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O bispo pediu-lhe que ficasse em período de reflexão para reconsiderar a decisão, Francisco Martins era pároco de Oliveira do Bairro desde 2011.

 

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O padre Francisco Martins, que era pároco de Oliveira do Bairro desde 2011, decidiu abandonar o sacerdócio para constituir família com a mulher por quem se apaixonou. É um de cerca de 400 padres que abandonaram o ministério nos últimos anos, de acordo com dados da Associação Fraternitas, citados pelo Jornal de Notícias.

O padre Francisco comunicou a sua decisão ao bispo de Aveiro, D. António Monteiro, no dia 1 deste mês. O bispo pediu-lhe que ficasse em período de reflexão para reconsiderar a decisão. O Jornal de Notícias conta que Francisco Martins não quis reconsiderar, nem renovou os votos sacerdotais na Quinta-feira Santa juntamente com os outros padres da diocese.

Um membro da Comissão Fabriqueira da igreja de Oliveira do Bairro contou ao Jornal de Notícias que o padre informou os paroquianos de que ia deixar de exercer o ministério por ter intenções de constituir família. Segundo o JN, os membros da paróquia compreenderam.

Francisco tem 43 anos e foi ordenado aos 25 na Sé de Aveiro. Mais de 400 padres já abandonaram o sacerdócio nos últimos anos, de acordo com a Associação Fraternitas, que apoia os padres que foram dispensados do ministério. Para casarem pela igreja, os padres que tenham abandonado as funções têm que ter uma dispensa papal das obrigações sacerdotais e e do celibato. A obtenção dessa dispensa pode ser um processo lento.

 

(DN)

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publicado às 12:22


Fluxograma evolutivo do ser humano

por Thynus, em 20.04.15
O fluxograma evolutivo é a tentativa esquemática de delinear os momentos mais críticos ou as passagens mais notórias e influentes da trajetória humana.
E o tema de hoje será: Fluxograma…MEU FUTURO NÃO MUITO DISTANTE
 
O ser humano é concebido e lançado num universo, num país, num lugar concreto, constituído por elementos interligados e interdependentes que forniam uma "ordem social" de classes. Participa de grupos, de família, da sociedade, tudo hierarquizado sob liderança somada do estado civil e religioso. Nessa realidade, convive com personagens que se hierarquizam segundo determinadas normas. Nasce numa estrutura já em si social. Ninguém tem a experiência de ser um indivíduo isolado, e sim a da relação com duas ou mais outras pessoas, e as figuras do pai e da mãe, mesmo quando ausentes, permanecem sempre psiquicamente presentes. Desde cedo, exercita-se na disputa da sobrevivência, faz tentativas de reunificação, busca adaptação com cada um e com todas as personagens e normas de determinado país e de determinada época.
O ser humano herda todo o passado da vida biológica Assimila a cultura de seu meio ambiente, tornando-se ele próprio uma ressíntese global dela, munido de força auto-organizante e complexificante, expressa por mecanismos de feedback cada vez mais eficientes e rápidos.
A vida, pensada no seu nível inconsciente, é um robô com limites mais ou menos deterministas ou matemáticos, com uma programação definida, pela qual cada um automaticamente respira, opera seu batimento cardíaco, defende-se, expressa seus tensionamentos instintuais. A consciência, ao se manifestar na evolução, veio libertar a vida dessa perspectiva limitante e, em certo nível e em determinadas proporções, tornar o ser humano cocriador e corresponsável pela sua vida e a de seus semelhantes e por seu ecossistema.
A atenção, a vontade, a consciência e a intenção, que são as capacidades denominadas mentais superiores, associadas às anteriores de sobrevivência e reprodução, vieram trazer ao homem responsabilidade maior: a de feedback do planeta. Já não é possível somente constatar a existência da realidade do sistema solar. E fundamental procurar mantê-lo, aprimorá-lo e mesmo redirecioná-lo.
Somos concebidos sem nosso consentimento. Nascemos num meio onde tudo está ligado a tudo. Somos todos interdependentes. Constituímos grupos, comunidades, sociedades. Nossos antepassados fizeram cultura — o somatório de todos os fazeres humanos.
No processo denominado de socialização, ninguém escapa da internalização de agendas, praxes, símbolos, crenças, valores, sanções de seu meio. Somos domesticados e submetidos a comportamentos básicos impostos. Permanecemos heteroconduzidos até determinada fase da história pessoal de cada um de nós. Não há como ser diferente. Trata-se de mecanismo de regulação mantido conscientemente pelos detentores do poder e saber nos vários níveis de organização (família, comunidade, nação etc.). Com ele e através dele controlam-se todas as manifestações da energia do ser humano, que reclama, esperneia, faz revoluções, quase sempre em vão. Esse confronto, que vem desde a infância, aguça um dispositivo de feedback que cada um tem, tendendo à auto-orientação, à consciência de si.
De início, com pequena maturidade e precária estruturação de estratégias e metas, pouco se consegue a não ser desenvolver maior conscientização. Aos poucos e para alguns poucos, pode culminar na autocondução: opção por assumir a vida, a si e às regras do jogo, não capitular a perda da individualidade dentro do processo social.
Esse cada dia ser/estar mais necessita de constante expansão do campo da consciência, por autoavaliação periódica em busca de comunhão progressiva. Para tal, precisa-se criar ou modificar comportamentos, ou aprender a conviver com alguns deles dentro de uma autorregulagem, praticamente diária, de nossa integração, sem uma perspectiva possível de ponto de chegada.
No Universo, tudo o que se conhece é energia, e todas as unidades de ser podem ser consideradas sistemas transformadores de energia Todos os sistemas estão em permanente movimento e transformação.
A evolução é o resultado da ação da entropia natural, do mistério da anatropia — fonte da esperança do ser humano e da intervenção do processo contínuo de realimentação e feedback. Todos os sistemas que compõem o macrossistema "universo" trocam energia entre si, interagem, comunicam-se, trocam informação permanentemente. A evolução de um sistema é por ciclos sucessivos, cronologicamente verificáveis. Cada ciclo é produto do ciclo que o antecede e gestor do seguinte. Os ciclos posteriores são epigênese dos anteriores e sua recorrência. Quando a entropia atinge ponto crítico, ocorre a epigênese.
Denomina-se feedback o processo que leva o sistema para novas formas de integração interna e externa (em relação a si próprio ou em relação a outros sistemas).
 
Ciclos do sistema energético humano
Munidos dessa compreensão, podemos facilmente perceber, na trajetória da vida do ser humano, que as etapas de seu desenvolvimento formam um conjunto de ciclos evolutivos, epigenéticos e recorrentes por feedback, que culminam em etapas consecutivas de integração interna e externa com outros sistemas energéticos. O conjunto desses ciclos evolutivos da vida individual denomina-se fluxograma evolutivo do homem. O fluxograma do ciclo vital de um indivíduo retrata, basicamente, a evolução de seu processo de hétero e autocondução.
Essa divisão cronológica apresenta indicações gerais, pois os ciclos têm durações diferentes para cada homem e para cada mulher, e os acontecimentos decisivos não escolhem hora e não costumam avisar.
Há quem divida os ciclos de 7 em 7 anos ou de 9 em 9. Cada um deverá descobrir isso em sua vida.
O esquema mostrado na abertura do capítulo 12 tenta delinear os momentos mais críticos ou as passagens mais notórias e influentes da trajetória humana, eventos estes sempre tutelados pela Religião e o Estado: concepção, nascimento, educação, profissionalização, casamento, carreira, tropeços, aposentadoria, transformação ou morte, memória póstuma.
Vivendo bem ou mal essas etapas, a caminhada se processa Cada volta da espiral chama-se "etapa evolutiva" ou "idade trampolim", baseada na epigênese do ciclo anterior. Assim cada "idade trampolim" nasce da anterior, contendo, em seu âmago, prolongamentos da etapa anterior.
Uma "idade trampolim" qualquer supõe que a anterior tenha sido suficiente e satisfatoriamente vivida e assumida. Caso contrário, fica pendente e provocará entropia em momentos posteriores da vida.
Como a saúde de uma pessoa pode ser conceituada como um processo contínuo e dinâmico de feedback de seu cérebro na relação triádica consigo mesma, com outras pessoas, grupos e classes sociais, a análise esquemática dessa trajetória e de suas fases serve como guia, como sinalização da pista existencial. A ideia essencial aqui é a de acoplar o fluxograma biológico (desenvolvimento neuropsicomotor, plenitude e decadência) aos níveis psíquicos e aos papéis sociais que cada um desenvolve ao longo de sua vida
Como é que uma pessoa conduz sua vida obedecendo às imposições biológicas, ajustando-as a seus ciclos psíquicos e às suas posturas políticas e econômicas? Em cada ciclo, a pessoa tem determinado desenvolvimento biológico, e vão sendo construídas, em cima, uma estrutura psicológica e uma práxis social. Quando a pessoa chega na idade de autocondução psíquica (16-18 anos), deveria ter o mínimo de conhecimentos para sua autocondução. Devendo conhecer a saúde no parentesco, na manutenção, no lazer, no trabalho, nos 14 sistemas e saber integrá-los de forma proporcional e harmônica.
Há autores que atingem apenas um dos ciclos do fluxograma humano: por exemplo, "Como viver bem a velhice" ou "Como ultrapassar o período da menopausa ou da idade do lobo". Não adianta encarar um ciclo sem encarar os outros: é um todo, em cadeia. Se uma pessoa sabe que vai morrer (tem uma determinada expectativa de vida) e conhece as várias fases do fluxograma total, mesmo antes de ultrapassá-las, pode melhor planejar seu ciclo atual. Cada um segue um "script", um programa biológico, genealógico-familiar, classista-nacional e internacional, que se pode descobrir pelo fluxograma evolutivo da dinâmica individual. A ideia, portanto, é justapor e reorganizar esses fluxogramas (biologia, psicologia, sociologia) de maneira pessoal, e não como a sociedade manda. Senão fica assim: "Aos cinquenta anos começa a velhice", e a pessoa é obrigada a ficar velha, a assumir exclusivamente o papel de avô ou de avó. Não se é obrigado a proceder assim sempre, a não ser que se queira assumir a programação feita desde a infância. É bom conhecer o fluxograma psicológico e sociológico pré-estabelecido pelo Estado e pela Igreja para a trajetória existencial humana e, ao demitizá-la, poder aspirar à construção de sua própria existência.
É bom que as pessoas possam saber previamente o que as espera em cada sistema e em cada ciclo. Não se trata de fatalidade, mas sim de se permitir algumas possibilidades de previsão.
 
"Pacote" religioso e civil da peregrinação humana
Cada pessoa é um sistema unitriádico, que evolui e vive em ciclos, cuja soma forma uma espiral que se chama "fluxograma da dinâmica individual". Para a entrada e saída em cada ciclo, a cultura religiosa e civil e um limite possível de variação. Existe o maya masculino e o feminino com toda uma divisão de trabalho. O Estado (pai, lado esquerdo do cérebro) e seu respectivo maya masculino cuidam da ciência, dos negócios, do dinheiro; e a Igreja (mãe, lado direito do cérebro) e seu respectivo maya feminino cuidam do amor, da família, do sexo, da moral, da mística e do homem.
Até os 15 anos o ser humano geralmente é influenciado e incorpora a estrutura e os papéis do modelo Maya inicial. Se, a partir daí, a pessoa quiser seguir modelo novo, precisará romper de um lado e de outro com os papéis instituídos de mãe, pai, professor, professora, adolescente masculino e feminino, homem e mulher, profissional masculino e feminino etc. Precisa desatrelar-se desses papéis mostrados no centro do esquema, inclusive no que se refere à saúde e aos demais 13 subsistemas.
O Estado e a Igreja determinam o que se tem de fazer com a biologia, o que se é e o que se tem de ser, os cuidados para cada ciclo, os cuidados com o sexo, com o estômago, se podemos beber, fumar etc. Depois de casados, prescrevem como vai ser a atividade sexual, os seguros de saúde de cada cônjuge. Em certa faixa, sugerem sauna, fisioterapia, caminhada, plástica, emagrecimento etc. Noutra, decidem que você tem de ser velho, tem de ir para o asilo, morar sozinho, tem de ser avô, avó, consultar um geriatra, virar sucata etc. Por fim, queixam-se porque você ainda não morreu, não preparou o testamento, não preparou o túmulo, "está criando um rombo na Previdência.."
Do nascimento até os quinze anos, domina o estado religioso; dos quinze aos cinquenta anos, o estado civil; depois este devolve o ser humano, como "sucata", para o estado religioso, que ajudará o indivíduo a "achar" o sentido da vida, ligar-se no amor universal, na divindade, no absoluto... Pelo modelo maya civil e religioso, a perspectiva de desfrute de seu capital corporal é nenhuma A regra geral é reprimir seu corpo e todas as suas partes, não usá-lo, não mostrá-lo, gastá-lo trabalhando para os outros, entregá-lo ao cemitério do Estado e da Igreja.
Quais seriam as perspectivas de vida, bem-estar geral (saúde) num modelo novo (upaya)?
Biologicamente, não se escapa de resfriado, artrose, velhice, estresse. Podemos escapar (e devemos tentar) dos condicionamentos de saúde e sofrimento que o estado civil e religioso impuseram, apelando para métodos alternativos, associados, preventivos, para autoprogramação mental, para uma organização social libertadora O principal é descumprir o que está programado inicialmente. Isso já melhora bastante.
 
Detalhes de cada ciclo
O ser humano começa a se estruturar desde o momento da concepção como fruto de pai e mãe e sua genealogia. O período da gestação e os primeiros anos (0 a 5 anos) se caracterizam como o de simbiose — criança/mãe, período organizatório fisiológico e de maior assimilação das mínimas pressões. É um período de máxima importância para a explicação dos comportamentos aberrantes ou indesejáveis.
Nesse período, a criança sofre um recheio mental triádico (normas, emoções, ações) nos 14 subsistemas. Esse recheio vem de acordo com os interesses e crenças de quem o faz: instituições criadoras, educadoras e formadoras (família, escola, vizinhança, religião, televisão etc.). Nessa fase, a criança simplesmente imita ou rejeita o comportamento dos pais e outras pessoas significativas.
Esse recheio, que ocupa todo o espaço mental da criança, é valorado, marcado com sinais de "bem" ou "mal", "certo" ou "errado". As partes que recebem o sinal "bem" são reforçadas com carinho, afeto, manifestações de aprovação (que, sabemos hoje, fazem despertar e aumentar a taxa de neurotransmissores denominados endorfinas). Essa endorfina, secretada por estruturas do sistema nervoso central, produz estado de bem-estar, semelhante ao de pessoas que estão amando: humor positivo, relaxamento muscular, ausência de estresse, respiração fácil e reanimadora, sedação, euforia, êxtase, estado de plenitude estética e mística.
As que recebem o sinal "mal" levam à supressão da endorfina, antagonizada pela predominância da taxa de outros neurotransmissores sucedâneos da adrenalina, causando um estado de mal-estar na criança (semelhante aos estados de depressão do adulto pela perda de um amante ou de um ser querido, por exemplo) e criando a necessidade de livrar- se dele por meio de qualquer tipo de reparação.
Esse dispositivo de alarme que age no sentido de impedir que a criança faça qualquer coisa proibida pelos recheadores chama-se censura, remorso, complexo de culpa-reparação. A esse recheio mental chama- se "consciência de empréstimo", porque foi enxertada ou moldada por agentes externos, sem a participação da pessoa interessada, por incapacidade dela de construir, sozinha, a sua própria consciência.
Haverá consciência real, verdadeira, quando houver uma desmontagem (decomposição e recomposição) com lugar também para as metas pessoais, além das metas grupais e societárias que antes submetiam totalmente a pessoa.
Na fase de 0 a 5 anos, os recursos usados pela criança para se integrar no universo são de ligação (cooperação) e de rejeição (competição). A luta triádica, aqui, é pela busca da fonte de energia concentrada em pai e mãe. Por isto, começa cedo a competição com os irmãos (dinâmica de grupo).
O "espírito" de competição e cooperação entre irmãos é inerente ao ser humano, biológico, energético, genético, e serve para ter e ser sempre mais. Pode ser atenuado ou exacerbado pelo processo de educação. Chama-se a essa tendência humana de maximocracia; cada um quer o melhor, o maior, o mais valorizado, o mais frequente para si. A família sempre tem os três subgrupos. A criança começa como oscilante frente a esse jogo, mas aos poucos vai se posicionar com o subgrupo que lhe for mais gratificante ou o subgrupo que lhe permitir sobreviver melhor.
E preciso quebrar o mito de que existe ressonância entre pais e filhos por causa do sangue, da hereditariedade. A criança apega-se a quem for sua fonte de energia. Não existe amor materno e paterno, "laços de sangue", e sim apego a fontes de energia e endorfinas. O resto é mitologia familiar.
Alimentação adequada, higiene, ambiente sadio, atitude positiva de quem está criando vida, controles periódicos são necessários para uma gestação sadia.
De 0 a 5 anos, a criança deve ser orientada pela mãe, principalmente até os 3 anos, sendo fonte de carinho, de aconchego ou de rejeição, de manutenção. Depois, até os 5 anos passam a ser importantes a figura do pai e irmãos (exercício do jogo triádico).
A amamentação é fundamental: contato com o seio, mesmo se não houver leite materno, horário, tempo e ambiente corretos, posição, toques, certo entendimento da fisiologia da amamentação, acoplamento global e harmônico entre mãe e filho, que vai se constituir na medida mais importante para a profilaxia da neurose.
Nessa fase é preciso conhecer as doenças próprias da idade e reconhecer a importância da assessoria de um pediatra de confiança. Aqui, as condutas vão depender muito da negociação entre a mãe e o profissional e de seus graus de discernimento, experiência, conhecimento, consciência e envolvimento real na saúde da criança.
Na etapa de 5 a 10 anos, persiste acirrada competição entre irmãos pela principal fonte de energia, que continua sendo a dos pais. Ocorrem também a busca de energia e a tentativa de integração em esferas mais amplas que a da família: escola, igreja, clubes de lazer, vizinhança, dentro de posições já estabelecidas pelo sociograma familiar, com suas recorrências ou repetições. E uma fase de crescimento e de formação ideológica e religiosa.
São comuns as relações de competição, os ciúmes, as inflamações de garganta, a falta de orientação sobre sexualidade, as inadaptações escolares, os problemas visuais, os acidentes na escola, os piolhos, as pragas, a fimose, os problemas de postura, o fascínio pela televisão.
Na dinâmica de grupo (familial'), a posição dos participantes já se define principalmente pela dominância do lado do cérebro de cada um e pelas posições subgrupais alcançadas na primeira fase familiar: oficial, natural, oscilante; irmão mais velho, irmão do meio, caçula; filho único, filho adotivo etc.
Na etapa dos 10 aos 15 anos completa-se o desenvolvimento do sistema pessoal, e ocorre a tentativa de autocondução, através de metas pessoais. Inicia-se a tentativa de comunhão e integração com outros efetuadores. As entradas mais tensionantes nessa época são as referentes à luta pela emancipação e administração pessoal da vida.
A luta por uma consciência pessoal (uni self) é marcante na adolescência O adolescente nega e combate destrutivamente a família, as instituições e tudo o que representa impedimento real ou suposto para a emergência de um eu autônomo. Trava luta de emancipação externa sem saber que, mesmo matando ou destruindo quem o pressiona, não se sentirá livre, porque a forma de dominação a que está submetido é muito mais sutil. Instalada no âmago de seu mecanismo vital, inconsciente, despercebida, difícil de ser reconhecida, superdefensiva, autoperpetuante: uma espécie de piloto automático insensível e invisível dentro dele — que se chama sistema político (desde a autoridade familiar até governamental e "sobrenatural"). Gagueira, doenças venéreas, doenças de crescimento, orfandade, crises convulsivas, dentre outras, são comuns nessa fase.
Dos 15 aos 25 anos, a disputa de energia, além da iniciação profissional, consiste na busca de alguém, geralmente buscando semelhanças físicas ou psíquicas com a primeira fonte de energia da infância. E a tentativa de comunhão a dois, com a utilização de recursos inconscientes, desenvolvidos na competição familiar. E a fase de saída, "renúncia" da família, e de opção por fazer sua própria vida. Os subsistemas tensionadores nesse período são o Parentesco, a Lealdade, o Pedagógico, o Patrimonial e o Político. Nessa fase, é comum ocorrerem problemas com gravidez, aborto, anticoncepcionais, doenças profissionais, doenças de esporte, depressões, psicoses, doenças mentais.
Dos 25 aos 35 anos, dá-se um período de comunhão a dois, fechado, exclusivista, através de amizade, namoro, casamento. Quase sempre o processo de comunhão ocorre, se desenvolve e se mantém, ou não, por recorrência de mecanismos aprendidos na infância e sem atitude muito consciente no que se refere à convivência (dinâmica de grupo estabelecida) e à posição subgrupal de cada um e de ambos nos seus intercâmbios.
Após essa fase, surge a necessidade de ampliação de fontes de energia (filhos, amigos). Vai-se para uma esfera mais ampla, que é a integração na dinâmica grupal, processo esse chamado de comunhão ampliada. Observa-se, frequentemente, a incidência de neuroses, ciumeiras, cardiopatias, hiperdinamismo, obesidade, problemas de coluna, doenças mentais, descompensação por lutas familiares, divórcio etc.
Dos 35 aos 45 anos, pressupõe-se alcançar autossuficiência profissional, econômica e uma participação social (para a pessoa realizada profissionalmente) ou por luta social para obter mudanças. Ocorrem aqui conflitos com os papéis sociais vividos, assim como com o modelo social vigente. Os subsistemas tensionadores que predominam e exigem definição são o de Produção e o Patrimonial. São comuns problemas referentes à menopausa, retorno ao lado direito do cérebro, alcoolismo, acidentes etc.
Dos 45 aos 55 anos, há marcada busca de reformulação em todas as dinâmicas e subsistemas, assim como da nova imagem. As recorrências com as etapas anteriores são grandes. Entram em cena, exigentes, o sistema de Precedência, o Religioso e todos os demais, se não tiverem sido assumidos e resolvidos na época própria. Calvície, plásticas, solidão, gastrites, estresse, rejeição física, irritabilidade, aposentadoria são os monstros principais desse período.
Dos 55 aos 65 anos, ocorrem novos objetivos, nova imagem e novas funções. Entram em cena o subsistema Sanitário e o de Manutenção, exigindo novos ajustamentos e atitudes. Demência (perda da memória), artroses, diminuição do desejo e da potência sexual, surdez, presbiopia (diminuição visual para perto), solidão, viuvez são estados comuns.
Dos 65 aos 80 anos, ocorre a retomada de algum ciclo anterior, assim como a convergência para a dinâmica universal. São comuns a morte (transformação), suicídio direto ou indireto, viuvez, luto, incapacidade física e mental crescentes.
É importante a avaliação periódica em cada ciclo do fluxograma evolutivo, em cada subsistema, e, de uma maneira prática, perceber as doenças que são de maior incidência naquela faixa e estar preparado para reagir e reorientar-se.
 
Níveis dinâmicos no fluxograma da existência humana
O conceito "dinâmica", usado no fluxograma da existência, é uma tentativa de esferizar o grau de abrangência do que se está analisando, em círculos concêntricos. Um ajuda a entender o outro.
"Para se compreender um fato num nível, é preciso compreender o nível mais abrangente. Para se compreender uma parte, é preciso compreender o todo, o conjunto".
Na gestação, interessa mais a DP (dinâmica de potencialidades), a natureza em si. De 0 a 5 anos, DG (dinâmica de grupo) na família. De 5 aos 10 anos, a Dl (dinâmica individual). De 10 aos 15 anos, DG de emancipação, de autocondução ("matar" a figura do pai e da mãe) para tomar-se senhor de si. De 15 aos 25 anos, continua sendo a DG, mas é de cooperação, de integração: uma fonte de energia unindo-se a outra fonte para intercâmbio igualitário. De 25 aos 35 anos, formam-se filhos e parentes, e aí se é obrigado a assumir posição de subgrupo oficial. Quem falhar vai para natural ou oscilante. Mas, como todos querem ser oficiais, querem o máximo, aqui a DG é amais importante.
Dos 35 aos 45 anos, no sistema capitalista surge a DS (dinâmica societária) como tensionamento mais importante, porque se tem de fazer o "pé de meia". Se não se ganhar dinheiro até essa época, sobra só a luta. A ordem é economizar, fazer seguros, investir no futuro.
Dos 45 anos em diante, a pessoa está preocupada com Dl (dinâmica individual) de novo, porque não tem segurança de ser ou continuar a ser elegível para o outro, para os empregos, para a sociedade. E crise de autoimagem. As pessoas começam a ter medo da morte, e, realmente, a maioria morre física ou socialmente, ao perder suas funções e status. No fim da existência humana, a DU (dinâmica universal) começa a ser mais importante para a maioria das pessoas.
Somente 6% da humanidade ultrapassam sessenta anos. Nos EUA e Japão, 7% a 7,5%; no Brasil, 4% a 4,5%; na França e Alemanha Ocidental, 6%. Isso varia de acordo com as condições de saúde, segurança, trabalho etc. de cada subgrupo ou classe social. As pessoas se voltam para as religiões, yoga, zen-budismo, para a dominância do lado direito do cérebro, porque são essas práticas que oferecem uma resposta para essa interrogação: vou morrer, e daí?
 
