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Socialismo e Nacional-socialismo: a esquerda e a direita autoritárias do século XX
 
Em torno da destruição física – o imenso ossário, a demolição da terra, aspecto mais evidente do desastre, sobre o qual se concentram os estudos e as medições – estende-se um domínio invisível em que a devastação é provavelmente maior, afeta mais gente e demandará ainda mais tempo para ser reparada: a destruição das inteligências e das almas.
 
 
A inépcia
 
Pode-se esboçar – e isso foi feito – a genealogia intelectual das duas principais formas ideológicas que dominaram neste século uma parte da humanidade. O perigo é o de se acreditar que as ideias vastas e profundas de que elas tiraram alguma coisa para se formar subsistem ainda nelas. E dar-lhes uma dignidade, cartas de nobreza que elas não merecem. Seria ir na sua direção, pois elas reivindicam essa genealogia.
O marxismo-leninismo se considera o herdeiro de uma tradição que vem de Heráclito e de Demócrito. Ele descende, segundo sua pretensão, de Lucrécio, do lluminismo, de Hegel, de todo o movimento científico. Ele os resumiria e os realizaria. O nazismo buscava suas referências na tragédia grega, em Herder, Novalis, num outro Hegel, em Nietzsche e, claro, se garantia no movimento científico posterior a Darwin. E preciso não levá-los a sério. E uma ilusão, que comporta, além disso, o perigo de comprometer a linhagem reivindicada: arrisca-se a se atribuir a Hegel, ou a qualquer filósofo ou cientista citados por eles, tais descendentes.
Essa ilusão se dissipa caso se queira olhar bem o genuíno funcionamento intelectual dos dirigentes nazistas e comunistas. Ele é inteiramente dominado por um sistema de interpretação do mundo de uma extraordinária indigência. Um combate dualista é levado adiante entre classes ou raças. A definição dessas classes ou dessas raças só tem sentido no e pelo sistema, se bem que o que pode ter objetivo na noção de classe ou de raça perde-se de vista. Essas noções loucas explicam a natureza do combate, justificam-no, guiam-no no espírito da ideologia a ação dos adversários e dos aliados. Pode haver ardis e astúcias nos meios utilizados para atingir o fim e, de fato, o comunismo com Lenin, Stalin, Mao Ho Chi Minh beneficiou-se de atores mais competentes do que Hitlet: a lógica do conjunto do sistema permanece absurda; seu fim, inatingível.
O estado psíquico do militante distingue-se pelo investimento fanático no sistema. A visão central reorganiza todo o campo intelectual e perceptivo, até na periferia. A linguagem transforma-se. Ela não serve mais para comunicar ou expressar, e sim para mascarar a solução de continuidade entre o sistema e a realidade. Assume o papel mágico de sujeitar a realidade à visão do mundo; é uma linguagem litúrgica, em que cada fórmula indica a adesão do locutor ao sistema e intimida o interlocutor a aderir. As palavras reveladoras são, então, ameaças e figuras de um poder.
Não se pode permanecer inteligente sob a ideologia. O nazismo seduziu alguns grandes espíritos: Heidegger, Carl Schmitt. Isso porque eles projetavam sobre o nazismo pensamentos próprios que lhe eram estranhos, um antimodernismo profundo, um antidemocratismo profundo, um nacionalismo transformado em metafísica, tudo que o nazismo parecia ter assumido, salvo o que produzia seu valor na vida intelectual desses filósofos, o pensamento, a profundidade, a metafísica. Eles também cediam à ilusão da genealogia.
O marxismo-leninismo só recrutou espíritos de segundo escalão, um Lukács, por exemplo: eles não tardaram a perder seu talento. Os partidos comunistas podiam se vangloriar de contar com adesões ilustres – Aragon, Brecht, Picasso, Langevin, Neruda: eles tinham o cuidado de mantê-los à margem para isolá-los numa adesão de acaso, de humor, de interesse, de circunstância. Porém, apesar do caráter superficial dessa adesão, a pintura de Picasso (ver os Massacres da Coréia) e a poesia de Neruda e de Aragon não deixaram de sofrer os efeitos. Ela pode subsistir artisticamente em um registro de provocação. A adesão à ideologia dos espíritos superiores produz-se a favor de uma confluência aleatória de paixões diversas cuja natureza é externa à ideologia. Mas, aproximando-se de seu cerne, tais paixões se debilitam, não restando às vezes senão um resíduo de inépcia.
Na zona comunista, os dirigentes tiveram às vezes que resumir sob seu nome o esquema fundamental, como foi o caso Stalin e Mao, que se resume em algumas páginas e contém a totalidade da doutrina: não existem tratados superiores a esses manuais, qualificados às vezes de “elementares” para se fazer crer que haja outros mais profundos; eles seriam apenas a diluição dos primeiros. Nem por isso deixam de ser impostos como objetos de “estudo”, isto é, que os sujeitos têm a obrigação de passar algumas horas a repeti-los e a papagueá-los. Na zona nazista, tais compêndios não existiram. O pensamento deveria estar subordinado ao do líder, que se apresentaria como oracular e inspirado. Quando se analisa o teor, constata-se uma misteriosa mistura de darwinismo social, de eugenismo, de ódio vagamente nietzschiano pelo cristianismo, religião do “ressentimento”, do anti-semitismo patológico.
O homem nazista e comunista oferece-se ao exame clínico do psiquiatra. Ele parece fechado, desligado do real, capaz de argumentar indefinidamente em círculo com seu interlocutor, obscurecido, persuadido, no entanto, de ser racional. E por isso que os psiquiatras associaram esse estado de delírio crônico sistematizado à esquizofrenia, à paranóia. Se nos aprofundamos no exame, vemos que esta caracterização permanece metafórica. O sinal mais evidente de esta loucura ser artificial é que ela é reversível: quando a pressão cessa e as circunstâncias mudam, nós saímos dela imediatamente, como de um sonho. Mas é um sonho desperto, que não bloqueia a motricidade e mantém uma certa coerência de caráter racional. Fora da zona atingida, que, no homem sadio, é a parte superior do espírito, aquela que elabora a religião, a filosofia, as “ideias diretrizes da razão”, diria Kant, as funções do entendimento parecem intactas, mas polarizadas e sujeitas ao lado delirante. De tal modo que, quando despertamos, a cabeça está vazia, a aprendizagem da vida e do saber deve ser completamente retomada. A Alemanha, que tinha sido a Atenas da Europa durante um século, despertou embrutecida por doze anos de nazismo. O que dizer da Rússia, bem mais sistematicamente submetida durante setenta anos à pedagogia do absurdo, e cujas bases intelectuais eram menos estabelecidas e mais frágeis?
Essas doenças mentais artificiais são também epidêmicas e contagiosas. Elas foram comparadas à difusão repentina da peste ou da gripe. Formalmente, a nazificação da Alemanha, em 1933, e a Revolução Cultural chinesa desenvolveram-se de fato como uma espécie de doença contagiosa. Esperando sabermos mais sobre essas pandemias psíquicas, atribuamos a essas comparações um valor simplesmente metafórico.
A inépcia é o cenário de fundo da destruição moral. Ela é sua condição. O desajustamento moral da consciência natural e comum só pode existir se a concepção do mundo, a relação com a realidade, forem previamente perturbadas. Se essa cegueira é uma circunstância atenuante ou se ela é uma parte integrante do mal, eu não discutirei aqui. Ela não suspende o julgamento moral.
 
