Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Evolução de Plantas e de Animais

por Thynus, em 29.11.14
 
A evolução de plantas e de animais a partir do microcosmo processou-se por meio de uma sucessão de simbioses, nas quais as invenções bacterianas provenientes dos dois bilhões de anos anteriores combinaram-se em expressões infindáveis de criatividade, até que formas viáveis fossem selecionadas para sobreviver. Esse processo evolutivo é caracterizado por uma crescente especialização — das organelas, nos primeiros eucariotes, até as células altamente especializadas, nos animais.
Um aspecto importante da especialização celular é a invenção da reprodução sexual, que ocorreu cerca de um bilhão de anos atrás. Tendemos a pensar que o sexo e a reprodução estão estreitamente associados, mas Margulis assinala que a complexa dança da reprodução sexual consiste em vários componentes distintos que evoluíram independentemente e só pouco a pouco se tornaram interligados e unificados.(Margulis e Sagan (1986), pp. 155ss)
O primeiro componente é um tipo de divisão celular, denominada meiose ("diminuição"), na qual o número de cromossomos no núcleo é reduzido exatamente pela metade. Isso cria células-ovo e células espermáticas especializadas. Essas células são, a seguir, fundidas no ato da fertilização, no qual o número normal de cromossomos é restaurado, e uma nova célula, o ovo fertilizado, é criada. Então, essa célula se divide repetidamente no crescimento e no desenvolvimento de um organismo multicelular.
A fusão de material genético proveniente de duas células diferentes está difundida entre as bactérias, onde ocorre como um contínuo intercâmbio de genes que não está ligado à reprodução. Nas plantas e nos animais primitivos, a reprodução e a fusão de genes se ligaram e, subseqüentemente, evoluíram em processos elaborados e em rituais de fertilização. O gênero, ou sexo, foi um aprimoramento posterior. As primeiras células germinais — esperma e ovo — eram quase idênticas, mas, ao longo do tempo, evoluíram em pequenas células espermáticas de movimento rápido e em grandes ovos sem movimento. A ligação entre fertilização e formação de embriões surgiu ainda mais tarde na evolução dos animais. No mundo das plantas, a fertilização levou a intrincados padrões de co-evolução de flores, de insetos e de pássaros.
À medida que a especialização das células prosseguiu em formas de vida maiores e mais complexas, a capacidade de auto-restauração e de regeneração diminuiu progressivamente. Os platelmintos, os pólipos e as estrelas-do-mar podem regenerar quase todo o seu corpo a partir de pequenas frações; lagartos, salamandras, caranguejos, lagostas e muitos insetos ainda são capazes de fazer voltar a crescer órgãos ou membros perdidos; porém, nos animais superiores, a regeneração está limitada à renovação de tecidos na cura de lesões. Como conseqüência dessa perda de capacidade de regeneração, todos os organismos grandes envelhecem e finalmente morrem. No entanto, com a reprodução sexual, a vida inventou um novo tipo de processo de regeneração, no qual organismos inteiros são formados de novo repetidas vezes, retornando, em cada "geração", a uma única célula nucleada.
Plantas e animais não são as únicas criaturas multicelulares do mundo vivo. Como outras características dos organismos vivos, a multicelularidade evoluiu muitas vezes em muitas linhagens de vida, e ainda existem hoje vários tipos de bactérias multicelulares e muitos protistas (microorganismos com células nucleadas) multicelulares. À semelhança dos animais e das plantas, esses organismos multicelulares, em sua maioria, são formados por sucessivas divisões celulares, mas algumas podem ser geradas por uma agregação de células vindas de diferentes fontes, mas da mesma espécie.
Um exemplo espetacular dessas agregações é o mixomiceto, um organismo macroscópico mas que, tecnicamente, é um protista. O mixomiceto tem um ciclo de vida complexo envolvendo uma fase móvel (zoomórfica) e uma imóvel (fitomórfica). Na fase zoomórfica, ele começa como uma multidão de células isoladas, comumente encontradas em florestas sob troncos apodrecidos e folhas úmidas, onde se alimentam de outros microorganismos e de vegetais em decomposição. As células, com freqüência, comem tanto e se dividem tão depressa que esgotam todo o suprimento alimentício de seu meio ambiente. Quando isso acontece, elas se agregam numa massa coesa de milhares de células, que se assemelha a uma lesma e é capaz de se arrastar pelo chão da floresta em movimentos parecidos com os de uma ameba. Ao encontrar uma nova fonte de alimentos, o mixomiceto entra em sua fase fitomórfica, desenvolvendo um caule com um corpo de frutificação que se parece muito com um cogumelo. Finalmente, a cápsula do fruto explode, projetando milhares de esporos secos dos quais nascem novas células individuais, que se movem independentemente pelas imediações à procura de alimentos, iniciando um novo ciclo de vida.
Dentre as muitas organizações multicelulares que evoluíram a partir de comunidades de microorganismos estreitamente entrelaçados, três delas — plantas, fungos e animais — foram tão bem-sucedidas em se reproduzir, em se diversificar e se expandir ao longo da Terra que são classificadas pelos biólogos como "reinos", a categoria mais ampla de organismos vivos. Ao todo, há cinco desses reinos — bactérias (microorganismos sem núcleos celulares), protistas (microorganismos com células nucleadas), plantas, fungos e animais.(Veja Margulis, Schwartz e Dolan -1994) Cada um desses reinos é dividido numa hierarquia de subcategorias, ou taxa, começando com phylum e terminando com genus especies.
A teoria da simbiogênese permitiu a Lynn Margulis e seus colaboradores basear a classificação de organismos vivos em claras relações evolutivas.
(...) Quando seguimos a evolução de plantas e de animais, encontramo-nos no macrocosmo e temos de mudar nossa escala de tempo de bilhões para milhões de anos.
Os primeiros animais evoluíram por volta de 700 milhões de anos atrás, e as primeiras plantas emergiram cerca de 200 milhões de anos mais tarde. Ambos evoluíram primeiro na água e chegaram à terra firme entre 400 e 450 milhões de anos, sendo que as plantas precederam em vários milhões de anos a chegada dos animais em terra. Plantas e animais desenvolveram enormes organismos multicelulares, mas, enquanto a comunicação intercelular é mínima nas plantas, as células animais são altamente especializadas e estreitamente interligadas por vários laços elaborados. Sua  coordenação e seu controle mútuos foram grandemente aumentados pela criação, muito antiga, dos sistemas nervosos, e por volta de 620 milhões de anos atrás, ocorreu a evolução de minúsculos cérebros animais.
Os ancestrais das plantas eram massas filamentosas de algas que habitavam águas rasas iluminadas pelo Sol. Ocasionalmente, seus habitats secavam e, por fim, algumas algas conseguiram sobreviver, reproduzindo-se e se convertendo em plantas. Essas plantas primitivas, semelhantes aos musgos atuais, não tinham caules nem folhas. Para sobreviver em terra, era de importância crucial para elas desenvolver estruturas vigorosas que não desabassem nem secassem. Conseguiram isso criando a lignina, um material para as paredes celulares que permitiu às plantas desenvolverem caules e ramos fortes, bem como sistemas vasculares que, com as raízes, puxavam a água para cima.
O principal desafio do novo meio ambiente em terra era a escassez de água. A resposta criativa das plantas consistiu em encerrar seus embriões em sementes protetoras, resistentes à seca, de modo que pudessem manter latente o seu desenvolvimento até que se encontrassem num ambiente apropriadamente úmido.
Durante mais de 100 milhões de anos, enquanto os primeiros animais terrestres, os anfíbios, evoluíram em répteis e em dinossauros, luxuriantes florestas tropicais de "samambaias de sementes" — árvores que produziam sementes e se assemelhavam a gigantescas samambaias — cobriam grandes porções da Terra.
Cerca de 200 milhões de anos atrás, apareceram geleiras em vários continentes, e as samambaias de sementes não puderam sobreviver aos invernos longos e gelados. Foram substituídos por coníferas sempre verdes, semelhantes aos pinheiros e aos abetos vermelhos de nossos dias, cuja maior resistência ao frio lhes permitiu sobreviver aos invernos, e até mesmo se expandir em direção às regiões alpinas mais elevadas. Cem milhões de anos mais tarde começaram a aparecer plantas com flores, cujas sementes estavam encerradas em frutos.
Desde o princípio, essas novas plantas com flores co-evoluíram com os animais, que se deleitavam em comer seus frutos nutritivos e, em troca, disseminavam suas sementes indigestas. Esses arranjos cooperativos têm continuado a se desenvolver e agora também incluem os cultivadores humanos, que não apenas distribuem as sementes das plantas, mas também clonam plantas sem sementes tendo em vista os seus frutos.
Como observam Margulis e Sagan: "As plantas, de fato, parecem muito competentes em seduzir a nós, animais, persuadindo-nos a fazer para elas uma das poucas coisas que podemos fazer e que elas não podem: mover-se."(Margulis.e Sagan (1986), p. 174)

