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A Páscoa de Miguel Torga

por Thynus, em 08.04.07


"Isto de religião está cada vez pior dentro de mim. Depois de uns arrancos fundos e angustiosos, a coisa foi secando, secando, até chegar a esta mirra mística, que já não há Jordão teológico capaz de vivificar.
Mas quanto mais pobre estou desse conteúdo humano, mais cheio me sinto de desespero. O que eu dava para me levantar cedo esta manhã, ir à missa, e voltar da igreja com a cara que trazia o meu vizinho!
Não é que eu tenha verdadeiramente pecados, ou que, se os tivesse, algum Deus fosse capaz de me lavar deles. (Até o último aldeão sabe que quando muda um marco não há céu que lhe benza a maroteira).
Queria era sentir-me ligado a um destino extra-biológico, a uma vida que não acabasse com a última pancada do coração."

(Miguel Torga (“Diário I vol.)


"Ser incréu custa muito! É dia de Páscoa. O gosto que eu teria de beijar também o Senhor, se acreditasse! Assim, olho a fé dos outros em aleluia, e fico nesta tristeza agnóstica que faz da vida uma agónica aventura sem esperança de ressurreição."
(Miguel Torga, Diário XIII. Texto escrito em 15 de Abril de 1979)


"Com flores de rododendro cor de fogo
anuncio aos sentidos
o milagre
da ressurreição.
E o Cristo vivo, em que se transfigura
a mais vil criatura
que atravessa a praça,
é como uma graça
a mais da primavera.
Ah, quem pudera
todos os dias
olhar o mundo assim, repovoado
de fraternidade,
quente de um sol desabrochado
em cada pétala da realidade!"

(Texto escrito em 19 de Abril de 1987, não sei se em dia de Páscoa, mas claramente à luz da Ressurreição)

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publicado às 17:32


 

Os sonhos da noite, quando dormimos, falam-nos do passado e às vezes servem para esclarecer o subconsciente. Mas há também outros sonhos, os sonhos de dia, os sonhos acordados que nos falam do futuro; neles exprimem-se os desejos mais profundos, os anseios e as esperanças do espírito, do supraconsciente, poderíamos dizer. Quando o homem sonha assim e pressente o que há-de vir, o que vai surgir no fim, esse reino de paz e de justiça onde há-de triunfar a vida e o amor, então o homem está mais acordado do que nunca. De facto o homem vive da esperança mais do que das recordação, e só quando espera e sonha o impossível abre-se diante dos seus olhos um mundo de possibilidades e recobra forças para fazê-las amadurecer com o seu trabalho, pacientemente. Então, quando sonha, procura um lugar para a utopia, concretiza mais os seus ideais e vai resgatando o passado para um futuro melhor.
António Gedeão sabia-o muito bem, quando cantou a "Pedra Filosofal":


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.


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publicado às 23:45


Pode-se e deve-se viver sem drogas

por Thynus, em 05.04.07

 

São muitas as pessoas que não amam a sua vida concreta. E muito menos sabem vivê-la. Talvez porque não encontram nem procuram razões para viver. A vida quotidiana torna-se-lhes dura e penosa. Excessivamente aborrecida, monótona, rotineira e vulgar. Vivem prisioneiros das coisas. Demasiado agitados, aturdidos e vazios para poder deter-se a aprofundar a sua vida e tentar responder à sua verdadeira vocação de ser pessoas.
Quando a isto se junta um clima social conflitivo e um horizonte de insegurança e crise, é fácil a tentação de evadir-se para um "mundo feliz" que nos console da vida real e nos anestesie dos dissabores e amarguras de cada dia.
Cada um procura a sua «via de escape» e consome a sua própria droga. E seria um engano crer-nos livres de toda «a dependência da droga» só porque não somos escravos de nenhuma substância tóxica. Não é fácil calcular o número de «dependentes da televisão» que devoram diariamente duas ou três horas de televisão (mais de mil horas por ano). Sentados passivamente diante do televisor encontram na tela do televisor um alento sem o qual não saberiam viver. Outros recorrem ao álcool ou às jantaradas de fim-de-semana. Há os partidários do bingo ou do loto. Cresce o número dos que não podem prescindir da telenovela.
O importante é fugir, esquecer, «deixar-se levar», diluir-se fora de si mesmo, não enfrentar-se com um projecto de vida pessoal, não assumir com responsabilidade a própria vida.
Não se pode viver uma vida autenticamente humana sob a escravidão duma droga. Todos precisamos despertar da inconsciência, da evasão e da superficialidade em que caímos constantemente. Pode-se e deve-se viver sem droga.

Em jeito de conclusão, não resisto sem citar o grito de liberdade de José Régio em o "Cântico Negro":
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí!
Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!"

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publicado às 06:16


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