidade. Em recompensa pela concentração no passado, o cérebro oferece o prêmio de um sentimento de descoberta triunfante sem o produto dessa descoberta. Portanto, de certa maneira, até a exaltação tem que ser conquistada.
Naturalmente, nossa era de prerrogativas de direitos gostaria de uma duradoura versão da experiência a custo zero. Uma neurocientista americana, Jill Bolte Taylor, teve de fato essa experiência duradoura, embora não tenha sido totalmente gratuita.6 Certa manhã, ela despertou com um sentimento de extrema euforia. Esta é a parte boa. A parte ruim é que ela também estava parcialmente paralisada e incapaz de falar. Tinha acabado de sofrer um derrame que nocauteara o hemisfério esquerdo de seu cérebro, mas preservara o hemisfério direito. O hemisfério esquerdo opera de uma maneira mais sequencial, é responsável por analisar o passado e preparar para o futuro, e mantém o constante resmungo mental que constitui a consciência. Assim sendo, o derrame ofereceu a Taylor uma transcendência natural, afastando-a de seu self ao desabilitar o local do cérebro onde ele reside. O hemisfério direito, que até recentemente se acreditava ser inerte e sem propósito, processa a informação de uma maneira mais paralela e oferece coerência e significado às informações sensoriais do presente. É essa combinação de baixa carga de trabalho e maior capacidade de fazer novas conexões que permite ao hemisfério direito produzir experiência mística, epifania, inspiração, insight e intuição. E porque o lado direito também processa as informações sensoriais do meio imediato, o sentimento de descoberta incandescente torna o mundo exterior vívido e sublime. É por isso que as experiências místicas são tão semelhantes à inspiração e ao insight, e que, quanto mais intensa a experiência, mais forte o assombro panteísta que o acompanha. Taylor descreveu sua euforia como um profundo sentimento de unidade com todas as coisas.
Mas, à medida que começou a reagir ao tratamento, o cérebro esquerdo de Taylor reativou o circuito das emoções negativas do hemisfério esquerdo, como ansiedade, medo, inveja, ressentimento e raiva. Como os psicólogos descobriram, as emoções negativas são mais fortes que as positivas. Mas Taylor não estava preparada para entregar seu recém-descoberto sentimento de unidade e bem-estar e lutou para suprimir os maus efeitos do lado esquerdo, chegando, através de um derrame e da neurociência, à conclusão a que os estoicos já tinham chegado milhares da anos antes: “Nada que seja exterior a mim tem o poder de me tirar a paz do coração e da mente. [...] Posso não estar em total controle do que acontece, mas sou eu que escolho como percebo minha experiência”.7 Sua técnica é permitir a essas reações instintivas do velho cérebro traiçoeiro seus noventa segundos de vida, mas depois usar o isolamento e a análise para identificálas e evitar que elas dominem sua mente. E ela acrescenta que, quando tenta ensinar a seus alunos essa técnica, eles se queixam veementemente de que ela exige demasiado esforço mental – mais um exemplo da rejeição da dificuldade.
A reação de Taylor a seu infortúnio também é a clássica estratégia estoica de tirar vantagem de qualquer coisa que aconteça. Ela talvez seja a única vítima de derrame a expressar entusiasmo pela experiência. Mas como liberar o lado direito do cérebro sem estar paralisado por um derrame no lado esquerdo?
Uma possibilidade é a meditação. Vários estudos do cérebro de pessoas que meditam regularmente chegaram a uma conclusão semelhante: a meditação aumenta a atividade no córtex pré-frontal, responsável por focar e manter a atenção, e diminui a atividade no hemisfério esquerdo.8 Mas não há menção a um aumento de atividade no hemisfério direito (embora os próprios praticantes de meditação tenham se referido a um aumento da consciência do ambiente circundante). Isso talvez ocorra porque quem medita se concentra intensamente numa única coisa – um mantra, uma imagem, a respiração – e com isso consegue suprimir a preocupação irritante do hemisfério esquerdo, mas não consegue usar o sonhador que é liberado do lado direito. Portanto, a grande vantagem da ruminação talvez não seja apenas a redução dos pensamentos incomodativos, mas um estímulo ao sonhador. Se imaginasse um ritual e um jargão adequados, eu poderia fazer fortuna como guru da Ruminação Transcendental (RT).
Outra possibilidade é que, se a transcendência é acompanhada por um sentimento de união com o aqui-e-agora, o reverso também seja verdade, e uma atenção intensamente focada no ambiente imediato possa facilitar a decolagem. Esse é o tipo de atenção estimulado por escritores como Joyce e Proust.
Para quem tem uma disposição ativa, ou desconfia de qualquer coisa mística e estética, a absorção proporciona uma baixa transcendência do self.
O psicólogo americano Mihaly Csikszentmihalyi usa a palavra “fluir” para descrever o estado mental profundamente satisfatório alcançado mediante uma imensa e prolongada concentração em atividades difíceis, que exijam um alto nível de habilidade.9 A experiência é semelhante num grande número de atividades aparentemente desconexas, entre elas o esporte competitivo, o alpinismo, o trabalho profissional, a execução de um instrumento musical, a criatividade artística, a dança, as artes marciais e o sexo.
Como em outros métodos de transcendência, essa satisfação tem que ser conquistada. A habilidade precisa primeiro ser adquirida, lentamente e mediante frustrações. Não há gratificação imediata. De fato, não poderia haver. O aprendiz pode não ter aptidão ou disciplina, mas, quando a habilidade se torna automática, o milagre pode ocorrer: uma absorção tão completa que exclui o ser, o tempo e o lugar. Horas ou até mesmo dias podem passar despercebidos. O self se dissolve e desaparece. E algo estranho ocorre. A atividade parece tornar-se não apenas fácil, mas autônoma – assumir o controle, ser dona de si. Então o instrumento toca sozinho, a espada se empunha, o poema se escreve, o bailarino não dança, mas permite que a música tome conta de seu corpo, e os amantes não fazem amor, mas se entregam ao vertiginoso movimento da Terra.
Existem muitos paradoxos nisso. Um intenso esforço é necessário para produzir a sensação de falta de esforço; intensa consciência para chegar à inconsciência; total controle para experimentar a total falta de controle. E só aqueles que estiverem em plena posse do self poderão se entregar plenamente. Na verdade, quanto mais forte a sensação do self, maior o arrebatamento por escapar à sua tirania. Como na meditação, a experiência fluida é consequência da atenção concentrada e persistente – e “atenção” é uma palavra-chave tanto para Csikszentmihalyi quanto para o zen-budismo. O conceito de fluxo também é familiar ao zen-budismo. Eis o que disse D. T. Suzuki ao explicar como o mestre esgrimista Takuan instruía os novatos: “O conselho de Takuan é manter a mente sempre ‘fluindo’, porque, quando ela para, o fluxo se interrompe, e essa interrupção é danosa para o bem-estar da mente. No caso de um esgrimista, isso significa a morte”.10
Esse reiterado foco numa atividade difícil é exatamente o que cria ou melhora as conexões cerebrais. E o prazer de fluir é tão intenso que reduz as atrações de poder, status, celebridade e, acima de tudo, de entretenimento passivo, estimulando um desejo de experimentar uma satisfação semelhante em outras atividades. É por isso que os físicos teóricos tocam bongô.
O truque é entender que são a atenção e a dificuldade que trazem a recompensa. Quando Csikszentmihalyi pesquisou adolescentes, descobriu que aqueles que tinham menos atividade fluida, que viviam na frente da tevê e perambulavam pelos shopping centers, alcançavam baixos níveis de satisfação, enquanto aqueles que estudavam e praticavam esportes alcançavam altos níveis em todas as avaliações – todas menos uma. Eles acreditavam que os ratos de shopping e viciados em tevê se divertiam mais que eles. Na verdade, estavam demasiado influenciados pela tirania do “legal” para perceber que eles eram os abençoados. Este é um exemplo que confirma a regra: a juventude raramente valoriza o que tem.
Foi emocionante saber, a partir de outra pesquisa de Csikszentmihalyi, que, quanto mais caro e complexo o equipamento, menos prazerosa é a atividade. Talvez exista um Deus justo afinal. Andar e dançar, atividades nas quais o corpo é o equipamento e o instrumento, são muito mais satisfatórias. Andar e dançar, mantendo um ritmo regular e extático, são a prosa e a poesia do corpo.
A mais modesta das atividades fluidas, a caminhada é também uma maneira eficiente de criar prontidão para a exaltação. Uma teoria defende que o bipedalismo é a origem da inteligência humana superior. Quando o animal humano se ergueu sobre as patas traseiras, as patas dianteiras ficaram livres para gesticular, o que evoluiu para a linguagem de sinais e depois para a fala – e essa nova e rica linguagem verbal aumentou enormemente o tamanho do cérebro. Nietzsche, o filósofo da exaltação, era um caminhante fanático. Assim como seu arqui-inimigo, Cristo. Só a iconografia mostra Jesus em repouso.
Leonardo da Vinci o colocou sentado na Última ceia – mas um bom mestre nunca se senta. Ele deve ter se movimentado de um lado para outro com uma palavra de confiança aqui, uma palavra de inspiração ali. E a maioria das representações do Sermão da Montanha mostra Jesus na costumeira pose estática, com olhos tristes e braços estendidos submissamente. Mas o filme de Pier Paolo Pasolini O Evangelho segundo São Mateus mostra Cristo vociferando no alto da montanha, atirando bem-aventuranças recém-cunhadas por sobre o ombro para que os discípulos se arrastem, física e mentalmente, para apanhá-las. Não é o Sermão da Montanha, mas o Sermão do Casco. Nietzsche costumava caminhar por seis a oito horas por dia, durante as quais teve alguns de seus melhores insights. E também adorava a dança: “Eu só acreditaria num Deus que soubesse dançar”.11
