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Dos sacerdotes

por Thynus, em 31.05.13

 

 

E certa vez Zaratustra fez um sinal a seus discípulos e lhes falou estas palavras:
“Ali estão sacerdotes: e, embora sejam meus inimigos, passai por eles em silêncio e com a espada na bainha!
Também entre eles há heróis; muitos deles sofreram muito —: assim, querem fazer outros sofrer.
Eles são maus inimigos: nada é mais vingativo do que sua humildade. E suja-se facilmente aquele que os ataca.
Mas meu sangue é aparentado ao deles; e quero que meu sangue seja honrado também no deles.” —
Após haverem passado, Zaratustra foi tomado pela dor; e não muito tempo havia lutado com sua dor, quando se ergueu e pôs-se a falar: Esses sacerdotes me causam pena. Também me ofendem o gosto; mas isso é o mínimo, desde que me acho entre os homens.
Mas eu sofri e sofro com eles: para mim, são prisioneiros e homens marcados. Aquele a quem chamam Redentor lhes pôs cadeias: —
Cadeias de falsos valores e palavras ilusórias! Ah, se alguém os redimisse de seu Redentor!
Numa ilha acreditaram certa vez aportar, ao serem arrastados pelo mar; mas olha, era um monstro adormecido!
Falsos valores e palavras ilusórias: eis os piores monstros para os mortais — longamente dorme neles a fatalidade, e espera.
Mas enfim chega, desperta, come e engole os que sobre ela construíram choupanas.
Oh, observai as choupanas que esses sacerdotes construíram! Chamam de igrejas essas cavernas de cheiro adocicado.
Oh, essa luz falseada, esse ar abafado! Ali, onde a alma não pode — voar até suas alturas!
Mas, em vez disso, sua fé ordena: “Subi de joelhos a escada, ó pecadores!”.
Em verdade, prefiro ainda ver o homem sem vergonha do que os olhos contorcidos da vergonha e devoção deles!
Quem criou tais cavernas e degraus de penitência? Não foram aqueles que queriam se esconder e se envergonhavam diante do céu puro?
E, apenas quando o céu puro novamente olhar através de tetos destruídos e para a grama e as papoulas-vermelhas junto aos muros destruídos, — eu novamente voltarei meu coração para as moradas desse Deus.
Chamaram Deus ao que os contradizia e lhes causava dor: e, em verdade, havia muito de heroico em sua adoração!
E não souberam amar seu Deus de outra forma senão pregando na cruz o ser humano!
Como cadáveres pensaram eles em viver, de preto vestiram seu cadáver; também em suas falas eu sinto o mau cheiro das câmaras mortuárias.
E quem vive próximo a eles vive perto de negros lagos, onde o agourento sapo canta com doce melancolia.
Canções melhores eles teriam de me cantar, para que eu aprendesse a acreditar em seu Redentor: os discípulos deste teriam de me parecer mais redimidos!
Nus eu desejaria vê-los: pois a beleza deveria pregar penitência. Mas a quem persuadiria essa aflição mascarada?
Em verdade, seus redentores mesmos não vieram da liberdade e do sétimo céu da liberdade! Em verdade, eles mesmos nunca andaram sobre os tapetes do conhecimento!
O espírito desses redentores era feito de lacunas; mas em cada lacuna haviam posto sua ilusão, seu tapa-buraco, que chamavam de Deus.
Em sua compaixão se afogara seu espírito, e, quando se inflavam e inchavam de compaixão, sempre boiava na superfície uma grande tolice.
Zelosamente e aos gritos empurravam seu rebanho sobre a sua estreita ponte: como se houvesse uma única ponte para o futuro! Em verdade, também esses pastores contavam ainda entre as ovelhas!
Espíritos pequenos e vastas almas tinham esses pastores: mas, meus irmãos, que pequenos países não foram até agora também as almas mais vastas!
Sinais de sangue inscreveram no caminho que percorreram, e sua tolice ensinou que a verdade se prova com o sangue.
Mas o sangue é a pior testemunha da verdade; o sangue envenena inclusive a mais pura doutrina, tornando-a loucura e ódio nos corações.
E, se alguém caminha sobre o fogo por sua doutrina — o que prova isso?
Mais vale, isto sim, que a nossa doutrina venha de nossa própria chama!
Coração quente e cabeça fria: quando estes se encontram, surge o vento impetuoso, o “Redentor”.
Em verdade, houve homens maiores e de mais alto nascimento do que esses que o povo chama redentores, esses impetuosos ventos que arrebatam!
E de homens ainda maiores do que todos os redentores ainda tereis de ser redimidos, ó irmãos, se quiserdes achar o caminho para a liberdade!
Jamais houve um super-homem. Ambos eu vi nus, o maior e o menor dos homens: —
Demasiado semelhantes ainda são um ao outro. Em verdade, também o maior de todos me pareceu — demasiado humano!
Assim falou Zaratustra.

(Friedrich Nietzsche  "assim falou Zaratustra")

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publicado às 19:49


Das três metamorfoses

por Thynus, em 31.05.13

 

