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XAMANISMO – WICCA

por Thynus, em 31.10.14
 "No México, a festa dos mortos é uma festa, não um dobre 
lamurioso pelos que se foram. Há piqueniques nos cemitérios e,
 no interior do país, narram histórias de aldeias que desenterravam 
os mortos e contavam alegremente o que tinha acontecido
durante o ano. Por todos os lados, emerge a figura do deus do
infra-mundo (o Mictlan), conhecido pelos indígenas como
Mictlantecuhtli. Nos últimos anos, nos centros maiores,
ocorre uma fusão do dia dos mortos com o Halloween de
ascendência anglo-saxã. Hoje não é raro ver crianças
mexicanas portando uma cesta em forma de abóbora de
plástico, em clara referência às travessuras do dia das bruxas
dos EUA."
(Vários Autores - As religiões que o mundo esqueceu)
 
"O Martelo das Feiticeiras (Malleus Maleficarum) é um dos livros
mais importantes da cultura ocidental, tanto para os leitores que se
interessam pela história quanto para aqueles que estudam a história do
pensamento e das leis. Documento fundamental do pensamento
pré-cartesiano, bem como um dos mais importantes depositórios das leis
que vigoravam no Estado teocrático, revela as articulações concretas
entre sexualidade e poder, e por isso é uma peça única para todos
aqueles que estudam a profundidade da psique humana e o funcionamento
das sociedades.
Durante quatro séculos este livro foi o manual oficial da
Inquisição para a caça as bruxas. Levou à tortura e à morte mais de 100
mil mulheres sob o pretexto, entre outros, de "copularem" com o demônio.
Esse genocídio foi perpetrado na época em que formavam as sociedades
modernas européias. Uma das conseqüências apontadas pelos especialistas,
foi tornar dóceis e submissos os corpos das mulheres posteriormente.

(...) Durante três séculos o Malleus foi a bíblia dos Inquisidores e
esteve na banca de todos os julgamentos. Quando cessou a caça às bruxas,
no século XVIII, houve grande transformação na condição feminina.
A sexualidade se normatiza e as mulheres se tornam frígidas, pois
orgasmo era coisa do diabo e, portanto, passível de punição.
Reduzem-se exclusivamente ao âmbito doméstico, pois sua ambição também
era passível de castigo. O saber feminino popular cai na clandestinidade,
quando não é assimilado como próprio pelo poder médico masculino
já solidificado. As mulheres não têm mais acesso ao estudo como na
Idade Média e passam a transmitir voluntariamente a seus filhos
valores patriarcais já então totalmente introjetados por elas." 

(Henrich Kramer -&James Sprenger - O martelo das feiticeiras)
 
Nas civilizações primitivas, os xamãs eram considerados feiticeiros, com grandes privilégios em suas tribos. Faziam rituais de purificação, exorcismo e comunicação com os espíritos, mediante uma alteração no seu estado de consciência. Essa comunicação não se fazia como no espiritismo, porque não havia incorporação de entidades do outro mundo (anjos ou animais). Ingerindo poções de vegetais, dentre as quais o cogumelo com psilocibina e a “ayahuasca”, êle se transportava, como um fenômeno paranormal, até o centro de dimensões diferentes onde aquelas entidades buscam o nosso contacto. Dizem que o transe xamânico costuma levar os praticantes a locais maravilhosos. Por isso, sem serem magos ou curandeiros, alcançam clarividência e são capazes de curas milagrosas.
Os primeiros xamãs tiveram base na Sibéria, mas há boa parte deles ainda hoje na Nova Guiné e no México (Rev.Sexto Sentido nº 05/36).
Do Xamanismo, muito mais antigo, derivou a Wicca, proveniente dos antigos celtas, que nos deram o Halloween (festa das bruxas em homenagem aos mortos). Vem ganhando adeptos em todo o mundo por crer na religação do homem com o princípio divino encontrado em todas as dimensões, visíveis e invisíveis. Enquanto as religiões em geral pregam um mundo ideal, fora do alcance do ser humano comum, a Wicca considera que a divindade está presente em tudo, o tempo todo. Por isso, todos os lugares e momentos são bons para reverenciá-la, sem a necessidade de se reencarnar. Mas há outras religiões xamânicas, como a indígena e a africana.
É um agrupamento que não tem dogmas e a tudo permite, desde que não se prejudique ninguém, nem a natureza, sob pena de receber o mal em triplo. Na Wicca também não são realizados sacrifícios de animais e os seus rituais não lidam exclusivamente com feitiços. Para êles, nossos corpos são naturalmente sãos e os males do mundo, na ordem física, mental ou espiritual, é que os tornam doentes. Por isso, seus contactos podem ser de cura, de reverência, de agradecimentos ou de esclarecimentos. Às vezes também se usam mandingas, patuás e benzeduras, como bruxaria disfarçada.
Nos Estados Unidos existem sub-seitas variadas: uma só de 13 mulheres, outra cujos membros praticam os rituais sem qualquer roupa (como que a exporem a alma limpa), outras que só se apresentam ao ar livre etc. Nas práticas ritualisticas, são utilizados instrumentos como o cálice (representando a água), o bastão (representando o fogo), o punhal (representando o ar) e a estrela de cinco pontas (representando a terra). Empregam também velas, incensos, vestes (principalmente a negra) e outros apetrechos. Também realizam casamentos, batizados etc., através de seus sacerdotes (Rev. Sexto Sentido nº 11/20).

(Laurundo Toretta - Deus, as religiões e o universo)

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publicado às 22:58


MUDE O MUNDO...

por Thynus, em 31.10.14
 
Você não conseguirá mudar as pessoas. Mas tem o poder de mudar a si mesmo, e quando isso acontecer de verdade notará que os outros “melhoram” para conosco.
Até o cachorrinho entende o nosso comportamento. Bata o pé e grite com um cão, ou estale os dedos e brinque com ele. Você sabe a diferença.
O mesmo se dá com pessoas.

(John Fellinus - AS MAIS BELAS FRASES DO MUNDO, Para Subir a Montanha da Vida)

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publicado às 01:29

"Dentro de cada um de nós há um outro 
que não conhecemos. Ele fala conosco por meio dos sonhos."
Carl Jung

Quando fazemos qualquer coisa – tomamos o café da manhã, fazemos amor, pensamos sobre o universo, escrevemos uma canção –, nossa mente pode estar em um dos três seguintes estados: inconsciente, consciente ou autoconsciente. Quando estamos inconscientes, nossa mente está recebendo de forma passiva a corrente constante de informações do mundo exterior, com reações mínimas e nenhuma criatividade. Quando estamos conscientes, prestamos atenção a essa corrente de informações. Selecionamos, decidimos, classificamos, processamos e assim por diante, escolhendo o que devemos aceitar ou rejeitar. Quando estamos autoconscientes, acessamos o que estamos fazendo e perguntamos “Como isso é para mim?”. Em dado momento, os três estados coexistem. Não sabemos se isso ocorre com criaturas como o beija-flor. Quando o coração dele acelera a mais de 1000 batimentos por minuto, será que está pensando “Estou cansado”? Essa pergunta brota da autoconsciência. Estará ele pensando “Meu coração bate muito, muito rápido”? Essa é uma afirmação de simples consciência. Não sabemos, mas supomos que um beija-flor não seja autoconsciente, e talvez não seja nem consciente. Sua vida pode ser vivida inconscientemente.