Ele se lamentava por não ser mais capaz de dançar: “Só sei proferir a parábola das coisas mais elevadas na dança – e agora minha maior parábola permaneceu indizível em meus membros”.12 E se definiu como o último discípulo do filósofo Dioniso, o deus cornudo do êxtase e primeiro Senhor da Dança, divindade que presidia os primitivos rituais e foi venerado sob vários nomes, entre eles Baco, Pã, Fauno, Osíris e Shiva. Dioniso (conhecido na Irlanda como Satã) chegou a se apresentar perto de minha cidade natal nos anos 1960 – num salão de dança, naturalmente. Uma noite qualquer de sábado no salão Mecca foi galvanizada pela aparição de um estranho de esplêndida beleza, todo vestido de preto, que sabia bailar com surpreendente languidez e facilidade. Todas as mulheres queriam estar com ele, que, naturalmente, escolheu a mais encantadora. Essa jovem dançou a noite toda em êxtase e concordou em sair com ele, mas, quando estavam partindo, ela olhou para baixo e viu o casco fendido. Não podia haver erro sobre a identidade do estranho. Mas, quando ouvi a história, eu me perguntei como, tendo tantos recursos para se parecer com Cary Grant, vestir-se como Johnny Cash e dançar como Elvis Presley, ele não fora capaz de esconder aquele estúpido casco. Em épocas mais remotas, as mulheres teriam seguido de bom grado o deus floresta adentro, mas, na Irlanda dos anos 1960, elas ficavam em casa – e o Mecca foi obrigado a fechar suas portas.
Mais do que qualquer outro pensador, Nietzsche perseguiu a transcendência em todos os níveis de intensidade – entusiasmo, embriaguês, alegria e exaltação –, o que foi ao mesmo tempo sua força e sua fraqueza. Ele é o grande arejador da vida, a tônica do gim-tônica (Schopenhauer é a fatia de limão). Nietzsche efervesce, dança, salta, mas, quando o borbulhar desaparece, nada resta. Há pouco o que reter e usar. A principal função de Nietzsche é promover a euforia não farmacológica, um pensador mais para ser inalado do que estudado. Ele próprio usava os livros como estimulantes ilegais. O objetivo não era aprender, mas curtir e voar. Assim, seu famoso A vontade de poder, um título que não foi escolhido por ele, mas postumamente por seus editores, era na verdade apenas uma forma de embriaguez pessoal: “O primeiro efeito da felicidade é o sentimento de poder”.13 Note a expressão “sentimento de poder”. Deparei-me com essa expressão nove vezes em sua obra, mas ainda não o vi glorificar o exercício ou a detenção do poder. Na verdade, ele não tinha senão desprezo por aqueles que buscam a supremacia terrena: “Todos lutam pelo trono: é a sua loucura – como se a felicidade se sentasse num trono! Geralmente, é a imundície que se senta no trono”.14 Ele desprezava aqueles que lutavam para conquistar o poder aos outros e admirava os santos e os ascetas, que lutavam para conquistar o poder a si mesmos. O que ele buscava era a pura transcendência pessoal.
Seu erro foi tentar tornar permanente uma condição temporária. Ele enlouqueceu, se não por causa da, certamente na euforia. Talvez Deus, aborrecido de ter sido considerado morto, tenha decidido mostrar a esse super-homem quem tinha o mais arguto senso de humor e feito esse acusador da misericórdia abraçar, aos prantos, o cavalo moribundo que estava sendo chicoteado por um cocheiro no meio da rua.
Vale lembrar também que Nietzsche fazia teatro com frequência, causando escândalo apenas para chocar. E, do marquês de Sade a William Burroughs, a melhor maneira de chocar é enaltecer a crueldade. Mas ninguém genuinamente cruel faria tal declaração pública. Você não precisa fingir o que você é. Os nazistas, que Nietzsche foi acusado de inspirar, nunca se vangloriaram de ser cruéis. Ao contrário, vangloriavam-se de ser benfeitores da humanidade. Mas o perigo da encenação é que ela é interpretada literalmente pelos ingênuos. O próprio Nietzsche previu esse mal-entendido: “Há uma exuberância na bondade que pode parecer maldade”.15
Nietzsche é como os mestres zen que chamam a atenção de seus discípulos com koans, combinações de paradoxos, ilogicidade, surpresa e choque. Um dos mais famosos, atribuído a Linji, é: “Se encontrar Buda, mate-o”. Às vezes a provocação não era apenas mental, como nesse koan de Toku-san, que eu gostaria de usar para trazer uma instantânea iluminação a meus alunos: “Trinta golpes de minha equipe quando tiverem algo a dizer; os mesmo trinta golpes quando não tiverem nada a dizer”.16
Nietzsche é o único filósofo ocidental a possuir a principal qualidade zen, o entusiasmo – o que por si só já o torna merecedor de ser lido: “Bem cedo pela manhã, ao romper do dia, em toda a frescura e na aurora de sua força, ler um livro – é o que eu chamo de vicioso!17 Este “vicioso” no fim da frase é tão inesperado, mas perfeito, porque provoca uma coisa rara e maravilhosa: uma risada de puro deleite.
Outra forma leve de transcendência, o entusiasmo é mais uma atitude que um estado, e portanto pode ser cultivado. Exige antes de mais nada isolamento e, depois, o envolvimento paradoxal que o isolamento pode facilitar, uma combinação de curiosidade, atenção e análise. O entusiasmo ama o mundo, mas se recusa a aceitá-lo de acordo com sua própria avaliação, porque acha ridícula essa avaliação solene e arrogante. Portanto, o entusiasmo é essencialmente subversivo. É puro divertimento no absurdo da condição humana e um reconhecimento irônico do infinito talento cômico de Deus.
O maior exemplo de personagem entusiasmado é Puck, de Sonho de uma noite de verão – um meio-termo entre seus ridículos e briguentos mestres de magia e os igualmente ridículos e briguentos humanos. Puck é um mero funcionário, um administrador com pouca iniciativa ou poder de controlar – e, como costuma ser o destino dos administradores, não tem um conhecimento completo da situação, e portanto é culpado por atos inadequados. No entanto nunca se queixa. Um exemplo para todos os empregados ressentidos, ele curte tanto seu trabalho quanto as horas de insociabilidade, quando se diverte com o absurdo dos humanos (“Oh, mestre, como são loucos esses mortais!”)18 e a loucura geral (“E não há nada que me agrade tanto quanto ver um comportamento ridículo”)19.
Puck é um sofisticado e irônico Senhor da Desordem, personagem dos festejos carnavalescos medievais que ridicularizava e satirizava a ordem estabelecida. E a sátira e a zombaria eram atitudes quase sempre presentes nos rituais extáticos primitivos. O entusiasmo é há muito tempo um aspecto da transcendência e sempre envolveu um humor irreverente.
Como ser abençoado com o entusiasmo? Procurando-o. Ele é encontrado com maior frequência nas formas de arte que favorecem as breves explosões emocionais. É por isso que ele é raro na filosofia (Nietzsche voltou-se cada vez mais para os aforismos) e nos romances (embora um romance de Terry Southern, The magic Christian, apresente um perfeito Senhor da Desordem da era capitalista na figura do bilionário Guy Grand).
O entusiasmo sente-se mais à vontade na poesia e no jazz – e não é coincidência que ambos tenham o ritmo como base. Mas o caráter espontâneo, direto e breve dos bons poemas e solos de jazz os faz parecer fáceis. Parece que qualquer pessoa poderia ter feito aquilo. Assim, todo mundo tenta, e por isso 99 por cento da poesia e do jazz são um lixo deprimente. Porque a excelência requer tempo e energia. É especialmente difícil encontrar um bom solo de jazz. Por isso fui a um lendário clube de jazz de Nova York mais com o espírito de um peregrino do que na esperança de ouvir algo inspirador. E o clube não tinha de fato nada que inspirasse – um porão úmido, escuro e decadente onde o vinho era caro e tinha gosto de anticongelante temperado com fel. Os músicos eram negros de meia-idade pesados e desencantados, que deviam inventar e surpreender duas vezes por noite, com três shows nos fins de semana. Quem conseguiria? Então eles faziam o que podiam, desanimados, acompanhados por um baterista de cabelos brancos que algum dia tinha tocado com vários dos grandes, todos mortos, e que agora estava evidentemente conformado de tocar para viver. A plateia, pouca e branca, reagia com entusiasmo equivalente, e os músicos agradeciam ao magro aplauso com um gesto cansado. Assim é a vida. Você se vira com o que tem. Você aguenta.
Mas, pouco antes do final do último show, um dos saxofonistas de repente deu um passo à frente, abriu as pernas, suspirou e, erguendo-se na ponta dos pés, tocou furiosamente, ardentemente, debochadamente, superfluamente. Foi um choque elétrico que sacudiu todo mundo do clima de torpor. Aquela letargia de hábito e rotina não era vida. Isso era vida: complexa, surpreendente, desafiadora e cheia de entusiasmo. Dessa vez a reação da plateia foi sincera – mas o solista estava surdo a ela. Ele se atirou numa banqueta e ouviu o mais doce dos aplausos, o que vem de dentro. Mas também foi bonito quando o velho baterista, até então uma escultura do monte Rushmore,(O parque nacional do estado de Dakota do Sul (Estados Unidos) onde foram esculpidas as grandiosas esculturas da cabeça de quatro presidentes americanos (George Washington, Thomas Jefferson, Abraham Lincoln e Theodore Roosevelt). (N. da T.)) se inclinou e tocou com as baquetas levemente no ombro do companheiro.

