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La Petite Mort

Fecho os olhos e te vejo
Perdida em meus pensamentos
És minha fonte de desejo
És o maior dos meus intentos

Anseio o teu corpo desnudo
A tua beleza revelada
Que será meu objeto de estudo
Que será minha perfeita morada

Teremos noites sublimes de amor
Ao som de suspiros e gemidos
Nossos poros irradiando calor
Na tangência dos corpos unidos

Quando não for possível conter
A explosão da libido pulsante
Vamos num segundo então morrer
E reviver no mesmo instante
(Aillon Dias)

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A Revolução Sexual começou com Lilith e sua maçã à Eva, a sexualidade ficou conectada com a expulsão do Paraíso e com a necessidade de esconder a nudez.

Talvez esta procura pela volta à este paraíso acompanhe o ser humano até os nossos dias. A procura do “Orgasmo Cósmico”.

Através da minha vivência clínica e dos meus estudos sobre sexualidade e da minha experiência como trainer “viajante” pelo mundo, trabalhando no Brasil, na Europa e na Ásia, e depois de viver a sexualidade em corpos e culturas tão diferentes, fui tomada pelo desejo de dedicar-me a estudá-la e a compreender sua expressão nas diferentes culturas. Como diz Reich:

“A forma como um povo se expressa nas palavras, no corpo, nos gestos é a maneira como ele se expressa na política e no social que constitui uma nação”.

A Sexualidade já aparece na história das culturas orais. O erotismo das canções, das poesias, enredada nas histórias da vida eclesiástica. Nessas canções, sempre se falava do corpo e principalmente do corpo da mulher. Esta sexualidade ficava a parte da família, a sexualidade era baseada na exigência da reprodução. A partir disso, desenvolveram-se zonas específicas para a localização de prostíbulos, onde tudo era permitido e experimentado em relação a sexualidade.

A visão do corpo na cultura do século XVI passa a ser notada no campo da sexualidade como produtora de capital. Ao colocarem a cortesã no centro da sociedade, acontece uma transformação do comportamento urbano tradicional. O sexo e o dinheiro são percebidos como um jogo todo poderoso. Este jogo erótico era delegado as prostitutas e as cortesãs, e era executado fora dos círculos familiares.

Como resultado da grande movimentação em torno destas atividades, as cortesãs foram-se tornando “investidoras e investimento”. Tinham funções importantes no controle das atividades ‘proibidas’.

Daí por diante, a magia do sexo perdeu sua função e a linguagem do corpo passou a estar em primeiro lugar. Seguindo a cronologia, não poderia deixar de citar Freud: “Freud teria descoberto a sexualidade e inventando a ciência do sexual” – André Béjin – Crepúsculo dos Psicanalistas, manhã dos sexólogos.

“O nascimento da sexologia atual, começou a partir da 1º Guerra Mundial, pois foi em 1922 que Reich descobriu o que chama de verdadeira natureza da potência orgástica. Em 1948, Kinsey publica o primeiro livro. A Sexologia circunscreve e define neste 4º século o seu problema central: O Orgasmo. Antes disso o mundo conhecia apenas a função de reprodução. A função do orgasmo torna-se neste modo a unidade de medida do funcionamento psico-físico porque é nela que se expressa a função da energia biológica”. A unidade funcional.

 

(ZINK, Liane - Sexualidade – de Reich ao contemporâneo)

Never let me - let me die

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publicado às 07:27


Democracia, fome e superpopulação

por Thynus, em 27.03.15
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Está bastante claro que quando a população pressiona mais e mais fortemente as fontes de recursos, a situação econômica tende a tornar-se mais e mais precária. E como há, nas situações precárias, uma tendência para o governo centralizado assumir mais e mais controle, existe por isso uma tendência para formas totalitaristas de governo, o que certamente nós, do Ocidente, consideramos muito indesejável. Mas se perguntarem se a democracia é possível numa população em que dois terços das pessoas vivem de duas mil calorias diárias, e um terço vive com mais de três mil, a resposta será não, porque as pessoas que vivem com menos de duas mil calorias simplesmente não terão bastante energia para participar da vida política do seu país e por isso serão governadas pelas bem nutridas e cheias de energia. Mais uma vez, a quantidade age contra a qualidade.
Outro resultado para mim muito perturbador e doloroso da quantidade afetando a qualidade na vida humana é que massas cada vez maiores de pessoas vivem confinadas em cidades gigantescas e que por isso mais e mais pessoas vivem sem contato com o ambiente natural, sendo, ao contrário, rodeadas por um ambiente intoleravelmente lúgubre e sórdido. Pensando nisso veremos que provavelmente nunca houve uma cidade bela com mais de dois ou três mil habitantes, porque uma cidade bela é bela em relação ao ambiente natural que a cerca. Podemos ter cidades com magníficas áreas centrais, como Washington; mas quando saímos das áreas centrais, não podemos dizer que Washington seja muito bonita, porque andamos por quilômetros quadrados de cortiços extraordinariamente sombrios e áreas residenciais de classe média de segunda categoria. O mesmo acontece em relação a outras cidades ainda bem maiores, como Nova York, Londres e Tóquio. Há quilômetros e quilômetros de assustadora miséria, onde as crianças jamais vêem um só objeto natural, mas apenas feios objetos produzidos pelo homem. Essa situação é uma chaga no mundo atual, e até onde posso ver se tornará muito pior. Não posso evitar de sentir que é um estado de coisas muito prejudicial ao espírito humano.
Outro resultado para mim muito perturbador e doloroso da quantidade afetando a qualidade na vida humana é que massas cada vez maiores de pessoas vivem confinadas em cidades gigantescas e que por isso mais e mais pessoas vivem sem contato com o ambiente natural, sendo, ao contrário, rodeadas por um ambiente intoleravelmente lúgubre e sórdido. Pensando nisso veremos que provavelmente nunca houve uma cidade bela com mais de dois ou três mil habitantes, porque uma cidade bela é bela em relação ao ambiente natural que a cerca. Podemos ter cidades com magníficas áreas centrais, como Washington; mas quando saímos das áreas centrais, não podemos dizer que Washington seja muito bonita, porque andamos por quilômetros quadrados de cortiços extraordinariamente sombrios e áreas residenciais de classe média de segunda categoria. O mesmo acontece em relação a outras cidades ainda bem maiores, como Nova York, Londres e Tóquio. Há quilômetros e quilômetros de assustadora miséria, onde as crianças jamais vêem um só objeto natural, mas apenas feios objetos produzidos pelo homem. Essa situação é uma chaga no mundo atual, e até onde posso ver se tornará muito pior. Não posso evitar de sentir que é um estado de coisas muito prejudicial ao espírito humano. Por fim, o crescimento ilimitado da população praticamente garante que nossos recursos planetários serão destruídos, e que em cem ou duzentos anos uma espécie humana imensamente hipertrofiada terá se tornado um tipo de câncer neste planeta, arruinando o semi-organismo em que vivemos. É uma previsão muito deprimente. Penso que, desse último ponto de vista, podemos dizer que o problema de quantidade e qualidade é realmente uma questão religiosa. Pois, afinal, o que é a religião senão uma preocupação com o destino do indivíduo e com o destino da sociedade e da raça em geral? Isso está muito bem colocado nos Evangelhos, quando nos dizem que o Reino de Deus está dentro de nós, mas ao mesmo tempo devemos contribuir para que se funde o Reino de Deus na Terra. Não podemos negligenciar nenhum desses dois aspectos do destino humano, pois se negligenciarmos o aspecto populacional, geral e quantitativo do destino, condenaremos a nós próprios ou certamente a nossos filhos e netos como indivíduos. Condená-los-emos a um tipo de vida que nos pareceria intolerável e que certamente eles também acharão intolerável.
Não há objeções teológicas precisas à limitação da população. A maior parte das organizações religiosas do mundo atual, dentro e fora do cristianismo, aceitam-na. Mas a Igreja Católica Romana não admite nenhum método de controle da população, exceto aquele que foi promulgado e permitido em 1932 — o assim chamado método do ciclo mensal. Infelizmente, esse método, experimentado em escala considerável num país subdesenvolvido como. a índia, não se mostrou muito eficaz. O fato de a Igreja reconhecer esse problema foi demonstrado muito claramente em 1954, no primeiro Congresso de População das Nações Unidas, realizado em Roma, quando o falecido papa deixou evidente, numa alocução aos delegados, que o problema da população é muito grave e pediu aos fiéis que se engajassem na luta para resolvê-lo.
Não sei se a presente atitude da Igreja em relação aos métodos do controle de natalidade mudará. Um dos seus principais argumentos contra os métodos atualmente em uso, e possivelmente outros futuros, é que são "antinatu-rais". Precisamente o mesmo argumento foi usado na Idade Média, até 1515, contra o interesse financeiro. O argumento baseava-se em afirmações de Aristóteles de que o dinheiro é algo estéril e não tem direito de se multiplicar. Uma alusão a isso encontra-se no Mercador de Veneza, onde Antônio, falando com Shylock, menciona o "metal estéril" que dá cria e pergunta: "Ou o seu ouro e sua prata são ovelhas e carneiros?"1 Que as criaturas vivas procriassem era certo, mas era errado que o dinheiro se multiplicasse. Essa posição modificou-se gradualmente; a última mudança aconteceu no Concilio de Latrão, em 1515. Não sei se uma mudança similar acontecerá na posição quanto aos métodos "antina-turais" de controle de natalidade. Seja como for, todo mundo concorda em princípio que a superpopulação é um grande perigo, e agora as diferenças são apenas questão de opinião.
Podemos, pois, concluir dizendo que a superpopulação é um dos maiores problemas com que nos defrontamos e que a opção que nos resta é ou deixar o problema ser resolvido pela natureza, da maneira mais pavorosa possível, ou encontrar algum método humano e inteligente de resolvê-lo, aumentando ao mesmo tempo a produção e controlando a taxa de natalidade e a de mortalidade, e, de um modo ou outro, formar uma orientação política internacional comum sobre o assunto. Para mim, os mais importantes pré-requisitos para essa solução são, primeiramente, consciência do problema; depois, compreensão de que esse é um problema profundamente religioso, um problema do destino humano. Nossa esperança é, como sempre, que sejamos realisticamente idealistas.

(Aldous Huxley - A Situação Humana)

A fome e a guerra não obedecem a qualquer lei natural, são criações humanas

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publicado às 22:09


O progresso, um mito?

por Thynus, em 27.03.15
Que há de mais absurdo que o progresso, já que o homem, como está provado pelos fatos de todos os dias, é sempre igual e semelhante ao homem, isto é, sempre em estado selvagem.
 
A palavra progresso não terá qualquer sentido enquanto houver crianças infelizes.
 
Estamos convencidos de que o pior mal, tanto para a humanidade quanto para a verdade e o progresso, é a Igreja. Poderia ser de outra forma? Pois não cabe à Igreja a tarefa de perverter as gerações mais novas e especialmente as mulheres? Não é ela que, através de seus dogmas, suas mentiras, sua estupidez e sua ignomínia tenta destruir o pensamento lógico e a ciência? Não é ela que ameaça a dignidade do homem, pervertendo suas idéias sobre o que é bom e o que é justo? Não é ela que transforma os vivos em cadáveres, despreza a liberdade e prega a eterna escravidão das massas em benefício dos tiranos e dos exploradores? Não é essa mesma Igreja implacável que procura perpetuar o reino das sombras, da ignorância, da pobreza e do crime? Se não quisermos que o progresso seja, em nosso século, um sonho mentiroso, devemos acabar com a Igreja.
 
O progresso técnico deixará apenas um problema: a fragilidade da natureza humana.
 
 
O progresso é um mito moderno que surgiu no tempo da Renascença e floresceu nos séculos XVIII e XIX. Previamente, a idéia fora de que o homem tivera uma idade de ouro no passado, e desde então andava constantemente montanha abaixo. A partir da Renascença a idade de ouro ficou no futuro, e o homem subia a encosta. Houve várias versões do mito. Havia uma idéia muito popular no século XVIII de que se nos livrássemos dos reis e dos padres automaticamente chegaria a Idade de Ouro.
Depois, houve o mito do século XIX, de que a industrialização traria a paz universal. Essa expressão do mito morreu dolorosamente durante o século atual; a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa infligiram-lhe um duro golpe, e ele foi finalmente aniquilado pelos eventos mais recentes da Segunda Guerra Mundial e da bomba atômica.
Mas, embora o mito já não exista, podemos dizer que o progresso é um fato. Existe claramente um traço de progresso na ordem natural — o progresso básico fundamental do inorgânico ao orgânico, a evolução de moléculas gigantes que podiam reproduzir-se e que tornaram a vida possível, a passagem de formas extremamente simples a formas mais complexas, capazes de se adaptar a diferentes ambientes e finalmente até de controlá-los. Vemos o progresso de animais que produzem filhotes através de ovos e animais que produzem embriões e controlam a temperatura dentro do corpo, e depois animais que desenvolvem um sistema nervoso altamente organizado.
Embora seja evidente que tudo quanto se desenvolveu no passado ainda existe hoje — as moléculas gigantes persistem na forma de vírus, assim como também persistem os organismos unicelulares —mesmo assim, na linha mestra do desenvolvimento, existe algo que podemos descrever inequívoca e legitimamente como progresso. A mesma coisa parece acontecer na esfera humana, em que a evolução deixou em grande parte de ser biológica e hereditária. Ainda temos a mesma capacidade inata de nossos ancestrais, mas — porque temos linguagem e podemos acumular conhecimentos —usamos essa capacidade de maneira muito mais eficaz hoje do que no passado para controlarmos nosso ambiente. Podemos dizer, com toda a razão, que houve um genuíno progresso, embora ainda se possa andar pelo mundo e encontrar povos neolíticos e até paleolíticos.
A questão então é: pode-se observar esse progresso objetivamente, mas até que ponto o poderemos experimentar? Obviamente o progresso biológico original jamais foi objeto de experiência, em parte pela boa razão de que há dois bilhões de anos não havia ninguém para experimentá-lo de modo consciente. Mesmo depois do surgimento do ser humano, durante quase todo o seu tempo na terra, ele foi, como indivíduo, completamente incapaz de experimentar o progresso, porque este acontecia muito lentamente.
Mas agora as mudanças progressivas no campo da tecnologia e das idéias acontecem em lapsos de tempo medidos por décadas ou menos. Assim, ao menos teoricamente, deveria ser possível para o indivíduo ter uma experiência subjetiva direta do progresso. E até certo ponto isso realmente acontece. Mesmo assim, é verdade que, embora observemos o progresso, leiamos sobre ele, vejamos sinais dele em edifícios e novos tipos de aviões, e assim por diante, não o experimentamos grandemente de maneira subjetiva.
Há muitas razões pelas quais não experimentamos tanto quanto talvez esperássemos fazê-lo.
Para começar, a vida humana não é uma ação progressiva. Sobe até certo ponto, permanece num planalto, depois desce. Na medida em que a vida humana é intrinsecamente não-pro-gressiva, não podemos esperar que haja em muitas fases uma experiência subjetiva muito intensa do progresso que pode ser objetivamente observado. É muito difícil pedir às pessoas que prestem atenção ao mundo que sobe e desce enquanto elas mesmas estão tendo seus altos e baixos. Em segundo lugar, o homem tem uma capacidade quase infinita de considerar as coisas como certas. Quando algo novo acontece, é espantoso por um dia ou dois, depois é aceito como parte da ordem das coisas. O que hoje é um teto dourado sobre nossa cabeça, torna-se — quando subimos e chegamos até ele —apenas um assoalho sob nossos pés, ao qual não damos atenção. E devemos também lembrar que toda criança nasce no mundo tal qual ele é no momento, e não tem experiência do mundo como era anteriormente. Para uma criança nascida hoje, a televisão e os aviões a jato são parte da ordem das coisas. Ela não tem idéia do tipo de mundo em que eu fui criado, um mundo de cavalos e trens, embora essas coisas, que para ela são curiosos legados neolíticos, ainda existam. Essa é outra razão pela qual é muito difícil experimentarmos o progresso subjetivamente, como se experimentam outros aspectos da vida pública e histórica: a maior parte de nós preocupa-se apenas com os fatos de nossas vidas privadas, relações familiares, brigas, ciúmes, compaixão, sexo e mexericos. Estamos unicamente envolvidos na vida da molécula, não na vida do gás.
Por todos esses motivos, pois — porque o lapso de nossa vida é tão breve e o progresso no passado foi tão lento, porque consideramos as coisas como certas, porque a vida humana em si é não-progressiva, e porque vivemos e queremos viver tanto em nossa vida pessoal isolada, ilhada —, por tudo isso, esses grandes fatos objetivos são muito pouco experimentados por nós e vivemos num estranho mundo anfíbio. O homem é um anfíbio múltiplo, vivendo em muitos mundos duplos e levando muitas vidas duplas, e uma delas é sem dúvida essa vida de ser individual inserido numa história que podemos ver objetivamente, mas não experimentamos. O dr. Johnson, que era extremamente duro em relação a idealismo e pretensões, tem uns versos que expressam tudo isso muito claramente. Não é uma boa poesia, mas é um bom epigrama: "Como é pequena, em tudo o que o humano coração suporta, A parcela que qualquer lei ou rei provoca ou cura"1.
Podemos acrescentar a reis e senhores2 itens como tecnologia e inventos científicos, e veremos que isso continua sendo verdadeiro: há uma pequena parcela da história que sentimos subjetivamente como algo de suprema importância para nós. Como diz o dr. Johnson, "acontecimentos públicos não molestam o homem"3 e as notícias de uma batalha perdida nunca fizeram com que "um homem comesse menos ao jantar"4. E, vice-versa, as notícias de uma novidade científica ou de uma grande descoberta jamais fizeram um homem comer mais ao jantar.
Esse estado anfíbio entre sociedade e indivíduo, história e biografia, é um tipo de existência bizarra e desconfortável.
Mas temos de aceitá-la, e em todos os processos de educação precisamos preparar os jovens a viverem nos dois mundos — viver da melhor maneira possível seu mundo individual, e, se possível, manter um interesse inteligente pelo mundo histórico. Provavelmente jamais conseguirão sentir subjetivamente, como deveriam, o mundo histórico — ou talvez não devam mesmo; penso que é uma grande bênção não o sentirmos subjetivamente a maior parte do tempo. De qualquer modo, deverão ter consciência dele intelectual e objetivamente, para serem cidadãos úteis. Pois esse é sempre o problema com os seres humanos — compreender que são anfíbios e saber que precisam tirar o maior proveito deste mundo e daquele.