Conquistando a Terra
Os primeiros animais evoluíram na água a partir de massas de células globulares e vermiformes. Eles ainda eram muito pequenos, mas alguns formavam comunidades que construíam, coletivamente, imensos recifes de coral com seus depósitos de cálcio.
Carecendo de quaisquer partes rígidas ou de esqueletos internos, os animais primitivos desintegravam-se completamente ao morrerem, mas, cerca de um milhão de anos mais tarde, seus descendentes produziram uma profusão de primorosas conchas e esqueletos que deixaram claras marcas em fósseis bem-preservados.
Para os animais, a adaptação à vida em terra foi uma façanha evolutiva de proporções vertiginosas, que exigiu mudanças drásticas em todos os sistemas de órgãos.
O maior problema na ausência de água era, naturalmente, a dessecação; mas havia igualmente uma multidão de outros problemas. A quantidade de oxigênio era imensamente maior na atmosfera do que nos oceanos, o que exigia diferentes órgãos para respirar; diferentes tipos de pele eram necessários para a proteção contra a luz solar não-filtrada; e músculos e ossos mais fortes foram necessários para se lidar com a gravidade, na ausência de poder de flutuação.
A fim de facilitar a transição para essas vizinhanças totalmente diferentes, os animais inventaram um estratagema bastante engenhoso. Eles levaram consigo, para os seus filhos, o seu antigo ambiente. Até hoje, o ütero animal simula a umidade, a flutuabilidade e a salinidade do velho meio ambiente marinho. Além disso, as concentrações salinas no sangue dos mamíferos e em outros de seus fluidos corporais são notavelmente semelhantes às dos oceanos. Saímos dos oceanos há mais de 400 milhões de anos, mas nunca deixamos completamente para trás a água do mar. Ainda a encontramos no nosso sangue, no nosso suor e nas nossas lágrimas.
Outra importante inovação que se tornou de importância vital para a vida na terra tem a ver com a regulação do cálcio. O cálcio desempenha um papel fundamental no metabolismo de todas as células nucleadas. Em particular, ele é fundamental para a operação dos músculos. Para esses processos metabólicos funcionarem, a quantidade de cálcio tem de ser mantida em níveis precisos, que são muito inferiores aos níveis de cálcio na água do mar. Portanto, os animais marinhos, desde o princípio, tinham de remover continuamente todo o excesso de cálcio. Os primeiros animais menores simplesmente excretavam seus resíduos de cálcio, às vezes amontoando-os em enormes recifes de coral. À medida que os animais maiores evoluíam, eles começaram a armazenar o cálcio em excesso ao seu redor e dentro deles, e esses depósitos finalmente se converteram em conchas e em esqueletos.
Assim como as bactérias azuis-verdes transformaram um poluente tóxico, o oxigênio, num ingrediente vital para sua evolução posterior, da mesma maneira os primeiros animais transformaram outro importante poluente, o cálcio, em materiais de construção para novas estruturas, que lhes deram tremendas vantagens seletivas.
Conchas e outras partes rígidas foram utilizadas para rechaçar predadores, enquanto esqueletos emergiram primeiramente em peixes, evoluindo, mais tarde, nas estruturas de apoio essenciais de todos os animais grandes.
Por volta de 580 milhões de anos atrás, no início do período Cambriano, havia tal profusão de fósseis, com belas e nítidas impressões de conchas, de peles rígidas e de esqueletos que os paleontólogos acreditaram, por longo tempo, que esses fósseis cambrianos marcassem o começo da vida. Às vezes, eram vistos até mesmo como registros dos primeiros atos da criação de Deus. Foi somente nas três últimas décadas que os traços do microcosmo se revelaram nos assim-chamados fósseis químicos.(Ibid., p. 73)
Esses fósseis mostram, de maneira conclusiva, que as origens da vida predatam o período Cambriano em quase três bilhões de anos.
Experimentos sobre evolução com depósitos de cálcio levaram a uma grande diversidade de formas — "seringas do mar" tubulares, com espinhas dorsais mas sem ossos, criaturas semelhantes a peixes, com couraças externas mas sem mandíbulas, peixes pulmonados que respiravam tanto na água como no ar, e muitas mais. As primeiras criaturas vertebradas com espinhas dorsais e um escudo craniano para proteger o sistema nervoso evoluíram, provavelmente, por volta de 500 milhões de anos atrás. Entre elas estava uma linhagem de peixes pulmonados, com barbatanas espessas, maxilares e uma cabeça semelhante à dos sapos, que rastejava ao longo das praias e acabou evoluindo nos primeiros anfíbios Estes — rãs, sapos, salamandras e outros anfíbios aparentados às salamandras — constituem o elo evolutivo entre animais aquáticos e terrestres. São os primeiros vertebrados terrestres, mas ainda hoje começam seu ciclo vital como girinos, que respiram na água.
Os primeiros insetos vieram à praia na mesma época que os anfíbios, e podem até mesmo ter encorajado alguns peixes a lhes dar alimento e a seguirem-nos para fora da água. Em terra, os insetos explodiram numa enorme variedade de espécies. Seu pequeno tamanho e suas altas taxas de reprodução lhes permitiam adaptar-se a quase qualquer meio ambiente, desenvolvendo uma fabulosa diversidade de estruturas somáticas e de modos de vida. Atualmente, há cerca de 750.000 espécies conhecidas de insetos, três vezes mais do que todas as outras espécies animais juntas.
Durante os 150 milhões de anos depois de deixarem o mar, os anfíbios evoluíram em répteis, dotados de várias fortes vantagens seletivas — poderosas mandíbulas, pele resistente à seca e, o que é mais importante, um novo tipo de ovos. Como os mamíferos fariam com seus úteros mais tarde, os répteis encapsularam o antigo ambiente marinho em grandes ovos, nos quais sua prole poderia se preparar plenamente para passar todo o seu ciclo de vida em terra. Com essas inovações, os répteis, rapidamente, conquistaram a terra e evoluíram em numerosas variedades. Os muitos tipos de lagartos que ainda existem hoje, incluindo as cobras, sem membros, são descendentes desses répteis antigos.
Enquanto a primeira linhagem de peixes rastejava para fora da água e se convertia em anfíbios, arbustos e árvores já estavam vicejando em terra, e quando os anfíbios evoluíram em répteis, eles viveram em luxuriantes florestas tropicais. Ao mesmo tempo, um terceiro tipo de organismo multicelular, os fungos, chegou às praias. Os fungos são fitomorfos e, não obstante, tão diferentes das plantas que são classificados como um reino separado, que exibe toda uma variedade de propriedades fascinantes.(Veja Margulis e Sagan (1995), pp. 140ss) Eles carecem de clorofila verde para a fotossíntese e não comem nem digerem, mas absorvem diretamente seus nutrientes, como substâncias químicas. Diferentemente das plantas, os fungos não têm sistemas vasculares para formar raízes, caules e folhas. Têm células muito diferenciadas, que podem conter vários núcleos e estão separadas por delgadas paredes, através das quais o fluido celular pode fluir facilmente.
Os fungos emergiram há mais de 300 milhões de anos e se expandiram em estreita co-evolução com as plantas. Praticamente todas as plantas que crescem no solo contam com minúsculos fungos em suas raízes para a absorção do nitrogênio. Numa floresta, as raízes de todas as árvores estão interconectadas por uma extensa rede fúngica, que, ocasionalmente, emerge da terra sob a forma de cogumelos. Sem os fungos, as florestas tropicais primitivas poderiam não ter existido.
Trinta milhões de anos após o aparecimento dos primeiros répteis, uma de suas linhagens evoluiu em dinossauros (termo grego que significa "lagartos terríveis"), que parecem exercer incessante fascínio sobre os seres humanos de todas as eras. Chegaram numa grande variedade de tamanhos e de formas. Alguns tinham couraças corporais e bicos córneos, como as modernas tartarugas, ou tinham chifres. Alguns eram herbívoros, outros eram carnívoros. Como os outros répteis, os dinossauros eram animais que punham ovos. Muitos construíam ninhos, e alguns até mesmo desenvolveram asas e, finalmente, por volta de 150 milhões de anos atrás, evoluíram em pássaros.
Na época dos dinossauros, a expansão dos répteis estava em plena atividade. A terra e as águas eram povoadas por cobras, lagartos e tartarugas marinhas, bem como por serpentes marinhas e por várias espécies de dinossauros. Por volta de 70 milhões de anos atrás, os dinossauros e muitas outras espécies desapareceram de súbito, muito provavelmente devido ao impacto de um meteorito gigantesco medindo cerca de 11 quilômetros de lado a lado. A explosão catastrófica gerou uma enorme nuvem de poeira, que bloqueou a luz do Sol durante um prolongado período e, drasticamente, mudou os padrões meteorológicos em todo o mundo, e por isso os enormes dinossauros não puderam sobreviver.

(Fritjof Capra - A TEIA DA VIDA)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:35


Acima da necessidade universal e existencial de união (entre o homem e a mulher) ergue-se outra, mais específica, biológica: o desejo de união entre os pólos masculino e feminino. A idéia dessa polarização é mais fortemente manifestada no mito de que, originalmente o homem e a mulher eram um só, de que foram partidos ao meio e, de então em diante, cada ser masculino vem procurando a perdida parte feminina de si mesmo, a fim de voltar a unir-se com ela. (A mesma idéia da unidade original dos sexos está contida na história Bíblica de Eva feita da costela de Adão, embora nessa história, no espírito do patriarcalismo, a mulher seja considerada secundária em relação ao homem.) A significação do mito é bastante clara.
A polarização sexual leva o homem a procurar a união de maneira específica, a da união com o outro sexo. A polaridade entre os princípios masculino e feminino existe também dentro de cada homem e cada mulher. Assim como, fisiologicamente, o homem e a mulher têm, cada qual, hormônios do sexo oposto, também no sentido psicológico são ambos bissexuais. Levam em si mesmos o princípio de receber e de penetrar, da matéria e do espírito. O homem, tal como a mulher, só encontra união dentro de si na união de sua polaridade masculina e feminina. Essa polaridade é a base de toda criatividade.
A polaridade masculino-feminina é também a base da criatividade interpessoal. Isto se torna biològicamente evidente no fato de ser a união do esperma e do ovo a base do nascimento de uma criança. Não há diferença, entretanto, no reino puramente psíquico: no amor entre homem e mulher, cada um deles toma a nascer. (O desvio homossexual é o fracasso em atingir essa união polarizada, e por isso o homossexual sofre a dor da separação ,nunca solucionada, fracasso, entretanto, de que com ele compartilha o heterossexual comum que não consegue amar.)
A mesma polaridade dos princípios masculino e feminino existe na natureza; não só, como é evidente, em animais e planta, mas na polaridade das duas funções fundamentais, a de receber e a de penetrar. É a polaridade da terra e da chuva, do rio e do oceano, da noite e do dia, da escuridão e da luz da matéria e do espírito. Tal idéia foi belamente expressa pelo grande poeta e místico muçulmano Rumi:

Nunca, em verdade, procura o amante sem ser buscado pelo ente amado.
Quando o raio do amor se atirou neste coração, sabe que existe amor naquele coração.
Quando o amor de Deus cresce em teu coração, sem dúvida alguma Deus tem amor por ti.
Nenhum som de palmas vem de uma só mão sem a outra mão.
A Divina Sabedoria é destino e decreto que nos fazem amantes uns dos outros.
Por este pré-ordenamento, cada parte do mundo se acasala com seu par.
Ao olhar dos sábios, o Céu é homem e a Terra é mulher: a Terra cria o que o Céu deixa cair.
Quando à Terra falta calor o Céu o envia; quando  ela perde seu frescor e umidade, o Céu os restaura.
Anda o Céu às voltas como um marido a buscar provisões para a esposa; 

E a Terra se atarefa com as coisas de casa: cuida dos nascimentos e de amamentar aquilo que dá à luz. Olha a Terra e o Céu como dotados de inteligência, pois fazem o trabalho de seres inteligentes. Se ambos não extraem prazer um do outro, por que então se adulam mutuamente como namorados? Sem a Terra, como poderiam as árvores florir?
Para que, então produziria o Céu água e calor? Assim como Deus colocou o desejo no homem e na mulher, para que o mundo seja preservado por sua união. Também implantou em cada parte da existência o desejo da outra parte. Dia e Noite são inimigos externamente; contudo, ambos servem a uma finalidade. Cada qual ama o outro, a fim de aperfeiçoar sua obra mútua. Sem a Noite, a natureza do homem não receberia qualquer rendimento e nada haveria para que o Dia gastasse.

(R. A. NICHOLSON, Rumi, George Allen and Unwin, Ltd., Londres, 1950, págs. 122-123.)

(Erich Fromm -  A Arte de Amar)
Em cada homem esconde-se uma mulher e em cada mulher, um homem

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:26

"Como é enorme essa gota de sémen de que nascemos, que traz dentro
de si todas as impressões, não apenas da forma física, mas também dos
pensamentos e inclinações de nossos antepassados. Onde consegue
essa gota alojar tão imenso número de formas?"

Montaigne
 
Do homem ao super-homem
OS PRÊMIOS NOBEL DO ANO DE 1962 destacaram nitidamente uma época na história mais recente da humanidade. Dois dos prémios, o de química, concedido aos ingleses Max Perutz e John Kendrew, e o de medicina, outorgado a dois outros ingleses, Francis Crick e Maurice Wilkins, bem como ao americano J. D. Watson, permitem reconhecer a importância adquirida por uma nova ciência a biologia molecular. Talvez seja esta a mais importante de todas as ciências, pois ela poderia um dia nos dar filhos exatamente segundo nossos desejos, com qualidades físicas, intelectuais e psíquicas previamente fixadas, pequenos ou grandes, com vocação para a música ou para a matemática, impetuosos ou circunspectos, esportivos ou quietos e contemplativos.
A biologia molecular abre-nos também a perspectiva de um dia termos filhos que serão melhores, mais inteligentes e mais capazes do que nós, de finalmente se conseguir, por meio de uma mutação controlada, criar uma humanidade melhor, uma espécie de super-homem no bom sentido.
Um fato, porém, não deve ser silenciado: esta ciência também encerra possibilidades horríveis, das quais a tragédia do Conter-gan(*) apenas nos transmite uma fraca ideia. Se a ditadura voltasse a dominar, um futuro Hitler poderia formar gerações ulteriores segundo sua vontade, eternizando assim sua tirania. Até agora nenhuma ciência proporcionou poder tão perigoso. Pela primeira vez será possível influenciar, modificar e amoldar intimamente o corpo e o espírito de nossos descendentes.
Pode-se definir 1936 como o ano do nascimento da biologia molecular. Naquele ano, o estudante austríaco Max Perutz foi à Inglaterra para tomar parte em trabalhos de pesquisa. Seu pai lhe dava 500 libras estrelinas por ano para sua subsistência. Quando a Áustria foi ocupada por tropas alemãs e anexada ao Reich, Perutz viu-se cortado de sua fonte de subsistência. No início, o Ministério do Trabalho inglês quis expulsá-lo. No entanto, Perutz conseguiu pouco depois uma bolsa da Fundação Rockefeller no montante de 275 libras. Concebera um plano ambicioso. Queria investigar, com o auxílio de raios X, como são constituídas as gigantescas moléculas da substância viva. Para tão grandioso projeto, porém, seus recursos eram muito limitados; levou assim vários anos até juntar o dinheiro para adquirir a instalação indispensável para analisar filmes de raios X. Só em 1947 o Dr. Perutz e seu assistente, Dr. John Kendrew, com quem mais tarde iria partilhar o Prémio Nobel, tinham montado algo como um laboratório próprio. Ficava localizado num barracão, num pátio empoeirado, em Cambridge. Só recentemente saíram desse laboratório. Com um equipamento igual ao que, nos romances de ficção científica, a imaginação do escritor inventa para dar a sábios sem recursos, conseguiram pesquisar a estrutura da mioglobina, complicada albumina que se encontra nos músculos. Finalmente a mioglobina revelou-se como sendo uma espécie de nó no espaço. Mais tarde pôde ser investigada também a estrutura da hemoglobina, a importante substância em nosso sangue, que conduz o oxigénio às células e aos tecidos: é como que um nó quádruplo. Conheceu-se assim a constituição das grandes moléculas da substância viva. Tendo alcançado tais resultados em suas pesquisas, o Dr. Perutz ideou um plano arrojado. Quis descobrir como são construídas as moléculas gigantes que atuam como portadores da hereditariedade.
 