 
A falsificação nazista do bem
 
Se buscamos olhar atentamente o conjunto das operações que se praticavam contra um povo nos seis campos enumerados anteriormente, nos faltam palavras, conceitos. a imaginação recusa-se a conceber e a memória a reter. Estamos fora do humano, como se nos encontrássemos diante de uma transcendência negativa. A ideia do demoníaco aparece então irresistivelmente ao espírito.
O que assinala a nossos olhos o demoníaco é que estes atos foram realizados em nome de um bem, sob a cobertura de uma moral. A destruição moral tem como instrumento uma falsificação do bem tal que o criminoso, em uma medida impossível de precisar, possa manter a distância a consciência de que pratica o mal.
Himmler pronunciou durante a guerra numerosos discursos diante dos oficiais superiores e dos chefes de serviço da SS. O tom é sempre o da exortação moral.
Eis um texto que se eleva acima das contingências da época, acima mesmo dos interesses imediatos do Reich e que se eleva ao plano do universal: “Tudo o que fazemos deve ser justificado em relação a nossos ancestrais. Se não encontrarmos este vínculo moral, o mais profundo e o melhor porque mais natural, não seremos capazes a esse nível de vencer o cristianismo e de constituir esse Reich germânico que será uma bênção para toda a Terra. Há milênios é o dever da raça loura dominar a terra e sempre lhe propiciar felicidade e civilização.” (9 de junho de 1942)
O bem, segundo o nazismo, consiste em restaurar uma ordem natural corrompida pela história. A correta hierarquização das raças foi transformada por esses acontecimentos funestos que são o cristianismo (“esta peste, a pior doença que nos tem atingido em toda a nossa história”), a democracia, o reino do ouro, o bolchevismo, os judeus. A ordem natural é coroada pelo Reich alemão, mas reserva um lugar aos outros germânicos, que são os escandinavos, os holandeses, os flamengos. Pode-se mesmo deixar intacto o império britânico, que é “um império mundial criado pela raça branca”. Abaixo, os franceses e os italianos. Mais abaixo ainda os eslavos, que serão escravizados e reduzidos em número; Himmler encara uma “diminuição” de trinta milhões. No interior da sociedade, restaurar-se-á assim a ordem natural que quer que dominem os melhores, os mais duros, os mais puros, os mais cavalheirescos, cujos exemplos vivos são fornecidos pela elite da Waffen-SS. Quando Himmler pronunciou esse discurso, os incuráveis, os deficientes, os alienados da “raça” alemã já haviam sido eutanasiados clandestinamente nos hospitais e nos asilos.
Tudo isso não poderá ser feito, continua Himmler, sem um combate extremamente duro. Em seus discursos, ele apela constantemente ao heroísmo, à superação de si, ao sentido do dever superior com o Reich, particularmente quando se trata de executar ordens dolorosas: “Nós devemos atacar as tarefas ideológicas e responder ao destino, qualquer que seja ele; devemos estar sempre de pé, não cair nunca, não nos enfraquecermos nunca, mas estarmos sempre presentes até que o caminho termine ou que a tarefa de cada um tenha sido cumprida.”
A “solução final”, em certos aspectos, é apenas um problema técnico, como a desinfecção quando há perigo de tifo: “Destruir os piolhos não decorre de uma concepção do mundo. É uma questão de higiene. [...] Logo não teremos mais piolhos.” (24 de abril de 1943) A metáfora do inseto a destruir aparece regularmente no campo do extermínio ideológico. Lenin já a usara. Mas Himmler, grande líder, diz isso para fortalecer e encorajar seu auditório. Ele sabe que não é tão simples, que falsos escrúpulos podem ser superados e que para se realizar um certo tipo de tarefa “é sempre preciso ter consciência do fato de que nos encontramos em um combate racial, primitivo, natural e original” (IPde dezembro de 1943). Esses quatro adjetivos descrevem de modo apropriado a característica da ética nazista.
Em seu discurso de 6 de outubro de 1943, Himmler enuncia sua concepção da solução final; “A frase ‘os judeus devem ser exterminados’ comporta poucas palavras, ela é dita rapidamente, senhores. Mas o que ela necessita da parte daqueles que a colocam em prática é o que há de mais árduo e de mais difícil no mundo.
Naturalmente, são judeus, não são senão judeus, é evidente; mas pensem no número de pessoas – mesmo de camaradas do partido – que dirigiram a não importa que serviço, ou a mim mesmo, estes famosos pedidos, dizendo que, claro, todos os judeus são porcos, exceto fulano ou sicrano, que são judeus decentes, aos quais não se deve fazer nada. Eu ouso dizer que, a julgar pelo número desses pedidos e pelo número dessas opiniões na Alemanha, há mais judeus decentes do que propriamente judeus. [...] Eu lhes peço então com insistência para simplesmente ouvir o que eu digo aqui neste círculo fechado, e nunca falem disso com ninguém. Foi-nos feita a seguinte pergunta: o que fazer com as mulheres e as crianças? – Eu decidi, e também neste caso, encontrei uma solução evidente. Eu não me sentia no direito de exterminar os homens – se vocês preferem, matá-los ou mandá-los matar – e deixar crescer as crianças que se vingariam em nossas crianças e em nossos descendentes. Foi preciso tomar a grave decisão de fazer desaparecer esse povo da Terra. Foi, para a organização que teve de realizar essa tarefa, a coisa mais dura que já conhecera. Eu creio poder dizer que isso foi realizado sem que os nossos homens e os nossos oficiais tenham sofrido em seus corações ou em suas almas. Esse perigo era, no entanto, real. A via situada entre as duas possibilidades: tornar-se duro demais, agir sem coração e não respeitar mais a vida humana, ou então se tomar muito brando e perder a cabeça até ter crises de nervos – a via entre Caribde e Cila é desesperadamente estreita.”
Este justo meio virtuoso que Himmler reclama foi, às vezes, atingido: vários grandes carrascos, de fato, foram ternos pais de família, maridos sentimentais. Ele exige que a “tarefa” seja realizada sem intervenção de motivos “egoístas”, calmamente, sem fraqueza nervosa. Entregar-se à bebida, violar uma jovem, roubar os deportados, entregar-se a um sadismo inútil revela indisciplina, desordem, esquecimento do idealismo nazista, que são condenáveis e devem ser punidos.
A moral nazista impõe a busca da ordem que indica a natureza. Mas a ordem natural não é contemplada, mas sim deduzida do saber ideológico. O pólo do bem é representado pela “raça loura”, o pólo do mal pela “raça judia”. O combate cósmico terminará pela vitória de uma ou de outra.
Mas tudo isso é falso. Não há raças, no sentido em que o entendem os nazistas. O grande ariano alto e louro não existe, mesmo que se possam exibir alemães que sejam grandes e louros. O judeu, conforme eles o entendem, não existe, pois a representação racial que é feita pelo nazismo só tem relações de coincidência com a verdadeira identidade do povo da Aliança bíblica. O nazista crê ver a natureza, mas a natureza se esconde atrás do esquema interpretativo. A situação histórica e militar não é mais percebida sem deformação. Por causa de seu “nazismo”, Hitler entra em guerra e, por causa do próprio nazismo, ele a perde. A superioridade de Stalin residiu em ter conseguido colocar sua ideologia de lado o tempo necessário para preparar a vitória. A ideologia leninista era “melhor” porque permitia essas pausas e autorizava uma paciência política de que o nazismo, impulsivo e convulsivo, se mostrou incapaz.
A ética nazista se manifestava como uma negação da tradição ética de toda a humanidade. No máximo alguns pensadores marginais ousaram lançar, por provocação estética, alguns de seus temas. De fato, o gênero de naturalismo que ela propõe, o super-homem, o sub-homem, o desejo de poder, o niilismo, o irracionalismo, fazem-na recair no terreno da estética. É o kitsch artístico que embriaga, as encenações de Nuremberg, a arquitetura colossal ao estilo de Speer, o sombrio esplendor da força bruta. Enquanto moral, ela não pode produzir um correlato sério na História. Sua perversidade se torna evidente; ela não é universalizável: estas duas fraquezas se opõem à moral comunista.
Isto explica o motivo de a moral nazista ter sido menos contagiosa que a moral comunista e de a destruição moral ter sido mais limitada. As raças “inferiores”, “sub-humanas”, viam nessa doutrina uma ameaça mortal iminente e não podiam ser tentadas. O próprio povo alemão, na medida em que seguiu Hitler, o fez mais por nacionalismo do que por nazismo. O nacionalismo, que é uma paixão natural, singularmente estimulada há dois séculos, forneceu às formações artificiais do regime nazista, como aliás às do regime comunista, sua energia, seu carburante. Alguns membros da elite alemã tinham apoiado a chegada ao poder do chanceler: o aristocratismo indolente das tropas hitleristas não tinha nada a ver com a antiga elite. Aquele que reivindicava Nietzsche caiu na armadilha, como todo mundo. Quanto à lealdade do corpo de oficiais, ela se explica pela tradição militar, reforçada por um pouco de kantismo ou de hegelianismo. Os soldados obedeceram como obedecem os soldados.
É por isso que a abordagem teórico-simbólica do nazismo, a destruição física do povo judeu, e depois, por ordem hierárquica, a dos outros povos, foi um segredo, e dos mais bem guardados, do Reich. A “Noite de Cristal”, que foi um teste, uma tentativa para convocar e unir o povo alemão no grande projeto, não se constituiu um sucesso político. Hitler também decidiu construir fora dos territórios da Alemanha histórica os seis grandes centros de extermínio.
O desgaste moral nazista pode ser descrito em círculos concêntricos em torno de um núcleo central que os propósitos citados por Himmler permitem imaginar. Ele é formado por aqueles que se converteram plenamente ao nazismo. Eles são pouco numerosos. É o coração do partido, o coração da Waffen-SS, o coração da Gestapo. Os executores do extermínio são ainda menos numerosos. Não tinham necessidade de sê-lo: o alto desenvolvimento industrial e tecnológico alemão permitia economia de mão-de-obra. Algumas centenas de SS que governavam os campos da morte delegavam as tarefas “manuais” às próprias vítimas. Os Einsatzgruppen eram recrutados sem qualificação prévia. Percebeu-se que eles poderiam teoricamente abandonar esse corpo de assassinos. Mas grandes problemas os esperavam então, o primeiro dos quais o de combater na frente soviética. Esses homens eram, ou tinham se tornado, monstros. Não é certo que todos eles tinham feito adesão à ideologia nazista. Em toda população é fácil recrutar tantos torturadores e assassinos quanto se necessita. O verniz ideológico facilitava sua vocação ou lhes permitia desabrocharem. Já observamos que a atividade das Einsatzgruppen não podia ser ignorada pela Wehrmacht, em cuja sombra elas operavam; que o destino dos trens, a liquidação dos guetos, não deixavam muita margem a suposições; que, apesar da no man’s land que envolvia os campos da morte, alguma coisa terminava por transparecer. Hillberg escreve que o segredo era “um segredo conhecido por todo mundo”. O que é, sem dúvida, verdade, mas é preciso considerar dois pontos.
Um segredo conhecido por todo mundo não é a mesma coisa que uma política proclamada e um fato público. Os alemães seguiam, por disciplina militar e cívica, por nacionalismo, por medo, por impotência em conceber ou em realizar um ato de resistência. O segredo, mesmo ventilado, livrava-os da responsabilidade moral imediata, ou pelo menos permitia desviar, voltar a cabeça para outro lado, fazer como se tudo aquilo não existisse. Sob o nazismo subsistia uma sociedade que vivia sobre as relíquias do direito. O corpo de oficiais compreendia um número de homens que permaneciam fiéis aos cânones da guerra e se esforçavam, com maior ou menos sucesso, para manter uma certa honra. Porque a propriedade não tinha sido ainda eliminada, uma sociedade civil sobrevivia. O filme A lista de Schindler repousa no fato de que podia existir, na Alemanha, um proprietário de empresa em condições de recrutar e de abrigar uma mão-de-obra judia. Desde os primeiros anos do comunismo, algo desse tipo não era mais concebível na Rússia.
O conteúdo do segredo não era algo em que poderia crer um espírito normalmente constituído. O fato de que uma grande parte da Alemanha vivia ainda em uma sociedade e sob uma moral naturais, e de não avaliar bem o que a esperava, tornava mais difícil acreditar na realidade do que lhe escondiam, na consistência das suspeitas, na evidência dos indícios. Os próprios judeus, que tinham passado pela expropriação, concentração, deportação, quando chegavam diante das câmaras de gás ainda não podiam acreditar.
A pedagogia nazista teve apenas alguns anos de exercício. Quando a Alemanha foi ocupada, o nazismo rapidamente se evaporou – pelo menos na zona ocidental; no leste, ele foi, em parte, utilizado de novo. Em primeiro lugar porque foi julgado e condenado por todas as justiças alemãs e internacionais. Em seguida, porque a maioria da população não tinha ficado profundamente impregnada. Enfim, porque os próprios nazistas, despertos, não viam nitidamente a relação entre o que eles tinham sido sob a influência mágica da ideologia e o que eles eram agora que essa influência tinha se dissipado. Eichmann voltou à sua natureza básica de quadro médio, o que ele era antes e o que teria sido depois se não tivesse sido preso e condenado. Punição que ele recebeu de forma passiva, conforme seu caráter apagado. Os fatos relatados, como mostrou com razão Hannah Arendt, eram incomensuráveis para a consciência estreita daquele ser banal.
 