(Aldous Huxley - A Situação Humana)
 
O Mito do progresso

 
 
NOTAS

1 Linhas para o final do poema de Oliver Goldsmith, "The traveller or A prospect of Society". Cf. The poems of Samuel Johnson. Oxford, Clarendon Press, 1941, p. 380.

2 Nos versos, Johnson falava em reis e leis (laws). (N. da T.)

3 Boswell, James. Life of Johnson, 15.5.1783.

4 Ibid., 18.9.1760
Concluirei esse breve esboço de nosso estado anfíbio com uma passagem que sempre me comoveu muito, de um estranho poeta do fim do período elizabetano, Lorde Brooke:
"Oh, a Humanidade vive em triste condição!
Nasce sob uma Lei, mas prendem-na a outra:
Tende à vaidade, querem-na humilde,
Surgiu enferma e querem-na saudável:
O que quer a Natureza com essa dúbia Lei?
E assim nos dilaceram a Razão e a Paixão!"'
(Fulke Greville, Lorde Brooke, "Chorus sacerdotum", de Mustapha.)

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O sono é uma porção de morte que tomamos antecipadamente, e por meio da qual recobramos e renovamos a vida exaurida durante o dia. Le sommeil est un emprunt fait à la mort [o sono é um prefácio feito à morte]. O sono pede emprestado da morte para conservar a vida; ou são os juros pagos provisoriamente à morte, que é o pagamento integral do capital. O reembolso total se exige em um prazo tanto maior quanto mais elevados são os juros e mais metodicamente se paga.
(Arthur Schopenhauer - "Aforismos para a Sabedoria de Vida")
 
 
 
 
O fato mais espantoso sobre qualquer vida individual é que um terço dela se passa inteiramente fora da história, e mesmo fora do espaço e do tempo, no que concerne à experiência subjetiva: no qual do ponto de vista interior, não estamos nem no tempo nem no espaço. Nem estamos na história; apenas passamos fora do mundo da história num estado de temporário não-ser. É um estado absolutamente essencial para nós porque nele nos refugiamos de nossas atividades terrivelmente egoístas a fim de recuperarmos um pouco da saúde e sanidade que estamos sempre minando com nossas atividades conscientes.
Shakespeare tem uma passagem belíssima sobre o sono, em Macbeth: "O sono que trama a emaranhada seda das preocupações, um terço de nossa vida se passa no sono Morte da vida de cada dia, refrigério da dura lida, Bálsamo de mentes feridas, curso paralelo da grande natureza, Principal alimento no banquete da vida"1.
O sono é exatamente isso — o extraordinário acesso a uma nova vida e uma nova visão que nos chegam durante essas oito horas, das vinte e quatro, em que podemos escapar de nós mesmos. Até o mais violento fanático ou o mais perigoso bandido, durante esse terço de sua vida, nesse momento de inteira inconsciência em que pode esquecer seu ego, de alguma forma se reconcilia com a profunda e divina fonte de todo o ser. É um pensamento belíssimo o de que mesmo um Hitler, um Himmler, um Gêngis Khan e um Jay Gould, mesmo um Richelieu, puderam esquecer por momentos as terríveis preocupações do dia.
Um fato muito interessante, quando falamos em organizações sociais, é a descoberta de que elas nunca dormem. As organizações sociais vivem por assim dizer num estado de insônia crônica; jamais se afastam de si mesmas, jamais se abrem para novos caminhos de vida e conhecimento. São corrigidas, de tempos em tempos, apenas pelos indivíduos — que conseguem o benefício do sono e por isso podem reformar organizações sociais de maneira racional. Como disse o sr. Bumble, "a lei é uma mula" — porque a lei nunca dorme2. A Igreja sofre de coisa semelhante. Havia um hino que eu cantava freqüentemente na escola, e uma de suas estrofes diz: "Agradecemos-Te porque Tua Igreja vigilante Não dorme enquanto a Terra busca a Luz, O mundo inteiro, atenta, cuida e guarda, E não descansa, seja dia ou seja noite".
Essa insônia vigilante pode ser a causa de fatos deploráveis na história eclesiástica. A Igreja foi reformada periodicamente por gente que tirava inspiração do sono e da profundeza da mente, e por causa disso ela permanece saudável como está. Mas sofre dos defeitos de todas as organizações, na medida em que, não sendo organismo, mas apenas organização, não tem capacidade de afastar-se e tirar férias de si mesma; jamais dorme, e não consegue se recuperar.
 Para voltar ao indivíduo e ao quanto ele está na história, vemos que há muitos períodos em sua vida, além daqueles gastos dormindo, em que ele fica fora da história. Esses incluem a primeira infância e a maior parte da infância. Durante esses períodos, o homem vive uma vida quase exclusivamente privada, na qual acontecimentos públicos têm nele uma influência mínima. Isso também é verdadeiro quanto à velhice e decrepitude, e períodos de enfermidade; nesses, o indivíduo fica tão abatido que se afasta totalmente da vida pública, e por causa de sua atenção reduzida, e da dor crônica, e da frustração, vive fora de qualquer relação com o mundo exterior. Por fim, o ato mais privado e não-histórico de todos é o ato de morrer, no qual há uma redução da atenção até o indivíduo ser totalmente retirado do mundo da história. É verdade que houve homens eminentes que tentaram permanecer históricos mesmo em seu leito de morte. Há uma história dolorosa sobre Daniel Webster, que falava demais com seus amigos enquanto morria, e queixou-se, perguntando: "Acaso eu disse algo indigno de Daniel Webster?" Parece uma coisa terrível que nesse momento de sua vida um homem sentisse necessidade de ainda ser uma personagem pública e histórica, preocupando-se em ser digno de sua própria reputação.
Se somarmos todos os períodos durante os quais estamos fora da história — sono, infância, extrema velhice e decrepitude, e ainda enfermidade —, veremos que de seu tempo médio de vida, setenta anos, o indivíduo provavelmente passa cerca de quarenta anos excluído da história.
Simplesmente não participa das grandes generalizações históricas que os sociólogos e historiadores fazem.
Porém, mesmo enquanto ser maduro e consciente, o homem gasta grande parte de sua vida num contexto puramente privado e não-histórico. A definição de vida privada que mais aprecio é a dada pelo ensaísta russo Vassíli Rozanov feita há cerca de trinta ou quarenta anos. Ele disse que vida privada é "beliscar o nariz e olhar o pôr-do-sol". É uma definição muito bela; se a interpretarmos de maneira mais geral, veremos que seu verdadeiro significado é que vida privada consiste em gozar nossas reações puramente fisiológicas, estéticas e inspiradoras. Naturalmente, tendemos a racionalizar e explicar essas experiências em termos da cultura dominante. Mesmo assim elas permanecem surpreendentemente privadas e separadas do movimento histórico geral do tempo em que vivemos. (...) Estamos bem e saudáveis unicamente porque o ego tira férias durante um terço de cada dia. Se permanecêssemos o tempo todo acordados, sem dúvida estaríamos bem doentes, ou loucos. E enquanto o ego está fora do caminho, durante o sono, podemos dizer que aquilo que se chama alma vegetativa funciona, sem interferência desse intolerável eu e do inconsciente pessoal, e nos mantém saudáveis.
Mas existe alguma atividade durante o sono: o sonho. Naturalmente a maior parte dos sonhos se referem a coisas que aconteceram durante o dia, antes de dormirmos, ou em tempos muito recentes; mas alguns sonhos, como indicaram os freudianos, referem-se de um modo simbólico a material soterrado. Outros parecem participar da natureza do que Jung chamou "os grandes sonhos", referindo-se ao que denomina material arquetípico, num nível bastante mais baixo do inconsciente.
Alguns sonhos nem mesmo parecem referir-se a isso, mas a algo que não tem nenhuma relação particular com a psique humana.

(Aldous Huxley - A Situação Humana)

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publicado às 03:36


Anatomia de um Sequestro emocional

por Thynus, em 23.03.15
A vida é uma comédia para os que pensam e uma tragédia para os que sentem.
 (Horace Walpol)

Era uma tarde quente de verão, em 1963, o mesmo dia em que o reverendo Martin Luther King Jr. fez o discurso “Eu tenho um sonho” numa marcha pelos direitos civis em Washington. Naquele dia, Richard Robles, um ladrão contumaz, acabara de ser posto em liberdade condicional. Ele havia cumprido a sentença que o havia condenado a três anos de prisão por mais de cem invasões de domicílio que perpetrara para sustentar seu vício em heroína. Robles decidiu fazer outra invasão. Queria abandonar o mundo do crime, alegou mais tarde, mas naquele momento estava precisando desesperadamente de dinheiro para manter a namorada e a filha deles, uma menina com cerca de 3 anos.
O apartamento que arrombou naquele dia pertencia a duas moças, Janice Wylie, de 21 anos, pesquisadora na revista Newsweek, e Emily Hoffert, 23, professora primária. Embora Robles houvesse escolhido para arrombar um apartamento num luxuoso bairro de Nova York por achar que não havia ninguém lá, Janice estava em casa. Ameaçando-a com uma faca, ele a amarrou. Quando ia saindo, entrou Emily. Para garantir a fuga, Robles a amarrou também.
Segundo relatou anos depois, enquanto amarrava Emily, Janice Wylie disse que ele não sairia impune daquele crime: ia se lembrar da cara dele e ajudar a polícia a localizá-lo. Robles, que prometera a si mesmo que aquele seria seu último arrombamento, entrou em pânico, perdendo completamente o controle. Num frenesi, pegou uma garrafa de refrigerante e bateu nas moças até deixá-las inconscientes; depois, possuído de raiva e medo, retalhou-as e esfaqueou-as várias vezes com uma faca de cozinha. Vinte e cinco anos depois, ao lembrar daquele momento, Robles lamentava:
— Fiquei muito furioso. Minha cabeça explodiu.
De lá para cá, Robles teve muito tempo para se arrepender daqueles breves minutos de fúria desenfreada. Enquanto escrevo, ele continua na prisão, algumas décadas depois, cumprindo pena pelo famoso “Assassinato das Executivas”.
Tais explosões emocionais são seqüestros neurais. Nesses momentos, sugerem os indícios, um centro no cérebro límbico proclama uma emergência, recrutando o resto do cérebro para seu plano de urgência. O seqüestro ocorre num instante, disparando essa reação crucial momentos antes de o neocórtex, o cérebro pensante, ter a oportunidade de ver tudo que está acontecendo, e sem ter o tempo necessário para decidir se essa é uma boa idéia. A marca característica desse seqüestro neural é que, assim que passa o momento, o cérebro “possuído” não tem a menor noção do que deu nele.
Esses seqüestros não são de modo algum incidentes isolados e horrendos, que levam sempre a crimes brutais como o Assassinato das Executivas. De forma menos catastrófica — mas não necessariamente menos intensa — ocorrem conosco com muita freqüência. Lembrem da última vez em que vocês “saíram do sério”, explodiram com alguém — o marido ou filho, ou quem sabe o motorista de outro carro — a tal ponto que depois, com um pouco de reflexão e visão retrospectiva, a coisa pareceulhes imprópria. Isso, com toda probabilidade, foi também um desses seqüestros, uma tomada de poder neural que, como veremos, se origina na amígdala cortical, um centro no cérebro límbico.
Nem todos os seqüestros límbicos são aflitivos. Quando uma piada é muito engraçada, a risada é quase explosiva — esta é também uma resposta límbica. Funciona igualmente em momentos de intensa alegria: quando Dan Jansen, após frustradas tentativas para conquistar a medalha de ouro olímpica de patinação (que prometera à irmã agonizante), finalmente ganhou-a nos 1.000 metros, nas Olimpíadas de Inverno na Noruega, sua mulher ficou tão emocionada que teve de ser levada às pressas para a beira do rinque para ser atendida pelo pronto-socorro médico.

O LOCAL DAS PAIXÕES
 Nos seres humanos, a amígdala cortical (do grego, significando “amêndoa”) é um feixe, em forma de amêndoa, de estruturas interligadas, situado acima do tronco cerebral, perto da parte inferior do anel límbico. Há duas amígdalas, uma de cada lado do cérebro, instaladas mais para a lateral da cabeça. A amígdala humana é relativamente grande, em comparação com a de qualquer dos nossos primos evolucionários mais próximos, os primatas.
O hipocampo e a amígdala eram duas partes importantes do primitivo “nariz cerebral” que, na evolução, deu origem ao córtex e depois ao neocórtex. Até hoje, essas estruturas límbicas são responsáveis por grande parte da aprendizagem e da memória do cérebro; a amígdala cortical é especialista em questões emocionais. Se for retirada do cérebro, o resultado é uma impressionante incapacidade de avaliar o significado emocional dos fatos; esse mal é às vezes chamado de “cegueira afetiva”.
Sem peso emocional, os contatos interpessoais ficam insossos. Um rapaz cuja amígdala fora cirurgicamente removida para controlar sérios ataques perdeu por completo o interesse pelas pessoas, preferindo o isolamento, sem qualquer contato humano. Embora fosse perfeitamente capaz de conversar, não reconhecia mais amigos íntimos, parentes, nem mesmo a mãe, e ficava impassível diante da angústia deles com sua indiferença. Sem a amígdala, havia perdido não só a capacidade de discernir sentimentos como também de ter sentimentos sobre sentimentos.1 A amígdala cortical funciona como um depósito da memória emocional e, portanto, do próprio significado; a vida sem essa amígdala não tem o menor sentido do ponto de vista emocional.
O que está ligado à amígdala é mais que a afeição; qualquer paixão depende dela. Os animais que têm a amígdala cortical retirada ou seccionada não sentem medo nem raiva, perdem o icooperar e ficam sem qualquer noção do lugar que ocupam na hierarquia social de sua espécie; a emoção fica embotada ou ausente. As lágrimas, um sinal emocional exclusivo dos seres humanos, são provocadas pela amígdala cortical e uma estrutura próxima, a circunvolução cingulada; ser abraçado, afagado ou de outro modo reconfortado acalma essas mesmas regiões cerebrais. Sem amígdala, não há lágrimas para aliviar um sofrimento.
Joseph LeDoux, neurocientista do Centro de Ciência Neural da Universidade de Nova York, foi o primeiro a descobrir o importante papel que a amígdala cortical desempenha no cérebro emocional.2mpulso de competir ou Ele faz parte de um novo grupo de neurocientistas, os quais recorrem a tecnologias e métodos inovadores, responsáveis por um nível de precisão antes desconhecido no mapeamento do cérebro em funcionamento, e assim podem desvendar mistérios da mente que gerações anteriores de cientistas julgavam impenetráveis. Suas descobertas sobre os circuitos do cérebro emocional puseram abaixo uma noção há muito existente sobre o sistema límbico, colocando a amígdala cortical no centro da ação e deixando outras estruturas límbicas em funções muito diferentes.3
A pesquisa de LeDoux explica como essa amígdala pode assumir o controle sobre o que fazemos quando o cérebro pensante, o neocórtex, ainda está em vias de tomar uma decisão. Como veremos, o funcionamento da amígdala e sua interação com o neocórtex estão no centro da inteligência emocional.

