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CULTURA

por Thynus, em 29.10.15
“Não importa como você a olha, a vida é estranha. Muito estranha. Por exemplo: é um fato inquestionável que somos todos feitos exatamente da mesma substância das formas de vida mais inteligentes, criativas e magníficas do Universo. Além disso, somos feitos da mesma matéria atômica das maiores montanhas do nosso planeta e das estrelas mais brilhantes da nossa galáxia”.
(Bradley Trevor Greive)
 

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A primeira igreja da humanidade… Conhecimento, ideias e valores se tornam virais… Cultura humana e primata…



QUANDO NOS OLHAMOS no espelho todas as manhãs, vemos algo que poucos animais são capazes de reconhecer: nós mesmos. Alguns sorriem para a imagem e sopram um beijo, outros cobrem os defeitos com maquiagem ou fazem a barba, para não parecer descuidados. De qualquer maneira, essa reação humana é única no reino animal. Nós a temos porque, em algum lugar ao longo do caminho da evolução, os seres humanos se tornaram autoconscientes. Ainda mais importante, começamos a ter uma compreensão clara de que o rosto que vemos refletido irá criar rugas com o tempo, de que brotará cabelo em lugares embaraçosos ou, ainda pior, de que o cabelo deixará de existir. Ou seja, começamos a ter os primeiros indícios da mortalidade.
Nosso cérebro é nosso equipamento mental, e foi para sobreviver que desenvolvemos um cérebro com capacidade de pensar simbolicamente, de questionar e raciocinar. Mas esse equipamento, uma vez adquirido, pode ser usado para diversas finalidades; e assim como a imaginação do nosso Homo sapiens sapiens produziu um salto adiante, a percepção de que todos iremos morrer ajudou a dirigir nosso cérebro para questões existenciais como “Quem está no comando do cosmo?”. Essa não chega a ser uma questão científica em si, mas elucubrações como ela abriram caminho para perguntas do tipo “O que é um átomo?” e para considerações mais pessoais como “Quem sou eu?” e “Será que posso alterar o ambiente a meu favor?”. Quando os seres humanos remontaram para além das nossas origens animais e começaram a fazer essas indagações, nós demos o passo seguinte como uma espécie cuja marca registrada é pensar e questionar.
A mudança nos processos do pensamento humano que nos levou a considerar essas questões deve ter aferventado devagar por dezenas de milhares de anos, tendo início por volta da época em que nossa subespécie começou a manifestar o que hoje consideramos comportamentos modernos (mais ou menos há uns 40 mil anos). Mas só entrou em ebulição cerca de 12 mil anos atrás, por volta do final da última era do gelo. Os cientistas chamam os 2 milhões de anos que antecederam esse período de era paleolítica e os 7 ou 8 mil anos seguintes de era neolítica. Os nomes vêm das palavras gregas palaio, que significa “antigo”, neo, que significa “novo”, e lithos, que significa “pedra” – em outras palavras, antiga Idade da Pedra (Paleolítico, ou Pedra Lascada) e nova Idade da Pedra (Neolítico, Pedra Polida), ambas caracterizadas pela utilização de ferramentas de pedra. Apesar de chamarmos a mudança radical que nos levou da antiga para a nova Idade da Pedra de “revolução neolítica”, a questão não envolveu ferramentas de pedra, mas a nossa maneira de pensar, as perguntas que fazemos e as questões existenciais que consideramos importantes.
OS SERES HUMANOS do Paleolítico migravam frequentemente, todos em busca de comida, como meus filhos adolescentes. As mulheres colhiam plantas, sementes e ovos, enquanto os homens caçavam e recolhiam sobras de outros predadores. Esses nômades mudavam sazonalmente – ou até diariamente –, conservando consigo poucos bens, perseguindo o fluxo da generosa natureza, resistindo às dificuldades que ela impunha, vivendo sempre à mercê dela. Mesmo assim, a abundância de terras era suficiente para sustentar somente um indivíduo por quilômetro quadrado, e durante a maior parte da era paleolítica as pessoas viviam em pequenos grupos errantes, em geral com menos de cem indivíduos.(James E. McClellan III e Harold Dorn, Science and Technology in World History, 2a ed. (Baltimore, Johns Hopkins University Press, 2006), p.9-12.) O termo “revolução neolítica” foi cunhado nos anos 1920 para definir a transição desse estilo de vida para uma nova existência, em que os humanos começaram a se estabelecer em pequenas aldeias constituídas por uma ou duas dezenas de habitações e a mudar da coleta para a produção de alimentos.
Essa transformação provocou um movimento no sentido de moldar ativamente o meio, em vez de apenas reagir a ele. Em vez de viver da generosidade da natureza, as pessoas que viviam nesses pequenos povoados passaram a recolher materiais sem valor intrínseco na forma bruta para transformá-los em itens de valor. Por exemplo, começaram a construir casas de madeira, tijolos de barro e pedra; a forjar ferramentas a partir da ocorrência natural do cobre metálico; a tramar galhos para fazer cestos; a retorcer fibras de linho, de outras plantas e de pelos de animais, e a tecer fios para confeccionar vestimentas mais leves, porosas e fáceis de manter limpas que as peles de animais usadas até então; e a moldar e cozinhar argila transformando-a em potes e jarros para aquecer ou armazenar produtos alimentícios excedentes.(Muitos desses progressos tiveram precursores entre grupos nômades mais antigos, mas a tecnologia não prosperou, pois os produtos não se adaptavam ao estilo de vida errante. Ver McClellan e Dorn, Science and Technology, p.20-1.)
Pelo seu valor nominal, a invenção de objetos como potes de argila parece representar nada mais que a percepção da dificuldade que é transportar água dentro do bolso. De fato, até recentemente, muitos arqueólogos pensavam que a revolução neolítica foi apenas uma adaptação para tornar a vida mais fácil. A mudança climática do final da última era do gelo, de 10 a 12 mil anos atrás, resultou na extinção de muitos animais de grande porte e alterou os padrões de migração de outros, o que teria modificado o abastecimento alimentar dos humanos. Alguns também especularam que o número de humanos pode ter aumentado a ponto de a caça e a coleta não sustentarem mais a população. Nessa perspectiva, a vida sedentária e o desenvolvimento de ferramentas complexas e outros implementos foram uma reação a essas circunstâncias.