 
A falsificação comunista do bem
 
O comunismo é moral. O imperativo moral sustenta toda a pré-história do bolchevismo (o socialismo francês e alemão, o populismo russo), e sua vitória é celebrada como uma vitória do bem. A estética não predomina sobre a ética. O nazista se acha um artista; o comunista, um virtuoso.
O fundamento dessa moral está no sistema interpretativo. Ela é deduzida do saber. A natureza primitiva, afirma ele, não é a natureza hierarquizada, cruel, implacável com que se encanta o homem superior nazista. Ela se parece com a natureza boa de Rousseau. Ela se perdeu, mas o socialismo a recriará, levando-a a um nível superior. O homem se realizará completamente nela. Trotski afirmava que o nível de base da humanidade nova seria Michelangelo e Leonardo da Vinci. O comunismo democratiza o super-homem.
O progresso natural é um progresso histórico, pois o materialismo histórico e dialético garante a unidade entre a natureza e a história. O comunismo faz seu o grande tema do Iluminismo, o Progresso, em oposição, então, aos temas da decadência que assombram o nazismo; mas progresso dramático, que passa por imensas e inevitáveis destruições. Reconhecemos aqui vestígios do pantragismo hegeliano e sobretudo do darwinismo árduo da luta pela sobrevivência aplicada à sociedade. As “relações sociais de produção” (“escravismo”, “feudalismo”, “capitalismo”) se sucedem à maneira dos grandes reinos no mundo animal, como os mamíferos sucedem aos répteis. É um terreno de acordo secreto entre o nazismo e o comunismo: não se chora sobre o leite derramado; não se faz omelete sem quebrar os ovos; quando o gato sai, os ratos fazem a festa, todas expressões familiares a Stalin. De um lado e do outro, a história é dona da verdade. O nazismo restabelecerá o mundo em sua beleza; o comunismo, em sua bondade.
O restabelecimento depende da vontade humana iluminada pela ideologia. O leninismo, mais claramente ainda que o nazismo, obedece ao esquema gnóstico dos dois princípios antagônicos e dos três tempos. No momento inicial era a comuna primitiva; no momento futuro será o comunismo, e hoje é o momento da luta entre os dois princípios. As forças que fazem “avançar” são boas; as que “atrasam”, ruins. A ideologia (cientificamente garantida) designa o princípio ruim. Não se trata de uma entidade biológica (a raça inferior), mas social, que se tece na realidade em toda a sociedade: a propriedade, o capitalismo, o complexo dos costumes, do direito, da cultura que se eleva sobre o princípio ruim e que resume a expressão “o espírito do capitalismo”. Aqueles que compreenderam os três momentos e os dois princípios, que conhecem a essência da ordem natural e histórica, e que conhecem o sentido de sua evolução e os meios para acelerá-la, reagrupam-se e formam o partido.
É bom então o conjunto dos meios que fazem advir o fim que o revolucionário prevê. Como o processo é tão natural quanto histórico, a destruição da velha ordem é em si uma possibilidade para fazer advir o novo. A fórmula de Bakunin, que resumia o que ele tinha compreendido de Hegel, é a máxima do bolchevismo: o espírito de destruição é o mesmo que o espírito de criação. Na pré-história do bolchevismo, os heróis narodnik eram muito conscientes da revolução moral que suas concepções continham. Tchemychevski, Netchaiev e Tkatchev desenvolveram uma literatura do “homem novo”, de que Dostoievski satirizou e de que ele compreendeu o sentido metafísico. O homem novo é aquele que faz sua a nova moral de dedicação absoluta aos fins, que se dedica a expulsar de si mesmo os restos da velha moral, aquela que os “inimigos de classe” propagam para perpetuar o seu domínio. Lenin canonizou a ética comunista, e Trotski escreveu um pequeno livro cujo título já diz tudo: A moral deles e a nossa.
O fato assustador é que essa ruptura moral não é percebida por todos de fora desse meio revolucionário. De fato, para descrever a nova moral, o comunismo serve-se de palavras da velha: justiça, igualdade, liberdade... É fato que o mundo que ele se apresta a destruir está repleto de injustiça e de opressão. Os homens de bem não podem deixar de aceitar que os comunistas denunciam esses males com extremo vigor. Eles concordam que a justiça distributiva não é respeitada. Guiando-se pela ideia de justiça, o homem de bem busca promover uma melhor distribuição das riquezas. Para o comunista, a ideia de justiça não consiste numa divisão “justa”, e sim no estabelecimento do socialismo, na supressão da propriedade privada, anulando assim todo tipo de divisão, a própria divisão e, enfim, o direito das partes. Os comunistas dedicam-se a fazer nascer a consciência da desigualdade, não tendo como objetivo fazer constatar uma falta de direito, mas fazer desejar uma sociedade em que a regulação não passará pelo direito. Da mesma forma, a ideia comunista de liberdade tem por fim estimular a consciência de uma opressão onde o indivíduo, vítima da alienação capitalista, crê ser livre. Finalmente, todas as palavras que servem para expressar as modalidades do bem – justiça, liberdade, humanidade, bondade, generosidade, realização – são instrumentalizadas em vista do fim único, que contém todas elas e as realiza: comunismo. Do ponto de vista da ideia comunista, essas palavras mantêm com as antigas apenas uma relação de homonímia. Havia, no entanto, critérios simples que deveriam ter dissipado essas confusões.
Eu chamo de moral natural ou comum aquela à qual se referem os sábios da Antiguidade, e também os da China, da índia ou da África. No mundo constituído pela Bíblia, essa moral é resumida na segunda tábua dos mandamentos de Moisés. A ética comunista opõe-se a ela de forma frontal e muito consciente. Ela se propõe a destruir a propriedade e, com ela, o direito e a liberdade que se vinculam a ela, e reformar a ordem familiar. Ela se dá o direito de todos os meios de mentira e de violência para derrubar a velha ordem e fazer surgir a nova. Ela transgride abertamente, em seu princípio, o quinto mandamento (“honrarás pai e mãe”), o sexto (“não matarás”), o sétimo (“não cometerás adultério”), o oitavo (“não roubarás”), o nono (“não darás falso testemunho contra teu próximo”) e o décimo (“não cobiçarás a mulher do próximo”).
Não é absolutamente necessário crer na revelação bíblica para aceitar o espírito desses preceitos que se encontram em todo o mundo. A maioria dos homens considera que existem comportamentos que são verdadeiros e bons porque correspondem ao que eles conhecem das estruturas do universo. O comunismo concebe um outro universo e vincula a ele sua moral. É por isso que ele recusa não só os preceitos, mas também seu fundamento, o mundo natural. Dizíamos que a moral comunista baseia-se na natureza e na história; é falso. Baseia-se numa supernatureza que não existe e numa História sem verdade.
“O regime soviético”, escreveu Raymond Aron, em Democracia e totalitarismo “originou-se de uma vontade revolucionária inspirada em um ideal humanitário. O objetivo era o de criar o regime mais humano que a História já tivesse conhecido, o primeiro regime em que todos os homens poderiam ter acesso à humanidade, em que as classes teriam desaparecido, em que a homogeneidade da sociedade permitiria o reconhecimento recíproco dos cidadãos. Mas esse movimento tendeu para um fim absoluto, não hesitando diante de qualquer meio, porque, segundo a doutrina, apenas a violência poderia criar essa sociedade absolutamente boa, e o proletariado estava engajado numa guerra impiedosa contra o capitalismo. Dessa combinação entre um fim último e uma técnica impiedosa surgiram as diferentes fases do regime soviético.”
Estas linhas refletem, com toda a clareza possível, a ambigüidade e o engodo do comunismo. Pois o que é chamado de humano e de humanitário é, de fato, o sobre-humano e o sobre-humanitário que promete a ideologia. O humano e o humanitário não têm nem direito nem futuro. As classes não se reconciliam, elas desaparecem. A sociedade não se torna homogênea, ela é destruída em sua autonomia e em sua dinâmica própria. Não é o proletariado que faz a guerra ao capitalismo, é a seita ideológica que fala e age em seu nome. Enfim, o capitalismo só existe por oposição a um socialismo não existente senão na ideologia, e, em conseqüência, o conceito de capitalismo é inadequado para descrever a realidade que deve ser derrubada. O objetivo não é sublime: ele assume as cores do sublime. O meio, que é matar, se toma o único fim possível.
Ao fim de um longo e admirável paralelo entre o nazismo e o comunismo, Raymond Aron escreve: “Eu manterei, no ponto de chegada, que, entre esses dois fenômenos, a diferença é essencial, quaisquer que sejam as similitudes. A diferença é essencial à causa da ideia que anima os dois empreendimentos. Num caso, o ponto de chegada é o campo de trabalho; no outro, a câmara de gás. Num caso, é a vontade de construir um regime novo e talvez um outro homem, não importando quais os meios; no outro, uma vontade propriamente demoníaca de destruição de uma pseudo-raça.”
Eu também admito a diferença na base de argumentos que exporei mais adiante. Aqueles que são mencionados aqui não me convencem. O nazismo também projetava um regime novo e um homem novo, não importando quais os meios. Não é possível decidir qual o mais demoníaco: destruir uma pseudo-raça, inclusive a “superior”, porque elas são todas poluídas; ou destruir uma pseudoclasse e, depois, sucessivamente, as outras, todas contaminadas pelo espírito do capitalismo.
Raymond Aron, enfim, conclui: “Se eu tivesse que resumir o sentido de cada uma dessas empresas, acho que estas são as fórmulas que eu sugeriria: a propósito da empresa soviética, eu recordaria a fórmula banal ‘quem quer se passar por anjo, passa por animal’; a propósito da empresa hitlerista, eu diria: ‘O homem erraria ao se colocar como objetivo assemelhar-se a um animal de rapina, porque ele o conseguiria perfeitamente’.”
É melhor ser um animal que se passa por anjo ou ser um homem que se faz de animal, tendo-se confessado que todos os dois são de “rapina”? E impossível decidir. No primeiro caso, o grau de mentira é maior e a sedução mais atraente. A falsificação do bem é mais profunda, dado que o crime se assemelha mais ao bem do que o crime do nazismo, o que permite ao comunismo difundir-se mais amplamente e tocar corações que teriam recuado diante de uma vocação SS. Tomar maus homens bons talvez seja mais demoníaco que tornar pior homens já maus. O argumento de Raymond Aron vincula-se à diferença de intenções. A intenção nazista contradiz a ideia universal do bem. A intenção comunista perverte-a, pois ela tem um jeito bom e permite a muitas almas desatentas aderir ao projeto. O projeto sendo inacessivel, só restam, para qualificar o julgamento moral, os meios, que, sendo impotentes para atingir o seu fim, tornam-se o fim efetivo. Agregando-se ao crime, a mentira o torna mais tentador e mais perigoso.
Mais tentador: o comunismo leninista rouba a herança de um ideal muito antigo. Nem todos estão em condição de discernir, no momento da adesão, a corrupção que ele operou. Acontece que se permanece por muito tempo comunista, até toda a vida, sem se dar conta disso. A confusão da velha moral (comum) com a nova nunca é completamente dissipada. Se bem que ainda resta nos partidos comunistas uma proporção de “gente boa”, que resiste à deterioração moral e cuja presença joga a favor da anistia coletiva. O ex-comunista é mais facilmente perdoado do que o ex-nazista, já que este é suspeito de ter, desde sua adesão, rompido conscientemente com a moral comum.
Mais perigoso porque a educação comunista é insidiosa, progressiva, e transforma em bons os atos ruins que ela faz cometer. Mais perigoso também por ser imprevisível com as suas futuras vítimas. Todo mundo, de fato, pode assumir virtualmente, de um momento para o outro, a qualidade do inimigo. O nazismo designava por antecipação seus inimigos. Ele lhes atribuía uma natureza fantástica sem relação com a verdadeira, mas por trás do sub-homem havia um judeu real, por trás do eslavo desprezível um polonês ou um ucraniano de carne e osso. Aqueles que não eram nem judeus nem eslavos dispunham de um sursis. O universalismo, que é, antes da tomada do poder, a grande superioridade do comunismo sobre o exclusivismo nazista, se torna, uma vez no poder, uma ameaça universal. O capitalismo, como esta palavra é empregada, só tem uma existência ideológica, e não há categoria da humanidade que não possa cair sob a maldição que se abate sobre ele: o camponês “médio” e “pobre”, a intelligentsia, o “proletariado”, o próprio partido, enfim. Todos podem ser contaminados pelo espírito do capitalismo. Ninguém está a salvo da suspeita.
Com um certo realismo, os líderes nazistas prometiam sangue e lágrimas, previam um combate mortal para restabelecer a humanidade em sua correta ordem racial. Ao contrário, Lenin achava que os tempos estavam maduros e que a escatologia se realizaria assim que o “capitalismo” tivesse sido derrubado. A revolução iria inflamar o mundo inteiro. Uma vez expropriados os expropriadores, os quadros do socialismo iriam espontaneamente ocupar seu lugar. Mas nada disso se passou em seguida ao 7 de novembro de 1917, e a cortina subiu sobre um palco vazio. Para onde foram o proletariado, o campesinato pobre e médio, o internacionalismo proletário? Lenin está sozinho com seu partido, alguns guardas vermelhos, em um mundo hostil ou indiferente. 
No entanto, o marxismo-leninismo é científico. É preciso então que a experiência prove a teoria. Como o capitalismo foi derrubado, é necessário que o socialismo chegue. Como, aparentemente, ele não chega, resta construí-lo segundo as linhas indicadas pela teoria e verificar que em cada momento o resultado será conforme a previsão. Assim se constrói, pedra sobre pedra, um universo falso que se supõe que deveria substituir o verdadeiro. Assim se torna espessa uma atmosfera de mentira generalizada, à medida que os fatos se afastam das palavras encarregadas de descrevê-los. O bem se afirma freneticamente para negar a realidade do mal.
É principalmente por esta via que se produz a destruição moral no regime comunista. Como no regime nazista, ela se estende em círculos concêntricos em torno do núcleo inicial.
No centro se encontra o partido, e, no partido, seu círculo dirigente. Nos primeiros tempos do poder, ele ainda está sob o domínio total da ideologia. Nesse momento é que ele se dedica a eliminar “o inimigo de classe”. Em uma intoxicação absoluta da consciência moral, ele destrói em nome da utopia categorias inteiras de pessoas. Uma olhada retrospectiva mostra que, nos casos russo, coreano, chinês, romeno, polonês, cambojano, esta sangria inicial foi uma das mais importantes da história desses regimes: às vezes da ordem de 10% da população, ou até mais do que isso.
Quando parece que o sonho utópico já não se realizará, que a dizimação propiciatória não serviu para nada, observa-se um deslizamento da utopia para a simples conservação do poder. O inimigo objetivo estando já exterminado, é preciso cuidado para que não se reconstitua, até mesmo para que não reapareça nas fileiras do próprio partido. É o momento de um segundo terror, que parece absurdo porque não responde a uma resistência social e política, e visa a um controle total de todos os homens e de todos os pensamentos. O medo então se torna universal, ele se alastra no próprio partido, onde cada membro se sente ameaçado. Todo mundo denuncia todo mundo; todo mundo trai em cadeia.
Depois vem o terceiro estágio, o partido previne-se contra o expurgo permanente. Ele se contenta com uma gestão rotineira do poder e de sua segurança. Ele não crê mais na ideologia, mas continua a falar sua linguagem, e cuida para que essa linguagem, que ele sabe que é mentirosa, seja a única falada, pois ela é o sinal de sua dominação. Ele acumula os privilégios e as vantagens; transforma-se em casta. Ele entra em uma corrupção generalizada. Entre o povo, não se comparam mais seus membros a lobos, mas a porcos.
A periferia é constituída pelo restante da população. Na sua totalidade, de fato, esta é imediatamente convocada e mobilizada para a construção do socialismo. Ainda na sua totalidade ela sofre a ameaça, ela está exposta à mentira, ela é solicitada a participar do crime.
Ela está, antes de tudo, fechada. Todo governo comunista fecha as fronteiras, esse é um de seus primeiros atos. Os nazistas, até 1939, autorizavam as partidas, a troco de resgate. A “pureza” da Alemanha ganhava com isso. Mas jamais os comunistas. Eles têm necessidade do fechamento absoluto das fronteiras para proteger o segredo de suas matanças, de seu fracasso; mas, sobretudo, porque o país supostamente se tornou uma vasta escola em que todos devem receber a educação que extirpará o espírito do capitalismo e filtrará, em seu lugar, o espírito socialista.
O segundo passo é conttolar a informação. A população não deve saber o que se passa fora do campo socialista. Ela não deve tampouco saber o que se passa dentro. Ela não deve conhecer seu passado. Ela não deve conhecer seu presente: somente seu futuro radioso.
O terceiro é substituir a realidade por uma pseudo-realidade. Todo um corpo especializado no falso produz falsos jornalistas, falsos historiadores, uma falsa literatura, uma falsa arte que finge refletir fotograficamente uma realidade fictícia. Uma falsa economia produz estatísticas imaginárias. Acontece às vezes que as necessidades da cenografia chegam à adoção de medidas de estilo nazista. Assim, na URSS, os mutilados de guerra e do trabalho eram afastados da vista do público, transportados para asilos longínquos onde eles não chamavam mais atenção. Na Coréia, recordemos, são os anões, cuja “raça” deve desaparecer, que são deportados e impedidos de procriar. A construção dessa cenografia ocupa milhões de homens. Para que serve isso? Para provar que o socialismo não só é possível, mas que se constrói, se afirma, mais do que isso, que já está realizado: que existe uma sociedade nova, livre, auto-regulamentada, em que crescem os “homens novos” que pensam e agem espontaneamente conforme os cânones da realidade-ficção. O instrumento mais poderoso do poder é a confecção de um novo idioma em que as palavras assumem um sentido diferente do habitual. Sua elocução, seu vocabulário especial lhe dão o valor de uma linguagem litúrgica: ela denota a transcendência do socialismo. Ela assinala a onipotência do partido. Seu emprego pelo povo é a marca imediatamente visível de sua servidão.
No começo, uma parte importante da população recebe de boa-fé a pedagogia da mentira. Ela entra na nova moral com seu patrimônio moral antigo. Ela ama os dirigentes que lhe prometem a felicidade, ela crê que é feliz. Ela pensa viver na justiça. Ela detesta os inimigos do socialismo, ela os denuncia, aprova que eles sejam expropriados, que sejam mortos. Ela apóia seu extermínio com dureza. Ela participa do crime sem se dar conta. Ao mesmo tempo, ela se embrutece por ignorância, desinformação, raciocínios falsos. Ela perde suas referências intelectuais e suas referências morais.
A incapacidade de distinguir o comunismo do ideal moral comum faz com que, quando seu sentimento de justiça é ferido, ela atribua o abuso ao inimigo externo. Até a queda do comunismo, na Rússia, era freqüente os homens que sofriam maus-tratos pelos policiais ou pelos militantes os tratarem de “fascistas”. Não passava chamar-lhes por seu verdadeiro nome – comunistas.
E a vida, na cenografia socialista, em vez de se tornar “mais alegre, mais feliz”, como dizia Stalin, enfaticamente, em pleno “grande expurgo”, se torna mais sinistra, mais lúgubre. O medo invade tudo e é preciso sobreviver. O aviltamento moral, até ali inconsciente, penetra na consciência. O povo socialista, que fazia o mal acreditando que fazia o bem, sabe agora que o faz. Ele denuncia, rouba, se humilha, se torna mau, covarde e tem vergonha. O regime comunista não esconde seus crimes, como fez o nazismo; ele os proclama, convida a população a se associar a eles. Cada condenação é seguida de uma reunião de aprovação. O acusado é publicamente renegado por seus camaradas, sua mulher, seus filhos. Estes se unem à cerimônia por medo, por interesse. O stakhanovismo entusiasta dos primeiros tempos – se ele chegou a existir foi apenas como elemento cenográfico – é revelado no Homo sovieticus como um indolente, servil, imbecil. As mulheres sentem horror pelos homens. As crianças por seus pais, e sentem que se tornam aos poucos como eles.
O último estágio nos é descrito pelos escritores do fim do sovietismo, Erofeev, Zinoviev. Os sentimentos mais difundidos são o desespero e a repugnância de si mesmo. Resta aproveitar-se dos prazeres específicos que esse regime proporciona: a irresponsabilidade, a preguiça, a passividade vegetativa. Não vale mais a pena praticar o duplo pensamento, procura-se na verdade não pensar em nada. As pessoas se fecham sobre si mesmas. O sentimentalismo choroso, a selppity são uma maneira, como fazem os bêbados, de tomar os outros testemunhas de sua degradação. Estamos sempre no “ratorium' de Zinoviev, na luta hobbesiana de todos contra todos, mas com muito pouca energia. Zinoviev estimava que o Homo sovieticus era o produto de uma mutação irreversível da espécie. Provavelmente um erro.
Não há lugar protegido para escapar à pedagogia da mentira. Os quadros sociais da velha sociedade foram destruídos, juntamente com a propriedade, e substituídos por novos quadros que são outras tantas escolas e lugares de vigilância: o kolkhoz, a comuna popular chinesa para o camponês, o “sindicato” para o operário, as “Uniões” para o escritor e o artista. Pode-se descrever a história desses regimes como uma corrida permanente para o controle universal e, do lado dos indivíduos, como uma corrida perdida para encontrar refúgios ou pelo menos alguns recantos. Eles sempre existiram. Foi assim que na Rússia algumas famílias da velha intelligemsia souberam preservar suas tradições. Um Andrei Sakharov apareceu. Nas universidades, houve cátedras mais ou menos tranqüilas de assiriologia ou de filologia grega. Nas igrejas subjugadas, golpes de ar puro. No fim do regime, eram encontrados em Moscou pequenos grupos de jovens que, tendo recuperado a vida moral e intelectual, viviam voluntariamente de expedientes, não pegando nenhum trabalho, não brigando por nenhum posto, reduzindo ao mínimo os contatos com o exterior soviético. Eles se mantiveram assim até o fim.
No império soviético, o espírito reeducativo do comunista deter-se-ia na porta do campo. Para os nazistas, a conversão não tinha lugar, mas os bolcheviques praticamente renunciaram a converter os presos. Se bem que Soljenitsyn tenha podido afirmar que o campo era, apesar de seu horror, um lugar de liberdade intelectual e de respiração espiritual. O comunismo asiático fez dele, ao contrário, o lugar em que a pedagogia se exerce da maneira mais obsessiva, mais torturante. As autoridades observam o progresso do preso. Ele só sairá morto ou reeducado.
 