Três metamorfoses do espírito menciono para vós: de como o espírito se torna camelo, o camelo se torna leão e o leão, por fim, criança.
Há muitas coisas pesadas para o espírito, para o forte, resistente espírito em que habita a reverência: sua força requer o pesado, o mais pesado.
O que é pesado? Assim pergunta o espírito resistente, e se ajoelha, como um camelo, e quer ser bem carregado.
O que é o mais pesado, ó heróis?, pergunta o espírito resistente, para que eu o tome sobre mim e me alegre de minha força.
Não é isso: rebaixar-se, a fim de machucar sua altivez? Fazer brilhar sua tolice, para zombar de sua sabedoria?
Ou é isso: deixar nossa causa quando ela festeja seu triunfo? Subir a altos montes, a fim de tentar o tentador?
Ou é isso: alimentar-se das bolotas e da erva do conhecimento e pela verdade padecer fome na alma?
Ou é isso: estar doente e mandar para casa os consoladores e fazer amizade com os surdos, que nunca ouvem o que queres?
Ou é isso: entrar em água suja, se for a água da verdade, e não afastar de si as frias rãs e os quentes sapos?
Ou é isso: amar aqueles que nos desprezam e estender a mão ao fantasma, quando ele quer nos fazer sentir medo?
Todas essas coisas mais que pesadas o espírito resistente toma sobre si: semelhante ao camelo que ruma carregado para o deserto, assim ruma ele para seu deserto.
Mas no mais solitário deserto acontece a segunda metamorfose: o espírito se torna leão, quer capturar a liberdade e ser senhor em seu próprio deserto.
Ali procura o seu derradeiro senhor: quer se tornar seu inimigo e derradeiro deus, quer lutar e vencer o grande dragão.
Qual é o grande dragão, que o espírito não deseja chamar de senhor e deus? “Não-farás” chama-se o grande dragão. Mas o espírito do leão diz “Eu quero”.
“Não-farás” está no seu caminho, reluzindo em ouro, um animal de escamas, e em cada escama brilha um dourado “Não-farás!”.
Valores milenares brilham nessas escamas, e assim fala o mais poderoso dos dragões: “Todo o valor das coisas brilha em mim”.
“Todo o valor já foi criado, e todo o valor criado — sou eu. Em verdade, não deve mais haver ‘Eu quero’!” Assim fala o dragão.
Meus irmãos, para que é necessário o leão no espírito? Por que não basta o animal de carga, que renuncia e é reverente?
Criar novos valores — tampouco o leão pode fazer isso; mas criar a liberdade para nova criação — isso está no poder do leão.
Criar liberdade para si e um sagrado Não também ante o dever: para isso, meus irmãos, é necessário o leão.
Adquirir o direito a novos valores — eis a mais terrível aquisição para um espírito resistente e reverente. Em verdade, é para ele uma rapina e coisa de um animal de rapina.
Ele amou outrora, como o que lhe era mais sagrado, o “Tu-deves”; agora tem de achar delírio e arbítrio até mesmo no mais sagrado, de modo a capturar a liberdade em relação a seu amor: é necessário o leão para essa captura.
Mas dizei-me, irmãos, que pode fazer a criança, que nem o leão pôde fazer? Por que o leão rapace ainda tem de se tornar criança?
Inocência é a criança, e esquecimento; um novo começo, um jogo, uma roda a girar por si mesma, um primeiro movimento, um sagrado dizer-sim.
Sim, para o jogo da criação, meus irmãos, é preciso um sagrado dizer-sim: o espírito quer agora sua vontade, o perdido para o mundo conquista seu mundo.
Três metamorfoses do espírito eu vos mencionei: como o espírito se tornou camelo, o camelo se tornou leão e o leão, por fim, criança.

Assim falou Zaratustra. E nesse tempo ele permanecia na cidade que se chama A Vaca Malhada.

(Friedrich Nietzsche  "assim falou Zaratustra")

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publicado às 19:27


Dos desprezadores do corpo

por Thynus, em 31.05.13

 

 

Aos desprezadores do corpo desejo falar. Eles não devem aprender e ensinar diferentemente, mas apenas dizer adeus a seu próprio corpo — e, assim, emudecer.
“Corpo sou eu e alma” — assim fala a criança. E por que não se deveria falar como as crianças?
Mas o desperto, o sabedor, diz: corpo sou eu inteiramente, e nada mais; e alma é apenas uma palavra para um algo no corpo.
O corpo é uma grande razão, uma multiplicidade com um só sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor.
Instrumento de teu corpo é também tua pequena razão que chamas de “espírito”, meu irmão, um pequeno instrumento e brinquedo de tua grande razão.
“Eu”, dizes tu, e tens orgulho dessa palavra. A coisa maior, porém, em que não queres crer — é teu corpo e sua grande razão: essa não diz Eu, mas faz Eu.
O que o sentido sente, o que o espírito conhece, jamais tem fim em si mesmo. Mas sentido e espírito querem te convencer de que são o fim de todas as coisas: tão vaidosos são eles.
Instrumentos e brinquedos são sentidos e espírito: por trás deles está o Si-mesmo.
O Si-mesmo também procura com os olhos do sentido, também escuta com os ouvidos do espírito.
O Si-mesmo sempre escuta e procura: compara, submete, conquista, destrói. Domina e é também o dominador do Eu.
Por trás dos teus pensamentos e sentimentos, irmão, há um poderososoberano, um sábio desconhecido — ele se chama Si-mesmo. Em teu corpo habita ele, teu corpo é ele.
Há mais razão em teu corpo do que em tua melhor sabedoria. E quem sabe por que teu corpo necessita justamente de tua melhor sabedoria?
Teu Si-mesmo ri de teu Eu e de seus saltos orgulhosos. “Que são para mim esses saltos e voos do pensamento?”, diz para si. “Um rodeio até minha meta.
Eu sou a andadeira do Eu e o soprador dos seus conceitos.”
O Si-mesmo diz para o Eu: “Sente dor aqui!”. E esse sofre e reflete em como não mais sofrer — e justamente para isso deve pensar.
O Si-mesmo diz para o Eu: “Sente prazer aqui!”. E esse se alegra e reflete em como se alegrar mais — e justamente para isso deve pensar.
Aos desprezadores do corpo tenho algo a dizer. O fato de desprezarem constitui o seu prezar. O que foi que criou o prezar e o desprezar, o valor e a vontade?
O Si-mesmo criador criou para si o prezar e o desprezar, criou para si o prazer e a dor. O corpo criador criou para si o espírito, como uma mão de sua vontade.
Ainda em vossa tolice e desprezo, vós, desprezadores do corpo, atendeis ao vosso Si-mesmo. Eu vos digo: vosso próprio Si-mesmo quer morrer e se afasta da vida.
Já não é capaz de fazer o que mais deseja: — criar para além de si. Isso é o que mais deseja, isso é todo o seu fervor.
Mas ficou tarde demais para isso: — então vosso Si-mesmo quer perecer, desprezadores do corpo!
Vosso Si-mesmo quer perecer, e por isso vos tornastes desprezadores do corpo! Pois não mais sois capazes de criar para além de vós.
E por isso vos irritais agora com a vida e a terra. Há uma inconsciente inveja no oblíquo olhar do vosso desprezo.
Não seguirei vosso caminho, desprezadores do corpo! Não sois, para mim, pontes para o super-homem! —
Assim falou Zaratustra.