(Michael Foley -  A era da loucura, Como o mundo moderno tornou a felicidade uma meta (quase) impossível)
 
Transcendência e o sentido da vida: O sagrado e o profano
NOTAS:
1. Para mais detalhes, ver Barbara Ehrenreich, Dancing in the Streets: A Histoy of Collective Joy, Granta, 2007.
2. Citado por Peter Avery na introdução de The Rubaiyat of Omar Khayyam, Penguin, 1981.
3. Jelaluddin Rumi, The Essential Rumi, HarperCollins, 1995.
4. Spinoza (1966), op. cit.
5. Susan Greenfield, ID: The Quest for Meaning in the 21st Century, Hodder & Stoughton, 2008.
6. Jill Bolte Taylor, My Stroke of Insight, Hodder & Stoughton, 2008.
7. Ibid.
8. Por exemplo, A. Newberg et al., “The measurement of regional cerebral blood flow during the complex cognitive task of meditation: a preliminary SPECT study”, Psychiatry Research: Neuroimaging, 106, 2001; e O. Flanagan, “The colour of happiness”, New Scientist, 178, 2003.
9. Mihaly Csikszentmihalyi, Flow: The Classic Work on How to Achieve Happiness, Rider, 2002.
10. Daisetz Taitaro Suzuki & Erich Fromm, Zen Buddhism and Psychoanalysis, Souvenir Press, 1974.
11. Nietzsche (1885), op. cit.
12. Ibid.
13. Friedrich Nietzsche, Daybreak: Thoughts on the Prejudices of Morality, Cambridge University Press, 1992.
14. Nietzsche (1885), op. cit.
15. Friedrich Nietzsche, Beyond Good and Evil [Além do bem e do mal], Modern Library, 1968.
16. Citado em Suzuki & Fromm, op. cit.
17. Friedrich Nietzsche, Ecce Homo, Modern Library, 2000.
18. William Shakespeare, Sonho de uma noite de verão, ato 3, cena 2.
19. Ibid.