 
Avaliação
 
Pode-se tentar, nos limites que impõe o ponto de vista histórico, avaliar comparativamente a destruição moral produzida neste século pelo nazismo e pelo comunismo.
Por destruição moral, não entendo a desestruturação dos costumes, no sentido em que reclamam desde sempre as pessoas velhas olhando os costumes dos mais jovens. Eu não quero tampouco fazer um juízo sobre este século em comparação com outros. Não há nenhuma razão filosófica para pensar que o homem tenha sido mais virtuoso ou menos virtuoso. Resta que o comunismo e o nazismo buscaram mudar, agindo sobre os costumes, a regra moral, a consciência do bem e do mal. Por causa disso, algumas coisas que a experiência humana jamais tinha registrado foram cometidas.
Apesar de a intensidade no crime ser levada pelo nazismo a um grau que o comunismo talvez jamais se igualou, deve-se, no entanto, afirmar que este último a levou a uma destruição moral mais extensa e mais profunda. Por duas razões.
Em primeiro lugar, porque a obrigação de interiorizar a nova regra moral se estende à população inteira submetida à reeducação. As testemunhas nos dizem que esta interiorização obrigatória é a parte mais insuportável da opressão comunista: que todo o resto – a ausência das liberdades políticas e civis, a vigilância policial, a repressão física, o próprio medo – não é nada ao lado desta pedagogia mutilante, que se torna louca porque contradiz as evidências dos sentidos e do entendimento. Que toda a panóplia das “medidas” e dos “órgãos” lhe está finalmente subordinada. Como o comunismo, à diferença do nazismo, teve o tempo para ele, a pedagogia foi até o fim. Sua queda ou sua retirada de cena deixaram como herança uma humanidade arruinada, e o envenenamento das almas é mais difícil de ser expurgado que na Alemanha, que, afetada por uma alienação temporária, despertou de seu pesadelo pronta para o trabalho, o exame de consciência e o arrependimento purificador.
Em seguida, porque a confusão permanece insuperável entre a moral comum e a moral comunista, esta se escondendo atrás daquela, tornando-se parasita dela, gangrenando-a, fazendo dela o instrumento de seu contágio. Um exemplo recente: nas discussões que se seguiram à publicação do Livro Negro, um editorialista do L’Humanité declarou à televisão que os oitenta milhões de mortos não manchavam em nada o ideal comunista. Eles representavam apenas um lamentável desvio. Depois de Auschwitz, continuou ele, não se pode ser mais nazista; mas depois dos campos soviéticos, pode-se continuar sendo comunista. Esse homem que falava com consciência não se dava de forma alguma conta de que ele acabava de formular sua mais fatal condenação. Ele não percebia que a ideia comunista tinha pervertido de tal forma o princípio de realidade e o princípio moral, que ela não poderia de fato sobreviver a oitenta milhões de cadáveres, ao passo que a ideia nazista tinha sucumbido sob os seus. Acreditando falar como um homem muito honesto, idealista e intransigente, ele tinha pronunciado uma palavra monstruosa. O comunismo é mais perverso que o nazismo porque ele não pede ao homem que atue conscientemente como um criminoso, mas, ao contrário, se serve do espírito de justiça e de bondade que se estendeu por toda a terra para difundir em toda a terra o mal. Cada experiência comunista é recomeçada na inocência.


(ALAIN BESANÇON - A INFELICIDADE DO SÉCULO, SOBRE O COMUNISMO,
 O NAZISMO
 E A UNICIDADE DA SHOAH)
 

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publicado às 05:34

.. "É a organização minuciosa da execução que confere à fome, ao terror ucraniano, o carácter de um genocídio, o segundo do nosso século, após o da Arménia e antes dos Judeus. Durante o Outono de 1932, os campos ucranianos adquirem o aspecto de um campo da morte.“ 
(Alain Besançon
 