(Friedrich Nietzsche  "assim falou Zaratustra")

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publicado às 19:11


Do amor ao próximo

por Thynus, em 31.05.13

 


Vós vos amontoais junto ao próximo e tendes belas palavras para isso. Mas eu vos digo: vosso amor ao próximo é vosso mau amor por vós mesmos.
Fugis de vós mesmos em direção ao próximo, e desejaríeis fazer disso uma virtude: mas eu enxergo através de vosso “desinteresse”.
O Tu é mais antigo que o Eu; o Tu foi santificado, mas o Eu ainda não: assim, o homem se apressa para junto do próximo.
Eu vos aconselho o amor ao próximo? Aconselho-vos antes a fuga ao próximo e o amor ao distante!
Mais alto que o amor ao próximo está o amor ao distante e futuro; ainda mais alto que o amor aos homens está o amor a coisas e fantasmas.
Esse fantasma que corre à tua frente, meu irmão, é mais belo do que tu; por que não lhe dás tua carne e teus ossos? Mas tens medo e corres para teu próximo.
Não suportais a vós mesmos e não vos amais o bastante: por isso quereis induzir o próximo a vos amar, dourando-vos com seu erro.
Eu quisera que não suportásseis qualquer tipo de próximo e seus vizinhos; então teríeis de criar, de dentro de vós mesmos, vosso amigo e seu coração transbordante.
Convidais uma testemunha quando quereis falar bem de vós mesmos; e, quando a haveis induzido a falar bem de vós, pensais vós mesmos bem de vós.
Não mente apenas aquele que fala contrariando o que sabe, mas sobretudo aquele que fala contrariando o que não sabe. E assim falais de vós mesmos aos outros, e mentis a vós e ao próximo.
Assim fala o louco: “O comércio com os homens estraga o caráter, principalmente quando não se tem caráter”.
Esse vai ao próximo porque busca a si mesmo, e o outro, porque busca se perder. Vosso mau amor a vós mesmos transforma em prisão vossa solidão.
São os menos próximos que pagam pelo vosso amor ao próximo; e, quando cinco de vós vos reunis, há um sexto que tem de morrer.
Tampouco amo vossas festas: nelas encontrei atores demais, e também os espectadores se portavam frequentemente como atores.
Não vos ensino o próximo, mas o amigo. Que o amigo seja, para vós, a festa da terra e uma premonição do super-homem.
Eu vos ensino o amigo e seu coração mais que pleno. Mas há que saber ser uma esponja, quando se quer ser amado por um coração mais que pleno.
Eu vos ensino o amigo em que o mundo se acha pronto, um invólucro do bem — o amigo criador, que tem sempre um mundo pronto para oferecer.
E, assim como o mundo se desenrolou para ele, enrola-se novamente em círculos, como o devir do bem a partir do mal, como o devir das finalidades a partir do acaso.
Que o futuro e o mais distante sejam para ti a causa do teu hoje: no teu amigo deves amar o super-homem como tua causa.
Meus irmãos, não vos aconselho o amor ao próximo: aconselho-vos o amor ao mais distante.
Assim falou Zaratustra.

(Friedrich Nietzsche  "assim falou Zaratustra")

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publicado às 15:28


Dos pregadores da morte

por Thynus, em 31.05.13

 

 

Existem pregadores da morte; e a terra está cheia daqueles a quem se deve pregar o afastamento da vida.
A terra está cheia de supérfluos, a vida é estragada pelos demasiados. Que sejam atraídos para fora dessa vida com a “vida eterna”!
“Amarelos”: assim são chamados os pregadores da morte, ou “negros”. Mas eu os mostrarei a vós em outras cores.
Há os terríveis, que carregam em si o animal de rapina e não têm escolha senão entre os prazeres e a maceração. E também seus prazeres são ainda maceração.
Eles nem mesmo se tornaram homens ainda, esses terríveis: que preguem o afastamento da vida e eles próprios se vão!
Há os tuberculosos da alma: mal nasceram, já começam a morrer e anseiam por doutrinas do cansaço e da renúncia.
Queriam estar mortos, e nós deveríamos aprovar seu desejo! Guardemo-nos de despertar esses mortos e de ferir esses ataúdes vivos!
Deparam com um doente, ou um velho, ou um cadáver; e logo dizem: “A vida está refutada!”.
Mas somente eles estão refutados, e seu olhar, que enxerga somente uma face da existência.
Envoltos em espessa melancolia, e ávidos dos pequenos acasos que trazem a morte: assim a esperam, com dentes cerrados.
Ou então pegam doces e, ao fazê-lo, zombam de sua criancice: apegam-se à palhinha de sua vida e zombam do fato de ainda se apegarem a uma palhinha.
Sua sabedoria diz: “Tolo é quem continua vivendo, mas tolos assim somos nós! E justamente isso é o mais tolo na vida” —
“A vida é só sofrimento” — assim dizem outros, e não mentem: cuidai,
então, de cessar! Cuidai, então, de que cesse a vida que é só sofrimento!
E que esta seja a doutrina de vossa virtude: “Deves matar a ti mesmo!
Deves escapar!” —
“Volúpia é pecado” — dizem os que pregam a morte —, “vamos nos apartar e não mais gerar filhos!”
“Dar à luz é trabalhoso” — dizem outros —, “por que ainda dar à luz?
Nascem apenas infelizes!” E também eles são pregadores da morte.
“É preciso compaixão” — dizem outros ainda. “Tomai o que tenho! Tomai o que sou! Tanto menos estarei ligado à vida!”
Se fossem totalmente compassivos, tornariam intolerável a vida para o próximo. Ser mau — isto seria sua verdadeira bondade.
Mas querem soltar-se da vida: que lhes importa se, com suas cadeias e dádivas, prendem ainda mais fortemente os outros! —
E também vós, para quem a vida é furioso trabalho e desassossego: não estais muito cansados da vida? Não estais maduros para a pregação da morte?
Vós todos, que gostais do trabalho furioso e do que é veloz, novo, desconhecido — mal suportais a vós mesmos, vossa diligência é fuga e vontade de esquecer a vós próprios.
Se acreditásseis mais na vida, não vos lançaríeis tanto ao momento presente. Mas não tendes, em vós, conteúdo bastante para a espera — e nem mesmo para a preguiça!
Em toda parte ecoa a voz dos que pregam a morte: e a terra está cheia daqueles a quem a morte tem de ser pregada.
Ou a “vida eterna”: para mim é o mesmo — desde que se vão rapidamente!
Assim falou Zaratustra.

