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Porque há tantos padres pedófilos? Muitos pensam que este é um dos efeitos do celibato forçado, mas se fosse simplesmente isso, deveríamos verificar semelhanças estatísticas em situações similares de castidade obrigatória, que não confirmam esta tese. Além disso, se a condição de celibato tornou-se insustentável para o padre, porque não replicar na normal heterossexualidade adulta normal, mais ou menos clandestina?
Não, o comportamento pedófilo não pode ser explicado apenas pela repressão sexual, mesmo se exagerada e prolongada ao longo dos anos.
Embora a pedofilia seja um crime particularmente hediondo porque afeta as vítimas mais impotentes e indefesas, deve ser dito que ela evidencia um estado de regressão psíquica por parte de quem a pratica.
Um pedófilo não é nunca totalmente adulto, mas tenta, a nível inconsciente, re-evocar simbolicamente a sua própria infância. A falta de maturidade sexual da parte dos padres, marcada pela experiência do seminário, pode ter "fixado" o estado evolutivo psíquico num estádio pré-adolescencial.
Esta interpretação narcisista do comportamento pedófilo dos padres é confirmada pela observação da idade média das vítimas, geralmente entre 8 e 12 anos. Também deve ser notado que em quase todos os casos se trata de pedofilia homossexual, e também este elemento faz-nos compreender como o padre pedófilo tem conflitos pesados a resolver consigo mesmo, com a própria sexualidade, com a sua história e, especialmente, com a sua identidade .
A pedofilia é de qualquer maneira um fenômeno extremamente complexo, e não simplesmente uma expressão de tendências regressivas infantis em adultos (de outra forma os pedófilos seriam milhões!).
Deve ser considerado outro aspecto crucial: a relação sado-masoquista. Mesmo que não haja violência, é inegável que o pedófilo, para subjugar a vítima, se aproveita da sua autoridade como adulto e da sua superioridade física e psicológica.
É também evidente que o propósito do pedófilo não é dar prazer, mas obtê-lo, usando mesmo a própria presa como um brinquedo inofensivo. Portanto, há uma notável componente ideologicamente autoritária na pedofilia. Um autoritarismo que é expresso como uma necessidade de possessão doentia, invencível, de que não se pode escapar.
É muito significativo que, em muitos incidentes relatados nos mídia, se nota que os padres pedófilos geralmente não costumam tomar precauções especiais para esconder o seu comportamento perverso. No seu delírio de omnipotência (também ele de origem infantil) eles preferem confiar no silêncio das suas vítimas ao invés de implementarem os comportamentos desviantes em ambientes protegidos, talvez longe de seu ambiente.
Neste ponto, podemos avançar uma hipótese que talvez possa dar um sentido lógico a tudo o que foi exposto anteriormente, e que poderia, pelo menos em parte, explicar a relação recorrente entre comportamento pedófilo e condição de padre.
Em resumo, foram analisadas as principais componentes da pedofilia e encontramos regressão, autoritarismo, possessão doentia. Que coincidência: trata-se da essência mais íntima da teologia católica!
O catolicismo, entre todas as religiões do mundo, é de facto a única que oferece ao povo o maior número de símbolos infantis: não por acaso a personagem mais proposta, mais reverenciada, mais representada e respeitada é uma mãe. Então, como se faz com as crianças, são constantemente servidas promessas, ameaças, recompensas e punições. Raramente, ou talvez nunca, se fala de responsabilidade pessoal ou de decisões livres, comportamentos que são muito adultos. Os católicos só devem observar, seguir, acreditar, aderir, obedecer, confessar, arrepender-se, etc.
Ainda falando de regressão infantil, note-se que o principal rito católico, bem como o comportamento mais meritório e santo, é um comportamento "oral", que é a Eucaristia. Que os bons cristãos deveriam comungar todos os domingos, lembra, por incrível que pareça, um velho clichê muito comum: "os bons meninos comem a papinha toda!". Mas não só: na liturgia católica insistiu-se, não por acaso, que a hóstia deveria ser recebida na boca das mãos do sacerdote, e não recebida nas mãos pelo comungante. Tal como acontece com uma mãe que alimenta a criança que não sabe ainda segurar na mão a colher.
Poucos notaram que, na época, houve um apelo do Papa João Paulo II sobre este tema, ou seja, o acolhimento da hóstia recebida do sacerdote na boca, uma vez que muitas igrejas estavam sem preconceitos a sofrer um processo de “protestantização” devido a esta formalidade aparentemente trivial, distribuindo a hóstia nas mãos dos fiéis. Mas alguns detalhes não escapam à igreja, porque conhece a sua enorme importância psicológica.
E é de facto assim que a igreja quer que sejam os seus súbditos: impotentes, inconscientes, crianças que se abandonam cegamente nas mãos de uma entidade protetora e reconfortante. Crianças que não podem sequer usar as mãos. Não por acaso, também os pedófilos precisam de sujeitos passivos e inconscientes. Curioso, não é?
O facto é que a criança violentada, vítima de um pedófilo, talvez o padre-pedófilo, é, assim, uma metáfora do católico perfeito: submisso, temeroso, silencioso, confiante de que o que acontece é para seu próprio bem.

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publicado às 13:42

 

Uma carta de Paolo Farinella (padre)