 

Os seres humanos vivem nos três estados. Qual deles vai predominar num dado momento depende de cada um. Para ter um supercérebro precisamos saber reduzir nossos momentos inconscientes e aumentar a consciência e a autoconsciência. Considere este item: “Tenha consciência de suas emoções e de onde elas nascem”. A primeira parte da frase diz respeito à consciência, e a segunda, à autoconsciência. “Estou com raiva” é um pensamento consciente, ao passo que ter um acesso de fúria é inconsciente. É por isso que não interferimos quando alguém tem um acesso de raiva depois de um acidente de carro. Não levamos a sério o que a pessoa diz até que a raiva passe e ela se acalme. Alguns sistemas jurídicos perdoam a inconsciência nos chamados “crimes passionais”. Se você encontrar sua mulher na cama com outro homem e reagir estrangulando-o, estará agindo inconscientemente.
É bom ter consciência, mas estar autoconsciente é ainda melhor. “Estou com raiva” leva você longe só se seu objetivo for controlar a raiva. Saber de onde vem a raiva adiciona o componente da autoconsciência. Permite que você observe um padrão no seu comportamento. Leva em conta que acessos passados não funcionaram. Talvez sua mulher o tenha abandonado por causa disso, ou alguém tenha chamado a polícia. Quando você introduz a autoconsciência, a realidade muda. Você começa a assumir o controle, e o poder de mudar está começando.
A consciência irrefutavelmente penetra o mundo animal. Os elefantes se reúnem ao redor de um elefante bebê que morreu. Permanecem ali e até chegam a voltar aos locais onde ocorreram mortes um ano depois. Eles se aconchegam em volta da mãe que perdeu o filhote. Se a empatia existir fora da definição humana, os elefantes parecem se preocupar uns com os outros. Pelo que sabemos, um minúsculo beija-flor que migra por milhares de quilômetros do México a Minnesota pode ter consciência da rota que está percorrendo, inclusive de sinais visuais, do movimento das estrelas e até do campo magnético da Terra.
No entanto, atribuímos a autoconsciência apenas a nós. (Mas esse orgulho pode acabar. Quando repreendemos um cão por ter feito xixi no tapete, ele dá a impressão de estar envergonhado. Essa seria uma reação autoconsciente.) Nós temos consciência de ter consciência. Em outras palavras, nosso nível de autoconsciência transcende o simples aprendizado e a capacidade de memória do cérebro.
A neurociência reducionista não explica como a consciência pode permitir nos separarmos da atividade do cérebro. O reducionismo reúne dados e revela fatos. Em sua pesquisa, Rudy assume uma posição reducionista, uma vez que seu principal campo de pesquisa é o mal de Alzheimer e os genes ligados a essa doença. Mas a neurociência reducionista não explica quem na verdade experimenta sentimentos e pensamentos. Existe uma lacuna entre consciência e autoconsciência. “Recebi o diagnostico de Alzheimer” é uma afirmação que parte da consciência. Alguém que estivesse inconsciente não perceberia que algo está errado com sua memória. “Odeio e tenho medo do Alzheimer” é uma afirmação que brota da autoconsciência. Portanto, os fatos da doença envolvem os três estados – inconsciente, consciente e autoconsciente –, sem explicar como nos relacionamos com eles. O cérebro simplesmente faz o que faz. Para relacionar os fatos, a mente é necessária.
Naturalmente, essa “consciência de estar consciente” também é possibilitada pelo cérebro. Não alegamos saber, em termos reducionistas, onde a consciência e a autoconsciência podem estar localizadas no cérebro. Elas provavelmente não estão confinadas a uma região específica. Ninguém ainda decifrou esse enigma. Enquanto o cérebro produz sentimentos e pensamentos com os quais nos identificamos, o supercérebro apela para nossa capacidade de sermos o observador, ou a testemunha, distanciado dos pensamentos e sentimentos produzidos pelo cérebro.
Se uma pessoa sujeita a acessos de raiva não é capaz de dar um passo atrás e observar o que acontece durante o acesso, é porque sua raiva está fora de controle. Ela não tem consciência de onde a raiva vem, nem do que fazer com ela, até adquirir um certo grau de distanciamento. Nos exames de imagem, vários centros do córtex cerebral se acendem ou se ofuscam, dependendo de a pessoa ter ou não controle sobre suas emoções. Para muitas pessoas, talvez a maioria, a ideia de se distanciar de suas emoções provoca uma visão assustadora de uma existência estéril e sem paixão.
Mas as emoções mudam dependendo do nosso estado.
Inconsciência: nesse estado, as emoções estão sem controle. Surgem espontaneamente e seguem seu curso. Os hormônios são despertados, levando quase sempre a uma reação de estresse. Se permitidas, as emoções descontroladas criam um estado de desequilíbrio no cérebro. Os centros superiores de tomada de decisão ficam enfraquecidos. Impulsos de medo e raiva não têm quem os controle. Daí pode resultar um comportamento destrutivo, e hábitos emocionais condicionam os circuitos neurais fixos.
Consciência: nesse estado, a pessoa é capaz de dizer “Estou sentindo X”, que é o primeiro passo para equilibrar X. O cérebro racional oferece a capacidade de julgamento, colocando a emoção em perspectiva. A memória nos diz se essa emoção funcionou bem ou mal no passado. Segue-se então uma afirmação mais integrada, com a contribuição dos circuitos superiores e inferiores do cérebro. Quando a pessoa deixa de se descontrolar emocionalmente e é capaz de dizer “Estou sentindo X”, alcançou o primeiro grau do distanciamento.
Autoconsciência: quando alguém está consciente, pode ser qualquer pessoa. Mas, quando está autoconsciente, torna-se uma pessoa única. “Estou sentindo X” transforma-se em “O que acho de X? Aonde isso está me levando? O que isso significa?”. Alguém que esteja com raiva pode controlá-la, fazendo até pouco uso da autoconsciência. Um chefe irritado que dá bronca em seus subordinados ano após ano com certeza tem consciência de que se enraivece. Mas, sem autoconsciência, não consegue ver o que está causando a si mesmo e aos outros. Pode voltar para casa um dia e ficar surpreso de ver que a esposa o deixou. Quando a autoconsciência desponta dentro de você, as perguntas que você se faz sobre o que pensa e sente não têm limite. Perguntas decorrentes da autoconsciência são fundamentais para fazer a consciência se expandir, e, quando isso acontece, as possibilidades são infinitas.
As emoções não são inimigas da autoconsciência. Cada emoção tem o seu papel no todo. Elas são necessárias para dar significado aos acontecimentos. A emoção faz uma lembrança se fixar na mente. É muito mais fácil lembrar o primeiro beijo do que o preço da gasolina pago naquela mesma noite. Como “grudam”, as emoções não são desapaixonadas. Mas o distanciamento permite que nos afastemos de nossas emoções (razão pela qual nem todo primeiro beijo leva a gerar um bebê). Isso pode parecer friamente clínico, mas o distanciamento tem suas alegrias. Uma vez que nossas experiências não ficam tão “grudadas”, podemos transcendê-las e atingir um nível mais alto de experiência, no qual tudo o que existe na vida é importante. Atentos a nossos pensamentos e sentimentos, começamos a criar novos caminhos, que registram não apenas raiva, medo, felicidade e curiosidade, mas sentimentos espirituais de bem-aventurança, compaixão e deslumbramento. A criação da realidade não tem limite. Quando partimos do pressuposto de que a realidade é um prêmio, o que estamos aceitando na verdade não é o mundo “lá de fora”, mas nossas limitações “aqui de dentro”.