Mas há problemas com essa teoria. Por um lado, desnutrição e doenças deixam sua marca em ossos e dentes. No entanto, estudos realizados nos anos 1980 com restos de esqueletos do período anterior à revolução neolítica não revelaram essas marcas, o que sugere que as pessoas daquela época não sofreram privação nutricional. Aliás, evidências paleontológicas sugerem que os primeiros agricultores tiveram mais problemas com a coluna vertebral, dentes piores, anemia, mais deficiências de vitamina e que morriam mais jovens que as populações de humanos coletores que os precederam.(Para a história de Lucy e seu significado, ver Donald C. Johanson, Lucy’s Legacy (Nova York, Three Rivers Press, 2009). Ver também Douglas S. Massey, “A brief history of human society: the origin and role of emotion in social life”, American Sociological Review, n.67, 2002, p.1-29.) Ademais, a adoção da agricultura parece ter sido gradual, e não resultado de alguma catástrofe climática generalizada. Além disso, muitos dos primeiros assentamentos não mostram nenhum sinal de plantas ou animais domesticados.
Tendemos a pensar no estilo de vida coletor original da humanidade como uma luta dura pela sobrevivência, como um reality show em que os concorrentes passam fome na selva e são obrigados a comer insetos alados e guano de morcego. Será que a vida não seria melhor se esses coletores não tivessem ferramentas e comprassem sementes em algum depósito para plantar rabanetes? Não necessariamente. Segundo estudos realizados com alguns poucos caçadores e coletores remanescentes que viviam em inexploradas regiões da Austrália e da África ainda nos anos 1960, parece que as sociedades nômades de milhares de anos atrás podem ter vivido em estado de “abundância material”.(Marshall Sahlins, Stone Age Economics (Nova York, Aldine Atherton, 1972), p.1-39)
Normalmente, a vida nômade consiste em se estabelecer de modo temporário e continuar no local até que os recursos alimentares das imediações do acampamento se esgotem. Quando isso acontece, a busca de alimentos segue em frente. Como todos os bens precisam ser transportados, os povos nômades dão mais valor às pequenas posses que a itens maiores, vivem com poucos bens materiais e em geral têm pouco senso de propriedade ou posse. Esses aspectos da cultura nômade fizeram com que esses povos parecessem pobres e carentes para os antropólogos ocidentais que começaram a estudá-los no século XIX. No entanto, nas circunstâncias habituais, os nômades não enfrentam grandes desafios para obter alimento ou para sobreviver.
Estudos realizados com o povo San, na África (também chamados boxímanos), revelaram que suas atividades de coleta de alimentos eram mais eficientes que as dos agricultores europeus antes da Segunda Guerra Mundial.(Ibid., p.21-2) Pesquisas mais amplas sobre os grupos de coletores-caçadores abrangendo do século XIX até meados do século XX mostram que, em média, o nômade trabalhava apenas de duas a quatro horas por dia. Mesmo nas calcinadas terras de Botsuana, na África, com precipitação anual de apenas 150 a 250 milímetros, foram encontrados recursos alimentares de forma “variada e abundante”. A agricultura primitiva, ao contrário, exige longas horas de trabalho extenuante, com os agricultores removendo pedras e rochas, limpando o terreno e arando o solo duro com o auxílio de ferramentas rudimentares.
Tais considerações sugerem que as velhas teorias explicativas desses assentamentos humanos não contam toda a história. Agora, muitos acreditam que a revolução neolítica não foi, em sua essência, uma revolução inspirada por considerações de ordem prática, mas uma revolução mental e cultural, impulsionada pelo crescimento da espiritualidade humana. Esse ponto de vista se baseia no que talvez seja a descoberta arqueológica mais surpreendente dos tempos modernos, uma evidência notável sugerindo que essa nova abordagem humana da natureza não foi decorrente do desenvolvimento de um estilo de vida assentado, mas que o precedeu. Essa descoberta é um grande monumento chamado Göbekli Tepe, termo turco que definia o formato do local antes de ser escavado: “montanha barriguda”.(Andrew Curry, “Seeking the roots of ritual”, Science, n.319, 18 jan 2008, p.278-80; Andrew Curry, “Gobekli Tepe: the world’s first temple?”, Smithsonian Magazine, nov 2008; disponível em: http://www.smithsonianmag.com/history-archaeology/ gobekli-tepe.html, acesso em 7 nov 2014; Charles C. Mann, “The birth of religion”, National Geographic, jun 2011, p.34-59; Batuman, “The sanctuary”.)
GÖBEKLI TEPE ESTÁ LOCALIZADO no topo de uma colina, no que é hoje a província de Urfa, sudeste da Turquia. É uma magnífica estrutura, construída 11.500 anos atrás – 7 mil anos antes da Grande Pirâmide de Quéops –, não com os esforços hercúleos de colonos neolíticos, mas de coletorescaçadores que ainda não haviam abandonado o estilo de vida nômade. O mais surpreendente, contudo, é o uso para o qual foi construído. Datando de cerca de 10 mil anos antes da Bíblia dos hebreus, Göbekli Tepe parece ter sido um santuário religioso.--- Os pilares de Göbekli Tepe foram dispostos em grandes círculos de até vinte metros de diâmetro. Cada círculo tem dois pilares adicionais em forma de T, no centro, que parecem figuras humanoides, com cabeças alongadas e corpos longos e estreitos. O mais alto se eleva a 5,5 metros de altura. A construção exigiu o transporte de pedras maciças, algumas pesando até dezesseis toneladas, e foi realizada antes da invenção de ferramentas de metal, antes da invenção da roda e antes que os povos aprendessem a domesticar animais para transporte de carga. Além do mais, ao contrário das edificações religiosas de épocas posteriores, Göbekli Tepe foi construído antes que as pessoas vivessem em cidades que pudessem fornecer um grande centro de fonte organizada de trabalho. Como definiu a revista National Geographic, “descobrir que coletores-caçadores construíram Göbekli Tepe foi como encontrar alguém que tivesse feito um avião 747 no porão com a ajuda de um estilete”.