(Friedrich Nietzsche  "assim falou Zaratustra")

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publicado às 15:01


O PRINCÍPIO DO HOMEM DAS CAVERNAS

por Thynus, em 30.05.13

Alguns futuristas alegaram que a Internet foi o rolo compressor que engoliria o teatro ao vivo, cinema, rádio e TV, que logo seriam vistos apenas em museus.

Na verdade, o inverso aconteceu. Os engarrafamentos são piores do que nunca, uma característica permanente da vida urbana. As pessoas migram para países estrangeiros ao registro de milhares, tornando o turismo um dos setores que mais cresce no planeta. Os clientes enchem as lojas, apesar das dificuldades econômicas. Em vez de"cyberclassrooms" que proliferam, as universidades ainda estão registrando um número recorde de alunos. Por outro lado, há mais pessoas que decidem trabalhar a partir de sua casas ou em teleconferência com seus colegas de trabalho, mas as cidades não esvaziaram. Em vez disso, elas se transformaram em megalópoles se alastrando. Hoje, é fácil de continuar as conversações de vídeo na Internet, mas a maioria das pessoas tende a ser relutantes ao serem filmadas, preferindo encontros cara-a-cara. E, claro, a Internet mudou o panorama da mídia inteira, como quebra-cabeças gigante da mídia sobre a maneira de gerar receita na Internet. Mas nem de perto venceu a TV, rádio e teatro ao vivo. As luzes da Broadway brilham ainda tão intensamente do que antes.
Por que estas previsões não se concretizaram? Imagino que as pessoas amplamente rejeitaram esses avanços por causa do que eu chamo o princípio do homem das cavernas. Genética e evidências fósseis indicam que os humanos modernos, que olharam como um de nós emergiu da África há mais de 100 mil anos atrás, mas nós não vemos nenhuma evidência de que nossos cérebros e personalidades mudaram muito desde então. Se alguém o observasse a partir desse período, ele seria anatomicamente idêntico a nós: se você lhe desse um banho e fizesse a barba, coloca-se-lhe um terno de três peças e, em seguida o colocasse em Wall Street, ele seria fisicamente indistinguível de qualquer outra pessoa. Assim, nossos desejos, sonhos, personalidade e desejos provavelmente não mudaram muito em 100.000 anos.
Nós provavelmente ainda pensamos como nossos ancestrais das cavernas.
O ponto é: sempre que houver um conflito entre a tecnologia moderna e os desejos dos nossos ancestrais primitivos, esses desejos primitivos ganham cada vez mais.
Esse é o princípio do homem das cavernas. Por exemplo, o homem das cavernas sempre exigiu uma "prova de morte da caça." Nunca foi suficiente se vangloriar do que aconteceu a uma grande distância. Tendo o animal fresco em nossas mãos sempre foi preferível a contar que escapou. Da mesma forma, queremos copiar sempre que lidamos com arquivos. Nós instintivamente não confiamos nos elétrons flutuando em nossa tela de computador, de modo que nós imprimimos os nossos e-mails e relatórios, mesmo quando não é necessário. Isso é, porque nunca o escritório vai ser um escritório sem papel.
Da mesma forma, os nossos antepassados sempre gostaram de encontros face a face. Isso nos ajudou à ligação com os outros e a ler suas emoções escondidas. Por isso, a cidade "sem pessoas" nunca aconteceu. Por exemplo, um patrão pode querer lidar cuidadosamente com um tamanho máximo de seus funcionários. É difícil fazer isso online, mas cara a cara um chefe pode ler a linguagem corporal para obter informações valiosas inconscientes. Ao observar as pessoas de perto, sentimos um vínculo comum e também podemos ler a sua linguagem corporal sutil para descobrir que tipos de pensamentos estão correndo dentro de suas cabeças. Isto porque os nossos ancestrais primatas, há milhares de anos atrás desenvolveram fala, linguagem corporal utilizada quase exclusivamente para transmitir seus pensamentos e emoções.
Este é o "cybertourism" da razão que nunca chegou a decolar. Uma coisa é ver uma foto do Taj Mahal, mas outra coisa é ter o direito de se gabar de realmente vê-lo em pessoa. Da mesma forma, ouvindo um CD do seu músico favorito não é o mesmo que sentir a emoção quando realmente vemos este mesmo músico em um show ao vivo, rodeado por toda a fanfarra, comoção e barulho. Isso significa que mesmo que seja capaz de baixar imagens realistas do nosso drama favorito ou celebridade, não há nada como realmente ver o drama no palco ou ver o ator o realizar em pessoa. Fãs não medem esforços para obter fotos autografadas e bilhetes de concertos da sua celebridade favorita, embora possam baixar uma imagem da Internet de forma gratuita.
Isso explica por que a previsão de que a Internet iria acabar com TV e rádio nunca veio a acontecer. Quando o cinema e rádio começaram pela primeira vez, o povo lamentou a morte do teatro ao vivo. Quando a TV chegou, as pessoas previram o fim dos filmes e da rádio. Nós estamos vivendo agora, com uma mistura de todas essas mídias. A lição é que um meio nunca anula um anterior, mas coexiste com ele. É a mistura e a relação entre estes meios de comunicação que mudam constantemente. Quem for capaz de prever com precisão a mistura destes meios no futuro poderá se tornar muito rico.
A razão para isso é que nossos antepassados sempre quiseram ver algo por si mesmos e não confiar no que se lhes dizia. Foi fundamental para nossa sobrevivência na floresta confiar na evidência física real em vez de rumores. Mesmo daqui a um século, nós ainda teremos teatro vivo e perseguição às celebridades, uma antiga herança de nosso passado distante.
Além disso, somos descendentes dos predadores que caçavam. Por isso, nós gostamos de observar os outros e até mesmo sentar durante horas em frente a uma TV, assistindo às infinitamente travessuras de nossos companheiros humanos, mas instantaneamente ficamos nervosos quando sentimos que estão nos vendo. Na verdade, os cientistas calcularam que ficamos nervosos quando ficamos olhando um desconhecido por cerca de quatro segundos. Após cerca de dez segundos, nós começamos até mesmo a ficar irados e hostis sendo olhados. Esta é a razão pela qual o telefone com imagem original era esquisito.
Além disso, por que ter de pentear o cabelo antes de ir on-line? (Hoje, após décadas de lenta, dolorosa melhoria, a videoconferência está aí, finalmente).
E hoje, é possível fazer cursos online. Mas as universidades estão cheias de alunos. O encontro de um-para-um com os professores, que podem dar atenção individual e responder a perguntas pessoais, ainda é preferível a cursos on-line. E um diploma universitário ainda tem mais peso do que um diploma online quando se candidata a um emprego.
Portanto, há uma concorrência permanente entre High-Tech, e High-Touch, isto é, sentados numa cadeira assistindo TV versus alcançar e tocar as coisas em torno de nós. Nesta competição, nós queremos ambos. É por isso que ainda temos teatro ao vivo, shows de rock, papel e turismo na era do ciberespaço e da realidade virtual.
Mas se são oferecidos gratuitamente uma imagem do nosso músico ou celebridade favorita ou bilhetes reais para o seu concerto, vamos pegar as passagens.
Então esse é o Princípio do Cave Man: nós preferimos ter os dois, mas se nos for dada uma escolha, vamos escolher o High-Touch, como nossos ancestrais homens das cavernas.
Mas há também um corolário desse princípio. Quando os cientistas criaram a Internet na década de 1960, acreditava-se que ele iria evoluir para um fórum de educação, ciência e progresso. Em vez disso, muitos ficaram horrorizados que logo degenerou em nenhum-prender-barrada Wild West, que é hoje.
Na verdade, isso era de se esperar. O corolário do Princípio do Cave Man é que se você quer prever as interações sociais dos seres humanos no futuro, deve simplesmente imaginare nossas interações sociais há 100.000 anos atrás, e multiplicar por um bilhão.
Isso significa que haverá um prémio colocado em fofocas, rede social, e de entretenimento. Os rumores foram essenciais para uma tribo para comunicar rapidamente as informações, especialmente sobre os líderes e modelos. Aqueles que ficaram de fora do circuito muitas vezes não sobrevivem para transmitir seus genes. Hoje, podemos ver essa jogada externamente próxima aos carrinhos de supermercado no checkout, em que celebridades aparecem nas revistas de fofocas, e no surgimento de uma cultura da celebridade-drive in. A única diferença hoje é que a magnitude dessa fofoca tribal foi multiplicada enormemente pela mídia de massa e agora pode correr o círculo da terra muitas vezes mais em uma fração de segundo.
A proliferação súbita de sites de redes sociais, que transformaram empresários jovens e com cara de bebê em bilionários quase da noite para o dia, pegou muita gente e os analistas de surpresa, mas é também um exemplo deste princípio. Em nossa história evolutiva, aqueles que mantiveram as grandes redes sociais poderiam depender deles para recursos, conselhos e ajuda que foram vitais para a sobrevivência.
E entretenimento, a última, vai continuar a crescer de forma explosiva. Nós às vezes não gostamos de admitir, mas uma parte dominante da nossa cultura é baseada em entretenimento. Depois da caçada, nossos ancestrais relaxavam e divertiam-se. Isso foi importante não só para a ligação, mas também para o estabelecimento de uma posição dentro da tribo. Não é por acaso que a dança e o canto, que são partes essenciais do entretenimento, são também vitais no reino animal ao demonstrar aptidão para o sexo oposto. Quando os pássaros machos cantam belas melodias complexas ou realizam rituais de acasalamento bizarro, é principalmente para mostrar ao sexo oposto que eles são saudáveis, que estão fisicamente em forma, livre de parasitas e têm genes dignos o suficiente para serem transmitidos.
E a criação da arte não era só por diversão, mas também desempenhara um papel importante na evolução do nosso cérebro, que controla a maioria das informações simbolicamente.
Então, se não mudar geneticamente a nossa personalidade de base, podemos esperar que as redes do poder de entretenimento, fofocas nos tabloides sociais aumentarão e não diminuirão, no futuro.