(Carlos Vieira - Manual de sobrevivência do ser humano)
 
Mafalda e a mamãe

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publicado às 23:43


Fluxograma evolutivo do ser humano

por Thynus, em 20.04.15
O fluxograma evolutivo é a tentativa esquemática de delinear os momentos mais críticos ou as passagens mais notórias e influentes da trajetória humana.
E o tema de hoje será: Fluxograma…MEU FUTURO NÃO MUITO DISTANTE
 
O ser humano é concebido e lançado num universo, num país, num lugar concreto, constituído por elementos interligados e interdependentes que forniam uma "ordem social" de classes. Participa de grupos, de família, da sociedade, tudo hierarquizado sob liderança somada do estado civil e religioso. Nessa realidade, convive com personagens que se hierarquizam segundo determinadas normas. Nasce numa estrutura já em si social. Ninguém tem a experiência de ser um indivíduo isolado, e sim a da relação com duas ou mais outras pessoas, e as figuras do pai e da mãe, mesmo quando ausentes, permanecem sempre psiquicamente presentes. Desde cedo, exercita-se na disputa da sobrevivência, faz tentativas de reunificação, busca adaptação com cada um e com todas as personagens e normas de determinado país e de determinada época.
O ser humano herda todo o passado da vida biológica Assimila a cultura de seu meio ambiente, tornando-se ele próprio uma ressíntese global dela, munido de força auto-organizante e complexificante, expressa por mecanismos de feedback cada vez mais eficientes e rápidos.
A vida, pensada no seu nível inconsciente, é um robô com limites mais ou menos deterministas ou matemáticos, com uma programação definida, pela qual cada um automaticamente respira, opera seu batimento cardíaco, defende-se, expressa seus tensionamentos instintuais. A consciência, ao se manifestar na evolução, veio libertar a vida dessa perspectiva limitante e, em certo nível e em determinadas proporções, tornar o ser humano cocriador e corresponsável pela sua vida e a de seus semelhantes e por seu ecossistema.
A atenção, a vontade, a consciência e a intenção, que são as capacidades denominadas mentais superiores, associadas às anteriores de sobrevivência e reprodução, vieram trazer ao homem responsabilidade maior: a de feedback do planeta. Já não é possível somente constatar a existência da realidade do sistema solar. E fundamental procurar mantê-lo, aprimorá-lo e mesmo redirecioná-lo.
Somos concebidos sem nosso consentimento. Nascemos num meio onde tudo está ligado a tudo. Somos todos interdependentes. Constituímos grupos, comunidades, sociedades. Nossos antepassados fizeram cultura — o somatório de todos os fazeres humanos.
No processo denominado de socialização, ninguém escapa da internalização de agendas, praxes, símbolos, crenças, valores, sanções de seu meio. Somos domesticados e submetidos a comportamentos básicos impostos. Permanecemos heteroconduzidos até determinada fase da história pessoal de cada um de nós. Não há como ser diferente. Trata-se de mecanismo de regulação mantido conscientemente pelos detentores do poder e saber nos vários níveis de organização (família, comunidade, nação etc.). Com ele e através dele controlam-se todas as manifestações da energia do ser humano, que reclama, esperneia, faz revoluções, quase sempre em vão. Esse confronto, que vem desde a infância, aguça um dispositivo de feedback que cada um tem, tendendo à auto-orientação, à consciência de si.
De início, com pequena maturidade e precária estruturação de estratégias e metas, pouco se consegue a não ser desenvolver maior conscientização. Aos poucos e para alguns poucos, pode culminar na autocondução: opção por assumir a vida, a si e às regras do jogo, não capitular a perda da individualidade dentro do processo social.
Esse cada dia ser/estar mais necessita de constante expansão do campo da consciência, por autoavaliação periódica em busca de comunhão progressiva. Para tal, precisa-se criar ou modificar comportamentos, ou aprender a conviver com alguns deles dentro de uma autorregulagem, praticamente diária, de nossa integração, sem uma perspectiva possível de ponto de chegada.
No Universo, tudo o que se conhece é energia, e todas as unidades de ser podem ser consideradas sistemas transformadores de energia Todos os sistemas estão em permanente movimento e transformação.
A evolução é o resultado da ação da entropia natural, do mistério da anatropia — fonte da esperança do ser humano e da intervenção do processo contínuo de realimentação e feedback. Todos os sistemas que compõem o macrossistema "universo" trocam energia entre si, interagem, comunicam-se, trocam informação permanentemente. A evolução de um sistema é por ciclos sucessivos, cronologicamente verificáveis. Cada ciclo é produto do ciclo que o antecede e gestor do seguinte. Os ciclos posteriores são epigênese dos anteriores e sua recorrência. Quando a entropia atinge ponto crítico, ocorre a epigênese.
Denomina-se feedback o processo que leva o sistema para novas formas de integração interna e externa (em relação a si próprio ou em relação a outros sistemas).
 
Ciclos do sistema energético humano
Munidos dessa compreensão, podemos facilmente perceber, na trajetória da vida do ser humano, que as etapas de seu desenvolvimento formam um conjunto de ciclos evolutivos, epigenéticos e recorrentes por feedback, que culminam em etapas consecutivas de integração interna e externa com outros sistemas energéticos. O conjunto desses ciclos evolutivos da vida individual denomina-se fluxograma evolutivo do homem. O fluxograma do ciclo vital de um indivíduo retrata, basicamente, a evolução de seu processo de hétero e autocondução.
Essa divisão cronológica apresenta indicações gerais, pois os ciclos têm durações diferentes para cada homem e para cada mulher, e os acontecimentos decisivos não escolhem hora e não costumam avisar.
Há quem divida os ciclos de 7 em 7 anos ou de 9 em 9. Cada um deverá descobrir isso em sua vida.
O esquema mostrado na abertura do capítulo 12 tenta delinear os momentos mais críticos ou as passagens mais notórias e influentes da trajetória humana, eventos estes sempre tutelados pela Religião e o Estado: concepção, nascimento, educação, profissionalização, casamento, carreira, tropeços, aposentadoria, transformação ou morte, memória póstuma.
Vivendo bem ou mal essas etapas, a caminhada se processa Cada volta da espiral chama-se "etapa evolutiva" ou "idade trampolim", baseada na epigênese do ciclo anterior. Assim cada "idade trampolim" nasce da anterior, contendo, em seu âmago, prolongamentos da etapa anterior.
Uma "idade trampolim" qualquer supõe que a anterior tenha sido suficiente e satisfatoriamente vivida e assumida. Caso contrário, fica pendente e provocará entropia em momentos posteriores da vida.
Como a saúde de uma pessoa pode ser conceituada como um processo contínuo e dinâmico de feedback de seu cérebro na relação triádica consigo mesma, com outras pessoas, grupos e classes sociais, a análise esquemática dessa trajetória e de suas fases serve como guia, como sinalização da pista existencial. A ideia essencial aqui é a de acoplar o fluxograma biológico (desenvolvimento neuropsicomotor, plenitude e decadência) aos níveis psíquicos e aos papéis sociais que cada um desenvolve ao longo de sua vida
Como é que uma pessoa conduz sua vida obedecendo às imposições biológicas, ajustando-as a seus ciclos psíquicos e às suas posturas políticas e econômicas? Em cada ciclo, a pessoa tem determinado desenvolvimento biológico, e vão sendo construídas, em cima, uma estrutura psicológica e uma práxis social. Quando a pessoa chega na idade de autocondução psíquica (16-18 anos), deveria ter o mínimo de conhecimentos para sua autocondução. Devendo conhecer a saúde no parentesco, na manutenção, no lazer, no trabalho, nos 14 sistemas e saber integrá-los de forma proporcional e harmônica.
Há autores que atingem apenas um dos ciclos do fluxograma humano: por exemplo, "Como viver bem a velhice" ou "Como ultrapassar o período da menopausa ou da idade do lobo". Não adianta encarar um ciclo sem encarar os outros: é um todo, em cadeia. Se uma pessoa sabe que vai morrer (tem uma determinada expectativa de vida) e conhece as várias fases do fluxograma total, mesmo antes de ultrapassá-las, pode melhor planejar seu ciclo atual. Cada um segue um "script", um programa biológico, genealógico-familiar, classista-nacional e internacional, que se pode descobrir pelo fluxograma evolutivo da dinâmica individual. A ideia, portanto, é justapor e reorganizar esses fluxogramas (biologia, psicologia, sociologia) de maneira pessoal, e não como a sociedade manda. Senão fica assim: "Aos cinquenta anos começa a velhice", e a pessoa é obrigada a ficar velha, a assumir exclusivamente o papel de avô ou de avó. Não se é obrigado a proceder assim sempre, a não ser que se queira assumir a programação feita desde a infância. É bom conhecer o fluxograma psicológico e sociológico pré-estabelecido pelo Estado e pela Igreja para a trajetória existencial humana e, ao demitizá-la, poder aspirar à construção de sua própria existência.
É bom que as pessoas possam saber previamente o que as espera em cada sistema e em cada ciclo. Não se trata de fatalidade, mas sim de se permitir algumas possibilidades de previsão.
 
"Pacote" religioso e civil da peregrinação humana
Cada pessoa é um sistema unitriádico, que evolui e vive em ciclos, cuja soma forma uma espiral que se chama "fluxograma da dinâmica individual". Para a entrada e saída em cada ciclo, a cultura religiosa e civil e um limite possível de variação. Existe o maya masculino e o feminino com toda uma divisão de trabalho. O Estado (pai, lado esquerdo do cérebro) e seu respectivo maya masculino cuidam da ciência, dos negócios, do dinheiro; e a Igreja (mãe, lado direito do cérebro) e seu respectivo maya feminino cuidam do amor, da família, do sexo, da moral, da mística e do homem.
Até os 15 anos o ser humano geralmente é influenciado e incorpora a estrutura e os papéis do modelo Maya inicial. Se, a partir daí, a pessoa quiser seguir modelo novo, precisará romper de um lado e de outro com os papéis instituídos de mãe, pai, professor, professora, adolescente masculino e feminino, homem e mulher, profissional masculino e feminino etc. Precisa desatrelar-se desses papéis mostrados no centro do esquema, inclusive no que se refere à saúde e aos demais 13 subsistemas.
O Estado e a Igreja determinam o que se tem de fazer com a biologia, o que se é e o que se tem de ser, os cuidados para cada ciclo, os cuidados com o sexo, com o estômago, se podemos beber, fumar etc. Depois de casados, prescrevem como vai ser a atividade sexual, os seguros de saúde de cada cônjuge. Em certa faixa, sugerem sauna, fisioterapia, caminhada, plástica, emagrecimento etc. Noutra, decidem que você tem de ser velho, tem de ir para o asilo, morar sozinho, tem de ser avô, avó, consultar um geriatra, virar sucata etc. Por fim, queixam-se porque você ainda não morreu, não preparou o testamento, não preparou o túmulo, "está criando um rombo na Previdência.."
Do nascimento até os quinze anos, domina o estado religioso; dos quinze aos cinquenta anos, o estado civil; depois este devolve o ser humano, como "sucata", para o estado religioso, que ajudará o indivíduo a "achar" o sentido da vida, ligar-se no amor universal, na divindade, no absoluto... Pelo modelo maya civil e religioso, a perspectiva de desfrute de seu capital corporal é nenhuma A regra geral é reprimir seu corpo e todas as suas partes, não usá-lo, não mostrá-lo, gastá-lo trabalhando para os outros, entregá-lo ao cemitério do Estado e da Igreja.
Quais seriam as perspectivas de vida, bem-estar geral (saúde) num modelo novo (upaya)?
Biologicamente, não se escapa de resfriado, artrose, velhice, estresse. Podemos escapar (e devemos tentar) dos condicionamentos de saúde e sofrimento que o estado civil e religioso impuseram, apelando para métodos alternativos, associados, preventivos, para autoprogramação mental, para uma organização social libertadora O principal é descumprir o que está programado inicialmente. Isso já melhora bastante.
 
Detalhes de cada ciclo
O ser humano começa a se estruturar desde o momento da concepção como fruto de pai e mãe e sua genealogia. O período da gestação e os primeiros anos (0 a 5 anos) se caracterizam como o de simbiose — criança/mãe, período organizatório fisiológico e de maior assimilação das mínimas pressões. É um período de máxima importância para a explicação dos comportamentos aberrantes ou indesejáveis.
Nesse período, a criança sofre um recheio mental triádico (normas, emoções, ações) nos 14 subsistemas. Esse recheio vem de acordo com os interesses e crenças de quem o faz: instituições criadoras, educadoras e formadoras (família, escola, vizinhança, religião, televisão etc.). Nessa fase, a criança simplesmente imita ou rejeita o comportamento dos pais e outras pessoas significativas.
Esse recheio, que ocupa todo o espaço mental da criança, é valorado, marcado com sinais de "bem" ou "mal", "certo" ou "errado". As partes que recebem o sinal "bem" são reforçadas com carinho, afeto, manifestações de aprovação (que, sabemos hoje, fazem despertar e aumentar a taxa de neurotransmissores denominados endorfinas). Essa endorfina, secretada por estruturas do sistema nervoso central, produz estado de bem-estar, semelhante ao de pessoas que estão amando: humor positivo, relaxamento muscular, ausência de estresse, respiração fácil e reanimadora, sedação, euforia, êxtase, estado de plenitude estética e mística.
As que recebem o sinal "mal" levam à supressão da endorfina, antagonizada pela predominância da taxa de outros neurotransmissores sucedâneos da adrenalina, causando um estado de mal-estar na criança (semelhante aos estados de depressão do adulto pela perda de um amante ou de um ser querido, por exemplo) e criando a necessidade de livrar- se dele por meio de qualquer tipo de reparação.
Esse dispositivo de alarme que age no sentido de impedir que a criança faça qualquer coisa proibida pelos recheadores chama-se censura, remorso, complexo de culpa-reparação. A esse recheio mental chama- se "consciência de empréstimo", porque foi enxertada ou moldada por agentes externos, sem a participação da pessoa interessada, por incapacidade dela de construir, sozinha, a sua própria consciência.
Haverá consciência real, verdadeira, quando houver uma desmontagem (decomposição e recomposição) com lugar também para as metas pessoais, além das metas grupais e societárias que antes submetiam totalmente a pessoa.
Na fase de 0 a 5 anos, os recursos usados pela criança para se integrar no universo são de ligação (cooperação) e de rejeição (competição). A luta triádica, aqui, é pela busca da fonte de energia concentrada em pai e mãe. Por isto, começa cedo a competição com os irmãos (dinâmica de grupo).
O "espírito" de competição e cooperação entre irmãos é inerente ao ser humano, biológico, energético, genético, e serve para ter e ser sempre mais. Pode ser atenuado ou exacerbado pelo processo de educação. Chama-se a essa tendência humana de maximocracia; cada um quer o melhor, o maior, o mais valorizado, o mais frequente para si. A família sempre tem os três subgrupos. A criança começa como oscilante frente a esse jogo, mas aos poucos vai se posicionar com o subgrupo que lhe for mais gratificante ou o subgrupo que lhe permitir sobreviver melhor.
E preciso quebrar o mito de que existe ressonância entre pais e filhos por causa do sangue, da hereditariedade. A criança apega-se a quem for sua fonte de energia. Não existe amor materno e paterno, "laços de sangue", e sim apego a fontes de energia e endorfinas. O resto é mitologia familiar.
Alimentação adequada, higiene, ambiente sadio, atitude positiva de quem está criando vida, controles periódicos são necessários para uma gestação sadia.
De 0 a 5 anos, a criança deve ser orientada pela mãe, principalmente até os 3 anos, sendo fonte de carinho, de aconchego ou de rejeição, de manutenção. Depois, até os 5 anos passam a ser importantes a figura do pai e irmãos (exercício do jogo triádico).
A amamentação é fundamental: contato com o seio, mesmo se não houver leite materno, horário, tempo e ambiente corretos, posição, toques, certo entendimento da fisiologia da amamentação, acoplamento global e harmônico entre mãe e filho, que vai se constituir na medida mais importante para a profilaxia da neurose.
Nessa fase é preciso conhecer as doenças próprias da idade e reconhecer a importância da assessoria de um pediatra de confiança. Aqui, as condutas vão depender muito da negociação entre a mãe e o profissional e de seus graus de discernimento, experiência, conhecimento, consciência e envolvimento real na saúde da criança.
Na etapa de 5 a 10 anos, persiste acirrada competição entre irmãos pela principal fonte de energia, que continua sendo a dos pais. Ocorrem também a busca de energia e a tentativa de integração em esferas mais amplas que a da família: escola, igreja, clubes de lazer, vizinhança, dentro de posições já estabelecidas pelo sociograma familiar, com suas recorrências ou repetições. E uma fase de crescimento e de formação ideológica e religiosa.
São comuns as relações de competição, os ciúmes, as inflamações de garganta, a falta de orientação sobre sexualidade, as inadaptações escolares, os problemas visuais, os acidentes na escola, os piolhos, as pragas, a fimose, os problemas de postura, o fascínio pela televisão.
Na dinâmica de grupo (familial'), a posição dos participantes já se define principalmente pela dominância do lado do cérebro de cada um e pelas posições subgrupais alcançadas na primeira fase familiar: oficial, natural, oscilante; irmão mais velho, irmão do meio, caçula; filho único, filho adotivo etc.
Na etapa dos 10 aos 15 anos completa-se o desenvolvimento do sistema pessoal, e ocorre a tentativa de autocondução, através de metas pessoais. Inicia-se a tentativa de comunhão e integração com outros efetuadores. As entradas mais tensionantes nessa época são as referentes à luta pela emancipação e administração pessoal da vida.
A luta por uma consciência pessoal (uni self) é marcante na adolescência O adolescente nega e combate destrutivamente a família, as instituições e tudo o que representa impedimento real ou suposto para a emergência de um eu autônomo. Trava luta de emancipação externa sem saber que, mesmo matando ou destruindo quem o pressiona, não se sentirá livre, porque a forma de dominação a que está submetido é muito mais sutil. Instalada no âmago de seu mecanismo vital, inconsciente, despercebida, difícil de ser reconhecida, superdefensiva, autoperpetuante: uma espécie de piloto automático insensível e invisível dentro dele — que se chama sistema político (desde a autoridade familiar até governamental e "sobrenatural"). Gagueira, doenças venéreas, doenças de crescimento, orfandade, crises convulsivas, dentre outras, são comuns nessa fase.
Dos 15 aos 25 anos, a disputa de energia, além da iniciação profissional, consiste na busca de alguém, geralmente buscando semelhanças físicas ou psíquicas com a primeira fonte de energia da infância. E a tentativa de comunhão a dois, com a utilização de recursos inconscientes, desenvolvidos na competição familiar. E a fase de saída, "renúncia" da família, e de opção por fazer sua própria vida. Os subsistemas tensionadores nesse período são o Parentesco, a Lealdade, o Pedagógico, o Patrimonial e o Político. Nessa fase, é comum ocorrerem problemas com gravidez, aborto, anticoncepcionais, doenças profissionais, doenças de esporte, depressões, psicoses, doenças mentais.
Dos 25 aos 35 anos, dá-se um período de comunhão a dois, fechado, exclusivista, através de amizade, namoro, casamento. Quase sempre o processo de comunhão ocorre, se desenvolve e se mantém, ou não, por recorrência de mecanismos aprendidos na infância e sem atitude muito consciente no que se refere à convivência (dinâmica de grupo estabelecida) e à posição subgrupal de cada um e de ambos nos seus intercâmbios.
Após essa fase, surge a necessidade de ampliação de fontes de energia (filhos, amigos). Vai-se para uma esfera mais ampla, que é a integração na dinâmica grupal, processo esse chamado de comunhão ampliada. Observa-se, frequentemente, a incidência de neuroses, ciumeiras, cardiopatias, hiperdinamismo, obesidade, problemas de coluna, doenças mentais, descompensação por lutas familiares, divórcio etc.
Dos 35 aos 45 anos, pressupõe-se alcançar autossuficiência profissional, econômica e uma participação social (para a pessoa realizada profissionalmente) ou por luta social para obter mudanças. Ocorrem aqui conflitos com os papéis sociais vividos, assim como com o modelo social vigente. Os subsistemas tensionadores que predominam e exigem definição são o de Produção e o Patrimonial. São comuns problemas referentes à menopausa, retorno ao lado direito do cérebro, alcoolismo, acidentes etc.
Dos 45 aos 55 anos, há marcada busca de reformulação em todas as dinâmicas e subsistemas, assim como da nova imagem. As recorrências com as etapas anteriores são grandes. Entram em cena, exigentes, o sistema de Precedência, o Religioso e todos os demais, se não tiverem sido assumidos e resolvidos na época própria. Calvície, plásticas, solidão, gastrites, estresse, rejeição física, irritabilidade, aposentadoria são os monstros principais desse período.
Dos 55 aos 65 anos, ocorrem novos objetivos, nova imagem e novas funções. Entram em cena o subsistema Sanitário e o de Manutenção, exigindo novos ajustamentos e atitudes. Demência (perda da memória), artroses, diminuição do desejo e da potência sexual, surdez, presbiopia (diminuição visual para perto), solidão, viuvez são estados comuns.
Dos 65 aos 80 anos, ocorre a retomada de algum ciclo anterior, assim como a convergência para a dinâmica universal. São comuns a morte (transformação), suicídio direto ou indireto, viuvez, luto, incapacidade física e mental crescentes.
É importante a avaliação periódica em cada ciclo do fluxograma evolutivo, em cada subsistema, e, de uma maneira prática, perceber as doenças que são de maior incidência naquela faixa e estar preparado para reagir e reorientar-se.
 
Níveis dinâmicos no fluxograma da existência humana
O conceito "dinâmica", usado no fluxograma da existência, é uma tentativa de esferizar o grau de abrangência do que se está analisando, em círculos concêntricos. Um ajuda a entender o outro.
"Para se compreender um fato num nível, é preciso compreender o nível mais abrangente. Para se compreender uma parte, é preciso compreender o todo, o conjunto".
Na gestação, interessa mais a DP (dinâmica de potencialidades), a natureza em si. De 0 a 5 anos, DG (dinâmica de grupo) na família. De 5 aos 10 anos, a Dl (dinâmica individual). De 10 aos 15 anos, DG de emancipação, de autocondução ("matar" a figura do pai e da mãe) para tomar-se senhor de si. De 15 aos 25 anos, continua sendo a DG, mas é de cooperação, de integração: uma fonte de energia unindo-se a outra fonte para intercâmbio igualitário. De 25 aos 35 anos, formam-se filhos e parentes, e aí se é obrigado a assumir posição de subgrupo oficial. Quem falhar vai para natural ou oscilante. Mas, como todos querem ser oficiais, querem o máximo, aqui a DG é amais importante.
Dos 35 aos 45 anos, no sistema capitalista surge a DS (dinâmica societária) como tensionamento mais importante, porque se tem de fazer o "pé de meia". Se não se ganhar dinheiro até essa época, sobra só a luta. A ordem é economizar, fazer seguros, investir no futuro.
Dos 45 anos em diante, a pessoa está preocupada com Dl (dinâmica individual) de novo, porque não tem segurança de ser ou continuar a ser elegível para o outro, para os empregos, para a sociedade. E crise de autoimagem. As pessoas começam a ter medo da morte, e, realmente, a maioria morre física ou socialmente, ao perder suas funções e status. No fim da existência humana, a DU (dinâmica universal) começa a ser mais importante para a maioria das pessoas.
Somente 6% da humanidade ultrapassam sessenta anos. Nos EUA e Japão, 7% a 7,5%; no Brasil, 4% a 4,5%; na França e Alemanha Ocidental, 6%. Isso varia de acordo com as condições de saúde, segurança, trabalho etc. de cada subgrupo ou classe social. As pessoas se voltam para as religiões, yoga, zen-budismo, para a dominância do lado direito do cérebro, porque são essas práticas que oferecem uma resposta para essa interrogação: vou morrer, e daí?
 