Uma enciclopédia de mil volumes numa cabeça de espermatozóide
A escada de caracol da vida
A genética, ciência da hereditariedade, ainda não completara trinta anos de existência quando o Dr. Perutz e seu assistente decidiram arriscar-se a desvendar seu maior segredo. Já antes se calculara que a quantidade de dados necessários à descrição completa de um recém nascido encheria uma enciclopédia de mil volumes e apesar disso essa quantidade de dados está contida na cabeça de um único espermatozóide. Já se sabia que, na fecundação, quando o espermatozóide penetra no ovo e a divisão da célula começa, surgem no núcleo celular minúsculos filamentos: os cromossomos (chamados assim por aceitarem facilmente substâncias corantes). São tão minúsculos que vários milhões chegam a ter o tamanho de um grão de areia. A célula humana contém 46 cromossomos. Há um quarto de século sabia-se, com base em meticulosas experiências, que os cromossomos são os portadores da hereditariedade. Mais exatamente, são os genes, ainda menores, contidos nos cromossomos.
Pôde-se verificar que os cromossomos consistem essencialmente em uma composição química, o ácido desoxirribonucleico (ADN)({corresponde em língua alemã}). Este ácido transporta as informações que fazem as células do ovo fecundado organizarem-se num determinado ser vivo, de características individuais peculiares.
Sob que forma estão contidos esses dados? O Dr. Maurice Wilkins, do Kings College de Londres, teve a ideia de examinar, com o auxílio de raios X, a molécula de ADN segundo o método publicado por Perutz e Kendrew. Por um processo simples, produziu ele filamentos de ADN, empregando uma solução, tal como se fabrica nylon ou seda artificial. Wilkins efetuou então excelentes chapas de raios X, que se parecem com pinturas abstratas, de luz e sombras. Por meio de hipóteses geniais e cálculos pacientes, conseguiu ele descobrir a estrutura do ADN.
Wilkins comentou sua teoria com dois cientistas de Cambridge, Francis Crick e James D. Watson. Após longos debates, chegaram à convicção de que a molécula de ADN não tem forma de nó mas de escada de caracol, formando como que uma espiral, cujo corrimão é construído de açúcar (desoxirribose) e um pouco de fosfato, ao passo que os degraus se compõem de duas bases orgânicas, uma delas contendo apenas um anel de benzol e a outra contendo dois anéis. As duas bases, sempre formando um degrau, acham-se firmemente ligadas ao corrimão, mas sua ligação recíproca é muito fraca e pode facilmente ser desfeita.
Quando uma célula se divide, também nos degraus desta escada de caracol da vida ocorre uma bipartição. Os corrimões da escada se afastam um do outro e retiram das matérias que os rodeiam as substâncias necessárias à construção de uma nova escada completa.
Este é o segredo maravilhosamente simples da vida, finalmente descoberto. Quando se tornou conhecida a hipótese de Wilkins, Crick e Watson, o grande físico nuclear americano George calculou quantas possibilidades existem quando cada degrau da escada de caracol é construído de duas bases diferentes, partindo ele do conjunto das bases conhecidas. Isso foi no ano de 1955. De seus cálculos se deduziu que as peculiaridades de uma pessoa, das mais evidentes às mais ocultas, podem ser alojadas numa escada de caracol que contém várias centenas de milhares de degraus. A exatidão de sua hipótese foi confirmada por meio de experiências. A molécula ADN de um vírus de estrutura muito simples, o vírus T-4, contém cerca de 200 mil pares de bases orgânicas.
• Começaram os biologistas a suspeitar que os degraus da escada em caracol representam uma espécie de código e que cada combinação orgânica de bases podia dar início à produção de uma determinada proteína. Em outras palavras: o código na espiral da vida determinava qual seria o perfume de uma rosa ou que cor teria o cabelo de um recém-nascido.
Ulteriores pesquisas demonstraram que a vida se serve apenas de quatro bases: adenina, guanina, citosina e timina. Com essa» quatro bases do código genético formam-se entre os dois corrimões da espiral mágica os dados que levam à formação de um vírus ou de um homem, de um sáurio voador ou de um pardal.
Não é este o lugar indicado para nos determos a conjeturar como se teria formado, há dois ou três bilhões de anos, o primeiro código genético. Terá sido simplesmente o resultado de um acaso? Ou a obra de Deus? A ciência não pode responder a um por quê, só a um como.
Em todo caso, a informação genética existe. Veremos que ela está tão bem cifrada e protegida contra o risco de erros de decifração que se tornam necessários tóxicos muito ativos (como a talidoT mida) ou influências muito violentas (como bombardeio radioativo) para causar um desenvolvimento falho e fazer nascer um monstro.
 
Influência da matéria viva
Ainda não podemos inserir dados genéticos na espiral da vida, mas podemos tomar emprestados os dados de determinadas células e transferi-los a outras células. A mais extraordinária experiência deste tipo foi realizada nos Estados Unidos.
Células de origem humana introduzidas em solução nutritiva foram transformadas por dois cientistas americanos. Juntando-as com ácidos ribonudéicos obtidos de outras células humanas conservadas em solução nutritiva, modificaram uma peculiaridade genética dessas células.
A ciência conseguiu assim, pela primeira vez, modificar a substância hereditária humana. Até então só se arriscara a realizar tais experiências com bactérias e com determinados metazoários. Aduziu-se ADN obtido de bactérias a bactérias receptoras, que desta maneira adquiriram novas qualidades genéticas, qualidades estas que foram também transmitidas a descendentes. Tais mutações são de peculiar interesse, pois as bactérias modificadas puderam crescer num ambiente no qual antes não poderiam ter vivido.
Os cientistas americanos descobriram aí um mecanismo que, além da reprodução, é capaz de modificar a massa hereditária genética da célula de um mamífero, até mesmo de uma célula humana. Em sua comunicação à National Science Foundation os cientistas descrevem detalhadamente o decorrer de sua experiência.
Como pôde o ADN engastar-se no núcleo celular das bactérias receptoras? Sobre isso nada dizem os americanos; provavelmente ainda não puderam esclarecer esta questão. Mas experiências como esta já beiram um milagre. Que acontecerá quando um dia formos capazes de manipular a bel-prazer o código genético?
Mas voltemos à decifração deste código.
 
A língua secreta da vida: quatro letras e vinte palavras
Como se nos apresenta o problema? Para tornar claro o assunto, vamos recorrer a uma comparação. Vamos supor que todos os seres vivos correspondam a livros; são todos diferentes uns dos outros como, por exemplo, a Bíblia o é de um romance recreativo. No entanto, a analogia só vale se tivermos sempre em mente que existem livros idênticos, mas nunca dois seres vivos completamente iguais.
Livros se escrevem com palavras. Na língua secreta da vida existe um equivalente da palavra, uma molécula a que chamamos aminoácido. Tão extraordinário como desorientador é o fato de conhecer a língua da vida só vinte palavras. Todas as proteínas compõem-se de apenas vinte aminoácidos. Que lei misteriosa fixou tal número? Não o sabemos.
Todas as combinações possíveis com estas vinte palavras que determinam um ser vivo, da bactéria ao ser humano, estão registradas nos degraus da escada em caracol formados de outras bases (adenina, guanina, citosina e timina). Vamos designar as quatro bases dos degraus por suas iniciais, A, G, C e T. O sinal que manda a célula construir estes ou aqueles aminoácidos e a seguir esta ou aquela proteína, sempre se compõe de três destas quatro letras: ele parte de três degraus da espiral da vida. Portador deste complexo sinal é um único gene; este por conseguinte contém um dado cifrado de pelo menos 200 palavras (pois de tantos aminoácidos se compõe na média uma molécula individual). O número de genes que constitui um vírus pode ir de dez a várias centenas. As bactérias são na média constituídas por cerca de mil genes. O ponto de partida de uma célula humana corresponde a cerca de um milhão de genes. Todas as células humanas, quer sejam células musculares, quer de nervos, estão cifradas nas moléculas longas de ADN, nos 46 cromossomos.
Se o ADN de uma única célula humana pudesse ser distendido num só filamento, este teria quase 33 centímetros de comprimento. Este filamento de 33 centímetros de comprimento contém dados exatos, frequentemente repetidos, para a construção de cada um de nós, e se reproduz muitos bilhões de vezes, antes que um homem ou uma mulher tenham atingido a idade adulta.
Combinando-se cada vez só três das quatro letras A, G, C e T, obtêm-se, conforme o prova um cálculo simples, 64 combinações diferentes. Sessenta e quatro combinações, quando bastam vinte para formar os vinte aminoácidos da vida. Para a natureza, a diferença entre 20 e 64 constitui uma espécie de margem de segurança que lhe permite repetir as instruções até elas serem cumpridas sem erros.
A decifração do código genético equivale a conhecer os sinais que correspondem aos diversos aminoácidos. Damos a seguir a lista completa deles: alanina, arginina, asparagina, ácido de asparagina, cisteína, ácido glutâmico, glutamina, glicina, histidina, iso-leucina, leucina, lisina, metionina, fenilalanina, prolina, serina, treonina, triptofano, tirosina, valina.
Para poder decifrar completamente o código genético, dever-se-ia por conseguinte saber se, por exemplo, CCG corresponde à alanina ou CGC à arginina. Seja mencionado ainda que se trata aqui de combinações que se supõe sejam de fato compostas dessa maneira.
 