Se Bento XVI, civilmenente Joseph Ratzinger, fosse conhecido como papa Francisco I ou Zeferino I, ao povo da Irlanda teria escrito a seguinte carta:
Senhoras e Senhores, mulheres e homens de Irlanda, não vos chamo «Caríssimas e caríssimos filhas e filhos» como é uso adocicado nos documentos eclesiásticos e também porque não posso dirigir-me a vós com espressões afetuosas como se nada tivésse sucedido. Dirijo-me a vós, não com destaque, mas com temor e tremor, com respeito, mantendo a devida distância, em bicos de pés e consciente de que nenhuma palavra pode aliviar a vossa raiva, a vossa dor e a marca indelével que foi impressa na vossa carne viva. Não sou digno de dirigir-me a vós com palavras de afecto.
Escrevo para dizer-vos que em breve irei encontrar-vos, irei só, sem séquito e sem alardes: descalço e com a cabeça descoberta, humilde e penitente, sim, como convém a um "servo dos servos de Deus". Irei para ajoelhar-me diante de vós e pedir-vos perdão do fundo do coração porque sobre uma coisa não podemos, vós e eu, ter dúvidas: a responsabilidade de tudo o que envolveu os vossos filhos e filhas, rebentos inocentes, arruinados para sempre, é minha, só minha, exclusivamente minha. Assumo totalmente a responsabilidade da culpa de pedofilia de que se mancharam muitos padres e religiosos em institutos e colégios sob a jurisdição da Igreja católica.
Como bispo da Igreja Universal não tenho palavras e sentimentos para aliviar o trágico jugo que foi posto sobre as vossas costas. Fui por mais de um quarto de século chefe da congregação da doutrina da fé e não soube avaliar a gravidade do que estava acontecendo em todo o mundo: nos USA, na Irlanda, na Alemanha e agora também na Itália e, certamente, também em todos os outros países do mundo. A ferida é grande, generalizada e galopante e eu não fui capaz de ver a sua gravidade, o perigo e a ignomínia.
Preferi salvar o rosto da Instituição e, com este fim, em 2001 emanei um decreto em que advogava a mim os casos de pedofilia e impunha o «silêncio papal»: isto significa que quem falasse era excomungado «ipso facto», ou seja, imediatamente. Se houve “omertà” (silêncio imposto), se houve cumplicidade dos padres, religiosos, bispos e leigos, a culpa é minha e só minha. Para salvar a face da Igreja, acabei por condenar homens e mulheres, meninos e meninas que foram abatidos pela ignomínia do abuso sexual que é grave quando acontece entre adultos, mas é terrível, horrível, blasfemo e delinquencial quando acontece sobre menores.

Não foram poucas pessoas que erraram. Iludi-me que assim fosse, mas agora noto amargamente que a responsabilidade está principalmente naquela estrutura que se chama «seminário», cujos critérios de formação, eu e outros líderes da Igreja lançamos, mantivemos e pretendemos que fossem actuados. Com os nossos métodos de educação pouco humanos e desencarnados, fizémos padres e religiosos devotos, mas divorciados da vida e da sua problemáta, homens e mulheres inconsistentes, prontos a obedecer porque sem espinha dorsal e sem personalidade.
Numa palavra criámos monstros sagrados que foram lançados sobre vítimas inocentes, apenas entraram em choque com a realidade que não souberam aguentar e com que não puderam confrontar-se. Personalidades infantis que abusaram de crianças sem sequer tomarem consciência do facto.
Hoje acho que uma grande responsabilidade está relacionada com o celibato obrigatório dos padres e religiosos, un sistema que hoje não funciona, como nunca funcionou na história da Igreja: por trás da fachada formal, muito poucos observaram este estato que em si mesmo é um valor, mas apenas se desejado por opção de vida, livre e consciente. Neste ponto, tomo o compromisso de colocar na ordem do dia o significado do celibato para que se chegue a um clero casado, mas também célibe por opção e apenas por opção.
Chego até vós, privado de toda a autoridade porque a perdi e de maõs vazias a pedir-vos perdão e em seguida, na cúria romana e nas igrejas locais, despedirei todos os que de qualquer modo estão implicados neste drama. Finalmemente, enquanto a justiça humana fará o seu papel, confiarei as pessoas responsáveis por estas ignomínias a um tratamento de saúde porque trata-se de mentes e corações doentes.

Finalmente, resignarei do cargo de papa e o farei desde a Irlanda, o país, talvez mais atingido. Retirar-me-ei num mosteiro para fazer penitência durante os dias que me restam porque falhei como padre e como papa. Não vos peço que esqueçam, suplico-vos que olheis em frente, sabendo que o Senhor que é Pai amoroso, de quem fomos indignos representantes, não abandona alguém e não permite que a angústia e o sofrimento tenham vantagem. Que Deus me perdoe, e com Ele, se puderdes, fazei-o vós também. Com estima e trepidação.
Francesco I, papa (ainda por pouco tempo) da Igreja católica.

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publicado às 11:51

A pretexto de escândalos pedófilos no seu seio, a Igreja Católica, segundo os seus seguidistas e apoiantes, está a sofrer um dos muitos ataques previstos pelo seu fundador. Perseguição rotineira quotidiana, portanto, nada de novo sob o sol: as forças "diabólicas" fazem o seu trabalho. Segundo essa carneirada de seguidistas, o que precisamos saber sobre os "inquisidores secularistas" do terceiro milénio é que a prática da pedofilia é pregada e defendida pelos seus próprios referenciais culturais. Para dar apenas alguns exemplos, sem qualquer pretensão de ordem no tempo:

* Rousseau, profeta da Educação relativista e Iluminista, comprou por alguns francos uma menina de dez anos para animar sexualmente as suas noites.

* Dacia Maraini, na esteira dos filósofos iluministas que praticavam sexo com os filhos, argumentou que o incesto é uma prática natural.

* Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Michel Foucault, Jack Lang, futuro ministro francês, assinaram uma petição em que se exigia a legalização de relações sexuais com menores.

* Daniel Cohn-Bendit, líder dos Verdes em Bruxelas e um dos líderes do Maio de 1968, disse ter tentado e promovido a pedofilia e o sexo com menores na escola, como professor.

* Aldo Busi explicou que a idade para relações homossexuais, que ele retém como lícitas, é permitida a partir da idade de treze anos, porque nessa idade um rapaz, diz, seria adulto e livre de decidir ter relações sexuais com outro homem.

* Nichi Vendola, governador da Apúlia, em Itália, numa entrevista ao jornal a Repubblica, em 1985, afirmava: "Não é fácil abordar um tema como a pedofilia, por exemplo, o direito das crianças a ter a sua sexualidade, de terem relações entre si, ou com adultos, enquanto aqueles que lidam com a sexualidade sempre a viram em relação à família.

* Os radicais italianos organizaram uma conferência, a 27/10/1998, nas salas do Senado, cuja apresentação dizia: "Ser pedófilo não pode ser considerado um crime; a pedofilia torna-se um crime, quando se prejudica outras pessoas.” Como querendo dizer que a pedofilia é permitida, desde que a criança consinta e que a lei o permita.

* A Internacional dos Gays e Lésbicas (ILGA) colaborou politicamente e culturalmente com os pedófilos Americanos (NAMBLA North American Man-Boy Lovers Association) durante dez anos, antes de separar-se deste movimento.