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publicado às 14:40


A BÊNÇÃO DA IMPERFEIÇÃO

por Thynus, em 29.05.16
Adoramos a perfeição, porque não a podemos ter; repugna-la-íamos se a tivéssemos. O perfeito é o desumano porque o humano é imperfeito.
 
O perfeccionismo se torna uma idolatria quando começamos a acreditar que a qualidade daquilo que fazemos nos torna merecedoras do louvor de Deus.
Staci Eastin
 
 
 
"a criação é uma compulsão do homem para imitar Deus. É um ato de inveja. De inveja e de competição no plano do espírito" (Vinicius de Moraes)

A mania de perfeição é seguramente uma das doenças do nosso mundo. Não me refiro à perfeição como obsessão racional banal, mas perfeição na vida. Equilíbrio em tudo. Um dos lugares onde o estrago é maior é no sexo. Assim como muitas mulheres lindas entediam, justamente pelo seu aspecto Barbie, a ideia de uma relação perfeita é entediante. Um dos maiores danos da revolução sexual foi justamente a idealização do sexo e da parceira afetiva. Sexo só vai bem com imperfeição, insegurança, tentativa e erro, medo, culpa, pecado e uma dose de desrespeito. Quando sexo vira fórmula de saúde comportamental, estamos quase todos brochas. Recentemente, saiu na mídia a notícia de que os jovens japoneses perderam o interesse pelo sexo. Isso será, em breve, uma epidemia mundial. Graças à revolução sexual e ao discurso da liberdade. Que saudade teremos da repressão em poucos anos, assim como poderemos ter saudade de mulheres sensuais. Toda ciência do sexo é um equívoco em si.

(Luiz Felipe Pondé - A era do ressentimento)

 

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publicado às 12:43


A metafísica da barba

por Thynus, em 28.05.16
Em todas as épocas e em todos os países civilizados, o costume de barbear-se derivou da noção correta do contrário, motivo pelo qual se pretendia sobretudo ser um homem, de certo modo um homem in abstracto, sem levar em conta a diferença animalesca do sexo. Em contrapartida, o comprimento da barba sempre acompanhou a par e passo a barbárie, assemelhando-se a esta inclusive no nome.
(Arthur Schopenhauer - A Arte de Insutar)