O RASTILHO DE NEURÔNIOS
O que é mais intrigante acerca da força das emoções na vida mental são aqueles momentos de ação passional de que mais tarde nos arrependemos, assim que a poeira se assenta; por que agimos, com tanta facilidade, de forma irracional? Vejam, por exemplo, uma jovem que dirigiu duas horas até Boston, para fazer um brunch e passar o dia com o namorado. Na lanchonete, ele lhe deu de presente uma coisa que ela vinha querendo havia meses, uma gravura rara, trazida da Espanha. Mas a alegria dela acabou quando sugeriu ao namorado que, depois dali, fossem ver um filme que estava louca para ver. Ele a chocou quando disse que não podia passar o dia com ela, pois tinha um treino de softball. Magoada e incrédula, ela se levantou em prantos, deixou a lanchonete e, num impulso, jogou a gravura na lata de lixo. Meses depois, contando o incidente, não é de ter saído que ela se arrependia, mas da perda da gravura.
É em momentos assim — quando um sentimento impulsivo domina a razão — que o recém-descoberto papel da amígdala cortical se mostra crucial. Os sinais que vêm dos sentidos permitem que a amígdala faça uma varredura de toda experiência, em busca de problemas. Isso lhe dá um papel privilegiado na vida mental, algo semelhante a uma sentinela psicológica, desafiando cada situação, cada percepção, com apenas um tipo de pergunta em mente, a mais primitiva: “É alguma coisa que odeio? Isso me fere? Alguma coisa que temo?” Se for o caso — se o momento em questão de algum modo esboça um “Sim” —, a amígdala reage imediatamente, como um rastilho de neurônios, mandando uma mensagem de emergência para todas as partes do cérebro.
Na arquitetura do cérebro, a amígdala está situada como se fosse o alarme de uma empresa, onde operadores estão a postos para chamar o Corpo de Bombeiros, polícia e um vizinho, sempre que o sistema de segurança interno dá o sinal de perigo.
Quando soa um alarme, digamos, de medo, ela envia mensagens urgentes às principais partes do cérebro: dispara a secreção dos hormônios orgânicos para lutar-ou-fugir, mobiliza os centros de movimento e ativa o sistema cardiovascular, os músculos e os intestinos.4 Outros circuitos da amígdala enviam sinais para a secreção de gotas de emergência do hormônio noradrenalina, para aumentar a reatividade das principais áreas cerebrais, incluindo as que tornam os sentidos mais alertas, na verdade deixando o cérebro de prontidão. Outros sinais da amígdala dizem ao tronco cerebral para afixar no rosto uma expressão de medo, paralisar movimentos que os músculos estariam em vias de executar, acelerar a pulsação cardíaca, aumentar a pressão sanguínea e reduzir o ritmo da respiração. Outros fixam a atenção na causa do medo e preparam os músculos para reagir de acordo. Simultaneamente, sistemas da memória cortical são vasculhados em busca de qualquer conhecimento relevante para a emergência em questão, passando por cima dos outros fios de pensamento.
E essas são apenas parte de uma cuidadosamente coordenada série de mudanças que a amígdala organiza quando recruta áreas de todo o cérebro (para uma explicação mais detalhada, ver Apêndice C). A extensa rede de ligações neurais da amígdala permite que, durante uma emergência emocional, ela assuma e dirija grande parte do restante do cérebro — inclusive a mente racional.

A SENTINELA EMOCIONAL
Conta um amigo que, em férias na Inglaterra, tomou um café-da- manhã reforçado num café à beira de um canal. Depois, desceu pelos degraus de pedra que davam no canal e, de repente, viu uma moça olhando fixo para a água, o rosto transido de pavor. Antes de saber exatamente o que estava acontecendo, ele já estava pulando — de paletó e gravata. Só então compreendeu que a moça fitava em estado de choque uma criancinha que caíra na água — e que ele conseguiu salvar.
O que o fez pular na água antes de saber por quê? A resposta mais provável: foi sua amígdala cortical.
Na última década, uma das descobertas mais impressionantes sobre emoções está no trabalho de LeDoux onde ele revela que a arquitetura do cérebro dá à amígdala uma posição privilegiada como sentinela emocional, capaz de assumir o controle do cérebro.5 A pesquisa de LeDoux mostra que sinais sensoriais do olho ou ouvido viajam no cérebro primeiro para o tálamo, e depois — por uma única sinapse — para a amígdala; um segundo sinal do tálamo é encaminhado para o neocórtex — o cérebro pensante. Essa ramificação permite que a amígdala comece a responder antes que o neocórtex o faça, pois ele elabora a informação em vários níveis dos circuitos cerebrais, antes de percebê-la plenamente e por fim dar início a uma resposta, mais cuidadosamente elaborada.
A pesquisa de LeDoux é revolucionária para a compreensão da vida emocional porque é a primeira a estabelecer caminhos neurais de sentimentos que contornam o neocórtex. Esses sentimentos que tomam a rota direta da amígdala estão entre os nossos sinais mais primitivos e poderosos; esse circuito nos ajuda a entender o poder que a emoção tem de superar a razão. A opinião clássica na neurociência era de que o olho, o ouvido e outros órgãos sensoriais transmitem sinais ao tálamo e de lá para as áreas de processamento sensorial do neocórtex, onde eles são reunidos em objetos como nós os percebemos. Os sinais são classificados por significados, para que o cérebro reconheça o que é cada objeto e o que significa a sua presença. Do neocórtex, dizia a antiga teoria, os sinais são enviados para o cérebro límbico, e de lá a resposta apropriada se irradia pelo cérebro e o resto do corpo. É assim que funciona durante a maior parte do tempo — mas LeDoux descobriu que, além daqueles que seguem pelo caminho mais longo de neurônios até o córtex, há um pequeno feixe de neurônios que vai direto do tálamo à amígdala cortical. Esse atalho — como uma viela neural — permite que a amígdala receba alguns insumos diretos dos sentidos e inicie uma resposta antes que eles sejam plenamente registrados pelo neocórtex.
Essa descoberta invalida totalmente a tese de que a amígdala depende inteiramente de sinais do neocórtex para formular suas reações emocionais. A amígdala pode acionar uma resposta emocional através dessa rota de emergência no momento exato em que um circuito ressonante paralelo se inicia entre a amígdala e o neocórtex. A amígdala pode fazer com que nos lancemos à ação, enquanto o neocórtex — um pouco mais lento, porém mais plenamente informado — traça um plano de reação mais refinado.
LeDoux pôs por terra o conhecimento predominante sobre os caminhos percorridos pelas emoções, com sua pesquisa sobre medo em animais. Numa experiência crucial, destruiu o córtex auditivo de ratos, depois os expôs a um som associado a um choque elétrico. Os ratos logo aprenderam a temer o som, antes de o neocórtex tê-lo registrado. Em vez disso, o som tomava a rota direta do ouvido ao tálamo e à amígdala, saltando todos os trajetos mais longos. Em suma, os ratos aprenderam uma reação emocional sem nenhum envolvimento cortical maior: a amígdala percebeu, lembrou e orquestrou seu medo de modo independente.
— Anatomicamente, o sistema emocional pode agir de modo independente do neocórtex — disse-me LeDoux.
— Algumas reações e lembranças emocionais podem formar-se sem que haja nenhuma participação consciente e cognitiva.
A amígdala pode abrigar lembranças e repertórios de respostas que interpretamos sem compreender bem por que o fazemos, porque o atalho do tálamo à amígdala contorna completamente o neocórtex. Essa passagem permite que a amígdala seja um repositório de impressões emocionais e lembranças de que não temos plena consciência. LeDoux sugere que é o papel subterrâneo da amígdala na memória que explica, por exemplo, um experimento surpreendente, em que pessoas adquiriram preferência por figuras geométricas com estranhas formas, exibidas de modo tão rápido que elas nem tiveram a oportunidade de tomar consciência de tê-las visto!6
Outra pesquisa demonstrou que, nos primeiros milésimos de segundo em que temos a percepção de alguma coisa, não apenas compreendemos inconscientemente o que é, mas decidimos se gostamos ou não dela; o “inconsciente cognitivo” apresenta à nossa consciência não apenas a identidade do que vemos, mas uma opinião sobre o que vemos.7 Nossas emoções têm uma mente própria, que pode ter opiniões bastante diversas das que tem a nossa mente racional.

A ESPECIALISTA EM MEMÓRIA EMOCIONAL
Essas opiniões inconscientes são memórias emocionais; ficam guardadas na amígdala. A pesquisa de LeDoux e outros neurocientistas parece agora sugerir que o hipocampo, há muito considerado a estruturachave do sistema límbico, está mais envolvido com o registro e a atribuição de sentido aos padrões perceptivos do que com reações emocionais. A principal contribuição do hipocampo está em fornecer uma precisa memória de contexto, vital para o significado emocional; é o hipocampo que reconhece o significado de, digamos, um urso no zoológico ou em nosso quintal. Enquanto o hipocampo lembra os fatos puros, a amígdala retém o sabor emocional que os acompanha. Se tentamos ultrapassar um carro numa estrada de mão dupla e por pouco escapamos de uma batida de frente, o hipocampo retém os detalhes específicos do incidente, como, por exemplo, em que faixa da estrada estávamos, quem estava conosco, como era o outro carro. Mas é a amígdala que daí em diante enviará uma onda de ansiedade que nos percorre o corpo toda vez que tentarmos ultrapassar um carro em circunstâncias semelhantes. Como explicou LeDoux:
— O hipocampo é crucial no reconhecimento do rosto de sua sobrinha. Mas é a amígdala que diz que você, na realidade, não gosta dela.
O cérebro usa um método simples mas astuto para registrar memórias emocionais com força especial: os mesmíssimos sistemas de alarme neuroquímicos que preparam o corpo para reagir a emergências de risco de vida com a resposta de lutar-oufugir também gravam fortemente na memória o momento de intenso estímulo emocional.8 Sob tensão (ou ansiedade, ou provavelmente até mesmo intensa excitação de alegria), um nervo que vai do cérebro às glândulas suprarenais, situadas acima dos rins, provoca uma secreção dos hormônios epinefrina e norepinefrina, que invadem o corpo, preparando-o para uma emergência. Esses hormônios ativam receptores no nervo vago; embora este transmita mensagens do cérebro para regular o coração, também retransmite sinais para o cérebro, disparados pela epinefrina e pela norepinefrina. A amígdala é o principal ponto no cérebro para onde vão esses sinais; eles ativam neurônios dentro dela que enviam sinais a outras regiões cerebrais, a fim de dar um reforço à memória sobre o que está acontecendo.
Esse estímulo da amígdala parece gravar na memória a maioria dos momentos mais intensos de estímulo emocional — por isso é muito provável, por exemplo, que lembremos do lugar onde ocorreu nosso primeiro encontro amoroso, ou o que fazíamos quando ouvimos a notícia de que o ônibus espacial Challenger explodira. Quanto mais intenso o estímulo da amígdala, mais forte o registro; as experiências que mais nos apavoram ou emocionam na vida estão entre nossas lembranças indeléveis. Isto significa, na verdade, que o cérebro tem dois sistemas de memória, um para fatos comuns e outro para aqueles que são carregados de emoção. É claro que um sistema especial de memorização se justifica no contexto da evolução, na medida em que assegurou que os animais tivessem lembranças particularmente vívidas do que os ameaçava ou agradava. Mas as memórias emocionais podem ser péssimos guias na nossa atualidade.

ALARMES NEURAIS ANACRÔNICOS
Uma desvantagem desses alarmes neurais é que a mensagem urgente enviada pela amígdala, às vezes, ou muito freqüentemente, é anacrônica — sobretudo no fluido mundo social em que nós, humanos, vivemos. Como repositório de memória emocional, a amígdala examina a experiência, comparando o que está acontecendo agora com o que aconteceu no passado. Seu método de comparação é associativo: quando um elemento-chave de uma situação presente é semelhante àquele do passado, pode-se dizer que se “casam” — motivo pelo qual esse circuito é falho: age antes de haver uma plena confirmação. Ordena-nos freneticamente que reajamos ao presente com meios registrados muito tempo atrás, com pensamentos, emoções e reações aprendidos em resposta a acontecimentos talvez apenas vagamente semelhantes, mas ainda assim o bastante para alarmar a amígdala.
Eis por que uma ex-enfermeira do Exército, traumatizada pelo incessante fluxo de ferimentos horríveis de que cuidou na guerra, é acometida de repente por um misto de pavor, repugnância e pânico — uma repetição de sua reação no campo de batalha, provocada mais uma vez, anos depois, pelo mau cheiro quando abre a porta de um armário e descobre que seu filho pequeno enfiou ali uma fralda suja. Basta que poucos elementos esparsos da situação pareçam semelhantes a algum perigo do passado para que a amígdala dispare seu alerta de emergência. O problema é que, junto com as lembranças emocionalmente carregadas que têm o poder de provocar essa reação de crise, podem vir do mesmo modo formas obsoletas de respondê-la.
À imprecisão do cérebro emocional nesses momentos acrescenta-se o fato de que muitas lembranças emocionais fortes datam dos primeiros anos de vida, na relação entre a criança e aqueles que cuidam dela. Isso se aplica sobretudo aos acontecimentos traumáticos, como surras ou total abandono. Durante esse primeiro período de vida, outras estruturas cerebrais, em particular o hipocampo, que é crucial para as lembranças narrativas, e o neocórtex, sede do pensamento racional, ainda não se desenvolveram inteiramente. Na memória, a amígdala e o hipocampo trabalham juntos; cada um armazena e conserva sua informação de forma independente. Enquanto o hipocampo retém a informação, a amígdala determina se ela tem valência emocional. Mas a amígdala, que amadurece muito rápido no cérebro infantil, está, no nascimento, muito mais próxima da forma completa. LeDoux recorre ao papel da amígdala na infância para confirmar o que há muito tempo é doutrina básica no pensamento psicanalítico: que as interações ocorridas nos primeiros anos de vida estabelecem um conjunto de lições elementares, baseadas na sintonia e perturbações dos contatos entre a criança e os que cuidam dela.9 Essas lições emocionais são tão poderosas e, no entanto, tão difíceis de entender do privilegiado ponto de vista da vida adulta porque, acredita LeDoux, estão armazenadas na amígdala como planos brutos, sem palavras, para a vida emocional. Como essas primeiras lembranças emocionais se estabelecem numa época anterior àquela em que as crianças podem verbalizar sua experiência, quando essas lembranças são disparadas na vida posterior não há um conjunto adequado de pensamentos articulados sobre a resposta que se apodera de nós. Um dos motivos pelos quais ficamos tão aturdidos com nossas explosões emocionais, portanto, é que elas muitas vezes remontam a um tempo inicial em nossas vidas, quando tudo era desconcertante e ainda não tínhamos palavras para compreender os fatos. Temos os sentimentos caóticos, mas não as palavras para as lembranças que os formaram.