Nosso escasso saber
Ainda há dois anos parecia que a decifração do código genético superava as faculdades intelectuais do homem. Também hoje nenhuma solução direta foi ainda concretizada. Mesmo com o auxílio do microscópio eletrônico ou dos raios X não se consegue ler o que está escrito nos degraus da espiral da vida. É preciso abordar o problema por caminhos sinuosos, examinar o que se passa na célula. Põe-se então em jogo um certo ARN (ácido ribonucléico) e se observa se a proteína que se forma corresponde aos cálculos prévios.
Além de Watson, Wilkins e Crick, que apontaram o rumo a seguir, tantos cientistas se dedicaram a essas pesquisas que aqui é impossível citá-los todos pelo nome. Merece destaque Marshall W. Nirenbert, chefe da seção de genética bioquímica no Instituto Americano de Cardiologia. Nirenbert conseguiu estimular micróbios a produzirem proteínas, de que se sabe exatamente não só a constituição em aminoácidos, como também a forma de composição, isto é, a maneira em que os aminoácidos estão ordenados na cadeia que forma a molécula de proteína. Partindo dos próprios trabalhos e das pesquisas de François Jacob e Jacques Monod (ambos do Instituto Pasteur de Paris) conseguiu ele decifrar o código, apenas parcialmente, é verdade, mas de modo altamente plausível.
Essas pesquisas levaram até hoje aos seguintes resultados: cada aminoácido produzido pela célula corresponde, nos degraus da escada em caracol da vida, a um sinal composto de três iniciais (por conseguinte, a três das quatro bases que ao todo estão em jogo). Os sinais são emitidos sucessivamente, isto é, não combinados em um quadrado ou grade, ou segundo uma das estruturas das quais se utiliza a língua humana.
No entanto, nos degraus da escada também existem sinais que não correspondem a nenhum aminoácido a ser fabricado. Crick é de opinião que esses sinais nada significam. Segundo Nirenbert, designam o começo ou o fim de uma informação.
Pode-se modificar um elemento dos sinais acrescentando-se tóxicos à alimentação dos vírus ou bactérias, por exemplo, acridina. Possivelmente, o mecanismo que atua no caso seja o mesmo que, após ingestão de talidomida por gestantes, levou a deformações em recém nascidos; todavia, tal suposição não foi ainda comprovada.
Por meio de tais modificações, um grupo de colaboradores de Crick, Leslie Barnett, Sydney Brenner, Richard J. Watts-Tobin e Robert Shulman, conseguiu efetuar exames meticulosos do vírus T-4, que ataca o bacilo Escherichia coli. Dentro de vinte minutos, a bactéria foi devorada, tendo surgido cerca de cem vírus que correspondiam exatamente ao vírus original. Cada um destes vírus consiste em uma espiral da vida com 200 mil degraus em números redondos e um invólucro protetor formado por seis proteínas diferentes. Cada uma das proteínas contém os vinte aminoácidos fundamentais de que todos nós somos constituídos. A estrutura do vírus T-4 pode ser facilmente modificada por meio de mutações; vírus que sofreram mutação podem ser cruzados entre si. Os produtos de tal cruzamento fabricam outras proteínas, diferentes das que eram próprias dos vírus originais.
Deduz-se daí como, na formação do indivíduo protetor do vírus, o código genético se torna ativo. Conforme adiante veremos, este código nem de longe está decifrado, mas em todo caso já se sabem várias coisas com certeza. Os diversos sinais não se sobrepõem, isto é, nenhuma das quatro bases sinaliza simultaneamente o término de uma informação e o início da seguinte. Só existem poucos sinais sem significação, ao passo que o sinal que corresponde a um determinado aminoácido é repetido com muita frequência.
O código parece ser universal. Encontra-se tanto no vírus como nas células animais ou vegetais cultivadas em soluções nutritivas. O especialista em genética ainda não sabe com certeza se a sucessão das iniciais A, G, T e C num sinal tem qualquer significação. Mas supõe-se que sim. Assim, a asparagina sem dúvida corresponde à sucessão ACA, a glutamina à combinação AAC e a treonina à sucessão CAA.
Para se poder registrar inteiramente a fórmula genética de um homem adulto, seria necessário decifrar um milhão de genes; è até agora não se conseguiu sequer decifrar completamente um único gene. Ainda existe, pois, uma enorme tarefa a ser realizada. A fórmula de um ser humano consistiria em 600 milhões de palavras; está registrada num filamento de cromossomos de 33 centímetros de comprimento. Nesta fórmula tudo está contido: cérebro, sistema nervoso, psiquismo. A genética ainda não sabe como estão ligadas entre si as diversas partes do código. Sabe-se, porém, como a informação dos degraus da vida é comunicada àqueles elementos da célula que, das substâncias nutritivas, constróem os aminoácidos e proteínas.
 
O portador de informação: ARN
O núcleo celular ainda não está tão minuciosamente explorado como o núcleo atômico. Para que o biologista realmente possa compreender o que ali se passa, necessita de novos instrumentos, ainda por serem descobertos. O núcleo da célula pode ser considerado um sol rodeado de satélites, os ribossomos. Esses satélites flutuam no líquido celular que envolve o núcleo, ou assentam na face interna da membrana celular.
São minúsculas indústrias químicas, inteiramente automatizadas, numa proporção para nós inimaginável. Obedecendo a ordens, produzem as mais complicadas composições químicas que existem, as proteínas, recebem as ordens por meio de um ácido de informação um tanto semelhante ao ADN. A diferença está em que o corrimão é construído de outro açúcar: O ácido ribonucleico (ARN) emprega ribose em vez de desoxirribose, que é o componente do ADN. Além disso, uma das bases fundamentais do ADN, a timina, no ARN é substituída por outra base, o uracil. O ARN é produzido pelo ADN, deixa depois o núcleo celular, chega através do líquido celular aos ribossomos e ali inicia a síntese da proteína. No organismo pode-se seguir este processo passo a passo.
Quando se trituram células vivas juntamente com alumina, obtém-se um açúcar que contém ADN, ARN, ribossomos e outras composições químicas, sobretudo enzimas, catalizadores orgânicos necessários à síntese. Quando se põe essa massa numa solução nutritiva com aminoácidos e as composições de fósforo fornecedoras da necessária energia, os ribossomos nelas contidos produzem proteínas, como se estivessem numa célula.
É possível, então, marcar os aminoácidos com carbono radioativo (C14). Assim, pode-se verificar em que ordem aparecem no decorrer da síntese as moléculas de proteína. Acrescentando-se à mistura ARN oriunda de outros organismos (por exemplo, ARN de um vírus a um extrato obtido de bactérias), modificam-se as proteínas formadas.
Injetando-se ARN sintético, podem-se dar aos ribossomos instruções relacionadas com a constituição dos aminoácidos. Deste modo, a biologia consegue aos poucos compor o dicionário genético do ácido de informação. O ARN por sua vez foi produzido pelo ADN e a ele corresponde, com exceção das diferenças acima citadas: corrimão de ribose e não de desoxirribose; nos degraus, uracil em lugar de timina.
Do código genético do ácido de informação pode-se sem dificuldade derivar o código genético do ADN, obtendo-se assim o dicionário genético não só do ARN mas também do ADN.
Aos poucos os especialistas em genética vão conseguindo decifrar o código; a conclusão alcançada é um tanto assustadora. Se, por exemplo, uma única palavra neste código for modificada, o resultado é nascer um doente incurável (um exemplo conhecido é a hemofilia).
Na hemoglobina das pessoas que sofrem de uma determinada forma de anemia uma única palavra difere do que se verifica na hemoglobina de pessoas sadias. Num determinado ponto da cadeia molecular a hemoglobina normal contém ácido glutâmico, ao passo que em quem sofre de anemia, naquele lugar se encontra valina. Ácido glutâmico e valina figuram entre as vinte palavras da língua da vida, entre os vinte aminoácidos que já mencionamos. Três letras no código final, uma palavra na longa frase da hemoglobina, diferente do normal e uma vida é destruída.
Até 1959, o terrível flagelo do mongolismo era um enigma para cientistas e médicos. O mongolismo, assim chamado porque as crianças que sofrem do mal têm traços fisionómicos mongolóides, é um retardamento físico e psíquico congénito no desenvolvimento, que já se manifesta no nascimento. Os que sofrem de mongolismo atingem, na melhor das hipóteses, o desenvolvimento intelectual de uma criança de três a quatro anos. De cada 700 crianças que nascem, uma sofre de mongolismo. O número total de casos deve perfazer cerca de um milhão em todo o mundo. Cientistas franceses, o Professor Turpin e seu colaborador, o Dr. Lejeune e a Dra. Gautier, descobriram que o mongolismo se origina de uma aberração dos cromossomos. Normalmente, a célula humana contém 46 cromossomos; nas células germinais há 23 cromossomos, mas com a fusão da célula seminal com o ovo, o número é novamente elevado a 46. Porém as células do corpo dos que sofrem de mongolismo têm 47 cromossomos. De que modo este quadragésimo sétimo cromossomo causa o mongolismo? Ainda não se sabe. A descoberta da aberração dos cromossomos ainda não levou à criação de um método eficaz de tratamento.
Desde esta descoberta do Dr. Lejeune, confirmada por cientistas em muitos países, pôde-se atribuir numerosas moléstias ou anormalidades a aberrações dos cromossomos, sobretudo a síndroma de Turner, que causa infecundidade nas mulheres. Observou o Dr. Lejeune que esta doença é causada pela falta de um dos dois cromossomos X nas células germinativas da mulher. Certas deformações da coluna vertebral se originam de uma aberração dos cromossomos muito específica: um pequeno cromossomo assenta sobre outro, que assim se degenera, de modo que o número de cromossomos do doente fica reduzido para 45.
E como somos acha-se registrado com 600 milhões de palavras num filamento de cromossomo de 33 centímetros de comprimento de ADN.
Para poder modificar a massa hereditária devem-se conhecer estas palavras. Há pouco menos de vinte anos temos delas apenas uma vaga ideia. Ainda não podemos ler o programa da hereditariedade assim como lemos uma fita magnética. Talvez o consigamos um dia, caso os ácidos do código genético forem magnéticos, como o acreditam os cientistas franceses Sadron, Douzan e Polowsky e o russo Blumenfeld.
Quando o soubermos definitivamente, poderemos registrar em fitas magnéticas as fórmulas genéticas de todos os seres vivos. Talvez descobriremos então parentescos de que nem suspeitávamos. A história da evolução não nos seria mais um segredo.
Saberemos então por que a célula cancerosa tem elemento genético diverso do da célula normal, e talvez conseguiremos modificar esse elemento de maneira a eliminar a possibilidade de surgimento de câncer, ou de eliminá-lo imediatamente, logo que identificado.
 
Origem de um ser vivo
Perspectivas ousadas: Alteração do património hereditário
Começamos gradativamente a compreender como nos formamos. Uma força misteriosa acumula átomos ao longo das fitas formadas pelos cromossomos. Reproduções, cópias destas fitas se desprendem, deslocam-se até os ribossomos e lhes ordenam que formem proteínas dos aminoácidos recebidos com a alimentação ou constituídos no lugar. As proteínas formam-se dos átomos e das moléculas dos aminoácidos e de energia, habitualmente fornecida por moléculas que contêm fósforo todas as proteínas, tanto as das unhas è cabelos como as do cérebro. Os aminoácidos são dirigidos pelo ARN que os coordena de maneira a formar-se a necessária proteína.
Trata-se aqui de fenómenos químicos incrivelmente complicados. Cada reação por si é programada e dirigida. Tudo é realizado segundo um programa original: os cabelos, os olhos, nossa inteligência, nosso caráter. Talvez nos possamos mais tarde modificar com nossa própria força de vontade, talvez sejamos modificados pelo ambiente em que vivemos mas o que somos ao nascer.
Já tal rumo da prevenção e cura do câncer equivaleria a um milagre. Mas isso seria apenas o começo. Poder-se-ia cogitar de tornar realidade tudo quanto a natureza não criou, por não ter tido vontade de fazê-lo ou porque nenhum feliz acaso serviu de padrinho. Talvez se possa um dia injetar, nas células germinativas de um cavalo, certos dados das células germinativas de uma ave, de modo a nascerem cavalos com asas. Desta maneira, o especialista em genética criaria um autêntico Pégaso. Combinações ainda muito mais fora do comum seriam imagináveis, como o mostram as piadas em que entra a genética: um cruzamento de pombo-correio e papagaio para se poderem transmitir notícias verbalmente; um cruzamento de mosca e vaga-lume para que o homem também no escuro possa matar moscas incómodas; um cruzamento de vaca e girafa, para que os novos animais possam alimentar-se no pasto do vizinho e dar leite no campo do proprietário deles.
Possivelmente os especialistas em genética consigam modificar de tal maneira o gene de uma planta que ela produza aspirina, ou realizar no património hereditário de uma vaca modificações de tal natureza que o leite já contenha antibióticos. Criar-se-ão mamíferos que poderão viver no ar rarefeito das montanhas ou até em outros planetas. Tais fantasias em torno das possibilidades genéticas do futuro só são divertidas, porém, enquanto o homem se lembra de que também ele é de carne e ossos e por sua vez poderia ser modificado.
Já Einstein disse: "Não acredito em educação. Cada um terá de ser seu próprio modelo, por mais horrendo que seja esse modelo". Frase profética, terrível, pois estamos no limiar de uma época em que o homem poderá modificar os homens. Em vista do nível de consciência em que a humanidade ainda se encontra hoje em dia, há razões para temer que tais modificações não servirão a ideais elevados, mas a objetivos medíocres. Há risco de que governos, precisando de homens, irão fazer com que nasçam mais meninos do que meninas. Deve-se temer que produzirão escravos fáceis de influenciar, que se dê sobretudo valor à produção de pessoas re-fratárias às irradiações radioativas, mesmo se isso fosse conseguido à custa de outras qualidades, mais valiosas. Devemos estar preparados para o pior se a biologia molecular, infinitamente mais perigosa do que a física nuclear, não for submetida a um controle. Até agora, a humanidade jamais esteve tão ameaçada pela ciência. Mas também nunca uma ciência abriu à humanidade tão grandes perspectivas.
 