 
A doença da luta de classes
 
Existe atualmente um acordo bastante geral, pelo menos entre os membros do Instituto, sobre o grau de conaturalidade entre o comunismo de tipo bolchevique e o nacional-socialismo. A meu ver, é correta a expressão de Pierre Chaunu: gêmeos heterozigotos. Essas duas ideologias tomaram o poder no século XX. Elas têm como objetivo chegar a uma sociedade perfeita extirpando o princípio maligno que a bloqueia. Em um caso, o princípio maligno é a propriedade, então os proprietários, e depois, como o mal subsiste após a “liquidação enquanto classe” destes, a totalidade dos seres humanos, corrompidos pelo espírito do “capitalismo”, que resulta em penetrar até no próprio partido. No outro caso, o princípio maligno está situado nas raças chamadas “inferiores”, em primeiro lugar os judeus, depois, o mal continuando a subsistir após o seu extermínio, é preciso persegui-lo nas outras raças e na própria “raça ariana”, cuja “pureza” foi maculada. Comunismo e nazismo invocam para a sua legitimidade a autoridade da ciência. Eles se propõem reeducar a humanidade e criar um homem novo.
Essas duas ideologias se pretendem filantrópicas. O nacional-socialismo quer o bem do povo alemão e declara prestar serviço à humanidade ao exterminar os judeus. O comunismo leninista quer diretamente o bem de toda a humanidade. O universalismo do comunismo lhe dá uma imensa vantagem sobre o nazismo, cujo programa não é exportável. As duas doutrinas propõem “ideais elevados”, próprios para suscitar o devotamento entusiástico e atos heróicos. No entanto, elas ditam também o direito e o dever de matar. Citando Chateaubriand, profético neste caso: “No fundo desses diversos sistemas repousa um remédio heróico confesso ou subentendido: esse remédio é matar.” E Hugo: “Você pode matar este homem com tranqüilidade.” Ou categorias inteiras de homens. Justamente o que essas doutrinas fizeram quando chegaram ao poder, em uma escala desconhecida na história. É por essa razão que, aos olhos dos que são estranhos ao sistema, nazismo e comunismo são criminosos. Igualmente criminosos? Por ter estudado um e outro, conhecendo também os auges em intensidade no crime do nazismo (a câmara de gás) e em extensão do comunismo (mais de 60 milhões de mortos), o gênero de perversão das almas e dos espíritos operado por um e por outro, creio que não se pode entrar nessa discussão perigosa, que é preciso ser respondida simples e firmemente: sim, igualmente criminosos.
O que nos leva a um problema: como é possível que hoje, isto é, em 1997, a memória histórica os trate desigualmente a ponto de parecer ter esquecido o comunismo? Sobre o fato dessa desigualdade não é necessário nos estendermos. Desde 1989, a oposição polonesa, com o primado da Igreja à cabeça, recomendava o esquecimento e o perdão. Na maioria dos países que saíam do comunismo, não se falou sequer em castigar os responsáveis que haviam matado, privado de liberdade, arruinado, embrutecido as pessoas, durante duas ou três gerações. Salvo na Alemanha Oriental e na República Tcheca, os comunistas foram autorizados a permanecer no jogo político, o que lhes permitiu retomar aqui e ali o poder. Na Rússia e em outras repúblicas, o pessoal diplomático e policial continuou nos seus postos. No Ocidente, esta anistia foi julgada favoravelmente. Comparou-se a confirmação da nomenklatura à evolução termidoriana dos antigos jacobinos. Há algum tempo nossa mídia voltou a falar com boa vontade da “epopéia do comunismo”. O passado do Komintern do partido comunista, devidamente exposto e documentado, não o impede de forma alguma de ser aceito no seio da democracia francesa.
Ao lado disso, a damnatio memorice do nazismo, bem longe de conhecer a mínima prescrição, parece se agravar a cada dia. Uma ampla biblioteca se enriquece todos os anos. Museus e exposições mantêm, e com razão, o horror do crime.
Consultemos na internet o serviço de documentação de um grande jornal. Selecionemos os “temas” chamados por palavras-chave, que foram tratados de 1990 a 14 de junho de 1997, data da minha consulta:
para “nazismo”, 480 ocorrências; para “stalinismo”, 7;
para “Auschwitz”, 105; para “Kolyma”, 2;
para “Magadan”, 1; para “Kuropaty”, 0;
para “fome na Ucrânia” (5 a 6 milhões de mortos em 1933), 0.
Esta sondagem tem apenas um valor indicativo. Alfred Grosser (em seu livro Im Mémoire et 1’Oubli), declarava, em 1989: “O que eu peço quando se pesa a responsabilidade dos crimes passados é que sejam aplicados os mesmos critérios a todo mundo.” Certamente, mas é muito difícil e é como simples historiador e não como juiz que eu gostaria somente hoje, sine ira et studio, de tentar interpretar esses fatos. Não posso ter a pretensão de esgotar o tema. Mas pelo menos posso enumerar uma lista não limitativa de fatores.
1) O nazismo é mais bem conhecido que o comunismo, porque o número dos cadáveres foi amplamente divulgado pelas tro
pas aliadas, e vários povos europeus tiveram uma experiência dire
ta do fenômeno. Pergunto frequentemente a estudantes se eles tiveram conhecimento da fome artificial organizada na Ucrânia 
em 1933. Eles nunca ouviram falar. O crime nazista foi principalmente físico. Ele não contaminou moralmente suas vítimas e suas testemunhas, às quais não se exigia uma adesão ao nazismo. Ele é então visível, flagrante. A câmara de gás concebida para exterminar industrialmente uma porção delimitada da humanidade é um fato único. O gulag, o laogai permanecem envoltos em brumas e continuam sendo um objeto distante, conhecido indiretamente. Uma exceção: o Camboja, onde hoje se abrem os ossários.
2) O povo judeu assumiu a memória da Shoah. Era uma obrigação moral para ele que se inscrevesse na longa memória das perseguições; uma obrigação religiosa ligada ao louvor ou ao questionamento apaixonado, à maneira de Jó, do Senhor que prometeu proteger seu povo e que puniu a injustiça e o crime. A humanidade inteira deve então render graças à memória judaica por ter conservado piedosamente os arquivos da Shoah. O enigma está do lado dos povos que esqueceram, e deles falarei em seguida. Acrescentemos que o mundo cristão procede desde o evento a um exame de consciência e se sente atingido intimamente pela indelével ferida.
3) A inserção do nazismo e do comunismo no campo magnético polarizado pelas noções de direita e de esquerda. O fenômeno é complexo. Por um lado, a ideia de esquerda acompanha a entrada sucessiva das classes sociais no jogo político democrático. Mas é preciso observar que a promoção da classe operária americana excluiu a ideia socialista, e que as classes operárias inglesa, alemã, escandinava, espanhola, fortalecendo-se, opuseram uma recusa majoritária à ideia comunista. Apenas na França e na Tchecoslováquia, no imediato pós-guerra e mais tarde na Itália, o comunismo pôde pretender se identificar com o movimento operário e assim se tornar um dos membros de direito da esquerda. Acrescentemos que, na França, historiadores como Mathiez, admiradores da Grande Revolução, fizeram de forma completamente natural um paralelo entre outubro de 1917 e 1792, e o terror bolchevique em paralelo com o terror jacobino.
Por outro lado, muitos historiadores de vanguarda mantêm uma consciência viva das raízes socialistas ou proletárias do fascismo italiano e do nazismo alemão. Considero como testemunha o livro clássico de Elie Halévy, Histoire du socialisme européen, escrito em 1937. O capítulo 111 da quinta parte é consagrado ao socialismo da Itália fascista; o capítulo IV ao nacional-socialismo. Este último regime, declarando-se anticapitalista, expropriando ou eliminando as antigas elites, dando-se uma forma revolucionária, tinha com alguma razão que figurar, o que hoje seria inconcebível, em uma história do socialismo.
4) A guerra, ao estabelecer uma aliança militar entre as democracias e a União Soviética, enfraqueceu as defesas imunitárias ocidentais contra a ideia comunista, muito forte, no entanto, no momento do pacto Hitler-Stalin, provocando um tipo de bloqueio intelectual. Para fazer a guerra com convicção, uma democracia tem necessidade de que seu aliado possua um certo grau de respeitabilidade; caso conttário, ela lhe atribui. O heroísmo militar soviético assumia, com o incentivo de Stalin, uma forma puramente patriótica, e a ideologia comunista, deixada de lado, escondia-se. À diferença da Europa Oriental, a Europa Ocidental não teve a experiência direta da chegada do Exército Vermelho. Este foi visto como libertador, no mesmo nível que os outros exércitos aliados, o que não sentiam nem os bálticos, nem os poloneses. Os soviéticos foram juizes em Nuremberg. As democracias consentiram sacrifícios muito pesados para liquidar o regime nazista. Elas aceitaram em seguida sacrifícios menores para conter o regime soviético, até o fim, para ajudá-lo a sobreviver, com uma preocupação de estabilidade. Ele desmoronou por si mesmo e sobre o seu próprio nada, sem que as democracias tivessem algo a ver. Sua atitude não podia ser a mesma, nem seu julgamento igual, nem sua memória imparcial.
5) Um dos maiores sucessos do regime soviético foi o de ter difundido e aos poucos imposto sua própria classificação ideológica dos regimes políticos modernos. Lenin os vinculava à oposição entre socialismo e capitalismo. Até os anos 30, Stalin conservou esta dicotomia. O capitalismo, chamado também de imperialismo, englobava os regimes liberais, os regimes socialdemocratas, os regimes fascistas e, finalmente, nacional-socialistas. Isso permitia aos comunistas alemães manter uma balança equilibrada entre os “sociahfascistas” e os nazistas. Mas, aprovando a chamada política das frentes populares, a classificação tomou-se a seguinte: o socialismo (isto é, o regime soviético), as democracias burguesas (liberais e socialdemocratas) e, finalmente, o fascismo. Sob o nome de fascismo eram compreendidos conjuntamente o nazismo, o fascismo mussolinista, os diversos regimes autoritários que vigoravam na Espanha, em Portugal, na Áustria, na Hungria, na Polônia etc., e, finalmente, as extremas-direitas dos regimes liberais. Uma cadeia contínua ligava, por exemplo, Chiappe a Hitler, passando por Franco, Mussolini etc. A especificidade do nazismo se perdia. Além disso, ele era fixado na direita, sobre a qual projetava sua sombra negra. Ele se tornava a direita absoluta, ao passo que o sovietismo era a esquerda absoluta.
O fato assustador é que, em um país como a França, essa classificação se tenha incrustrado na consciência histórica. Consideremos nossos manuais de história para uso dos ensinos secundário e superior. A classificação geral é: o regime soviético; as democracias liberais, com sua esquerda e sua direita; os fascismos, isto é, o nazismo, o fascismo italiano, o franquismo espanhol etc. E uma versão atenuada da vulgata soviética. Em compensação, não se encontra quase nunca nesses manuais a classificação correta, aquela sobre a qual existe o consenso entre os historiadores atualmente, mas que já tinha sido proposta desde 1951 por Hannah Arendt, a saber: o conjunto dos dois regimes totalitários, comunismo e nazismo, os regimes liberais, os regimes autoritários (Itália, Espanha, Hungria, América Latina) que provêm das categorias clássicas da ditadura e da tirania, organizadas por Aristóteles.
6) A fraqueza dos grupos capazes de conservar a memória comunismo. O nazismo durou doze anos; o comunismo europeu, conforme os países, entre 50 e 70 anos. A duração tem um efeito auto-anistiante. De fato, durante esse tempo imenso a sociedade civil foi atomizada, as elites foram sucessivamente destruídas, substituídas, reeducadas. Todo mundo, ou quase, de cima a baixo, traficou, traiu, degradou-se moralmente.
Mais grave ainda, a maior parte dos que estariam em condições de pensar foi privada
de conhecer sua história e perdeu a capacidade de análise. Lendo a literatura da oposição russa, que é a única verdadeira literatura do país, ouve-se um lamento dilacerante, a expressão tocante de um infinito desespero, mas quase nunca se encontra uma análise racional. A consciência do comunismo é dolorosa, mas ela permanece confusa. Atualmente, os jovens historiadores russos não se interessam por esse período, votado ao esquecimento e à repugnância. O Estado, aliás, fecha os arquivos. O único meio que poderia ter sido portador da memória lúcida do comunismo é o da dissidência, nascida por volta de 1970. Mas ela rapidamente se decompôs em 1991 e não foi capaz de participar do novo poder. É por isso que o seu empreendimento do Memorial não pôde existir nem se desenvolver. E de fato necessário que o órgão que tenha como função manter a memória consiga uma certa massa crítica, pelo número, pelo poder, pela influência. Os armênios não conseguiram de forma alguma obter essa massa crítica. Muito menos ainda os ucranianos, os cazaquis, os chechenos, os tibetanos, entre tantos outros.
Nada é tão problemático, depois da dissolução de um regime totalitário, quanto a reconstituição, no povo, de uma consciência moral e de uma capacidade intelectual normais. A esse respeito, a Alemanha pós-nazista se achava em melhor posição que a Rússia pós-soviética. A sociedade civil não teve tempo de ser destruída em profundidade. Julgada, punida, desnazificada pelos exércitos ocidentais, ela foi capaz de acompanhar esse movimento de purificação, de se julgar a si mesma, de se recordar e de se arrepender. Não foi bem assim no Leste Europeu, e o Ocidente tem a sua parte de responsabilidade. Quando os comunistas russos transformaram sua posse geral de bens em propriedade legítima, quando legitimaram seu poder de fato pelo sufrágio universal, quando substituíram o leninismo pelo nacionalismo mais chauvinista, o Ocidente julgou inoportuno de sua parte pedir-lhes contas. Era o pior serviço que ele poderia prestar à Rússia. A ubiquidade das estátuas de Lenin nas praças públicas da Rússia é apenas o sinal visível de um envenenamento das almas cuja cura levará anos. Do lado ocidental, a vulgata histórica deixada pelo Komintern das Frentes Populares está longe de ter sido apagada. O envolvimento da ideia leninista pela ideia de esquerda, que tinha no entanto horrorizado Kautsky, Bernstein, Léon Blum, Bertrand Russell e até Rosa Luxemburgo, faz com que atualmente essa ideia por vezes seja assimilada a um avatar maravilhoso ou a um acidente de alguma forma meteorológico dessa mesma esquerda, e, agora que ela desapareceu, essa ideia permanece como um projeto honroso que não deu certo.
7) A amnésia do comunismo e a memória do nazismo se exa peram mutuamente quando a simples e justa memória basta para condená-los a um e outro. É uma característica da má consciência ocidental, há séculos, que o lugar do mal absoluto deve-se encontrar em seu seio. A opinião variou sobre essa localização. O mal foi às vezes situado na África do Sul do apartheid, na América da guerra do Vietnã. Mas ele sempre permaneceu com seu centro na Alemanha nazista. Rússia, Coréia, China e Cuba eram sentidas como exteriores ou levadas para o exterior na medida em que se preferia desviar os olhos. O vago remorso que acompanhava esse abandono era compensado por uma vigilância, uma concentração feroz da atenção sobre tudo o que havia entrado em contato com O nazismo, sobre Vichy em primeiro lugar, ou, atualmente, sobre essas ideias perversas que supuram em certos núcleos das extremas direitas européias.
 
*
 
Uma das características do século XX é a de que não só a história foi horrível, do ponto de vista do massacre do homem pelo homem, mas também que a consciência histórica – e isto explica aquilo – teve uma dificuldade particular em se orientar corretamente. Orwell observava que muitos haviam se tomado nazistas por um horror motivado do bolchevismo, e comunistas por um horror motivado do nazismo. Isso realça o perigo das falsificações históricas. Vemos uma em vias de formação, e seria uma pena que legássemos ao próximo século uma história falseada.
Para concluir, uma esperança e um receio. Foram necessários anos para se tomar consciência completa do nazismo, porque ele excedia o que se julgava possível e que a imaginação humana era incapaz de percebê-lo. Poderia acontecer o mesmo com o comunismo de tipo bolchevique, cujas obras abriram um abismo tão profundo, e que foram protegidas, como Auschwitz o foi até 1945, pelo inverossímil, pelo incrível, pelo impensável. O tempo, cuja função é revelar a verdade, fará talvez, lá também, o seu trabalho.
 
(ALAIN BESANÇON - A INFELICIDADE DO SÉCULO, SOBRE O COMUNISMO,
 O NAZISMO
 E A UNICIDADE DA SHOAH)
Comunismo e Nazismo: Farinha do mesmo saco
 

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publicado às 22:24

Este é um ponto da investigação em que é preciso deixar a análise histórica, caso se queira fazer justiça à experiência dos homens. De fato, diante do excesso de iniqüidade, eles sentiram que seu coração vacilava e que a razão soçobrava; que faltava um precedente histórico; que eles estavam diante de uma espécie nova e desconhecida. A maior parte das grandes testemunhas deste século XX gritaram aos céus. Alguns estimaram que ele estava vazio; outros, que se poderia suplicar-lhe, jurar-lhe, esperar. Na realidade, quando se lê Orwell, Platonov, Akhmatova, Mandelstam, Levi, adivinha-se que essas duas respostas ao desafio metafísico coabitam ou altemam-se obscuramente nas mesmas almas.
 
 
O mal
 
Plotino definia o mal como “a privação do bem”. Os escolásticos precisaram: a privação de um bem devido. A cegueira, por exemplo, é um mal, porque faz parte do homem o direito de ver. Se ele é incapaz de ver o invisível, apesar de ter bons olhos, ele não pode se lamentar, pois a vista não é feita para ver as coisas mais além de um campo limitado. A ideia é então de que o mal se define negativamente. Ele é puro nada, um vazio no ser. Parece-me que essa definição não dá conta suficientemente do horror que se apoderou das pessoas diante do que o comunismo e o nazismo lhes infligiram.
O que causava esse horror era menos o mal do que, principalmente, a vontade do mal. O homem quer naturalmente ser feliz. Sua vontade está normalmente voltada para o que ele considera como seu bem. Como sua imaginação é curta, não custa imaginar – e os filósofos mais antigos explicaram-no – que o homem se engana facilmente sobre o que é o seu bem, que ele comete atos ruins porque ele não vê o que isso pode lhe custar. Ao roubar, se busca evidentemente um bem, a violação produz prazer, matar apazigua a cólera, mentir permite sair de uma situação embaraçosa. É preciso, porém, pagar um preço. No entanto, nós reencontramos uma outra categoria de atos que não são seguidos por nenhum prazer imaginável pelo homem comum, atos que parecem desumanamente desinteressados. Aqueles que os praticam parecem atraídos pela pura transgressão da regra. Eles causam medo porque não são compreendidos, parecem estar alheios à humanidade comum. Compreendemos muito bem o ladrão, o violador, o assassino, porque encontramos em nossa alma pontos de ressonância, e não é necessário adentrar-se profundamente em nós mesmos para encontrarmos em algum grau a avidez, a luxúria, a violência. Porém, diante deste tipo de atos, ficamos desconcertados como ficaríamos diante de um milagre, um milagre ao contrário, uma exceção negativa às leis comuns da natureza. O homem deseja seu bem, mas não há lá nenhum bem concebível. E porque aqueles que sofreram o comunismo ou o nazismo, ou que apenas o estudaram com alguma aplicação, foram permanentemente perseguidos pela indagação: por quê? Por que comprometer o esforço de guerra, dispender dinheiro, sobrecarregar os transportes, mobilizar soldados para irem descobrir num celeiro uma menina judia escondida apenas para assassiná-la? Por que, quando não existe nenhuma oposição organizada, tudo estando submisso e obediente, prender milhões de pessoas, mobilizar o aparato policial e judiciário para fazê-los confessar crimes inimagináveis e manifestamente absurdos e, uma vez que confessados, reunir o povo para fazê-lo representar a comédia da indignação e obrigá-lo a participar na execução? Por que, na véspera de uma guerra programada, fuzilar a metade do corpo de oficiais generais?
Mas o que parecia ainda mais incompreensível é que esses crimes enormes e ineptos eram cometidos por homens medíocres, e até particularmente medíocres, mediocremente inteligentes e morais. Encontravam-se às vezes na imensa massa de executantes individualidades perversas por caráter, sádicos que sentiam prazer em fazer sofrer. Eram a exceção. Como os perversos certamente prosperavam, eles eram utilizados para certas tarefas, mas só até um certo ponto; no mais, eram afastados em nome da disciplina e algumas vezes até punidos. Em seu desejo de compreender, as vítimas não podiam mais apegar-se à explicação da perversidade de que o homem é capaz e freqüentemente portador. Era preciso ir mais alto, na direção do “sistema”. Mas a racionalidade, ainda que delirante, do sistema era desmentida por essas ações autodestrutivas que iam contra o interesse do projeto.
É por essa razão que a personalidade criminosa de alguns dirigentes – sobretudo Stalin restituindo-lhes uma certa parte de humanidade, contava a seu favor e lhes valia uma certa gratidão: dava uma certa explicação e restabelecia uma certa coerência. Porque a história oferece numerosos exemplos de tiranos criminosos; havia então precedentes e nada de novo sob o sol: a angústia diante do desconhecido ficava atenuada. No entanto, os mais lúcidos sabiam que o pretenso tirano não era o único, pois ele não agia em função de seu interesse particular. Ele próprio era tiranizado por algo de caráter superior. Era necessário concluir, então, que o crime estava encadeado à loucura. Mas não se tratava de uma loucura normal, como aquela que vemos nos tiranos loucos, porque a loucura comporta um elemento aleatório e afeta zonas em que o repouso e o jogo podem se alojar.
Assim, os romenos ficaram por um momento aliviados pelas trapalhadas do casal Ceausescu. Mas, nos piores momentos, a loucura ideológica criou um bloco compacto, sem o menor interstício em que se refugiar, e tudo andava mal.
 