QUANDO AS EMOÇÕES SÃO “RÁPIDAS E MALFEITAS”
Eram mais ou menos três da manhã quando um imenso objeto varou com um estrondo o teto, lá num canto do meu quarto, despejando coisas que estavam no sótão. Num segundo, saltei da cama e saí correndo do quarto, com medo de que todo o teto desabasse. Depois, percebendo que estava a salvo, voltei para espiar cautelosamente o que causara aquele estrago todo — e descobri simplesmente que o som que julgara ser do teto desabando fora na verdade a queda de uma pilha de caixas que minha mulher, na véspera, amontoara no canto. Nada caíra do sótão: não havia sótão. O teto estava intacto, assim como eu.
Ter pulado da cama, meio sonolento, poderia ter evitado que eu me ferisse, se fosse o caso de o teto estar caindo — esse fato ilustra o poder que a amígdala tem de nos impelir à ação nas emergências, momentos vitais que ocorrem antes de o neocórtex ter tempo de registrar plenamente o que de fato está acontecendo. A rota de emergência do olho ou ouvido ao tálamo e à amígdala é crucial: poupa tempo numa emergência, quando se impõe uma reação instantânea. Mas esse circuito do tálamo à amígdala transmite apenas uma pequena parte das mensagens sensoriais, com a maioria tomando o caminho principal até o neocórtex.
Assim, o que se registra na amígdala nessa via expressa é, na melhor das hipóteses, um sinal informe, suficiente apenas para uma advertência. Como observa LeDoux, “não é necessário que saibamos exatamente o que uma coisa é para que saibamos que ela pode ser perigosa”.10
A rota direta tem uma enorme vantagem em tempo cerebral, que é calculado em milésimos de segundo. A amígdala de um rato pode iniciar uma resposta a uma percepção numa fração mínima de 12 milissegundos. A rota do tálamo ao neocórtex e à amígdala leva cerca de duas vezes esse tempo. Ainda não foi feita medição semelhante no cérebro humano, mas a proporção geral provavelmente se confirmaria.
Em termos evolucionários, o valor para a sobrevivência dessa rota direta teria sido grande, permitindo uma opção de resposta rápida que elimina alguns críticos milissegundos no tempo de reação a perigos. Esses milissegundos muito provavelmente salvaram a vida de nossos ancestrais protomamíferos em número tal que o esquema é hoje característico de qualquer cérebro de mamífero, incluindo o seu e o meu. Na verdade, embora esse circuito desempenhe uma função relativamente limitada na vida mental humana, restrita em grande parte a crises emocionais, a maior parte da vida mental de pássaros, peixes e répteis gira em torno dele, pois sua sobrevivência depende de localizar constantemente predadores ou presa.
— Esse sistema cerebral primitivo, menor, nos mamíferos, é o principal sistema cerebral nos não-mamíferos — diz LeDoux. — Oferece um meio muito ágil de ligar emoções. Mas é um processo rápido e malfeito: as células são velozes, mas não muito precisas.
Essa imprecisão, digamos, num esquilo, é ótima, já que o leva a “errar”, mas a acertar em termos de segurança, afastando-se aos saltos ao primeiro sinal de qualquer coisa que possa sugerir o aparecimento de um inimigo, ou saltando sobre qualquer indício de algo comestível. Mas, na vida emocional humana, pode ter conseqüências desastrosas para nossas relações, pois significa, falando de modo figurado, que podemos saltar em cima ou fugir da coisa — ou pessoa — errada. (Pensem, por exemplo, na garçonete que derrubou uma bandeja com seis jantares quando viu de relance uma mulher de cabelos ruivos ondulados exatamente iguais aos daquela por quem seu marido a deixara.)
Esses rudimentares erros emocionais baseiam-se no sentimento anterior ao pensamento. LeDoux chama isso de “emoção precognitiva”, uma reação baseada em fragmentos neurais de informação sensorial que não foram completamente classificados e integrados num objeto reconhecível. É uma forma muito grosseira de informação sensorial, meio semelhante, em termos neurais, a um programa do tipo “Qual é a Música?”, onde, em vez de julgamentos instantâneos feitos com base num acorde, toda uma percepção é captada com base em algumas notas, ainda indefinidas. Se a amígdala capta o surgimento de um padrão sensorial importante, parte logo para uma conclusão, disparando suas reações antes de haver confirmação total da prova — ou nenhuma confirmação.
Não admira que tenhamos tão pouca consciência das trevas de nossas emoções mais explosivas, sobretudo enquanto elas ainda nos mantêm escravos. A amígdala pode reagir num delírio de raiva ou medo antes de o córtex saber o que está acontecendo, porque essa emoção bruta é disparada independentemente do pensamento e o antecede.

O ADMINISTRADOR DAS EMOÇÕES
A filha de 6 anos de uma amiga, Jessica, passava a primeira noite fora, em casa de uma colega, e era difícil saber quem estava mais nervosa com isso, se a mãe ou a filha. Embora a mãe tenha conseguido disfarçar para Jessica a intensa ansiedade que sentia, sua tensão atingiu o mais alto grau por volta da meianoite, quando se preparava para dormir e ouviu o telefone tocar. Largou a escova de dentes, correu para atender, o coração disparando, imagens de Jessica em terrível aflição passando-lhe pela cabeça.
Agarrou o telefone e explodiu:
— Jessica!
E ouviu uma voz de mulher dizer:
— Ah, acho que disquei o número errado...
Diante disso, a mãe recuperou a serenidade e, num tom educado, comedido, perguntou: — Que número você discou? Enquanto a amígdala trabalha preparando uma reação ansiosa e impulsiva, outra parte do cérebro emocional possibilita uma resposta mais adequada, corretiva. A chave do amortecedor cerebral das ondas repentinas da amígdala parece localizar-se na outra ponta de um circuito principal do neocórtex, nos lobos pré-frontais, logo atrás da testa. O córtex préfrontal parece agir quando alguém está assustado ou zangado, mas sufoca ou controla o sentimento para tratar com mais eficácia da situação imediata, ou quando uma reavaliação exige uma resposta completamente diferente, como no caso da ansiosa mãe ao telefone. Essa região neocortical do cérebro traz uma resposta mais analítica ou adequada aos nossos impulsos emocionais, modulando a amígdala e outras áreas límbicas.
Em geral, as áreas pré-frontais governam, de cara, as nossas reações emocionais. A maior parte de informação sensorial do tálamo, lembrem, não vai para a amígdala, mas para o neocórtex e seus muitos centros, que a absorvem e dão sentido ao que se está percebendo; essa informação e nossa resposta a ela são coordenadas pelos lobos pré-frontais, o local onde são planejadas e organizadas as ações para que alcancemos um objetivo, incluindo os emocionais. No neocórtex, uma série em cascata de circuitos registra e analisa essa informação, compreende-a e, por meio dos lobos pré-frontais, organiza uma reação. Se no processo é exigida uma resposta emocional, os lobos pré-frontais a ditam, trabalhando em comum com a amígdala e outros circuitos no cérebro emocional.
Essa progressão, que permite discernir a resposta emocional, é o esquema-padrão, com a significativa exceção das emergências emocionais. Quando uma emoção dispara, em poucos momentos os lobos pré-frontais efetuam o equivalente a um cálculo da relação custo/benefício das miríades de reações possíveis e decidem que uma delas é a melhor.11 Nos animais, quando atacar, quando fugir. E quanto a nós, humanos..., quando atacar, quando fugir — e também quando apaziguar, persuadir, atrair simpatia, fechar-se em copas, provocar culpa, lamentar-se, assumir uma fachada de bravata, mostrar desprezo — e assim por diante, percorrendo todo o repertório de ardis emocionais.
A resposta neocortical é mais lenta em tempo cerebral que o mecanismo de seqüestro porque envolve mais circuitos. Também é mais criteriosa e ponderada, pois mais pensamentos antecedem o sentimento. Quando registramos uma perda e ficamos tristes, ou nos alegramos com uma vitória, ou refletimos sobre alguma coisa que alguém disse ou fez e depois ficamos magoados ou zangados, é o neocórtex agindo.
Como acontece com a amígdala, sem o funcionamento dos lobos pré-frontais grande parte da vida emocional desapareceria; sem a compreensão de que alguma coisa merece uma resposta emocional, não há nenhuma resposta. Neurologistas suspeitavam desse papel dos lobos pré-frontais nas emoções desde o advento, na década de 1940, daquele “tratamento” cirúrgico um tanto desesperado — e tristemente enganoso — para a doença mental: a lobotomia pré-frontal, que (muitas vezes malfeita) removia parte dos lobos pré-frontais ou então seccionava as ligações entre o córtex pré-frontal e o cérebro inferior. Numa época anterior à existência de remédios eficazes para a doença mental, a lobotomia foi saudada como a solução para a perturbação emocional grave — era só cortar as ligações entre os lobos pré-frontais e o resto do cérebro que se “aliviava” a aflição do paciente. Infelizmente, o custo para a maioria dos pacientes era, também, a perda de suas emoções. O circuito-chave ficava destruído.
Supõe-se que os seqüestros emocionais envolvem duas dinâmicas: o disparo da amígdala e a não-ativação dos processos neocorticais que em geral mantêm o equilíbrio da resposta emocional — ou um recrutamento das zonas neocorticais para a urgência emocional.12 Nesses momentos, a mente racional é inundada pela emoção. Uma das maneiras de o neocórtex agir como eficiente administrador da emoção — avaliando as reações antes de agir — é amortecer os sinais de ativação enviados pela amígdala e outros centros límbicos — assim como um pai que impede um filho impulsivo de pegar uma coisa e o manda, em vez disso, pedir direito (ou esperar) o que quer.13
A principal chave de “desligar” a emoção aflitiva parece ser o lobo pré-frontal esquerdo. Neuropsicólogos que estudam humores de pacientes com danos em partes dos lobos frontais determinaram que uma das tarefas do lobo pré-frontal esquerdo é agir como um termostato nervoso, regulando emoções desagradáveis. Os lobos pré-frontais direitos são um local de sentimentos negativos, como medo e agressividade, enquanto os esquerdos refreiam essas emoções brutas, provavelmente inibindo o lobo direito.14 Num grupo de pacientes que sofreram derrame, por exemplo, aqueles cujas lesões haviam ocorrido no córtex pré-frontal esquerdo tinham tendência a preocupações e medos catastróficos; aqueles com lesões no direito eram “exageradamente animados”; durante os exames neurológicos, faziam piadas com tudo e mostravam-se tão descontraídos que visivelmente nem se preocupavam com o resultado do exame.15 E ainda houve o caso do marido feliz: um homem cujo lobo pré-frontal direito fora parcialmente removido numa cirurgia para correção de uma má-formação do cérebro. A mulher contou aos médicos que depois da operação o marido sofrera uma mudança radical de personalidade, passando a irritar-se com menos facilidade e — como ela estava feliz! — estava mais carinhoso. 16
O lobo pré-frontal esquerdo, em suma, parece fazer parte de um circuito neural que pode desligar, ou pelo menos amortecer, quase todos os impulsos negativos mais fortes da emoção. Se a amígdala muitas vezes age como um disparador de emergência, o lobo pré-frontal esquerdo faz parte da chave de “desligar” a emoção perturbadora: a amígdala propõe, o lobo pré-frontal dispõe. Essas ligações pré-frontallímbicas são cruciais na vida mental muito além do simples refinamento da emoção; são essenciais para fazer-nos navegar em meio às decisões mais importantes na vida.

HARMONIZANDO EMOÇÃO E PENSAMENTO
As ligações entre a amígdala (e as estruturas límbicas relacionadas) e o neocórtex são o centro das batalhas ou dos tratados de cooperação entre a cabeça e o coração, o pensamento e o sentimento. Esses circuitos explicam por que a emoção é tão crucial para o pensamento efetivo, tanto no que diz respeito a tomar decisões sensatas quanto simplesmente a permitir que pensemos com clareza. Consideremos o poder que têm as emoções em perturbar o próprio pensamento. Os neurocientistas usam o termo “memória funcional” para a capacidade de atenção que guarda na mente os fatos essenciais para concluir uma determinada tarefa ou problema, sejam os aspectos ideais que buscamos numa casa quando examinamos vários prospectos, sejam os elementos de um problema de raciocínio num teste. O córtex pré-frontal é a região do cérebro responsável pela memória funcional. 17 Mas os circuitos que vão do cérebro límbico aos lobos pré-frontais indicam que os sinais de forte emoção — ansiedade, raiva e afins — podem criar estática neural, sabotando a capacidade do lobo pré-frontal de manter a memória funcional. É por isso que, quando estamos emocionalmente perturbados, dizemos: “Simplesmente não consigo raciocinar” — e por que a contínua perturbação emocional cria deficiências nas aptidões intelectuais da criança, mutilando a capacidade de aprender.
Essas deficiências, quando muito sutis, nem sempre aparecem em testes de QI, embora se revelem em avaliações neuropsicológicas mais dirigidas, bem como na contínua agitação e impulsividade da criança. Num determinado estudo, por exemplo, descobriu-se que meninos de escola primária com QI acima da média, mas com fraco desempenho escolar, tinham uma deficiência no funcionamento do córtex frontal.18 Também eram impulsivos e ansiosos, muitas vezes desordeiros e chegados a meter-se em apuros — o que sugere um falho controle pré-frontal sobre os impulsos límbicos. Apesar de seu potencial intelectual, essas crianças são as mais propensas a terem problemas na escola, ao alcoolismo e à criminalidade — não por deficiência intelectual, mas porque o controle que têm sobre sua vida emocional é deficiente. O cérebro emocional, bastante distinto das regiões corticais reveladas pelos testes de QI, controla igualmente a raiva e o sentimento de piedade. Esses circuitos emocionais são esculpidos pelo que foi vivenciado na infância — e, no entanto, deixamos essas experiências absolutamente ao acaso.
Pensem, também, no papel das emoções mesmo na mais “racional” decisão que tomamos. Num trabalho com implicações de amplo alcance para a compreensão da vida mental, o Dr. Antonio Damasio, neurologista da Faculdade de Medicina da Universidade de Iowa, fez meticulosos estudos sobre o que, precisamente, está comprometido nos pacientes com danos no circuito pré- frontal-amígdala.19 O processo decisório deles é muitíssimo falho — e, no entanto, não revelam absolutamente nenhuma deterioração no QI ou em qualquer capacidade cognitiva. Apesar de o intelecto estar intacto, fazem escolhas desastrosas nos negócios e na vida pessoal e podem mesmo entrar em interminável obsessão sobre uma decisão tão simples como, por exemplo, para que horas marcar um encontro.
O Dr. Damasio diz que as decisões são mal tomadas porque eles perderam acesso ao que foi emocionalmente aprendido. Como ponto de encontro entre pensamento e emoção, o circuito pré-frontal-amígdala é uma entrada crucial para o repositório de preferências e aversões que adquirimos ao longo da vida. Desligado da memória emocional na amígdala, qualquer coisa sobre a qual o neocórtex medite não mais dispara as reações emocionais a ela associadas no passado — tudo assume uma neutralidade cinzenta. Um estímulo, seja um bichinho de estimação preferido ou alguém que detestamos, não desperta mais atração nem aversão; esses pacientes “esqueceram” todo esse aprendizado emocional porque não têm mais acesso ao lugar onde ele está armazenado na amígdala cortical.
Indicações como essa levam o Dr. Damasio à posição antiintuitiva de que os sentimentos são geralmente indispensáveis nas decisões racionais; põemnos na direção certa, onde a lógica fria pode então ser de melhor uso. Enquanto o mundo muitas vezes nos põe diante de uma gama difícil de opções (Onde aplicar o dinheiro? Com quem casar?), o aprendizado emocional que a vida nos deu (como a lembrança de um desastroso investimento ou uma separação dolorosa) nos envia sinais que facilitam a decisão, eliminando, de pronto, algumas opções e privilegiando outras. Eis por quê, diz o Dr. Damasio, o cérebro emocional está tão envolvido no raciocínio quanto o cérebro pensante.
As emoções, portanto, são importantes para a racionalidade. Na dança entre sentimento e pensamento, a faculdade emocional guia nossas decisões a cada momento, trabalhando de mãos dadas com a mente racional e capacitando — ou incapacitando — o próprio pensamento. Do mesmo modo, o cérebro pensante desempenha uma função de administrador de nossas emoções — a não ser naqueles momentos em que elas lhe escapam ao controle e o cérebro emocional corre solto.
Num certo sentido, temos dois cérebros, duas mentes — e dois tipos diferentes de inteligência: racional e emocional. Nosso desempenho na vida é determinado pelas duas — não é apenas o QI, mas a inteligência emocional também conta. Na verdade, o intelecto não pode dar o melhor de si sem a inteligência emocional. Em geral, a complementaridade de sistema límbico e neocórtex, amígdala e lobos pré-frontais significa que cada um é um parceiro integral na vida mental. Quando esses parceiros interagem bem, a inteligência emocional aumenta — e também a capacidade intelectual. Isso subverte a antiga concepção de antagonismo entre razão e sentimento: não é que queiramos eliminar a emoção e pôr a razão em seu lugar, como queria Erasmo, mas, ao contrário, precisamos encontrar o equilíbrio inteligente entre as duas. O antigo paradigma defendia um ideal de razão livre do peso da emoção. O novo paradigma nos exorta a harmonizar cabeça e coração. Fazer isso bem em nossas vidas implica precisarmos primeiro entender com mais exatidão o que significa usar inteligentemente a emoção.