* O filósofo homossexual Mario Mieli alegou a função redentora da pedofilia. Nas suas obras (consideradas a bíblia dos gays) são recomendadas como experiências redentoras a promover, além da pedofilia, a necrofilia e a coprofagia.

* As Associações Homossexualistas (COC), fundadas por Jef Last (pedófilo homossexual e amigo de André Gide) nos Países Baixos, quiseram e conseguiram a descriminalização do contato sexual com meninos maiores de 12 anos. Em 1990, de facto, tinha sido descriminalizado na Holanda, o contato sexual (heterossexual e homossexual) com indivíduos com mais de 12 anos: a condição era o consenso do jovem ou da jovem e o nihil obstat dos pais.

É sem dúvida verdade, como disse Ratzinger ainda cardeal, que na igreja ainda há muito lixo, mas é igualmente verdade que do outro lado (a " inquisição secular") há um aterro de escala colossal.

Esta visão maniqueísta do mundo (os bons de um lado e os maus do outro) já vem da antiguidade, está na génese da Santa Inquisição da Igreja romana e foi sempre uma estratégia dessa mesma igreja: dividir para reinar! Não é de estranhar que os seus seguidistas continuem a adoptá-la e, enquanto tal, nada de novo sob o sol. O que é de estranhar é essa saudade dos velhos tempos inquisitoriais da santa madre igreja! Mas, não é por aí que vamos. Neste fenómeno da pedofilia, não poderemos de forma alguma ilibar a Igreja romana das suas responsabilidades, pois erigiu-se como guia moral e religiosa do Mundo e, como tal, no seu seio, a pedofilia e outros escândalos contradizem aquilo que ela mesma prega e pretende mostrar ser. Mais, o fenómeno da pedofilia na igreja romana não se restringe apenas a casos pontuais, mas é uma verdadeira doença orgânica, endémica à igreja, e, como tal, não pode ser vencida pela ação hipócrita de censura, reprovação e condenação do Vaticano. E o pior é que já não há água-benta que lhe valha!

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publicado às 03:23

Quase todos os sacerdotes e religiosos (até há poucos anos) entravam no seminário menor aos 10-11 anos de idade, ou seja, depois do ensino básico. Como se preparavam para uma vida em que teriam de permanecer celibatários, logo nessa idade era negado qualquer impulso sexual, reprimido, racionalizado e, muitas vezes, não recebiam uma educação consentânea ao assunto sexo que era até visto como tabu, cada um se desenrascava por conta própria, uns melhor e outros pior. Não se educava, reprimia-se mesmo porque a sexualidade não podia encontrar espaço para expressão num ambiente fechado feito só para rapazes sem qualquer contato com o sexo oposto. Estes rapazes não tiveram condições de ter um bom desenvolvimento psicossexual como acontecia normalmente com os seus coetâneos. A repressão da sexualidade, a supressão da afetividade, a aridez emocional, a negação e demonização dos impulsos sexuais naturais que fazem as pessoas crescer e amadurecer e contribuir significativamente para a construção da sua identidade em relação ao outro foram substituídas por dados intelectuais, racionais que eram relacionados com conteúdos de fé e ideais de vida demasiado elevados e abstratos para aquela idade, e, deste modo, geradores de sentimento de pecado, identidade sexual não resolvida e agressividade reprimida.

Esses ambientes criaram pessoas afetiva e emocionalmente imaturas que se projetam em forma desviada em meninos e meninas da idade na qual o que seu crescimento foi bloqueado. É verdade que são anagraficamente adultos, mas também é verdade que a sua idade sexual e emocional se manteve fixa na fase da pré-adolescência ou da adolescência.

A pedofilia, pelo menos olhando para as queixas e as pessoas envolvidas no âmbito eclesiástico, é, em grande parte, obra de pessoas com tendências homossexuais e, portanto, envolve mais meninos que meninas. Mas nem por isso é honesto dizer-se que o celibato não tem nada a ver com a maioria dos casos de pedofilia.

Talvez haja muitos padres com tendências homossexuais porque nunca atingiram e passaram a fase de desenvolvimento em que os rapazes aprendem a relacionar-se com o sexo oposto, algo que para o adolescente é um obstáculo que deve superar e aprender a gerir . Abrir-se ao sexo oposto é um dos passos mais importantes da maturação sexual.

No seu livro Padres Amantes, o ex-padre F. Mariano Rodrigues fala que "a perturbação dos padres, pelo fato de conviverem o tempo todo com a sensualidade de suas ovelhas e não poderem toca-las, nem ao menos olha-las os leva para o caminho invariável do homossexualismo como válvula de escape para suas emoções sexuais reprimidas." O mesmo autor descreve a posição dos "padres, que durante a confissão dos fiéis se excitam com a narrativa dos pecados, ficam com seus membros eretos e muitos até se masturbam durante o ato sagrado da confissão. Outros padres se servem das freiras, que trabalham como suas secretarias em várias paróquias, todas belas e sensuais, jovens em sua maioria, se entregam com volúpia e lascívia perpetrando o jogo proibido(e, como tal, apetecido) do sexo entre os filhos do Senhor."

Como sabemos, os seminários bem como a imposição do celibato eclesiástico (tal como os confessionários) são frutos do obscurantismo medieval da Igreja. Não será hora da Igreja romana repensar a sua posição intransigente a respeito da sexualidade, da confissão auricular e da obrigatoriedade do celibato?
"É preciso que se entenda que a "castidade" não é e nem poderia jamais ser objeto de um "voto"; ou o homem é casto, ou o homem não é casto. Não se pode dominar essa prodigiosa força (sexual) através de um simples voto (uma intenção). E necessário que o homem se situe em uma esfera consciencial, muitíssimo elevada, para que possa transcendê-la. Todavia, não seria essa mesma esfera consciencial a que se poderia esperar, normalmente, de um verdadeiro "Representante de Deus"? No entanto, esse não é, em absoluto, o caso desses sacerdotes de "Cristo" que, em realidade, não passam de homens comuns que, conduzidos a essa elevada posição (?), vêem-se forçados a essa, absolutamente, desnecessária repressão sexual representada pela exigência do celibato. Como consequência disso, acabam por cair, invariavelmente, na prática desses desvios, abusos e aberrações" (in Regnum, Carlos Alberto Gonçalves).