Não se conhece bem o homem que nunca deixou a barba crescer. Digo isto sem preconceitos, porque não pertenço mais à confraria dos barbados. Mas estou convencido de que se conhece mal o homem que nunca deixou irromper na floresta de seu rosto o outro, o selvagem, o agente adormecido, o hirsuto.
Não quero tirar a sabedoria de imberbe algum. Apenas fazê-lo cogitar do quão basta ela poderia ser estampada no seu rosto. Os deuses sempre tiveram barbas. Jeová sem barba não ditaria sequer o primeiro dos mandamentos. Por isto, Moisés subiu a montanha barbudamente. Vejam Napoleão, sem barba, um desastre. Já os generais brasileiros do século XIX, barbados, não perderam uma guerra. Claro que estou brincando. E falando sério. Mas a ambiguidade não é minha. Cristo até o século VI era apresentado como imberbe. Sacerdotes egípcios raspavam todos os pelos do corpo, mas algumas rainhas, para representarem o poder, usavam barba postiça.
Barba é um assunto seriíssimo. O leproso era obrigado a usar um véu sobre a barba. Pedro, o Grande, declarou a barba infame e cobrava impostos dos barbados. Os hippies e Fidel Castro, nos anos 1960, reinventaram a barba para disputar o poder.
Ninguém deixa a barba crescer de um dia para o outro impunemente. Claro que em alguns períodos isto pode ser moda pura, e aí o gesto perde sua gravidade. A barba autêntica é aquela que nasce de uma crise que precipita o indivíduo nas cavernas do seu ser. Grandes místicos acordam um dia com a cabeleira encanecida após uma luta mortal entre anjos e demônios. Também da face de um profano podem escorrer os pelos da metamorfose numa inesperada manhã.
Há mulheres que, tendo conhecido a sabedoria erótica da barba nos lençóis do dia, nunca mais se contentarão com a banalidade barbeada de outros amores. Conheci uma que só alcançou o himalaia do seu erotismo quando o santo amante a elevou aos píncaros de sua barba. Conheci também casos dramáticos: um dia o marido foi ao barbeiro e, aceitando uma provocação, ordenou-lhe que raspasse de vez o cavanhaque e o bigode. Aceitava o desafio. Ia mudar a cara da vida. Contudo, ao regressar para casa os vizinhos já o estranharam e alguns nem o cumprimentavam. Ao abrir a porta, a filha deu um grito. A esposa acorreu, viu e desfaleceu. Depois, um conselho da família condenou o réu. O que pensava ele? Aquele cavanhaque pertencia à família. Resultado: o humilhado pai, o abatido esposo, ficou uma semana num consternado face a face com a família até que, recomposto, o cavanhaque pudesse desfilar pela vizinhança.
Se isto acontece a um simples cavanhaque, imaginem o que sucede a quem, de repente, não mais que repentinamente, raspa a sua peluda imagem do olho alheio.
As pessoas pensam que a sua imagem é delas. Não é. É também incalculavelmente dos outros. A comunidade exerce um controle sobre a imagem alheia. Passa por aí todo o fenômeno de estar na moda, inserir-se num padrão social. Tentem divorciar-se, mudar de religião, hábitos sexuais etc. Os demais sentem um terremoto nos pés. Foram traídos. Acham que o outro rompeu o equilíbrio do sistema. Um presidente não pode botar e tirar a barba à revelia, como edita decretos.
Quando se tem barba descobre-se um outro lado do homem-idade; os barbudos são uma confraria. Deveria até haver uma sociedade que os abrigasse, tipo maçonaria. Eles se observam se estudando minuciosamente, discretamente, nos teatros, bares e até num relance de olhos na calçada. Avaliam a barba do parceiro como só as mulheres sabem avaliar um penteado, uma joia ou vestido na outra. Quem tem espessa barba olha sempre condescendente para quem tem a rala barba de bode. Ter aquela barbona é coisa de animal macho, conferindo a superioridade de seus chifres na campina para o controle da fêmea.
Indizível prazer é esse de cofiar a barba. Inconsciente. Ritualisticamente. Enquanto se lê, enquanto se aguarda o outro dizer uma frase estúrdia, enquanto se toma um vinho ou se afaga o cão junto à lareira. No inverno, barba é ótimo. Coisa de urso. Sabiam que o urso cresce o tamanho do pelo de acordo com o rigor do inverno? Por que não o homem?
O misterioso fascínio dos barbudinhos
 Bem dizia Walmor Chagas outra noite, num jantar, quando se discutia a metafísica da barba: a barba é uma máscara como no teatro; é o outro em nós, um modo de o personagem se experimentar em cena.
A verdade é que a barba faz o sujeito, mas o sujeito faz a barba. Por isto, complementando o que se disse na primeira frase desta crônica, e invertendo-a, não se conhece bem o homem que nunca cortou a barba. A barba, como a sabedoria, administra-se. Não pode vir de fora para dentro.
Raspar a barba na manhã. Recuperar um ritual abandonado. O rosto se amplia. Santos óleos escorrem perfumando o dia. O cara a cara consigo mesmo. Também o desbastar, rejuvenescer. Toda manhã aquele barulhinho; croque-croque, rosque-rosque. O filho dentro e fora do pai vendo-o barbear-se. A luta contra o tempo (croque-croque, rosque-rosque), o tempo agreste, selvagem, que nos olha por trás do espelho irreversivelmente.

  (Sant’anna, Affonso Romano de - Que presente te dar)

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publicado às 03:59


Quando os amantes dormem

por Thynus, em 28.05.16
Aussi longtemps que tu voudras 
Nous dormirons ensemble. 
ARAGON 