Continuar o desenvolvimento
Os primeiros pré-homínidas grunhiam e não podiam prever o advento da língua e da música. Do mesmo modo não podemos saber o que acontecerá quando um dia compreendermos o código genético e o pudermos modificar. A primeira ideia que nos ocorre ao fazermos tais considerações é a de que o homem colocará a si próprio em nível superior de desenvolvimento, criando o super-homem. Certos tóxicos fortes, emanações radioativas e outras causas, que ainda não conhecemos, arrancam os degraus da escada de caracol da vida e os juntam novamente em outra ordem. Essas alterações na sua maioria não correspondem a nenhum dado do código genético. O ser vivo nascido de uma mutação ou não tem condições mínimas de sobrevivência ou vive e é estéril. Ocorre, porém, algumas vezes, que a mutação é persistente, e o ser vivo modificado, ao longo do caminho de toda a coisa viva para o infinito, galga um nível mais elevado. Assim o homem originou-se do pré-homem.
A evolução dos seres vivos hoje em dia não é mais negada por nenhum cientista. Como pode ser explicada essa evolução de dimensões inconcebíveis?
Lamarck acreditava na automodificação de estruturas orgânicas, resultante de seu uso, na evolução dos organismos, resultante de adaptação ao ambiente. Segundo Darwin, as espécies se originaram da diferença individual, sobrevivendo os mais aptos na luta pela existência (seleção natural, teoria da se-leção). Ambas as hipóteses não se coadunam inteiramente com o que hoje sabemos a respeito do mecanismo da hereditariedade. Os especialistas em genética inclinam-se a acreditar que as forças atuantes na mutação, ao tempo da evolução das formas vivas, não eram as mesmas de hoje.
Será o homem o ponto culminante da evolução? Com que estavam relacionadas essas forças? Com outras condições de vida em nosso planeta? Com outras radiações cósmicas? Se contemplarmos o mundo ao nosso redor e o próprio homem, temos a impressão de que a vida estagnou, que o desenvolvimento parou.
Representa o homem o ponto culminante e o remate da evolução? Ou poderá ele dar origem ao super-homem? Quando algum dia o código genético for decifrado, o especialista em genética conhecerá as combinações que correspondem à inteligência, ao equilíbrio do sistema nervoso, à resistência contra a elevada aceleração (tão importante para os voos interplanetários) e até às capacidades pa-rapsicológicas. Mas o desenvolvimento dessas qualidades significa apenas uma melhora quantitativa daquilo que o homem já possui. Para fazer surgir um ser vivo qualitativamente diferente do homem atual, ter-se-ia de construir espirais da vida de outras letras, além das quatro do código genético. Dever-se-iam empregar outras bases, outras combinações além da adenina, guanina, vito-sina e timina. Já hoje a química é capaz de produzir tais bases aos milhões, sinteticamente. Mas como se poderá prever se a introdução de uma base X na espiral irá conduzir a qualidades ou faculdades que não podemos imaginar, exatamente como um homem de Neandertal não podia imaginar um feator atômico? Em seu livro Os Dentes de Dragão, o escritor americano Jack Williamson, autor de ficção científica, propôs uma solução para este problema. Atinge com ela o limite da capacidade humana de imaginação. Apesar disso, porém, que eu saiba, é a única solução até agora apresentada.
Acredita Williamson que o espírito humano pode exercer influência direta sobre a matéria; chama a essa capacidade psicocinese. Alguns parapsicólogos, como Rhine e Thorwald, afirmam ter provado experimentalmente a existência de tal capacidade, mas seus resultados não são muito convincentes. Williamson dá largas à sua fantasia; como autor de novelas, é este seu bom direito. Está convencido de que a psicocinese é o meio mais eficaz para se conseguirem mutações. Na sua opinião, a vontade humana, juntamente com as forças do inconsciente, pode exercer influência sobre os genes e dar às moléculas uma disposição tal que seja iniciada a evolução no sentido do super-homem. Nada prova, é verdade, que algum dia iremos possuir tais qualidades. Se permanecermos sobre os alicerces seguros da ciência, como se poderia imaginar um controle sobre o código genético? Nesse sentido a matemática constitui importante recurso.
 
(Louis Pauwels, Jacques Bergier - O Planeta das Possibilidades Impossíveis)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:06


A matéria da vida

por Thynus, em 28.11.14
 

 
 
Se seus pais não tivessem se unido exatamente quando se uniram – possivelmente naquele segundo exato, possivelmente naquele nanossegundo exato –, você não estaria aqui. E se os pais deles não tivessem se unido igualmente no momento certo, você tampouco estaria aqui. E se os pais dos pais deles não tivessem feito o mesmo, e os pais dos pais dos pais deles antes, e assim indefinidamente, é claro que você não estaria aqui.
Volte para trás no tempo, e essas dívidas para com os ancestrais começam a aumentar. Recue apenas oito gerações, até mais ou menos o tempo em que Charles Darwin e Abraham Lincoln nasceram, e já existem mais de 250 pessoas de cuja união oportuna sua existência depende.
Continue retrocedendo até o tempo de Shakespeare e dos peregrinos do May flower, e você terá não menos de 16 384 ancestrais trocando com ardor material genético de uma maneira que, com o tempo e milagrosamente, viria a resultar em você.
Vinte gerações atrás, o número de pessoas procriando em seu favor aumentou para 1 048 576. Cinco gerações antes, existem nada menos que 33 554 432 homens e mulheres de cujas uniões dedicadas depende a sua existência. Trinta gerações atrás, o número total de seus ancestrais – lembre-se de que não se trata de primos e tias e outros parentes secundários, mas apenas de pais, e pais dos pais, em uma linhagem que leva inevitavelmente até você – supera 1 bilhão (1073741824, para ser preciso). Se você retroceder 64 gerações, até o tempo dos romanos, o número de pessoas de cujos esforços cooperativos sua existência eventual depende aumentou para aproximadamente 1 000 000 000 000 000 000, que é milhares de vezes o total de pessoas que já viveram na Terra.
É evidente que há algo errado em nossa matemática aqui. A resposta, talvez lhe interesse saber, é que sua linhagem não é pura. Você não poderia estar aqui sem um pouco de incesto – na verdade, muito incesto –, embora a uma distância geneticamente discreta. Com tantos milhões de ancestrais nas costas, várias foram as ocasiões em que um parente do lado materno de sua família procriou com algum primo distante do lado paterno. Na verdade, se você está unido a alguém de sua própri a raça e país, são excelentes as chances de possuírem algum nível de parentesco. De fato, se você olhar à sua volta em um ônibus, parque, café ou qualquer lugar apinhado, a maioria das pessoas que verá provavelmente é seu parente. Quando alguém se vangloria de descender de Guilherme, o Conquistador, ou dos peregrinos do May flower, você deve responder imediatamente: “Eu também!”. No sentido mais literal e fundamental, somos todos da mesma família.
Somos todos misteriosamente semelhantes. Compare seus genes com aqueles de qualquer outro ser humano: em média, serão 99,9% iguais. É isso que nos torna uma espécie. As diferenças minúsculas naquele 0,1% restante – “aproximadamente uma base de nucleotídeo em cada mil”, para citar o geneticista britânico John Sulston, recentemente premiado com n Nobel{Sulston e Ferry , The common thread, p. 198} – são o que nos proporciona nossa individualidade. Muito se avançou nos últimos anos no desvendamento do genoma humano. Cada genoma humano é diferente. Senão seríamos todos idênticos. São as recombinações incessantes de nossos genomas – todos quase idênticos, mas não totalmente – que fazem de nós o que somos, como indivíduos e como espécie.
Mas o que é exatamente essa coisa a que chamamos de genoma? E o que vêm a ser os genes? Bem, comecemos com uma célula de novo. Dentro da célula existe um núcleo, e dentro de cada núcleo estão os crommossomos – 46 pequenos feixes de complexidade, dos quais 23 vêm de sua mãe e 23, de seu pai. Com pouquíssimas exceções, cada célula em seu corpo – 99,999% delas, digamos – possui o mesmo complemento de cromossomos. (As exceções são os glóbulos vermelhos, algumas células do sistema imunológico e o óvulo e o espermatozóide, os quais, por diferentes motivos organizacionais, não possuem o paco genético pleno.){Woolfson, Life without genes, p. 12}. Os cromossomos constituem o conjunto completo de instruções necessárias para formar e preservar você e são feitos de longos filamentos do pequeno milagre químico chamado ácido desoxirribonucléico ou DNA – “a molécula mais extraordinária da Terra”, como foi chamado.
 
O DNA existe por um único motivo – criar mais DNA – e existe em grande quantidade dentro de você: cerca de dois metros espremidos dentro de quase todas as células. Cada extensão de DNA compreende aproximadamente 3,2 bilhões de letras de codificação, o suficiente para fornecer 103 480 000 000 combinações possiveis, “garantidamente únicas contra todas as chances concebíveis”, nas palavras de Christian de Duve.{De Duve, A guided tour of the living cell, vol. 2, p. 314}. Trata-se de numerosas possibilidades – um seguido de mais de 3 bilhões de zeros. “Seriam precisos mais de 5 mil livros de tamanho normal para imprimir tal cifra”, ressalta de Duve. Observe-se no espelho e reflita sobre o fato de que você está contemplando 10 mil trilhões de células, e que quase todas elas contêm 1,8 metro de DNA densamente compactado, e você terá uma ideia da enormidade desse material que carrega consigo. Se todo o seu DNA fosse reunido em um único filamento fino, seria comprido o bastante para se estender da Terra à Lua e de volta, não uma ou duas vezes, mas várias vezes.{Dennett, Darwin’s dangerous idea, p. 151}. No todo, de acordo com um cálculo, você pode ter até 20 milhões de quilômetros de DNA empacotados no seu interior.{Gribbin e Gribbin, Being human, p. 8}.
Seu corpo, em suma, adora produzir DNA, e sem ele você não conseguiria viver. Mas o próprio DNA não está vivo. Ao contrário de qualquer outra molécula, ele é, por assim dizer, especialmente “inanimado”. Está “entre as moléculas mais não reativas e quimicamente inertes do mundo vivo”, nas palavras do genesticista Richard Lewontin.{Lewontin, It ain’t necessarily so, p. 142}. Por isso pode ser recuperado de restos de sangue ou sêmen secos há muito tempo, em investigações de homicídios, e obtidos dos ossos de antigos homens de Neandertal. Daí também o longo tempo que os cientistas levaram para decifrar como uma substância tão contida – isto é, tão sem vida – poderia estar no cerne da própria vida.