Os primeiros cientistas a vislumbrar o monumento foram antropólogos da Universidade de Chicago e da Universidade de Istambul que realizavam um levantamento da região nos anos 1960. Eles avistaram algumas lajes de calcário quebradas despontando da terra, mas acreditaram ser ruínas de um cemitério bizantino abandonado. A comunidade antropológica não deu a menor atenção. Três décadas se passaram, até que, em 1994, um fazendeiro local passou o arado por cima do que viria a se revelar um enorme pilar enterrado. Klaus Schmidt, arqueólogo que trabalhava na área e havia lido o relatório da Universidade de Chicago, decidiu dar uma olhada. “No minuto em que vi aquilo, eu sabia que tinha duas escolhas”, ele contou depois. “Ir embora e não contar a ninguém ou passar o resto da minha vida trabalhando aqui.”(Batuman, “The sanctuary) Ele escolheu a segunda alternativa e trabalhou no local até sua morte, em 2014.
Como Göbekli Tepe é anterior à invenção da escrita, não há textos sagrados espalhados cuja decodificação poderia lançar alguma luz sobre os rituais praticados no local. Por esse motivo, a conclusão de que Göbekli Tepe era um local de culto se baseia em comparações com sítios e práticas religiosas posteriores. Por exemplo, existem vários animais esculpidos nos pilares em Göbekli Tepe, mas eles não se assemelham à caça graças à qual os construtores do local subsistiam, como no caso das pinturas rupestres da era paleolítica, nem representam qualquer ícone relacionado a caçadas ou a ações da vida diária. As esculturas retratam criaturas ameaçadoras como leões, serpentes, javalis, escorpiões e uma fera semelhante a um chacal com a caixa torácica exposta. Considera-se que eram personagens míticos ou simbólicos, os tipos de animal mais tarde associados à adoração. Ruínas de Göbekli Tepe.
Esses povos antigos que visitavam Göbekli Tepe faziam-no por conta de um grande compromisso, pois o local foi construído longe de qualquer coisa. Aliás, ninguém descobriu evidências de que alguém tenha chegado a viver na área – sem recursos hídricos ou sinais de casas ou fogões. O que os arqueólogos encontraram foram ossos de milhares de gazelas e bisões que parecem ter sido trazidos de longe por caçadores a fim de servir de alimento. Para chegar a Göbekli Tepe era preciso fazer uma peregrinação, e as evidências indicam que o local atraía coletores-caçadores nômades de até cem quilômetros de distância.
Göbekli Tepe “mostra que as mudanças socioculturais vieram primeiro, a agricultura veio depois”, diz o arqueólogo Ian Hodder, da Universidade Stanford. Em outras palavras, o surgimento do ritual religioso de grupo parece ter sido uma importante razão para os seres humanos começarem a estabelecer centros religiosos que atraíram nômades para órbitas mais próximas, resultando afinal no estabelecimento de aldeias baseadas em convicções e sistemas de significados comuns.(Michael Balter, “Why Settle Down? The Mystery of Communities”, Science n.20 (nov 1998), p.1442-6) Göbekli Tepe foi construído numa era em que os tigres-dentes-de-sabre(O termo técnico é felinos-dentes-de-sabre) ainda vagavam pela paisagem asiática e o nosso último parente não relacionado ao Homo sapiens – caçadores e fabricantes de ferramentas de um metro de altura chamados de Homo floresiensis – havia sido extinto poucos séculos antes. Mas, ao que parece, seus antigos construtores já tinham subido de patamar, passando das perguntas práticas sobre a vida para perguntas espirituais. “É possível afirmar”, diz Hodder, que Göbekli Tepe “é a verdadeira origem das sociedades complexas do Neolítico.”(Curry, “Gobekli Tepe”)
Alguns animais resolvem problemas simples para arranjar alimento; outros usam ferramentas simples. Mas uma atividade que nunca foi observada em qualquer animal não humano, nem mesmo de forma rudimentar, é a tentativa de entender sua própria existência. Assim, um dos passos mais significativos na história do intelecto humano aconteceu quando os povos do final do Paleolítico e início do Neolítico desviaram um pouco a atenção da mera sobrevivência para se concentrar em verdades “não essenciais” sobre si mesmos e o meio ambiente. Se Göbekli Tepe foi a primeira igreja da humanidade – ao menos a primeira que conhecemos –, ele deve merecer um lugar consagrado na história da religião, porém, merece também um lugar na história da ciência, pois representou um salto na nossa consciência existencial, um momento em que as pessoas começaram a empreender grandes esforços para responder a grandes questões sobre o cosmo.
A NATUREZA PRECISOU de milhões de anos para que a mente evoluísse a ponto de ser capaz de formular perguntas existenciais. Mas, quando isso aconteceu, levou uma fração infinitesimal desse tempo para nossa espécie desenvolver culturas que revolucionariam a maneira como vivemos e pensamos. Os povos do Neolítico começaram a se estabelecer em pequenas aldeias, que se transformaram em aldeias maiores depois de muito trabalho para aumentar a produção de alimento, com a densidade populacional subindo de uma pessoa por 2,5 quilômetros quadrados para cem.(McClellan e Dorn, Science and Technology, p.17-22.)
A mais impressionante de todas as novas e gigantescas aldeias erigidas no Neolítico foi Çatalhöyük, construída por volta de 7.500 a.C. nas planícies da Turquia central, algumas centenas de quilômetros a oeste de Göbekli Tepe.(Balter, “Why settle down?”, p.1442-6) Análises de resquícios de plantas e animais sugerem que seus habitantes caçavam búfalos, porcos e cavalos selvagens e colhiam tubérculos silvestres, bolotas, gramíneas e pistache, mas se dedicavam pouco à agricultura doméstica. Ainda mais surpreendente, as ferramentas e os implementos encontrados nas moradias indicam que os habitantes construíam e mantinham as próprias casas e produziam sua própria arte. Parece que não havia divisão de trabalho de espécie alguma. Isso não seria estranho num pequeno assentamento de nômades, mas Çatalhöyük abrigava mais de 8 mil pessoas – mais ou menos 2 mil famílias –, com todo mundo, segundo palavras de um arqueólogo, “cuidando da própria vida”.