(Carlos Vieira - Manual de sobrevivência do ser humano)
 
Mafalda e a mamãe

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publicado às 21:04

Todas as formas de pensamento do senso comum, da ciência, da filosofia, da religião fazem essa pergunta e se esforçam em dar-lhe uma resposta. Cuidado para a cilada de defender uma compreensão fechada, acabada, estática de uma delas!
 
Que é a vida?
Qual a sua origem?
Como surgiram os seres vivos que nos rodeiam?
Como surgiu o homem?
E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
 
Desde os tempos imemoriais, o problema da origem da vida atrai a compreensão humana. Todas as formas de pensamento do senso comum, da ciência, da filosofia, da religião fazem essa pergunta e se esforçam em dar-lhe uma resposta.
As respostas a essa pergunta fundamental ao espírito humano foram diversas, conforme as épocas e o grau de desenvolvimento das diversas civilizações. Podemos, no entanto, dizer que duas vertentes de opiniões principais, sempre antagônicas e em permanente discussão, se digladiaram: uma que se pode denominar idealista e outra, materialista.
Realmente, costuma-se distinguir na natureza dois mundos - o da matéria bruta, inorgânica e o dos seres vivos. O primeiro, o reino mineral, inanimado; e o segundo, o reino vegetal, animal, humano, onde impera a vida. O mundo vivo é constituído por uma infinidade de espécies vegetais e animais e, apesar de suas inúmeras diferenças, aparenta uma coisa em comum, que o distingue, desde a mais simples forma elementar de vicia até o homem, dos objetos inanimados. Essa alguma coisa é o que se denomina vida.
E, então, o que é a vida? Sua essência é material, como o resto do mundo, ou estará constituída por um princípio imaterial, espiritual, inacessível à experiência? Se a vida for material, ao compreendermos melhor as leis que regem a matéria, teremos a possibilidade de criá-la ou transformá-la? Teremos a oportunidade de criar e transformar os seres vivos? Tudo isso realizado de forma consciente e dirigida?
Se a vida foi criada por um principio espiritual e se sua natureza é insondável, só nos resta contemplá-la e permanecer impotentes diante do mistério de sua criação e das manifestações de seus fenômenos?
Os idealistas sempre consideraram e continuam a considerar a vida como a manifestação de um princípio espiritual e imaterial. Para eles a matéria é em si mesma algo inerte e privado de vida, servindo apenas de material para a construção dos seres vivos. Esses seres vivos só podem nascer e existir quando esse material tiver recebido uma alma que lhe confira forma e estrutura convenientes.
Essa concepção idealista da vida é a base de todas as religiões do mundo. E todas elas, apesar de suas inúmeras divergências, concordam em afirmar que o ser supremo, Deus, insuflou uma alma viva à carne inanimada e inerte e que esta parcela eterna da divindade é o vivo, aquilo que move o ser e o mantém com vida. Quando ela se esvai, só permanece o invólucro material vazio, um cadáver que se decompõe e se putrefaz. A vida seria uma manifestação da divindade, e eis porque o homem não pode penetrar em sua essência e muito menos aprender a dirigí-la. Esta é a conclusão principal de todas as religiões sobre a natureza da vida. A premissa básica que as sustenta é a esperança do ser humano na possibi-lidade de sua reintegração com Deus.
Os materialistas, por seu turno, ensinam que a vida, como todo o mundo, é de natureza material e que não há necessidade de apelar para nenhum princípio espiritual ou sobrenatural para explicá-la. A vida não seria mais que uma forma particular de existência, cuja origem e destruição obedeceriam a leis determinadas. A prática, a experiência objetiva e a observação da natureza viva constituiriam o caminho certo que nos levaria ao conhecimento da vida.
A Biologia, um ramo da ciência, apoiando-se em observações objetivas, na experiência, na prática histórica e social, vem apresentando uma cadeia ininterrupta de vitórias científicas que mostram que a natureza viva é passível de ser modificada e transformada em benefício do homem. No entanto o problema da origem da vida continua um enigma.
Observa-se diariamente que os seres vivos nascem de outros semelhantes. Todavia nem sempre ocorreu assim. A Terra, nosso planeta, teve um começo, surgiu em determinada época. De onde, pois, provieram os antepassados mais remotos das plantas e dos animais?
Segundo a Religião, todos os seres vivos foram originariamente criados por Deus. Graças a esse ato de criação divina, os antepassados das plantas e dos animais que atualmente povoam a terra teriam surgido de súbito e com aspecto definitivo. O primeiro homem, do qual descenderiam todos os outros, teria sido criado por um ato divino especial.
Na Grécia Antiga, muitos filósofos materialistas recusaram a explicação religiosa da origem dos seres vivos. Platão (427-347 a.C.), uma das maiores figuras da filosofia de todos os tempos, discípulo de Sócrates (469-400 a.C.), nascido em Atenas, pontificou que os vegetais e os animais não vivem por si mesmos, mas só são animados quando uma alma imortal, a "psique", neles se aloja.
Aristóteles (384^322 a.C.), discípulo de Platão, nascido em Estagira, na Trácia, cuja doutrina fundamentou a cultura medieval e que dominou o pensamento humano durante cerca de 2.000 anos, asseverou que os seres vivos, como aliás todos os objetos concretos, são formados pela reunião de certo princípio passivo, a matéria, com um princípio eficiente, a forma. A forma é unia "enteléquia", uma alma, para os corpos vivos. Ela é que modela o corpo e lhe dá movimento. A matéria é, pois, inerte, mas a vida dela se apodera, imprime-lhe a forma conveniente e a organiza graças a uma força espiritual. Para ele, os seres vivos tinham surgimento espontâneo. As concepções aristotélicas tiveram grande influência em toda a história ulterior do problema da origem da vida. Todas as escolas filosóficas posteriores, gregas ou latinas, compartilhavam inteiramente da opinião de Aristóteles sobre a geração espontânea dos seres vivos.
Plotino (205-270 d.C.), nascido em Licópolis, no Egito, e falecido em Roma em 270, foi o fundador e o principal expoente do neoplatonismo, sistema desenvolvido em Alexandria depois do platonismo judaico (com Fílon) e do cristão (com Clemente e Orígenes). Fez uma síntese do pensamento filosófico com o pensamento religioso, ou uma síntese da filosofia de Platão com as religiões pagãs orientais. Ensinava que, outrora como hoje, os seres vivos provinham da animação da matéria por um espírito.
O cristianismo primitivo, para explicar a origem da vida, se baseou na Bíblia, que, por sua vez, copiara as lendas místicas do Egito e da Babilônia e, combinando essas lendas com a doutrina neoplatônica, elaborou sua concepção mística sobre a origem da vida, integralmente conservada até nossos dias por todas as igrejas cristãs.
Basílio de Cesaréia, bispo que viveu em meados do século IV de nossa era, ensinava, em suas prédicas sobre a criação do mundo em seis dias, que a própria terra gerara, pela vontade de Deus, as diversas ervas, raízes e árvores, bem como as lagostas, insetos, rãs, serpentes, ratos, aves e enguias. "Esta vontade divina", dizia, "continua a agir atualmente com toda a força".
Agostinho de Hipona (354-430 d.C.), o "santo" Agostinho, contemporâneo de Basílio, autor de uma síntese filosófico-religiosa de extraordinária força e beleza, exerceu uma influência incalculável em todo o pensamento filosófico e teológico posterior. Representou uma das autoridades mais influentes da Igreja Católica e esforçou-se por demonstrar em suas obras a geração espontânea dos seres vivos, segundo a concepção cristã Para ele, a geração espontânea dos seres vivos (animação da matéria inerte por um espírito criador) constituía uma manifestação da onipotência divina. Desse modo, estabeleceu a plena correspondência da teoria da geração espontânea com os dogmas da Igreja Cristã.
A Idade Média pouco acrescentou a esta concepção. Nessa época, uma ideia filosófica não podia existir senão em um invólucro teológico, sob o manto de uma doutrina da Igreja. Os problemas das ciências naturais estavam relegados a segundo plano. Os fenômenos da natureza eram julgados não com base nas observações e na experiência, mas segundo o que deles diziam a Bíblia e as obras teológicas. Apenas algumas noções de matemática, astronomia e medicina, provindas do Oriente, penetraram na Europa.
Apesar das obras de Aristóteles terem chegado aos povos europeus através de traduções muito desfiguradas, a Igreja, através dos teólogos cristãos, interpretou a origem da vida como animação da matéria inerte pelo espírito divino, eterno.
O século XIII é reconhecido por todos os estudiosos como o século de ouro da Idade Média. Nele, a civilização medieval atingiu pontos culminantes em todos os campos - nas artes, na literatura, na política, na teologia e também na filosofia, expressos pelo perfeito equilíbrio entre fé e razão, entre a autonomia do homem e a sua mais completa submissão a Deus.
Tomás de Aquino (1225-1274 d.C.) foi uma das figuras dominantes deste período e um dos maiores filósofos e teólogos de todos os tempos. Sua doutrina é até hoje reconhecida pela Igreja Católica como a única filosofia verdadeira. Ele também ensinava em suas obras que os seres vivos são devidos à animação da matéria inerte, e assim é que se formam as rãs, as serpentes e os peixes pelo apodrecimento do lodo marinho e da terra estrumada. Mesmo os vermes, que - sentenciava - torturam os pecadores no inferno, resultam da putrefação dos pecados. Foi sempre um defensor e propagandista da demonologia militante. Achava que o Diabo realmente existia e que era chefe de toda uma coorte de demônios. Os parasitas nocivos ao homem provêm, a seu ver, não só da vontade divina como das artimanhas do Diabo e dos espíritos do mal que lhe são subordinados. Essa prática foi expressa nos processos, tão frequentes na Idade Média, contra "feiticeiras" acusadas de enviar aos campos ratazanas e outros animais nocivos com a finalidade de destruir as colheitas.
A Igreja Cristã ocidental transformou em dogma a doutrina de Tomás de Aquino sobre a geração espontânea dos organismos, teoria segundo a qual os seres vivos provêm da matéria inerte animada por um princípio espiritual.
As autoridades teológicas da Igreja oriental sustentavam os mesmos princípios. Assim, por exemplo, Demétrio, bispo de Rostov, que viveu nos tempos do tzar Pedro I, defendia em suas obras o princípio da geração espontânea, de modo demasiado curioso para nossas ideias atuais. Segundo ele, durante o dilúvio universal, Noé não embarcara, em sua arca, ratos, sapos, escorpiões, baratas ou mosquitos, isto é, nenhum destes animais que "nascem da putrefação, da água estagnada ou do orvalho do céu". Durante o dilúvio, todos esses bichos pereceram e, depois do dilúvio, "tornaram a gerar-se daquelas mesmas substâncias".
Nos nossos tempos, a religião cristã e todas as outras continuam a sustentar que os seres vivos surgiram, e surgem, por geração espontânea e, no seu aspecto definitivo, mercê de um ato de criação divina sem qualquer ligação com o desenvolvimento da matéria.
A evolução do conhecimento humano, no entanto, evidenciou a inexistência da geração espontânea, e desde meados do século XVII provou-se que os vermes, insetos, répteis e anfíbios não são produzidos por ela. Investigações posteriores confirmaram o mesmo quanto a organismos mais primitivos que, embora invisíveis a olho nu, nos cercam por todos os lados, povoando a terra, a água e o ar.
A partir daí ruiu uma crença imposta pelos representantes das diversas religiões, que postularam, durante séculos e séculos, a criação da vida a partir da animação da matéria inerte por um espírito criador — teoria da geração espontânea.
Durante o século XIX foi assestado outro golpe demolidor nas ideias religiosas relativas à origem da vida. Charles Darwin e os sábios que o sucederam, entre os quais os investigadores russos K. Timiriázev, os irmãos A. e V. Kovalevski, I. Metchníkov e outros, demonstraram que nosso planeta nem sempre foi povoado pelos animais e vegetais que nos cercam atualmente, tal como nos ensinam as sagradas escrituras. Os animais e os vegetais superiores, inclusive o homem, não surgiram prontos na Terra, ou simultaneamente, mas apareceram em épocas posteriores, graças ao desenvolvimento de seres vivos de constituição mais simples, os quais, por sua vez, originaram-se de outros organismos ainda mais simples que viveram em épocas anteriores, e assim sucessivamente até os seres mais primitivos.
O estudo dos fósseis dos animais e das plantas que povoaram a Terra há milhões de anos demonstraram-nos, incontestavelmente, que os seres que então a habitavam não eram semelhantes aos de hoje e que, quanto mais recuamos na profundeza dos séculos, mais vemos que essa população é cada vez mais simples e menos diferençada.
Descendo gradualmente, de escalão a escalão, e estudando a vida das formas cada vez mais antigas, chegamos, finalmente, aos micro-organismos de nossos dias, que, em outros tempos, eram os únicos seres que povoavam a Terra. E aí surge uma questão inevitável: de que fontes provêm as manifestações mais simples, mais primitivas, da vida, ou os primeiros ancestrais dos habitantes da Terra?
Engels apontou aos biologistas o caminho que deviam seguir em suas pesquisas, um caminho que foi proveitosamente trilhado pela biologia soviética. Defendeu a ideia de uma origem da vida independente das condições de desenvolvimento da natureza e patenteou a unidade da natureza viva e da natureza inerte. Afirmou a vida como o produto do desenvolvimento da matéria, de sua transformação qualitativa, historicamente preparada pelas modificações graduais surgidas na natureza durante o período que antecedeu ao aparecimento da vida.
Darwin, por seu turno, usou o método científico e cunhou uma concepção materialista, onde explicou o surgimento das plantas e dos animais superiores, mediante o desenvolvimento progressivo do mundo vivo, aplicando o método histórico à solução dos problemas biológicos.
Posteriormente, com a descoberta da genética e dos genes, erigiu- se a tese segundo a qual as partículas de uma substância especial concentrada nos cromossomas do núcleo celular detêm a hereditariedade e todas as outras propriedades da vida Essas partículas teriam surgido na Terra em um passado longínquo e conservado quase intacta sua estrutura geradora durante todo o desenvolvimento da vida.
A questão da origem da vida ficou assim reduzida pela ciência na explicação simplista segundo a qual a molécula do gene apareceu por acaso, graças a uma feliz combinação de átomos de carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio e fósforo que, por si próprios, se agruparam para formar esta molécula estruturada de maneira extremamente complexa, possuidora desde o primeiro momento de todos os atributos da vida.
Todavia um feliz acaso desse gênero é de tal modo excepcional e inusitado que só poderia ter ocorrido uma vez em toda a existência da Terra. A partir desse momento só se realiza uma constante multiplicação do gene, desta substância especial que surgiu uma única vez e que é eterna e imutável.
E claro que tal explicação não explica coisa alguma. A particularidade característica de todos os seres vivos, sem exceção, é sua organização interna extremamente bem adaptada ao exercício de certas funções vitais: nutrição, respiração, crescimento e reprodução em determinadas condições de existência. Como, pois, essa adaptação interna de todas as formas vivas, mesmo as mais primitivas, poderia ser fruto do acaso?
O impasse continua. Se rejeitarmos o determinismo da origem da vida, considerando fruto do acaso esse acontecimento tão importante para os destinos de nosso planeta, cairemos inevitavelmente na concepção idealista (mística) da existência de uma vontade criadora primitiva de origem divina e de um plano predeterminado de criação da vida.
O idealismo e seus representantes (Schrõdinger, Alexander) continuam a afirmar sem rebuços que o aparecimento da vida é devido à vontade criadora de Deus.
O materialismo assegura que a natureza da vida é material, embora a vida não seja uma propriedade inerente a qualquer matéria. Ela é atributo apenas dos seres vivos, não existindo nos objetos e substâncias do mundo inorgânico. A vida é uma forma particular do movimento da matéria. Mas esta forma não existiu sempre, nem está separada da matéria inorgânica por um abismo intransponível. Pelo contrário, decorre desta mesma matéria da qual é uma qualidade nova, surgida no decorrer de seu desenvolvimento. Ensina que a matéria nunca permanece em repouso, mas, pelo contrário, está em constante movimento, desenvolve-se e, evoluindo, eleva-se a níveis cada vez mais altos e adquire formas de movimento cada vez mais complexas. Ao elevar-se de um degrau a ou-tro, a matéria adquire novos atributos. Um deles é a vida, cujo surgimento marca uma etapa da matéria.
O materialismo defende, assim, que o caminho mais seguro para a solução do problema da origem da vida é o estudo do desenvolvimento da matéria. Durante o decorrer desse desenvolvimento é que surgiu a vida, como uma nova qualidade. Assegura que a vida não surgiu de súbito, porque mesmo os seres vivos mais simples têm uma estrutura a tal ponto complexa que não poderiam ter surgido de golpe, por exigirem que as matérias que entram em sua composição sofressem longas e sucessivas transformações. Tais transformações ocorreram em épocas extremamente longínquas, quando a Terra ainda se estava formando, nas eras iniciais de sua existência. Dai decorre que, para encontrar ajusta solução para o problema da origem da vida, cumpre estudar essas trans-formações, bem como a história da formação e do desenvolvimento de nosso planeta.
A Ciência postula que a vida teve origem no fundo dos mares. Na aurora da vida, no começo da era eozóica, tanto as plantas como os animais eram minúsculos seres vivos unicelulares, semelhantes às bactérias, às algas azuis e às amebas. Através de uni mecanismo simples, esses seres vivos mantinham a sua homeostase e buscavam a sua adaptação ao meio. Via pressões seletivas do meio foram diferenciando-se e adquirindo padrões de comportamento mais complexos. Essa complexificação exigiu uma especialização do organismo no sentido de uma captação máxima do meio exterior, pela categorização dos estímulos que dele provêm, além do desenvolvimento de um meio interno em moldes adequados à nova situação.
O aparecimento dos organismos pluricelulares foi um grande acontecimento na história do desenvolvimento da matéria viva. Os organismos vivos se diversificaram e se complexificaram cada vez mais. Durante a era eozóica, que perdurou milhões de anos, a população do oceano primitivo modificou-se consideravelmente tomando-se irreconhecível. Imensas algas povoavam as águas dos mares e dos oceanos, e apareceram medusas, moluscos, equinodermos e gusanos marinhos. A vida entrou em uma nova era, a paleozóica. Podemos julgar esse desenvolvimento durante essa era através dos restos fósseis dos seres vivos que povoam nosso planeta há milhões de anos.
Há mais de 500 milhões de anos, no período cambriano, toda a vida se concentrava nos mares e oceanos. Não havia nesta época nenhum vestígio dos vertebrados atuais (peixes, batráquios, répteis, pássaros, mamíferos). Não havia flores, ervas, nem árvores. Então, o mundo vegetal só compreendia algas, e o mundo animal, celentérios, espongiários, anelídeos, trilobitas lembrando os crustáceos e equinodermos de diversas espécies.
Durante o siluriano, que se seguiu ao cambriano, surgiram na Terra as primeiras vegetações e, no mar, os primeiros vertebrados, que lembravam as atuais lampreias. Diferiam dos peixes por serem desprovidos de mandíbulas. Muitos deles tinham o corpo recoberto por uma couraça óssea.
Há 350 milhões de anos, durante o devoniano, nas lagoas primitivas e nos cursos de água, surgiram os primeiros peixes verdadeiros. Pare- ciam-se com os atuais tubarões e são os seus antepassados remotos. Não havia ainda verdadeiros peixes telósteos, como a perca, a tenca e o lúcio.
Cem milhões de anos mais tarde, na era carbonífera, a Terra já estava recoberta de florestas e fetos gigantes, o "rabo-de-cavalo" e o licopódio. Pelas margens dos lagos e rios arrastam-se numerosos anfíbios, de diversas categorias. Como os peixes desovavam na água, sua pele úmida e viscosa secava facilmente ao ar e não lhes permitia afastar-se muito tempo da água. Mas, no fim do carbonífero, já surgiam os primeiros répteis. Sua pele endurecida protegia-os do ressecamento. Não mais dependiam da vizinhança da água e podiam povoar amplamente a Terra. Já não desovavam na água, mas punham ovos.
O permiano principiou há 225 milhões de anos. As felicíneas foram sendo deslocadas paulatinamente pelos predecessores das atuais coníferas, os sagueiros. Os anfíbios aquáticos cedem lugar aos répteis, mais adaptados ao clima seco. Surgem os antepassados dos primeiros sáurios, terríveis, ou dinossauros, répteis gigantescos que, nas eras seguintes, predominavam na Terra. Nessa época não existiam ainda, porém, nem as aves nem as feras.
O reino dos répteis sobre a Terra conheceu a maior expansão nos períodos jurássico e cretáceo. Surgiram então as árvores, as flores e as plantas, semelhantes às espécies atuais. Nesta época, os répteis ocupavam a terra, o ar e a água. Dinossauros gigantes andam pela terra; "dragões alados" ou pteranodontes cruzam os ares; e nas águas dos mares nadavam animais carniceiros, como as serpentes do mar, os ictiossauros e os plesiossauros.
Há 35 milhões de anos principiou o reinado das aves e das feras. Em meados do período terciário já se havia extinguido a maioria dos grandes répteis, surgindo numerosas espécies de aves e mamíferos, que ocupavam uma posição dominante entre todos os animais. Todavia os mamíferos de então eram muito diversos dos atuais. Não existiam ainda os macacos, os cavalos, os touros, as renas e os elefantes que vivem hoje em dia.
No decorrer da segunda metade do período terciário, os mamíferos vão, cada vez mais, se parecendo com os atuais. No fim desse período já existem verdadeiras renas, touros, cavalos, rinocerontes, elefantes e diversas feras. No princípio da segunda metade desse período, surgem os macacos: primeiro, os cinocéfalos ou macacos inferiores, e, posteriormente, os antropóides, ou macacos superiores.
Há um milhão de anos, nos limites dos períodos terciário e quaternário (último período que dura até hoje), surgiram na Terra os pitecantropos, transição entre o macaco e o homem. Já sabiam servir-se dos instrumentos mais simples. Os pitecantropos desapareceram. Seus sucessores foram nossos antepassados. No quaternário, durante a última glaciação, na idade do mamute e da rena, a Terra já estava povoada por diversos seres que em nada se distinguiam, quanto à estrutura corpórea, dos homens contemporâneos.
Uma singela recapitulação do longo caminho de desenvolvimento da matéria e do aparecimento da vida na Terra e do homem, vista pelo ângulo da ciência, pode ser resumida assim:
De início, o carbono dispersado sob a forma de átomos isolados na atmosfera incandescente. A seguir, o descobrimos na composição dos hidrocarbonetos que se formaram na superfície da Terra. Os hidrocarbonetos, por sua vez, transformaram-se em derivados nitrogenados e oxigenados, que são as primeiras substâncias orgânicas. Nas águas do oceano primitivo, essas substâncias formaram compostos mais complexos. Surgiram as albuminas e matérias albuminóides.
Dessa maneira, formou-se a matéria da qual se constituem os corpos animais e vegetais. Primeiramente, essa matéria estava simplesmente dissolvida, depois separou-se sob a forma de gotas de coacervato. As primeiras gotas coacerváticas eram de estrutura relativamente simples, mas, com o tempo, operaram-se modificações importantes em sua estrutura. Complexificaram-se e aperfeiçoaram-se cada vez mais e tomaram-se, finalmente, os primeiros seres vivos, antepassados de tudo o que vive na Terra.
E o desenvolvimento da vida continuou. A princípio, os seres vivos não possuíam estrutura celular. Mas, em determinada etapa do desenvolvimento da vida, surgiu a célula, formaram-se organismos unicelulares e, a seguir, seres pluricelulares, que povoaram nosso planeta.
A ciência refuta, assim, a concepção religiosa sobre o princípio espiritual da vida e a origem divina dos seres vivos. Os progressos da ciência moderna evidenciaram as leis que supostamente presidiram à origem e ao desenvolvimento da vida e seus achados, mas, apesar de grandiosos, não são suficientes ainda para desbancar a concepção idealista e metafísica.
 