(BILL BRYSON - Breve história de quase tudo)
Um grão de arroz, uma mosca, um chimpanzé e um ser humano apresentam muitas diferenças, mas ainda assim, a semelhança genética é bem grande!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:30


A mulher na Igreja

por Thynus, em 28.11.14
"Se a verdade é mulher, não teremos razões para suspeitar que todos os filósofos, na medida em que foram dogmáticos, pouco entenderam de mulheres?" É com estas palavras que Nietzsche inicia a sua obra Para Além do Bem e do Mal, escrita em Sils-Maria, 1885.
É bem possível que esta afirmação se aplique não só aos filósofos, mas também aos teólogos, e, em geral, aos dirigentes, por princípio homens, da Igreja Católica.
Embora se não excluam traços maternos em Deus, a Bíblia chama a Deus Pai e não Mãe. Em primeiro lugar, porque se vivia numa sociedade patriarcal, e, depois, porque era necessário evitar toda uma linguagem que lembrasse as deusas pagãs da fertilidade...
É claro que Deus não é sexuado; portanto, chamar-lhe Pai é uma metáfora. Assim, tanto poderíamos dirigir-nos a ele como a ela, isto é, tanto poderemos chamar-lhe Pai como Mãe.
No Credo cristão, referimo-nos a Deus como Pai omnipotente criador do céu e da terra. Não dizemos: Mãe omnipotente. Isso está também vinculado à concepção da biologia grega, concretamente aristotélica, que, no acto da geração, atribuía toda a actividade ao sémen masculino. Portanto, a mulher era considerada essencialmente passiva. Não se esqueça que o óvulo feminino só em 1827 foi descoberto. Por isso, Tomás de Aquino dirá expressamente que "a mulher é algo de falhado": de facto, de si, a força activa do sémen está orientada para gerar uma realidade plenamente semelhante, portanto, do sexo masculino; a geração do feminino acontece devido a uma fraqueza. Daqui concluirá Tomás de Aquino que por natureza a mulher é subordinada ao homem, que os filhos devem amar mais o pai do que a mãe, que o sacerdócio está vedado às mulheres, que as mulheres não podem pregar, pois a pregação é um exercício de sabedoria e autoridade, etc...
Estas e outras razões, como, por exemplo, influências gnósticas e o celibato obrigatório dos padres, contribuíram para que a Igreja Católica se tornasse altamente hierarquizada e masculinizada, patriarcal. Note-se como a própria língua, que é sedimentação e forma de um mundo, está, no referente à autoridade, estruturada de modo machista: basta pensar que, se já nos não causa hoje dificuldade ouvir falar em ministra, por exemplo, ainda constitui autêntica agressão dizer, por exemplo, uma bispa...
Assim, não quereria simplificar, mas é bem possível que então muitos exageros de católicos na sua devoção a Nossa Senhora, exageros que são uma das causas de legítima crítica por parte do protestantismo, tenham aqui o seu fundamento e surjam precisamente como compensação para este estado de coisas, ou seja, para extremos de masculinização. Esta compensação pode até derivar para excessos tais que chegam à quase divinização de Maria, fazendo dela uma figura fora do nosso mundo e da nossa humanidade. Atribui-se-lhe uma concepção especial, sem mácula, uma maternidade que nada teria a ver com nenhuma mãe, chega-se ao ponto de ser ela a impedir a ira de Deus e do Filho sobre os homens...
Esquece-se então que, quando se fala em virgindade de Maria, o Credo não é nenhum tratado de biologia. Esquece-se sobretudo que, se os cristãos vêem em Maria um modelo, é porque ela também soube o que é sofrer, amou, não abandonou o Filho mesmo no extremo da ignomínia, quando tudo desabava, continuou a confiar em Deus, rezou, acreditou, esperou, continuou a amar...

(Anselmo Borges - Janela do (In)Visível)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:32


Existência “aberta” ao mundo

por Thynus, em 28.11.14
O objetivo último do historiador das religiões é compreender, e tornar compreensível aos outros, o comportamento do homo religiosus e seu universo mental. A empresa nem sempre é fácil. Para o inundo moderno, a religião como forma de vida e concepção do mundo confunde-se com o cristianismo. No melhor dos casos, um intelectual ocidental, com certo esforço, tem algumas probabilidades de se familiarizar com a visão religiosa da Antiguidade clássica e mesmo com algumas das grandes religiões orientais, como, por exemplo, o hinduísmo ou o confucionismo. Mas esse esforço de alargar seu horizonte religioso, por mais louvável que seja, não o leva muito longe; com a Grécia, a Índia, a China, o intelectual ocidental não ultrapassa a esfera das religiões complexas e elaboradas, que dispõem de uma vasta literatura sacra. Conhecer uma parte dessa literatura sacra, familiarizar-se com algumas mitologias e teologias orientais ou do mundo clássico, não é ainda suficiente para conseguir compreender o universo mental do homo religiosus. Essas mitologias e teologias encontram-se já excessivamente marcadas pelo longo trabalho dos letrados; embora, propriamente falando, não constituam “religiões do Livro” (como é o caso do judaísmo, do zoroastrismo, do cristianismo, do islamismo), possuem livros sagrados (a Índia, a China) ou, pelo menos, sofreram a influência de autores de prestígio (por exemplo, na Grécia, Homero).
Para se obter uma perspectiva religiosa mais ampla, é mais útil familiarizar-se com o folclore dos povos europeus; em suas crenças, costumes e comportamento perante a vida e a morte, ainda podemos reconhecer numerosas “situações religiosas” arcaicas. Estudando-se as sociedades rurais européias, pode se compreender o mundo religioso dos agricultores neolíticos. Em muitos casos, os costumes e as crenças dos camponeses europeus representara um estado de cultura mais arcaico do que aquele testemunhado pela mitologia da Grécia clássica’. É verdade que a maior parte das populações rurais da Europa foi cristianizada há mais de um milênio. Mas elas conseguiram integrar ao seu cristianismo uma grande parte de sua herança religiosa pré-cristã, de uma antiguidade imemorial. Seria inexato supor que, por esta razão, os camponeses da Europa não são cristãos. É preciso, porém, reconhecer que a religiosidade deles não se reduz às formas históricas do cristianismo, que conserva ainda uma estrutura cósmica quase inteiramente perdida na experiência dos cristãos das cidades. Pode-se falar de um cristianismo primordial, a histórico; ao se cristianizarem, os agricultores europeus integraram a sua nova fé a religião cósmica que conservavam desde a pré-história.
Entretanto, para o historiador das religiões desejoso de compreender e fazer compreender a totalidade das situações existenciais do homo religiosus, o problema é mais complexo. Para lá das fronteiras das culturas agrícolas estende-se todo um mundo: o mundo verdadeiramente “primitivo” dos pastores nômades, dos caçadores totemistas, das populações ainda no estágio da caça miúda e da colheita. Para conhecer o universo mental do homo religiosus é preciso ter em conta, sobretudo, os homens dessas sociedades primitivas. Ora, o comportamento religioso deles parece nos, hoje, excêntrico, se não francamente aberrante, e, em todo caso, muito difícil de compreender. Mas o único meio de compreender um universo mental alheio é situar-se dentro dele, no seu próprio centro, para alcançar, a partir daí, todos os valores que esse universo comanda.
O primeiro fato com que deparamos ao adotar a perspectiva do homem religioso das sociedades arcaicas é que o Mundo existe porque foi criado pelos deuses, e que a própria existência do Mundo “quer dizer” alguma coisa, que o Mundo não é mudo nem opaco, que não é uma coisa inerte, sem objetivo e sem significado. Para o homem religioso, o Cosmos “vive” e “fala”. A própria vida do Cosmos é uma prova de sua santidade, pois ele foi criado pelos deuses e os deuses mostram-se aos homens por meio da vida cósmica.
É por essa razão que, a partir de um certo estágio de cultura, o homem se concebe como um microcosmos. Ele faz parte da Criação dos deuses, ou seja, em outras palavras, ele reencontra em si mesmo a santidade que reconhece no Cosmos. Segue-se daí que sua vida é assimilada à vida cósmica: como obra divina, esta se torna a imagem exemplar da existência humana. Vimos, por exemplo, que o casamento é valorizado como uma hierogamia entre o Céu e a Terra. Entre os agricultores, porém, a correspondência Terra Mulher é ainda mais complexa. A mulher é assimilada à gleba, as sementes ao semen virile e o trabalho agrícola à união conjugal. “Esta mulher veio como um terreno vivo: semeai nela, homens, a semente!”, está escrito no Atharva Veda (XIV, 2, 14). “Vossas mulheres são como campos para vós” (Corão, 11, 225). Uma rainha estéril lamenta-se: “Sou como um campo onde nada cresce!” Num hino do século XII, a Virgem Maria é glorificada como terra nora arabilis quae fructum parturiit.
Tentemos compreender a situação existencial daquele para quem todas essas correspondências são experiências vividas e não simplesmente idéias. É evidente que sua vida possui uma dimensão a mais: não é apenas humana, é ao mesmo tempo “cósmica”, visto que tem uma estrutura trans humana. Poder-se-ia chamá-la uma “existência aberta”, porque não é limitada estritamente ao modo de ser do homem. (Sabemos, aliás, que o primitivo situa seu próprio modelo a atingir no plano trans humano revelado pelos mitos.) A existência do homo religiosus, sobretudo do primitivo, é “aberta” para o mundo; vivendo, o homem religioso nunca está sozinho, pois vive nele uma parte do Mundo. Mas não se pode dizer, como Hegel, que o homem primitivo está “enterrado na Natureza”, que ele não se reencontrou ainda como distinto da Natureza, como ele mesmo. O hindu que, abraçando sua esposa, proclama que ela é a Terra e ele é o Céu, está ao mesmo tempo plenamente consciente da humanidade dele e de sua esposa. O agricultor austro asiático que designa com o mesmo vocábulo, lak, o falo e a enxada e que, como tantos outros cultivadores, assimila os grãos ao semen virile, sabe muito bem que a enxada é um instrumento que ele fabricou para si e que, ao trabalhar o campo, efetua um trabalho agrícola que exige um certo número de conhecimentos técnicos. Em outras palavras, o simbolismo cósmico junta um novo valor a um objeto ou uma ação, sem com isso prejudicar seus valores próprios e imediatos. Uma existência “aberta” para o Mundo não é uma existência inconsciente, enterrada na Natureza. A “abertura” para o Mundo permite ao homem religioso conhecer-se conhecendo o Mundo – e esse conhecimento é precioso para ele porque é um conhecimento religioso, refere se ao Ser.

(Mircea Eliade - O SAGRADO E O PROFANO)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 05:24

"Portanto, aqui estamos — todos parte deste
grande holograma chamado Criação, ou seja, o EU de todos nós. [...] 

Tudo é uma encenação cósmica e não há nada a não ser você!"
  (Itzhak Bentov (1923-1979), cientista, autor e místico)

Ver um mundo em um grão de areia,
E um céu numa flor selvagem, 

Éter o infinito na palma da mão,
E a eternidade em uma hora.

 (William Blake (1757-1827), poeta e místico visionário)
No filme Contato, existem cenas de regressão à infância da personagem principal mostrando a grande influência do pai na vida da menina até o momento em que morreu repentinamente. Ao apoiar a maneira ambiciosa da filha de perseguir seus ideais, ele muitas vezes dizia que as grandes metas no futuro dela seriam alcançadas passo a passo.
Esse é um ótimo conselho para os pais passarem aos filhos, mas, além disso, aparentemente é também o modo pelo qual o holograma da consciência e da vida funciona. Quando fazemos uma pequena mudança aqui e outra ali, subitamente tudo parece mudar. Realmente, uma pequena mudança em um lugar pode alterar permanentemente todo um padrão. O visionário e filósofo Ervin Laszlo descreve a razão disso: "Tudo o que acontece em um lugar ocorre também em outros lugares, e tudo o que acontece uma vez também acontece outras vezes depois. Nada é apenas 'local', limitado somente ao lugar onde ocorre" (Laszlo, "New Concepts of Matter, Life and Mind"). Como ensinaram os grandes líderes espirituais Mahatma Gandhi e Madre Teresa de Calcutá de maneira tão eloqüente, o princípio holográfico não-local é uma força imensa — é uma alteração comparável à de "Davi" contra "Golias", no mundo quântico.
Pelo fato de o holograma conter a imagem original de todas as suas inúmeras partes, qualquer mudança feita em um desses segmentos pode se refletir em todas as partes de todo o padrão. Como é poderosa essa relação! Uma simples mudança em um lugar pode provocar mudanças em todos os lugares! Talvez o melhor exemplo de como pequenas modificações podem afetar um sistema inteiro pode ser vista em algo que conhecemos bastante bem: o DNA de nosso corpo.
Nos filmes que se fundamentam em métodos modernos de investigação de crimes, aprendemos que a identidade do criminoso pode ser detectada pelos seus vestígios pessoais deixados na cena do crime. Se os investigadores puderem identificar uma parte qualquer do corpo de uma pessoa ou até mesmo apenas um de seus fragmentos — uma gota de sangue, um fio de cabelo partido, manchas de sêmen e até mesmo uma unha quebrada —, eles poderão identificar a pessoa. Não importa de qual parte do corpo veio o DNA, por causa do princípio holográfico — todas as partes espelham o conjunto. Cada fragmento do DNA é semelhante a todos os outros (com exceção das mutações).
Estima-se que o ser humano típico tenha de 50 a 100 trilhões de células no corpo. Cada uma dessas células possui 23 pares de cromossomos que compõem o DNA do indivíduo (o código da vida dessa pessoa). Fazendo os cálculos, concluiremos que o número de cópias de DNA que uma pessoa tem no corpo oscila entre 2.300 trilhões e 4.600 trilhões. Imagine quanto tempo levaria para mudar o DNA de uma pessoa se tentássemos alterar cada cópia, uma célula de cada vez. Mas quando o DNA modifica o código de uma espécie, ele não o faz de modo linear, um fio de cada vez. Por causa do princípio holográfico, quando o DNA é alterado sua mudança é refletida na totalidade do conjunto.
Cada parte de "alguma coisa" em um holograma reflete todas as outras partes e a mudança é refletida por todo o restante. Mesmo que, por exemplo, dividíssemos o universo em quatro fragmentos menores, cada uma dessas partes espelharia o universo todo. Uma mudança em um lugar (indicada pela seção iluminada) é refletida em cada espelho.
 