Na mesma linha de pensamento, António Farjani, "A linguagem dos deuses", escreve:
O fato de essa energia transcendental advir da primitiva energia sexual é que deu origem à superstição de que o sexo é pecaminoso, tal como apregoa a religião cristã. A abstinência sexual dos iluminados não é professada por questões da moral profana, e sim como um recurso de canalizar energia para se obter um estado superior de consciência, que não é atingido sem se pagar um certo preço. A castidade imposta "de fora para dentro" através de regras morais obtusas, tal como a que se impõe aos padres católicos, não possui a menor utilidade prática nem tem o menor valor espiritual. Como já disse o próprio Paulo de Tarso, "é melhor casar-se do que viver abrasado". 
Arnaldo Jabor (Amor é Prosa, Sexo é Poesia) afirma que "A pedofilia na Igreja é conseqüência direta do celibato. É óbvio que se a força máxima da vida é esmagada, a Igreja vira uma máquina de perversões. Claro. E de homossexualismo, visível em qualquer internato religioso." E continua:  "Outro dia, o Contardo Calligaris escreveu com precisão que a pedofilia não está só na carne do jovem assediado; a pedofilia é mais geral, abstrata, no prazer do domínio sobre os mais fracos, na pedagogia infantilizante das jovens ovelhas — como nos chamam os pastores de Deus — imoladas em sua inocência. Eu vi o diabo naquele colégio: rostos angustiados, berros severos e excessivos nas aulas, castigos sádicos, perseguições a uns e carinhos protetores a outros. Eu mesmo fui assediado por um padre famoso (do qual muitos colegas meus da época se lembram) que era notório comedor de menininhos: ele fazia mágicas e teatrinhos, para ser popular entre os meninos, e, um dia, tentou me beijar num canto da clausura. Criado na malandragem das ruas, fugi em pânico. E falei disso em confissão com outro padre, que mudou de assunto, como se fosse uma impressão minha, como se a pedofilia fosse uma prática necessária à manutenção do celibato, exatamente como os cardeais americanos estão fazendo hoje. O problema da Igreja com o sexo leva-a a uma compreensão quebrada da vida, leva-a a aceitar a Aids, a condenar o aborto, o controle social da natalidade e a outros erros maiores." E conclui: "Uma das grandes desvantagens da Igreja Católica diante de outras religiões é o celibato. Daí, em cascata, surgem problemas que justificam a queda do prestígio da Igreja na era do espetáculo e da desconstrução de certezas. Rabinos casam, pastores protestantes casam. Budistas do it, xintoístas do it,hindus do it, mesmo muçulmanos do it. Let's do it, pobres padres trêmulos de desejo, no meu remoto passado jesuíta e no presente do sexo massificado."

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publicado às 11:03


As motivações normalmente invocadas pela hierarquia eclesiástica para manter a proibição do casamento para os sacerdotes resumem-se em três razões:

1. A razão cristológica diz respeito ao fato de que o sacerdote é um alter Christus (outro Cristo) e celebra in persona Christi "(na pessoa de Cristo). Como Jesus escolheu o celibato, eis, então, que o sacerdote deve viver no celibato.

2. A razão eclesiológica é referente ao empenho do sacerdote. Este não é um empregado pode e deve estar disponível conforme o horário, mas um “pai” real e verdadeiro que deve estar sempre disponível para as almas a quem cuida. Se é assim, como é possível conciliar a vida familiar (que exige uma disponibilidade total) com o sacerdócio (o que também exige uma disponibilidade total)?

3. A razão escatológica diz respeito ao que deve representar a vida sacerdotal. Até mesmo os sacerdotes seculares (embora em menor grau que os religiosos) são de fato chamados a prefigurar o que será a vida do Paraíso.

Ora acontece que o fenómeno da pedofilia na Igreja romana vem desmistificar esta bela tramóia orquestrada pela Igreja. Contrariamente ao que a Igreja quer fazer crer, a lei do celibato obrigatório para os padres fez mais mal à Igreja e aos homens e mulheres do que bem. Paradoxalmente, com a imposição do celibato obrigatório, a Igreja acaba asfixiada pelo próprio veneno que criou. Vejamos o pensamento do padre Anselmo Borges que de forma esclarecida e corajosa reflete sobre o assunto:

Foi lentamente que a lei do celibato se foi impondo na Igreja Católica, embora com excepções: pense-se, por exemplo, nas Igrejas orientais ou nos anglicanos unidos a Roma.

Na base do celibato como lei, há razões de vária ordem: imitar os monges e o seu voto de castidade, manter os padres e os bispos livres para o ministério, não dispersar os bens eclesiásticos, evitar o nepotismo... A concepção sacrificial da Eucaristia foi determinante, pois o sacrifício implica o sacerdote e a pureza ritual. Assim, o bispo de Roma Sirício (384-399) escreveu: "Todos nós, padres e levitas, estamos obrigados por uma lei irrevogável a viver a castidade do corpo e da alma para agradarmos a Deus diariamente no sacrifício litúrgico."

Neste movimento, a Igreja foi-se tornando cada vez mais rigorosa, tendo papel decisivo o Papa Gregório VII (1073-1085), com o seu modelo centralista: da reforma com o seu nome - reforma gregoriana - fez parte a obrigação de padres e bispos se separarem das respectivas mulheres e a admissão à ordenação sacerdotal apenas de candidatos celibatários. Foi o II Concílio de Latrão (1139) que decretou a lei do celibato, proibindo os fiéis de frequentarem missas celebradas por padres com mulher.

A distância entre a lei e o seu cumprimento obrigou a constantes admoestações e penas para os prevaricadores, como se pode constatar no decreto do Concílio de Basileia (1431-1437) sobre o concubinato dos padres. Lutero ergueu-se contra a lei, respondendo-lhe o Concílio de Trento: "É anátema quem afirmar que os membros do clero, investidos em ordens sacras, poderão contrair matrimónio." Os escândalos sucederam-se, mesmo entre Papas: Pio IV, por exemplo, que reforçou a lei, teve três filhos. O famoso exegeta Herbert Haag fez notar que a contradição entre teoria e prática ficou eloquentemente demonstrada durante o Concílio de Constança: os seus participantes tiveram à disposição centenas de prostitutas registadas.