(DR. MICHIO KAKU - "FÍSICA DO FUTURO, COMO A CIÊNCIA IRÁ TRANSFORMAR A NOSSA VIDA DIÁRIA, NO ANO DE 2100")

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publicado às 15:35

 

A aposentadoria pode gerar prejuízos para a saúde física e mental, revelou uma nova pesquisa.
O estudo, publicado pelo centro de estudos Institute of Economics Affairs (IEA) com sede em Londres, descobriu que a aposentadoria leva a um “drástico declínio da saúde” no médio e longo prazos. Segundo a IEA, a pesquisa sugere que as pessoas devem trabalhar por mais tempo por razões de saúde e também financeiras.
O estudo, realizado em parceria com a entidade beneficente Age Endeavour Fellowship, comparou aposentados com pessoas que continuaram a trabalhar mesmo após terem alcançado a idade mínima para a aposentadoria e também levou em conta possíveis fatores Philip Booth, diretor da IEA, disse que os governos deveriam desregular os mercados e permitir que as pessoas trabalhassem por mais tempo. ”Trabalhar mais não será apenas uma necessidade econômica, mas também ajudará as pessoas a viverem vidas mais saudáveis”, disse ele. Edward Datnow, president da Age Endeavour Fellowship, acrescentou: “Não deveria haver uma idade ‘normal’ para a aposentadoria no futuro”.
Na Grã-Bretanha, o governo já planeja elevar a idade mínima para a aposentadoria. ”Mais empresários precisam pensar sobre como podem capitalizar em cima da população mais velha e aqueles que querem se aposentador devem refletir duas vezes sobre essa questão”. O estudo, focado na relação entre atividade econômica, saúde e política pública de saúde na Grã-Bretanha, sugere que há uma pequena melhora na saúde imediatamente depois da aposentadoria, mas constata um declínio significativo no organismo desses indivíduos no longo prazo.
Segundo a pesquisa, a aposentadoria pode elevar em 40% as chances de desenvolver depressão, enquanto aumenta em 60% a possibilidade do aparecimento de um problema físico. O efeito é o mesmo em homens e mulheres. Já as chances de ficar doente parecem aumentar com a duração da aposentadoria.