(Goleman, Daniel - Inteligência emocional)


NOTAS

1. O caso do homem sem sentimentos foi descrito por R. Joseph, op. cit., p. 83. Por outro lado, pode haver alguns vestígios de sentimentos em pessoas que não têm a amígdala cortical (ver Paul Ekman e Richard Davidson (eds.), Questions About Emotions, Nova York: Oxford University Press, 1994). As diferentes constatações talvez dependam de exatamente quais partes dessa amígdala e circuitos relacionados estavam faltando; a última palavra sobre a detalhada neurologia da emoção está longe de ser dada.

2. Como muitos neurocientistas, LeDoux trabalha em vários níveis, estudando, por exemplo, como lições específicas no cérebro de um rato mudam o comportamento dele; identificando, minuciosamente, o caminho de neurônios individuais; elaborando complicadas experiências para condicionar o medo em ratos cujos cérebros foram cirurgicamente alterados. Suas descobertas, e outras examinadas aqui, estão na vanguarda da exploração na neurociência e, portanto, permanecem um pouco especulativas — sobretudo as implicações que parecem fluir dos dados brutos para uma compreensão de nossa vida emocional. Mas o trabalho de LeDoux é sustentado por um crescente conjunto de indícios convergentes, de uma variedade de neurocientistas que estão desvendando constantemente os esteios neurais das emoções. Ver, por exemplo, Joseph LeDoux, “Sensory Systems and Emotion”, Integrative Psychology, 4, 1986; Joseph LeDoux, “Emotion and the Limbic System Concept”, Concepts in Neuroscience, 2, 1992.

3. A idéia de o sistema límbico ser o centro emocional do cérebro foi introduzida pelo neurologista Paul MacLean há mais de quarenta anos. Em anos recentes, descobertas como as de LeDoux aperfeiçoaram o conceito, mostrando que algumas de suas estruturas centrais como o hipocampo estão menos diretamente envolvidas nas emoções, enquanto circuitos que ligam outras partes do cérebro — sobretudo os lobos pré-frontais — à amígdala são mais fundamentais. Além disso, há um crescente reconhecimento de que cada emoção pode ativar distintas áreas do cérebro. O pensamento mais corrente é que não há um único “cérebro emocional” claramente distinto, mas sim vários sistemas de circuitos que dispersam a regulação de uma determinada emoção para partes distantes, mas coordenadas, do cérebro. Os neurocientistas acreditam que quando se conseguir o mapeamento completo das emoções no cérebro, cada emoção importante terá sua própria topografia, um mapa distinto de caminhos neuronais determinando suas qualidades únicas, embora muitos ou a maioria desses circuitos provavelmente estejam interligados em junções-chave no sistema límbico, como a amígdala, e no córtex pré-frontal. Ver Joseph LeDoux, “Emotional Memory Systems in the Brain”, Behavioral Brain Research, 58, 1993.

4. Circuitos cerebrais dos diferentes níveis do medo: esta análise se baseia na excelente síntese feita por Jerome Kagan, Galen’s Prophecy (Nova York: Basic Books, 1994).

5. Escrevi sobre a pesquisa de Joseph LeDoux em The New York Times de 15 de agosto de 1989. A discussão deste capítulo se baseia em entrevistas com ele e em vários de seus artigos, incluindo Joseph LeDoux, “Emotional Memory Systems in the Brain”, Behavioral Brain Research, 58, 1993; Joseph LeDoux, “Emotion, Memory and the Brain”, Scientific American, junho de 1994; Joseph LeDoux, “Emotion and the Limbic System Concept”, Concepts in Neuroscience, 2, 1992.

6. Preferências inconscientes: William Raft Kunst-Wilson e R. B. Zajonc, “Affective Discrimination of Stimuli That Cannot Be Recognized”, Science (1º de fevereiro de 1980).

7. Opinião inconsciente: John A. Bargh, “First Second: The Preconscious in Social Interactions”, apresentado no encontro da Sociedade Psicológica Americana, Washington, DC (junho de 1994).

8. Memória emocional: Larry Cahill e outros, “Beta-adrenergic activation and memory for emotional events”, Nature (20 de outubro de 1994).

9. Teoria psicanalítica e maturação do cérebro: a mais detalhada discussão dos primeiros anos e as conseqüências emocionais do desenvolvimento do cérebro está em Allan Schore, Affect Regulation and the Origin of Self (Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum Associates, 1994).

10. Perigoso, mesmo que não se saiba o que é: LeDoux, citado em “How Scary Things Get That Way”, Science (6 de novembro de 1992), p. 887.

11. Grande parte dessa especulação sobre a sintonia fina da resposta emocional pelo neocórtex vem de Ned Kalin, op. cit.

12. Uma olhada mais atenta à neuroanatomia mostra que os lobos pré-frontais atuam como administradores emocionais. Muitos indícios apontam para partes do córtex pré-frontal como o sítio onde se juntam a maior parte ou todos os circuitos corticais envolvidos numa reação emocional. Nos seres humanos, as mais fortes ligações entre neocórtex e amígdala vão para o lobo pré-frontal esquerdo e o lobo temporal abaixo, e para o lado do lobo frontal (o lobo temporal é fundamental na identificação do que é um objeto). Essas duas ligações são feitas numa única projeção, sugerindo uma rápida e poderosa rota, uma virtual auto-estrada neural. A projeção de neurônios individuais entre a amígdala e o córtex préfrontal vai para uma área chamada córtex orbitofrontal. É a área que parece mais crítica na avaliação de respostas emocionais quando estamos no meio delas e fazendo correções de percurso. O córtex orbitofrontal tanto recebe sinais da amígdala como tem sua própria e complexa rede de projeções por todo o cérebro límbico. Por intermédio dessa rede, desempenha um papel na regulação das respostas emocionais — inclusive inibindo sinais do cérebro límbico quando alcançam outras áreas do córtex, e moderando assim a urgência neural desses sinais. As ligações do córtex orbitofrontal com o cérebro límbico são tão extensas que alguns neuroanatomistas o chamaram de uma espécie de “córtex límbico” — a parte pensante do cérebro emocional. Ver Ned Kalin, Departamentos de Psicologia e Psiquiatria, Universidade de Wisconsin, “Aspects of Emotion Conserved Across Species”, manuscrito inédito preparado para o Encontro MacArthur de Neurociência Afetiva, novembro de 1992; e Allan Schore, Affect Regulation and the Origin of Self (Hillsdale, NJ: Lawrence Erlbaum Associates, 1994). Não há apenas uma ponte estrutural entre a amígdala e o córtex préfrontal, mas também, como sempre, uma ponte bioquímica: tanto a parte ventromedial do córtex pré-frontal quanto a amígdala têm alta concentração especialmente de receptores químicos para o neurotransmissor serotonina. Esse produto químico do cérebro parece, entre outras coisas, aprimorar a cooperatividade: macacos com altíssima densidade de receptores de serotonina no circuito amígdala-pré-frontal são “socialmente bem sintonizados”, enquanto os de baixa concentração são hostis e antagônicos. Ver Antonio Damasio, Descartes’ Error (Nova York: Grosset/Putnam, 1994).

13. Estudos em animais mostram que quando áreas dos lobos pré-frontais são lesionadas, para não mais modularem os sinais vindos da área límbica, eles se tornam instáveis, explodindo impulsiva e imprevisivelmente com raiva ou encolhendo-se de medo. O brilhante neuropsicólogo russo A. R. Luria sugeria, já na década de 1930, que o córtex pré-frontal era fundamental para o autocontrole e para conter explosões emocionais; pacientes que haviam sofrido danos nessa área, observava, eram impulsivos e dados a surtos de medo e cólera. E um estudo com duas dúzias de homens e mulheres condenados por assassinatos cometidos sob impulso, no calor da paixão, constatou, após tomografias para obtenção de imagens do cérebro, que eles tinham um nível muito mais baixo de atividade que o habitual nessas mesmas partes do cérebro pré-frontal.

14. Parte do trabalho principal sobre lobos lesionados em ratos foi feita por Victar Dannenberg, psicólogo da Universidade de Connecticut.

15. Lesões no hemisfério esquerdo e jovialidade: G. Gianotti, “Emotional Behavior and Hemispheric Side of Lesion”, Cortex, 8, 1972.

16. O caso do derrame que deixou o paciente mais feliz foi relatado par Mary K. Morris, do Departamento de Neurologia da Universidade da Flórida, no Encontro da Sociedade Neurofisiológica Internacional, 13-16 de fevereiro de 1991, em San Antonio.

17. Córtex pré-frontal e memória funcional: Lynn D. Selemon e outros, “Prefrontal Cortex”, American Journal of Psychiatry, 152, 1995.

18. Lobos frontais defeituosos: Philip Harden e Robert Pihl, “Cognitive Function, Cardiovascular Reactivity, and Behavior in Boys at High Risk for Alcoholismo”, Journal of Abnormal Psychology, 104, 1995.

19. Córtex pré-frontal: Antonio Damasio. Descartes’ Error: Emotion, Reason and the Human Brain (Nova York: Grosset/Putnam, 1994).

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publicado às 21:05


 
1. Papel do prazer e da dor.
O prazer e a dor são a linguagem da vida orgânica e afetiva, a expressão de equilíbrios satisfeitos ou perturbados do organismo. Representam os meios empregados pela natureza para obrigar os entes a certos atos, sem os quais a manutenção da existência se tornaria impossível.
Prazer e dor são, pois, os indícios de um estado afetivo anterior. São efeitos, como os sintomas patológicos são as conseqüências de uma moléstia.
A faculdade de sentir prazer ou dor constitui a sensibilidade. A vida afetiva e psíquica dos seres depende inteiramente dessa sensibilidade.
A linguagem dos órgãos, traduzida pelo prazer e a dor, é mais ou menos imperiosa, conforme as necessidades a que deve satisfazer. Algumas há, por exemplo a fome, que não esperam.
A fome é a dor mais temida; o amor, o prazer mais procurado, e pode-se repetir o que disse o grande poeta Schiller, isto é, que a máquina do mundo se sustenta pela fome e pelo amor.
As outras variedades do prazer e da dor são móveis menos possantes, porque são menos intensos. Erroneamente Schopenhauer sustentava "que se podem resumir em três todos os princípios que fazem agir o homem: o egoísmo, a maldade e a compaixão".
Nestes últimos anos, alguns filósofos notavelmente William Jones, contestaram o papel do prazer e da dor como móveis da nossa atividade. "Eles não intervém absolutamente, por exemplo, diz esse último, na manifestação das nossas emoções. Quem franze o sobrolho pelo prazer de franzir o sobrolho. Não se respira por prazer"
Essa argumentação não é feliz Ninguém, certamente, respira por prazer, mas a dor que acarretaria a cessação de respirar rigorosamente nos obriga a essa função. Não se franze o sobrolho por prazer, mas em conseqüência de um descontentamento, o que já constitui uma fórmula da dor.

2. Caracteres descontínuos do prazer e da dor. O prazer e a dor não conhecem a duração. A sua natureza é dissiparem-se rapidamente, e por conseguinte só existirem sob a condição de ser intermitente. Um prazer prolongado cessa logo de ser um prazer e uma dor continua logo se atenua A sua diminuição pode mesmo, por confronto, tornar-se um prazer.
O prazer só é, pois, um prazer sob a condição de ser descontínuo. O único prazer um pouco durável é o prazer não realizado, ou desejo. O prazer somente é avaliável pela sua comparação com a dor. Falar de prazer eterno é um contra-senso, como justamente observou Platão. Ignorando a dor, os deuses não podem, segundo Platão, ter prazer.
A descontinuidade do prazer e da dor representa a conseqüência dessa lei fisiológica: "A mudança é a condição da sensação." Não percebemos os estados contínuos, porém as diferenças entre estados simultâneos ou sucessivos. O tique-taque do relógio mais ruidoso acaba, no fim de algum tempo, por não ser mais ouvido, e o moleiro não será despertado pelo ruído das rodas do seu moinho, mas pela sua parada. É em virtude dessa descontinuidade necessária que o prazer prolongado cessa logo de ser um prazer, porém uma coisa neutra, que só se pode tornar novamente vivaz depois de ter sido perdida. A felicidade paradisíaca sonhada pelos crentes deixaria logo de possuir atrativos do paraíso para o inferno. O prazer é sempre relativo e ligado às circunstâncias. A dor de hoje torna-se o prazer de amanhã e inversamente. Dor, para um homem que abundantemente jantou, ser condenado a comer côdeas de pão seco; prazer, para o mesmo indivíduo abandonado durante muitos dias, sem alimentos, numa ilha deserta.
Diz com razão a sabedoria popular que cada qual tem o seu prazer onde o encontra. O prazer do operário que bebe e vocifera na taverna, sensivelmente difere do prazer do artista, do sábio, do inventor, do poeta, ao comporem as suas obras. O prazer de Newton, ao descobrir as leis da gravitação, foi, sem dúvida, mais vivo do que se ele houvesse herdado as numerosas mulheres do rei Salomão.
A importância do papel da sensibilidade ao prazer e à dor nitidamente se manifesta, quando procuramos imaginar o que poderia ser a existência de um desses puros espíritos, tais como os sectários de muitas religiões os supõem.
Desprovidos de sentidos e, portanto, de sensações e de sentimentos, eles permaneceriam indiferentes ao prazer e à dor e não conheceriam nenhum dos nossos móveis de ação. Os mais angustiosos sofrimentos de indivíduos outrora queridos por eles não os poderiam comover. Não teriam, pois, nenhuma necessidade de comunicar com eles. Não se concebe sequer a existência de tais seres.
3. O desejo como conseqüência do prazer e da dor.
O prazer e a dor suscitam o desejo. Desejo de alcançar o prazer e de evitar a dor. O desejo é o móvel principal da nossa vontade e, portanto, dos nossos atos. Do polipo aos homens, todos os seres são movidos pelo desejo. Inspira a vontade, que não pode existir sem ele, e depende da sua intensidade. O desejo fraco suscita, naturalmente, uma vontade fraca.
Cumpre, no entanto, não confundir vontade e desejo, como fizeram muitos filósofos, tais como Condillac e Schopenhauer. Tudo quanto é querido, é evidentemente desejado; mas desejamos muitas coisas que, sabemos, não podíamos querer.
A vontade traduz deliberação, determinação e execução, estados de consciência que não se observam no desejo.
O desejo estabelece a escala dos nossos valores, variável, aliás, com o tempo e as raças. O ideal de cada povo é a fórmula do seu desejo.
Um desejo que invade todo o entendimento, transforma a nossa concepção das coisas, as nossas opiniões e as nossas crenças Spinosa muito bem disse julgamos uma coisa boa, não por julgamento, mas porque a desejamos.
Não existindo em si mesmo o valor das coisas, ele é apenas determinado pelo desejo e proporcionalmente à intensidade desse desejo. A variável apreciação dos objetos de arte fornece desse fato uma prova diária. Origem de todo o esforço, soberano senhor dos homens, gerador dos deuses, criador de todo o ideal, o desejo não figura, contudo, nos Panteões antigos. Somente o grande reformador Buda compreendeu que o desejo é o verdadeiro dominador das coisas, o fator da atividade dos seres. Para libertar a humanidade das suas misérias e conduzi-la ao perpétuo repouso ele tentou suprimir esse grande movel das nossas ações. A sua lei submeteu milhões de homens, mas não subjugou o desejo.
É que, de fato, o homem não poderia viver sem ele. O mundo das idéias puras de Platão poderia possuir a serena beleza que ele sonhava, conter eternos modelos das coisas, se não fosse vivificado pelo sopro do desejo, não nos interessaria.