O cérebro humano na evolução das espécies
Assim, durante a filogênese (processo de evolução das espécies), os seres vivos desenvolveram desde o protoplasma dos organismos unicelulares menos elaborados (simples protoplasma, carente de estrutura diferenciada, porém irritável) até o homem, com um cérebro dotado de pensamento abstrato.
A forma mais elementar de sistema nervoso está presente nos celenterados (anêmona-do-mar, estrela-do-mar, medusa) sob a forma de sistema nervoso difuso, onde a excitação difunde-se por todo o corpo do animal com intensidade decrescente. Praticamente não há um órgão dominante neste tipo de organização nervosa, embora na estrela-do-mar possa um dos raios assumir uma dominância: amputando-se esse raio, o seu vizinho passará a ser o dominante. A ausência de um órgão central dominante com capacidade de receber, processar, codificar e elaborar programas de comportamento torna esses animais bastante limitados do ponto de vista comportamental.
Na próxima etapa da evolução, surge o sistema nervoso em cadeia ou ganglionar nos invertebrados mais simples (vermes). A extremidade frontal do verme está aparelhada com receptores químicos e tácteis, que são capazes de captar mudanças químicas, térmicas, de luminosidade e de umidade do meio. Estes sinais captados do meio exterior são encaminhados através de filamentos a um gânglio frontal ("centro nervoso").
Nesse gânglio frontal - espécie de centro nervoso rudimentar que prefigura os centros encefálicos especializados dos organismos superiores -, os sinais são codificados e programas de comportamento são elaborados, sendo difundidos sob a forma de impulsos pela cadeia de gânglios nervosos. Neste tipo de sistema nervoso, ficam evidentes a cefalização e certo grau de dominância ou comando de um gânglio em relação a outras massas ganglionares.
Nos invertebrados superiores, particularmente nos insetos, o sistema nervoso ganglionar atinge sua complexidade máxima. Ao lado disso, os insetos estão aparelhados com receptores altamente diferenciados (nas antenas, cavidade bucal, pernas), culminando com o aparecimento do olho. E importante assinalar que, nos seres menos evoluídos, os fotorreceptores apenas proporcionam a noção da fonte de luz, enquanto o olho, além de reagir à fonte de luz, permite também a identificação de objetos e formas.
Os vertebrados inferiores do meio aquoso, de modo semelhante aos insetos, apresentam índice de procriação muito elevado. Esta reprodução exagerada assegura aos peixes, cujos programas de comportamento são pouco mutáveis, a preservação da espécie. Já os vertebrados terrestres, que vivem num meio mais mutável (menos homogêneo), com condições de alimentação mais complexas e com taxa de reprodução bem mais baixa, necessitam de um sistema nervoso que lhes proporcione uma certa variabilidade (plasticidade) de comportamento para uma adaptação adequada ao seu meio.
Orientado, então, por um duplo mecanismo de solicitação — complexidade orgânica crescente e adaptação a novas condições do meio circundante (na terra e/ou no mar) -, o sistema nervoso vai-se diferenciando para cumprir novas tarefas.
Embora o cérebro dos vertebrados inferiores represente um avanço considerável em relação ao sistema nervoso dos invertebrados, o comportamento destes vertebrados é estereotipado, ordenado por programas rigidamente estruturados do ponto de vista genético. Assim, uma rã, que apresenta um cérebro constituído principalmente por formações do tronco superior e corpo quadrigêmeo, apresenta diante de situações diversas sempre as mesmas reações, limitadas e instantâneas.
Nos animais mais evoluídos, vertebrados superiores e especialmente os mamíferos, há necessidade de uma maior plasticidade de ação ao lado dos programas de comportamento "instintivo" de cunho inato. Só a formação do cérebro, no longo processo de evolução, é que vai assegurar novas formas individualmente variáveis de comportamento.
Os vertebrados são dotados de uma carapaça na extremidade cefálica, com a finalidade de proteger o cérebro. Esta formação é um esboço do crânio, que nas espécies superiores protege o cérebro. O cérebro vai-se diferenciando nas várias espécies, assumindo a forma de estruturas sobrepostas: inicialmente sobre o tronco sobrepõem-se o sistema tálamo-estriado (estruturas subcorticais) e o córtex primitivo (olfativo), e, finalmente, sobre estas estruturas edificam-se os volumosos hemisférios cerebrais, que, ao assumir um grande desenvolvimento, passam ater uma dominância sobre as funções de nível inferior.
Nos vertebrados inferiores, destituídos de membros e mandíbulas, observa-se já um desenvolvimento do cérebro com o aparecimento dos três espessamentos correspondentes ao proscérebro (cérebro anterior), mesocérebro (cérebro médio) e rombencéfalo (cérebro posterior). Nos vertebrados superiores, estas estruturas vão dar origem aos lobos olfativos, lobos ópticos, cerebelo, gânglios da base, tálamo, córtex cerebral.
Evidentemente, cada espécie animal tem suas especialidades ditadas pelas condições do meio e modo de vida, e os programas de comportamento refletem, de certo modo, as peculiaridades de sua ecologia. Assim, uma espécie desenvolve suas neurotecnologias para apurar suas estratégias de vida e, em consequência, sua capacidade de sobrevivência.
 
(Carlos Vieira - Manual de sobrevivência do ser humano)
 
A evolução criativa de de Deus e de conhecimento humano

 

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publicado às 16:11

Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos.

Santo Agostinho
 
A RELIGIÃO CÓSMICA NÃO TEM DOGMAS NEM MORALISMOS RELIGIOSOS OU UM DEUS CONCEBIDO À IMAGEM DO HOMEM (a condição dos homens seria lastimável se tivessem de ser domados pelo medo do castigo ou pela esperança de uma recompensa depois da morte).,
(Albert Einstein in “Como vejo o Mundo”)
 
Existe, de fato, a continuidade após a morte?
Observem a natureza: tudo que é vivo e
tem energia renasce.
E tudo é energia que flui.
Energia não se perde, se transforma.

Se nós somos energia, por que não acreditar
que somos eternos, só nos transformamos,
nos renovamos, evoluímos?

(I L A N A S K I T N E V S K Y - Viver, morrer e o depois...)

"assim como se fossem antigos amantes que não conseguem nunca se esquecerem um do outro, duas partículas subatômicas que interagiram um dia podem responder instantaneamente aos movimentos uma da outra, milhares de anos mais tarde, mesmo estando a anos-luz de distância" (David Bohm)
 

A religião católica fala de céu e inferno. O budismo fala de nirvana, depois de uma série de reencarnações. O materialismo nega qualquer continuidade após a morte. Há, portanto, diversas escatologias ou explicações daquilo que se espera depois da morte do indivíduo ou do planeta todo (apocalipse).
As religiões orientais são quase todas reencamacionistas, e nesse mister foram copiadas pelo espiritismo do ocidente. A pessoa que, depois da morte, tiver "dívida" (kamia) para pagar (males feitos) reassume novo corpo para purgação até atingir nível de fusão no todo — divinização; poderá reencarnar-se como avatar, como enviado, corno salvador.
Para aceitar uma dessas escatologias, tem-se de aceitar seus fundamentos. Tem-se de aceitar o ser humano não como um sistema energético triádico, mas composto de corpo e alma, ou de três ou de sete corpos, como no Budismo. A ciência já sabe o suficiente sobre o ser humano para entender que há "camadas vibratórias" de energias diferentes, múltiplas, que não se resumem em dois, três, sete níveis, simplesmente — por exemplo, um corpo e uma alma ou um corpo, alma e espírito etc.
Há "n" níveis, camadas de energia vibratórias acima e abaixo desses níveis. Essa é uma concepção que modificaria a crença da reencarnação. A concepção do bem e do mal (do certo e do errado) depende do subgrupo, que é quem define tudo isso. Fulano de tal, por exemplo, fez bem ou fez mal? Quando morrer vai pagar isso? Vai pagar o quê? Quem ou o que define isso? O que vai ele pagar? Que fez de bem? Que fez de mal?
A Física quântica diz que quando o indivíduo nasce, quando se dá novo ser, quando essas energias se materializam, constitui-se um "holograma" novo, embora com partículas energéticas utilizadas anteriormente por outros sistemas minerais, vegetais, animais, nesse ou noutros níveis de energia. Ninguém é completamente original. Estamos reassumindo coisas, formas, níveis — sempre recapitulando.
Cada recapitulação tem probabilidade de evolução anatrópica ou entrópica. Sena essa uma outra interpretação de reencarnação. Pode não se tratar de reassumir corpo, alma e espírito. Pode ser reassumir partículas, energias, níveis de energia que já foram uma vez utilizados por outros, mas em nova combinação ou holograma. E, como se sabe que partículas que já foram postas em interação uma vez continuarão sempre em vibração e a qualquer distância (efeito EPR), então eu estou vibrando com partículas que já foram de outros níveis.
O físico David Bohm propõe a existência de um universo multidimensional e de "camadas da realidade" mais profundas, situadas à "sombra da realidade" (nível quântico). De acordo com a controvertida teoria do renomado físico inglês, o passado, o presente e o futuro coexistem fora do tempo terráqueo, em outra dimensão. Sua teoria procura dar explicação racional para o comportamento estranho das partículas subatômicas. Segundo a física quântica ortodoxa, não podia ser racionalmente explicado o fato de "assim como se fossem antigos amantes que não conseguem nunca se esquecerem um do outro, duas partículas subatômicas que interagiram um dia podem responder instantaneamente aos movimentos uma da outra, milhares de anos mais tarde, mesmo estando a anos-luz de distância". Isto ocorreria contra a teoria da relatividade, que não admite (admitia) a existência de interações físicas em velocidades superiores á da luz. Este estranho comportamento é chamado efeito EPR — sigla formada pelas iniciais de Einstein e de seus colaboradores Podolski e Rosen, que chamaram a atenção para o fenômeno em 1935.
Segundo Bohm, as partículas, na verdade, não estão separadas, e os instrumentos de medição de partículas e os cientistas estão todos unidos ao resto do universo, formando um todo único e integral na "ordem implícita" (alfa ou quântica). Por trezentos anos, argumenta Bohm, a física tem tratado o espaço e o tempo ordinários como as categorias fundamentais da realidade objetiva, considerando sua meta a previsão de ocorrências físicas no tempo e no espaço. Sustenta, porém, que há um modo mais fundamental para descrever os eventos físicos. Essa nova abordagem trata o tempo e o espaço como derivados de nível mais profundo da realidade objetiva, que é chamada de "ordem implícita".
Tudo interpenetra tudo no vasto cosmo super-holográfico imaginado por ele; cada ação é causada, em última análise, por tudo o que acontece, aconteceu e acontecerá no universo. Existe misteriosa conexão entre o aqui e o ali, entre o passado, o presente e o futuro.
Parece, assim, que essa teoria do efeito EPR constitui precioso subsídio levantado pela ciência contemporânea para reencaminhar a discussão e a fé na transvida, superando as grotescas e primitivas concepções religiosas e materialistas existentes.
Como poderíamos captai* essa continuidade da manifestação da energia humana no pós-morte, através do cérebro direito, intuitivo-sintético, místico, gestáltico?
Os grandes iluminados da humanidade (Jesus Cristo, Buda, Lao-Tsé, Maomé) captaram e transmitiram para os seres humanos a noção de que a gente se transforma e entra em outro nível de integração, de fusão no todo, que se chama paz total — nirvana, paraíso. Essa captação foi, naturalmente, alcançada através do cérebro direito, intuitivo-sintético e somente por esse lado podemos captar esse fato.
De outro lado, informações podem ser levantadas por seres humanos que foram considerados mortos, clinicamente, pela ciência médica oficial e, circunstancialmente, voltaram a ser contemplados com sua dimensão biológica de plena consciência. A análise operacional de suas impressões, quando estiveram em outro ou próximo de outro nível de transformação, pode trazer importante afirmação da provável continuidade da manifestação humana no pós-morte.
No entanto o que se deve reter disso tudo (seja por uni caminho racional, intuitivo ou operacional) é a evidência dessa continuidade, e não o fato da provável explicação dada pelas diversas cosmovisões da ciência, da religião ou do povo. Tudo isso explica, de novo, a cadeia universal dos sistemas, sua interrelação, sua interdependência, sua evolução ou seu movimento e transformação contínua etc. Isso é o máximo que se pode aceitar.
Ao "morrer", supõe-se que a pessoa tenha um núcleo que se chamaria de "eu energético-psíquico" ou "eu-hologramático", ou seja, o grau de alcance da vibratoriedade dela no reino da energia em todos os níveis. Esse grau, essa conformação, esse conjunto, essa configuração (holograma) persiste, ou seja, a pessoa, ao "morrer", continua a existir e a evoluir. Passando a outro nível, continua às voltas com a desproporção que ainda persiste sem ter de postular a necessidade de outro corpo.
Esse processo continua até chegar à "fusão" que supere os contrários a tal nível de compactação que ele fique exatamente nas proporções em que o atrito seria mínimo, nulo, e a sensação de unificação seria máxima.
Retomar ao nível corporal é explicação muito primitiva das religiões orientais ou de outras ideologias religiosas que participam da mesma concepção. Naturalmente para se entender do jeito que a questão foi aqui colocada, precisa-se de um lado esquerdo algo desenvolvido. Os que só têm predominância exagerada do lado direito tornaram a reencarnação questão de crença, de fé, e não são ou estão acessíveis a explicações desse tipo.
A escatologia católica e protestante com céu, inferno, purgatório é a pior possível, tremendamente ameaçadora e definitiva, autêntico terrorismo espiritual.
Teilhard de Chardin é o único que aceita a evolução no cristianismo, tanto na origem dos seres como no seu rumo ulterior. Teilhard faz parte do grupo natural da Igreja Católica, e seus escritos foram proibidos ao unir evolucionismo com cristianismo e zen-budismo. Procurou propor algo menos terrorista, mas não conseguiu se impor ou modificar os catecismos, fazedores de cabeças indefesas.
É preciso driblar a corporação científica, as corporações religiosas e também a consciência ingênua (o doente, o crente, o povo, o discípulo), para, aos poucos, se construir nova mentalidade, novo horizonte rumo à dinâmica da vida universal e eterna, libertando indivíduos, grupos, países, a humanidade como um todo, dos estreitos limites dados pelos antiquados conceitos de nascimento e morte.
O Homem, a Humanidade, os indivíduos caminham e vão caminhar sempre por upayas periódicos e ascendentes, rumo ao além das fronteiras postiças de nascimento e morte. A visão da vida humana apresentada aqui supõe que educadores, pais, cientistas, religiosos, militares reformulem seu papel, ajustando-o ao processo upaya. São upayadores e responsáveis pela construção da verdade, da realidade, do conhecimento e mesmo da felicidade do ser humano.
Isso supõe reformulação dos currículos primários, secundários, universitários, esvaziando-os do absolutismo, do autoritarismo e reconstruindo-os pela óptica trialética sistêmica, inclusivista, upaya, libertadora, democrática ou por outra gramática da vida mais libertadora, proporcional e atualizada,
A revolução generalizada da educação, na área específica de cada um e de todos os 14 subsistemas, pode ser, no mínimo, concomitante à revolução econômica e política, e nunca anterior e isolada. Mas as sementes, os preparativos, os experimentos, os primeiros embates triádicos podem ser postos em marcha, como prenúncio de mais alto teor vital para os continuadores.

(Carlos Vieira - Manual de sobrevivência do ser humano)

O que é potencial pode ser mais real do que aquilo que é manifesto, pois a potencialidade exsite em um domínio atemporal, enquanto qualquer realidade é meramente efêmera: ela existe no tempo¨.(Goswami, Amit. A física da Alma. 2005)
 
 
 

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publicado às 15:09

Somos responsáveis por aquilo que fazemos, o que não fazemos e o que impedimos de fazer.
Albert Camus
 
somos aquilo que fazemos,
somos o que amamos,
somos o vento e a chuva,
somos do mundo e de Deus,
somos a nossa própria solidão,
somos amor e paixão,
somos aquilo que respeitamos,
somos a nossa própria escuridão,
somos medo,angustia,desilusão,
temos as portas fechadas sem tempo,
para ouvir,falar,compreender,perdoar,
sentir,viver e ter esperança.!
isabel Ribeiro Fonseca
 
Somos seres assustados. O mundo nunca
viu gente tão acuada como nós. Não envelhecemos,
apodrecemos. A maturidade está
fora de moda. O espelho é nosso algoz. Os
mais jovens, em pânico, fingindo que não,
sofrem diante de pais e mães ridículos em
seus modos e rostos falsamente juvenis.
Com a morte do amadurecimento, morre o
narrador, como diria o filósofo alemão
Walter Benjamin. Ninguém mais assume a
responsabilidade de falar do significado da
vida. Todos querem fingir que tudo pode
ser uma balada. “Eu me invento”, eis o
mandamento máximo do ressentido.
Denegação absoluta.
(Luiz Felipe Pondé - A era do ressentimento)
 
 
 
Desde os primórdios dos pensamentos escritos, os seres humanos percebem que tudo se desvanece, que temos medo do desvanecimento e que precisamos descobrir uma forma de viver apesar do medo e do desvanecimento. Os psicoterapeutas não podem se dar ao luxo de ignorar os vários grandes pensadores que concluíram que aprender a viver bem é aprender a morrer bem.
 
(---) Heidegger falava de dois modos de existência: o modo cotidiano e o modo ontológico. No modo cotidiano, somos consumidos e distraídos pelos meios materiais — ficamos assombrados em saber como as coisas são no mundo. No modo ontológico, nós nos concentramos em ser per se — isto é, ficamos assombrados em saber que as coisas são no mundo. Quando existimos no modo ontológico — o reino que está além das preocupações do dia-a-dia —, estamos num estado de prontidão particular para mudanças pessoais.
 
Mas como mudamos do modo cotidiano para o modo ontológico? Os filósofos freqüentemente falam das "experiências-limite" — experiências prementes que nos arrancam subitamente da nossa "cotidianidade" e fixam nossa atenção no próprio "ser". A experiência-limite mais poderosa é um confronto com a própria morte. Mas o que dizer das experiências-limite na prática clínica comum? Como o terapeuta obtém a alavanca para mudança disponível no modo ontológico nos pacientes que não estão diante de uma morte iminente?
 
Cada curso de terapia é repleto de experiências que, embora menos dramáticas, ainda podem efetivamente alterar a perspectiva. O luto, lidar com a morte do outro, é uma experiência-limite cujo poder é raramente aproveitado no processo terapêutico. É extremamente freqüente no trabalho de luto que nos concentremos extensa e exclusivamente na perda, nas questões inacabadas no relacionamento, na tarefa de nos desprender do morto e de voltar a entrar no fluxo da vida. Embora todas essas etapas sejam importantes, não devemos negligenciar o fato de que a morte do outro também serve para confrontar cada um de nós, de maneira violenta e pungente, com a nossa própria morte. Anos atrás, num estudo sobre luto, descobri que muitos cônjuges em luto foram mais longe que simplesmente passar pela reparação e voltar ao seu estágio de funcionamento antes do luto: entre um quarto e um terço dos indivíduos atingiram um novo nível de maturidade e sabedoria.
 
Além da morte e do luto, surgem muitas outras oportunidades para o discurso relacionado à morte durante o curso de cada terapia. Se tais questões nunca emergem, acredito que o paciente esteja simplesmente seguindo as instruções dissimuladas do terapeuta. Morte e mortalidade formam o horizonte de todas as discussões sobre o envelhecimento, mudanças do corpo, estágios da vida e muitos marcos significativos da vida, como as grandes datas comemorativas, a ida dos filhos para a faculdade, o fenômeno do ninho vazio, a aposentadoria, o nascimento de netos. Uma reunião de ex-colegas pode ser um catalisador particularmente potente. Cada paciente discute, num momento ou outro, as notícias de jornal sobre acidentes, atrocidades, e os obituários. E, além disso, também existe o inconfundível rastro da morte em cada pesadelo.
 
(...) Tenha sempre em mente que as preocupações com a morte freqüentemente se disfarçam em trajes sexuais. O sexo é o grande neutralizador da morte, a antítese vital absoluta da morte. Alguns pacientes que são expostos a uma grande ameaça da morte subitamente são tomados por preocupações com pensamentos sexuais. (Existem estudos TAT [Testes de Apreciação Temática] que documentam um maior conteúdo sexual em pacientes com câncer.) O termo francês para orgasmo, la petite mort ("pequena morte"), aponta para a perda orgásmica do self, que elimina a dor da separação — o "eu" solitário desaparecendo no "nós" fundidos.
 
Uma paciente portadora de câncer abdominal certa vez se consultou comigo porque tinha se apaixonado loucamente por seu cirurgião, a ponto de suas fantasias sexuais com ele terem substituído seus medos em relação à morte. Quando, por exemplo, foi marcado para ela um exame importante de ressonância magnética, no qual ele estaria presente, a decisão sobre que roupa vestir a consumiu tanto que ela perdeu de vista o fato de que sua vida estava por um fio. Outro paciente, uma "eterna criança", um menino-prodígio da matemática com enorme potencial, tinha permanecido infantil e fortemente ligado à mãe já na fase adulta. Extraordinariamente talentoso para conceber grandes idéias, em brainstorms de improviso, em captar rapidamente a essência de novos e complexos campos de pesquisa, nunca conseguiu tomar a resolução de concluir um projeto, para construir uma carreira, uma família ou uma casa. As preocupações com a morte não eram conscientes, mas entravam em nossas discussões por um sonho:
 
Minha mãe e eu estamos num quarto grande. Parece um quarto da nossa velha casa, mas tem uma praia no lugar de uma das paredes. Caminhamos na praia, e minha mãe insiste para que eu entre na água. Reluto, mas pego uma pequena cadeira para ela se sentar e sigo em frente. A água é bem escura, e logo, à medida que avanço mais para fundo, até a altura dos meus ombros, as ondas se transformam em granito. Desperto ansiando desesperadamente por ar e encharcado de suor. A imagem das ondas de granito cobrindo-o, uma imagem poderosa de terror, morte e enterro, ajudou-nos a entender sua relutância em abandonar a infância e a mãe, e entrar por inteiro na vida adulta.
 
Nós, seres humanos, parecemos ser criaturas em busca de significados que tiveram o infortúnio de serem lançadas num mundo destituído de significado intrínseco. Uma das nossas maiores tarefas é inventar um significado consistente o bastante para sustentar a vida e executar a difícil manobra de negar nossa autoria pessoal desse significado. Assim sendo, concluímos, pelo contrário, que essa coisa está "aí fora" esperando por nós. Nossa procura incessante por sistemas substanciais de significados freqüentemente nos lança em crises de significado.
 
Mais indivíduos buscam terapia por causa de preocupações com o significado da vida do que os terapeutas muitas vezes percebem. Jung relatou que um terço de seus pacientes o consultavam por esse motivo. As queixas podem assumir diferentes formas. Por exemplo: "Minha vida não tem nenhuma coerência", "Não tenho paixão por nada", "Por que estou vivendo? Para quê?" "Com certeza a vida deve ter algum significado mais profundo." "Sinto-me tão vazio — assistir tevê toda noite me faz sentir sem sentido, tão inútil" "Mesmo agora, aos 50 anos de idade, ainda não sei o que quero fazer quando crescer."
 
(...) Alguns workshops experienciais empregam truques para estimular o discurso sobre o significado da vida. Talvez o mais comum seja perguntar aos participantes o que eles poderiam desejar como epitáfio em suas lápides. A maioria dessas indagações sobre o significado da vida leva a uma discussão de metas como altruísmo, hedonismo, dedicação a uma causa, generatividade, criatividade, auto-realização. Muitos sentem que projetos com um sentido assumem um significado mais profundo e mais poderoso se forem autotranscendentes — isto é, dirigidos para algo ou alguém fora deles mesmos, tais como o amor por uma causa, uma pessoa, uma essência divina.
 