 
O demônio e a pessoa
 
Foi assim espontaneamente que espíritos, mesmo pouco religiosos, eram tentados a olhar por cima da ordem humana inteligível e entrever a direção superior de uma ordem diferente. Não era só o peso da injustiça, a proximidade do mal, mas também a impotência de referi-los ao que quer que fosse de conhecido que os levava a interrogar os céus. Eles eram levados a isso, porque os dois regimes professavam um ódio ativo contra todas as religiões que honrassem uma ordem divina diferente daquela estabelecida pelos homens. O nazismo odiava o Deus de Abraão; o comunismo, todo tipo de deus e particularmente aquele Deus. A organização religiosa dos países conquistados foi sempre imediatamente modificada. Ela foi liquidada (a Albânia proclamou-se o primeiro país ateu do mundo), frequentemente reduzida à servidão e pervertida. Cristãos, judeus, muçulmanos, budistas, taoístas, confucionistas foram perseguidos como tais, e a perseguição não foi temporária, mas permanente. Ela não tinha nenhuma utilidade política, sendo antes uma loucura inconveniente, que durou até o último dia.
Foi assim que vários mártires desses regimes encararam a ação de uma ordem sobre-humana, “angelical”, capaz de exercer um poder direto. Um poder que não passaria verdadeiramente pela mediação da vontade ruim dos homens, mas que os levaria a agir à sua revelia de forma que eles não soubessem, talvez apenas confusamente, o que faziam. Que adormeceria o senso comum e a consciência moral, e transformaria o homem, submetido a um tipo de encantamento, em uma marionete da qual ele puxaria os fios. Nessa intuição, o último tirano não é nem Hitler, nem Lenin, nem Mao, mas o Príncipe desse mundo em pessoa.
Em pessoa: a palavra é ambígua. Boécio deu uma definição da pessoa que tem servido muito: “uma substância individuada de natureza racional”. Nessa linha teológica, pode-se estimar que essa substância criada, se ela perde sua ordenação a seu Criador e a seu próprio fim, sofre contradições que a mutilam ou decompõem. Pode-se especular, dado que não se sabe nada de positivo sobre o mundo angelical, que a substância do anjo ruim, por causa de seu nível superior, é muito mais devorada do que a do homem dominado pela vontade ruim. O ato de aniquilamento que ele provoca se realiza primeiro sobre si mesmo, de forma que sua substância – que para nós, os homens, evoca uma natureza positiva, indestrutível, arruinada, mas não destruída pelo pecado – se reduz progressivamente à sua pura vontade do mal. Em razão da capacidade de mal superior de que ele é dotado, o que subsiste nele de cúmplice natural, a pessoa, tenderia assintoticamente para a impessoalidade. A pessoa angelical decaída suportaria o máximo possível de impessoalidade. Especulação, sem dúvida, mas ela dá razão à noção de pessoa impessoal que se encontra tão universalmente na literatura das testemunhas, sufocadas pelo tédio, pela pobreza, pela banalidade daqueles que as fazem sofrer, morrer, como pela impessoalidade de toda a hierarquia do poder, incluída até mesmo sua cúpula. Elas ficavam assim assustadas pelo contraste entre o incrível poder de destruição desses aparelhos, de uma maravilhosa engenhosidade, capaz de entrar no maior detalhe, e seu incrível poder de organizar, de construir ou simplesmente de deixar existir as coisas mais humildemente necessárias à vida, até para sua própria perdurabilidade.
Quem tem o poder no regime nazista ou comunista puro? Esta simples pergunta, à qual pareceria mais fácil de responder em relação a não importa que regime, porque o possuidor de todos os poderes é visível em todos os lados, até mesmo de uma visibilidade obsessiva – o Führer, o Secretário-Geral, o Partido –, constituía um profundo enigma para aqueles que eram capazes de uma profunda reflexão filosófica: Jünger, Platonov, Orwell, Milosz, Zinoviev... Eles deixaram entender o que as almas religiosas – Mandelstam, Akhmatova, Bulgakov, Rauschning, Herbert, Soljenitsyn – proclamaram: é o diabo! Era ele quem comunicava a seus súditos sua inumana a impessoalidade. Dostoievski e Vladimir Soloviev tinham tido antecipadamente a intuição. Não fazer referência a esse personagem seria não ouvir fielmente todas essas testemunhas, mantendo a consciência da reserva em que nós devemos nos manter em relação ao centro misterioso que eles chamaram dessa maneira e cuja proximidade conhecem por experiência e por evidência.
 
 
A salvação
 
Nada marca mais o traço bíblico no comunismo e no nazismo que sua vontade comum de salvar o mundo, incluindo nos meios de salvação a supressão de qualquer traço bíblico. Nas religiões “pagãs”, a ordem natural contém em si mesma a ideia divina e basta para fazê-la conceber. Ela é equivalente à ordem divina. Basta contemplá-la, conhecê-la, imitá-la. A filosofia antiga – e, tanto quanto eu saiba, a hindu e a chinesa – não prometia uma salvação universal, só aquela de uma pequena elite através de exercícios espirituais longos e difíceis, ao final dos quais a pessoa se tornava apta a viver feliz, em conformidade com a natureza, suas estruturas eternas. A ideia de salvação, enquanto supõe um “êxodo” em relação ao mundo, ou ainda a ideia de “mudar” o mundo em sua totalidade, lhe são inconcebíveis.
A salvação marxista-leninista é otimista. Ela é comparável à salvação anunciada pela profecia bíblica. Seu objetivo é superar a natureza como ela é, o homem como ele é; chegar a um tempo messiânico de paz e de justiça, em que o lobo conviva com o cordeiro, em que as disciplinas e as frustrações do casamento, da família, da propriedade, do direito, da penúria sejam abolidas. Finalmente, é a própria morte que é vencida: houve devaneios sobre esse tema no começo da revolução bolchevique, alimentados por um certo Fedorov, um quimérico da ressurreição científica dos corpos e da imortalidade. “O homem novo”, produto do socialismo, é um tipo de corpo glorioso tal como a profecia o entrevê. E sua salvação está nas mãos do homem. Ela é obtida por meios políticos. Non Domino sed nobis.
Apenas uma pequena minoria acredita hoje na existência dos mandamentos divinos. Se ela ainda acredita nisso – como acreditavam muitos judeus e cristãos que mais tarde se tornaram – deveria ver no primeiro piscar de olhos a contradição entre o progresso de que o homem assume a direção e a lição bíblica. O conceito de progresso, entendido no sentido de uma transformação em profundidade do ser humano, sob a ação da história ou de uma vontade político-histórica, não pode ser aceito, pois ele faz depender da ação política uma transformação que, segundo a Bíblia, só se deve a uma graça divina. Quando o que só é possível pela ação divina se toma o objetivo da ação humana, esta visa realizar o impossível. A ação violenta contra a natureza fracassa e logo se transforma em destruição da natureza e, com ela, do humano. Pelágio pensava que, numa certa medida, o homem poderia salvar a si próprio, pela força de vontade e de ascese. Santo Agostinho estimava que o pelagiano se oprimia sem com isso melhorar. Assim fazia o “herói positivo” da lenda bolchevique. De fato, ele piorava, pois o pelagiano pensava atingir a virtude, no sentido comum do termo, e o herói positivo uma virtude definida pela ideologia, isto é, um vício. Além disso, o velho pelagiano não visava, da mesma forma que a filosofia antiga, senão a um progresso individual. O novo é coletivizado. A transferência ao poder político da ideia pelagiana é mais destruidora, pois é o outro, enfim, são todos os outros, que serão corrigidos pela educação, se necessário pela reeducação, em um muro cercado por arame farpado.
A salvação nazista é pessimista. Ela requer superar as ilusões introduzidas na humanidade pelo veneno bíblico, e particularmente evangélico, fruto do “ressentimento”. Trata-se de retornar a uma ordem natural concebida na luz negra do tragicismo romântico: reencontrar a pureza original da terra e do sangue, corrompida pela sociedade mercantil e tecnicista e a mistura bastarda das raças. O apelo do nazismo se dirige aos heróis que aceitam morrer, àqueles que renunciaram à ilusão da verdade e da justiça e que estão prontos para seguir até o fim a vontade da raça, do Volk, encarnada no líder. O super-homem é um cavaleiro impassível, leal, vencedor ou vencido, mas sempre nobre e belo. Nós já vimos suficientemente que o ideal desembocou num regimento de SS descerebrados, em uma hierarquia de indolentes coroada por um demente, em uma guerra maluca de aniquilamento.
As duas doutrinas opostas compartilham ainda assim a ideia de uma salvação coletiva advinda da história – ideia bíblica –, se opondo ao ahistoricismo dos filósofos antigos, hindus e chineses. Nesse esquema, as duas doutrinas juntaram uma coleção de noções tiradas das ciências naturais, das ciências históricas, transformando o imenso saber acumulado pelo século XIX em um automatismo mental de uma pobreza sobrenatural. De fato, não é algo, em conformidade com a natureza da inteligência humana, que esses dois sistemas insanos possam se apresentar como sendo seu produto. Não se pode explicar que tantos espíritos normal e às vezes superiormente constituídos – professores, cientistas, pensadores capazes e eminentes – tenham sofrido uma paralisia e um desvio similares do senso comum. As explicações pela psiquiatria são tão metafóricas quanto a imagem empregada a propósito do nazismo, aquela do flautista de Hamelin. Mas, ao evocar essa lenda, estamos bem próximos de citar aquele que está por trás do flautista, aquele que, segundo as Escrituras, é o “pai da mentira”, “homicida e mentiroso desde o começo”.
 
 
'Biblismo” nazista
 
Afirma-se que Gobineau e Nietzsche, de quem às vezes os nazistas reclamavam, não eram anti-semitas. De fato, eles faziam profissão de fé de admiração  pelos judeus, porque estes eram uma “raça superior”, uma “aristocracia” (Gobineau); porque eles não se dissolviam na massa dos “últimos homens” engendrados pela democracia, porque o anti-semitismo era no máximo uma vulgaridade democrática (Nietzsche). Não é necessário aprofundarmo-nos muito para adivinhar, sob a aparência de admiração, a inveja, o ciúme. No nacionalismo alemão, a exaltação da nação e do povo assume ou imita a forma da eleição providencial do povo judeu. E uma eleição que não deve nada à providência, mas que é um produto da história e da natureza, e faz com que o povo alemão receba a herança pan-humana transmitida pela sucessão dos povos. O nacionalismo russo contentou-se em transpor aos eslavos e ao povo russo o que era prometido aos germanos e aos alemães.
Porque são a natureza e a terra que fazem a eleição, é coerente que o povo judeu seja a negação viva da natureza e da terra.
E o que sublinha o jovem Hegel; “O primeiro ato pelo qual Abraão se torna o pai de uma nação é uma cisão que dilacera os vínculos entre a vida comum e o amor, a totalidade dos vínculos das relações nas quais ele viveu até ali com os homens e a natureza.” “Abraão era um estranho na Terra [...]. O mundo inteiro, seu oposto absoluto, era mantido vivo por um Deus que lhe era estranho, um Deus de que nenhum elemento da natureza devia participar E somente graças ao Deus que ele entraria também em relação com o mundo [...]. Era impossível para ele não amar nada.” “Havia no Deus invejoso de Abraão e de sua descendência a exigência espantosa de que ele e sua nação fossem os únicos a ter um Deus.”
Sua relação com Deus suprime os judeus da humanidade. Eles não podem pertencer a nenhuma comunidade, pois o sagrado, por exemplo, o eleusiniano, dessa comunidade lhes é eternamente estranho, “eles não o vêem nem o sentem”. Eles não participam tampouco do heroísmo épico. “No Egito, grandes coisas foram realizadas para os judeus, mas eles mesmos não empreenderam ações heróicas; por eles.
O Egito sofreu todo tipo de calamidades e de misérias, e foi em meio a essas lamentações universais que eles, expulsos pelos infelizes egípcios, se retiraram, embora só sentindo a alegria maligna do covarde cujo inimigo se acha aniquilado sem que ele mesmo intervenha.” Seu último ato no Egito é também um “roubo”.
Hegel considera intolerável a pretensão dos judeus à eleição, a absoluta dependência que eles confessam em relação a um Deus que ele julga, por seu lado (pelo menos em sua juventude, porque depois ele evoluiu), estranho ao homem, inimigo de sua nobreza e de sua liberdade. O espírito de Abraão, porque ele continha a ideia desse Deus, faz do judeu “o único favorito”, convicção de que também é a raiz de seu “desprezo pelo mundo inteiro”. Escravos proclamados de seu Deus, os judeus não podem ter acesso à dignidade do homem livre: “Os gregos deviam ser iguais porque são todos livres; os judeus, porque são todos incapazes de independência.” E por isso que Hegel, abertamente adepto de Marcião, considera o Deus dos cristãos como fundamentalmente diferente do Deus judeu: “Jesus não combatia só uma parte do destino judeu, pois ele não tinha vínculo com nenhuma parte dele, opondo-se a ele em sua totalidade.”
Hegel traduz, no tom da grande filosofia, sentimentos, conscientes ou não, que existem na alma pagã quando ela é colocada na presença do mistério sobrenatural de Israel, que ela sente, de fato, como estranho, inimigo de toda natureza; que existem também nas almas batizadas. Esses obscuros afetos foram bem mais conceitualizados pelo pensamento alemão do que pelos outros. Harnack, que foi a grande autoridade teológica da Alemanha wilhelmiana e do protestantismo liberal europeu, fez, na Universidade de Berlim, diante de todos os estudantes, conferências reunidas sob o título A essência do cristianismo. Esta essência se desenvolve em quatro grandes momentos históricos: o momento judeu, o momento grego, o momento latino e, enfim, o momento alemão, que é a realização mais pura. Ele escreveu um livro a favor de Marcião, não hesitou em fazer um paralelo com Martin Lutero, o fundador do “cristianismo alemão”. Os russos, por seu lado, produziriam uma abundante literatura sobre o cristianismo russo, o Cristo russo, até mesmo a Rússia-Cristo. Léon Bloy e Péguy reclamam para a França um privilégio de preferência da parte de Deus. No entanto, neste país, a temática antijudaica não foi orquestrada pelos grandes espíritos, só pelos medíocres.
O drama foi que ela se instalou nas almas ruins e dementes dos líderes nazistas. Eis Hitler, caricaturizando Hegel diante de Rauschning: “O judeu é uma criatura de um outro Deus. É preciso que ele tenha saído de uma outra origem humana. O ariano e o judeu, eu os oponho um ao outro e, se eu dou a um o nome de homem, sou obrigado a dar um nome diferente ao outro. Eles estão tão afastados um do outro quanto as espécies animais da espécie humana. Não que eu chame o judeu de animal. Ele está muito mais abaixo do animal do que nós, arianos. É um ser estranho à ordem natural, um ser fora da natureza.”
Rauschning afirma ainda a esse respeito: “Não pode haver dois povos eleitos. Nós somos o povo de Deus.” E pura retórica, pois Hitler era absolutamente ateu do Deus judeu e do Deus cristão. Mas mostra como o anti-semitismo delirante de Hitler se adapta bem à forma bíblica de uma perversa imitatio da história sagrada judaica. O povo ariano, eleito, a raça germânica escolhida purifica a terra alemã como Israel purificou a terra de Canaã. É a primeira etapa da história da salvação. A segunda é a eliminação do cristianismo judaizado, que leva ao cúmulo a covardia judaica e o abastardamento democrático. A terceira é o triunfo das almas magnânimas, que poderão a rigor referir-se a um cristianismo germanizado ou, melhor ainda, aos velhos deuses do panteão natural pré-cristão. Nietzsche e Wagner, depois de terem passado pela centrifugadora da ideologia nazista, poderiam ser propostos, mutilados, tornados selvagens, embrutecidos, como os padroeiros da nova cultura.
 