4. O prazer em perspectiva. A esperança. A esperança é filha do desejo, mas não é o desejo. Constitui uma aptidão mental, que nos fez crer na realização de um desejo Podemos desejar uma coisa sem que a esperemos.
Toda gente deseja a fortuna, muito poucos a esperam. Os sábios desejam descobrir a causa primitiva dos fenômenos; eles não têm nenhuma esperança de consegui-lo.
O desejo aproxima-se algumas vezes da esperança, a ponto de confundir-se com ela. Na roleta, eu desejo e espero ganhar. A esperança é uma forma de prazer em expectativa que, na sua atual fase de espera, constitui uma satisfação freqüentemente maior do que o contentamento produzido pela sua realização.
A razão é evidente. O prazer realizado limita-se em quantidade e em duração, ao passo que nada limita a grandeza do sonho criado pela esperança. A força e o encanto da esperança consistem em conter todas as possibilidades de prazer.
Ela constitui uma espécie de vara mágica que transforma tudo. Os reformadores nunca fizeram mais do que substituir uma esperança por outra.

 5. O regulador do prazer e da dor. O hábito. O hábito é o grande regulador da sensibilidade; ele determina a continuidade dos nossos atos, embota o prazer e a dor e nos familiariza com as fadigas e com os mais penosos esforços. O mineiro habitua-se tão bem à sua dura existência que dela se recorda saudoso quando a idade o obriga a abandoná-la e o condena a viver ao sol.
O hábito, regulador da vida habitual, é também o verdadeiro sustentáculo da vida social. Pode-se compará-lo à inércia, que se opõe, em mecânica, às variações de movimento. A dificuldade para um povo consiste, primeiramente, em criar hábitos sociais, depois em não permanecer muito tempo neles.
Quando o jugo dos hábitos pesou muito tempo num povo, ele só se liberta desse jugo por meio de revoluções violentas. O repouso na adaptação, que o hábito consiste, não se deve prolongar. Povos envelhecidos, civilizações adiantadas, indivíduos idosos tendem a sofrer demasiado o jugo do costume, isto é, do hábito.
Seria inútil dissertar longamente sobre o seu papel, que mereceu a atenção de todos os filósofos e se tornou um dogma da sabedoria popular.
"Que são os nossos princípios naturais, diz Pascal, senão os nossos princípios acostumados E nas crianças, os princípios que elas receberam dos costumes dos pais... Um costume diferente dará outros princípios naturais.
O costume é uma segunda natureza, que destrói a primeira. O costume explica os nossos atos mais fortes e mais violentos; torna autômato o homem, cujo espírito é involuntariamente acarretado... Foi o costume que fez tantos cristãos; foi ele que fez os turcos, os pagãos, os oficiais, os soldados, etc. Enfim, cumpre recorrer a ele, quando o espírito consegue ver o que é a verdade.
 ... É preciso adquirir uma crença mais fácil, que é a do hábito, o qual, sem violência, sem arte, sem argumento, nos fez admitir as coisas e conduz todas as nossas forças a essa crença, de modo que a nossa alma aí naturalmente imerge. Quando só se crê pela força da convicção... não é bastante".
A existência de um indivíduo ou de um povo ficaria instantaneamente paralisada, se, por um poder sobrenatural, ele se visse subtraído à influência do hábito. É ele que diariamente nos dita o que devemos dizer, fazer e pensar.

6. O prazer e a dor considerados como as certezas psicológicas fundamentais.
Os filósofos têm tentado abalar todas as nassas certezas e mostrar que do mundo conhecemos apenas aparências.
Possuiremos sempre, porém, duas grandes certezas, que nada poderia destruir: o prazer e a dor. Toda a nossa atividade deriva delas. As recompensas sociais, os paraísos e os infernos criados pelos códigos religiosos ou civis baseiam-se na ação dessas certezas, cuja evidente realidade não pode ser contestada.
Desde que a vida se manifesta, surgem o prazer e a dor. Não é o pensamento, mas a sensibilidade, que nos revela o nosso "eu". Se dissesse: "Sinto, logo existo", ao invés de: "Penso, logo existo", Descartes estaria muito perto da verdade.
Assim modificada, a sua fórmula aplica-se a todos os. seres e não a uma fração apenas da humanidade.
Dessas duas certezas poder-se-ia deduzir a completa filosofia prática da vida. Fornecem uma resposta segura à eterna pergunta tão repetida desde o Eclesiastes: por que tanto trabalho e tantos esforços, já que a morte nos espera e o nosso planeta se resfriará um dia? Por que? Porque o presente ignora o futuro e no presente a Natureza nos condena a procurar o prazer e evitar a dor.
O operário, curvado sob o peso do trabalho, a irmã de caridade, a quem não repugna nenhuma chaga, o missionário torturado pelos selvagens, o sábio que procura a solução de um problema, o obscuro micróbio que se agita no fundo de uma gota d'água, todos obedecem aos mesmos estimulantes de atividade: o atrativo do prazer, o receio da dor.
Nenhuma atividade tem outro móvel. Não poderíamos mesmo imaginar móveis diferentes desses. Só os nomes podem variar.
Prazeres estéticos, guerreiros, religiosos, sexuais, etc., são formas diversas do mesmo aspecto fisiológico A atividade dos seres se dissiparia, se desaparecessem as duas certezas que são os seus grandes móveis: o prazer e a dor.

(Gustave Le Bon - As Opiniões e as Crenças)
Sinto, logo existo!

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publicado às 02:08

Pensador dinamarquês que estabeleceu temas-chave do existencialismo e afirmou que a verdade deveria ser encontrada na experiência subjetiva do mundo, e não compreendida puramente por métodos objetivos. 

Søren Kierkegaard identificou e explorou os principais temas do existencialismo mais de cem anos antes que as figuras dominantes dessa tendência viessem a publicar uma palavra. Os conceitos de nada, angústia e pavor foram descritos por Kierkegaard muito antes que Martin Heidegger (1889-1976) – com pouco mais que um aceno para sua fonte – os elaborasse em Ser e tempo (1927). A visão de Jean-Paul Sartre (1905-80) do homem como “uma paixão inútil”, que ele descreve em O ser e o nada (1945), é também uma referência a Kierkegaard.
Educação “insana”
O pai de Kierkegaard era um homem rico, sombrio e movido por um sentimento de culpa que chegou a afetar o jovem Kierkegaard ao ponto de este referir-se à própria educação como “insana”. Inicialmente, Kierkegaard estudou teologia para agradar o pai, mas depois a abandonou em favor de uma vida de bon vivant. Após a morte do pai, Kierkegaard iniciou formalmente o estudo de filosofia, graduou-se e ficou noivo. Depois de um ano, terminou o noivado, e sua angústia a respeito do assunto tornou-se a força motriz por trás de seus primeiros trabalhos, três dos quais foram publicados em 1843: Ou isso ou aquilo, Temor e tremor e A repetição. O volume de material publicado por Kierkegaard foi prodigioso, mas os trabalhos que tiveram mais influência durante sua vida foram Migalhas filosóficas (1844), O conceito de angústia (1844), Estágios no Caminho da Vida (1845) e Pós-escrito conclusivo não científico (1846). Dois trabalhos póstumos continuam exercendo influência no século XXI: Doença até a morte (1849) e Prática no cristianismo.

Pseudônimos e comunicação indireta
Depois de desfazer seu noivado, Kierkegaard levou uma vida de solteiro focada em trabalho duro e reflexão profunda. No entanto, a gravidade de seus temas da fé e do desespero é entrecortada por um sério ludismo. Em muitos de seus trabalhos, Kierkegaard adotou pseudônimos: Victor Eremita, Johannes de Silentio, Constantin Constantius, Johannes Climacus, Vigilius Haufniensis, Anti-Climacus e H. H. O uso de pseudônimos era parte do seu método de comunicação indireta, com o qual Kierkegaard encorajava os leitores a pensarem por conta própria – a descobrirem sua subjetividade em vez de simplesmente receberem a “verdade” conforme entregue pela autoridade (o “autor”). Em vez de fazer proselitismo, Kierkegaard utiliza diferentes personas para oferecer perspectivas concorrentes de um mesmo problema, deixando ao leitor o trabalho de escolher aquilo em que acreditar.
 


Subjetividade, paradoxo e “o salto da fé”
Kierkegaard é o filósofo da subjetividade. Ele acredita que o Eu é livre para fazer escolhas, para criar a si próprio. Falhar em ter consciência de si e das possibilidades de liberdade é estar em um estado de desespero. Entretanto, todos em algum ponto de suas vidas caem em desespero, o que pode se apresentar como a oportunidade de ser eles mesmos. Em Doença até a morte (1843), Kierkegaard escreve: “Desespero é uma doença do espírito, do Eu, e assim pode assumir uma forma tripla: desespero de não estar consciente de possuir um Eu (desespero chamado assim inapropriadamente); desespero de não querer ser quem se é e desespero de querer ser quem se é.”
O conceito de Kierkegaard de ser e subjetividade lhe permitiu aceitar o paradoxo como base da fé religiosa. Ele formulou o conceito normalmente referido como “salto da fé” (embora sua expressão literal fosse “salto para a fé”). Os mistérios do cristianismo não podem ser explicados pela razão, disse Kierkegaard, e não precisam ser. Eles existem fora da razão. São paradoxais. É preciso acreditar, mas não se consegue provar. É preciso acreditar como Abraão, que estava preparado para sacrificar o único filho em resposta à ordem de Deus. O pensamento de Kierkegaard é diametralmente oposto ao de Hegel, que propôs um enorme sistema lógico de razão pura, a partir da qual o homem e seu mundo seriam entendidos objetivamente, como por uma perspectiva divina.
 Kierkegaard argumentou que isso nunca seria possível; que o sujeito humano está sempre situado na perspectiva permitida por seu corpo, sua localização no espaço, sua própria consciência. Essa rejeição a uma perspectiva divina e a pseudo-objetividade que dela resulta, ao lado de uma tolerância pelo paradoxo, influenciaram em grande medida o pensador francês do século XX, Maurice Merleau-Ponty, e estas ideias são centrais para sua Fenomenologia da percepção (1945). Kierkegaard exerceu influência enorme na teologia protestante dos séculos XX e XXI. A filosofia contida em Eu e tu, de Martin Buber, deve muito a Kierkegaard, assim como a desmitologização de Rudolf Bultmann (1884-1976) – a visão de que a única necessidade da fé cristã é o fato do Cristo crucificado. E o teólogo germano-americano Paul Tillich (1886-1965), que teve enorme influência, levou adiante o conceito de Kierkegaard do “ser” como a chave para compreender a relação do homem com Deus.
Como são estéreis minha alma e pensamento, e ao mesmo tempo atormentados incessantemente por vazias, arrebatadoras e agonizantes dores do parto! Estará meu espírito fadado a calar-se eternamente? Estarei eu obrigado a murmurar para sempre? Necessito é de uma voz tão penetrante quanto o olhar de Linceu, aterrorizante como o suspiro dos gigantes, persistente como um som da natureza, zombeteira como uma rajada de vento que espalha a geada fria, maliciosa como o desprezo insensível de Eco, com uma extensão tonal que alcance desde os graves mais profundos até os mais pungentes agudos, modulando do sussurro de uma santidade suave à violenta fúria da raiva. É disso que eu preciso para respirar, para dar expressão ao que está na minha mente, para agitar as entranhas da minha ira e da minha simpatia. – Mas minha voz é apenas rouca como o grito de uma gaivota ou moribunda como a bênção sobre os lábios do mudo. O que está por vir? O que reserva o futuro? Não sei, não tenho ideia. Quando, de um ponto fixo, uma aranha se joga para baixo, como determina sua natureza, ela vê diante de si sempre um espaço vazio no qual não consegue encontrar equilíbrio, não importa quanto esperneie. É isso que acontece comigo: sempre um espaço vazio diante de mim, o que me empurra para frente é um resultado que se encontra atrás de mim. Esta vida é de trás para frente e terrível, insuportável. (Søren Kierkegaard, Ou isso ou aquilo: um fragmento de vida 1843)
As dificuldades para um leitor dos escritos de Kierkegaard são consequência, em parte, da multiplicidade de escritores sob diferentes pseudônimos que apresentam seus próprios pontos de vista em um diálogo complexo. Evitando um sistema conclusivo, Kierkegaard permite que cada um deles tenha sua voz... Deste modo, o leitor está na posição de quem, se assim desejar, entra também neste complexo diálogo e organiza todas essas vozes. O uso de pseudônimos também desencoraja a tendência ilusória a cometer a falácia genética de psicologizar e historicizar a obra como autobiografia, supostamente, assim, “explicando-a”. Há ainda um objetivo pedagógico na complexidade: “A tarefa precisa ser tornada difícil, pois somente o difícil inspira os de coração nobre” [Pós-escrito conclusivo não científico]. (Howard V. e Edna H. Hong, The Essential Kierkegaard [Kierkegaard essencial] 2000)
  (Trombley, Stephen - 50 pensadores que formaram o mundo moderno)

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publicado às 16:19


“Que país é este?”

por Thynus, em 19.03.15
Nas favelas, no senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
No Amazonas
E no Araguaia ia, ia
Na Baixada Fluminense
No Mato grosso
E nas Gerais
E no Nordeste tudo em paz
Na morte eu descanso
Mas o sangue anda solto
Manchando os papeis
Documentos fiéis
Ao descanso do patrão
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Terceiro mundo se for
Piada no exterior
Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
(Renato Russo)
 