Quando as pessoas se amam ou querem se amar, selam um pacto: dormir juntas. E quando se fala “dormir junto”, o sentido é duplo: significa primeiro amar acordado em plena vigília da carne, mas, depois, na lassidão do pós-gozo, deixar os corpos lado a lado, à deriva, dormindo, talvez. Na verdade, os amantes, quando são amantes mesmo, mesmo enquanto dormem se amam.
Agora ouço esses versos de Aragon cantados por Ferrat: “Durante o tempo que você quiser/ Nós dormiremos juntos”. E penso. É um projeto de vida, dormir juntos, continuadamente. A mesma ambiguidade: dormir/amar juntos, dormir/acordar juntos, ou, então, dormir/morrer de amor juntos. Deve ser por causa disto que os franceses chamam o orgasmo de “pequena morte”. Deve ser por isto que os amantes julgam poder continuar amando mesmo através da morte, como Inês de Castro e Dom Pedro, que foram sepultados um diante do outro, para que no dia do reencontro um seja o primeiro que o outro veja.
Como se comportam os casais enquanto dormem
 Amor: um projeto de vida, um projeto de morte.
Se numa noite dessas o vento da insônia soprar em suas frestas, repare no corpo dormindo despojado ao seu lado. Ver o outro dormir é negócio de muita responsabilidade. Mais que ver as águas de um rio represado gerando uma usina de sonhos, é ver uma semente na noite pedindo um guardião.
Pode ser banal, mas é isto: amar é ser guardião do sonho alheio. Os surrealistas diziam: o poeta enquanto dorme trabalha. Pois os amantes, enquanto dormem, se amam. Se amam inconscientemente, quando seus desejos enlaçam raízes e seivas. O pé de um toca o pé do outro, a mão espalmada corre sobre o lençol e toca o corpo alheio e, dormindo, se abraçam aninhados.
Quando isto ocorre, pode ter vários significados. Talvez um tenha lançado um apelo silencioso ao outro: “ajude-me a atravessar esse sonho” ou “venha, sonhe esse sonho comigo, é bonito demais”. E o outro, às vezes, sem se mexer, parte em seu socorro. É que certos sonhos, sobretudo os de quem ama, não cabem num só corpo. Transbordam os poros da noite e pedem cumplicidade. E se há um pesadelo, aí um se agarra ao tronco do outro na crispação do instante, e o corpo do parceiro é boia na escuridão.
Por isto, no ritual do casamento, quando o sacerdote indaga se os que se amam sabem que terão que se socorrer na saúde e na doença, na opulência e na miséria etc., deveria se inserir um tópico a mais e advertir: amar é ser cúmplice do sonho alheio.
Passar a metade da vida dormindo ao lado do outro. Há pessoas que vivem 25 anos — bodas de prata —, 50 anos — bodas de ouro —, 75 anos — bodas de diamante — ao lado do outro, e não sabem com que o outro sonha. E há quem passe uma tarde, uma noite ou temporada ao lado de um corpo e sabe seus sonhos para sempre.
Engana-se quem escuta o silêncio no quarto dos que amam. Estranhos rumores percorrem o sonho alheio. Não é o rugir do tigre pelas brenhas. Não é o bater das ondas na enseada. Nem os pássaros perfurando a madrugada. São os sonhos dos amantes em plena elaboração. E se numa noite dessas o vento da insônia de novo soprar em suas frestas, olhe pela janela os muitos apartamentos onde pulsam dormindo os amorosos. Quando se compra um apartamento novo, nas alturas, alguns compram lunetas e ficam vasculhando a vida alheia. Mas para ouvir o ruído dos sonhos basta abrir os ouvidos na escuridão. Os sonhos pulsam na madrugada.
Era uma vez um chinês que toda vez que sonhava com sua amada acordava perfumado. Deve ser por isto que, ainda hoje, o quarto dos amantes amanhece com um perfume de almíscar, lavanda e alfazema. E é comum achar troféus dos sonhos ao pé da cama de quem ama. Quando se abre a pálpebra do dia, aí pode-se ver um unicórnio de ouro e uma coroa de rubis.
À noite os sonhos dos amantes se cristalizam e de dia se liquefazem em beijo e lágrimas. Quem ama diz boa-noite como quem abre/fecha a porta de um jardim. Não apenas como quem viaja, mas como quem vai para a colheita.
Quando se ama, acontece de um habitar o sonho do outro, e fecundá-lo.

 (Sant’anna, Affonso Romano de - Que presente te dar)

 
Orgasmic Female Brain In 'La Petite Mort'

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publicado às 03:32

Este livro é uma seleção das entrevistas e perfis que fiz com escritores, críticos, artistas e
cientistas estrangeiros e brasileiros. Os textos foram publicados em três jornais, Folha de S.Paulo
(1992-95), Gazeta Mercantil (1995-2000) e O Estado de S.Paulo (em que estou desde maio de 2000
e onde já trabalhara entre 1991 e 92). Acho que uma das razões pela qual se é jornalista é o prazer
de encontrar pessoas diferentes e interessantes. Pergunto qual outra profissão me daria a
oportunidade de conversar com figuras humanas como João Cabral de Melo Neto, Stephen Jay Gould
ou Nelson Freire, tão díspares em personalidade, tão atraentes em talento. Se eu fosse povoar uma
“Ilha de Caras”, seriam estas pessoas que levaria e isolaria do oceano de futilidades que banha mais e mais a grande imprensa nacional e mundial.
(Daniel Piza)