 
'Biblismo” comunista
 
Se o nazismo oferece uma farsa do Antigo Testamento, o comunismo oferece ao mesmo tempo a do Antigo e do Novo. A perversa imitatio do judaísmo e do cristianismo, que faz parte do seu “charme”, é um fato tão reconhecido que bastam algumas palavras para caracterizá-lo.
Esta ideologia propõe um mediador e um redentor. O “proletariado”, o “explorado”, aquele que não tem nada, vai abrir ao mundo a porta de sua libertação. Ele é para as outras classes o que Israel é entre as nações, o que o “resto de Israel” é para Israel. Ele é o servidor de Isaías que sofre e é o Cristo. Ele é o fruto da história naturalizada, como o outro é a história sagrada. O comunismo é, sob diversos aspectos, sedutor tanto para o judeu como para o cristão que crê reconhecer a boa nova anunciada aos pobres e aos fracos. Ele é um universalismo, porque nele não há mais nem judeu nem grego, nem escravo nem homem livre, nem homem nem mulher, tal como prometeu São Paulo. Ele abole as barreiras nacionais, o que equivale à salvação prometida às “nações”. Ele contribui para a paz e a justiça do reino messiânico. Ele supera o regime do interesse, termina com “as águas glaciais do cálculo egoísta”. O amor puro de Fenelon e o desinteresse kantiano vão desabrochar nesse clima novo.
O comunismo prometia aos judeus a supressão da carga dos mandamentos, do ódio da Torá, da segregação das nações. Ele lhes tirava o peso de ser judeu. Suprimia também, de fato, as causas permanentes da opressão. Era uma alternativa à vida judaica que não era uma passagem ao cristianismo e ao islamismo, igualmente desprezados, e que não os protegia, porque a marca judia subsistia depois da conversão, como a história havia demonstrado. O comunismo era então uma entrada em um mundo novo, sem no entanto haver lugar para pagar uma traição ou uma apostasia formais, porque o objetivo religioso da Torá, a paz e a justiça, era supostamente garantido e porque a comunidade poderia continuar existindo idealmente, de forma que o nome de judeu pudesse ser usado sem pudor, não implicando responsabilidade e obrigações particulares, mas simplesmente como a marca de uma origem gloriosa, pois, pela opressão, ele estava aparentado com o “proletariado”. Enfim, a passagem ao comunismo – estamos tentados a dizer: o Êxodo – poderia parecer a realização da emancipação e da secularização, cujo élan era, há um século, irresistível.
Os cristãos, por seu lado, eram diretamente intimados a renegar a sua fé em Deus. Mas ela estava, como uma fruta madura, a ponto de cair. Diante das vagas de assalto que se sucediam desde o começo do lluminismo, a fé tinha cada vez mais dificuldade em conservar um status defensável em termos racionais. Nenhum outro grande espírito, desde Leibniz, se apoiava na autoridade dos dogmas, nem buscava a verdade aprofundando-se neles. Se grandes autores ainda confessavam a fé cristã, ou, como Kant e Hegel, lhe davam uma interpretação racional no marco de seu sistema, ou, como Rousseau, Kierkegaard e Dostoievski, admitiam a sua completa irracionalidade. Ou ainda pensavam deduzi-la das necessidades da moral, da ação prática, das obras. Mas ela era desalojada desse último refúgio pela ideia comunista, que tinha bons argumentos para acusar o cristianismo de ser o ópio do povo, de ser uma fuga ilusória, um consolo impotente diante de um estado de injustiça de que a fé cristã, por sua simples existência, era cúmplice. Uma importante parte do pensamento cristão, durante todo um século, de Lamennais a Tolstoi, e para além deles, era muito mais tentada a se fundir com o humanitário do que a apresentação deste como mais verdadeiramente cristão e animado por um entusiasmo e um fervor que tinham desaparecido da religião tradicional. Tornar-se comunista dá o sentimento de realizar, de forma enfim realista, o mandamento de amor ao próximo, enquanto a razão era garantida porque agora ela era restabelecida na base certa da ciência.
 
 
Heresias
 
A religião cristã é instável desde o seu nascimento. Ela abriga um conjunto de dificuldades, uma massa de motivos de dúvida, e tem necessidade de um esforço constante para manter seu equilíbrio. Mas raramente as crises que aparecem sucessivamente ao sabor das circunstâncias históricas obedecem a esquemas regulares já conhecidos. Há, no comum dos cristãos, corredores de avalanche que foram seguidos desde os primeiros séculos da nossa era e que sempre permanecerão ali. As grandes heresias inaugurais são retomadas com outras roupagens por correntes que se julgam novas e por pessoas inconscientes de seguirem tendências antigas. Elas não sabem que estão trilhando os caminhos dos heréticos de que eles ignoram o nome e, mais ainda, o parentesco doutrinário que as liga a eles.
No caso que analisamos, os caminhos heréticos estão entre os mais antigos do cristianismo: o gnosticismo, o marcionismo e o milenarismo.
O gnosticismo, na verdade, não é especificamente cristão. Ele é parasita tanto do judaísmo quanto do islamismo. Ele ocupa um domínio tão vasto que não posso abordá-lo aqui de outra forma senão por alusão. O marxismo-leninismo é, antes de tudo, eu já o afirmei, uma visão central do mundo natural e histórico, polarizado entre um bem e um mal, que discernem e separam os iniciados no verdadeiro aber. São eles que fazem penetrar no espírito dos homens o conhecimento salvador e fazem o mundo se mover na direção do bem definitivo. Essa estrutura-mãe está presente na maior parte dos gnosticismos, principalmente naqueles que, no tempo de Corinto, horrorizavam São João ou, nos tempos de Valentim, o Santo Irineu. Que esse núcleo gnóstico pretenda se apoiar, a partir de Marx, na ciência positiva, que perca sua luxúria mitológica, sua cor poética, e mesmo que caia na repetição prosaica de Lenin, isso não significa que ele tenha desaparecido. É verdade que muitos “cristãos progressistas” desejavam render-lhe homenagem por sua atitude religiosa primitiva e tinham dificuldade em compreender por que o comunismo se considerava ateu de forma militante, enquanto que eles aprovavam a ação prática, o “método de análise”, como eles diziam, isto é, a teoria do conjunto. Outros terminaram aceitando este ateísmo por um tipo de “salto da fé” ao contrário, e como um sacrifício supremo que eles faziam à lógica de sua persuasão.
O marcionismo, que é uma espécie do gênero do gnosticismo, pertence ao mundo cristão. Ele é um produto histórico precoce (do começo do século II) da separação contenciosa da Igreja com a Sinagoga. Marcião estimava que o Deus de Abraão, o Deus criador e justiceiro, não era o mesmo que o Deus do amor salvador de que Jesus era a emanação. Ele tinha então arrancado do corpo escriturário o Antigo Testamento e a parte do Novo que lhe estava diretamente vinculada. A revelação cristã se dissocia então da revelação mosaica, de que Marcião nega que ela tenha etapas históricas que levaram à chegada do Messias. O messias de Marcião não encontra as suas provas, a sua genealogia na profecia bíblica. Sua legitimidade está condicionada ao valor da persuasão da “mensagem” tirada apenas do Evangelho (aliás, depurado) e dos adendos da mitologia gnóstica que o completam e guiam a sua interpretação. Esse Cristo traz uma mensagem anticósmica e antinomista: uma moral diferente, sublime, heróica, paradoxal. Ela tem a vocação de substituir a moral comum que os mandamentos bíblicos tinham ratificado. O inferno também, segundo Marcião, albergava os justos do Antigo Testamento, servidores do Deus criador, enquanto que o Deus salvador recebia em seu paraíso os sodomitas e os egípcios que tinham se recusado a aderir à Lei antiga. Os judeus, à luz desta heresia, representavam adequadamente a figura do mundo extinto e da ética ultrapassada, obra do mau Deus.
Gnosticismo e marcionismo, sempre associados, jamais deixaram de trabalhar a imaginação e de subverter o pensamento cristão. Ainda que condenados a seu nascimento como a pior das heresias, subsistiram como uma tentação permanente, saltando de um século ao outro e nunca tanto quanto no nosso. Eles foram o ponto fraco do ensino, uma fissura no terreno da fé, que permitiram a tantos cristãos lançarem-se no gnosticismo político do comunismo e no marcionismo frenético do nazismo.
Como estavam sempre intimamente ligados, sua associação provocou um novo ponto de contato entre o nazismo e o comunismo.
No gnosticismo comunista, o esquema historicista suplanta abertamente o sentido bíblico da história, e tanto o Deus criador como o Deus salvador são recusados: o primeiro sendo substituído pela história natural da humanidade, e O segundo pela ação voluntária do Partido. O assalto contra a Igreja cristã foi então imediato e fez em poucos anos mais mártires do que os que ela tivera desde o seu nascimento. Mas todos os deuses e todas as religiões eram igualmente inimigos, o que fez com que a Sinagoga fosse igualmente atacada, assim como a própria ideia de comunidade. O anti-semitismo puro e simples sucedeu, desde o fim dos anos 30, ao antijudaísmo inicial. Depois de 1945, foi proibido distinguir os judeus entre as “vítimas do fascismo”, mencionar a Shoah, tolerar o sionismo a partir do momento em que ele se afirmou como um movimento nacional independente. O comunismo é ciumento e não aceita “outros deuses diante de si”.
O nazismo se concentrou na versão marcionita do gnosticismo. Ele aceitou formal e provisoriamente um outro Deus diferente do de Abraão. Ele perseguiu os cristãos fiéis. Ele tratou de se enriquecer com elementos tomados do esoterismo e do ocultismo do final do século. Ele quis despertar o neopaganismo dos velhos deuses alemães, fazendo assim injúrias por essa outra contrafação ao que a mitologia alemã tinha de honroso, de belo e de comum com aquela de Homero. Nos dois sistemas de salvação, comunista e nazista, é difícil distinguir, no ódio que confunde judeus e cristãos, se os primeiros são detestados por estarem na origem dos segundos ou os segundos por serem os filhos dos primeiros. Qualquer que seja a ordem seguida, a perseguição atinge um depois do outro.
A terceira heresia é o milenarismo. Em seus efeitos históricos, ele conflui com o messianismo. Ele é uma expectativa de mudança radical no interior da história. O messianismo bíblico espera o advento de uma figura real capaz de restaurar uma aliança de paz em Israel e nas Nações. O milenarismo primitivo cristão acreditava que Cristo retornaria à Terra para reinar gloriosamente mil anos com os justos ressuscitados. Essas doutrinas sofreram no século XX derivações seculares. Foi assim que a ideia messiânica contaminou as formas mais extremas do nacionalismo: o povo alemão, o povo russo, tinham esperanças da redenção final da história humana. O milenarismo é uma impaciência de fazer advir o Reino de Deus e uma vontade de tomar em suas mãos esse acontecimento. Ele pode ser compreendido como um tipo de pelagianismo paroxístico, coletivizado e politizado. A história moderna é abalada por essas crises heróicas: os taboritas da Boêmia, os anabatistas de Münster, a ala extremista da revolução inglesa, Sabbatai Zvi. Elas são mais sangrentas quando, livres da ideia de Deus, visam à instauração de um regnum hominis. É raro que, valendo-se dessas crises, a separação entre judeus e cristãos não seja envenenada por aqueles mesmos que atacavam suas respectivas religiões, das quais não subsiste mais nenhum sinal senão o ódio recíproco.
 