(BBC Brasil / G1)
HYPERLINKS:
* A APOSENTADORIA PODE SER O INÍCIO DE UMA LONGA E PENOSA DEPRESSÃO
* Amanhã de manhã
* Identidade e morte

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publicado às 07:52

 

 

O determinismo sustenta, em essência, que se pode prever o futuro se se souber tudo sobre o presente. Por exemplo, a grande contribuição de Newton à física foi o fato de que ele conseguia prever o movimento dos cometas, satélites e planetas, por meio de suas leis do movimento, uma vez que soubesse o estado presente do sistema solar. Durante séculos, os físicos se maravilharam com a precisão das leis de Newton, capazes de prever a posição de corpos celestes em princípio até milhões de anos no futuro. Na verdade, até aquela época, toda a ciência estava baseada no determinismo. Ou seja, um cientista pode prever o resultado de um experimento se souber a posição e a velocidade de todas as partículas. Os seguidores de Newton sintetizaram essa crença comparando o universo a um relógio gigantesco. Deus deu corda nesse relógio no princípio do tempo, e ele vem funcionando regularmente desde então de acordo com as leis do movimento de Newton. Se você souber a posição e velocidade de cada átomo do universo, poderá, mediante as leis do movimento de Newton, calcular a evolução subseqüente do universo com precisão infinita. Contudo, o princípio da incerteza negava tudo isto, afirmando ser impossível prever o estado futuro do universo. Dado um átomo de urânio, por exemplo, jamais se conseguiria calcular quando ele irá decair. O máximo que se consegue saber é a probabilidade de que isso aconteça. Na verdade, nem Deus ou uma divindade sabia quando o átomo de urânio iria decair.
Em dezembro de 1926, em resposta ao artigo de Born, Einstein escreveu:

A mecânica quântica merece grande respeito. Mas uma voz interior me diz que este não é o verdadeiro Jacó. A teoria oferece muita coisa, mas não nos aproxima muito mais do segredo do Homem Lá em Cima. De minha parte, estou convencido de que Ele não joga dados.

Ao comentar a teoria de Heisenberg, Einstein observou: “Heisenberg pôs um grande ovo quântico. Em Göttingen eles acreditam nesse ovo (eu não)”. O próprio Schrödinger detestou essa idéia. Ele certa vez afirmou que, se sua equação representava apenas probabilidades, ele se arrependia de ter sido autor dela. Einstein observou que teria preferido se tornar um “sapateiro ou funcionário de um cassino” se soubesse de antemão que a revolução quântica que ajudou a desencadear iria introduzir o acaso na física.
Os físicos estavam começando a se dividir em duas facções. Einstein liderou uma delas, que ainda se aferrava à crença no determinismo, uma idéia que remontava ao próprio Newton e que havia orientado os físicos durante séculos. Schrödinger e De Broglie eram aliados. A outra facção, bem maior, foi liderada por Niels Bohr, que acreditava na incerteza e defendia uma nova versão da causalidade, baseada em médias e probabilidades.
Bohr e Einstein eram, em certo sentido, o avesso um do outro também em outros aspectos. Enquanto Einstein, quando rapaz, detestava esportes e vivia grudado nos livros de geometria e filosofia, Bohr era um conhecido astro do futebol na Dinamarca. Enquanto Einstein falava vigorosa e dinamicamente, escrevia de modo quase lírico e se envolvia em diálogos espirituosos com jornalistas e até com a realeza, Bohr era rígido, muito rabugento, costumava ser inexpressivo e inaudível e tinha o hábito de repetir a mesma palavra sem parar quando absorto em pensamentos. Enquanto Einstein era capaz de escrever sem esforço um texto elegante e bonito, Bohr tinha bloqueio quando precisava escrever um artigo. Quando aluno do curso secundário, costumava ditar todos os seus trabalhos à mãe. Depois que se casou, passou a ditá-los à esposa (chegando a interromper a lua-de-mel para ditar um artigo longo e importante). Às vezes, mobilizava seu laboratório inteiro na revisão de seus artigos, em certa ocasião mais de cem vezes, perturbando totalmente o trabalho. (Certa ocasião, quando pediram a Wolfgang Pauli que fizesse uma visita a Bohr em Copenhague, ele respondeu: “Se a última prova já tiver sido enviada, eu irei”.) Ambos, porém, viviam obcecados por seu primeiro amor: a física. Bohr, na verdade, era capaz de rabiscar equações na trave durante um jogo de futebol se sentisse uma súbita inspiração. Ambos também aguçavam seus pensamentos valendo-se dos outros como caixas de ressonância para as próprias idéias. (Estranhamente, Bohr só conseguia avançar se tivesse auxiliares em torno que comentassem suas idéias. Sem um auxiliar cujos ouvidos pudesse alugar, ele não conseguia nada.)
(...)
A apresentação mais clara da posição de Einstein sobre determinismo e incerteza foi esta: “Sou um determinista, compelido a agir como se o livre-arbítrio existisse, porque, se desejo viver numa sociedade civilizada, preciso agir de modo responsável. Sei filosoficamente que um assassino não é responsável por seus crimes, mas prefiro não tomar chá com ele. [...] Não tenho controle nenhum, sobretudo no caso daquelas glândulas misteriosas em que a natureza prepara a própria essência da vida. Henry Ford pode chamá-lo de sua Voz Interior, Sócrates referiu-se a seu daimon: cada homem explica à sua própria maneira o fato de que a vontade humana não é livre. Tudo é determinado, o início bem como o fim, por forças sobre as quais não temos nenhum controle. É determinado para o inseto, tanto quanto para a estrela. Os seres humanos, vegetais ou a poeira cósmica, todos dançamos ao compasso de um tempo misterioso, entoado à distância por um músico invisível” (Brian, p. 185).