(DEEPAK CHOPRA & RUDOLPH E. TANZI  - SUPERCÉREBRO, Como expandir o poder
transformador da sua mente)

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publicado às 00:31


O beijo

por Thynus, em 28.10.14
“Estávamos sentados juntos e, de repente, vi um brilho em seus
olhos, que nunca havia percebido antes. Meus lábios se
aproximaram dela e nos beijamos. Impossível descrever
exatamente o que senti naquele momento, mas parecia
que a minha vida inteira estava resumida naquele
maravilhoso momento de prazer."
(Oscar Wilde)
O Beijo de Auguste Rodin
Há beijos de todo jeito — respeitosos, melosos, românticos, falsos, voluptuosos. Por isso mesmo, também foi representado de centenas de maneiras. Na escultura quase minimalista de Brancusi, datada de 1907, o casal enlaçado demonstra sua paixão com boca na boca, olho no olho, tudo em poucos traços.
O beijo não é apenas prazer dos lábios, é a representação da vida (Deus criou Adão com um sopro) e o símbolo da morte (o último suspiro); além de apontar a traição (o beijo de Judas em Jesus no Getsêmani). Desde tempos imemoriais, existe a crença de que através do beijo é possível se apoderar da vida e da alma de outra pessoa. A célebre história de Drácula, do inglês Bram Stocker, é uma recriação desse mito. Nela, o conde Vlad precisa do sangue de mulheres jovens para viver eternamente. Isso só é possível depois de um beijo terrível, no qual crava seus caninos no pescoço das amantes. Elas morrem, mas têm uma compensação: ganham a vida eterna ao se transformarem em vampiras.
Um beijo é geralmente a primeira vez em que dois povos têm um contato próximo um com o outro. Uma fonte anônima, no Livro dos Beijos, de William Bastão, descreve um beijo como algo que você não pode dar sem fazer exame e não pode fazer exame sem dar. Uma outra fonte anônima diz que você não deve esperar para conhecer melhor alguém antes de beijá-la; você deve beijá-la primeiramente para depois então conhecê-la melhor.
A beleza do beijo é que traduz cada língua e religião. Jr. de Vaughn Bryant, professor do departamento de antropologia no Texas A&M, dita que o primeiro beijo erótico foi trocado aproximadamente 1500 a.C. na Índia. Antes desse tempo não há nenhuma evidência (tabuletas de argila, pinturas em cavernas ou registros escritos) que indiquem o histórico do beijo. Bryant disse também que o ato de friccionar e pressionar os narizes e a troca das línguas entre amantes, se popularizou aproximadamente em 1500 a.C.
Foram os romanos que descobriram o beijo. Eles beijavam-se cumprimentando uns aos outros, beijavam as vestes e os anéis de seus líderes e estátuas dos deuses, mostrando submissão e respeito.
É um fato científico que beijar estimula nosso cérebro a produzir o oxytocina, um hormônio que nos dá aquela ótima sensação que sentimos ao beijar.
Sabe-se também que a química provocada faz com que um beijo alerte outro. Quando beijamos, os interiores de nossas bocas e as bordas de nossos lábios produzem uma substância química que aclama para mais beijos.
Um estudo em 1997, na Universidade de Princeton, concluiu que nossos cérebros estão equipados com os neurônios que nos ajudam a encontrar os lábios de nossos amantes no escuro. Não é nenhuma novidade que muitos casais apreciem se beijar em um teatro escuro.
Acredita-se que o beijo tenha surgido 1.500 anos a.C, época em que os amantes começaram a ser retratados nas esculturas e nos murais dos templos de Khajuraho, na Índia. Mas o naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) em sua teoria das espécies, afirma que a origem dessa carícia é mais antiga. Segundo ele, trata-se de uma sofisticação das mordidas que os macacos trocavam em seus ritos pré-sexuais.
Há também uma tese de que seria uma evolução das lambidas que o homem pré-histórico dava no rosto dos companheiros para suprir a necessidade de sal em seu organismo. Ou um ato de amor da mãe na época das cavernas. Sem utensílios para cortar os alimentos, elas mastigavam a comida antes de depositar na boca de seus filhos pequenos.
De lá para cá o beijo na boca ganhou várias conotações. Na Idade Média, era visto como uma forma de selar acordos. Com a boca fechada, os homens se beijavam com firmeza. O toque leve demonstrava traição. Com o tempo foi perdendo a força devido às pestes que dizimavam populações.
Aos poucos o beijo ficou restrito ao convívio amoroso.
Entre os persas, na Antigüidade, o beijo na boca era usado para saudar um amigo. Mas só valia para pessoas do mesmo nível. Na Grécia, beijo na boca é só entre família — pais e filhos ou irmãos — ou amigos, muito amigos.
Esses hábitos, de um jeito ou de outro, chegaram até nós. Vai dizer que não? Mais para frente, na Inglaterra, lá pelo século XII, o beijo era um pacto entre o vassalo e seu senhor, que por sua vez o protegia. O beijo selava o pacto e só se quebrava com a morte de um dos dois.
O beijo é uma das mais antigas demonstrações de carinho da humanidade.
Beijo, beijinho, beijoca, ósculo... Vários podem ser os termos para um dos gestos mais afetuosos do ser humano. É muito comum o bebê aprender a dar beijinhos antes mesmo de falar. Na infância, já sabendo o que é o beijo, a criança depara com histórias como a da Bela Adormecida. Na préadolescência, o beijo ganha, de fato, uma relação mais sensual. A menina passa a imaginar que aquele príncipe de faz-de-conta se parece muito com o colega da carteira ao lado. E vice-versa.
Assim como os relacionamentos, o beijo também amadurece. Basta se lembrar do primeiro. Qual adolescente não se desesperou pelo fato de não saber beijar na iminência do primeiro encontro? "Treina na laranja", aconselham os amigos. Depois, os mais experientes não conseguem entender como alguém pode achar que beijar e chupar laranja são a mesma coisa.

(Pedro Paulo Carneiro - Dossiê do beijo: 484 formas de beijar)
Beijo de Brancusi

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publicado às 21:19


A mentira

por Thynus, em 27.10.14
 
Existem quatro tipos básicos de mentiras - a Mentira Branda, a Mentira Benéfica, a Mentira Maliciosa e a Mentira Dolosa. Como já dissemos, a Mentira Branda faz parte de nosso tecido social e nos impede de nos ferirmos e insultarmos uns aos outros com a verdade dura, fria e dolorosa. A Mentira Benéfica é usada pelas pessoas com a intenção de ajudar. É o caso do fazendeiro alemão que escondia judeus dos nazistas e o negava para as autoridades. Ele estava mentindo heroicamente. O bombeiro que resgata uma criança de uma casa em chamas e mente para ela dizendo que seus pais estão bem está protegendo-a por algum tempo de sofrer um trauma ainda maior. O médico que mente ao paciente no leito de morte para elevar-lhe o ânimo, ou que lhe receita medicamentos inócuos - placebos - tecnicamente está mentindo.
A mentira dolosa é a mais perigosa, porque a intenção do mentiroso nesse caso é ferir ou tirar vantagem da vítima em benefício próprio. Uma conhecida nossa, Gerri, era mãe solteira, saía pouco, e quando conheceu um homem que lhe pareceu terno, sensível, inteligente, divertido e que se interessou por ela, ficou encantada. Ao contar para sua amiga Margie que estava saindo com aquele homem, ouviu, desolada, que ele era um notório conquistador, uma pessoa em quem não se podia confiar. Gerri passou então a evitá-lo. Um mês depois, ela dá de cara com ele no shopping center do bairro - abraçado com a sorridente Margie.
A mentira dolosa tem duas formas principais: ocultação e falsificação. Na ocultação, o mentiroso não conta propriamente uma mentira, ele sonega informação. Digamos, por exemplo, que Gerri acabasse descobrindo, através de outra amiga, que, de fato, esse homem enganara uma ex-namorada, fazendo-a avalista de um empréstimo e dando-lhe o calote.
Ninguém poderia culpar Gerri por não avisar Margie, pois Margie talvez não acreditasse; mas se Gerri tomasse a decisão de não alertá-la seria também culpada de mentir, desta vez por uma ato de ocultação. Na falsificação, uma informação inverídica é apresentada como verdadeira. Margie deu a Gerri informações falsas sobre o caráter de um homem, visando tirá-lo da rival. Este tipo de mentira é um ato intencional, jamais um acidente.
Mentiras maliciosas são motivadas por vingança ou para obter vantagens. Pessoas em evidência como atores, ricaços e políticos são os principais alvos das mentiras maliciosas. Os jornalistas que oferecem as histórias aos jornais e revistas sensacionalistas, mesmo sabendo que são inverídicas, também se beneficiam tanto quanto os rivais das pessoas atingidas no mundo artístico, dos negócios e da política.
A mentira maliciosa e a dolosa costumam ser usadas como armas em situações competitivas. Pessoas que as inventam pretendem destruir o caráter e a reputação de suas vítimas, com resultados que podem ser arrasadores e duradouros.
Uma empresa, por exemplo, pode espalhar a falsa informação de que sua principal concorrente está em dificuldades financeiras. De modo similar, não é incomum um político divulgar rumores de que um adversário seu tem um comportamento sexual impróprio. Um casal teve a sua escola e sua reputação destruídas porque se espalhou o boato de que molestavam sexualmente os alunos. Quando a verdade foi restabelecida, era tarde, porque o dano fora enorme.