Enquanto uma parcela insignificante da população tem acesso aos bens importados ou aqui produzidos pelo capitalismo internacional, milhões de brasileiros têm vivido em absoluta ou quase absoluta miséria, recebendo, no entanto, os mesmos estímulos desencadeadores de desejos da propaganda característica da sociedade de consumo.
O que se encontra à venda no mercado interno é abocanhado em sua maior parte pela chamada classe A; a pequena parcela da população composta dos brasileiros mais ricos (5%) concentra em suas mãos uma renda quase equivalente à da imensa parcela formada pelos brasileiros mais pobres. O salário mínimo é sempre menor do que o mínimo necessário para uma vida digna, e o desemprego é a maior ameaça à segurança e paz dos trabalhadores.
Milhões de crianças e adolescentes carentes vivem em pleno abandono nas nossas principais cidades e, quando cometem alguma infração, são confinados em instituições que deveriam protegê-los mas, ao contrário, só lhes provocam mais amargura, frustração e explosões de violência. Ainda temos entre nós milhões de analfabetos, alguns na faixa etária em que deveriam estar frequentando o ensino básico.
Nossos dados estatísticos referentes à subnutrição, mortalidade infantil, falta de acompanhamento das gestantes durante a gravidez e o parto e às condições sanitárias dos bairros onde vivem as populações mais pobres nos colocam entre os países com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
 Chegamos ao final do século XX ocupando o 79.º lugar, numa lista de 174. Vínhamos atrás do Chile, Uruguai, Argentina, Cuba, Equador, Venezuela, Cazaquistão, Suriname e Arábia Saudita. Como o escritor Eduardo Galeano afirmou em As veias abertas da América Latina, nosso subdesenvolvimento não seria uma etapa que precede o desenvolvimento, mas consequência da ação exercida pelas potências imperialistas e condição mesma da manutenção de suas riquezas. Segundo ele informa, em 1968, antes, portanto, do “milagre econômico” que acabaria por entregar o Brasil às multinacionais, a desnacionalização de nossa economia chegava a tal ponto que os estrangeiros, dos quais metade eram norte-americanos, detinham 82% dos nossos transportes marítimos, 67% dos aéreos externos, 100% da produção de veículos motorizados e de pneumáticos, 80% da indústria farmacêutica, 50% da indústria química, 59% da produção de máquinas, 90% da produção de cimento etc. A transfusão de capitais externos para nossa economia era, contudo, cinco vezes menor do que a “hemorragia” causada pela remessa de lucros, juros, pagamento de licenças, assistência técnica etc. às matrizes das multinacionais.
A partir desse processo sempre crescente de descapitalização, o Brasil se veria obrigado a apelar constantemente para organismos financeiros internacionais, controlados em grande parte pelos USA, tais como FMI, BID, AIO, Eximbank etc., que imporiam ao Brasil, como condição para o empréstimo, a política de arrocho salarial e de desvalorização da moeda, a não destinação dos créditos à produção de artigos que concorram com os norte-americanos ou que sejam vendidos a países cuja economia os USA desejam boicotar, além de orientarem esses recursos segundo interesses diretos desse país.
Assim, grande parte desses empréstimos tem sido aplicada nas subsidiárias das multinacionais, em obras de infra-estrutura que favoreçam a sua instalação e a circulação de suas mercadorias, ou no financiamento de compras de produtos norteamericanos.
No que se refere à “transferência de tecnologia”, quando importamos know-how (conhecimento especial) estamos simplesmente obtendo uma licença ou autorização de uso da parte daquele que, na verdade, continua sendo o único detentor do saber tecnológico ou científico. Tanto é que no caso de introduzirmos alguns aperfeiçoamentos a esse saber, eles passam a ser propriedade do licenciador (exportador).
Os contratos de “transferência” em geral estabelecem não só um preço fixo pela licença concedida como também uma porcentagem sobre a venda dos produtos decorrentes da sua utilização e ainda a participação acionária do exportador no empreendimento. Não é raro que sejam impostas restrições de vendas a determinadas regiões e estabelecidos compromissos de compra de matéria-prima e componentes do licenciador. E bom relembrar que muito da tecnologia exportada comumente já está superada no país de origem, embora seus preços de venda sejam sempre muito atuais.
Países desenvolvidos também importam know-how, mas gastam muito menos nisso do que investem em desenvolvimento de tecnologia nacional. Na América Latina, porém, esses investimentos são muitas vezes menores do que nos USA, por exemplo.
Condições bastante desiguais caracterizam também as relações comerciais do Brasil com os norte-americanos. O que importamos custa sempre mais e o que exportamos sempre menos do que os preços do mercado internacional, e, enquanto damos aos produtos dos USA tratamento preferencial em nossas alfândegas, os nossos encontram barreira naquele país.
Não é nada difícil perceber a ligação entre nossa miséria e a associação de interesses da nossa classe dominante com o imperialismo norte-americano. É a seu serviço que estão os enlatados culturais consumidos por nós e os meios de comunicação de massa que os veiculam e que ocultam informações que possam colocar em questão a validade do sistema capitalista e revelar os esquemas de dominação do imperialismo.
Por isso, não é raro que no Brasil se atribua a pobreza à corrupção política, à má escolha dos governantes, ao conformismo da população e a uma suposta incompetência do brasileiro para gerir o destino da nação. Na verdade, o que é mera consequência ou agravante passa a ser visto como causa dos problemas e desigualdades sociais.
Conforme dados apresentados pelo historiador Chico Alencar, em 1999, no Brasil havia apenas 4 milhões de internautas, ao mesmo tempo que, em média, 90 milhões de brasileiros assistiam à TV diariamente, menos de 20 milhões tinham o costume de pelo menos folhear jornais e menos de 10 milhões o hábito de ler livros sem ser por obrigação. Enquanto nos USA eram produzidos anualmente 11 livros per capita, a média em nosso país era de 2,4, incluindo nesse total os livros didáticos. Nessas condições, evidentemente fica muito difícil desenvolver a consciência de que temos de defender o que é nosso. Contudo, e felizmente, difícil não significa impossível.

(Júlia Falivene Alves - A Invasão Cultural Norte-Americana)

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publicado às 12:37


A religião de Jesus, o judeu

por Thynus, em 19.03.15
Jesus era judeu, não cristão. Esse singular fato histórico abre a porta para a compreensão de Jesus como realmente era em seu próprio lugar e tempo; é uma porta que muitos nunca pensaram em ultrapassar. Jesus foi circuncidado, observava a Páscoa dos hebreus, lia a Bíblia hebraica e observava o sabbath como dia de descanso. Dois mil anos de separação e alienação relativamente hostis entre o judaísmo e o cristianismo tenderam a obscurecer o fato de que Jesus cresceu em um mundo religioso e cultural que foi quase totalmente perdido nos subseqüentes desenvolvimentos do cristianismo. Para compreender Jesus em seu próprio tempo e lugar, precisamos compreender sua profunda dedicação à fé ancestral de seus antepassados. Via-se apenas cumprindo as palavras de Moisés e dos profetas, e a esperança messiânica que orientou sua vida e levou à sua morte era o âmago do mais profundo de seu ser.
 
Em certo sentido, este livro é sobre a religião de Jesus, o judeu — aquilo em que acreditava, como vivia, sua visão da vontade de Deus no mundo e o que levou à sua execução pelos romanos. Mas neste capítulo quero esclarecer o que podemos saber sobre Jesus enquanto ele crescia, como judeu, na Galileia do século I.
Surge, então, a pergunta — até que ponto Jesus era judeu, e, dadas as variedades de judaísmo existentes em sua época, que tipo de judeu era ele? Uma tendência entre os estudiosos do século passado, hoje praticamente descartada, era a tentativa de despojá-lo, e a sua mensagem, de seus contextos judaicos. A ideia era a de que Jesus, embora nascido judeu, reconheceu as deficiências de sua fé ancestral obsoleta e dela se afastou em direção a um tipo de "universalismo". Jesus, segundo essa teoria, proclamou a Paternidade de Deus e a fraternidade da humanidade, com um conjunto de éticas universais que suplantava os legalismos do judaísmo. O judaísmo era visto como um precursor fossilizado da revelação final que Jesus trouxe ao mundo. Agora compreendemos que tais teorias não têm bases históricas e são, naverdade, manifestações sutis de anti-semitismo cristão. No entanto, gravaram-se profundamente em nossa consciência cultural ocidental.
Ser judeu, na Palestina do século I ocupada pelos romanos, tinha tanto a ver com identidade nacional e étnica como com crenças religiosas abstratas. Assim, para muitos judeus era impossível separar as realidades sociais e políticas da ocupação militar e opressão econômica da devoção e fé judaicas.Era fundamental a crença judaica de que o povo de Israel tinha sido escolhido por Deus para se tornar uma "nação modelo", que seria um exemplo de justiça e religiosidade para o mundo inteiro. Os profetas hebreus haviam predito que nos últimos dias todas as nações iriam a Jerusalém para se instruir sobre o único verdadeiro Deus Criador, irresistivelmente atraídas pelo exemplo moral de paz e justiça de Israel. Nem todos os judeus aceitavam essa visão tão idealista, mas os que a aceitavam eram em número suficiente para que João Batista, Jesus e seu irmão Tiago pudessem atiçar um movimento que ameaçou os mais altos níveis do estabelecimento político e religioso.
A família de Jesus, como todos os judeus da Galileia, deve ter feito peregrinações para Jerusalém três vezes por ano, como exigia a Torá, todos os anos, na primavera, por ocasião da Páscoa dos hebreus, no princípio do verão, para a celebração de Pentecostes, e no outono, para a celebração dos Tabernáculos. Na Páscoa dos hebreus, principalmente, Josefo afirma que dois milhões e meio de judeus, da Palestina e do mundo inteiro, reuniam-se em Jerusalém.' Era lá que Jesus regularmente se deparava com os símbolos mais pungentes do poder romano, fundidos com o que ele considerava o epítome da corrupção religiosa judaica. A Jerusalém de Herodes, com seus palácios, teatro, hipódromo, mansões luxuosas e Templo magnífico, poderia ser considerada por muitos uma maravilha do mundo, mas para Jesus e milhares de outros era um "covil de ladrões", a ser brevemente condenada por Deus. Não foi por acaso que Jesus, aos 33 anos, deliberadamente escolheu Jerusalém, na Páscoa dos hebreus, como o cenário de seu mais dramático confronto com o que ele chamava de "poderes das trevas". Precisamos imaginar que suas percepções estão profundamente enraizadas em suas experiências ao crescer. Séforis e Jerusalém — as duas principais representantes da opressão romana e da corrupção religiosa — foram absolutamente fundamentais para o modo como ele via sua vocação e seu destino.
 
 
Crescendo como judeu na aldeia de Nazaré
Jesus cresceu pobre, em uma cidadezinha rural da Galileia. A região era pontilhada de centenas dessas cidades e aldeias povoadas por clãs e extensos grupos familiares que cultivavam as terras adjacentes. A arqueologia mostrou que as casas eram modestas, feitas de pedras compactadas com barro e palha. Os pisos eram de terra batida, as janelas eram poucas, os telhados eram de juncos deitados sobre vigas de madeira cobertas de barro, para formar uma superfície utilizada o ano inteiro para dormir, comer e fazer tarefas domésticas. As casas freqüentemente tinham aposentos subterrâneos usados para armazenagem. A mobília era pouca, e as louças de barro, locais e práticas, quase sempre lisas, sem enfeites. Não havia mosaicos, cerâmicas importadas, objetos finos de vidro, moedas de ouro e prata, cosméticos, jóias e vasos de bronze — comuns nas áreas urbanas de Séforis e Jerusalém. As casas maiores poderiam ter um pátio, vários aposentos e famílias extensas morando juntas; essas casas, muitas vezes, se expandiam em uma rede desconexa de estruturas compartilhadas. Os animais viviam em cercados ligados às casas, ou em escavações ou cavernas, e pequenos jardins eram cultivados sempre que houvesse espaço. A alimentação básica fazia-se de azeitonas, pão e lentilhas. Ovos, leite, queijo, peixe salgado, carne, frutas e legumes eram acréscimos bem-vindos. Restos de esqueletos evidenciam deficiências alimentares, e mortes por doença antes dos quarenta anos de idade eram comuns.
Podemos ter uma noção de como eram as coisas naquela época visitando o projeto arqueológico da Aldeia de Nazaré, na cidade moderna de Nazaré. É como uma Williamsburg Colonial da vida de aldeia judaica no tempo de Jesus. Arqueólogos e historiadores estão reconstruindo de modo meticuloso uma réplica da Nazaré do século I, feita inteiramente com os métodos e materiais usados naquele tempo. Também tentam reproduzir, da maneira mais autêntica possível, os antigos métodos de cultivo, criação de animais e ofícios domésticos. Ao visitar Nazaré, não podemos deixar de nos impressionar com a perícia empregada na tentativa. Mas falta muito- o barulho, o mau cheiro, a aglomeração, a sujeira da vida camponesa diária, a sensação de viver sob ocupação militar e, naturalmente, o exército virtual de Herodes, constituído de inspetores, agentes e coletores de impostos, sempre vigilantes.
Todos os indícios arqueológicos da Galileia rural apontam para uma vida camponesa geral — mas era uma vida camponesa judaica. Foram encontradas vasilhasde pedra, necessárias para fins de pureza ritual, assim como piscinas emboçadas ou mikvahs, usadas para imersão ritual. Os ossos que aparecem são de cabras, carneiros, galinhas e algum gado, mas não de porcos. Os túmulos ficavam fora da área de moradia, em cavernas naturais aumentadas ou cortadas no leito de rocha. Como descrito na introdução, o corpo era colocado em uma escavação vertical, ou loculus, para se decompor, e depois de um ano os ossos eram recolhidos e colocados em um ossuário ou nicho separado. A preferência romana pela cremação era evitada, provavelmente devido à crença na ressurreição dos mortos.
A sinagoga era o centro cívico e religioso de uma aldeia judaica. Já foram encontradas pelo menos duas sinagogas do século I — uma em Gamla, no lado leste do Mar da Galileia, a outra na fortaleza de Massada, no deserto. Temos, portanto, alguma noção de como eram. As reuniões eram no sabbath, quando o trabalho normal da cidade inteira parava abruptamente desde o pôr-do-sol de sexta-feira até o crepúsculo de sábado. Preciosas cópias manuscritas da Torá, ou Lei Judaica, e dos livros dos profetas eram lidas em voz alta e discutidas. A língua falada era o aramaico, mas a julgar pelos Manuscritos do Mar Morto, os livros sagrados eram escritos em hebraico antigo. Lucas conta que Jesus, aos trinta anos, voltou à sua cidade de Nazaré, entrou na sinagoga,"como era seu costume", e levantou-se para ler em voz alta um pergaminho de Isaías (Lucas 4:16). Depois sentou-se e começou a dirigir-se aos que estavam reunidos, oferecendo sua interpretação sobre o texto que acabara de ler. Presume-se que havia orações, cânticos e cerimônias ligadas a ocasiões especiais, mas a atividade central parece ter sido a leitura e discussão das Escrituras.
Entre os Manuscritos do Mar Morto havia uma cópia completa do livro de Isaías, que os estudiosos dataram de 100 a.C.; dessa forma, sabemos precisamente como era um pergaminho bíblico no tempo de Jesus. Permanecera escondido durante dois mil anos, lacrado em um vaso de barro, em uma caverna perto do assentamento de Qumrã. O pergaminho de Isaías tem 54 colunas de texto hebraico. Tem mais de sete metros de comprimento e consiste de 17 painéis de pele de cabra de cerca de 27,5 centímetros, costurados uns aos outros. Era enrolado da direita para a esquerda, e seria preciso colocá-lo sobre uma mesa ou um atril para mantê-lo firme, ao desenrolá-lo ou lê-lo. O Grande Pergaminho de Isaías, como é chamado, talvez seja, sem dúvida, a descoberta mais assombrosa na história da arqueologia bíblica. Quando foi encontrado, todos, os estudiososincluídos, custaram a acreditar que pudesse ser tão antigo. Antes dos Manuscritos do Mar Morto, as cópias mais antigas de livros da Bíblia Hebraica datavam do século IX d.C.
Não temos como saber o quanto Jesus falou e o quanto escutou nessas reuniões adultas enquanto crescia, mas desde muito jovem ele deve ter começado a assimilar a variedade de ideias e opiniões conflitantes que eram expressas. A julgar pela tradição oral judaica, que acabou sendo escrita no Mishná,(O Mishná é a compilação mais antiga de discussão judaica das leis da Torá agrupadas pelo Rabino Judá, o Príncipe, em aproximadamente 200 d.C., em Séforis. Até serem escritas, as tradições e ditos circulavam oralmente. Embora escrito no século III d.C., parte do material remonta aos tempos de Jesus) bem como por textos dos Manuscritos do Mar Morto e indícios nos evangelhos, a abrangência dos tópicos era infinita.' Quais as atividades proibidas e permitidas no sabbath? As pessoas deviam pagar impostos? Como seria determinado o calendário judaico — pelos ciclos da lua, do sol ou de ambos? A quem seriam pagos os dízimos? Seriam todos, alguns, ou nenhum dos mortos ressuscitados no fim dos tempos? Que causa permitiria a alguém se divorciar da esposa? Como era transmitida a impureza ritual, e o que era exigido para a purificação? Como e quando apareceriam as várias figuras messiânicas? Era permitido casar-se com uma sobrinha? Quais as transações permitidas com não judeus? Era permitido cobrar juros sobre empréstimos? O reino de Deus se manifestaria literalmente na Terra, ou apenas após a morte, em um mundo celestial? As "tribos perdidas" ou dispersas de Israel retornariam à Terra nos dias dos messias? E depois havia as histórias, as histórias infindáveis de Abraão, Isaac, Jacó, José, Moisés, rei Davi, e de todos os profetas, contadas e recontadas a partir da Escritura e de lendas, para entreter, advertir e educar.
A julgar pelas nossas fontes, não havia um tratamento sistemático desses e de cem outros assuntos relacionados com as crenças centrais do judaísmo. O que caracterizava a vida judaica, até mesmo a vida judaica camponesa, era essa discussão e esse debate contínuos e intermináveis sobre o sentido e as implicações de histórias, mandamentos, e ensinamentos da Torá e dos profetas. Podemos supor um nível de alfabetização e interesse intelectual que talvez normalmente não existisse entre as classes inferiores e os pobres. Os judeus eram um povo "do Livro", e, como os romanos viriam a aprender, isso os tornava diferentes de todos os outros povos dominados por eles.
O judaísmo pode ser resumido sob quatro rubricas: Deus, Torá, Terra e Povo Escolhido. Como judeu, Jesus teria afirmado sua crença no único Deus Criador Yahweh sobre todos os deuses ou entes espirituais; na divina revelação da Torá, como um plano para a vida social, moral e religiosa; na santidade da Terra de Israel como um perpétuo direito inato da nação; e na noção de que o povo de Israel, descendente de Abraão, Isaac e Jacó, tinha sido escolhido por Deus para esclarecer todas as nações. A missão histórica desse povo seria atrair a humanidade para o Deus único e sua revelação na Torá. Como judeu, Jesus foi circuncidado no Templo judaico, em Jerusalém, aos oito dias de idade, observava o sabbath como o dia de descanso semanal, evitava comer certos animais proibidos ou consumir sangue, cumpria as comemorações de peregrinação exigidas e praticava a pureza ritual, conforme ordenado pela Torá. Como homem judeu, Jesus usava borlas franjadas (tzitzit) em sua vestimenta externa, o que indica sua observância rigorosa dos mitzvoth ou mandamentos da Torá ou Lei Judaica.(Isso foi ordenado em Números 15:37-40. Compare com Mateus 23:5) Nesse sentido, ele não era "liberal" quanto às observâncias judaicas, segundo qualquer significado moderno do termo. O que não aceitava, como veremos, eram certas tradições e interpretações orais que alguns mestres rabínicos haviam acrescentado aos mandamentos bíblicos.
 Segundo percepção corrente, o judaísmo é ao mesmo tempo exclusivo e universal. Essas "marcas" de ser judeu podem ser vistas como "separadores" sociais, e eram muito conhecidas na sociedade romana. Encontramos escritores romanos que atacam os judeus e os desprezam, mas também outros que os admiram e até adotam alguns de seus costumes' Há fortes indícios de que uma quantidade significativa de não judeus foi atraída para o judaísmo e até freqüentava sinagogas por todo o mundo romano. Para tanto, não era necessário converter-se formalmente e tornar-se judeu, embora isso também pudesse ser feito. Não judeus que abandonavam os "ídolos" pelo "Deus verdadeiro e vivo" e observavam as proibições de roubar, matar e praticar imoralidade sexual eram considerados "gentios íntegros" ou "tementes a Deus". Vários grupos judaicos divergiam radicalmente em atitudes relativas a não judeus, indo desde a exclusão e separação até o acolhimento cordial.
Acho seguro presumir que a minúscula aldeia de Nazaré tivesse poucos, ou nenhum, residentes não judeus, embora na vizinha Séforis o contato com não judeus fosse diário. Jesus parece ter sido afável com os estrangeiros, e podemos presumir que isso resultou de suas experiências ao crescer. Ele não era nem provinciano, nem separatista em suas atitudes. Parecia detestar o estabelecimento romano e seus colaboradores judeus, embora ao mesmo tempo aceitando indivíduos que considerava espiritualmente dignos. Se seu pai biológico fosse romano, ou tivesse se tornado romano, isso talvez explicasse melhor sua receptividade.
Se, realmente, Nazaré era uma aldeia que recebeu seu nome por concentrar clãs ou famílias que podiam reivindicar descendência da linhagem real do rei Davi, temos de imaginar o que isso implicaria quanto ao fato de Jesus ter crescido lá. Quando voltou para casa como adulto, tendo alcançado alguma reputação devido a suas atividades como pregador e curador, seus conterrâneos, de modo geral, parecem ter zombado da ideia de que Jesus tinha algum papel profético especial. Seu famoso gracejo de que "os profetas só não são honrados em sua cidade natal, entre seus parentes e em sua própria casa" pode bem indicar um certo isolamento social que sofreu, mesmo ao crescer. Sua honrosa descendência de Davi, por parte de mãe, provavelmente era menosprezada pelos habitantes locais, que conheciam a história de seu nascimento ilegítimo, para não falar de sua falta de status econômico, por ser um tekton. Mesmo em sua "própria casa" parece que Jesus foi alvo de uma reação cética quando veio a acreditar que era o eleito de Deus e destinado ao trono de Israel.
Pertencer à linhagem de Davi era uma coisa, mas iniciar um programa específico de implementação era outra bem diferente. Era tão tolo quanto perigoso. Além dessas observações gerais quanto à vida de aldeia em uma cidade pequena, como Nazaré, haveria mais alguma coisa a dizer ao tentarmos resolver a questão de que tipo de judeu Jesus era? Seria ele um membro "de carteirinha" de algum dos grupos judaicos de seu tempo?