Os escândalos de pedofilia por parte do clero fizeram com que o debate, proibido durante o Concílio Vaticano II e ainda, em parte, tabu, regressasse. Se não é correcto apresentar o celibato como a causa da pedofilia - pense-se em tantos casados pedófilos, concretamente no seio das famílias -, também é verdade que a lei do celibato enquanto tal não é a melhor ajuda para uma sexualidade sã. Muitos perguntam, com razão, se uma relação tensa com a sexualidade por parte da Igreja não terá aqui uma das suas principais explicações.

Seja como for, o celibato obrigatório não vem de Jesus, é uma lei dos homens, e, como disseram os apóstolos: "Importa mais obedecer a Deus do que aos homens." E os bispos e o Papa são homens.

É contraditório afirmar o celibato como um carisma e, depois, impô-lo como lei. Por isso, muitas vozes autorizadas na Igreja pedem uma reflexão séria sobre o tema. Há muito que o cardeal Carlo Martini faz apelos nesse sentido. Agora, junta-se-lhe o cardeal Ch. Schönborn, de Viena. O bispo auxiliar de Hamburgo, J.-J. Jaschke, sem pôr em causa o celibato livre, afirmou que "a Igreja Católica se enriqueceria com a experiência de padres casados".

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publicado às 08:52

A pedofilia é um problema antigo na Igreja Roma. Não acredita? Analise a história dos Papado ao longo de dois mil anos de cristianismo (Entre outras páginas do Shvoong, pode ver: Factos "edificantes" e "piedosos" de alguns Papas http://pt.shvoong.com/humanities/religion-st udies/1972960-factos-edificantes-piedosos-alguns-papas/)... Se hoje emergem escândalos de pedofilia na igreja, não é porque o fenômeno se tenha agravado, mas sim porque as vítimas perderam o medo e saíram do silêncio para denunciarem os abusos. Por paradoxal que pareça, a salvação parte sempre de baixo, das bases.
É graças à coragem das vítimas que se manifesta a falibilidade, real e humana, do infalível pontífice, que teve que pedir perdão, de qualquer modo mas não o bastante, reconhecendo a necessidade de arrepiar caminho. Foi graças às vítimas que muitos bispos, padres e doutores tiveram que inclinar as cabeças e, finalmente demitir-se, para voltar à sua condição humana descendo do pedestal da sacralidade. É graças a eles que a igreja católica, que se crê “indefectível”, mostrou o seu rosto mais real, de realidade defectível, precária e humana.
A pedofilia é um crime, mas a pedofilia dos padres católicos é muito mais perigosa e extremamente gravosa. O “ sagrado”, as pessoas sagradas, lugares e templos sagrados, enquanto tal “separados” tendem a anular a sacralidade da existência normal, excluem a sacralidade de tudo e, assim, tornam-se fonte de confronto e violência.
Os episódios de pedofilia que, pouco a pouco, vão-se manifestando por todo o mundo, evidenciam contradições estruturais da instituição Igreja. É claro que cada pedófilo deve responder individualmente perante as vítimas e perante a justiça, mas a responsabilidade individual não absolve a responsabilidade da instituição.
Bento XVI e grande parte dos bispos falam de tolerância zero para com os padres pedófilos, curiosamente utilizando uma linguagem de extrema direita, mas ignoram a procura das raízes do fenômeno na estrutura da própria instituição eclesial. Tinha que ser aí mesmo, na estrutura do sagrado, que se deveria aplicar a tolerância zero. É por demais conhecida a relação estreita entre sexo e poder. Já para os gregos e romanos o falo era símbolo do poder. Na Roma antiga, as dimensões e a forma do pénis não raramente favoreciam a carreira militar e política. Tudo o que se ergue aprece ter uma referência fálica. Obeliscos, campanários, torres, o báculo, a pastoral, a mitra episcopal, que coisa são se não símbolos fálicos?! Não é por acaso que na igreja romana o poder é reservado ao sexo masculino e negado em absoluto às mulheres.
A pedofilia é interna a esta relação entre sexo e poder. Quem procura crianças para satisfazer o seu apetite sexual, fá-lo para exprimir a própria sede de domínio para com uma criatura mais frágil. É esta sede de domínio a raiz mais profunda da pedofilia. É esta sede de domínio que deveria ser extirpada da estrutura do sagrado.
E que dizer das lavagens cerebrais feitas nas homilías e nas catequeses ou nas aulas de moral onde se procura incutir nos fiéis o sentimento de culpa e de pecado. Como uma mãe possessiva a Igreja parece querer manter os seus fiéis numa perene condição infantil. Não querendo ser mal interpretado, vem a vontade de chamar a tudo isso “pedofilia estrutural” da Igreja que endoutrina homens e mulheres de forma acrítica de modo a permanecerem perenemente crianças. E a sacralização do poder eclesiástico, a teologia e a pastoral do desprezo do corpo, do sexo e do prazer, a condenação das relações entre sexos que não seja consagrada pelo sacramento do matrimónio, não pertence tudo isso ao domínio da violência?
É hora de criar-se um movimento em grande escala para restituir ao cristianismo o sentido da libertação do sagrado, enquanto realidade separada, libertação não apenas de opressões econômicas e políticas, mas também psicológicas, ético-morais, simbólicas. Talvez a pedofilia não desapareça de vez, mas sem dúvida sofrerá um golpe profundo e não apenas os padres pedófilos.