O recente sucesso precoce de jovens milionários do setor de alta tecnologia freqüentemente gera uma crise existencial que pode ser instrutiva sobre os sistemas de significado de vida não autotranscendentes. Muitos desses indivíduos iniciam suas carreiras com uma visão bem clara — realizar-se, ganhar muito dinheiro, viver a boa vida, receber o respeito dos colegas, aposentar-se cedo. E um número sem precedentes de jovens na casa dos trinta fizeram exatamente isso. Mas, então, surgiu a pergunta: "E agora? E quanto ao restante da minha vida — os próximos quarenta anos?" A maioria dos jovens milionários do setor de alta tecnologia que tenho visto continua a fazer muito do mesmo: iniciam novas empresas, tenta repetir seus sucessos. Por quê? Eles dizem a si mesmos que precisam provar que não foi um golpe de sorte, que conseguem vencer sozinhos, sem um determinado sócio ou mentor. Eles aumentam o nível de exigência. Para sentir que eles e sua família estão seguros, que não precisam de mais um ou dois milhões no banco — precisam de cinco, dez, até cinqüenta milhões para se sentirem seguros. Percebem a falta de sentido e a irracionalidade de ganhar mais dinheiro quando já têm mais do que conseguiriam gastar, mas isso não os detém. Percebem que estão tirando o tempo de suas famílias, das coisas mais próximas ao coração, mas simplesmente não conseguem desistir de jogar o jogo. "O dinheiro está lá fora à espera" eles me dizem. "Tudo que preciso fazer é apanhá-lo." Eles precisam fazer negócios. Um empreendedor imobiliário me disse que sentia que desapareceria se parasse. Muitos têm medo do tédio — mesmo o menor indício de tédio faz com que voltem correndo para o jogo. Schopenhauer disse que o próprio desejo nunca é satisfeito — assim que um desejo é satisfeito, aparece um outro. Embora possa existir alguma pausa bem breve, algum período fugaz de saciedade, ele é imediatamente transformado em tédio. "Cada vida humana", ele disse, "é lançada para trás e para frente, entre dor e tédio."
 
Diferentemente da minha abordagem das outras preocupações existenciais supremas (morte, isolamento, liberdade), penso que o significado da vida é mais bem abordado obliquamente. O que devemos fazer é mergulhar num dos muitos significados possíveis, particularmente um com uma base autotranscendente. É o compromisso que conta, e nós, terapeutas, fazemos mais bem quando identificamos e ajudamos a remover os obstáculos ao compromisso. Como ensinou Buda, a questão do significado da vida não é edificante. Devemos mergulhar no rio da vida e deixar que a questão seja carregada pela corrente.
 
 
(Irvin D. Yalom - Os desafios da terapia)
 
O sentido da vida
 

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Disse Deus: “Haja luz!”, e houve luz. Viu Deus que a luz era boa; e separou a luz das trevas.…
(Ge.1,3-4)
 
“Os dados do CERN são geralmente tomados como evidência de que a partícula é a de Higgs. É verdade que a partícula de Higgs pode explicar os dados, mas podem existir outras explicações, nós também obteríamos estes dados a partir de outras partículas”
(Mads Toudal Frandsen)
 
Um ano antes, Katherine e o irmão estavam conversando sobre uma das questões mais perenes da filosofia — a existência da alma —, e em particular se os humanos possuem ou não algum tipo de consciência capaz de sobreviver fora do corpo.
Ambos intuíam que essa alma humana provavelmente existia. A maioria das filosofias antigas também acreditava nisso. O budismo e o bramanismo endossavam a metempsicose — a reencarnação, a transmigração da alma para um novo corpo após a morte. Os platônicos sustentavam que o corpo é uma "prisão" da qual a alma escapa.
E os estóicos a chamavam de apospasma tou theu — "uma partícula de Deus" — e acreditavam que, na hora da morte, ela volta para junto Dele.
A existência da alma humana, percebeu Katherine com alguma frustração, era provavelmente um conceito que jamais seria provado pela ciência. Confirmar que uma consciência sobrevive fora do corpo humano após a morte equivalia a soltar uma nuvem de fumaça pela boca e esperar encontrá-la anos depois.
Após a conversa com o irmão, Katherine teve uma idéia estranha. Peter havia mencionado o Livro do Gênesis e sua descrição da alma como Neshemah — um sopro de vida, uma espécie de "inteligência" espiritual separada do corpo. Ocorreu-lhe que a palavra inteligência sugeria a presença de
pensamento. A ciência noética propõe que os pensamentos têm massa, portanto, era lógico que a alma humana também poderia ter.
Será possível pesar a alma humana?
(Dan Brown - O Símbolo Perdido)
 

Em meados de 2012, foi anunciada a criação do gigante acelerador LHC, grande colisor de hádrons e também chamado Large Hadron Collider, do CERN, situado na divisa entre a Suíça e França, cujo objetivo principal é obter dados sobre a colisão de feixes de partículas, na esperança de flagrar algumas das possíveis subpartículas. Dentre elas detectou-se o chamado Bóson de Higgs, uma partícula com grandes chances de ser a tão procurada partícula fundamental da matéria, também batizada como “partícula de Deus” –termo usado como estratégia de marketing, pois na verdade o termo concebido pelo físico Leon Lederman era a “maldita partícula”, por ser tão difícil de ser encontrada. Por ocasião da produção de seu livro, que levaria o nome de Goddamn particle, porém, o editor substituiu a expressão por “God particle”, ou seja, de partícula maldita para partícula de Deus. E o substantivo prové de seu idealizador, Peter Higgs, físico britânico e professor da Universidade de Edimburgo, na Escócia.

(Rodovalho, Bispo - Ciência e fé: o reencontro pela física quântica)

 
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Uma palestra estava agendada para o dia 24 de novembro de 2010 no King’s College de Londres, mas o palestrante não pôde comparecer por motivos de saúde. No entanto, ele gravou sua apresentação em Edimburgo, capital da Escócia, onde reside. No vídeo víamos um senhor de 81 anos discorrer sobre o estranho título: “Minha vida como um bóson”.1 Peter Higgs, professor emérito da Universidade de Edimburgo, faz jus ao tema de sua palestra.
Como já escrevemos, muitas teorias físicas são baseadas em noções de simetria, que podem ser incorporadas matematicamente nos modelos desenvolvidos pelos físicos teóricos. Entretanto, algumas dessas simetrias são apenas aproximações, ou seja, a natureza “respeita” essas simetrias apenas grosso modo. Havia então a necessidade de construir teorias nas quais simetrias deixassem de ser exatas, ou, como dizemos no jargão, elas deveriam ser quebradas ou violadas.
Esse era um tema de pesquisa importante na década de 1960, com vários físicos de renome trabalhando na área. Como às vezes acontece na véspera de uma grande descoberta, havia um estado de confusão teórica sobre como introduzir um mecanismo de quebra de simetria que pudesse ser realizado na natureza sem contradição com as observações experimentais. O problema mais sério era que os modelos propostos para gerar a quebra de simetria previam também uma nova partícula, um bóson sem massa, denominado “bóson de Nambu-Goldstone”. Ele foi previsto em teorias propostas em 1960 pelos físicos Yoichiro Nambu e Jeffrey Goldstone. Por não se enquadrar entre as partículas conhecidas na época, sua presença era um obstáculo ao sucesso da teoria.
Em 1964, Higgs escreveu dois pequenos artigos, de menos de duas páginas cada, mostrando uma solução para o problema. No primeiro, elaborado em julho, mostrou como contornar a questão.2 Em suas palavras, conseguiu “exorcizar”, da teoria, o bóson sem massa de Nambu-Goldstone. O segundo artigo provia um exemplo simples e concreto de uma teoria em que a quebra de simetria ocorre de maneira satisfatória.3 Houve dois outros trabalhos desenvolvidos independentemente no mesmo período, com ideias semelhantes,4 mas apenas o segundo artigo de Higgs menciona explicitamente que essas teorias preveem a existência de novos bósons com massa, diferentes do bóson de Nambu- Goldstone. O exemplo utilizado por Higgs era o mais simples possível e posteriormente foi generalizado de várias maneiras por diversos pesquisadores. Entretanto, o mecanismo de quebra de simetria descrito por Higgs e outros em 1964 ficou conhecido, talvez injustamente, como mecanismo de Higgs, e o bóson com massa resultante desse mecanismo acabou sendo chamado de “bóson de Higgs”.

O MECANISMO DE HIGGS
O mecanismo de Higgs foi desenvolvido para estudar sistemas nos quais ocorre uma quebra de simetria. O conceito de simetria já foi discutido, mas precisamos detalhar como sua quebra pode acontecer.
Imagine o fundo de uma garrafa de vinho ou um chapéu tipo sombreiro mexicano, onde há uma elevação central (um montinho no centro) cercada por uma região mais baixa, como uma montanha cercada por um vale circular. Em ambos os casos, existe uma simetria esférica, ou seja, ao girarmos tanto o fundo da garrafa quanto o chapéu não percebemos nenhuma diferença (isso na situação idealizada de não haver defeitos na garrafa e no chapéu). Agora vamos colocar uma pequena bolinha no topo da elevação central. O sistema continuará com simetria esférica se a bolinha permanecer no topo. No entanto, essa situação é instável: qualquer pequena perturbação fará com que a bolinha caia do topo para a região mais baixa, no “vale” abaixo da montanha. Quando isso acontece, a simetria esférica deixa de existir, pois podemos distinguir a posição da bolinha no vale quando giramos o sistema. Dizemos que a simetria foi quebrada.
Existem dois tipos de movimentos da bolinha no fundo do vale, que correspondem a dois tipos diferentes de partículas elementares. Ela pode ser facilmente deslocada ao longo do vale, que é plano. Essa facilidade ou ausência de resistência representa a existência do bóson de Nambu-Goldstone. Agora, para mover a bolinha na direção tangencial ao vale, ou seja, na direção da montanha, uma energia deve ser gasta para fazer com que ela suba novamente a encosta. Essa energia pode ser interpretada como uma massa. Portanto, esse movimento descreve outra partícula, dessa vez com massa — o bóson de Higgs.
A maneira de eliminar o bóson de Nambu-Goldstone encontrada por Higgs foi introduzir no modelo um ingrediente adicional. Esse ingrediente é algo bastante familiar: o fóton. Como já vimos, o fóton é uma partícula sem massa, responsável pela força eletromagnética. Essa força tem, em princípio, alcance infinito, mas sempre diminuindo de intensidade com o aumento da distância entre duas cargas. E isso está relacionado ao fato de o fóton ter massa nula. Caso ele tivesse massa, a intensidade da força diminuiria muito mais rapidamente, de maneira exponencial. Higgs mostrou que, ao introduzir o fóton em sua teoria, este “engoliria” o bóson de Nambu-Goldstone e com isso ganharia massa não nula. Sabemos que os fótons não têm massa, mas Higgs estava apenas exemplificando um mecanismo em que o bóson de Nambu-Goldstone poderia desaparecer da teoria, devorado por um fóton.
O mecanismo de Higgs foi incorporado ao Modelo Padrão, desenvolvido independentemente pelo físico norte-americano Steven Weinberg e pelo físico paquistanês Abdus Salam em 1967, baseados em ideias anteriores do físico estadunidense Sheldon Glashow. No Modelo Padrão, existe uma simetria entre fótons e as partículas responsáveis pela força fraca, que possui alcance muito pequeno, os bósons W e Z. Esses bósons ganham massa exatamente através do mecanismo de Higgs, ou seja, engolindo os bósons de Nambu-Goldstone resultantes de uma quebra de simetria. O fóton, sendo uma partícula sem massa, não participa da comilança.
Glashow, Weinberg e Salam dividiram o prêmio Nobel de 1979. No Modelo Padrão, o mecanismo de Higgs é essencial para gerar massas para todas as partículas elementares, incluindo os férmions, como os elétrons. Antes de encerrar o tema, devo evitar injustiças mencionando que os bósons de Nambu-Goldstone nem sempre são um problema. Em algumas teorias eles são muito úteis. Caso a simetria a ser quebrada não seja exata inicialmente, os bósons de Nambu-Goldstone podem possuir uma pequena massa. Nesse caso, são chamados de pseudobósons de Nambu-Goldstone. Eles descrevem de maneira satisfatória, por exemplo, os píons, partículas compostas de um par quark-antiquark, como vimos. Existem também modelos recentes nos quais o bóson de Higgs não seria uma partícula elementar, e sim composta de algo que ainda não conhecemos. Nesses modelos, o bóson de Higgs é descrito como um pseudobóson de Nambu- Goldstone.5 Seria uma grande ironia se esses modelos fossem corretos, pois o grande objetivo de Higgs era eliminar essas partículas da teoria.

A ORIGEM DA MASSA DAS PARTÍCULAS ELEMENTARES
A origem da massa das partículas pode ser mais bem explicada através de uma simples analogia, mas desde já alerto o leitor de que analogias são sempre limitadas e imperfeitas, e esta não é exceção.
Imagine que sejamos seres aquáticos confinados em um mundo totalmente submerso em água. Certamente teríamos dificuldade em mover objetos, devido à presença da água. Lembre que a massa de um corpo está relacionada com sua inércia, ou seja, com a dificuldade de colocá-lo em movimento. Portanto, a “massa” que medimos de corpos é maior do que sua massa real, caso não houvesse água. Se nosso mundo imaginário fosse totalmente submerso em mel, a “massa” medida seria ainda maior, pois o mel é muito mais viscoso.
O Modelo Padrão pressupõe que estejamos imersos em um meio absolutamente homogêneo, denominado “campo de Higgs”.
As partículas elementares ganham massa ao se mover nesse meio. Suas massas seriam decorrentes das interações com o campo de Higgs. Nesse modelo, partículas que interagem de maneira distinta nesse campo possuem diferentes massas. Quanto mais intensa sua interação com o campo de Higgs, maior é a “viscosidade” do meio e, portanto, maior é sua massa.
Teorias, porém, precisam ser testadas experimentalmente. Na analogia com o mundo subaquático, um modo de comprovar a existência da água seria fazer uma onda, por exemplo, atirando uma pedra na superfície. Isso exigiria certo esforço, muito maior se o ambiente fosse de mel. No caso do campo de Higgs, temos de fazer algo parecido, ou seja, dar uma “balançada” no campo para gerar uma onda. No jargão, dizemos “perturbar o campo de Higgs”. Essa onda no campo de Higgs é representada por uma nova partícula, o bóson de Higgs. Contudo, não é nada fácil balançar esse campo. É necessária uma imensa concentração de energia em uma região minúscula, quase um ponto. Esse feito pode ser realizado com a ajuda dos aceleradores de partículas. As colisões de partículas — prótons, no caso do LHC — podem balançar o campo de Higgs e produzir o bóson de Higgs.
Esse bóson de Higgs era a única peça que faltava para comprovar o Modelo Padrão. Sua procura era a prioridade máxima dos mais recentes experimentos em aceleradores de partículas. A importância de descobri-lo foi exposta de maneira brilhante no livro de divulgação escrito por Lederman em 1993, intitulado The God Particle: If the Universe is the Answer What is the Question? [A partícula-Deus: se o universo é a resposta, qual é a pergunta?].6 Argumentando que o bóson de Higgs é tão crucial para o entendimento do cerne da matéria e, ao mesmo tempo, tão difícil de ser detectado, Lederman decide apelidá-lo de partícula-Deus (e não “partícula de Deus”, como comumente se diz). Infelizmente essa brincadeira de Lederman levou às mais descabidas afirmações teológicas sobre o bóson de Higgs. No próprio livro ele escreve que preferia o apelido “the goddamn particle”, o que se traduz como “partícula maldita”, mas o editor vetou esse título. Em minha opinião, o livro de Lederman foi uma tentativa desesperada de chamar a atenção do público dos Estados Unidos para a importância dessa busca, pois um projeto de construção de um enorme acelerador no Texas estava sendo questionado pelo Congresso. Infelizmente, o livro chegou tarde demais: como descreverei mais adiante, o projeto do Superconducting SuperCollider foi cancelado logo após seu lançamento.
O Modelo Padrão não prevê qual é a massa do bóson de Higgs, tornando sua busca ainda mais difícil. De fato, essa massa é o único parâmetro livre ainda indeterminado do modelo. Uma vez medida, ela determina de maneira unívoca todas as propriedades do bóson de Higgs, como as várias maneiras pelas quais ele pode se desintegrar. Essas propriedades são essenciais para estabelecer uma estratégia de busca em experimentos.
A busca experimental pelo bóson de Higgs começou em 1975, pois levou algum tempo até que a comunidade científica assumisse com seriedade a possibilidade de que o Modelo Padrão descrevesse realmente a natureza. Isso aconteceu após a demonstração, no início dos anos 1970, de que cálculos precisos podem ser realizados em nível quântico com o uso do Modelo Padrão. Os físicos teóricos holandeses Martinus Veltman e Gerardus ‘t Hooft, que desenvolveram os métodos para a realização desses cálculos, receberam o prêmio Nobel de 1999 pela “elucidação da estrutura quântica das interações eletrofracas”. A importância da busca do bóson de Higgs cresceu rapidamente e já em 1990, no livro intitulado Higgs Hunter’s Guide [Guia de caça ao Higgs], lê-se: “O sucesso do Modelo Padrão tem sido espantoso. O problema central em física de partículas hoje é entender o campo de Higgs”.7 O desenvolvimento de novos aceleradores, a confirmação experimental do Modelo Padrão e a busca do bóson de Higgs serão os temas abordados a seguir.


(Rogério Rosenfeld - O Cerne da Matéria)
partícula de Deus ou de Higgs
 
NOTAS
1. O vídeo, com transcrição em inglês, está disponível em: . Acesso em: 25 jul. 2013.
2. P. W. Higgs. “Broken Symmetries, Massless Particles and Gauge Fields”. Physics Letters B, v. 12, n. 2, pp. 132-3, 15 set. 1964.
3. Id. “Broken Symmetries and the Masses of Gauge Bosons”. Physical Review Letters, v. 13, n. 16, pp. 508-9, 19 out. 1964.
4. F. Englert; R. Brout. “Brokon Symmetry and the Mars of Gauge Vector Mesons”. Physical Review Letters, v. 13, n. 9, p. 321, 31 ago. 1964; G. S. Guralnik; C. R. Hagen; W. B. Kibble. “Global Conservation Laws and Massless Particles” Physical Review Letters, v. 13, n. 20, p. 585, 16 nov. 1964.
5. Veja, por exemplo, . Acesso em: 25 jul. 2013.
6. L. Lederman; D. Teresi. The God Particle: If the Universe Is the Answer, What Is the Question? Nova York: Dell Publishing, 1993.
7. J. F. Gunion; H. Haber; G. Kane; S. Dawson. The Higgs Hunter’s Guide. Basic Books, 1990.
 

 

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publicado às 18:29

 
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Uma palestra estava agendada para o dia 24 de novembro de 2010 no King’s College de Londres, mas o palestrante não pôde comparecer por motivos de saúde. No entanto, ele gravou sua apresentação em Edimburgo, capital da Escócia, onde reside. No vídeo víamos um senhor de 81 anos discorrer sobre o estranho título: “Minha vida como um bóson”.1 Peter Higgs, professor emérito da Universidade de Edimburgo, faz jus ao tema de sua palestra.
Como já escrevemos, muitas teorias físicas são baseadas em noções de simetria, que podem ser incorporadas matematicamente nos modelos desenvolvidos pelos físicos teóricos. Entretanto, algumas dessas simetrias são apenas aproximações, ou seja, a natureza “respeita” essas simetrias apenas grosso modo. Havia então a necessidade de construir teorias nas quais simetrias deixassem de ser exatas, ou, como dizemos no jargão, elas deveriam ser quebradas ou violadas.
Esse era um tema de pesquisa importante na década de 1960, com vários físicos de renome trabalhando na área. Como às vezes acontece na véspera de uma grande descoberta, havia um estado de confusão teórica sobre como introduzir um mecanismo de quebra de simetria que pudesse ser realizado na natureza sem contradição com as observações experimentais. O problema mais sério era que os modelos propostos para gerar a quebra de simetria previam também uma nova partícula, um bóson sem massa, denominado “bóson de Nambu-Goldstone”. Ele foi previsto em teorias propostas em 1960 pelos físicos Yoichiro Nambu e Jeffrey Goldstone. Por não se enquadrar entre as partículas conhecidas na época, sua presença era um obstáculo ao sucesso da teoria.*** Em 1964, Higgs escreveu dois pequenos artigos, de menos de duas páginas cada, mostrando uma solução para o problema. No primeiro, elaborado em julho, mostrou como contornar a questão.2 Em suas palavras, conseguiu “exorcizar”, da teoria, o bóson sem massa de Nambu-Goldstone. O segundo artigo provia um exemplo simples e concreto de uma teoria em que a quebra de simetria ocorre de maneira satisfatória.3 Houve dois outros trabalhos desenvolvidos independentemente no mesmo período, com ideias semelhantes,4 mas apenas o segundo artigo de Higgs menciona explicitamente que essas teorias preveem a existência de novos bósons com massa, diferentes do bóson de Nambu- Goldstone. O exemplo utilizado por Higgs era o mais simples possível e posteriormente foi generalizado de várias maneiras por diversos pesquisadores. Entretanto, o mecanismo de quebra de simetria descrito por Higgs e outros em 1964 ficou conhecido, talvez injustamente, como mecanismo de Higgs, e o bóson com massa resultante desse mecanismo acabou sendo chamado de “bóson de Higgs”.

O MECANISMO DE HIGGS
O mecanismo de Higgs foi desenvolvido para estudar sistemas nos quais ocorre uma quebra de simetria. O conceito de simetria já foi discutido, mas precisamos detalhar como sua quebra pode acontecer.
Imagine o fundo de uma garrafa de vinho ou um chapéu tipo sombreiro mexicano, onde há uma elevação central (um montinho no centro) cercada por uma região mais baixa, como uma montanha cercada por um vale circular. Em ambos os casos, existe uma simetria esférica, ou seja, ao girarmos tanto o fundo da garrafa quanto o chapéu não percebemos nenhuma diferença (isso na situação idealizada de não haver defeitos na garrafa e no chapéu). Agora vamos colocar uma pequena bolinha no topo da elevação central. O sistema continuará com simetria esférica se a bolinha permanecer no topo. No entanto, essa situação é instável: qualquer pequena perturbação fará com que a bolinha caia do topo para a região mais baixa, no “vale” abaixo da montanha. Quando isso acontece, a simetria esférica deixa de existir, pois podemos distinguir a posição da bolinha no vale quando giramos o sistema. Dizemos que a simetria foi quebrada.
Existem dois tipos de movimentos da bolinha no fundo do vale, que correspondem a dois tipos diferentes de partículas elementares. Ela pode ser facilmente deslocada ao longo do vale, que é plano. Essa facilidade ou ausência de resistência representa a existência do bóson de Nambu-Goldstone. Agora, para mover a bolinha na direção tangencial ao vale, ou seja, na direção da montanha, uma energia deve ser gasta para fazer com que ela suba novamente a encosta. Essa energia pode ser interpretada como uma massa. Portanto, esse movimento descreve outra partícula, dessa vez com massa — o bóson de Higgs.*** A maneira de eliminar o bóson de Nambu-Goldstone encontrada por Higgs foi introduzir no modelo um ingrediente adicional. Esse ingrediente é algo bastante familiar: o fóton. Como já vimos, o fóton é uma partícula sem massa, responsável pela força eletromagnética. Essa força tem, em princípio, alcance infinito, mas sempre diminuindo de intensidade com o aumento da distância entre duas cargas. E isso está relacionado ao fato de o fóton ter massa nula. Caso ele tivesse massa, a intensidade da força diminuiria muito mais rapidamente, de maneira exponencial. Higgs mostrou que, ao introduzir o fóton em sua teoria, este “engoliria” o bóson de Nambu-Goldstone e com isso ganharia massa não nula. Sabemos que os fótons não têm massa, mas Higgs estava apenas exemplificando um mecanismo em que o bóson de Nambu-Goldstone poderia desaparecer da teoria, devorado por um fóton.
O mecanismo de Higgs foi incorporado ao Modelo Padrão, desenvolvido independentemente pelo físico norte-americano Steven Weinberg e pelo físico paquistanês Abdus Salam em 1967, baseados em ideias anteriores do físico estadunidense Sheldon Glashow. No Modelo Padrão, existe uma simetria entre fótons e as partículas responsáveis pela força fraca, que possui alcance muito pequeno, os bósons W e Z. Esses bósons ganham massa exatamente através do mecanismo de Higgs, ou seja, engolindo os bósons de Nambu-Goldstone resultantes de uma quebra de simetria. O fóton, sendo uma partícula sem massa, não participa da comilança.
Glashow, Weinberg e Salam dividiram o prêmio Nobel de 1979. No Modelo Padrão, o mecanismo de Higgs é essencial para gerar massas para todas as partículas elementares, incluindo os férmions, como os elétrons. Antes de encerrar o tema, devo evitar injustiças mencionando que os bósons de Nambu-Goldstone nem sempre são um problema. Em algumas teorias eles são muito úteis. Caso a simetria a ser quebrada não seja exata inicialmente, os bósons de Nambu-Goldstone podem possuir uma pequena massa. Nesse caso, são chamados de pseudobósons de Nambu-Goldstone. Eles descrevem de maneira satisfatória, por exemplo, os píons, partículas compostas de um par quark-antiquark, como vimos. Existem também modelos recentes nos quais o bóson de Higgs não seria uma partícula elementar, e sim composta de algo que ainda não conhecemos. Nesses modelos, o bóson de Higgs é descrito como um pseudobóson de Nambu- Goldstone.5 Seria uma grande ironia se esses modelos fossem corretos, pois o grande objetivo de Higgs era eliminar essas partículas da teoria.