 
Pode ser que lhe ocorra a pergunta: "Qual a importância disso na minha vida?" Ainda que essa pergunta seja tão simples, a resposta não é tanto assim. O poder sutil do holograma é que ele nos oferece a alavancagem para que provoquemos uma enorme mudança em grande escala, alterando o padrão em um único lugar. A compreensão do princípio holográfico é importante porque, aparentemente, descreve com precisão a maneira de operarmos. Do funcionamento do DNA de nosso corpo até a estrutura atômica do mundo e dos processos da memória e da consciência, aparentemente somos hologramas de uma existência mais ampla, que somente agora principiamos a compreender.

(GREGG BRADEN - A MATRIZ DIVINA)
Charles Darwin

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 02:07


corporativismo

por Thynus, em 27.11.14
 
Em uso recente nas ciências sociais, o conceito de corporativismo livrou-se de sua ligação anterior com regimes autoritários e fascistas e passou a ser utilizado como um meio para se analisar o papel dos interesses organizados nas democracias liberais da atualidade. O corporativismo também entrou no uso político comum como uma espécie de referência abreviada ao envolvimento de sindicatos, junto com organizações que representam os interesses do capital, em negociações com os governos a respeito de políticas econômicas. No debate público, o corporativismo passou a ser visto como a antítese do neoliberalismo, no qual os governos buscam usar a competição, em vez da negociação, como o elemento dinâmico da tomada de decisões sobre políticas e programas.
Grande parte dos primeiros textos normativos sobre o corporativismo refletia a doutrina social católica e a busca de uma alternativa ideológica para o liberalismo e o socialismo. Os autores corporativistas defendiam teorias orgânicas da sociedade e pleiteavam grupamentos funcionais de corporações baseados num conjunto comum de interesses que transcendia as divisões de classe. Essa idéia do corporativismo como planta baixa de um sistema social ideal baseado na acomodação harmônica de diferentes grupos sociais não se realizou, na prática, em parte alguma, embora alguns de seus elementos encontrassem expressão no projeto de ESTADO corporativo na Itália de Mussolini.
Entre os autores acadêmicos contemporâneos, o corporativismo é encarado em geral como a antítese do PLURALISMO, e de fato o principal expoente da teoria corporativista nos anos 70, Philippe Schmitter (1974), apontou o corporativismo como uma crítica do que encarava como a ortodoxia pluralista predominante na SOCIOLOGIA POLÍTICA. Os pluralistas interpretavam o extraordinário alcance e diversidade das organizações de defesa de interesses nas sociedades modernas como um indício da abertura dos governos democráticos a um vasto âmbito de influências, e propunham uma visão benevolente da política dos grupos de interesses (ver INTERESSE, GRUPO DE) como uma complementação dos mecanismos eleitorais para garantir a responsabilidade democrática. Em contraste, a teoria corporativista enfatizava um número limitado de organizações politicamente influentes e a tendência desses grupos a alcançar uma posição monopolista na representação de interesses dentro de categorias sociais particulares. Esses desdobramentos tendiam a suplantar, em vez de complementar os processos parlamentares. Os governos tendiam a preferir o desenvolvimento de monopólios de interesses porque isso tornava mais fácil alinhar os interesses de grupos com as políticas públicas, com menos consumo de tempo. Ao conferir um status público privilegiado aos grupos cuja cooperação era considerada importante para se realizarem objetivos de política pública, os governos de fato excluíam da mesa de negociações um número bastante grande de grupos menos poderosos (Offe in Berger, 1981).
Houve um debate acalorado sobre qual deveria ser o foco da teoria corporativista, o que levou alguns críticos a duvidar de seu caráter específico. A utilização moderna mais difundida da palavra identifica o cerne do corporativismo como sendo o papel das organizações de interesses como intermediário entre o estado e a SOCIEDADE CIVIL.
A teoria pluralista enfatizou o papel dos grupos como representantes dos interesses de seus membros, buscando influenciar a direção de políticas e programas públicos implementados através das instituições do estado. A teoria corporativista colocou igual ênfase à delegação de funções públicas a grupos e em sua responsabilidade pela implementação de políticas públicas. Assim, os grupos não se limitavam a representar interesses, mas interpretavam um duplo papel, que fundia a representação de interesses com a implementação de políticas. O teste crucial para a eficácia de um grupo corporativo, afirmou-se então, seria sua capacidade de disciplinar seus membros para aceitar e implementar acordos fechados com o estado. Relacionamentos relativamente estáveis desse tipo também foram chamados de “governo do interesse privado” (Streeck e Schmitter, 1985).
A diferença entre as sociedades capitalistas avançadas, onde o corporativismo se desenvolve cada vez mais em conseqüência do crescente poder monopolista das organizações de interesses, e aquelas onde há um plano corporativista imposto pelo estado é bem captada na distinção entre corporativismo societal (ou liberal) e corporativismo de estado (Schmitter, 1974). O corporativismo societal desenvolve-se onde o estado reconhece o aumento do poder autônomo por parte de organizações que representam os interesses de categorias sociais e entra num processo de intercâmbio político com essas organizações. O corporativismo societal tornou-se mais fortemente institucionalizado em países como a Áustria ou a Suécia, onde um poderoso movimento trabalhista se tornou um “parceiro social” da associação de cúpula dos empregadores e do estado na negociação de políticas econômicas e sociais. O corporativismo de estado, em contraste, ocorre em sociedades com grupos de interesses de organização relativamente fraca, onde o estado busca legitimar seu domínio e alcançar seus objetivos mobilizando a população dentro de organizações subordinadas. O corporativismo de estado tende a estar ligado a regimes capitalistas periféricos ou dependentes, como os da América Latina (Malloy, 1977).
O desenvolvimento do corporativismo nas democracias liberais está geralmente associado à redução do âmbito de decisões que estão sujeitas a determinação através de processos eleitorais e parlamentares. Muitas da primeiras avaliações assumiram um processo evolutivo do desenvolvimento corporativista, com advertências de que as democracias parlamentares estavam se tornando cada vez mais “estados corporativos”.
Mas, com a crescente sofisticação da teoria corporativista, o surgimento de estudos empíricos de processos corporativos e a rejeição consciente das práticas corporativas em alguns países, veio também uma avaliação dos limites do corporativismo e de sua coexistência com os processos parlamentares e pluralistas. Isso levou ao desenvolvimento da tese do “estado dual” ou da “política dual”, a qual sugere que o corporativismo se limita à intermediação com respeito a um âmbito de questões relativas à produção e implicando interesses dos produtores, e que ele sempre coexistirá com um processo político competitivo ou pluralista para a determinação das questões de consumo envolvendo indivíduos e organizações de interesses dos consumidores (Cawson e Saunders, 1983).
Onde o corporativismo ficou fortemente entrincheirado no nível mais elevado, as políticas econômicas e sociais têm sido determinadas com base numa negociação tríplice. Afirmou-se que a capacidade de certos países de suportar a recessão econômica sem recorrer à deflação e à criação de desemprego pode ser explicada pelo grau em que o corporativismo facilita as negociações entre capital e trabalho a respeito da distribuição do produto social (Goldthorpe, 1984). Nesses casos, os processos corporativistas envolvem a colaboração de classes e por esse motivo muitos críticos marxistas (ver Panitch in Schmitter e Lehmbruch, 1979) aduziram que o corporativismo pode ser compreendido como uma estratégia adotada por estados capitalistas a fim de manter a subordinação da classe operária. Existe, relacionado ao corporativismo como processo de decisão em política macroeconômica, um trabalho recente de estudiosos escandinavos que introduziu a idéia da “economia negociada” como meio de descrever a tomada de decisões em termos de política econômica, regulamentada por uma série de negociações entre instituições autônomas (Nielsen e Pedersen, 1988).
Uma parte importante dos primeiros textos sobre corporativismo liberal concentrou-se na análise comparativa de estados-nações, e foram feitas várias tentativas de relacionar países de acordo com seu nível de conformidade a um tipo ideal de corporativismo. A maioria dos autores parecia concordar em que o país a alcançar a marca mais elevada era a Áustria, que os Estados Unidos eram o país menos corporativista e que na Grã-Bretanha o corporativismo era relativamente fraco.
Fizeram-se algumas tentativas (discutidas em Cawson, 1986) de mensurar o corporativismo e correlacionar sua incidência com outros fatores presentes nos sistemas políticos nacionais. Os resultados são mais sugestivos que conclusivos, havendo porém indícios de que o corporativismo está ligado a baixos níveis de represália contra impostos elevados e gastos públicos. Outros estudos apontaram que os países mais “governáveis” são os fortemente corporativistas e que estes tendem também a ter menos desemprego. A maioria dos que estudam o corporativismo estão de acordo em que o caso típico de macrocorporativismo é a Áustria, seguida pelos países escandinavos, especialmente a Suécia. A Áustria tem um sistema de filiação compulsória em câmaras de comércio, trabalho, agricultura e profissões liberais, e cada cidadão trabalhador é membro de pelo menos uma destas. Cada uma delas é uma organização altamente centralizada, em que a liderança nacional mantém um controle efetivo sobre as subdivisões setoriais e territoriais. A principal organização sindical monopoliza a representação do trabalho, e os sindicatos isolados são subunidades que dependem da unidade central para seus recursos financeiros. A paridade de representação é garantida pelo estado nas negociações sobre controle de preços e planejamento econômico, e a negociação sócio-econômica coletiva concentra-se num organismo não-burocrático altamente informal, a Comissão de Paridade. Assim, o exemplo austríaco demonstra a efetiva institucionalização das precondições do macrocorporativismo: organizações de interesses monopolistas e centralizadas, paridade na representação de classes e processos informais de ajuste. Todas essas precondições surgiram no decorrer de um considerável período histórico e, se nenhuma delas é exclusiva da Áustria, a combinação de todas certamente o é (Marin in Grant, 1985).
Exemplos menos estáveis e bem-sucedidos de instituições corporativistas podem ser encontrados em vários países. Durante cerca de duas décadas depois da Segunda Guerra Mundial o Conselho Social e Econômico Holandês produziu com eficiência um consenso interclasses sobre política econômica, mas sua influência se reduziu a partir dos anos 60, quando as organizações de interesses se tornaram mais fragmentadas e o sistema formalizado de representação funcional não conseguiu adaptar-se. Em outros casos, como o da ex-Alemanha Ocidental, instituições corporativas sofreram pressões em conseqüência de crises econômicas, quando empregados e às vezes sindicatos isolados buscaram escapar aos procedimentos centralizados de negociação. Em geral, o ressurgimento de estratégias econômicas neoliberais desde os anos 70 tendeu a minar as precondições para o macrocorporativismo (Goldthorpe, 1984).
O uso moderno aponta, como definição concisa do conceito, o seguinte: o corporativismo é um processo sócio-político específico no qual organizações que representam interesses funcionais monopolistas dedicam-se ao intercâmbio político com agências do estado a respeito dos rendimentos das políticas públicas, o que envolve essas organizações em um papel que combina a representação de interesses com a implementação de políticas através da capacidade de realizar decisões,delegada pelo estado.
Três aspectos-chaves do corporativismo distinguem-no dos processos pluralistas da política de grupos de interesses. O primeiro é o papel de monopólio desempenhado pelos organismos corporativos; o segundo é a fusão do papel representativo com o de implementação; e o terceiro é a presença do estado tanto no licenciamento da representação monopolista quanto na co-determinação de políticas. Enquanto na teoria pluralista os interesses são identificados como anteriores à organização e à mobilização política, na teoria corporativista o estado é identificado como agente crucial na formação de interesses e influenciando o resultado dos processos de grupo (Cawson, 1986).
As organizações de interesse que têm maior probabilidade de alcançar o status de monopólio e participar de um intercâmbio corporativo com organismos do estado são as que representam os interesses de produtores, mais que as dos consumidores, e que dominam os recursos de informação ou a obediência necessários para a implementação de políticas de estado. Estudos empíricos indicam que as associações comerciais e de empregados, os sindicatos e os organismos das profissões liberais são os interlocutores mais comuns. A forma que o corporativismo assume é a negociação, com alto grau de delegação de autoridade pública a organismos nominalmente particulares.
Como um modo de política, o corporativismo pode ser contrastado com as formas de regulamentação jurídico-burocrática e de mercado, as quais implicam uma forma nitidamente diversa de relacionamento entre estado e organizações de interesses.
Além do nível macro, que envolve associações mais importantes em negociações a respeito de políticas públicas, o corporativismo pode ser identificado em um nível setorial ou intermediário no relacionamento entre organismos e organizações estatais que atingiram representação monopolista de categorias particulares de interesse setorial. Mesmo em países como os Estados Unidos e o Canadá, que são fracos em termos corporativos, usando-se indicadores nacionais, em áreas particulares de política, tais como a agricultura, podem-se encontrar formas vigorosamente entrincheiradas de mediação corporativa.
A teoria corporativista tem representado um forte desafio ao pluralismo como modelo de política de grupos de interesses, mas, à medida que os indícios empíricos vão alimentando sucessivos refinamentos da teoria, vai ficando claro que corporativismo e pluralismo não deveriam ser encarados como paradigmas alternativos para o estudo de políticas de interesses, e sim como extremidades de um continuum de acordo com o nível dos relacionamentos monopolistas e interdependentes entre organizações de interesses e de estado que vieram a se estabelecer (Cawson, 1986).