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publicado às 10:28


No dia em que o Cardeal Sodano define como “uma tagarelice” a violência sobre menores, a colunista Maureen Dowd faz novamente um ataque ao Vaticano: "O demônio fez cair em tentação os padres pedófilos? Estuprar e molestar crianças vai muito mais além daquilo que chamamos "render-se às tentações da vida '."
Mais do que um exorcista, a Igreja Católica precisa de um sexorcista. A mais famosa colunista do New York Times, Maureen Dowd, comenta ironicamente a afirmação do Padre Gabriele Amorth, conhecido como "o exorcista-chefe da Santa Sé”, que disse que foi o diabo a fazer cair em tentação os padres pedófilos, e que o próprio Lúcifer estaria à frente de manobras diárias contra a Santa Sé.
Segundo o Padre Amorth, o diabo está por trás do ataque a Bento XVI, pois ele é papa maravilhoso: um digno sucessor de João Paulo II. O escândalo dos padres pedófilos mostra que Satanás os está usando para atacar a Igreja porque as tentações estão por toda parte no mundo de hoje. "Cair em tentação significa comer pequenos doces no período de jejum religioso - responde a colunista do NYT - Estuprar e molestar as crianças vai muito além do que nós identificamos como as ceder às tentações da vida. A Igreja precisa de um “sexorcista”, não de um “exorcista”.
Então Dowd cita o episódio da Raniero Cantalamessa, que comparou o escândalo dos padres pedófilos ao semitismo, e cita também a piada de que haveria uma mal-definida conspiração judaico-maçônica por trás dos ataques do "New York Times” à Igreja Católica. "O papa ainda não conseguiu dizer nada extensivo, adequado e honesto sobre o escândalo, e qual o papel que ele desempenhou, incluindo a história do padre do Wisconsin que abusou de 200 crianças surdas - escreveu a famosa colunista - É nas crises que os líderes são testados. É nestas situações que vemos se os dirigentes cedem aos seus piores instintos ou escutam os anjos. Tudo o que Bento XVI tem a fazer é fazer a coisa certa. "
E o NYT continua - O herói da semana, simplesmente por ter tido a coragem de falar a verdade, é o Arcebispo irlandês Martin. Na sua diocese de Dublin, quatro arcebispos passaram três décadas fingindo ignorar os casos de abuso. "Vê-se claramente quanto danificamos o corpo de Cristo", disse o cardeal numa missa durante a Semana Santa "Este foi um ano difícil. O abuso ocorreu no interior da igreja de Cristo. A resposta foi irremediavelmente inadequada ". Amen.

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publicado às 23:25



Segundo a Igreja o celibato é o estado de solteiro que implica a abstinência de atividade sexual. Uma autêntica manipulação já que o celibato consiste na proibição para o clero secular de casar-se e não implica de nenhuma forma a obrigação de castidade. Surpreendentemente foi somente incluído no Código de Direito Canónico no ano 1917.
No cristianismo primitivo a idéia mesma de um celibato clerical teria sido considerada absurda tendo em conta que tanto Pedro como Paulo foram homens casados.
A primeira Constituição Apostólica, que data aproximadamente do ano 340, impôs uma dupla disciplina; um homem casado no momento de ordenar-se tinha a obrigação de manter o seu matrimónio, enquanto que um solteiro no mesmo caso aceitaria a obrigação de manter-se celibatário. Na prática o celibato do solteiro era optativo já que a disciplina lhe dava implicitamente a opção de casar-se antes de ordenar-se. A abstinência sexual se converteu em ideal Cristão(?!) e, numa manobra teológica em essência blasfema, a caridade como virtude principal inerente nos Evangelhos, foi substituída pela castidade... No entanto, a disciplina não pegou - e menos ainda a virtude da castidade - nos restantes séculos do primeiro milénio; a imensa maioria do clero continuava casando-se, com excepção dos mais espertos que, aceitando em aparência a disciplina, viviam em concubinato ou, pior, com amantes sucessivas.
A princípios do século V há, repentinamente, uma mudança qualitativo; uma feroz imposição do celibato sacerdotal. Houve razões para isso; por um lado uma razão patrimonial - a Igreja tinha mudado de perseguida e pobre a perseguidora e rica - o medo de que sacerdotes casados deixariam os seus bens paroquiais a suas viúvas e descendência, por outro um movimento ascético e cada vez mais anti-sexual e misógino.
Com a chegada da alta Idade Média os papas "absolutistas" intervieram decididamente no assunto. Usou o poder secular activamente para despejar as esposas dos sacerdotes de suas casas, resultando no suicídio de muitas delas. Disse Gregório: " A Igreja não pode libertar-se das garras da laicidade sem antes libertar os sacerdotes das garras de suas esposas". Com o tempo o celibato se impôs pouco a pouco com efeitos nefastos para a moral sexual. A razão principal para impô-lo tinha sido a consideração de que o matrimónio, a esposa e os filhos, impediriam a plena dedicação, de corpo e alma, do clero à Igreja. Críticos da época disseram coisas como: "a Cúria romana é o melhor exemplo de tudo o que é vicioso e infame no mundo" , "a profissão de sacerdote é o caminho mais curto para o inferno", "Roma não é a Santa Sede mas a Sede Ímpia". Os cardeais foram chamados carnais, as freiras rameiras e nos mosteiros abundavam os gays. Na Idade Média a homossexualidade em certos mosteiros e conventos era habitual; em tempos mais recentes a prática deslocou-se para os seminários e colégios religiosos.
A Igreja logrou finalmente impôr o celibato, depois de tantos séculos, no Concílio de Trento, não obstante a declarada oposição tanto do Imperador Fernando como de muitos outros soberanos. O raciocínio foi o seguinte: como a Igreja é uma instituição absolutista e hierárquica, precisa de operários cegamente entregues à instituição e somente o celibato - sem a distração de problemas familiares - podia garantir tal entrega absoluta; o sacerdócio deixaría de ser a livre entrega a Deus e se converteria num serviço coaccionado ao papado, com o sacerdote como prisioneiro do sistema.
Por outro lado foram acordadas as condições para o recrutamento sacerdotal (idade, ciência adquirida, independência material) alem de estabelecer-se a criação de seminários episcopais para a formação sacerdotal. Como durante a sua estadia no seminário se suprimia a libido com acrescentamentos de preparados de cânfora à comida - como até há pouco se fazia com os recrutas nos exércitos - os seminaristas ordenavam-se sacerdotes sem nenhuma idéia do sexo e menos ainda da privação que significava o celibato.O celibato se impôs mas desde logo a castidade não. Como diz o ditado: " a privação é causa de apetite".
No século XVII havia que inventar o confessionário para assegurar o anonimato das penitentes e para evitar, em caso da confissão de pecados sexuais, a exigência de favores sexuais por parte de confessores chantagistas, um pecado conhecido como "solicitar", muito comum antes, e depois, da existência dos confessionários.
A partir da metade do século XIX a moralidade sexual do clero católico romano tornou-se mais "vitoriana" em todo o Ocidente. Ou seja, continuou mais ou menos como antes mas tornou-se mais subterrânea. Houve mais comportamento puritano para a galeria e mais hipocrisia; muita descrição e encobrimento de crimes sexuais para evitar escândalos que eram muito mal vistos.