A ORIGEM DA MASSA DAS PARTÍCULAS ELEMENTARES
A origem da massa das partículas pode ser mais bem explicada através de uma simples analogia, mas desde já alerto o leitor de que analogias são sempre limitadas e imperfeitas, e esta não é exceção.
Imagine que sejamos seres aquáticos confinados em um mundo totalmente submerso em água. Certamente teríamos dificuldade em mover objetos, devido à presença da água. Lembre que a massa de um corpo está relacionada com sua inércia, ou seja, com a dificuldade de colocá-lo em movimento. Portanto, a “massa” que medimos de corpos é maior do que sua massa real, caso não houvesse água. Se nosso mundo imaginário fosse totalmente submerso em mel, a “massa” medida seria ainda maior, pois o mel é muito mais viscoso.
O Modelo Padrão pressupõe que estejamos imersos em um meio absolutamente homogêneo, denominado “campo de Higgs”.
As partículas elementares ganham massa ao se mover nesse meio. Suas massas seriam decorrentes das interações com o campo de Higgs. Nesse modelo, partículas que interagem de maneira distinta nesse campo possuem diferentes massas. Quanto mais intensa sua interação com o campo de Higgs, maior é a “viscosidade” do meio e, portanto, maior é sua massa.
Teorias, porém, precisam ser testadas experimentalmente. Na analogia com o mundo subaquático, um modo de comprovar a existência da água seria fazer uma onda, por exemplo, atirando uma pedra na superfície. Isso exigiria certo esforço, muito maior se o ambiente fosse de mel. No caso do campo de Higgs, temos de fazer algo parecido, ou seja, dar uma “balançada” no campo para gerar uma onda. No jargão, dizemos “perturbar o campo de Higgs”. Essa onda no campo de Higgs é representada por uma nova partícula, o bóson de Higgs. Contudo, não é nada fácil balançar esse campo. É necessária uma imensa concentração de energia em uma região minúscula, quase um ponto. Esse feito pode ser realizado com a ajuda dos aceleradores de partículas. As colisões de partículas — prótons, no caso do LHC — podem balançar o campo de Higgs e produzir o bóson de Higgs.
Esse bóson de Higgs era a única peça que faltava para comprovar o Modelo Padrão. Sua procura era a prioridade máxima dos mais recentes experimentos em aceleradores de partículas. A importância de descobri-lo foi exposta de maneira brilhante no livro de divulgação escrito por Lederman em 1993, intitulado The God Particle: If the Universe is the Answer What is the Question? [A partícula-Deus: se o universo é a resposta, qual é a pergunta?].6 Argumentando que o bóson de Higgs é tão crucial para o entendimento do cerne da matéria e, ao mesmo tempo, tão difícil de ser detectado, Lederman decide apelidá-lo de partícula-Deus (e não “partícula de Deus”, como comumente se diz). Infelizmente essa brincadeira de Lederman levou às mais descabidas afirmações teológicas sobre o bóson de Higgs. No próprio livro ele escreve que preferia o apelido “the goddamn particle”, o que se traduz como “partícula maldita”, mas o editor vetou esse título. Em minha opinião, o livro de Lederman foi uma tentativa desesperada de chamar a atenção do público dos Estados Unidos para a importância dessa busca, pois um projeto de construção de um enorme acelerador no Texas estava sendo questionado pelo Congresso. Infelizmente, o livro chegou tarde demais: como descreverei mais adiante, o projeto do Superconducting SuperCollider foi cancelado logo após seu lançamento.
O Modelo Padrão não prevê qual é a massa do bóson de Higgs, tornando sua busca ainda mais difícil. De fato, essa massa é o único parâmetro livre ainda indeterminado do modelo. Uma vez medida, ela determina de maneira unívoca todas as propriedades do bóson de Higgs, como as várias maneiras pelas quais ele pode se desintegrar. Essas propriedades são essenciais para estabelecer uma estratégia de busca em experimentos.
A busca experimental pelo bóson de Higgs começou em 1975, pois levou algum tempo até que a comunidade científica assumisse com seriedade a possibilidade de que o Modelo Padrão descrevesse realmente a natureza. Isso aconteceu após a demonstração, no início dos anos 1970, de que cálculos precisos podem ser realizados em nível quântico com o uso do Modelo Padrão. Os físicos teóricos holandeses Martinus Veltman e Gerardus ‘t Hooft, que desenvolveram os métodos para a realização desses cálculos, receberam o prêmio Nobel de 1999 pela “elucidação da estrutura quântica das interações eletrofracas”. A importância da busca do bóson de Higgs cresceu rapidamente e já em 1990, no livro intitulado Higgs Hunter’s Guide [Guia de caça ao Higgs], lê-se: “O sucesso do Modelo Padrão tem sido espantoso. O problema central em física de partículas hoje é entender o campo de Higgs”.7 O desenvolvimento de novos aceleradores, a confirmação experimental do Modelo Padrão e a busca do bóson de Higgs serão os temas abordados a seguir.


(Rogério Rosenfeld - O Cerne da Matéria)
partícula de Deus ou de Higgs
 
NOTAS
1. O vídeo, com transcrição em inglês, está disponível em: . Acesso em: 25 jul. 2013.
2. P. W. Higgs. “Broken Symmetries, Massless Particles and Gauge Fields”. Physics Letters B, v. 12, n. 2, pp. 132-3, 15 set. 1964.
3. Id. “Broken Symmetries and the Masses of Gauge Bosons”. Physical Review Letters, v. 13, n. 16, pp. 508-9, 19 out. 1964.
4. F. Englert; R. Brout. “Brokon Symmetry and the Mars of Gauge Vector Mesons”. Physical Review Letters, v. 13, n. 9, p. 321, 31 ago. 1964; G. S. Guralnik; C. R. Hagen; W. B. Kibble. “Global Conservation Laws and Massless Particles” Physical Review Letters, v. 13, n. 20, p. 585, 16 nov. 1964.
5. Veja, por exemplo, . Acesso em: 25 jul. 2013.
6. L. Lederman; D. Teresi. The God Particle: If the Universe Is the Answer, What Is the Question? Nova York: Dell Publishing, 1993.
7. J. F. Gunion; H. Haber; G. Kane; S. Dawson. The Higgs Hunter’s Guide. Basic Books, 1990.

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publicado às 14:56


A Origem do Terrorismo islâmico

por Thynus, em 14.04.15
"Os homens nunca fazem o mal tão plenamente 
e com tanto entusiasmo 
como quando o fazem por convicção religiosa".
Blaise Pascal
 

 

 

A maioria dos muçulmanos não é fundamentalista, e na sua maioria os fundamentalistas não são terroristas, mas os terroristas de hoje são na sua maior parte muçulmanos e identificam-se orgulhosamente como tal. De modo compreensível, os muçulmanos queixam-se de que os média falam dos movimentos e acções terroristas como «islâmicos» e perguntam por que razão não identificam eles, de modo semelhante, os terroristas e o terrorismo irlandeses e bascos como «cristãos». A resposta é simples e óbvia - eles não se designam como tal. A queixa dos muçulmanos é compreensível, mas devia ser dirigida àqueles que fazem as notícias e não àqueles que as dão. Osama bin Laden e os seus sequazes da Al-Qaeda podem não representar o Islão, e muitas das suas afirmações e das suas acções contradizem claramente os princípios e ensinamentos islâmicos básicos, mas eles surgem do interior da civilização muçulmana, tal como Hitler e os nazis surgiram do interior da cristandade, e também eles devem ser vistos no seu contexto cultural, religioso e histórico.
Actualmente há várias formas de extremismo islâmico em curso. As mais conhecidas são o radicalismo subversivo da Al-Qaeda e de outros grupos semelhantes em todo o mundo muçulmano, o fundamentalismo dissuasor do governo saudita, e a revolução institucionalizada da hierarquia iraniana no poder. Todas elas são, num certo sentido, islâmicas na sua origem, mas algumas desviaram-se muito das origens.
Todos estes diferentes grupos extremistas santificam a sua acção através de referências religiosas aos textos islâmicos, sobretudo ao Corão e às tradições do Profeta, e cada um dos três afirma representar um Islão mais verdadeiro, mais puro e mais autêntico do que aquele que é normalmente praticado pela vasta maioria dos muçulmanos e sancionado pela maior parte, mas não pela totalidade, dos líderes religiosos. São todavia muito selectivos na escolha e interpretação dos textos sagrados. Na apreciação dos dizeres do Profeta, por exemplo, descartam os métodos tradicionais desenvolvidos pelos juristas e teólogos para testar a exactidão e a autenticidade das tradições transmitidas oralmente, e em vez disso aceitam ou rejeitam até textos sagrados, conforme estes apoiam ou contrariam as suas posições dogmáticas e militantes. Alguns vão ao ponto de banir certos versículos corânicos, dando-os como «anulados» ou «abolidos». O argumento que usam para justificar isso é que os versículos revelados durante os primeiros anos da missão do Profeta podem ser substituídos por outros que são revelações mais tardias e presumivelmente mais ponderadas.
Um exemplo revelador desse desvio foi a famosa fatwa lançada pelo Ayatollah Khomeini a 14 de Fevereiro de 1989 contra o escritor Salman Rushdie por causa do seu romance intitulado Os Versículos Satânicos. Na. fatwa, o Ayatollah informava «todos os zelosos muçulmanos de todo o mundo que o sangue do autor deste livro [...] que foi coligido, impresso e publicado em oposição ao Islão, ao Profeta e ao Corão, bem como o de todos os implicados na sua publicação e que conheciam o seu conteúdo, é pela presente declarado como a pena a pagar pelo seu crime. Apelo a todos os muçulmanos zelosos que os despachem depressa, onde quer que sejam encontrados, para que mais ninguém se atreva a insultar de novo os sentimentos sagrados do Islão. Se alguém for morto ao dar este passo, será considerado um mártir», (O texto completo dãfatwa foi publicado na imprensa iraniana e internacional naquela altura).
Para complementar e antecipar as recompensas do paraíso, uma caridosa trust islâmica de Teerão ofereceu um prémio a quem matasse Salman Rushdie, constituído por 20 milhões de tumans (naquela altura cerca de 3 milhões de dólares ao câmbio oficial, e cerca de 170.000 dólares ao câmbio do mercado livre) se fosse um iraniano, ou 1 milhão de dólares se fosse um estrangeiro. Alguns anos mais tarde o valor do prémio, ainda não reclamado, foi aumentado pela trust.