(Bárbara & Allan Pease - Por que os homens mentem e as Mulheres choram?)

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publicado às 20:27


A VIAGEM DA FAMA

por Thynus, em 27.10.14
A intriga, a maledicência, a prosápia falada do que se
não ousou fazer, o contentamento de cada pobre bicho vestido
com a consciência inconsciente [?] da própria alma,
a sexualidade sem lavagem, as piadas como cócegas de macaco,
a horrorosa ignorância da inimportância do que são...
Tudo isto me produz a impressão de um animal monstruoso
e reles, feito no involuntário dos sonhos, das códeas húmidas
dos desejos, dos restos trincados das sensações.

(Fernando Pessoa - O livro do desassossego)

A Inveja, a Maledicência e o Furor pertencem à casta 
que reconhece o Ódio por pai. 
Exterminai os pais e não tereis que vos ocupar dos descendentes.
(WILLIAM WALKER ATKINSON - A Força do Pensamento)

"Hoje ser é aparecer, vivemos numa sociedade da imagem 
e quem não aparece é como se não existisse...
Assim, meu Deus!, o esforço que se faz para aparecer, para se mostrar, para ser visto!...
Até certo ponto, é natural. Precisamos de ser conhecidos e reconhecidos. Se conquistássemos um lugar na história, teríamos superado de algum modo a angústia da morte, pois tínhamos vencido o anonimato, alcançando uma certa forma de imortalidade...
Por outro lado, quantos entraram na história pela porta errada!... Quantos cobardes não foram guindados à categoria de heróis apenas porque fugiram, mas pela porta que se veio mais tarde a mostrar que foi a porta certa!... Quantos medíocres não entraram na boca da fama sem qualquer mérito, mas apenas porque as circunstâncias os arrastaram para lá!... Em contraposição, quantos homens e mulheres  com mérito real não acabaram por ficar enterrados para aí..., na ignorância, no desprezo..., simplesmente porque tudo lhes foi adverso!...

A pergunta que surge então é a seguinte: O que é decisivo: ficar com um grande nome na história? Ou, pelo contrário, haverá algo de realmente universal dado a todos e que é determinante para qualificar uma existência humana autêntica? Algo que seja da ordem do ser e não do ter, da ordem do ser e não do mero parecer e aparecer?...
Esse algo, essa capacidade e realidade é o amor. Não o amor-paixão, mas o amor verdadeiramente comprometido com o bem de alguém, com o bem dos outros."

Anselmo Borges - Janelas do (In)Visível

 
Na mesma noite — porque os amantes ficaram entregues a madrugada toda aos seus amores — a Fama, filha da Terra, saiu de sua caverna.
A Fama é uma deusa estranha: pequena, quando sai de casa, vai aumentando progressivamente de tamanho enquanto avança no cumprimento de sua missão. Por enquanto é apenas uma minúscula criatura, portando uma pequena trombeta em suas mãozinhas; uma menina, ainda. Mas é uma deusa veloz, por sua própria natureza; por isto não anda, mas voa, agitando graciosamente suas duas asas, que escondem uma miríade de olhos, feito o arguto Argos e o pavão espaventado.
A Fama é uma deusa de aparência encantadoramente bela, embora aos olhos dos amantes do pudor possa parecer às vezes extraordinariamente feia.
Com suas asas amplas ela fende os ares da ardente Líbia; o dardejante carro de Apolo apenas percorreu a metade do seu percurso e a núbil Fama já é agora uma moça crescida, de espantoso viço. Seu magnetismo e charme são inigualáveis: quase nenhum outro ser tem como ela o dom maravilhoso da persuasão. Por isto a sua estada em qualquer lugar é muito rápida; não precisa mais do que alguns instantes para transmitir a sua mensagem e ser acreditada imediatamente. Suas mensagens são quase sempre fidedignas e não têm nenhuma eiva de perversidade.
Ela está agora na corte do rei Jarbas, na Getúlia, e já fez soar pelos ares a sua divina trombeta — pois a Fama jamais desce à Terra para transmitir as suas novas — e já vai deixando aquele reino, pronta para levar adiante o seu ofício.
Entretanto, logo no seu encalço, vem outro ser, de natureza semelhante. É apenas um pouco mais discreto e tem a espantosa capacidade de dobrar de tamanho e volume a cada milímetro que avança. É, assim, um imenso ser alado, que rola com asas pelos céus, tendo uma aparência francamente repulsiva: gordo -imensamente gordo -, com bochechas estufadas que fazem lembrar o velho Bóreas, o poderoso vento do norte. Sua boca, entretanto, é pequena, quase um orifício, pois este ser não fala, mas antes cicia as suas novas.
Quando chega, cercado sempre pela Calúnia e pela Maledicência, amigas inseparáveis, a primeira coisa que faz é dizer, baixinho, ao primeiro que encontra, com voz maviosa e infinitamente sedutora:
— Venha, incline agora seus ávidos ouvidos a meus discretos lábios. Este deus é o Boato, irmão mais novo da graciosa Fama.

(A. S. Franchini / Carmen Seganfredo - AS 100 MELHORES HISTÓRIAS DA MITOLOGIA)
 
 
Um rapaz procurou Sócrates e disse-lhe que precisava contar-lhe algo sobre alguém.
Sócrates ergueu os olhos do livro que estava lendo e perguntou:
- O que você vai me contar já passou pelas três peneiras?
- Três peneiras? - indagou o rapaz.
- Sim ! A primeira peneira é a VERDADE. O que você quer me contar dos outros é um facto? Caso tenha ouvido falar, a coisa deve morrer aqui mesmo. Suponhamos que seja verdade. Deve, então, passar pela segunda peneira: a BONDADE. O que você vai contar é uma coisa boa? Ajuda a construir ou destruir o caminho, a fama do próximo? Se o que você quer contar é verdade e é coisa boa, deverá passar ainda pela terceira peneira: a NECESSIDADE. Convém contar? Resolve alguma coisa? Ajuda a comunidade? Pode melhorar o planeta?
Arremata Sócrates:
- Se passou pelas três peneiras, conte !!! Tanto eu, como você e seu irmão iremos nos beneficiar. Caso contrário, esqueça e enterre tudo. Será uma fofoca a menos para envenenar o ambiente e fomentar a discórdia entre irmãos, colegas do planeta.
 