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publicado às 05:19

As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor,

pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o chefe da Igreja,
seu corpo, da qual Ele é o Salvador.
(Efésios 5, 22-23)
 
 
 Os arquétipos da Grande Mãe e do Pai são os dois arquétipos
básicos da psique. Eles têm um poder psicológico tão grande que a
dominância de um tende a desequilibrar o self individual ou cultural às
expensas das características do outro. O dinamismo matriarcal
(arquétipo da Grande Mãe) é regido pelo princípio do prazer, da
sensualidade e da fertilidade. Por isso, nas culturas,
ele é geralmente representado pelas deusas e deuses das forças da natureza.
Por outro lado, o dinamismo patriarcal (arquétipo do Pai) é regido pelo princípio da
ordem, do dever e do desafio das tarefas. O poder, com o qual se impõe,
divide a vida em polaridades altamente desiguais e exclusivamente opostas
como bom e mau, certo e errado, justo e injusto, forte e fraco, bonito
e feio, sucesso e fracasso. Estas polaridades estão reunidas em
sistemas lógicos e racionais. Seus deuses, deusas e ideais são
conquistadores e legisladores. Foi esse dinamismo que codificou os papéis sociais
rígidos do homem e da mulher, atribuindo a ela uma condição inferior
junto com a maioria das funções matriarcais. Esse dinamismo é
característico das guerras de conquista, das sociedades de classe com
acentuada hierarquia social e rígida codificação ideológica da conduta.
(CARLOS AMADEU B. BYINGTON, in Prefácio a "O Martelo das Feiticeiras",
HEINRICH KRAMERe JAMES SPRENGER)
 
"O cristianismo ressuscitou Maria. Mas acaso essa transformação das deusas pagãs em uma virgem cristã marca um progresso para o gênero feminino? Certamente não, nós estamos longe de uma Atena, de uma Diana, de uma Deméter, que iluminaram a humanidade e lhe deram leis. Maria, a partir de então o ideal de mulher no cristianismo, é a encarnação da nulidade, do apagamento; a negação de tudo quanto constitui a individualidade superior: a vontade, a liberdade, o caráter."
(Maria Deraismes)
 

Como Ísis se converteu em Virgem Maria

Este culto é uma das ocorrências mais surpreendentes na história primitiva da Igreja Cristã. Não houve nenhuma justificação para este facto nos Evangelhos. A figura de Maria é bastante obscura. Ela e a restante família se opuseram totalmente à missão de Jesus, chegando ao ponto de considerá-lo louco (Mc 3,21). Jesus separou-se totalmente de sua família e mantinha una muito tensa relação com sua mãe: " Mulher, que tenho a ver contigo?"(Jo 2,4). Apesar disso, a crescente aceitação de Jesus como o Filho de Deus, criou uma tendência inclinada a conceder uma posição especial a sua mãe. Apenas Mateus e Lucas tinham feito uma vaga menção da possível virgindade de Maria. Nesta escassa informação se baseou o posterior culto à Mãe Virginal de Deus. A veneração da Mãe de Deus recebeu um forte impulso quando a partir de 312 a. C.(acto de tolerância por parte de Constantino) a Igreja Cristã se converteu, pouco a pouco, em Igreja Imperial, com a consequente conversão das massas pagãs do Império. Esta gente acostumada a milénios de culto à Grande Mãe, a Deusa, a Virgem Divina, etc. não podia aceitar sem mais o patriarcalismo Judaico integrista adoptado pelo Cristianismo primitivo. Não é surpreendente que foi no Egipto onde se originou a adoração de Maria sob o título de Teotokos (prenhe de Deus). Mais tarde, no concílio de Éfeso (431 A.D.) esta designação egípcia foi convertida em dogma da Igreja. Como vemos foi no Egipto, onde até à era cristã, Ísis (com o filho Horus nos braços) fora adorada sobre todas as coisas, onde se cristalizou o culto à Virgem Maria (com o menino Jesus nos braços). Ou melhor dito, onde a Deusa Ísis se converteu na Virgem Maria. Parece então, que o destino de Ísis foi converter o Cristianismo primitivo, descendente direto do Judaísmo monoteísta patriarcal, numa religião sincrética.

 
Até ao século XI a posição da mulher cristã melhorou muito em relação ao que tinha sido nas sociedades puramente patriarcais anteriores. A mulher tinha direito à propriedade, a explorar um comércio e, por tanto, tinha uma certa independência. Esta atitude tão liberal da Igreja foi, como se demonstrou depois, puramente estratégica. Durante estes séculos a Igreja estava em plena expansão, convertendo, uma depois da outra, as tribos e povos pagãos. Como esta conversão sempre começou com as mulheres, era muito conveniente que estas se dessem conta de que a posição da mulher no Cristianismo era muito superior ao que estavam habituadas. Não somente isto, mas até ofereceram à mulher conversa a oportunidade de libertar-se de matrimónios inconvenientes já que a nova religião somente considerava válidos os matrimónios cristãos. O Cristianismo sempre foi propenso a anular os matrimónios juntos por outros Deuses (sic). Em finais do século XI todas as tribos pagãs Europeias tinham sido convertidas à fé, e a posição da mulher mudou drasticamente. Não recuperou a sua semi-liberdade de séculos anteriores até ao bem entrado século XX. A exterminação de qualquer suposta heresia, a Inquisição, a caça às bruxas (e até o mesmo conceito de bruxaria) foram instrumentos para eliminar qualquer vestígio "matriarcal" da face da terra cristã. Não puderam eliminar a veneração à Virgem, mas a converteram num símbolo eficaz de consolação para que as mulheres submissamente aceitassem o seu destino.