Não surpreende que muitos leitores pouco informados do mundo ocidental tenham ficado com a impressão de que «emitir uma fatwa» era o equivalente islâmico de «encomendar um assassínio» - isto é, ter uma vítima como alvo e oferecer uma recompensa monetária pelo seu assassínio. Tal como aconteceu com o termo madrasa, a palavra, fatwa adquiriu, no uso comum internacional, uma conotação totalmente negativa. Isto é, de facto, uma enorme incongruência. Fatwa é um termo da jurisprudência islâmica que designa um parecer ou decisão jurídica sobre uma questão de direito. Na shari’a, é o equivalente à responsa prudentium do direito romano. O jurisconsulto islâmico que tem autoridade para emitir uma fatwa chama-se mufti, que é um particípio activo proveniente da mesma raiz que fatwa. Ao fazer uso de uma fatwa para pronunciar uma sentença de morte e recrutar um assassino, o ayatollah desviava-se consideravelmente do uso islâmico clássico.
O desvio não ocorria apenas no veredicto e sentença, mas também na natureza da acusação. Insultar o Profeta - acusação feita a Salman Rushdie - é sem dúvida um crime no direito muçulmano, e os juristas discutem-no com uma certa minúcia. Quase todas essas discussões giram em torno da questão de um súbdito não-muçulmano de um estado muçulmano que insulta o Profeta. Os juristas dedicam grande atenção à definição do crime, às normas da apreciação de provas e ao castigo adequado. Mostram preocupar-se muito com o facto de as acusações desse crime não poderem ser usadas como um estratagema para levar a cabo alguma vingança particular, e insistem numa cuidadosa averiguação das provas antes que seja pronunciado qualquer veredicto ou sentença. Na opinião da maioria, o açoitamento e um período de reclusão são castigo suficiente - dependendo a severidade do açoitamento e a duração do período de reclusão da gravidade do crime. O caso do muçulmano que insulta o Profeta dificilmente é tido em apreciação e deve ter acontecido muito raramente. Quando é discutido, a opinião habitual é que esse acto é equivalente à apostasia.
Foi essa a acusação específica feita a Salman Rushdie. A apostasia é um crime grave no direito muçulmano e para os homens conduz à pena de morte. Mas a palavra importante nesta afirmação é «direito». A jurisprudência islâmica é um sistema de direito e justiça, não de linchamento e terror. Formula processos, de acordo com os quais uma pessoa acusada de um crime é levada a julgamento, é confrontada com o seu acusador e é-lhe dada a oportunidade de se defender. Depois, um juiz emite o veredicto e, se achar que o réu é culpado, pronuncia a sentença.
Há no entanto outro parecer, sustentado por uma minoria de juristas, de que o crimecometido por um muçulmano que insulta o Profeta é tão grave que se pode, ou melhor, deve-se, dispensar as formalidades do processo criminal, julgamento e condenação, e proceder imediatamente à execução. Este parecer fundamenta-se num dito atribuído ao Profeta, mas de modo nenhum aceite por todos como autêntico: «Se alguém me insultar, então qualquer muçulmano que ouça o insulto deve matá-lo imediatamente». Mesmo entre os juristas que aceitam este dito como autêntico existe desacordo. Alguns deles insistem em que é necessário que haja alguma forma de processo ou autorização, e que a execução sumária sem essa autorização é assassínio e como tal deve ser punida. Outros argumentam que o texto daquele dito, tal como foi transmitido, não deixa dúvidas de que a execução sumária e imediata do blasfemo não é apenas legal mas obrigatória, e que aqueles que o não fizerem estão eles próprios a cometer um crime. Mesmo os mais rigorosos e extremistas de entre os juristas clássicos só exigem que um muçulmano mate alguém que insulte o Profeta se ouvir o insulto e estiver na sua presença. Nada dizem acerca de um assassínio encomendado, por causa de um insulto de que se teve conhecimento ocorrido num país distante.
A santificação do assassínio contida na fatwa de Khomeini surge duma forma ainda mais avançada na prática - e no culto - do assassino suicida.
Se observarmos os registos históricos, a abordagem dos muçulmanos à guerra não difere muito da dos cristãos, nem da dos judeus em tempos muito antigos e muito recentes, quando essa opção lhes foi dada. Enquanto os muçulmanos, talvez com mais frequência que os cristãos, fizeram guerra contra os seguidores de outras religiões para os trazerem para o campo do Islão, os cristãos - com a excepção, digna de nota, das Cruzadas - propenderam mais para empreender guerras religiosas internas contra aqueles que eles consideravam cismáticos ou hereges. O Islão, devido, sem dúvida, ao envolvimento político e militar do seu fundador, tem aquilo a que se pode chamar uma visão mais pragmática das realidades da sociedade e do Estado do que os Evangelhos. A sua posição está mais próxima da dos primeiros livros do Antigo Testamento e da doutrina de perseguição aos Amalecitas, do que dos Profetas e dos Evangelhos. Os muçulmanos não são ensinados a oferecer a outra face, nem esperam converter as suas espadas em enxadões e as suas lanças em foices de podar (Isaías, 2:4).
É claro que estes preceitos não impediram os cristãos de fazer uma série de guerras religiosas sangrentas no âmbito da cristandade e guerras de agressão fora dela.
Isto levanta a questão mais vasta da tendência das religiões para a força e para a violência, e mais especificamente para o terrorismo. Seguidores de vários credos têm invocado uma vez ou outra a religião para justificar a prática do assassínio, tanto a retalho como por grosso. Duas palavras derivadas desses movimentos nas religiões orientais entraram até na língua inglesa: thug [assassino], proveniente da índia, e assassin, do Médio Oriente, ambas celebrando seitas religiosas fanáticas cuja forma de culto era assassinar aqueles que consideravam inimigos da fé.
A prática e depois a teoria do assassínio no mundo islâmico surgiram em tempos muito antigos, com as disputas pela chefia política da comunidade muçulmana. Dos quatro primeiros califas islâmicos, três foram assassinados: o segundo, por um escravo cristão descontente, o terceiro e o quarto por rebeldes muçulmanos piedosos que se arvoraram em
executores que desempenhavam a vontade de Deus. A questão levantou-se de forma enérgica em 656 d.C. com o assassínio do terceiro califa, ’Uthman, por rebeldes muçulmanos. Travou-se a primeira de uma série de guerras civis à volta da questão de saber se os assassinos estavam a executar ou a desafiar as ordens de Deus. O direito e a tradição islâmicos são muito claros no que respeita ao dever de obediência ao soberano islâmico. Mas também citam duas frases atribuídas ao Profeta: «Não há obediência em pecado» e «Não obedecei a uma criatura contra o seu criador». Se um soberano ordena algo que é contrário à lei de Deus, então o dever de obediência é substituído pelo dever da desobediência. A noção de tiranicídio - a eliminação justificada de um tirano - não foi uma inovação islâmica; era familiar na Antiguidade entre os judeus, os Gregos e os Romanos de igual modo, e os que o praticavam eram muitas vezes aclamados como heróis.
Os membros da seita muçulmana conhecida por «os Assassinos» (do árabe Hashíshiyya), activos no Irão e depois na Síria entre os séculos XI e XII, parecem ter sido os primeiros a transformar o acto que deles recebeu o nome num sistema e numa ideologia. As suas acções, contrárias à crença popular, foram inicialmente dirigidas não contra os cruzados mas sim contra soberanos muçulmanos que eles consideravam usurpadores ímpios. Neste sentido os Assassinos são os verdadeiros antecessores de muitos dos chamados terroristas islâmicos dos nossos dias, alguns dos quais fazem questão disso explicitamente. O nome Hashíshiyya, com a sua conotação de «consumidores de haxixe», foi-lhes atribuído pelos seus inimigos muçulmanos. Eles auto-intitulavam-se fidayeen, do árabe fida’t - aquele que está pronto a sacrificar a vida pela causa.
Após a derrota e eliminação dos Assassinos no século XIII, a palavra deixou de se usar. Foi ressuscitada por breve tempo em meados do século XIX, por um pequeno grupo de conspiradores turcos que tramaram para depor e talvez assassinar o sultão. A trama foi descoberta e os conspiradores foram presos. O vocábulo reapareceu no Irão, no chamado Islão fida ’iyan-i, os fida’is do Islão, um grupo terrorista político-religioso de Teerão que entre 1943, ano em que iniciou a sua actividade, e 1955, quando foi eliminado, levou a cabo uma série de assassinatos políticos. Depois de um atentado frustrado contra a vida do primeiro-ministro em Outubro de 1955, foram presos, julgados em tribunal e os seus líderes executados. A palavra foi de novo recuperada pela ala militante da Organização para a Libertação da Palestina, e a partir dos anos 60 passou a designar as actividades terroristas das organizações palestinianas.
Os Assassinos diferenciavam-se claramente dos seus actuais sucessores em dois aspectos: na escolha das armas e na escolha das vítimas. A vítima era sempre uma individualidade, um líder político, militar ou religioso de categoria elevada que era visto como a fonte do mal. Ele, e apenas ele, era morto. Esta acção não era terrorismo no sentido actual da palavra, mas antes aquilo a que agora se chama assassínio com um alvo fixo. A arma era sempre a mesma: o punhal. Os Assassinos desdenhavam o veneno, as bestas e outras armas que podiam ser usadas à distância, e esperavam - segundo parecia, até o desejavam - não sobreviver ao seu acto, que acreditavam lhes garantiria a bem-aventurança eterna. Mas em nenhuma circunstância cometiam suicídio. Morriam às mãos dos seus captores. Os Assassinos foram por fim vencidos por expedições militares que se apoderaram dos seus refúgios e bases no Irão e na Síria, os dois principais países onde actuavam. Pode muito bem acontecer que os assassinos dos dias de hoje também venham a ser vencidos, mas o caminho será longo e difícil. Os Assassinos medievais eram uma seita extremista, muito afastada da corrente principal do Islão. O que não se aplica aos seus actuais imitadores.
O século XX trouxe um ressurgimento dessas acções no Médio Oriente, embora de tipos diferentes e com objectivos diferentes, e o terrorismo passou por diversas fases. Durante os últimos anos do Império Britânico, os Ingleses enfrentaram movimentos terroristas nas suas possessões no Médio Oriente, os quais representavam três culturas diferentes: gregos em Chipre, judeus na Palestina e árabes em Aden. Os três agiam mais por motivos nacionalistas do que religiosos. Apesar de muito diferentes nos antecedentes e circunstâncias políticas, eram os três bastante semelhantes nas suas tácticas. O seu objectivo era persuadir a potência imperial de que permanecer na região não compensava o que isso lhe custava em sangue. O seu método era atacar pessoal e instalações militares e, em menor proporção, pessoal e instalações administrativas. Cada um dos três actuava apenas dentro do seu território e geralmente evitava provocar danos indirectos. Os três foram bem sucedidos nos seus esforços.
Para os terroristas modernos, o massacre de civis inocentes e não implicados não é «danos indirectos». É o objectivo principal. Inevitavelmente, a retaliação contra os terroristas - que, evidentemente, não usam uniformes - também tem civis como alvo. A confusão de distinções que daí resulta é imensamente útil aos terroristas e aos seus simpatizantes.
Graças ao rápido desenvolvimento dos média, e em especial da televisão, as mais recentes formas de terrorismo não são dirigidas a objectivos inimigos específicos e limitados, mas à opinião mundial. O seu propósito fundamental não é derrotar ou sequer enfraquecer militarmente o inimigo, mas obter publicidade e inspirar medo - uma vitória psicológica. A mesma espécie de terrorismo foi praticada por diversos grupos europeus, sobretudo na Alemanha, Itália, Espanha e Irlanda. Um dos mais bem sucedidos e mais persistentes nesta actividade tem sido a Organização para a Libertação da Palestina.
A OLP foi fundada em 1964, mas ganhou importância em 1967, após a derrota dos exércitos árabes aliados na Guerra dos Seis Dias. A guerra formal tinha falhado; era altura de tentar outros métodos. Os alvos desta forma de luta armada não eram militares nem outras instituições governamentais, que habitualmente estão muito bem guardadas, mas lugares públicos e ajuntamentos de qualquer espécie, que são esmagadoramente civis e em que as vítimas não estão necessariamente relacionadas com o inimigo declarado. Como exemplos desta táctica contam-se, em 1970, o desvio de três aviões - um suíço, um inglês e um americano - que foram todos levados para Amã; o assassínio de atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique de 1972; a ocupação da embaixada saudita em Cartum, em 1973, onde foram assassinados dois americanos e um diplomata belga; a tomada do barco de cruzeiro italiano Achille Lauro, em 1985, com o assassínio de um passageiro paraplégico. Foram perpetrados outros ataques contra escolas, zonas comerciais, discotecas e até contra passageiros em filas de espera em aeroportos europeus. Estas e outras operações da OLP foram notavelmente bem sucedidas em atingir os seus objectivos imediatos - a ocupação dos cabeçalhos dos jornais e dos ecrãs de televisão. Também obtiveram um grande apoio em lugares por vezes inesperados e elevaram os seus executantes ao estrelato, vindo a desempenhar papéis no drama das relações internacionais. Não admira que outros tenham sido encorajados a seguir-lhes o exemplo. Os terroristas árabes das décadas de 70 e 80 deixaram bem claro que estavam a fazer uma guerra por uma causa nacional árabe ou palestiniana, e não em nome do Islão. Com efeito, uma percentagem significativa dos líderes e activistas da OLP eram cristãos.
Mas apesar dos seus êxitos mediáticos, a Organização para a Libertação da Palestina não obteve resultados significativos onde isso importava - na Palestina. Em todos os territórios árabes, com excepção da Palestina, os nacionalistas alcançaram os seus objectivos: a derrota e consequente retirada dos dominadores estrangeiros e a instituição da soberania nacional com líderes nacionais.
Durante algum tempo, liberdade e independência foram usadas como palavras mais ou menos sinónimas e permutáveis. No entanto, a experiência inicial da independência revelou que isso era um triste erro. Independência e liberdade são coisas muito diferentes, e em muitos casos a obtenção de uma significou o fim da outra e a substituição dos suseranos estrangeiros por déspotas domésticos mais entendidos, mais familiarizados e menos contidos na sua tirania.
Houve a necessidade urgente e crescente de um esclarecimento daquilo que estava errado, e de uma nova estratégia para o corrigir. As duas coisas foram encontradas no sentimento religioso e na identidade religiosa. Esta escolha não era nova. Na primeira metade do século XIX, quando os impérios europeus avançavam por muitas das terras do Islão, a resistência mais significativa ao seu avanço foi inspirada e definida pela religião. Os Franceses na Argélia, os Russos no Cáucaso e os Ingleses na índia, todos eles enfrentaram grandes tumultos de natureza religiosa, que só conseguiram vencer após longas e amargas lutas.
Uma nova fase de mobilização religiosa principiou com o movimento conhecido nas línguas ocidentais por pan-islamismo. Iniciado nas décadas de 60 e 70 do século XIX, é provável que devesse alguma coisa aos exemplos dos Alemães e Italianos, bem sucedidos nas suas lutas pela unificação nacional naqueles anos. Os seus contemporâneos muçulmanos, seus imitadores, inevitavelmente identificaram-se e definiram os seus objectivos em termos religiosos e comunais e não em termos nacionalistas ou patrióticos, que ao tempo eram ainda estranhos e desconhecidos. Mas com o alastrar da influência e da educação europeia, essas ideias ganharam raízes e durante um certo tempo dominaram o discurso e a luta em terras muçulmanas. Contudo, a identidade religiosa e a lealdade à religião eram ainda profundamente sentidas, e encontraram expressão em vários movimentos religiosos, sobretudo o dos Irmãos Muçulmanos. Com o retumbante fracasso das ideologias seculares, esses movimentos ganharam uma nova importância e tomaram a seu cargo o combate - e muitos dos combatentes - dos fracassados nacionalistas.
Tanto para os fundamentalistas como para os nacionalistas, as diversas questões territoriais são importantes, mas de uma forma diferente, mais intratável. Por exemplo, para os fundamentalistas em geral não é possível a paz nem nenhum acordo com Israel, e qualquer concessão feita é apenas um passo no sentido da verdadeira solução final - a dissolução do estado de Israel, a restituição da terra aos seus verdadeiros donos, os Palestinos muçulmanos, e a morte ou a retirada dos intrusos. Todavia, isso de modo nenhum bastaria para satisfazer as exigências dos fundamentalistas, as quais se estendem a todos os outros territórios em disputa - e a própria obtenção destes seria apenas um passo no sentido da luta mais longa e final.
Grande parte da velha táctica foi conservada, mas numa forma bastante mais vigorosa. Tanto na derrota como na vitória, os terroristas religiosos adoptaram e melhoraram os métodos em que foram pioneiros os nacionalistas do século XX, sobretudo a ausência de preocupação com o massacre de pessoas inocentes. Essa despreocupação atingiu proporções novas na campanha de terror lançada por Osama bin Laden no início dos anos 90. O primeiro grande exemplo foi o ataque à bomba a duas embaixadas americanas na África Oriental, em 1998. Para matarem doze diplomatas americanos, os terroristas não se importaram de chacinar mais de duzentos africanos, muitos deles muçulmanos, que se encontravam por acaso nas imediações. Na sua edição logo a seguir a estes ataques, uma revista fundamentalista em língua árabe chamada Al-Sirât al-Mustaqim, publicada em Pittsburgh, Pensilvânia, manifestava o seu pesar pelos «mártires» que deram as suas vidas nestas operações e apresentava uma lista dos seus nomes, tal como lhe fora fornecida pela agência da Al-Qaeda em Peshawar, no Paquistão. O colunista acrescentava uma expressão de esperança «de que Deus [...] possa juntar-nos a eles no paraíso». O mesmo desprezo pela vida humana, a uma escala muito mais vasta, esteve na base dos ataques a Nova Iorque e Washington em 11 de Setembro de 2001.
Uma figura importante nestas operações foi o terrorista suicida. Num certo sentido isto representava uma nova evolução. Os terroristas nacionalistas das décadas de 1960 e 70 geralmente tinham o cuidado de não morrer juntamente com as suas vítimas, arranjando maneira de realizar os ataques a uma distância segura. Se tinham o azar de ser capturados, as suas organizações habitualmente tentavam, às vezes com êxito, obter a sua libertação fazendo reféns e ameaçando fazer-lhes mal ou matá-los. Homicidas mais antigos de inspiração religiosa, sobretudo os Assassinos, desdenhavam sobreviver às suas operações, mas na verdade não se suicidavam. O mesmo se pode dizer dos soldados juvenis iranianos na guerra de 1980-1988 contra o Iraque, que caminhavam através de campos de minas armados apenas com um passaporte para o paraíso, para abrir o caminho às tropas regulares.
O novo tipo de missão suicida no sentido exacto da palavra parece ter tido como pioneiras organizações religiosas como a Hamas e a Hizbullah, que a partir de 1982 executaram algumas dessas missões no Líbano e em Israel. Continuaram ao longo dos anos 80 e 90, com repercussões em outras zonas, como na parte oriental da Turquia, no Egipto, na índia e no Sri Lanka. Pela informação de que dispomos, parece que os candidatos escolhidos para estas missões eram, com excepções ocasionais, do sexo masculino, jovens e pobres, muitas vezes originários de campos de refugiados. Era-lhes oferecida uma dupla recompensa: no além-túmulo, as delícias do paraíso minuciosamente descritas; neste mundo, donativos e remunerações para as suas famílias. Uma inovação notável foi a utilização de mulheres como bombistas suicidas - pelos terroristas curdos na Turquia em 1996-1999, e pelos Palestinos a partir de Janeiro de 2002.
Ao contrário do guerreiro sagrado ou assassino medieval, que estava disposto a enfrentar a morte certa às mãos dos seus inimigos ou captores, o novo terrorista suicida morre às suas próprias mãos. Isto levanta uma questão importante dos ensinamentos islâmicos. Os livros de direito islâmico são muito claros acerca do tema do suicídio. É um pecado grave e é punido com a danação eterna sob a forma de repetição interminável do acto através do qual o suicida se matou. As passagens que se seguem, tiradas das tradições do Profeta, elucidam claramente a questão:
O Profeta disse: Aquele que se matar com uma lâmina será atormentado com essa lâmina no fogo do Inferno. O Profeta também disse: Aquele que se estrangular a si próprio continuará a estrangular-se no Inferno, e aquele que se apunhalar continuará a apunhalar-se no Inferno. [...] Aquele que se atirar de uma montanha e se matar, há-de atirar-se para o fogo do Inferno para todo o sempre. Aquele que beber veneno e se matar, levará esse veneno na sua mão e bebê-lo-á no Inferno para todo o sempre. [...] Aquele que se matar seja de que maneira for, será atormentado dessa mesma maneira no Inferno. [...] Aquele que se matar neste mundo seja de que maneira for, será atormentado de igual maneira no dia da ressurreição (Esta tradição e outras semelhantes poderão encontrar-se nas compilações oficiais de hadiths, por exemplo o Sahih de al-Bukhârí, Recueil des Traditions Mahométanes, vol. 1, ed. M. Ludolf Krehl (Leiden, 1862), p. 363; vol. 2 (Leiden, 1864), pp. 223-224, 373; vol. 4, ed. Th. W. Juynboll (Leiden, 1908), pp. 71, 124, 243, 253-254, 320, 364. Para um debate completo ver Franz Rosenthal, «On Suicide in Islam», Journal of the American Oriental Society, vol. 66 (1946), pp. 239-259).
As autoridades mais antigas fazem uma clara distinção entre enfrentar a morte certa às mãos do inimigo e morrer às próprias mãos. Uma tradição muito primitiva do tipo conhecido por hadith qudsi, indicando uma afirmação do Profeta que cita o próprio Deus, dá-nos um exemplo óbvio. O Profeta estava presente quando um homem mortalmente ferido na guerra santa se matou para abreviar o sofrimento. Após o que, Deus disse: «O meu servo antecipou-se-me, arrancando a sua alma com as próprias mãos; por conseguinte não será admitido no paraíso». De acordo com outra tradição primitiva, o Profeta recusou-se a orar sobre o corpo de um homem que provocara a própria morte, (Citado, inter alia, em Ibn Hanbal, Musnad (Cairo, 1313; 1895-1896), vol. 5, p. 87).
Dois aspectos marcam os ataques de 11 de Setembro e outras acções semelhantes: a disposição dos perpetradores para cometerem suicídio e a crueldade daqueles que os enviaram, tanto em relação aos seus emissários como às suas numerosas vítimas. Podem estes aspectos ser de algum modo justificados em termos do Islão?
A resposta só pode ser um claro não.
A indiferença pela chacina de milhares de pessoas no World Trade Center, incluindo muitas que não eram americanas, algumas das quais eram muçulmanos oriundos de países muçulmanos, não encontra justificação na doutrina ou no direito islâmicos e não tem precedentes na história do Islão. Com efeito, há poucas acções de deliberada e indiscriminada perversidade que se lhe possam comparar na história da humanidade. Não se trata aqui simplesmente de crimes contra a humanidade e contra a civilização; com efeito, trata-se também - do ponto de vista muçulmano - de actos de blasfémia, pois aqueles que perpetram tais crimes clamam que o fazem em nome de Deus, do Seu Profeta e das Suas escrituras.
A reacção de muitos árabes e muçulmanos ao ataque ao World Trade Center foi de choque e horror perante a terrível destruição e carnificina, juntamente com vergonha e raiva por isto estar a ser feito em seu nome e em nome da sua religião. Foi esta a reacção de muitos - mas não de todos. Houve relatos e até imagens de regozijo nas ruas de cidades árabes e de outros países muçulmanos, perante as notícias que chegavam de Nova Iorque. A reacção foi, em parte, a reacção da inveja - sentimento que se encontrava também muito difundido, de forma mais silenciosa, na Europa. Entre os pobres e os perversos houve um certo grau de satisfação - para alguns foi mesmo de prazer - por verem que os ricos e comodistas Americanos estavam a levar uma lição.
As reacções na imprensa árabe aos massacres de Nova Iorque e Washington traduziram-se num equilíbrio instável entre a rejeição e a aprovação, bastante semelhante à sua reacção ao Holocausto. Acerca do Holocausto registam-se com certa frequência três posições nos meios de comunicação árabes: nunca aconteceu; foi muito exagerado; de qualquer modo, os judeus escaparam a ele. Sobre esta última posição, alguns colunistas mais atrevidos acrescentam-lhe uma censura a Hitler por não ter terminado o trabalho. Ainda ninguém afirmou que a destruição do World Trade Center nunca aconteceu, embora com o passar do tempo isso não esteja fora do âmbito das capacidades dos teóricos da conspiração. A linha actualmente seguida por muitos comentadores muçulmanos, embora de modo nenhum por todos eles, é a de argumentar que aquilo não podia ter sido feito por muçulmanos nem por Árabes. Em vez disso, propõem outras explicações. Estas incluem supremacistas brancos americanos e milícias, aludindo evidentemente a Oklahoma e a Timothy McVeigh; opositores da globalização; Europeus, Chineses e outros que se opõem ao projecto do escudo de defesa contra mísseis; os Russos, procurando vingar-se do colapso da União Soviética; os Japoneses, numa represália muito retardada por Hiroshima; e outras do mesmo género. Um colunista sugere mesmo que o ataque foi organizado pelo presidente Bush, para desviar as atenções da sua eleição por «uma minúscula minoria que não teria chegado para eleger um conselheiro duma aldeia do Alto Egipto». Este colunista também implica Colin Powell como cúmplice dos dois presidentes Bush.
Mas a explicação que é de longe a mais popular atribui o crime, com variações pouco importantes, aos seus vilões favoritos - a Israel, à Mossad (segundo alguns, em ligação com a CIA), aos Anciões de Sião, ou, de forma mais simples e satisfatória, «aos judeus». Isto permite-lhes de imediato apreciar os ataques e não os reconhecer como seus. O motivo atribuído aos judeus para os realizarem é fazer com que os Árabes, e de modo mais geral os muçulmanos, sejam considerados maus, e semear a discórdia entre estes e os Americanos. Um colunista jordano acrescentou-lhe um interessante tema adicional: que «as organizações sionistas» perpetraram o ataque, para que Israel pudesse destruir a mesquita de Al-Aksa enquanto as atenções mundiais estavam voltadas para a América. Este tipo de explicação não impede - pelo contrário, encoraja - a opinião frequentemente manifestada de que aquilo que aconteceu, embora com carácter criminoso, foi uma justa retribuição pelos crimes da América. Talvez a reacção mais dramática - e mais explícita - tenha sido a do semanário da Hamas, Al-Risâla, publicado em Gaza, na sua edição de 13 de Setembro de 2001: «Alá respondeu às nossas orações».
A medida que a total dimensão de horror da operação foi sendo conhecida, alguns colunistas condescenderam em expressar a condenação dos perpetradores e compaixão pelas vítimas. Mas mesmo esses, raramente perdiam a oportunidade de realçar que os Americanos tinham tido aquilo que mereciam. O catálogo de crimes da América que referem é longo e detalhado, começando com a conquista, colonização e ocupação - palavras emocionantes - do Novo Mundo, e prosseguindo até aos dias de hoje; igualmente longa é a lista dos que caíram vítimas da ganância e crueldade da América, na Ásia, África e América Latina.
Osama bin Laden deixou bem claro de que modo entende a luta, designando repetidamente os seus inimigos por «cruzados». Os cruzados, lembramos uma vez mais, não eram americanos nem judeus; eram cristãos que combatiam numa guerra santa para recuperar os lugares santos da cristandade que tinham perdido. Uma «carta à América», publicada em Novembro de 2002 e atribuída a Osama bin Laden, enumera com algum pormenor vários crimes cometidos não apenas pelo governo mas também pelo povo dos Estados Unidos, e anuncia, em sete tópicos, «aquilo que vos ordenamos que façam, e aquilo que queremos de vós». O primeiro é que abracemos o Islão; o segundo, «parem com as vossas opressões, mentiras, imoralidade e deboche»; o terceiro, que revelemos e admitamos que a América é «uma nação sem princípios nem maneiras»; o quarto, que deixemos de proteger Israel na Palestina, os Indianos na Caxemira, os Russos contra os Tchetchenos, e o governo de Manila contra os muçulmanos no sul das Filipinas; o quinto, «façam as malas e saiam das nossas terras». Isto é apresentado como um aviso para bem da América, «para que não nos obriguem a mandar-vos de volta como carga, em caixões». O sexto, «deixem de apoiar os líderes corruptos dos nossos países. Não interfiram na nossa política e método de educação. Deixem-nos em paz, caso contrário podem esperar por nós em Nova Iorque e Washington; sétimo, lidem e interajam com os muçulmanos numa base de interesses e benefícios mútuos, em vez das políticas de subjugação, roubo e ocupação». O documento termina dizendo aos Americanos que, se não fizerem caso deste aviso, serão derrotados como todos os anteriores cruzados, e «terão a mesma sorte que os soviéticos, que fugiram do Afeganistão para ir ao encontro da derrota militar, do colapso político, da ruína ideológica e da falência económica».
A causa contra a América apresentada neste documento é muito detalhada. Inclui, além da já familiar lista de afrontas específicas, uma série de acusações gerais e particulares. Estas são de proveniência variada e normalmente reconhecível, reflectindo as sucessivas ideologias que têm influenciado, em épocas diferentes, os políticos e as políticas do Médio Oriente. Algumas datam da era nazi, como por exemplo degeneração e domínio final dos judeus; outras, do período de influência soviética, como por exemplo ganância e exploração capitalistas. Muitas são de origem europeia e até americana recente, e provêm tanto da esquerda como da direita. Incluem a poluição mundial e a recusa de assinar os acordos de Quioto, a corrupção política através do financiamento de campanhas, privilegiar a «raça branca», e, proveniente da direita, o mito supremacista branco neonazi de que Benjamin Franklin alertou contra o perigo judeu. O papel sinistro dos judeus é enfatizado em quase todos esses ultrajes.
Até os propalados méritos do estilo de vida americano se transformam em crimes e pecados. A liberdade das mulheres significa deboche e o uso comercial das mulheres como «produtos de consumo».
As eleições livres significam que o povo americano escolhe livremente os seus líderes e por isso deve ser considerado responsável e punível pelas más acções desses líderes - ou seja, não há «civis inocentes». O mais grave de tudo é a separação entre Igreja e Estado: «Vocês são a nação que, em vez de se regular pela shariah de Alá na sua Constituição e Leis, opta por inventar as suas próprias leis de acordo com a sua vontade e desejo. Vocês separam a religião das vossas políticas, contrariando a natureza pura que confere Autoridade Absoluta ao Senhor vosso Criador». Em suma: «Vocês são a pior civilização presenciada pela história da humanidade». Este juízo é o mais notável, por ser feito numa altura em que as ditaduras nazi e soviética ainda são memórias vivas -já para não falar de antigas tiranias preservadas nos registos históricos que Osama bin Laden e os seus sócios tantas vezes referem.
A razão básica é a América ser actualmente entendida como o líder daquilo que é variavelmente designado por o Ocidente, a cristandade ou, mais em geral, as «Terras dos Infiéis». Neste sentido, o presidente americano é o sucessor de uma longa linha de soberanos - os imperadores bizantinos de Constantinopla, os imperadores do Sacro Império Romano-Germânico em Viena, a rainha Vitória e os seus imperiais colegas e sucessores na Europa. Hoje como no passado, este mundo de infiéis cristãos é visto como a única força séria rival que impede a expansão divinamente decretada do Islão, que resiste e que atrasa, mas não impede, o seu final e inevitável triunfo universal.
Não há dúvida que a fundação da Al-Qaeda e consecutivas declarações de guerra de Osama bin Laden marcaram o início de uma nova e sinistra fase na história do Islão e do terrorismo. Aquilo que desencadeou as acções de Bin Laden, como ele próprio explicou de modo muito claro, foram a presença da América na Arábia durante a Guerra do Golfo - uma profanação da Terra Santa muçulmana - e a utilização da Arábia Saudita pelos Estados Unidos como base para atacar o Iraque. Se a Arábia é o lugar mais simbólico no mundo do Islão, Bagdad, sede do califado durante meio milénio e cenário de alguns dos capítulos mais gloriosos da história islâmica, é o segundo.
Houve outro factor, talvez o mais importante, a impelir Bin Laden. Dantes, os muçulmanos que lutavam contra o Ocidente tinham  sempre a possibilidade de se virar para os inimigos do Ocidente em busca de conforto, encorajamento, e ajuda material e militar. Agora, pela primeira vez em séculos, não existe esse inimigo tão útil. Bin Laden e os seus capangas depressa verificaram que na nova configuração do poder no mundo, se queriam lutar contra a América tinham de ser eles próprios a fazê-lo. Em 1991, no mesmo ano em que a União Soviética deixou de existir, Bin Laden e os seus capangas criaram a Al-Qaeda, na qual se incluíam muitos veteranos da guerra do Afeganistão. A sua tarefa deve ter parecido desencorajante aos olhos de toda a gente, mas eles não a viram dessa maneira. Do ponto de vista deles, já tinham corrido com os Russos do Afeganistão, e com uma derrota de tal modo esmagadora que conduzira directamente ao colapso da União Soviética. Tendo vencido a superpotência que eles sempre viram como a mais formidável, sentiram-se preparados para tomar a outra; nisto foram encorajados pela opinião muitas vezes manifestada por Bin Laden, entre outros, de que a América era um tigre de papel.
Essas convicções já antes tinham influenciado outros terroristas muçulmanos. Uma das revelações mais surpreendentes das memórias daqueles que ocuparam a embaixada americana em Teerão de 1979 a 1981 foi que a sua intenção original tinha sido apoderar-se do edifício e dos reféns durante alguns dias apenas. O que os fez mudar de ideias foram declarações feitas em Washington que mostraram claramente que não havia perigo de uma acção séria contra eles. Acabaram por libertar os reféns, conforme explicaram, unicamente porque recearam que o presidente eleito, Ronald Reagan, pudesse abordar a questão «como um cowboy». Bin Laden e os seus sequazes, é evidente que não têm receios desses, e o seu ódio não é constrangido pelo medo nem diluído pelo respeito. Como antecedentes, referem repetidamente as retiradas americanas do Vietname, do Líbano e - a mais importante de todas na sua opinião - da Somália. As observações de Bin Laden numa entrevista a John Miller, da ABC News, em 28 de Maio de 1998, são particularmente reveladoras:
Nas últimas décadas temos assistido ao declínio do governo americano e à fraqueza do soldado americano, que está pronto para fazer guerras frias e impreparado para combater em guerras longas. Isso provou-se em Beirute, quando os Marines fugiram após duas explosões. O que também prova que são capazes de fugir em menos de vinte e quatro horas, e isto voltou a repetir-se na Somália. [...] [Os nossos] jovens ficaram surpreendidos com o baixo moral dos soldados americanos. [...] Após alguns rebentamentos bateram em retirada. [...] Esqueceram-se que são o líder do mundo e o líder da nova ordem mundial. Foram-se embora, arrastando os seus mortos e a sua derrota vergonhosa.
Para Osama bin Laden, a sua declaração de guerra aos Estados Unidos marca o recomeço da luta pelo domínio religioso do mundo, que teve início no século VII Para ele e para os seus sequazes, este é um momento oportuno. Hoje, a América é o modelo da civilização e encarna a liderança da Casa da Guerra e, tal como Roma e Bizâncio, degenerou-se e perverteu-se e está pronta a ser derrubada. Mas apesar da sua fraqueza, ela também é perigosa. A designação «o Grande Satanás», dada por Khomeini aos Estados Unidos, era reveladora, e para os membros da Al-Qaeda é a sedução da América e do seu estilo de vida depravado e dissoluto que representa a maior ameaça para o género de Islão que eles querem impor aos seus companheiros muçulmanos.
Mas há outros para quem a América apresenta outro tipo de tentação - a promessa de direitos humanos, de instituições livres, e de um governo responsável e representativo. Há um número cada vez maior de indivíduos e até alguns movimentos que têm empreendido a complexa tarefa de introduzir instituições idênticas nos seus países. Não é fácil. Tentativas semelhantes, como já referimos, levaram a muitos dos regimes corruptos do nosso tempo. Dos cinquenta e sete estados que são membros da Organização da Conferência Islâmica, apenas um, a República Turca, teve em funcionamento instituições democráticas durante um período longo de tempo e, apesar das dificuldades e problemas contínuos, fez progressos na instalação de uma economia liberal, de uma sociedade livre e da ordem política.
Em dois países, o Iraque e o Irão, onde os regimes são fortemente antiamericanos, há opositores democráticos capazes de tomar posse e formar governo. Nós, naquilo a que gostamos de chamar mundo livre, poderíamos fazer muito para os ajudar e temos feito pouco. Na maioria dos outros países da região, há pessoas que partilham os nossos valores, que simpatizam connosco e que gostariam de partilhar o nosso modo de vida. Crêem na liberdade e querem usufruir dela no seu país. É-nos mais difícil ajudar essas pessoas, mas ao menos podíamos não lhes colocar obstáculos. Se eles conseguirem, teremos amigos e aliados na verdadeira acepção da palavra, e não apenas em sentido diplomático.
Entretanto, há um problema mais urgente. Se os líderes da Al-Qaeda conseguirem convencer o mundo islâmico a aceitar os seus pontos de vista e a sua liderança, então uma luta longa e amarga apresenta-se pela frente, e não apenas para a América. A Europa, sobretudo a Europa ocidental, alberga hoje uma comunidade muçulmana grande e em rápido crescimento, e muitos europeus começam a ver na sua presença um problema, para alguns até uma ameaça. Mais tarde ou mais cedo a Al-Qaeda e outros grupos semelhantes entrarão em choque com os outros vizinhos do Islão - Rússia, China, índia - que poderão revelar-se menos escrupulosos do que os Americanos em usar a sua força contra os muçulmanos e os seus valores sagrados. Se os fundamentalistas estiverem correctos nos seus cálculos e forem bem sucedidos na sua guerra, então um futuro negro espera o mundo, principalmente aquela parte dele que abraça o Islão.