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publicado às 19:08

1. O Domingo passado não foi de grande festa para toda a Igreja. Está em curso um Sínodo dos Bispos no qual foi possível discutir temas considerados incómodos, como o do acolhimento eclesial dos homossexuais e dos divorciados recasados. Do relatório final da primeira etapa deste Encontro sobre a família esperava-se mais e melhor. Por outro lado, a beatificação do papa Paulo VI, responsável da Humanae Vitae (HV) – adiando questões que há muito deveriam estar superadas –, também não foi um sinal muito encorajador. Mais do mesmo.
Não vale a pena dizer que isso não tem importância. Cada um ficará onde já estava. Os casais que se identificam com a doutrina da HV e a da Familiaris Consortio (J. Paulo II) suspenderam os seus receios. Quem aguardava, para já, uma alteração dessas posições, terá de esperar por melhores dias. O Sínodo sobre a família não está encerrado. Cada dia que passa, a realidade vai mostrando que a “Pastoral Familiar” não é a mais adequada, pois se “os pastores” conhecessem e escutassem as suas “ovelhas” não se contentariam apenas com as do rebanho privilegiado.
O Papa Francisco lançou uma esperança e, na sua prática, mostra-se fiel à Alegria do Evangelho. No entanto, foi-se apercebendo de que os apelos feitos à hierarquia da Igreja não têm tido os frutos desejáveis. Sentiu como estavam activos, na preparação e realização do Sínodo, os funcionários da indústria da conserva eclesiástica, ao ponto de ter de afastar o cardeal Raymond Burke, presidente do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica (Supremum Tribunal Signaturae Apostolicae) [1].
Mario Bergoglio surgiu com um programa de reforma do papado e da cúria romana para lançar a Igreja como uma realidade evangelizadora, em todas as suas instâncias, vendo o mundo e actuando a partir das periferias. Trabalha por uma Igreja, toda ela, em movimento. Seria um desastre se as conferências episcopais, as dioceses, as paróquias, os movimentos, as congregações religiosas se comportassem como meros observadores das iniciativas, das tomadas de posição, das intervenções do Papa. É a forma mais requintada de o atraiçoar. Mas, enquanto uns ficam parados, outros atiram-lhe pedregulhos para o caminho.
Não podemos deixar este Papa sozinho e comportarmo-nos apenas como espectadores benévolos e simpatizantes das suas atitudes.

2. Seria péssimo que agora nos deixássemos enredar em discussões que se arrastam desde a HV, desde 1968. O mundo não pára e o próprio passado, se não for congelado, está sempre em devir. Um dos méritos deste papado tem consistido, precisamente, em descongelar doutrinas, atitudes, normas consideradas irrevogáveis, definitivas, situadas fora do tempo e valendo para todo o sempre. Entrar numa casuística de moral sexual, dentro de um universo humano isolado por uma concepção de modelos imutáveis de família, é o caminho do farisaísmo.
Ganharíamos muito se lêssemos e interpretássemos as narrativas dos Evangelhos como belas e eficazes peças de teatro. Têm acção, controvérsias, actores e existem para colocar uma assembleia em movimento. A nossa tentação é a de extrair desses textos apenas princípios doutrinais, sentenças e normas de conduta, reduzindo tudo a lições de moral. As reduções de Jesus eram de outro tipo.

3. Neste Domingo, passada a discussão sobre o tributo a César e a história hilariante da mulher de sete maridos da lei bíblica – de quem será ela depois da ressurreição? – surge um aproveitamento dos escribas contra os fariseus. Vale a pena ler e imaginar.
"Constando-lhes que Jesus reduzira os saduceus ao silêncio, os fariseus reuniram-se em grupo.  Um deles, que era legista, perguntou-lhe para o embaraçar: 'Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?' Jesus disse-lhe: Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas." (Mt 22, 34-40 e Mc 12,28-34; Lc 10,25-28; Jo 13,33-35)”.
S. Paulo ainda foi mais sintético: “não fiqueis a dever nada a ninguém, a não ser isto: amar-vos uns aos outros. Pois quem ama o próximo cumpre plenamente a lei. De facto: Não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, bem como qualquer outro mandamento, estão resumidos numa só frase: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo. Assim, é no amor que está o pleno cumprimento da lei (Rm 13, 8-10)”.
Creio que o Papa Francisco acredita nisto.

[1] O Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica julga: 1. as queixas de nulidade e os pedidos de restitutio in integrum contra as sentenças da Rota Romana; 2. os recursos, nas causas acerca do estado das pessoas, contra a recusa de novo exame da causa por parte da Rota Romana; 3. as alegações de desconfiança e outras causas contra os Juízes da Rota Romana pelos atos realizados no exercício da sua função; 4. os conflitos de competência entre Tribunais, que não dependem do mesmo Tribunal de apelo.

(Frei Bento Domingues)

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publicado às 15:22


Igreja, sexo e família

por Thynus, em 26.10.14

Aí está um tema sobre o qual a Igreja tem imensa dificuldade em falar. À partida, porque é em si mesmo difícil. Mas a dificuldade aumenta na Igreja, porque, para lá de outras razões, que talvez Freud ajudasse a explicar, está entregue ao papa, a cardeais, bispos e padres, que devem ser celibatários e não têm propriamente família. Mas que o tema é relevante, mostra-se, por exemplo, pela enorme importância dada pelos media ao Sínodo que lhe foi dedicado, cuja primeira fase - segue-se um ano de reflexão, que culminará na nova assembleia sinodal, em Outubro de 2015, e na Exortação final do Papa Francisco, nos inícios de 2016 - concluiu no domingo passado.
Quem foram os vencedores e os perdedores? Há quem insinue que o Papa Francisco não conseguiu levar adiante o seu projecto. Não creio nessa tese. É preciso perceber que se trata da primeira fase do Sínodo. Depois, sobretudo, criou-se um clima e abriram-se portas que já não é possível fechar. Votou-se um texto que, se em relação aos divorciados e aos homossexuais, não obteve os dois terços necessários para a aprovação, venceu, mesmo aí, por forte maioria, continuando, portanto, o debate. Que haja tomadas de posição diferentes, é sinal de vida, embora a Igreja não esteja habituada a este estilo de abertura democrática. Teve alto significado o facto de o Papa ter mandado votar os vários pontos e publicar os resultados, para que haja transparência e cada um assuma as suas responsabilidades.
A Igreja não abdica da doutrina, mas esta tem de ser aplicada na vida real, atendendo a dois princípios: o da compreensão e misericórdia e o da não exclusão. Penso, assim, possível antecipar, em termos gerais, o que se seguirá.
1. O casamento enquanto união em amor fiel e estável por toda a vida, aberta à procriação, lugar privilegiado de apoio mútuo e para a educação dos filhos, é um ideal de que se não deve abdicar e pelo qual vale a pena bater-se. Mas, por outro lado, o divórcio é uma realidade que não está em vias de declínio, e por razões múltiplas. Há situações e situações. É inegável um ambiente de hedonismo, de sociedade "líquida" e recusa de compromissos perenes. Pense-se também que há 100 anos a esperança de vida na Alemanha era à volta de 35 anos, sendo hoje de mais de 70; no tempo de Jesus, era à volta de 28 anos. Depois, se tradicionalmente parecia que os casamentos aguentavam mais, isso também se devia ao facto de as mulheres terem de aceitar ficar na penumbra e por vezes quase escravizadas, o que felizmente hoje não aceitam. E há aquele pensamento de Pascal, na linha da identidade processual e narrativa da pessoa: "O tempo cura as dores e as querelas, pois mudamos: já não somos a mesma pessoa. Ele já não ama esta pessoa que amava há dez anos. É isso: ela já não é a mesma, e ele também não. Ele era jovem, ela também; ela agora é totalmente diferente. Talvez ele ainda a amasse se ela fosse como era."
De qualquer modo, pergunta-se: se, divorciados, recomeçarem a vida em amor, em dignidade, se tiverem filhos que se esforçam por educar humana e cristãmente, poderá a Igreja negar-lhes a participação plena na vida eclesial, incluindo a comunhão?
2. Será reconhecido o valor dos casamentos civis e também das uniões de facto e da coabitação, que até poderão, nalgumas circunstâncias, desembocar no sacramento do matrimónio. Quantos sabem que só a partir do século IX foi exigida no casamento a presença de um padre e só no século XII se começou a definir o matrimónio como sacramento?
3. Quanto à homossexualidade, não se espere o reconhecimento do casamento de pessoas do mesmo sexo. Como já aqui expliquei, a linguagem eclesiástica não fala em casamento, que vem de casa, mas em matrimónio, que vem de mater (no genitivo, matris), mãe, o que significa que, segundo a Igreja, a abertura à possibilidade da procriação é constitutiva do casamento. Mas a linguagem mudou: os homossexuais "devem ser acolhidos com respeito e delicadeza; deve ser evitada qualquer marca de discriminação injusta". Será dada especial atenção às crianças que vivem com pessoas do mesmo sexo.
4. Evidentemente, será necessário rever a questão da contracepção, o que implica rever o pressuposto de uma natureza fixa e imóvel, centrada na biologia. A sexualidade humana não se reduz ao biológico e é próprio da natureza de o homem ser histórico e cultural e intervir artificialmente, com responsabilidade, na natureza.
5. Em todos estes pontos vale um princípio tradicional, retomado por Bento XVI, quando era professor: "Acima do Papa encontra-se a própria consciência, à qual é preciso obedecer em primeiro lugar; se fosse necessário, até contra o que disser a autoridade eclesiástica." Não vale tudo, mas, para lá da moral reduzida a normas e proibições, é preciso educar para a autonomia, para a liberdade na responsabilidade e dignificação.