(Michio Kaku - "O cosmo de Einstein")

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publicado às 06:31


Einstein e a religião

por Thynus, em 28.05.13

 

 


Um jornalista pediu certa vez a Albert Einstein, o maior gênio da ciência desde Isaac Newton, que explicasse sua fórmula de sucesso. O grande pensador refletiu por um segundo e depois respondeu: “Se a é sucesso, eu diria que a fórmula é a = x + y + z, x sendo trabalho e y sendo diversão”.
“E o que é z?”, perguntou o jornalista.
“É ficar de bico calado”, respondeu ele.

O que o tornava tão querido pelos físicos, reis e rainhas e o público em geral era sua humanidade, sua generosidade e sua presença de espírito, quer estivesse defendendo a causa da paz mundial ou sondando os mistérios do universo.

 

  (...)
Einstein também era consultado sobre suas idéias acerca de filosofia e religião. Seu encontro com um colega contemplado com o prêmio Nobel, o místico indiano Rabindranath Tagore, em 1930, atraiu a atenção da imprensa. Formavam uma dupla interessante: Einstein, cabelos branquíssimos, e Tagore, longa e imponente barba branca. Um jornalista observou:

Era interessante vê-los juntos — Tagore, o poeta com a cabeça de pensador, e Einstein, o pensador com a cabeça de poeta. Para um observador, era como se dois planetas estivessem envolvidos num bate-papo.

Desde as suas leituras de Kant quando jovem, Einstein passara a suspeitar da filosofia tradicional, que em sua opinião muitas vezes degenerara em prestidigitação pomposa e, em última análise, simplista. Ele escreveu: “A filosofia como um todo não aparenta ter sido escrita com mel? Parece maravilhosa quando contemplada, mas a um segundo olhar tudo foi embora. Resta apenas uma massa indistinta”. Tagore e Einstein discordaram quanto à possibilidade de o mundo poder existir sem a existência humana. Enquanto Tagore sustentava a crença mística de que a existência humana era essencial à realidade, Einstein discordou: “O mundo, considerado sob o aspecto físico, existe a despeito da consciência humana”. Se bem que discordassem na questão da realidade física, chegaram a um consenso maior nas questões da religião e moralidade. Na área da ética, Einstein acreditava que a moralidade era definida pela humanidade, não por Deus. “A moralidade é da máxima importância — mas para nós, não para Deus”, observou ele. “Não acredito na imortalidade do indivíduo e considero a ética uma preocupação exclusivamente humana, semnenhuma autoridade sobre-humana subjacente”.
Posto que cético quanto à filosofia tradicional, Einstein mostrava um profundo respeito pelos mistérios representados pela religião, principalmente a natureza da existência. Ele escreveria: “A ciência sem religião é manca, a religião sem ciência é cega”. Também atribuiria a esse reconhecimento do mistério a fonte de toda ciência: “Todas as especulações de valor no domínio da ciência emanam de um sentimento religioso profundo”. Einstein escreveu: “A experiência mais bonita e profunda que um homem pode ter é a sensação do misterioso. É o princípio subjacente à religião, bem como a todos os esforços sérios em arte e ciência”. E concluiu: “Se há algo em mim que possa ser chamado de religioso, é a admiração ilimitada pela estrutura do mundo na medida em que a ciência consegue revelá-lo”.A afirmação mais elegante e explícita que fez sobre religião foi escrita em 1929:

Não sou ateu e não creio que possa me considerar panteísta. Estamos na situação de uma criancinha que adentra uma enorme biblioteca repleta de livros em diferentes línguas. A criança sabe que alguém deve ter escrito aqueles livros. Não sabe como. Ela não entende as línguas em que estão escritos. A criança suspeita levemente de uma ordem misteriosa na disposição dos livros, mas não sabe qual é. Esta, ao que me parece, é a atitude mesmo do ser humano mais inteligente para com Deus. Vemos um universo maravilhosamente disposto e obedecendo a certas leis, mas só temos uma tênue compreensão dessas leis. Nossas mentes limitadas não conseguem captar a força misteriosa que move as constelações. Fascina-me o panteísmo de Spinoza, mas admiro ainda mais suas contribuições ao pensamento moderno, por ser o primeiro filósofo a lidar com a alma e o corpo como um todo, não como duas coisas separadas.

Einstein costumava fazer uma distinção entre dois tipos de Deus, que muitas vezes são confundidos nas discussões sobre religião. Primeiro existe o Deus pessoal, o Deus que responde às orações, abre as águas do mar Morto, opera milagres. Trata-se do Deus da Bíblia, o Deus da intervenção. Depois existe o Deus em que Einstein acreditava, o Deus de Spinoza, o Deus que criou as leis simples e elegantes que regem o universo.
Mesmo em meio àquele circo da mídia, Einstein milagrosamente nunca perdeu seu foco, concentrando seus esforços na sondagem dessas leis do universo. Nos transatlânticos ou em longas viagens de trem, tinha disciplina suficiente para evitar distrações e concentrar-se em seu trabalho. E o que o intrigava durante aquele período era a capacidade de suas equações de esclarecer a estrutura do próprio universo.

(Michio Kaku - "O cosmo de Einstein")

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publicado às 19:38

Facundo Cabral (Balcarce, 22 de maio de 1937 - Cidade da Guatemala, 9 de julho de 2011) foi um cantor Argentino. Em tenra idade seu pai deixou a casa deixando a mãe com três filhos, que emigraram para Tierra del Fuego no sul da Argentina.
Cabral teve uma infância dura e desprotegida, tornando-se um marginal, a ponto de ser internado em um reformatório. Em pouco tempo conseguiu escapar e, segundo conta, encontrou Deus nas palavras de Simeão, um velho vagabundo

Em 1970, ele gravou "No Soy De Aquí, Ni Soy De Allá" e seu nome fica conhecido em todo o mundo, gravando em nove idiomas e com cantores da estatura de Julio Iglesias, Pedro Vargas e Neil Diamond, entre outros.

Influenciado, no lado espiritual, por Jesus, Gandhi e Madre Teresa de Calcutá, na literatura por Borges e Walt Whitman, sua vida toma um rumo espiritual de observação constante em tudo o que acontece em seu redor, não se conformando o que vê, durante sua carreira como um cantor de Música Popular e, toma o caminho da crítica social, sem abandonar o seu habitual senso de humor.