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publicado às 05:05


In Hoc Signo Vinces

por Thynus, em 07.04.10

Nos últimos tempos o Papa Bento XVI e seus acólitos têm apelado insistentemente ao reconhecimento das raízes cristãs da Europa. Este termo, "raízes cristãs", já tinha estado no centro da discussão quando do debate sobre a constituição européia. Mas qual a razão da Igreja querer meter o bedelho na política européia e do mundo? Medo de perder influência e controlo da situação?
A chamada "civilização cristã ocidental" nasce no dia em que os líderes de uma nascente religião se deram conta de ter um deus todo-poderoso, mas não uma espada com que levar o seu verbo pelo mundo; enquanto o imperador de Roma se deu conta de ter uma espada poderosa, mas não um ideal superior ao qual legá-la. Foi assim que numa noite Constantino… "sonhou" que um anjo lhe mostrou uma cruz e lhe disse "In hoc signo vinces". E o Sacro Império Romano nasceu.

 

Enquanto os primeiros 300 anos do nosso calendário tinham visto os cristãos esconder-se nas catacumbas, de repente a história do cristianismo se torna também a história de infinitas perseguições por parte deles, com prejuízos para as outras religiões.
Nos séculos que se seguiram foram antes de mais perseguidos todos os cultos pagãos que tinham sobrevivido, os seus sequazes foram exterminados e seus templos foram completamente destruídos pelas armadas romanas, freqüentemente guiadas pelos mesmos bispos locais.
+Bispos como Marco de Aretusa, ou Cirilo de Eliopoli, passaram à história como "destruidores de templos". Até ao século VI os poucos pagãos que restaram no mundo tinham perdido completamente qualquer direito civil.
+Carlos Magno, durante o segundo Sacro Romano Império, fez decapitar cerca de 5000 saxões que não queriam converter-se ao cristianismo.
+A primeira cruzada na "terra santa" causou a morte de cerca de um milhão de pessoas.
Durante a segunda cruzada, 40 cidades e 200 castelos foram submetidos a ferro e fogo pelas armadas cristãs. Só a conquista de Antioquia causou 60.000 vítimas, às quais se juntaram outras 100.000 antes do fim da mesma cruzada.
Na batalha de Askalon foram mortos cerca de 200.000 não-cristãos.
A cifra global das vítimas das cruzadas, segundo crónicas cristãs do tempo, pode colocar-se comodamente entre quinze e vinte milhões.
+ Veio depois o extermínio sistemático de todas as oposições e heresias no decorrer dos séculos: começa-se pelo extermínio dos Maniqueus (alguns milhares), no final do Império Romano, passa-se por milhares de pequenas seitas e heresias um pouco por todo o lado, e chega-se ao milhão de Albigenses (Cátaros) exterminados no 13° século, depois de vinte anos de terror que deixaram meia Languedòc completamente despovoada.
+Até que chegou a Inquisição, cuja atividade foi de tal modo vasta e sistemática que ainda hoje não é possível calcular com precisão o número de vítimas (oficialmente, aliás, o Tribunal não mais foi fechado. Apenas mudou de nome). Só o frade dominicano Torquemada se vangloriava publicamente de ordenar a execução de 10.220 vítimas.
+À Inquisição em toda a Europa vieram depois somar-se as chamadas "guerras de religião", entre católicos e protestantes, a seguir à Reforma Luterana. Eis alguns episódios significativos:
Em 1538, 6000 protestantes foram afogados vivos pelos cristãos na cidade holandesa de Emden.
Em 1572, 20.000 hugonotes morreram por ordem do papa Pio V.
No histórico saque de Magdeburgo, durante a guerra dos 30 anos, cerca de 30.000 cidadãos – homens, mulheres, velhos e crianças - foram mortos a sangue frio pelos cristãos conquistadores. Friedrich Schiller escreveu que "numa só igreja mais de 50 mulheres foram decapitadas, e entre os cadáveres foram encontradas também bébés ainda agarrados ao seio das mães".
No fim da guerra dos 30 anos mais de 40 per cento de toda a população da Europa central tinha sido exterminada.
No século XVI a Irlanda foi "catolicizada" graças ao extermínio sistemático dos habitantes locais.
+A mesma lógica do "extra ecclesiam nulla salus" (tradução para os deserdados de qualquer lugar: "converte-te ou morres, de qualquer forma nunca irás para o céu") foi aplicada por Colombo e todos os que o seguiram na colonização do Centro e Sul da América. No que diz respeito ao Norte da América, teriam pensado em seguida os protestantes em fazer uma coisa semelhante. Estamos falando de dezenas de milhões de vítimas nos dois continentes, que significaram na época o desaparecimento efectivo de 90% das populações indígenas.
+No que diz respeito aos judeus recordamos apenas dois episódios particularmente significativos. Só no ano 1492, ano em que Colombo velejava para as Américas, mais de 150.000 judeus foram queimados a pedido, convertidos à força ou expulsos da Espanha dos catolicíssimos Fernando de Aragão e Isabel de Castela.
Em 1648, 200.000 judeus morreram, por mão cristã, no massacre de Chmielnitzki, na Polónia. Estava-se a menos de trezentos anos, e a cerca de trinta quilómetros, dos futuros fornos de Auschwitz.

 

Poderíamos continuar a esmiuçar cifras e casos históricos por muito tempo ainda, mas o sentido geral da história da cristianização parece estar já bem esclarecido: estamos falando de uma cifra global aproximativa - seguramente errada por defeito - de oitenta milhões de vítimas.
Serão estas, talvez, as "raízes cristãs" a que a Papa faz apelo? Obviamente, esperamos que não!

 

HYPERLINKS:
* Inquisição - As acusações
* A Santa Inquisição
*TORQUEMADA E A SANTA INQUISIÇÃO
* A hora dos assassinos (1979-1982)
*Inquisição
* Igreja "casta e putana"
*Os hereges e a Inquisição
*Deus e dignidade
* A Inquisição e as mulheres
*Entre a batina e a aliança
* "Os homens nunca fazem o mal tão plenamente e com tanto entusiasmo como quando o fazem por convicção religiosa". (B. Pascal)
*A CAÇA ÀS BRUXAS (INQUISIÇÃO)
* A caça às bruxas
* Esquecer 500 anos de massacres?
*A Verdade é a Vida!
* Sexo e Contradições na Igreja Católica
* O inconsciente da Igreja
* O Culto à Virgem Maria e a Cultura de Submissão da Mulher
*Pedofilia: Igreja católica entre o silêncio cúmplice e o delírio

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publicado às 05:03

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