(Anselmo Borges)

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publicado às 13:38


NÃO VIVA PARA A APOSENTADORIA

por Thynus, em 26.10.14
Trabalhar mais horas do que seu colega talvez
aumente em 50% suas chances de promoção, mas
você sabe em que percentual aumenta o risco de
infarto? Ou de ter um derrame? Ou de o
casamento sofrer danos irreparáveis pela falta de
atenção dada ao cônjuge?

(Cerbasi, Gustavo, 1974- Adeus, aposentadoria)
 
Quando as pessoas pensam em
aposentadoria elas, em geral, sentem-se
muito felizes e tem tantos planos que nem
caberia no que lhes resta de vida. Mas
freqüentemente se entalam logo ali, a idéia
tão sedutora do ócio remunerado vai
cedendo espaço a uma certa sensação de
vazio e inadequação. Falta-lhes a principal
via de acesso ao mundo que é o trabalho.
Então não é incomum vermos magníficos
planos de aposentadoria serem frustrados.
É preciso uma certa sabedoria e alguma
experiência com liberdade para que
consigamos descobrir o que fazer quando já
não formos comandados.

(Manoelita Dias dos Santos - A lógica da emoção)
 
Conscientemente ou não, muitas pessoas praticamente vivem para a aposentadoria. Elas pensam em como a vida será maravilhosa sem o fardo do trabalho cotidiano fora de casa. Algumas pessoas chegam a contar os anos, meses e mesmo os dias que antecedem a aposentadoria. É comum as pessoas adiarem a alegria, contentamento e satisfação até “mais tarde”. É quase como se elas estivessem “presas”, como se estivessem cumprindo uma sentença, esperando pacientemente pela sua liberdade.
Certamente a maioria das pessoas não vai tão longe; costuma ser mais sutil do que isso. Contudo, uma enorme porcentagem de pessoas espera que a vida futura seja melhor do que é agora. Freqüentemente, devaneios assim como conversas com colegas e amigos deixam claro que a expectativa é que “algum dia” será melhor do que agora - quando você estiver aposentado, tiver mais dinheiro, liberdade, sabedoria, tempo para viajar ou o que for.
Esse tópico me apaixona porque para mim está claro que pensar que “algum dia a vida será melhor” é um modo garantido de se preparar para uma carreira longa e cansativa. Em vez de apreciar cada dia, estar aberto a novos desafios e oportunidades, partilhar seus dons com outros e estar disposto a aprender e ser inspirado pelas suas experiências profissionais, você basicamente escolhe, em vez disso, deixar a vida esperando, fingir, ficar preso num hábito, e até certo ponto, sentir pena de si mesmo.
Na minha opinião, é muito melhor despertar a cada manhã e se recordar do velho ditado: “Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida.” Decida respeitar o dom da vida se esforçando hoje da melhor maneira possível, independentemente do que faça para viver. Veja se consegue manter a objetividade quando os outros não conseguem, inspirar outra pessoa ou fazer uma contribuição, por pequena que seja, à vida de alguém. Lembre-se de que todos os dias foram criados iguais, que hoje é tão importante quanto qualquer dia futuro depois da aposentadoria.
Outro motivo importante para evitar viver para a aposentadoria é que ao agir assim você aumenta a possibilidade do desapontamento quando ela chegar. Uma coisa estranha acontece quando adiamos a felicidade até uma data posterior. É como se estivéssemos ensaiando a infelicidade. Viramos especialistas nisso. Quando dizemos a nós mesmos que seremos felizes mais tarde, o que estamos realmente dizendo é que a nossa vida não é boa o bastante agora. Temos de esperar até que as circunstâncias sejam diferentes; então esperamos e esperamos. Milhares de vezes, com a passagem de muitos anos, lembramos a nós mesmos, na privacidade de nossas mentes, que quando as coisas forem diferentes - em algum momento futuro - ficaremos satisfeitos e felizes. Mas agora precisamos nos virar com o que temos.
Finalmente, o grande dia chega - o primeiro dia da aposentadoria. Viva! Mas aqui está o problema. Como você provavelmente sabe, os velhos hábitos custam a morrer. Se você fuma ou gagueja, é difícil parar. Se você é muito crítico ou defensivo, é difícil mudar. Se possui maus hábitos alimentares e físicos, é preciso uma enorme disciplina para fazer uma mudança definitiva. É difícil demais mudar.
Por que achamos que nossos hábitos mentais são diferentes? Não são, não. Na verdade, em alguns casos, aprender a pensar de maneira diferente é o hábito mais difícil de mudar. Todos nós, de vez em quando, somos aprisionados pelos próprios pensamentos. Acostumamo-nos a pensar de um certo modo - de tal maneira que não podemos ver nada de outro modo.
Se você passa anos e anos pensando que a vida não é boa o bastante agora - que algo ainda será melhor -, é ridículo acreditar que quando chegar a aposentadoria você vai começar a pensar diferente; que a vida vai subitamente ser boa o bastante. De jeito nenhum. Isso não vai acontecer; em vez disso, é provável que aconteça o contrário. A sua mente vai continuar a acreditar que algo ainda será melhor. Você tem o hábito de ver a vida desse jeito, e isso não vai parar simplesmente porque a sua vida externa mudou.
A maneira de evitar esse problema é dedicar-se à felicidade agora - aproveitar ao máximo o trabalho ou a carreira que você tem agora, vê-lo como uma aventura. Faça disso seu modo habitual de pensar sobre o trabalho e sua presença no mundo. Pratique esse tipo de pensamento saudável e otimista no cotidiano, a cada instante. Se o fizer, quando a aposentadoria chegar, seja daqui a um ano, seja daqui a vinte, você vai saber o segredo da felicidade, que não existe caminho para a felicidade; a felicidade é o caminho. Isso vai ser sua segunda natureza.
Assim, vá em frente e antecipe uma aposentadoria fantástica. Planeje bem. Mas faça a si mesmo um grande favor: não perca um único dia no caminho.

(Richard Carlson, Ph.D. - de Não faça tempestade em copo d’água...)