Por essa razão, os arqueólogos não consideram que Çatalhöyük e outras aldeias do Neolítico fossem cidades. As primeiras cidades só surgiriam muitos milênios depois. A diferença entre uma aldeia e uma cidade não é só uma questão de tamanho.(Marc Van De Mieroop, A History of the Ancient Near East (Malden, Mass., Blackwell, 2007), p.21; ver também Balter, “Why settle down?”, p.1442-6) Baseia-se nas relações sociais da população e na maneira como essas relações lidam com os meios de produção e distribuição. Nas cidades há divisão de trabalho, o que significa que indivíduos e famílias podem contar uns com os outros para obter certos bens e serviços. Ao centralizar a distribuição de diversos bens e serviços de que todos necessitam, a cidade desobriga os indivíduos e famílias de fazer tudo sozinhos, o que por sua vez possibilita que alguns se envolvam em atividades especializadas. Por exemplo, quando uma cidade se torna um centro onde o excedente agrícola colhido pelos fazendeiros que vivem nos campos ao redor pode ser distribuído entre os habitantes, pessoas que estariam concentradas em colher (ou plantar) alimentos ficam livres para exercer profissões, podendo se tornar artesãos ou sacerdotes. Mas em Çatalhöyük, embora os habitantes vivessem em casas vizinhas, os artefatos indicam que cada família se envolvia nas atividades práticas da vida de forma mais ou menos independente uma da outra.
No entanto, se cada família tinha de ser autossuficiente – se não podia comprar carne num açougue, não existia um encanador para consertar os canos e o telefone quebrado não podia ser substituído na loja Apple mais próxima (omitindo que o telefone caiu sem querer na privada) –, para que se dar ao trabalho de juntar tanta gente numa aldeia? O que juntava e unia as pessoas de assentamentos como Çatalhöyük parece ter sido a mesma cola que atraiu os seres humanos do Neolítico para Göbekli Tepe: o começo de uma cultura comum e de crenças espirituais compartilhadas.
A reflexão sobre a mortalidade humana veio a ser um dos aspectos dessas culturas emergentes. Em Çatalhöyük, por exemplo, há evidências de uma nova cultura em torno da morte e do ato de morrer que diferia radicalmente da dos nômades. Em suas longas jornadas por montanhas e rios revoltos, os nômades não podiam se dar ao luxo de carregar seus mortos ou enfermos. Por isso, era comum que as tribos nômades deixassem para trás os velhos e os mais fracos que não conseguiam seguir adiante. Os moradores de Çatalhöyük e de outras aldeias esquecidas do Oriente Próximo tinham uma prática oposta. As unidades familiares eram fisicamente próximas não só na vida, como também na morte:(Balter, “Why settle down?”, p.1442-6; David Lewis-Williams e David Pearce, Inside the Neolithic Mind (Londres, Thames and Hudson, 2005), p.77-8) em Çatalhöyük, eles enterravam os mortos sob o chão das casas. Crianças às vezes eram enterradas embaixo das soleiras da entrada de um cômodo. Sob uma dessas grandes edificações, uma equipe de escavação descobriu setenta corpos. Em alguns casos, um ano depois do enterro, os moradores abriam a cova e cortavam a cabeça do morto, para ser usada em cerimoniais.(Ian Hodder, “Women and men at Çatalhöyük”, Scientific American, jan 2004, p.81)
Além de se preocupar com a mortalidade, os habitantes de Çatalhöyük também vivenciavam uma nova sensação de superioridade humana. Na maioria das sociedades de coletores-caçadores, os animais eram tratados com muito respeito, como se caçador e caça fossem parceiros. Os caçadores não procuravam controlar sua caça, mas estabelecer uma espécie de amizade com os animais, que estariam cedendo sua vida ao caçador. Em Çatalhöyük, no entanto, os murais mostram figuras provocando e atiçando touros, javalis e ursos. As pessoas não sentiam mais uma parceria com os animais, elas os dominavam, usando-os da mesma forma que empregariam a palha para fazer cestos.(Ian Hodder, “Çatalhöyük in the context of the Middle Eastern Neolithic”, Annual Review of Anthropology, n.36. 2007, p.105-20)
Essa nova atitude acabaria levando à domesticação de animais.(Anil K. Gupta, “Origin of agriculture and domestication of plants and animals linked to Early Holocene climate amelioration”, Current
Science, n.87, 10 jul 2004; Van De Mieroop, History of the Ancient Near East, p.11) Nos 2 mil anos seguintes, foram domesticados carneiros e cabras, depois gado e porcos. De início, a caçada passou a ser seletiva – com manadas selvagens arrebanhadas até atingir certa idade e equilíbrio de gênero e as pessoas tentando protegê-las de predadores naturais. Com o tempo, porém, os seres humanos assumiram responsabilidade por todos os aspectos da vida dos animais. Como animais domésticos não precisavam mais lutar por si próprios, eles responderam desenvolvendo novos atributos físicos e um comportamento mais dócil, cérebros menores e menos inteligência. As plantas também começaram a ser controladas pelos homens – trigo, cevada, lentilha e ervilha, entre outras – e se tornaram atividade de jardineiros, e não de coletores.
A invenção da agricultura e a domesticação de animais catalisaram novos saltos intelectuais relacionados à maximização da eficiência desses empreendimentos. Agora os humanos tinham razões para aprender e explorar as regras e regularidades da natureza. Passou a ser útil saber como os animais se reproduziam e o que ajudava uma planta a crescer. Este foi o início do que se tornaria a ciência, mas, na ausência do método científico ou de qualquer valorização das vantagens do raciocínio lógico, as ideias mágicas e religiosas se misturavam e com frequência suplantavam as observações empíricas e as teorias, com um objetivo mais prático que o da ciência pura nos dias atuais: ajudar os seres humanos a exercer poder sobre o funcionamento da natureza.
Quando os homens começaram a fazer perguntas sobre a natureza, a grande expansão dos assentamentos do Neolítico propiciou uma nova maneira de respondê-las. A busca de conhecimento deixou de ser necessariamente uma empreitada individual ou de pequenos grupos, e ele podia ser obtido com a contribuição de muitas cabeças pensantes. Assim, embora tivessem praticamente abandonado a caça e a coleta de alimentos, esses seres humanos juntavam esforços para a caça e a coleta de ideias e de conhecimento.