 

(Bernard Lewis - A crise do islão - Guerra Santa e Terror ímpio)

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publicado às 20:45


A Grande Conspiração

por Thynus, em 13.04.15
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O PARAÍSO PERDIDO : UM ARQUÉTICO COMPARTILHADO PRATICAMENTE COM TODOS OS POVOS
 
Em todas as épocas, as instituições religiosas e políticas do demiurgo na Terra conspiraram deliberadamente para eliminar, ou ao menos diminuir, a visão Gnóstica onde ela aparecesse. Proíbe-se ou deforma todo o pensamento por trás do qual possa haver algum vestígio da Gnose Primordial. Quão perigoso é o conhecimento Gnóstico para os planos do demiurgo. O ocultamento da Verdade forma parte do plano orquestrado para que os homens não possam despertar e muito menos rebelarem-se. Trata-se para que os seres humanos permaneçam confusos, enganados e adormecidos, para que nunca cheguem a imaginar quem são realmente e em que situação se encontra. Trabalha-se para que nunca conheçam a verdade do que ocorreu, nem em que consiste seu presente, nem qual será seu futuro. Pretende-se que nenhum homem possa jamais conhecer as respostas corretas às três perguntas fundamentais: Quem sou eu? Por que estou aqui? O que devo fazer?
Mas a Verdade nunca desaparece. Perseguida e ocultada, sempre lutará para sair à luz. O pior que pode ser feito com a Verdade é proibi-la. Produzir-se-á o efeito contrário: surgirá com maior força e violência. O que é a primeira coisa que deveriam ocultar?
Em primeiro lugar, seria necessário eliminar a idéia de que mais além do demiurgo ineficiente, existe outro Deus, superior a ele e infinitamente perfeito.
Para poder escurecer esta parte da Verdade Gnóstica se tem inventado a idéia de que o deus criador e o Deus Incognoscível são a mesma coisa, que juntos formam o único deus existente: o demiurgo, criador do céu e da terra.
No começo do cristianismo, o grande mestre Gnóstico Marción deixou bem claro: “o deus do antigo testamento não é o Deus do novo testamento. São deuses diferentes. O primeiro é um deus que aplica a lei e castiga, enquanto o outro é um Deus de amor que sempre perdoa. Ambos são inconciliáveis.
O se pode fazer para ocultar esta informação? Foi Orígenes que teve a “brilhante” idéia: “Não existem dois deuses diferentes, um justo e outro bom. É o mesmo Deus, que é justo e é bom.” Esta foi a maneira que o demiurgo encontrou para ser bom e perfeito.
Em segundo lugar, foi eliminado também, desta forma, a diferença entre o mundo incognoscível e o mundo criado. Tudo aquilo que se refira à existência de dois reinos irreconciliáveis, será taxado depreciativamente de “dualista”, como se descrever a realidade desta maneira fosse algo mau. Os conspiradores reduziram tudo a um só reino: o reino do demiurgo.
Em terceiro lugar, se o demiurgo é bom e perfeito, em quem podemos colocar a culpa de todo mal que existe hoje no mundo? Se os atributos do Deus Incognoscível foram transladados ao demiurgo, o que fazer com os atributos demiúrgicos de maldade e incompetência, de plágio e de mentira?
Por isso se recorreu à invenção de que o demiurgo não é satanás, satanás é outro. O demiurgo tornou-se bom e perfeito, foi despojado de sua roupagem satânica. Todo mal provém agora desse novo satanás que é exterior a ele, ao demiurgo. O mal do demiurgo foi transferido para fora, a um satanás diferente do criador. Agora este novo satanás é que gosta de sangue, do odor da carne queimada, dos escravos, das guerras, dos rituais, dos sacrifícios, das conspirações e dos genocídios. Agora é este novo satanás que se agrada com os homens, que se postem ante ele, que o adorem e que façam alianças ou pactos de sangue com ele, em troca de poderes ou riquezas materiais. É fácil descobrir que todas essas características que satanás tem hoje, têm sido tomadas do deus criador da bíblia.
Assim, teremos isto: Deus Incognoscível não existe, seus atributos foram transladados ao demiurgo, e os atributos do demiurgo foram transladados a um satanás exterior a ele. O que falta agora nesta grande conspiração, nesta grande trapaça? Falta encontrar alguém a quem possamos transformar nesse satanás. Deve ser alguém a quem tenhamos muito ódio, pois a figura do satanás é o mais indigno que possa conceber-se.
Em quarto lugar, assim surgiu a ocorrência ponto alto desta conspiração: alguém vislumbrou que o mais apropriado seria divulgar que esse satanás maligno não é outro que Lúcifer. Desta maneira, não só o demiurgo foi “limpo” de sua natureza satânica, como foi distorcida a figura de Lúcifer. O Anjo da Luz, enviado pelo Deus Incognoscível para salvar os homens, veio a transformar-se em um monstro cuja função é a de manter os homens escravizados. Esta genial idéia foi dos representantes do demiurgo na terra e demonstra um vingança contra Lúcifer, o inimigo eterno do satanás verdadeiro.
De duas entidades opostas e irreconciliáveis, o deus criador e o Deus Incognoscível, foram feitas uma só: o demiurgo “bom e único”. De dois mundo opostos e irreconciliáveis foi feito um só, que é “bom”: o do demiurgo. Da mesma forma procederam com outras entidades opostas e irreconciliáveis: Lúcifer e satanás, o Enviado do Deus Verdadeiro e o satanás criador da matéria e do tempo. Os transformaram numa só entidade: o “Lúcifer satânico”. Assim conspiram contra a verdade os charlatães do demiurgo.
Até o dia de hoje, persiste esta crença de que satanás e Lúcifer são uma e a mesma coisa, a quem também chamam de diabo. No Novo Testamento já se encontra estabelecido que Lúcifer é igual a satã (Lucas, X-18) (Coríntios, XI-14). Inclusive Monsenhor Meurin, na sua obra que temos citado, incorre nesta mesma confusão: denomina o demiurgo “Jehová-Lúcifer” e não “Jehová- Satanás”, achando estar correto em sua linha de raciocínio. E se Meurin, um teólogo tão renomado dentro do catolicismo romano cometeu este erro, o que podemos esperar do homem comum?
Em quinto lugar, como se pode desvirtuar a idéia Gnóstica de que este mundo criado é o inferno e que o céu é o plano do Deus Incognoscível? Os conspiradores elucubraram o seguinte: afirmaram que este mundo não é o inferno, o inferno está fora, longe daqui. O inferno seria um lugar de castigos para quem desobedeça ao demiurgo, durante sua vida aqui na Terra. E que características teria o inferno? A alguém ocorreu que as características próprias do mundo incognoscível poderiam servir muito bem como cenário para este novo inferno. Se Lúcifer, o Portador da Luz, um ser de fogo a quem se representa envolto de chamas, é satanás, então podemos dizer que este inferno seria um lugar cheio de fogo. Um lugar onde são queimados os “pecadores”. Segundo os Gnósticos, o reino incognoscível é efetivamente um fogo anti-matéria que incomoda esta criação impura e se pudesse a aniquilaria, mas para eles esse fogo é algo bom e desejável, nada satânico.
Em sexto lugar, o Espírito foi outra das coisas que consideraram importante eliminar, ao menos deformá-lo até torná-lo irreconhecível. Os representantes do demiurgo na Terra não podiam permitir que, depois de todas as adulterações, persistisse a crença de que existe algo não-criado e divino dentro do homem. Tinham que eliminar o Espírito também.
Já vimos também que para os Gnósticos o homem está composto de três partes: corpo, alma e Espírito. O corpo e alma foram criados pelo demiurgo, enquanto que o Espírito foi capturado do plano do não-criado e eterno e não pertence à esfera de criação. A alma e o Espírito, as entidades não visíveis para o olho humano comum, são perfeitamente opostas e irreconciliáveis. A alma foi criada pelo demiurgo, é o que anima o corpo, o que anima, o anímico. A alma somente anseia unir-se a seu criador, fundir-se com ele. O Espírito, pelo contrário, é um prisioneiro neste mundo estranho, que não lhe pertence e que para Ele é um inferno. Ele deseja somente libertar-se e voltar ao mundo incognoscível de onde provém. Para o Espírito, o corpo e a alma são tão horríveis como a matéria e o tempo.
Para o demiurgo e sua criação, é necessário e fundamental que o Espírito permaneça amarrado a alma do homem. Seu projeto evolutivo não pode abrir mão dos Espíritos encadeados na matéria. Mas uma coisa é importante: o demiurgo deseja que isto permaneça em segredo, que os homens jamais possam perceber que possui em seu interior uma chispa nãocriada roubada de outro mundo.
Então, para eliminar a idéia Gnóstica de Espírito, os agentes do demiurgo na Terra tiveram a engenhosa idéia: de duas entidades, opostas e irreconhecíveis, haveria somente uma. Do Espírito tomariam todas suas características divinas de perfeição e pureza. Somente omitiriam seu aspecto não-criado, pois se os homens descobrirem que tem algo não-criado em seu interior começariam a fazer perguntas, e isso “não é bom”. Todas as virtudes do Espírito seriam transladadas a alma, que assim, de satânica passaria a ser perfeita. Já não voltaria a falar mais de Espírito não-criado. Agora ficaria apenas uma entidade no corpo humano: “a alma divina e perfeita criada por Deus”.
Dissemos que, no começo do cristianismo, os primeiros teólogos cristãos, Santo Agostinho, entre outros, se referiam sempre ao corpo, alma e Espírito do homem. Mas com o passar dos anos isto foi desaparecendo. O Espírito foi se “transformando”, primeiro em “intelecto”, logo em sinônimo de alma, até que um belo dia se decidiu eliminar por completo o Espírito como parte constituinte do ser humano, restando somente corpo e alma. A conspiração teve êxito: conseguiu que os homens se esquecessem do Espírito.
E não somente no cristianismo, mas em todas as religiões do demiurgo se falam exclusivamente de corpo e alma como os únicos constituintes do homem.
Não somente se conseguiu eliminar quase que totalmente a idéia de algo não-criado dentro do homem, mas também obtiveram o mesmo êxito parcial com a idéia de que existe um prisioneiro injustamente encarcerado nele. É melhor que ninguém saiba por que foi aprisionado o Espírito, pois os homens começariam a perguntar-se coisas e até alguns poderiam despertar. É melhor que continuem com sua cegueira, falando de temas menos perigosos como o futebol ou o sexo.
Em sétimo lugar, para distorcer a afirmação Gnóstica de que esta criação é imperfeita devido ao fato de que seu criador é um ser imperfeito, os conspiradores deveriam aguçar ainda mais seu gênio satânico. A imperfeição de todas as coisas deste mundo é algo tão evidente e palpável que é impossível negar. Por mais idiotizados que estejam os homens, jamais admitiriam que este mundo é um paraíso.
O que fazer então? Como justificar que “um demiurgo perfeito” criou semelhante monstrengo? Além do que, os Gnósticos opunham a criação errônea, realizada por um demiurgo plagiador e ineficiente, ao reino não-criado e eterno de Deus Verdadeiro. Como fazer para eliminar estas perigosas idéias? Ocorreu-lhes uma solução que aboliria a idéia de mundo não-criado e imperfeito, ao passo que derrubariam as suspeitas de que um demiurgo inexperiente, como criador do mundo. Esta solução seria útil também para justificar o inocultável: a impureza e imperfeição do mundo criado. Que engano pregaram desta vez? Veremos logo.
Todos os atributos que caracterizam o reino de Deus Incognoscível foram transladados a criação do demiurgo, não a esta criação, mas a outra anterior. Uma suposta criação do demiurgo que era, essa sim, perfeita e pura. Ou seja, o demiurgo, dito perfeito, foi capaz de criar um mundo perfeito e puro. Até aqui, notamos que já não há lugar para o Deus Incognoscível e seu reino, uma vez que o demiurgo, dito agora perfeito, realiza obras perfeitas. Mas, o que ocorreu para que toda essa criação perfeita tenha se convertido em algo tão imperfeito como é agora? Aqui está a genialidade dos apóstolos do engano: a criação se transformou em impura e imperfeita por culpa do homem. O criador, um ser perfeito, fez o mundo perfeito, mas o homem o arruinou. O paraíso era perfeito, mas o homem e a Serpente Lúcifer destruíram essa perfeição, “caindo” com ela.
Temos então um criador perfeito e bom que realizou uma obra boa e perfeita. Toda sua criação, a matéria, o tempo, o homem, eram bons. O paraíso era um lugar perfeito e o homem vivia feliz ali. Tudo isso caiu e se degradou por culpa da desobediência do homem. Afirmar que o homem tem a culpa do “pecado original” e da “caída”, tem sido uma das mais vis idéias concebidas contra o Espírito e contra o Deus Verdadeiro. Responsabilizou-se o homem pela incompetência do criador e pelas deficiências de sua obra!
Já vimos que no paraíso o homem não era mais que um servo ignorante. Ignorava tudo acerca de si mesmo e de seu criador, como parece ignorar, todavia. Não sabia que existia outro Deus, imensamente superior ao deus criador. Não sabia que mais além de seu corpo e de sua alma, tinha aprisionado um Espírito. Não sabia até que despertou e pode rebelar-se.
Para a Gnose, o único “pecado original” que existiu foi cometido pelo demiurgo ao encadear Espíritos Eternos à alma perecível do homem. Para a Gnose, a única “caída” que existiu, propiciada pelo demiurgo, foi a caída dos Espíritos no mundo infernal da matéria. Passamos os sete principais ocultamentos e desvirtuações, realizada contra a Gnose pelos serventes do demiurgo na Terra. Agora veremos os meios de que se valem estes conspiradores para impor melhor suas falsificações.
O objetivo é varrer com todo conhecimento que se refira ao não-criado, ao despertar do homem, a libertação dos Espíritos e a rebelião contra o demiurgo. Esse conhecimento não-criado é a Gnose, absolutamente perigosa para a Ditadura Universal Satânica. Pretende-se eliminar o saber Gnóstico porque é a máxima ameaça contra o demiurgo e sua obra.
Sua estratégia é a seguinte: deve ser destruído tudo o que se oponha ao sistema criado pelo demiurgo, e o que não possa ser eliminado deve ser distorcido e corrompido até torná-lo irreconhecível.
Stalin, agente demiúrgico, dizia: “se não podes estrangular teu inimigo, abraça-o”. Assim operam contra a Gnose os agentes corretores do demiurgo. Se não se pode proibir algo, o abraça, rodeia-o pra asfixiá-lo, transformando-o em algo inofensivo. E não somente inofensivo, o conhecimento assim neutralizado e transformado muitas vezes é posto para trabalhar a serviço do demiurgo mesmo. É o caso das religiões que em seus inícios foram revolucionárias e opostas ao demiurgo, as quais logo foram infiltradas, deformadas e postas ao serviço do demiurgo, convertendo cada uma delas em uma religião demiúrgica a mais. É o caso, por exemplo, do cristianismo, budismo e tantrismo, dentre outras. Foram convertidas em religiões perfeitamente opostas ao que foram em seus começos.
Trata-se de que nenhum conhecimento possa cair fora do controle ditatorial do demiurgo. Procura-se que nenhum elemento proveniente do mundo não-criado possa por em perigo a obra e os planos do demiurgo.
Algo que continua acontecendo é queimar livros perigosos. Com certeza que isto é realizado em segredo. Os tempos mudaram e nas ditaduras “democráticas” modernas a destruição de livros é levada a cabo subliminarmente.
Já não se queimam em público, agora os livros são comprados individualmente e entregues a algum agente ou autoridade religiosa que procederá a sua destruição. Quando é possível, se compram edições inteiras com esse fim, e o mesmo fazem com os direitos do autor. Existem outros métodos, mas somente descrevo os que pude comprovar diretamente. Possuo uma ampla lista de livros e autores que caíram nessa sorte, os quais não figuram entre as listas “oficiais” de livros perseguidos ou desaparecidos.
Também acontece de se perseguir ou castigar os autores desses livros. É muito comum que sejam ameaçados, cercados ou perseguidos de diversas formas. São freqüentes os roubos de manuscritos (conheço vários casos destes), sabotagens durante a impressão, etc. Por escrever livros opostos ao sistema demiúrgico, muitos autores tem sido desprestigiados, encarcerados ou levados a manicômios, e não somente em países comunistas, pois nas ditaduras “democráticas” acontece o mesmo.
Muitos autores recalcitrantes morreram misteriosamente, de enfermidades ou acidentes estranhos, nunca exaustivamente investigados. Atualmente, os esquadrões de extermínio do demiurgo dispõem de meios imensamente eficazes para disfarçar seus homicídios. Tal têm sido geralmente o destino dos grandes rebeldes e opositores ao demiurgo e sua obra. Nesse mundo criado, o demiurgo e seus agentes têm todas as vantagens para ganhar, pois este é seu reino: o reino do demiurgo. Este reino é, para o Gnóstico, todo o contrário: é o campo inimigo onde ele deve atuar, lutar. Todo, absolutamente todo o criado estará contra ele. A guerra do Gnóstico, portanto, deverá ser da mesma maneira: total.
Tomemos o caso de Maniqueu, um grande mestre Gnóstico fundador da religião maniqueísta, a que Santo Agostinho pertenceu durante nove anos. Maniqueu existiu realmente, não se trata de um personagem fictício de mais uma religião demiúrgica.
Temendo que seus ensinamentos fossem distorcidos, Maniqueu escreveu várias obras, as quais foram perseguidas e destruídas ou ocultadas durante séculos. Quando se acreditava que tais obras estavam perdidas para sempre, foi encontrada toda uma biblioteca maniquéia na China, no século XX. Isso foi um milagre como em Nag Hammadi. Estiveram ocultas quase quinhentos anos.
Maniqueu, que jamais renunciou sua pregação, foi perseguido, encarcerado e torturado até a morte por sacerdotes do demiurgo na antiga Persa. Uma versão diz que Maniqueu foi escalpelado vivo. Arrancaram-lhe a pele e a encheram com palha para ser exibida nas portas da cidade, como advertência aos inimigos do deus criador. Outra versão sustenta que Maniqueu foi escalpelado depois de morto. Fortemente imobilizado por correntes, viveu vinte e seis dias de intensos sofrimentos e morreu. Por isto se fala de “crucificação de Maniqueu”. Assim como o demiurgo encadeia os Espíritos, assim os serventes do demiurgo encadearam Maniqueu. Mas Maniqueu não era um homem comum. Maniqueu foi um liberto em vida. A tortura e morte não podem afetar a quem tem realizado seu Espírito, ao contrário, lhes produzem risadas.
Tomemos outro caso entre muitos, o de Zenão de Eléa. Encarcerado e amarrado, durante as torturas a que era submetido, Zenão disse ao torturador: “Aproxima-te e te direi ao pé do ouvido o que queres saber.” Quando o torturador se aproximou, Zenão lhe arrancou a orelha com os dentes. O torturador, enlouquecido, disse que lhe aplicaria torturas mais fortes ainda até obrigá-lo a renunciar suas concepções. A resposta de Zenão foi a seguinte: cortou sua língua com os dentes e a jogou aos pés do torturador.
Como pode chegar-se a crer que para um homem como Zenão, realizado em seu Espírito, poderia importar-lhe o que sucederia a seu corpo e a sua alma! Esse torturador, para Zenão, só pode ter sido um pobre palhaço. A tortura e a morte antes de retratar-se: assim são os Guerreiros de Espírito.
Na gigantesca ditadura do demiurgo e seus seguidores, há outro tipo de ameaça: os castigos oferecidos pelo próprio demiurgo. Os livros sagrados das religiões de demiurgo estão cheios destas advertências: o castigo de Adão e Eva, o dilúvio universal, Sodoma e Gomorra, a torre de Babel, as pragas do Egito e muitas mais.
Para que servem os castigos, além de eliminar os opositores? Porque tantas ameaças e advertências? A resposta é simples: para infundir o medo. O medo do castigo faz que os escravos trabalhem melhor e renunciem escapar. Um escravo com medo é mais obediente e submisso. O medo do castigo é o meio que utiliza o demiurgo para fazer que os homens transcorram suas existências submetidos a ele, obedecendo a seus mandamentos. Para o demiurgo, o melhor escravo é aquele que teme e obedece melhor. Ele deseja que seus escravos desperdicem suas vidas trabalhando para sua causa, pensando que quando morrerem “vão para o céu.” Esse é o escravo perfeito para o demiurgo. Ele deseja que os homens envelheçam sem rebelarem-se, sem despertar, sem libertar seu Espírito. Para isso serve o medo e para isso a conspiração: para que nunca possam achar o caminho de Libertação e do Retorno.
Na ditadura do demiurgo, os homens somente têm liberdade para escolher entre várias coisas iguais. Entre várias coisas que são a mesma coisa, mas com disfarces diferentes. Existe liberdade de pensamento desde que não se contradiga o “pensamento politicamente correto”, imposto pelos representantes do demiurgo.
Tomemos o caso das religiões. Parecem todas diferentes, mas não são. São a mesma coisa, somente diferentes nas suas aparências. O chamem Brahma, Baal, Yahvé, Jehová, Moloch, Deus Pau ou Alá, é sempre o mesmo: o demiurgo.
Pretende-se dar uma falsa impressão da diversidade, para que o homem dormido creia que há uma variedade de caminhos, com destinos diferentes e liberdade para escolher entre eles. Inclusive existem homens que mudam de uma religião a outra, crendo que com isso fazem uma grande mudança.
René Guenón, por exemplo, levou anos de estudo e meditação para tomar a decisão de abandonar o cristianismo e para ingressar na maçonaria e no martinismo, para logo renunciar a tudo isso e converter-se em muçulmano. Ele acreditava ter dado saltos imensos com essas mudanças, mas a única coisa que fez foi dar voltas em círculo dentro do seu labirinto. E se Guenón, erudito nesse temas, teve semelhante confusão, já pode imaginar o que será do homem comum.
O caso do Santo Agostinho é o mais patético de todos. Pertencendo ao maniqueísmo em qualidade de ouvinte, e a ponto de conhecer Maniqueu pessoalmente, resolveu abandonar tudo e converter-se ao cristianismo. Com sua ação, Agostinho rechaçou ao Incognoscível e ao Espírito, optando pelo demiurgo e pela alma. Opôs-se ao radical ascetismo maniqueu, para encolunar-se atrás da nova religião, mundana e imperial, de Constantino: o cristianismo. Existem pessoas medianamente despertas que, temerosas de passar sua vida dormindo, buscam desesperadamente uma saída no labirinto em que estão imersas. Por desgraça, a maioria ignora que as opções que aparecem ante seus olhos são a mesma coisa, somente com roupagens diferentes. O objetivo de tudo isto é que nunca possam encontrar a saída, que nunca possam dar-se conta que as religiões, como os partidos políticos, são a mesma coisa com diferentes rostos, todas sob o controle do demiurgo.
O Dalai Lama disse há anos que não deveria existir uma só religião, mas um “supermercado de religiões”. É esta a melhor maneira de fazer com que os homens acreditem que estão rodeados de uma diversidade de opções diferentes, e que quando escolherem obterão algo que é distinto do resto.
A finalidade destas religiões é manter o homem adormecido, conduzindo-lhe às cegas ao matadouro final: sua fusão com o demiurgo.
 
(José Maria Herrou Aragon - A Religião Proibida)

A ÚLTIMA BATALHA - O BEM CONTRA O MAL.

 
 

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