Como Fernando Pessoa pode mudar a sua vida
 
Lisboa, bairro do Chiado, um dia chuvoso de outono, final dos anos 20. Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis se sentam ao redor de uma mesa no café A Brasileira. Pessoa está de capote e bengala, um tanto introspectivo, talvez preocupado com as contradições de algum mapa astral; Caeiro veste roupas de camponês, com respingos de barro na calça; Campos mostra o relógio Cartier que acaba de trazer de Paris; Reis carrega um dicionário de latim e pede vinho e água para todos. Pessoa, o mais velho dos quatro, dá início à conversa contando que começou a escrever um livro de poemas que planeja chamar de Mensagem e fazer conter todas as características da alma portuguesa em seu caráter universal. O trio se espanta. Até agora nenhum deles havia publicado livro; todos os poemas eram produzidos para revistas e jornais. Por que então a novidade?
– Estou farto de improfícuas agonias – responde Pessoa. – Pus a alma no nexo de perdê-la, e o meu princípio floresceu em Fim.
– Mas tu mesmo – pergunta Campos – não disseste que tudo é ilusão, sonhar é sabê-lo?
– E não pediste em canção ao Senhor – lembra Caeiro, aparentemente não recuperado da noite de ópio anterior – que eles nos desse ao menos a força de não mostrar a dor a ninguém?
– E quem disse que mostro? – reagiu Pessoa. – Não uso o coração, por isso escrevo livre do meu enleio. Sentir? Sinta quem lê!
– A tua lenha é só peso que levas – intervém Reis – para onde não tens fogo que te aqueça.
– Como assim? – perguntam os outros, confusos.
– Pouco usamos do pouco que mal temos. A obra cansa, o ouro não é nosso – diz Reis.
– Mas, meu caro – replica Caeiro, com um semblante ao mesmo tempo alegre e triste –, o único sentido íntimo das coisas é elas não terem sentido nenhum. Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
– Logo – diz Reis –, põe quanto és no mínimo que fazes.
– Então quero publicar – arremata Pessoa. – Penso profundamente, por isso tenho saudades.
– Mas por que fazer das saudades e pensamentos um livro? – insiste Reis.
– Porque todo começo é involuntário. Deus é o agente.
– Mas apenas mortos somos só nossos, entende? O que acho é que a lembrança esquece.
– Eu acho que a alma que sente e faz – argumenta Pessoa – conhece só porque lembra o que esqueceu. E, se é assim, vivemos porque houvesse memória em nós do instinto da raça. O mais é carne.
– Que angústia te enlaça? – perguntam os outros, juntos.
– Meu ser tornou-se-me estranho, e eu sonho sem ver os sonhos que tenho. A angústia é a vela que passa na noite que fica. Somos todos cadáveres adiados que procriam.
– Eu também – acrescenta Campos – sou um convalescente do Momento. Moro no rés do chão do pensamento e ver passar a Vida faz-me tédio. Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
– Então por que tu escreves? – contesta Reis.
– Para me unir ao exterior pela estética. Sou definidamente pelo indefinido – diz Campos, reticente – e em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim. Mas ao menos fica a amargura do que nunca serei.
– À arte o mundo cria – assente Reis, dando baforadas no cachimbo.
– Assim na placa o externo instante grava seu ser, durando nela.
– Meu misticismo é não querer saber – retruca Caeiro. – Não sei o que é a natureza: canto-a. Se eu morrer novo, sem poder publicar livro nenhum, peço que não se ralem por minha causa. Se assim aconteceu, assim está certo.
– E o nome inútil que teu corpo usou, vivo, na terra – diz Reis, apontando para Caeiro –, como uma alma, não lembra.
– Mas isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender – ressalta Caeiro. Os outros não conseguem definir se ele está sereno ou agoniado. – Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros, quer para fazer bem, quer para fazer mal. A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos. Querer mais é perder isso, e ser infeliz. Valeu a pena?
– Tudo vale a pena – responde rapidamente Pessoa – se a alma não é pequena. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu.
– Eu nunca fiz mais do que fumar a vida – observa Campos. – Produtos românticos, nós todos... Mas, como um Deus, não arrumei nem a verdade nem a vida.
– Mas por que tanta tristeza? – pergunta Reis.
– Não sei. Pela manhã eu estava um pouco triste. E o dia deu em chuvoso. – Campos olha para fora e vê a chuva caindo. – Deem-me o céu azul e o sol visível. Névoa, chuvas, escuros, isso eu tenho em mim.
– Tu és louco – critica Pessoa, sob olhar atônito dos companheiros. – Louco, sim, louco, porque quis grandeza qual a Sorte não dá. Mas sem a loucura que é o homem mais que a besta sadia?
Caeiro olha para o copo d’água à sua frente.
– Vês? Formam-se bolhas na água que nascem e se desmancham e não têm sentido nenhum salvo serem bolhas de água que nascem e se desmancham.
– Sentido nenhum? – pergunta Pessoa. – É do português querer, poder só isto: o inteiro mar, ou a orla vã desfeita. O todo, ou o seu nada.
– Mas e se ele não quiser? – questiona Campos. – Quem quer é Deus. Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar... O tédio? A mágoa? A vida? Deixase... Eu cumpro informes instruções de além, e as bruscas frases que aos meus lábios vêm soam-me a um outro e anômalo sentido. Veja a cor do outono: é um funeral de apelos para minha dissonância...
– Mas isso não é um fingimento? – interfere Reis. – Se não houver em mim poder que vença o futuro, já me deem os deuses o poder de sabê-lo.
– O poeta é um fingidor – diz Pessoa, irônico. – Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.
Caeiro está visivelmente cansado dessa conversa toda. Com um gesto de muxoxo, diz: – Há metafísica bastante em não pensar em nada. O que penso eu do mundo? Sei lá o que penso do mundo! Se eu adoecesse, pensaria nisso. E não estou nem alegre nem triste. Esse é o destino dos versos. Escrevi-os e devo mostrá-los porque não posso fazer o contrário. Passo e fico, como o Universo. Tu não concordas?
– Concordo – diz Pessoa, sem passar muita convicção. – Afinal, de quem é o olhar que espreita por meus olhos? Quando penso que vejo, quem continua vendo enquanto estou pensando? Às vezes, na penumbra do meu quarto, toma outro sentido em mim o Universo: é uma nódoa esbatida de eu ser consciente sobre minha ideia das coisas. – Dá um suspiro. – A fé já não tem forma na matéria e na cor da Vida.
– É, sentir a vida convalesce e estiola – diz Campos. – Acordamos e o mundo é opaco, levantamo-nos e ele é alheio. Saímos de casa e ele é a terra inteira, mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido. A metafísica, amigos, é uma consequência de estar mal disposto.
– E se colho a rosa é porque a sorte manda – ajunta Reis, depois erguendo o copo na direção dos outros. – Gozemos escondidos. Com mão mortal elevo à mortal boca o passageiro vinho, baços os olhos.
– De eterno e belo há apenas o sonho. Porque estamos falando ainda? – completa Campos. Os olhos de todos ficam tristes, até mesmo o de Caeiro.
– Os meus pensamentos são contentes – diz ele. – Só tenho pena de saber que eles são contentes. – Olha de novo para fora. A chuva parece ainda mais forte. – Pensar incomoda como andar à chuva quando o vento cresce e parece que chove mais. Ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar sozinho.
– A minha também – dizem juntos Campos e Reis. Os três olham para Pessoa, aguardando sua reação. Depois de um tempo em silêncio: – Caiu chuva em passados que fui eu – diz ele enfim, com olhos de ressaca, mirando um horizonte que já não existe. – Narrei–me à sombra e não me achei sentido. Erro-me, e nada mais quero nem peço... Triste de quem é feliz! Vive porque a vida dura. – E agora Pessoa fixa seus olhos nos amigos. – Sim, vocês estão certos. Ser descontente é ser homem. Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro.
Pessoa bebe o último gole de seu vinho. Olha para o romântico e entediado Álvaro de Campos, para o hedonista e cético Ricardo Reis, para o bucólico e realista Alberto Caeiro. Pensa em lhes apontar as contradições, mas vê que elas também são parcialmente suas. Pensa em lhes dizer “Eu criei vocês”, mas se sente também uma criatura deles. Deixa então o copo sobre a mesa e se despede: – Adeus.
– Adeus – respondem os outros em uníssono, enquanto partem cada um para um lado.
A chuva também se fôra.