QUANDO EU ESTAVA na faculdade, o problema que escolhi para minha tese de doutorado foi um desafio: desenvolver um novo método a fim de encontrar soluções aproximadas para equações quânticas insolúveis que descrevem o comportamento de átomos de hidrogênio no intenso campo magnético ao redor das estrelas de nêutrons – as estrelas mais densas e menores que se sabe existir no Universo. Não faço ideia da razão de ter escolhido esse problema, e parece que tampouco o orientador de minha tese, que logo perdeu o interesse pelo assunto. Passei um ano inteiro desenvolvendo diversas técnicas inéditas de aproximação, que, uma após outra, não se mostraram melhores para a solução do problema que os métodos já existentes, e portanto não eram válidas para o meu doutorado. Então, um dia, eu estava conversando com um pesquisador de pós-doutorado na porta do meu escritório. Ele trabalhava numa nova abordagem para a compreensão de partículas elementares chamadas quarks, que vêm em três “cores”. (Essa palavra, quando aplicada aos quarks, não tem nada a ver com a definição corriqueira de “cor”.) A ideia era imaginar (matematicamente) um mundo em que existisse um número infinito de cores, não apenas três. Enquanto falávamos sobre quarks, que não tinham absolutamente relação com o meu trabalho, tive uma ideia: e se eu resolvesse o meu problema fingindo que não vivíamos num mundo tridimensional, mas num mundo de infinitas dimensões?
Essa ideia soa excêntrica e adoidada, e era mesmo. Contudo, enquanto esmiuçávamos os cálculos matemáticos, descobrimos que, de modo estranho, embora eu não conseguisse resolver meu problema no mundo real, isso seria possível se eu o reformulasse em infinitas dimensões. Quando eu tivesse a solução, “só” precisava descobrir como a resposta teria de ser modificada para se aplicar ao fato de vivermos num espaço tridimensional para obter meu diploma.
O método se mostrou eficiente – agora eu podia fazer contas no verso de um envelope e chegar a resultados mais precisos que os cálculos complexos feitos em computador utilizados pelos outros. Depois de um ano de esforços infrutíferos, em poucas semanas concluí a maior parte do que se tornaria minha tese de doutorado sobre a “grande expansão N”, e no ano seguinte, no pós-doutorado, produzi uma série de textos aplicando a ideia a outras situações e outros átomos.(L.D. Mlodinow e N. Papanicolaou, “SO (2, 1) Algebra and the large N expansion in Quantum Mechanics”, Annals of Physics, n.128, 1980, p.314-34; L.D. Mlodinow e N. Papanicolaou, “Pseudo-spin structure and large N expansion for a class of generalized helium hamiltonians”, Annals of Physics, n.131, 1981, p.1-35; Carl Bender, L.D. Mlodinow e N. Papanicolaou, “Semiclassical perturbation theory for the hydrogen atom in a uniform magnetic field”, Physical Review A, n.25, 1982, p.1305-14) Um químico detentor do Prêmio Nobel chamado Dudley Herschbach acabou lendo sobre o nosso método num periódico com o estimulante título de Physics Today. Ele renomeou a técnica como “escalada dimensional” e começou a aplicá-la em seu campo de estudo.(Jean Durup, “On the 1986 Nobel Prize in Chemistry”, Laser Chemistry, n.7, 1987, p.23959; ver também D.J. Doren e D.R. Herschbach, “Accurate semiclassical electronic structure from dimensional singularities”, Chemical Physics Letters, n.118, 1985, p.115-9; J.G. Loeser e D.R. Herschbach, “Dimensional interpolation of correlation energy for two-electron atoms”, Journal of Physical Chemistry, n.89, 1985, p.3444-7) Uma década depois, organizou-se uma conferência acadêmica inteiramente dedicada ao tema. Não estou contando a história para mostrar que se pode escolher um problema terrível, perder um ano chegando a becos sem saída e mesmo assim acabar com uma interessante descoberta, mas para ilustrar que a luta humana para saber e inovar não é uma série de combates isolados e pessoais, mas um empreendimento cooperativo, uma atividade social que exige que os humanos vivam em assentamentos que possibilitem a plena interação de cabeças.
Essas outras cabeças podem ser encontradas tanto no presente quanto no passado. São abundantes os mitos de gênios isolados que revolucionaram nossa compreensão do mundo, realizaram feitos milagrosos ou criaram inovações no campo da tecnologia, porém, invariavelmente, isso é uma ficção. James Watt, por exemplo, que desenvolveu o conceito de cavalo de força, em homenagem a quem a unidade de energia, o watt, foi batizada, é conhecido por ter concebido o motor a vapor a partir de uma súbita inspiração que teve ao observar o vapor liberado por uma chaleira. Na verdade, Watt teve a ideia do seu dispositivo enquanto consertava a versão anterior de uma invenção que já era usada havia quase cinquenta anos quando ele começou a mexer nela.(Andrew Carnegie, James Watt (Nova York, Doubleday, 1933), p.45-64) Da mesma forma, Isaac Newton não inventou a física observando uma maçã cair da árvore. Ele passou anos reunindo informações compiladas por outros a respeito da órbita dos planetas. E se não tivesse sido inspirado por uma visita casual do astrônomo Edmond Halley (famoso pelo cometa), que lhe formulou uma questão matemática que o intrigava, Newton jamais teria escrito o Principia, que contém suas famosas leis do movimento e é a razão de ele ser reverenciado até hoje. Também Einstein não poderia ter concluído sua teoria da relatividade se não tivesse ido atrás de antigas teorias matemáticas a respeito da natureza do espaço curvo, auxiliado pelo amigo matemático Marcel Grossmann. Nenhum desses grandes pensadores poderia ter chegado às suas grandes realizações no vácuo. Eles contaram com outros homens e conhecimentos humanos anteriores, e foram forjados e alimentados pelas culturas em que estavam imersos. Não só a ciência e a tecnologia se desenvolvem sobre o trabalho de praticantes anteriores: as artes também. T.S. Eliot chegou a dizer: “Poetas imaturos imitam; poetas maduros roubam. … Bons poetas transformam em algo melhor, ou pelo menos diferente.”(T.S. Eliot, The Sacred Wood and Major Early Essays (Nova York, Dover Publications, 1997 [1920]), p.72)
A “cultura” é definida como comportamento, conhecimento, ideias e valores que se adquirem dos que estão ao nosso redor, e ela é diferente em lugares distintos. Os homens modernos agem de acordo com a cultura em que são criados; também adquirimos muito do nosso conhecimento pela cultura, o que se aplica muito mais a nós que a qualquer outra espécie. De fato, pesquisas recentes sugerem que somos até evolutivamente adaptados para ensinar outros seres humanos.(Gergely Csibra e György Gergely, “Social learning and cognition: the case for pedagogy”, in Y. Munakata e M.H. Johnson (orgs.), Processes in Brain and Cognitive Development (Oxford, Oxford University Press, 2006), p.249-74.)