(William Outhwaite, Tom Bottomore - DICIONÁRIO DO PENSAMENTO SOCIAL DO SÉCULO XX)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:10

 
O mapa do mundo de 1990 tem poucas semelhanças com o mesmo mapa referido a 1920. As relações dos poderes militar e económico e de influência política alteraram-se.
O Ocidente continuou a ter um impacto significativo sobre as outras sociedades, mas as relações entre o Ocidente e as outras civilizações foram crescentemente dominadas pelas reacções do Ocidente aos desenvolvinentos verificados naquelas civilizações. As sociedades não ocidentais, longe de serem simplesmente os objectos da história escrita no Ocidente, foram-se tornando, cada vez mais, os motores e os modeladores da sua Própria história e da história ocidental.
Em segundo lugar, como resultado destes desenvolvimentos, o sistema internacional expandiu-se para além do Ocidente e tornou-se multicivilizacional.
Simultaneamente, os conflitos entre os Estados ocidentais - que dominaram aquele sistema durante séculos - desapareceram. No final do século esta fase está ainda incompleta, dado que os Estados-nações do Ocidente se agrupam em dois Estados semiuniversais, na Europa e na América do Norte. Estas duas entidades e as suas unidades constituintes encontram-se, no entanto, ligadas por uma rede extraordinariamente complexa de laços institucionais, formais e informais. Os Estados universais das civilizações anteriores eram impérios. Contudo, desde que a democracia se tornou a forma política da civilização ocidental, o Estado universal dela emergente já não é um império, mas um composto formado por federações, confederações e regimes e organizações internacionais.
As grandes ideologias políticas do século XX incluem o liberalismo, o socialismo, o anarquismo, o corporativismo, o marxismo, o comunismo, a social-democracia, o conservadorismo, o nacionalismo, o fascismo e a democracia cristã. Todas gozam de uma coisa em comum: são produtos da civilização ocidental. Nenhuma outra civilização gerou uma ideologia política com importância. Em contrapartida, o Ocidente nunca gerou uma grande religião. As grandes religiões mundiais são todas produto de civilizações não ocidentais e, na maioria dos casos, anteriores à civilização ocidental. Quando o mundo termina a sua fase ocidental, as ideologias, que tipificaram o período final da civilização ocidental, declinam e o seu lugar é tomado por religiões e outras formas de identidade e de empenhamento de base cultural. A separação vestefaliana da religião e da política internacional, um produto idiossincrásico da civilização ocidental, está a chegar ao fim e, como sugere Edward Mortimer, «é cada vez mais provável que a religião se intrometa nas questões internacionais.
O choque intracivilizacional de ideias políticas, geradas em abundância pelo Ocidente, está a ser suplantado por um choque intercivilizacional de cultura e de religião.
A geografia política global passou do mundo uno dos anos 20 para o mundo triplo dos anos 60 e a meia dúzia de mundos, ou mais, dos anos 90. Concomitantemente, os impérios ocidentais globais de 1920 foram reduzidos ao muito mais limitado «mundo livre» dos anos 60 (que incluía muitos Estados não ocidentais opostos ao comunismo) e, depois, ao ainda mais limitado «Ocidente» dos anos 90. Esta mudança reflectiu-se, semanticamente, entre 1988 e 1993 no declínio do uso do termo civilizacional Ocidente. Também se nota nas cada vez mais frequentes referências ao islão como um fenómeno político cultural, à «Grande China», à Rússia e «países vizinhos» e à União Europeia, todos estes termos com um conteúdo civilizacional. Nesta terceira fase as relações intercivilizacionais são bem mais frequentes e intensas do que na primeira fase e mais equilibradas e recíprocas do que na segunda fase. Não há também, ao contrário do que acontecia durante a guerra fria, uma clivagem única que domine, existindo antes clivagens múltiplas entre o Ocidente e outras civilizações e entre as muitas não ocidentais.
Existe um sistema internacional, argumentou Hedley Bull, «quando dois ou mais Estados têm suficiente contacto entre si e suficiente impacto sobre as decisões recíprocas que os obrigam a comportar-se - pelo menos em parte - como partes de um todo». Existe, porém, uma sociedade internacional quando os Estados de um sistema internacional têm «interesses e valores comuns», «aceitam ser sujeitos a um conjunto comum de regras», «partilham o trabalho em instituições comuns» e têm uma cultura ou civilização comum». Como os seus antepassados Sumérios, Gregos, Helenos, Chineses, Indianos e islâmicos, o sistema internacional europeu do século XVII ao século XIX era também uma sociedade internacional. Nos séculos XIX e XX o sistema internacional europeu expandiu-se para abranger, virtualmente, todas as sociedades das outras civilizações.
Algumas instituições e práticas europeias foram também exportadas para estes países. Contudo, a estas sociedades ainda falta a cultura comum, que constitui a base da sociedade internacional europeia. Em termos da teoria britânica das relações internacionais, o mundo é, assim, um sistema internacional.

(SAMUEL P. HUNTINGTON - O CHOQUE DAS CIVILIZAÇÕES E A MUDANÇA NA ORDEM
MUNDIAL)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:59


A raposa e o galinheiro

por Thynus, em 27.11.14
A agência nacional anticorrupção
Como sabemos, a corrupção é um dos fenômenos mais perigosos para uma nação. Os efeitos econômicos são devastadores, à medida que o custo das empresas sobe, investimentos despencam, as pessoas começam a perder a confiança nas instituições do País e a democracia começa a ser ameaçada. Não é à toa que os países no topo do ranking da transparência internacional, como Finlândia e Singapura, estão entre os mais ricos, enquanto as nações mais corruptas do planeta, como Togo e Gana estão entre as mais pobres. A correlação entre corrupção e subdesenvolvimento é fortíssima.
Nesse contexto, infelizmente, o Brasil encontra-se em péssima posição. Nossos índices de corrupção são africanos, escândalos são freqüentes, envolvendo deputados, ministros, fiscais e funcionários públicos de baixo escalão. De acordo com uma pesquisa divulgada pelo instituto Sensus, para 41,3% dos brasileiros a corrupção é o principal motivo de vergonha nacional, superando de longe a violência (17,1%) e a pobreza (12,7%). Apesar de um caso ou outro de afastamento do cargo, rapidamente as mesmas pessoas de sempre voltam ao governo. Praticamente não existe punição real. Um estudo da Associação dos Magistrados Brasileiros acompanhou as ações criminais contra políticos entre 1988 e 2007. Dos 463 processos contra autoridades, apenas cinco resultaram em condenação, cerca de 1%. Mesmo assim, todos esses cinco casos tratavam de crimes violentos como agressão e homicídio. Ou seja, nunca, em quase 20 anos, um político foi condenado por corrupção no Brasil!
Isso desmoraliza o governo e faz com que atividades públicas que deveriam ser admiradas, como o exercício de legislador, seja uma atividade desprezada pela população. Pesquisa recente demonstrou que os deputados do Congresso lideram a lista de profissões detestadas pela população. Claro que é ingênuo pretender acabar com toda e qualquer forma de corrupção, mas reduzir drasticamente os níveis atuais é prioridade para o Brasil.
Existe um passo fundamental para se combater eficazmente a corrupção: a primeira coisa a ser feita é, nos casos descobertos pela mídia, impedir que os próprios políticos investiguem e julguem seus colegas. Hoje em dia, qualquer escândalo dessa natureza é investigado somente por uma comissão parlamentar de inquérito (a CPI). Isso significa que políticos estão investigando políticos, muita vezes do mesmo partido, muitas vezes com os mesmos problemas (ainda que ocultos) daqueles que estão sendo investigados. É fácil perceber que, nesse caso, a chance de punição real será muito pequena, pois interesses mútuos e corporativismo incentivam os investigadores a proteger seus pares.
É preciso criar uma Agência Nacional Anticorrupção e, acima de tudo, mantê-la independente do governo do momento. A estrutura ideal de poder seria uma dupla composta pelos seguintes cargos:
— Diretor: responsável nominal pela Agência Anticorrupção. Indicado pelo segundo partido mais votado para a eleição presidencial. Ou seja, é a oposição política que deve indicar o diretor responsável pelas atividades da agência. Ninguém tem mais interesse em expor a sujeira do governo do que a oposição, uma vez que ela espera se beneficiar do escândalo sendo a próxima a assumir
— Secretário: é o técnico responsável pelo trabalho do dia-a-dia da agência. Deve ser alguém de fora da política e ter feito carreira no Ministério Público ou na Polícia Federal. O secretário da agência deve ser indicado pelo presidente da Republica, no final de seu mandato, e ter autonomia completa para trabalhar durante todo o mandato do sucessor. Ou seja, em nenhum momento um presidente terá no secretário da Agência Nacional Anticorrupção alguém de sua própria indicação. Será sempre alguém colocado no cargo pelo presidente da República anterior e, portanto, intocável. Trabalhando de forma completamente independente, só assim a Agência Nacional Anticorrupção teria a isenção necessária para investigar os corruptos.
Como vimos, em Hong Kong, uma instituição similar foi criada na década de 1970 e passou a responder diretamente para a coroa britânica. Em pouco tempo, o problema da corrupção, que parecia ter se tornado endêmico na colônia, foi sendo reduzido, até que hoje o território de Hong Kong é um dos mais bem-avaliados no ranking da transparência internacional. Dessa experiência pode-se concluir que, uma vez que os crimes estão sendo investigados, os corruptos estão sendo presos e mantidos na cadeia, isso desestimula os demais a roubar. O mesmo deve ocorrer no Brasil.

(ALEXANDRE OSTROWIECKI, RENATO FEDER - CARREGANDO O ELEFANTE)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:58

Pág. 1/6



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

subscrever feeds