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publicado às 12:49


MENORES PERIGOSOS DEMAIS

por Thynus, em 24.10.14
 
Sempre que nos deparamos com crimes bárbaros cometidos por crianças somos tomados por um sentimento de grande perplexidade. Isso acontece porque, como seres humanos, temos grande dificuldade em acreditar que existam crianças genuinamente más. Crianças costumam ser associadas de forma universal à bondade, à pureza e à ingenuidade.
Reconhecer que a maldade existe de fato é uma realidade com a qual não gostamos de lidar. Quando estamos diante de crianças, essa descrença toma proporções muito maiores. Ficamos estarrecidos com aquilo que desafia a racionalidade humana e foge à compreensão do que consideramos ser uma criança ou uma pessoa normal.
Como exemplo e motivo de reflexão, podemos observar alguns casos de um passado recente:
Em fevereiro de 1993, os garotos Jon Venables e Robert Thompson, ambos com 10 anos de idade, assassinaram brutalmente James Bulger (de apenas 2 anos), perto de Liverpool, Inglaterra. Esse foi um dos crimes que mais chocou a Grã-Bretanha e o mundo no século passado. James foi sequestrado, abusado, torturado e morto com golpes de pedras e ferros na cabeça. Os assassinos tentaram esconder o corpo no fundo de um poço, mas acabaram forjando um desastre de trem e largaram o corpo sobre os trilhos da linha férrea. O bebé foi cortado ao meio. Jon e Robert foram julgados como adultos e condenados à prisão por prazo indeterminado, pela natureza bárbara do crime.
Sob protestos e indignação populares, em 2001, os assassinos foram soltos de forma sigilosa e com novas identidades.
Se a Inglaterra foi dura demais em condenar os dois assassinos com idades tão precoces ou se afrouxou excessivamente ao libertá-los (mesmo sob vigilância policial), ainda é motivo de muitos debates e controvérsias. No entanto, em nosso íntimo, não podemos deixar de fazer algumas indagações:
Como dois indivíduos de apenas 10 anos, deliberadamente, puderam planejar um crime com tamanha crueldade? É possível que eles não tivessem a menor ideia do que estavam fazendo? Será que toda a trama sórdida, requintada de maldade e de total frieza "simplesmente" foi fruto de mentes imaturas e inconsequentes? Ouso dizer que, independentemente da idade dos assassinos, as respostas se resumem ao fato de serem garotos perversos. Vem à tona novamente a velha história do sapo e do escorpião: é a natureza!
Nos Estados Unidos volta e meia a população se defronta com casos que envolvem crianças que matam de forma impiedosa. Em 1998 um pesadelo se abateu sobre Jonesboro, uma pequena cidade no Arkansas. Mitchell Johnson, de 13 anos, e Andrew Golden, de apenas 11, foram responsáveis por um tiroteio em sua escola que matou cinco e feriu gravemente 11 pessoas. Eles chegaram camuflados, fortemente armados e fizeram soar o alarme de incêndio para obrigar estudantes e professores a saírem do edifício. Esconderam-se no bosque em frente e dispararam indiscriminadamente 27 tiros com as armas que tinham roubado da casa do avô de Golden. Além da frieza explícita, Johnson e Golden premeditaram o massacre.
O Brasil, infelizmente, também faz parte desse cruel panorama. É estarrecedor observar que crianças que deveriam estar brincando ou folheando livros nas escolas trafiquem drogas, empunhem armas e apertem gatilhos sem qualquer vestígio de piedade. Lógico que não podemos negar que muitas delas são influenciadas pelo meio social ao redor, no entanto outras crianças possuem uma inclinação voraz e inata ao crime. Assim como adultos psicopatas, crianças com essa natureza são desprovidas de sentimento de culpa ou remorso, características inerentes às pessoas "de bem". São más em suas essências.