Isso não significa que outras espécies não tenham cultura. Elas têm. Por exemplo, pesquisadores estudando grupos distintos de chimpanzés descobriram que, assim como todo mundo sabe identificar um americano como uma pessoa que viaja por outros países e vai atrás de restaurantes que servem cheeseburguer e milk-shake, eles também conseguem observar um grupo de chimpanzés e identificar seu lugar de origem a partir do repertório de comportamentos.(Christophe Boesch, “From material to symbolic cultures: culture in primates”, in Juan Valsiner (org.), The Oxford Handbook of Culture and Psychology (Oxford, Oxford University Press, 2012), p.677-92. Ver também Sharon Begley, “Culture club”, Newsweek, 26 mar 2001, p.48-50) Ao todo, os cientistas identificaram 38 tradições que variam entre essas comunidades de chimpanzés. Os chimpanzés de Kibale, em Uganda, os de Gombe, na Nigéria, e os de Mahale, na Tanzânia, pulam, arrastam galhos e batem no solo sob chuva forte. Chimpanzés das florestas de Tai, na Costa do Marfim, e de Bossou, na Guiné, abrem nozes quebrando-as com uma pedra achatada contra um pedaço de madeira. Outros grupos de chimpanzés podem ter transmitido culturalmente alguns usos de plantas medicinais. Em todos esses casos, a atividade cultural não é instintiva ou redescoberta a cada geração, mas algo que os jovens aprendem imitando as mães.
O exemplo mais bem documentado de transmissão cultural de conhecimento entre animais vem da pequena ilha de Kojima, no arquipélago japonês.(Boesch, “From material to symbolic cultures”; ver também Begley, “Culture club”; Bennett G. Galef Jr., “Tradition in animals: field observations and laboratory analyses”, in Marc Bekoff e Dale Jamieson (orgs.), Interpretation and Explanation in the Study of Animal Behavior (Oxford, Westview Press, 1990)) No início dos anos 1950, os tratadores de animais alimentavam símios do gênero reso todos os dias jogando batatas-doces na praia. Os macacos faziam o possível para tirar a areia antes de comer a batata. Um dia, em 1953, uma fêmea de dezoito meses chamada Imo teve a ideia de levar a batata-doce até a água e lavá-la. Isso não só removeu a aspereza da areia, como também deixou a batata mais salgada e saborosa. Os companheiros de brincadeiras de Imo logo aprenderam o truque. As mães demoraram um pouco mais, e depois foram os machos, com exceção de um casal mais velho – os macacos não estavam ensinando uns aos outros, mas observando e imitando. Em poucos anos, praticamente toda a comunidade tinha desenvolvido o hábito de lavar as batatas. Além disso, até aquele momento, os símios evitavam a água, mas agora começaram a brincar no mar. O comportamento foi transmitido pelas gerações e continuou durante décadas. Assim como acontece em comunidades litorâneas de humanos, esses símios desenvolveram uma cultura diferenciada. Ao longo dos anos, os cientistas descobriram evidências de cultura em muitas outras espécies – animais tão diferentes como orcas, corvos e, claro, outros primatas.(Boesch, “From material to symbolic cultures”; ver também Begley, “Culture club”) O que nos diferencia é que os humanos parecem ser os únicos animais capazes de criar coisas novas baseados em conhecimentos e inovações do passado. Um dia um humano percebeu que coisas redondas rolavam e inventou a roda. A partir daí, fomos construindo carroças, moinhos, polias e, claro, a roleta. Imo, por outro lado, não desenvolveu nenhum conhecimento pregresso dos chimpanzés, tampouco outros chimpanzés aperfeiçoaram a ideia dela. Os humanos conversam entre si, ensinam uns aos outros, tentam aperfeiçoar inventos antigos e trocam ideias e inspirações. Os chimpanzés e outros animais não fazem isso. Diz o arqueólogo Christopher Henshilwood: “Chimpanzés podem mostrar a outros chimpanzés como catar cupins, mas não conseguem se aperfeiçoar, não dizem ‘Vamos fazer isso com uma vareta diferente’ – continuam simplesmente a fazer sempre a mesma coisa.”(Heather Pringle, “The origins of creativity”, Scientific American, mar 2013, p.37-43)
Os antropólogos chamam o processo pelo qual a cultura se constrói sobre culturas prévias (com uma perda relativamente pequena) de “retenção cultural”.(Michael Tomasello, The Cultural Origins of Human Cognition (Cambridge, Mass., Harvard University Press, 2001), p.5-6, 36-41) Ela representa uma diferença essencial entre as culturas dos humanos e de outros animais, uma ferramenta surgida nas novas sociedades assentadas, onde o desejo de estar entre os pensadores e ponderar com eles sobre as mesmas questões se tornou o nutriente sobre o qual se desenvolveria o conhecimento avançado. Os arqueólogos às vezes comparam inovações culturais a um vírus.(Fiona Coward e Matt Grove, “Beyond the tools: social innovation and hominin evolution”, PaleoAnthropology, edição especial, 2011, p.111-29) Como um vírus, as ideias e o conhecimento exigem certas condições – nesse caso, condições sociais – para vicejar. Quando essas condições estão presentes, como em populações grandes e conectadas, os indivíduos de uma sociedade podem contagiar uns aos outros, e a cultura pode se disseminar e evoluir. Ideias que sejam úteis, ou que simplesmente proporcionem mais conforto, sobrevivem e dão surgimento à seguinte geração de ideias.