Como um autor literário, foi convidado para a Feira Internacional do Livro, em Miami, onde conversou sobre seus livros, entre eles: “Conversaciones con Facundo Cabral”, “Mi Abuela y yo”, “Salmos”, “Borges y yo”, “Ayer soñé que podía y hoy puedo”, y el “Cuaderno de Facundo”.
Em reconhecimento do seu constante apelo à paz e amor, em 1996, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) o declarou "Mensageiro mundial da Paz”.
(Fonte: Facundo Cabral na Wikipedia)

"NO ESTÁS DEPRIMIDO; ESTÁS DISTRAÍDO" é sem dúvidada uma reflexão muito profunda e oportuna.
Não estás deprimido; estás distraído...
distraído em relação à vida que te preenche...
distraído em relação à vida que te rodeia:
Golfinhos, bosques, mares, montanhas, rios....

Não caias como caiu teu irmão que sofre por um único ser humano, quando no mundo existem seis mil milhões. Além de tudo, não é assim tão ruim viver só. Eu estou bem assim, decidindo a cada instante o que desejo fazer, e graças à solidão conheço-me... o que é algo fundamental para viver.

Não caias no que caiu teu pai, que se sente velho porque tem setenta anos, e esquece que Moisés comandou o Êxodo aos oitenta e Rubinstein interpretava Chopin com uma maestria aos noventa. Só para citar dois casos conhecidos.

Não estás deprimido; estás distraído... Por isso acreditas que perdeste algo, o que é impossível, porque tudo te foi dado. Não fizeste um só cabelo de tua cabeça, portanto não podes ser dono de nada. Além disso, a vida não te tira coisas... a vida te liberta de coisas. Te alivia para que voes mais alto, para que alcances a plenitude.
Do berço ao túmulo, vivemos numa escola, por isso, o que chamas de problemas são lições. Não perdeste ninguém, aquele que morre simplesmente está adiantado em relação a nós, porque para lá vamos todos. Além disso, o melhor dele, que é o amor,segue em teu coração.

Quem poderia dizer que Jesus está morto? Não existe a morte: existe mudança. E do outro lado te esperam pessoas maravilhosas: Gandhi, Michelangelo, Whitman, São Agostinho, Madre Teresa, tua avó e minha mãe que acreditava que a pobreza está mais próxima do amor, porque o dinheiro nos distrai com coisas demais, e nos machuca, porque nos torna desconfiados.

Faz apenas o que amas e serás feliz! Aquele que faz o que ama, está benditamente condenado ao sucesso, que chegará quando deve chegar, porque o que deve ser será, e chegará naturalmente. Não faças nada por obrigação nem por compromisso, apenas por amor. Então terás plenitude, e nessa plenitude tudo é possível. E sem esforço, porque és movido pela força natural da vida... a que me levantou, quando caiu o avião que levava minha mulher e minha filha; a que me manteve vivo, quando os médicos me deram três ou quatro meses de vida.

Deus te tornou responsável por um ser humano, e és tu mesmo. A ti deves fazer livre e feliz... depois poderás compartilhar a vida verdadeira com todos os outros. Lembra-te de Jesus: "Amarás ao próximo como a ti mesmo".
Reconcilia-te contigo, coloca-te frente ao espelho e pensa que esta criatura que estás vendo, é uma obra de Deus; e decide agora mesmo ser feliz, porque a felicidade é uma aquisição.

Aliás, a felicidade não é um direito, e sim um dever, porque se não fores feliz, estarás levando amargura para todos os que te amam. Um único homem que não possuiu nenhum talento nenhum valor para viver, mandou matar seis milhões de irmãos judeus.

Existem tantas coisas para experimentar, e a nossa passagem pela terra é tão curta, que sofrer é uma perda de tempo. Temos para gozar a neve no inverno e as flores na primavera, o chocolate de Perusa, a baguette francesa, os tacos mexicanos, o vinho chileno, os mares e os rios, o futebol dos brasileiros, As Mil e Uma Noites, a Divina Comédia, Quixote, Pedro Páramo, os boleros de Manzanero e as poesias de Whitman, as músicas de Mahler, Mozart, Chopin, Beethoven, as pinturas de Caravaggio, Rembrandt, Velázquez, Picasso e Tamayo, entre tantas maravilhas.

E se estás com câncer ou AIDS, podem acontecer duas coisas, e as duas são boas.
Se a doença ganha, te liberta do corpo que é cheio de moléstias: tenho fome, tenho frio, tenho sono, tenho vontades, tenho razão, tenho dúvidas...
E, se tu vences, serás mais humilde, mais agradecido, portanto, facilmente feliz. Livre do tremendo peso da culpa, da responsabilidade e da vaidade, disposto a viver cada instante profundamente.... como deve ser.

Não estás deprimido, estás desocupado.
Ajuda a criança que precisa de ti, essa criança que será sócia do teu filho. Aliás o serviço é uma felicidade segura como gozar a natureza e cuidar dela para aqueles que virão.
Dá sem medida e te darão sem medida. Ama até que te tornes o ser amado, mais ainda converte-te no mesmíssimo Amor . E não te deixes confundir por uns poucos homicidas e suicidas. O bem é maioria, porém, não se nota porque é silencioso; uma bomba faz mais barulho que uma carícia, porém, para cada bomba que destrói há milhões de carícias que alimentam a vida. Verdadeiramente vale a pena!

Se Deus possuísse uma geladeira, teria a tua foto pregada nela. Se ele possuísse uma carteira, tua foto estaria dentro dela. Ele te envia flores a cada primavera. Ele te envia um amanhecer a cada manhã. Cada vez que desejas falar, Ele te escuta. Ele poderia viver em qualquer ponto do Universo, porém escolheu o teu coração. Enfrenta-O, amigo, Ele está louco por ti!
Deus não te prometeu dias sem dor, riso sem tristeza, sol sem chuva, porém prometeu força para cada dia, consolo para as lágrimas e luz para o caminho. Quando a vida te apresenta mil razões para chorar, mostra que tens mil e uma razões para sorrir.
Não.... não estás deprimido; ... estás distraído!

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publicado às 02:44

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