Idade penal e idade biológica
Em fevereiro de 2007 um crime monstruoso chocou todo o país. O menino João Hélio Fernandes, de apenas 6 anos, foi arrastado até a morte por mais de sete quilómetros pelas ruas da Zona Norte do Rio de Janeiro. O crime ocorreu depois que o carro em que João se encontrava foi assaltado.
A mãe e a irmã mais velha de João conseguiram escapar, mas o garoto ficou preso ao cinto de segurança, enquanto os criminosos arrancavam com o carro em alta velocidade. Os bandidos ignoraram todos os apelos feitos por pedestres e motoristas que berravam indicando que havia uma criança presa do lado de fora do carro. Segundo uma  testemunha, eles andavam em ziguezague com o veículo tentando se livrar do menino.
Após a prisão dos cinco envolvidos, constatou-se que um deles era menor (16 anos).
Esse crime provocou consternação, revolta e mobilizou toda a sociedade pela sua brutalidade. O Brasil enfurecido protestou contra a violência e o descaso das autoridades. Em ocasiões como essas, o clamor social acaba demandando atitudes por parte dos nossos legisladores, com o intuito claro de dar uma satisfação imediata à sociedade. Não é de hoje que vários projetos são apresentados com o objetivo de mudar as leis que cuidam de menores infratores, mas que ao final caem no esquecimento.
Em resposta a essa comoção, aquilo que estava guardado na gaveta pulou para a ordem do dia.
Entre essas medidas podemos destacar as seguintes:
1. Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 171/1993, de autoria de Benedito Domingues, que visa a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Essa proposta está pronta para pauta de votação.
2. Projeto de Lei ns 2847/00, do deputado Darcísio Peron-di (PMDB-RS), que altera o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Seu objetivo é aumentar o tempo máximo de internação de adolescentes que entram em conflito com a lei penal. O prazo, que atualmente é de três anos, passaria para oito anos quando se tratasse dos seguintes crimes: tráfico de drogas e quando houver "grave ameaça ou violência à pessoa" (homicídios e crimes hediondos como sequestro, latrocínio e estupro).
O projeto, que já foi aprovado pela Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados, ainda está em tramitação e divide opiniões. Seu relator foi o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP).
3. Projeto de Lei do Executivo que visa reformular a aplicação de medidas socioeducativas. A principal mudança é a possibilidade de se estabelecer medidas legais específicas para cada menor.
Seja qual for o ângulo que utilizamos para avaliar e discutir o estabelecimento da idade penal em nossa sociedade, sempre nos deparamos com conflitos ideológicos, legais ou mesmo científicos que, na maioria das vezes, emperram a tomada de decisões que poderiam beneficiar toda a sociedade. De fato, o assunto é de extrema complexidade e essas discussões vêm de muito tempo.
Apesar de todo o desenvolvimento racional dos seres humanos, existe até hoje uma grande dificuldade em se estabelecer o momento exato a partir do qual o indivíduo pode ser considerado responsável por suas ações. E, a partir daí, ser legalmente responsabilizado pelo que faz ou deixa de fazer. O desafio para se fixar uma idade mínima para a imputação penal é tão complexo que em todos os países do mundo é motivo de muita polêmica e acaloradas discussões.
Para que tenhamos uma ideia da dimensão do problema, podemos observar as diversas idades mínimas para responsabilidade criminal em diferentes países:
• Austrália e Suíça - 7 anos;
• Equador-12 anos;
• Dinamarca, Finlândia e Noruega - 15 anos;
• Argentina, Chile e Cuba - 16 anos;
• Polónia - 17 anos;
• Colômbia, Luxemburgo e Brasil - 18 anos;
• EUA- em alguns estados, a partir dos 6 anos de idade. Cabe ao juiz decidir se o jovem infrator deverá ser julgado como adulto ou não;
• Inglaterra - desde 1967 não tem idade mínima preestabelecida. Uma criança de 10 anos (ou menos) pode ser julgada como adulto, dependendo da gravidade do crime e de acordo com os costumes do próprio país.
A própria ONU (Organização das Nações Unidas), através de seu órgão destinado à infância e à adolescência (a Unicef), recomenda em seu manual que a maioridade penal se inicie entre 7 e 18 anos. Convenhamos que uma margem de 11 anos (entre a menor e a maior idade penal) demonstra, de forma clara, toda a incerteza ao redor do tema.
Não podemos esquecer que a necessidade de adotarmos uma idade penal mínima tem como base a ideia - universalmente aceita - de que crianças não possuem discernimento sobre o certo e o errado. Além do mais, elas ainda não desenvolveram controle adequado sobre seus impulsos. Dessa forma, crianças não podem ser culpabilizadas por suas atitudes ilícitas. Por outro lado, existe também unanimidade em responsabilizar adultos sadios por seus crimes.
O dilema surge exatamente "no meio do caminho", entre a criança sem discernimento e o adulto responsável: a adolescência. O porquê da dificuldade em se estabelecer a tal idade penal mínima me parece clara: a transição da criança inconsequente (sem discernimento) e o adulto responsável (ciente de seus atos) é um processo contínuo, que faz parte do desenvolvimento psíquico. Assim, é impossível se estabelecer uma idade padronizada para todos, uma vez que as pessoas amadurecem e se desenvolvem de forma e em tempos distintos.
O Brasil, como outras inúmeras nações, adota os 18 anos como maioridade penal. Ou seja, idade em que, diante da lei, um jovem passa a responder inteiramente por seus atos, como um cidadão adulto. Entre 12 e 17 anos, o jovem infrator não poderá ser encaminhado a um sistema penitenciário comum, mas sim deverá receber tratamento diferenciado daquele do adulto. As penalidades a eles imputadas são chamadas de medidas socioeducativas. Já as crianças (até 12 anos) são inimputáveis, ou seja, não podem ser julgadas ou punidas pelo Estado.
A maioridade penal hoje estabelecida se deve ao fato de que alguns pesquisadores e muitos legistas abraçam a tese de que durante a adolescência o cérebro está sujeito a intensas transformações biofísicas. Dessa forma, os comportamentos impulsivo, imediatista e explosivo dos adolescentes são explicados, em parte, pela imaturidade biológica de seus cérebros, o que impede que tenham um comportamento plenamente adequado. Embasada nesse pressuposto, a própria psiquiatria ainda hoje não pode firmar o diagnóstico de psicopatia antes dos 18 anos idade.
Por outro lado, pesquisadores que estudam especificamente personalidades infantojuvenis postulam que algumas pessoas demonstram de maneira indubitável possuírem uma estrutura de personalidade problemática ainda precocemente. Hoje em dia um jovem (criança ou adolescente) que apresenta características como insensibilidade, mentiras recorrentes, transgressões às regras sociais, agressões, crueldade etc. recebe o diagnóstico de Transtorno da Conduta (antes conhecido como Delinquência).
Por ser um transtorno infinitamente mais grave do que meras rebeldias ou traquinagens juvenis e que, na sua forma mais severa, se assemelha em muito às características psicopáticas, vários estudiosos defendem a possibilidade de se estabelecer o diagnóstico de psicopatia antes mesmo dos 18 anos.
Corroborando tal hipótese, cientistas de diversos países (EUA, Inglaterra, Canadá, Austrália etc.) vêm testando uma versão adaptada do PCL-R (checklist de psicopatia) para jovens. A aplicação do checklist em crianças e adolescentes com comportamentos frios e transgressores revelou que eles apresentam critérios de psicopatia semelhantes aos dos adultos, inclusive com os mesmos riscos elevados de reincidência criminal.
De acordo com esse ponto de vista podemos afirmar que alguns indivíduos menores de 18 anos, independentemente da maturidade biológica de seus cérebros, já possuem uma personalidade disfuncional. O comportamento e o temperamento desses jovens funcionam como os de pessoas plenamente desenvolvidas, que sabem perfeitamente distinguir o certo do errado e que compreendem o caráter ilícito dos seus atos. Dessa forma, já deveriam ser responsabilizados e penalizados pelos seus comportamentos transgressores com o mesmo rigor das leis aplicadas aos adultos. Sem incorrer em qualquer erro, podemos afirmar que esses jovens (crianças ou adolescentes) são os responsáveis por grande parte dos crimes brutais, que despertam nossos sentimentos de perplexidade e de repulsa frente às suas ações.
No meu entender, o que importa destacar é que os jovens que cometem tais tipos de delitos o fazem em função da sua natureza fria e cruel. Como se não bastasse, eles são favorecidos por uma legislação específica que atenua as suas punições, propiciando de forma "quase irresponsável" a liberdade precoce e a reincidência criminal.
Pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o tempo máximo permitido em internações na Fundação Casa (ex-Febem) é de três anos, mesmo que o crime cometido tenha sido de natureza cruel. Acrescenta-se a isso o fato de que, após ter cumprido as medidas socioeducativas, seus antecedentes criminais não ficam registrados. Se eles reincidirem após os 18 anos, são considerados réus primários. Isso implica dizer que suas fichas criminais voltam a ficar limpas, como se nunca tivessem cometido nenhum delito.
Não se pode contestar que o ECA trouxe avanços no combate à prostituição, ao trabalho infantil e à violência contra crianças. Mas sua parte punitiva se mostra excessivamente complacente com menores que cometem crimes graves. Geralmente são jovens que apresentam um perfil francamente psicopático. A lei que se aplica aos jovens que podem e devem ser recuperados é a mesma que beneficia aqueles que praticam delitos graves.
O caso abaixo exemplifica de forma bem clara a deficiência dessas leis:
Em 1999 Rogério da Silva Ribeiro matou o estudante de jornalismo Rodrigo Damus, de 20 anos, três dias antes de completar 18 anos. Rogério planejou o assalto e o executou com a cumplicidade de mais três indivíduos (todos maiores de idade). Motivo: obter dinheiro para realizar sua festa de aniversário. Os três estão presos após terem sido condenados a penas de 22 anos. Já Rogério, como ainda era menor de idade no dia do crime, foi punido com medidas socioeducativas. Após um ano e oito meses de internação na Febem (hoje Fundação Casa), Rogério foi solto.
O documentário Pro Dia Nascer Feliz, do cineasta João Jardim, lançado em 2006, mostra claramente a frieza e o sentimento de impunidade entre os jovens infratores no Brasil. Numa das cenas, uma jovem de 16 anos conta que assassinou uma colega porque esta a expulsou de uma festa. A menor matou a vítima com uma facada no corredor da escola apenas por vingança, sem qualquer vestígio de medo e de arrependimento. Ela sabia, assim como a maioria dos infratores graves menores, que sua pena seria no máximo de três anos de internação. Quando questionada sobre seu ato, limitou-se a dizer: "Porque não dá nada sendo de menor. Três anos passam rápido!".

Qual a melhor solução?
Por tudo o que foi exposto, não há dúvidas de que estamos diante de um grande dilema. O que fazer quando criminosos perversos nesse país são menores de idade? Que medidas podem ser tomadas para que a sociedade não fique à mercê de jovens de natureza tão ruim?
Reduzir a maioridade penal? Criar novas leis?
A resposta a essas questões deve surgir de uma séria discussão que envolva não só as ciências naturais e o direito, mas também as demais ciências humanas, a sociedade civil como um todo e os verdadeiros representantes do Estado. Essa união social pode levar muitos anos para gerar frutos no dia-a-dia de cada um de nós e pode-se ainda chegar à conclusão de que não há possibilidade de se criar um critério rígido e padronizado para se determinar a idade penal mínima.
No entanto, é fundamental destacar que a redução da maioridade penal pouco vem contribuir para a diminuição da violência ocasionada por jovens perigosos, que são maus na sua essência. A meu ver, devemos avaliar a personalidade do infrator, a sua capacidade de entendimento dos seus atos, os seus sentimentos e a gravidade do crime cometido. Isso levaria a se considerar cada caso com sua justa individualização, tornando possível distinguir, de forma eficaz, os jovens que precisam e podem ser reeducados daqueles que são refratários a qualquer tipo de medida socioeducativa. Estes últimos, irrefreáveis e incompatíveis com o convívio social, devem ser rigorosamente punidos como adultos. Caso contrário, só iremos amargar cada vez mais a infeliz certeza de que eles não vão parar nunca.

(Ana Beatriz Barbosa Silva - Mentes Perigosas, O Psicopata Mora ao Lado)

Adolescentes armados e perigosos

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