Companhias modernas, que dependem de inovações para seu sucesso, sabem bem disso. O Google, aliás, fez dessa prática uma ciência, mobiliando sua cafeteria com mesas compridas e estreitas para as pessoas se sentarem juntas, ou projetando filas para o bufê que demoram de três a quatro minutos – não tanto que os funcionários se entediem e resolvam almoçar um macarrão instantâneo, mas o suficiente para que se encontrem e conversem. Podemos citar também os Laboratórios Bell, que, entre os anos 1930 e 1970, foram a organização mais inovadora do mundo, responsável por invenções essenciais que tornaram possível a era digital – inclusive o transistor e o laser. Na Bell Labs, a pesquisa colaborativa era tão valorizada que os prédios foram projetados para maximizar a probabilidade de encontros casuais e uma das atividades dos funcionários envolvia viagens à Europa todo verão para atuar como intermediário entre ideias científicas de lá e as dos Estados Unidos.(Jon Gertner, The Idea Factory: Bell Labs and the Great Age of American Knowledge (Nova York, Penguin, 2012), p.41-2) O que a Bell Labs reconhecia é que quem frequenta grupos intelectuais mais numerosos tem mais chance de desenvolver novas invenções. Como enuncia o geneticista Mark Thomas, quando se trata de gerar novas ideias, “não se trata de quanto você é inteligente. Trata-se de quanto você é bem conectado”.(Pringle, “Origins of creativity”, p.37-43) A interconectividade é um mecanismo-chave na retenção cultural e um dos legados da revolução do Neolítico.

CERTA NOITE, pouco depois do aniversário de 76 anos de meu pai, nós dois saímos para uma caminhada depois do jantar. No dia seguinte ele seria internado para fazer uma cirurgia. Vinha se sentindo doente havia alguns anos depois de um derrame e um ataque cardíaco, sofrendo de prédiabetes e, o pior de tudo – do ponto de vista dele –, de uma azia crônica que o obrigava a uma dieta que excluía praticamente tudo que ele gostava de comer. Enquanto caminhávamos lentamente naquela noite, ele apoiado numa bengala, meu pai ergueu os olhos da rua para o céu e comentou como era difícil aceitar que aquela poderia ser a última noite em que estaria vendo as estrelas. Em seguida começou a me relatar o que se passava pela sua cabeça diante da possibilidade da morte. Aqui na Terra, ele me disse, vivemos num mundo caótico e turbulento, que na sua juventude o havia premiado com o cataclismo do Holocausto e na velhice com uma aorta que, contra todas as previsões dos especialistas, inchava perigosamente. O céu, ele continuou, sempre lhe pareceu um universo que seguia leis completamente diferentes, uma região de sóis e planetas que se moviam serenamente em órbitas antigas como o tempo e pareciam perfeitas e indestrutíveis. Esse era um assunto sobre o qual conversamos frequentemente ao longo dos anos. Quase sempre surgia quando eu falava sobre minhas mais recentes aventuras na física, quando ele me perguntava se eu realmente acreditava que os átomos que formavam os seres humanos estavam sujeitos às mesmas leis que os átomos do restante do Universo – do inanimado e dos mortos. Não importava quantas vezes eu respondia que sim, que realmente acreditava, ele não conseguia se convencer. Tendo em mente a perspectiva da própria morte, imaginei que ele se sentiria menos inclinado a acreditar na impessoalidade das leis da natureza e que se voltaria para pensamentos sobre um Deus de amor, como às vezes acontece com as pessoas. Meu pai raramente falava de Deus, pois embora tivesse sido criado acreditando no Deus tradicional, e ainda quisesse acreditar, os horrores que havia testemunhado tornavam difícil esse tipo de proposição. Mas, ainda assim, enquanto ele contemplava as estrelas naquela noite, achei que poderia estar buscando um refúgio em Deus. No entanto, ele disse algo que me surpreendeu. Falou que esperava que eu estivesse certo a respeito das leis da física, porque agora era um consolo a possibilidade de que, apesar da turbulência da condição humana, ele ser feito da mesma substância que as estrelas, tão perfeitas e tão românticas. Os seres humanos vêm pensando sobre esses temas pelo menos desde o tempo da revolução do Neolítico, e ainda não temos as respostas, porém, já que despertamos para essas questões existenciais, o segundo grande marco no caminho humano em direção ao conhecimento seria o desenvolvimento de ferramentas – ferramentas mentais – para nos ajudar a respondê-las. As primeiras ferramentas não parecem grande coisa, nada que se compare ao cálculo infinitesimal ou ao método científico. São as ferramentas fundamentais da troca de ideias, que nos acompanham há tanto tempo que tendemos a esquecer que nem sempre fizeram parte da nossa formação mental. Mas, para o progresso ocorrer, tivemos de esperar pelo advento de profissões que lidassem com a procura de ideias, e não com a busca de alimentos; pela invenção da escrita, para que o conhecimento fosse preservado e intercambiado; pela criação da matemática, que se tornaria a linguagem da ciência; e, finalmente, pela invenção do conceito de lei. Tão épicos e transformadores à sua maneira quanto a chamada revolução científica do século XVII, esses desenvolvimentos surgiram não tanto como produtos de indivíduos heroicos, com grandes raciocínios, mas como produtos colaterais gradativos da vida nas primeiras cidades.

(Leonard Mlodinow - De primatas a Astronautas)

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O que é nostalgia?

por Thynus, em 21.10.15
Nostalgia significa o estado de profunda tristeza causado pela falta de algo. É a sensação de saudade originada pela lembrança de um momento vivido no passado ou de pessoas que estão distantes. É um sentimento melancólico geralmente produzido em pessoas que se encontram longe da sua terra natal e sente saudades da sua pátria, do seu lar e de coisas que lhe são familiares.
Etimologicamente, a palavra nostalgia é formada pelos termos gregos nostós (que significa regresso a casa) e álgos (que significa dor). Esse sentimento de tristeza é causado em um indivíduo pela distância em relação a um lugar, pessoas ou coisas. Esse afastamento em relação a elementos queridos provoca abatimento e uma vontade extrema de voltar a esses momentos e lugares ou de estar com algumas pessoas.