Classificando Jesus
Josefo, nossa testemunha judaica contemporânea do século I, conta que havia três seitas ou "filosofias" principais do judaísmo: fariseus, saduceus e essênios.(Sua principal descrição está em Jewish War 2.119-66; ele faz uma recapitulação em sua obra posterior Antiquities 18.11-25)
Em um determinado ponto, explica que havia uma "quarta filosofia" fundada por Judas, o Galileu, seguida pelos assim chamados zelotes, mas diz que suas ideias religiosas eram muito semelhantes às dos fariseus. Ele diz que pertence aos fariseus, embora quando mais moço talvez tivesse passado um tempo com os essênios.
Josefo escrevia para um público romano sofisticado e pretende apresentar seus compatriotas sob o melhor aspecto possível. Quando estourou a grande Revolta Judaica contra os romanos, em 66 d.C., Josefo, que só tinha cerca de trinta anos, serviu como líder militar das forças judaicas na Galileia. Logo percebeu a impossibilidade da luta e rendeu-se aos romanos. O general romano Vespasiano e seu filho, Tito, que conduziam a campanha na Palestina, favoreceram-no. Vespasiano sagrou-se imperador em 69 d.C. Josefo acabou morando em Roma, tornou-se cidadão romano, recebeu uma pensão imperial e escreveu suas memórias no antigo palácio de Vespasiano. A essa altura, Jerusalém estava em ruínas, e as forças judaicas tinham sido totalmente dizimadas. Josefo queria reabilitar a reputação de seu povo. Apresentou os judeus como uma nação antiga, com tradições e leis honrosas. Culpou pela revolta o fanatismo mal orientado e os ciúmes fratricidas entre uma minoria do povo. Quando descreveu as quatro seitas religiosas do judaísmo, propositadamente chamou-as de "filosofias". As "seitas" judaicas de Josefo muito se assemelham às "escolas" filosóficas do mundo grego, quer platônica, estóica, pitagórica ou epicurista. A impressão que Josefo queria dar era de que o povo judeu, longe de ser um elemento atrasado e rebelde da sociedade romana, era uma raça antiga, com tradições veneráveis e respeitáveis escolas de pensamento religioso.
Chegou mesmo a descrever as crenças das três escolas principais de tal maneira que seus leitores cultos igualariam os saduceus aos epicuristas, os fariseus aos estóicos, e os essênios aos platônicos ou, talvez, aos pitagóricos. Considerando seus fins apologéticos, temos de usar o que diz com muita parcimônia.
Ele caracterizou os fariseus e saduceus em poucas linhas, principalmente contrastando suas ideias sobre "destino" e "vida após a morte". Disse que os fariseus enfatizavam que Deus controlava tudo e que eles acreditavam na vida após a morte e na sentença eterna das almas dos mortos. Os saduceus, por outro lado, negavam uma "vida após a morte" e enfatizavam a vida neste mundo. Não acreditavam que Deus controla tudo, mas que os seres humanos escolhem livremente entre o bem e o mal e são adequadamente recompensados. Josefo afirmava que os fariseus eram muito mais populares entre o povo e se integravam nas comunidades locais, enquanto os saduceus eram elitistas e aristocráticos.
A descrição básica de Josefo combina com o que sabemos a partir do Novo Testamento e de fontes judaicas posteriores. Os saduceus vinham sobretudo das classes sacerdotais. O sumo sacerdote, endossado politicamente pelos romanos, era escolhido de suas fileiras. Por conseqüência, detinham o controle principal do Templo de Jerusalém, que era o ponto de foco do judaísmo do mundo inteiro, e dominavam o Sinédrio, um tipo de "conselho" ou "senado" judaico ao qual os romanos permitiam alguma autoridade limitada. A interpretação saduceísta da Lei Judaica tendia a ser mais severa e mais rígida do que a dos fariseus, e sua concentração "neste mundo" em vez de "no mundo por vir" tornava-os céticos quanto a assuntos relativos ao mundo celestial, quer se tratasse de anjos, demônios, ressurreição dos mortos ou eventos associados ao fim dos tempos. Os fariseus, por outro lado, especulavam livremente sobre tais questões. Sua interpretação da Lei Judaica era mais liberal e aberta a mudanças. Embora houvesse uma ala mais rigidamente conservadora dos fariseus, liderada pelo rabino Shammai, do século I, seu rival, rabino Hillel, parecia ter mais influência. Costuma-se pensar em Jesus como inimigo ferrenho de todos os fariseus, quando, na verdade, muitas de suas opiniões sobre a Lei Judaica refletem as posições mais transigentes do rabino HilleL Tanto Hillel quanto Jesus enfatizavam o "amor ao próximo" como fundamental e citavam a "Regra de Ouro" como um breve resumo da Torá e dos profetas. Mas, no final, foi uma coalizão de sacerdotes saduceus e seus partidários entre os fariseus que entregou Jesus ao governador romano Pôncio Pilatos.
Em contraste com seu breve esboço de fariseus e saduceus, Josefo dedicou muitas páginas a uma descrição detalhada e esmerada dos essênios, dos quais era evidentemente simpatizante. Contudo, parece que omitiu de propósito qualquer menção às expectativas apocalípticas radicais deles, que certamente não seriam apreciadas pelos romanos depois da Revolta Judaica. Como já vimos, os essênios que escreveram os Manuscritos do Mar Morto esperavam o fim do mundo e aguardavam a chegada de dois messias — uma figura sacerdotal e um rei descendente de Davi. Eram intensamente anti-romanos e detestavam o estabelecimento religioso jiKlaico de Jerusalém, fosse fariseu ou saduceu, como comprometido e corrupto por completo. Os essênios intitulavam-se o povo da "Nova Aliança", acreditando que fossem representantes de uma Israel novamente purificada no fim dos tempos. Praticavam a vida em comunidade, ritos de iniciação que envolviam imersão ou batismo, e refeições sagradas. Curiosamente, os essênios nunca são mencionados no Novo Testamento, enquanto os fariseus e saduceus aparecem sempre em oposição a Jesus. Jesus compartilhava de algumas importantes crenças e práticas dos essênios, mas, a julgar pelos Manuscritos do Mar Morto, teria sido condenado e desprezado pelo núcleo de liderança dos essênios, devido à sua atitude aberta em relação aos gentios e às mulheres, e sua atitude em relação à observância do sabbath e à pureza ritual, bem menos rigorosa que a deles. Mas o que não devemos presumir é que todos os essênios, ou mesmo aqueles mais vagamente filiados à sua maneira de pensar, teriam compartilhado daquela rígida interpretação da Lei Judaica.
O judaísmo na Palestina romana do século I era incrivelmente diversificado. O problema das categorias de Josefo é que dão a impressão de que a maioria dos judeus era formalmente filiada a um desses grupos principais. É fácil pensarmos neles como semelhantes às modernas denominações religiosas, como batista, católico ou judeu reformado. Sabemos que não é esse o caso. Estimativas da população judaica da Palestina variam muito entre os especialistas, mas ficam entre um e três milhões. Josefo diz que havia apenas 6.000 fariseus e mais de 4.000 essênios. Filo, outro escritor judeu do século I, também calcula 4.000 essênios. Representam categorias gerais de filosofia ou pensamento religioso que apenas um punhado da elite ou dos eruditos poderia adotar como rótulos formais. E cada grupo, como seria de esperar, tinha uma história complexa e uma gama de opiniões que iam de liberais até conservadoras. Embora muitos tenham tentado situar Jesus em uma ou outra dessas "escolas" de judaísmo, tal categorização é questionável. Jesus teria crescidoconhecendo cada uma delas. Não é provável que houvesse muitos saduceus em Nazaré, mas provavelmente havia fariseus e essênios. Josefo diz que os essênios se estabeleceram em todas as cidades, e que os fariseus eram os mais influentes sobre as populações locais. Os evangelhos parecem indicar que os fariseus que moravam na Galileia eram amplamente dispersos, e Jesus os encontra com freqüência.
O movimento finalmente formado por Jesus tinha atrativos para aqueles que se identificavam com qualquer uma dessas filosofias de judaísmo. O irmão mais moço de Jesus era conhecido como Simão, o Zelote. Tornou-se parte do Conselho dos Doze Apóstolos. E, no final, os romanos crucificaram Jesus por sedição — sua alegação de que era o legítimo Rei dos Judeus. Como tal, ele se junta a um elenco de tipos zelotes, desde Judas, o Galileu, até Bar Kochba, um "messias" afinal esmagado pelos romanos em 135 d.C. Jesus teve sua parte de simpatizantes mesmo entre os fariseus. Na verdade, dois membros daquele conselho tiveram influência bastante sobre Pôncio Pilatos, o governador romano da Judeia, para que o corpo de Jesus fosse entregue a seus cuidados para ser enterrado. Finalmente, sob os 33 anos do reinado dinástico de Tiago, irmão de Jesus, grandes quantidades de fariseus se identificaram com o movimento iniciado por João Batista e Jesus.(Consulte Atos 15:5; 21:20) Por surpreendente que pareça a ouvidos modernos, havia, de fato, fariseus nazarenos ou "cristãos" — e muitos. Também ouvimos de Lucas que "numerosos" sacerdotes saduceus em Jerusalém aderiram ao movimento, embora Jesus pareça ter muito pouco em comum com os saduceus (Atos 6:7). E Tiago, irmão de Jesus, começa a exercer certas funções sacerdotais messiânicas com permissão e apoio deles. Embora os essênios tivessem interpretação muito mais rígida da Torá que Jesus, certamente haveria alguns que se identificavam com a excitação apocalíptica que João Batista e Jesus começaram a provocar no país todo.
Em termos gerais, Jesus se identifica mais com o que se descreveria como o movimento messiânico da Palestina do século I. Esse movimento era intensamente apocalíptico, e embora compartilhasse certas ideias com os essênios, tinha um apelo mais amplo para a plebe judaica de todas as seitas, unida na esperança da libertação por Deus. Quando compreendermos a história, os valores centrais e o mundo mitológico desse movimento, seremos capazes de situar Jesus adequadamente dentro dessa diversidade incrível do judaísmo palestino do século I. Havia judeus que se sentiam à vontade em seu mundo social e político, aceitando o status quo, mesmo se ditado por Roma, vivendo da melhor forma possível. Mas haviaoutros, fossem fariseus, saduceus ou essênios, ou mesmo sem filiação alguma, que esperavam uma mudança radical baseada nas previsões messiânicas dos profetas hebreus. O importante não são os rótulos, mas uma certa visão da realidade — uma crença de que Deus interviria para cumprir essas previsões messiânicas. Jesus não originou esse movimento; na verdade, ele começou a se formar duzentos anos antes do nascimento de Jesus. Mas foi Jesus, seu parente João Batista, e seu irmão Tiago que deram a ele a forma definitiva que mudou o curso da história. Em algum momento, antes de completar trinta anos, Jesus começou a formular seu plano. Sem dúvida, houve etapas no caminho. Mas no outono do ano 26 d.C., ele está pronto para tornar públicas suas ideias, e a dinastia de Jesus começa a surgir.

(James Tabor - A dinastia de Jesus)

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A Leucemia linfoide aguda (LLA), doença que estava sendo analisada, é um câncer de progressão rápida que ataca os linfócitos, as células brancas do sangue. É extremamente agressiva, com poucas chances de melhora.
Os cientistas de Stanford, para entender melhor esse câncer, analisavam células comprometidas e, para que a pesquisa seguisse, tentavam mantê-las vivas. Em uma dessas tentativas eles notaram que as células começaram a mudar de tamanho, adotando as características de um macrófago: uma célula branca responsável por processar corpos estranhos no sangue, ou células defeituosas.
Agora o objetivo é analisar se essa conversão é viável clinicamente, dentro do corpo de um paciente.

(Revista Galileu)

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