Fernando Pessoa (1888-1935) foi o maior poeta português do século XX.
 (Daniel Piza - Perfis e Entrevistas)
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas
Que já tem a forma do nosso corpo
E esquecer os nossos caminhos que
nos levam sempre aos mesmos lugares
É o tempo da travessia
E se não ousarmos fazê-la
Teremos ficado para sempre
À margem de nós mesmos“.
(Luíza Caetano - Luiza e Fernando, DNA de almas)

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publicado às 16:14


Mistérios gozosos

por Thynus, em 26.05.16
Uma coisa especial ocorre com a mulher depois que ama. Reparem, estou dizendo, depois que ama. Não estou me referindo a ela enquanto está no ato do amor. Disto se pode falar também, e a literatura a partir do Romantismo e depois o cinema, modernamente, já tentaram de várias formas simular na relação amorosa como a mulher suspira, se contorce, desliza as mãos e entreabre a boca do corpo e da alma.
Quando a mulher é amada, e bem amada, ela ingressa nessa atmosfera sagrada, cuja descrição se aproxima daquilo que as santas estáticas descreveram. Uma aura de mistério as envolve.
 Mas, quando digo “depois que ama”, refiro-me ao estado de graça que a envolve após o gozo ou gozos, e que perdura horas e horas e às vezes dias. Fica macia que nem gata aos pés do dono. Mais que gata, uma pantera doce e íntima. Sua alma fica lisinha, sem qualquer ruga. A vida não transcorre mais a contrapelo. Desliza. Ela tem vontade de conversar com as flores, com os pássaros, com o vento. Sobretudo, descobre outro ritmo em sua carne. É tempo do adágio, de calma e fruição. Nesse período, aliás, o tempo para. Em estado de graça, ela se desinteressa do calendário. O cotidiano já não a oprime. As tarefas da casa, pesadas em outras ocasiões, tornam-se leves, os compromissos mais enjoados podem ser acertados, as tragédias dos jornais já não lhe dizem tanto respeito. O trabalho no escritório torna-se leve, pode ser feito quase cantando.
Algumas desenvolvem uma súbita necessidade de tecer, outras, de aninhar. Querem bordar, costurar, arrumar coisas na casa, entram em clima de nidificação. É a hora de uma ociosidade amorosa. Outras querem presentear o amado e o mundo com pratos sutilíssimos e saborosos. O fato é que a mulher nessa atmosfera sai do trivial, se angeliza e, glorificada, pervaga pela casa. O homem, animal desatento, às vezes não se dá conta. Em geral, nunca se dá conta. Ou dá-se conta nos primeiros minutos após o ato de amor, e depois se deixa levar pela trivialidade, deixando-a solitária em sua felicidade clandestina.
Na verdade, ela sobrepaira ao tempo, está adejando em torno do amado, que deveria suspender tudo para sentir desenhar-se em torno de si esse balé de ternuras. Deveria o homem avisar ao escritório: hoje não posso ir, estou assistindo à reverberação do amor naquela que amo. E como isto se assemelha à floração rara de certas plantas, os amados deveriam interromper tudo: seus negócios e almoços e ficar ali, prostrados, diante da que celebra nela o que ele ajudou a deslanchar. Já vi algumas mulheres assim. Era capaz de pressentir a 115 metros que elas estavam levitando de tanto amor que seus amados nelas desataram. Há uma coisa grave na mulher que foi ao clímax de si mesma. Que não esteja distraído o parceiro ou parceira. Ela tem mesmo um perfume diverso das demais. É um cio diferente. É quando a mulher descerra em si o que tem de visceralmente fêmea, fêmea tranquila que, mais que possuída, possui algo que atingiu raramente. As outras mulheres percebem isto e a invejam. Os machos farejam e se perturbam. É como se estivessem num patamar seguro a se contemplar. É quase parecido a quando a mulher vive a maternidade. Mas aqui é ainda diferente, porque na maternidade existe algo concreto se movimentando dentro dela. Contudo, nessa atmosfera que se segue a uma epifânica sessão de amor, é diverso, porque ela está acariciando uma imponderável felicidade.
Estou falando de uma coisa que os homens não experimentam assim. O gozo masculino é mais pontual e parece se exaurir pouco depois do próprio ato. Só os escolhidos, os de alma feminina, vez por outra, o sentem prolongar-se dentro de si. Mas, em geral, é diferente. Terminado o ato, uns até rolam para o lado e dormem como se tivessem tirado um fardo do ombro, outros acendem o cigarro, vestem suas ansiedades e voltam ao trabalho.
É constatável, no entanto, que o homem apaixonado também transmite força, alegria, energia. Ele oscila entre Alexandre, o Grande, e o artista que chegou ao sucesso. Também brilha. Mas é diferente. E não é disto que estou falando, senão do gozo feminino que não se esgota no gozo e se derrama em gestos e atenções por horas e dias a fio.
Freud andou várias vezes errando sobre as mulheres e, por exemplo, colocou equivocadamente aquela questão de que a mulher teria inveja do homem por ser este um animal fálico etc. Convenhamos: inveja têm (e deveriam ter) os homens quando prestam atenção no fenômeno que ocorre com as mulheres, que ao serem amadas atingem o luminoso êxtase de si mesmas, como se tivessem rompido uma escala de medição trivial para lá da barreira dos gemidos e amorosos alaridos.
É isto: quando a mulher foi amada e bem-amada, ela ingressa nessa atmosfera sagrada, cuja descrição se aproxima daquilo que as santas extáticas descreveram. Uma aura de mistério as envolve. E isto, por não ser muito trivial, por não ser nada profano, talvez se assemelhe aos mistérios gozosos de que muitos místicos falaram.

(Sant’anna, Affonso Romano de - Que presente te dar)

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publicado às 14:41

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