A nostalgia pode gerar um comportamento anormal em indivíduos que foram afastados da sua terra natal ou separados da sua família. Há um forte desejo de regressar à pátria ou de rever os seus familiares. É um sentimento semelhante à saudade mas tende sempre a aumentar. Os pensamentos nostálgicos também podem estar associados a momentos de felicidade vivenciados em determinado período da vida, em alguns casos são idealizados.
O estado de nostalgia também é produzido através da lembrança da infância. Dos brinquedos, jogos, brincadeiras, programas de televisão e de outros momentos vividos quando criança.
O Romantismo foi um movimento cultural marcado pela nostalgia, que era manifestada pelos românticos na literatura, arquitetura e artes plásticas. Um estado de tristeza indefinida, tal como a melancolia.

(Significados)
Podemos falar de “nostalgia”?
E, se for o caso, em qual sentido?
Pode-se, como muitas vezes já se fez com relação à Odisseia, falar de “nostalgia”
para caracterizar as motivações de Ulisses? À primeira vista é o que parece. A própria
palavra tem uma consonância grega, pois é formada a partir de nostos, que vem de
nesthai, “regressar”, “voltar para casa” — palavra que dá origem ao nome Nestor,
“aquele que volta vitoriosamente” —, e algos, o sofrimento: a nostalgia é o desejo
doloroso de voltar ao lar. Não seria, precisamente, o que motiva Ulisses? Uma vontade
intensa, mas contrariada, de voltar a seu ponto de partida, “ao país” ou, para falar
como os românticos alemães, mestres por excelência em nostalgia, bei sich selbst,
voltar a si mesmo?
Porém, mais vale ser prudente nesse ponto e não se deixar levar pela magia das
palavras. Primeiro, porque o termo não pertence ao vocabulário dos gregos. Ele não se
encontra em parte alguma da Odisseia, nem, aliás, em nenhum texto antigo. E por razão
bem simples: foi forjado tardiamente, em 1678, por um médico suíço chamado Harder,
para traduzir um sentimento destinado a ganhar uma crescente importância no decorrer
dos séculos, principalmente no XIX: Heimweh, cuja equivalência em francês de hoje é
mal du pays.(1) Se deixarmos a esfera da filologia e da história e nos alçarmos à da
filosofia, vemos que existem, na verdade, três formas bem diferentes de nostalgia, que
o belo livro de Kundera que aborda esse tema nem sempre distingue.(2) Há primeiro a
nostalgia puramente sentimental, que lamenta alguma felicidade perdida, qualquer que seja — o ninho familiar, as férias desfrutadas na infância, os amores passados. Todos já tivemos experiências assim. Há, em seguida, a nostalgia histórico-política, que, no sentido próprio do termo, é “reacionária”, motivadora de todas as “Restaurações” e que se exprime muitas vezes em alguma língua morta, como, por exemplo, na expressão latina laudator temporis acti, que serve de título para um bonito livro (3) e que se pode
traduzir como “elogio dos tempos passados” ou, apenas, “antigamente era melhor”, isto
é, no tempo da Atlântida, antes da civilização moderna, da indústria, das cidades
grandes, do individualismo, da poluição, do capitalismo etc. Já sob essa influência, os
românticos do século XIX construíam na Alemanha e na Suíça ruínas antigas em seus
jardins, em vez de alamedas geométricas como as de Versalhes. Gostavam de assim
evocar a ideia do passado, do bom tempo, das civilizações em que os humanos eram
em tudo mais e melhores do que os de hoje: mais nobres, mais bem-educados, mais
grandiosos, mais corajosos etc. E por último, mesmo que o termo seja desapropriado
ou anacrônico, há a nostalgia dos gregos, a de Ulisses, que é, antes de tudo,
cosmológica e pode se resumir numa fórmula que tomo emprestada de um grande
filósofo, Aristóteles: phusis archè kinéséos, “a natureza é o princípio do movimento”,
isto é, a gente se move, como na Odisseia, para voltar ao lugar natural do qual se foi
injustamente deslocado (Ítaca), sendo a meta da viagem, para o herói, voltar ao acordo
perdido com a ordem cósmica.
Não é o amor que faz Ulisses se mover — ele nunca viu Telêmaco (o filho de Ulisses) e em grande medida já esqueceu Penélope (a mulher), a quem inclusive ele não para de enganar, sempre que a oportunidade se apresenta. É menos ainda um projeto de restauração política; se ele quer repor ordem em sua casa, não é para combater um declínio eventual que alguma revolução ou visão moderna tiver estabelecido. Não, o que em profundidade faz Ulisses se movimentar é o desejo de estar em casa, de se pôr em harmonia com o
cosmos, pois essa harmonia vale mais e é melhor do que a própria imortalidade prometida por Calipso. Em outras palavras, se ele aceita sua condição de mortal, não é como um consolo, mas, pelo contrário, para viver melhor. Como disse antes, escolher a imortalidade oferecida o teria despersonalizado, afastando-o dos outros, do mundo e, enfim, de si mesmo. Pois ele não é isso, não é um amante de Calipso que trai os seus,
não é alguém que esquece a pátria, que aceita viver em qualquer parte, no meio de lugar nenhum, com uma mulher que ele não ama de verdade. Não, isso não é Ulisses! E para ser o que ele realmente é, precisa aceitar a morte, não sob a forma de resignação, mas, pelo contrário, como um motor — aquilo que o leva, a qualquer preço, a buscar o seu ponto de partida. É a maneira pela qual o sábio deve viver a construção
cosmológica que até o presente só tínhamos apreciado do ponto de vista dos deuses. E é também, ao mesmo tempo, a primeira imagem da sabedoria para os mortais, da espiritualidade leiga que a mitologia grega vai, por assim dizer, legar à filosofia. E essa sabedoria que Ulisses consegue perfeitamente encarnar — sem dúvida ele é o primeiro na literatura — desfruta, deve-se reconhecer, um enorme charme.

(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

NOTAS:
(1) - Mais ou menos “saudade de casa”, ou do oikos, como utiliza o autor
(2) - A ignorância
(3) - De Lucien Jerphagnon, um filósofo cujos livros deveriam ser mais lidos

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