(ALAIN BESANÇON - A INFELICIDADE DO SÉCULO, SOBRE O COMUNISMO,
 O NAZISMO
 E A UNICIDADE DA SHOAH)
A política é o ópio do povo

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OS QUATRO GRANDES ERROS

por Thynus, em 08.08.17

Inimigos da Verdade – Convicções são inimigos da verdade mais perigosos que as mentiras” – 
 (Nietzsche, Humano Demasiado Humano, §483)
 
Morrer pela “verdade”. — Não nos deixaríamos queimar por nossas opiniões: não somos tão seguros delas; mas talvez por podermos ter e alterar nossas opiniões” – 
(Nietzsche, O andarilho e sua Sombra, §333)
 .
 
os homens se tornaram cativos de suas verdades
 
1.
 
Erro da confusão de causa e conseqüência. — Não há erro mais perigoso do que confundir a conseqüência e a causa: eu o denomino a verdadeira ruína da razão. Porém, esse erro está entre os mais antigos e mais novos hábitos da humanidade: ele é até santificado entre nós, leva o nome de “religião”, “moral”. Cada tese formulada pela religião e pela moral o contém; sacerdotes e legisladores da moral são os autores dessa corrupção da razão. — Eis um exemplo: todos conhecem o livro do famoso Cornaro,44 em que ele recomenda sua exígua dieta como receita para uma vida longa e feliz — e também virtuosa. Poucas obras foram tão lidas, ainda agora milhares de exemplares são impressos anualmente na Inglaterra. Duvido que algum livro (excetuando-se, naturalmente, a Bíblia) tenha causado tanto mal, tenha abreviado tantas vidas, como esse bem-intencionado curiosum [coisa curiosa]. Razão para isso: a confusão entre o efeito e a causa. O bom italiano via em sua dieta a causa de sua longa vida: ao passo que a precondição para uma longa vida, a extraordinária lentidão do metabolismo, o baixo consumo, era a causa de sua exígua dieta. Ele não tinha a liberdade de comer pouco ou muito, sua frugalidade não era um “livre-arbítrio”: ele ficava doente quando comia mais. Mas quem não é uma carpa45 não só faz bem em comer propriamente, mas disso tem necessidade. Um erudito de nossa época, com seu rápido consumo de energia nervosa, se destruiria com o regime de Cornaro. Crede experto [Creia no perito]. —46

 

 

2.

 

A fórmula geral que se encontra na base de toda moral e religião é: “Faça isso e aquilo, não faça isso e aquilo — assim será feliz! Caso contrário...”. Toda moral, toda religião é esse imperativo — eu o denomino o grande pecado original da razão, a desrazão imortal. Em minha boca essa fórmula se converte no seu oposto — primeiro exemplo de minha “tresvaloração de todos os valores”: um ser que vingou, um “feliz”, tem de realizar certas ações e receia instintivamente outras, ele carrega a ordem que representa fisiologicamente para suas relações com as pessoas e as coisas. Numa fórmula: sua virtude é o efeito de sua felicidade... Vida longa, prole abundante, isso não é recompensa da virtude; a virtude mesma é, isto sim, essa desaceleração do metabolismo que, entre outras coisas, tem por conseqüência uma vida longa, uma prole abundante, em suma, o cornarismo. — A Igreja e a moral dizem: “o vício e o luxo levam uma estirpe ou um povo à ruína”. Minha razão restaurada diz: se um povo se arruína, degenera fisiologicamente, seguem-se daí o vício e o luxo (ou seja, a necessidade de estímulos cada vez mais fortes e mais freqüentes, como sabe toda natureza esgotada). Um homem jovem fica prematuramente pálido e murcho. Seus amigos dizem: tal ou tal doença é responsável por isso. Eu digo: o fato de ele adoecer, de não resistir à doença, já foi conseqüência de uma vida debilitada, de um esgotamento hereditário. O leitor de jornais diz: esse partido se arruína cometendo tal erro. Minha política mais elevada diz: um partido que comete tais erros está no fim — já não tem sua segurança de instinto. Cada erro, em todo sentido, é conseqüência da degeneração do instinto, da desagregação da vontade: com isso praticamente se define o ruim. Tudo bom é instinto — e, portanto, leve, necessário, livre. O esforço é uma objeção, o deus se diferencia tipicamente do herói (na minha linguagem: pés ligeiros são o primeiro atributo da divindade).

 

 

3.

 

Erro de uma falsa causalidade. — Em todos os tempos as pessoas acreditaram saber o que é uma causa: mas de onde tiramos nosso saber, ou, mais precisamente, a crença de sabermos? Do âmbito dos famosos “fatos interiores”, dos quais nenhum, até hoje, demonstrou ser real. Acreditávamos ser nós mesmos causais no ato da vontade; aí pensávamos, ao menos, flagrar no ato a causalidade. Tampouco se duvidava que todos os antecedentia de uma ação, suas causas, deviam ser buscados na consciência e nela se achariam novamente, ao serem buscados — como “motivos”: de outro modo não se teria sido livre para fazê-la, responsável por ela. Afinal, quem discutiria que um pensamento é causado? Que o Eu causa o pensamento?... Desses três “fatos interiores”, com que parecia estar garantida a causalidade. O primeiro e mais convincente é o da vontade como causa; a concepção de uma consciência (“espírito”) como causa e, mais tarde, a do Eu (“sujeito”) como causa nasceram posteriormente, depois que a causalidade da vontade se firmou como dado, como algo empírico... Nesse meio-tempo refletimos melhor. Hoje não acreditamos em mais nenhuma palavra disso. O “mundo interior” é cheio de miragens e fogos-fátuos: a vontade é um deles. A vontade não move mais nada; portanto, também não explica mais nada — ela apenas acompanha eventos, também pode estar ausente. O que chamam de “motivo”: outro erro. Apenas um fenômeno superficial da consciência, um acessório do ato, que antes encobre os antecedentia de um ato do que os representa. E quanto ao Eu! Tornou-se uma fábula, uma ficção, um jogo de palavras: cessou inteiramente de pensar, de sentir e de querer!... Que resulta disso? Não há causas mentais absolutamente! Toda a sua suposta evidência empírica foi para o diabo! Eis o que resulta disso! — E havíamos cometido um belo abuso com essa “evidência empírica”, com base nela havíamos criado o mundo como um mundo de causas, um mundo de vontade, um mundo de espíritos. A mais antiga e mais duradoura psicologia estava atuando aqui, não fazia outra coisa: para ela, todo acontecer é um agir, todo agir é conseqüência de uma vontade, o mundo tornou-se-lhe uma multiplicidade de agentes, um agente (um “sujeito”) introduziu-se por trás de todo acontecer. O homem projetou fora de si os seus três “fatos interiores”, aquilo em que acreditava mais firmemente, a vontade, o espírito, o Eu — extraiu a noção de ser da noção de Eu, pondo as “coisas” como existentes à sua imagem, conforme sua noção do Eu como causa. É de admirar que depois encontrasse, nas coisas, apenas o que havia nelas colocado? — A coisa mesma, repetindo, a noção de coisa, [é] apenas um reflexo da crença no Eu como causa... E até mesmo o seu átomo, meus caros mecanicistas e físicos, quanto erro, quanta psicologia rudimentar permanece ainda em seu átomo! — Para não falar da “coisa em si”, do horrendum pudendum [horrível parte pudenda] dos metafísicos! O erro do espírito como causa confundido com a realidade! E tornado medida da realidade! E denominado Deus! —

 

 

4.

 

Erro das causas imaginárias. — Partindo do sonho: a uma determinada sensação, devida a um longínquo tiro de canhão, por exemplo, é atribuída posteriormente uma causa (muitas vezes todo um pequeno romance, no qual justamente o sonhador é o personagem principal). A sensação perdura, enquanto isso, numa espécie de ressonância: ela como que aguarda até que o impulso causal lhe permita passar a primeiro plano — não mais como acaso, mas como “sentido”. O tiro de canhão aparece numa maneira causal, numa aparente inversão do tempo. O ulterior, a motivação, é vivenciado primeiramente, muitas vezes com inúmeros detalhes que passam como um raio, e o tiro vem depois... Que aconteceu? As idéias produzidas por uma certa condição foram mal-entendidas como causas dela. — Na verdade, fazemos a mesma coisa acordados. A maioria de nossos sentimentos gerais — todo tipo de inibição, pressão, tensão, explosão no jogo dos órgãos, assim como, particularmente, o estado do nervus sympathicus — excita nosso impulso causal: queremos uma razão para nos acharmos assim ou assim — para nos acharmos bem ou nos acharmos mal. Nunca nos basta simplesmente constatar o fato de que nos achamos assim ou assim: só admitimos esse fato — dele nos tornamos conscientes —, ao lhe darmos algum tipo de motivação. — A recordação, que nesses casos entra em atividade sem que o saibamos, faz emergir estados anteriores da mesma espécie e as interpretações causais a eles ligadas — não a sua causalidade. Sem dúvida, a crença de que as idéias, os concomitantes processos conscientes tenham sido as causas é também trazida à tona pela recordação. Desse modo nos tornamos habituados a uma certa interpretação causal que, na verdade, inibe e até exclui uma investigação da causa.

 

 

5.

 

Explicação psicológica para isso. — Fazer remontar algo desconhecido a algo conhecido alivia, tranqüiliza, satisfaz e, além disso, proporciona um sentimento de poder. Com o desconhecido há o perigo, o desassossego, a preocupação — nosso primeiro instinto é eliminar esses estados penosos. Primeiro princípio: alguma explicação é melhor que nenhuma. Tratando-se, no fundo, apenas de um querer livrar-se de idéias opressivas, não se é muito rigoroso com os meios de livrar-se delas: a primeira idéia mediante a qual o desconhecido se declara conhecido faz tão bem que é “tida por verdadeira”. Prova do prazer (“da força”) como critério da verdade. — O impulso causal é, portanto, condicionado e provocado pelo sentimento de medo. O “por quê” deve, se possível, fornecer não tanto a causa por si mesma, mas antes uma espécie de causa — uma causa tranqüilizadora, liberadora, que produza alívio. O fato de ser estabelecido como causa algo já conhecido, vivenciado, inscrito na recordação é a primeira conseqüência desta necessidade. O novo, o não-vivenciado, o estranho é excluído como causa. — Portanto, não se busca apenas um tipo de explicações como causa, mas um tipo seleto e privilegiado de explicações, aquelas com que foi eliminado da maneira mais rápida e mais freqüente o sentimento do estranho, novo, não-vivenciado — as explicações mais habituais. — Conseqüência: um tipo de colocação de causas prepondera cada vez mais, concentra-se em forma de sistema e enfim aparece como dominante, isto é, simplesmente excluindo outras causas e explicações. — O banqueiro pensa de imediato no “negócio”, o cristão, no “pecado”, a garota, em seu amor.

 

 

6.

 

Todo o âmbito da moral e da religião se inscreve nesse conceito das causas imaginárias. — “Explicação” dos sentimentos gerais desagradáveis. Estes são determinados por seres que nos são hostis (espíritos maus: caso mais famoso — a má compreensão das histéricas como sendo bruxas). São determinados por ações que não podem ser aprovadas (o sentimento do “pecado”, da “pecaminosidade”, introduzido num mal-estar fisiológico — sempre se acha razões para estar insatisfeito consigo). São determinados como castigo, como pagamento por algo que não devíamos ter feito, que não devíamos ter sido (generalizado por Schopenhauer, de forma impudente, numa tese em que a moral aparece como o que é, como verdadeira envenenadora e caluniadora da vida: “Toda grande dor, seja física, seja espiritual, exprime o que merecemos; pois não poderia nos sobrevir se não a merecêssemos”, O mundo como vontade e representação, ii, 666).47 São determinados como conseqüências de atos irrefletidos que têm desfecho ruim (— os afetos, os sentidos colocados como causa, como “culpáveis”; crises fisiológicas interpretadas, com ajuda de outras crises, como “merecidas”). — “Explicação” dos sentimentos gerais agradáveis. Estes são determinados pela confiança em Deus. São determinados pela consciência das boas ações (a chamada “boa consciência”, um estado fisiológico que às vezes semelha uma boa digestão a ponto de ser com ela confundido). São determinados pelo desenlace feliz de um empreendimento (— ingênua falácia: o desenlace feliz de uma empresa não cria sentimentos gerais agradáveis num hipocondríaco ou num Pascal). São determinados por fé, amor, esperança — as virtudes cristãs.48 — Na verdade, todas essas supostas explicações são estados resultantes e, por assim dizer, traduções de sentimentos de prazer ou desprazer em um falso dialeto: pode-se ter esperança porque o sentimento fisiológico básico está novamente rico e forte; confia-se em Deus porque o sentimento de força e plenitude dá tranqüilidade. — A moral e a religião inscrevem-se inteiramente na psicologia do erro: em cada caso são confundidos efeito e causa; ou a verdade é confundida com o efeito do que se acredita como verdadeiro; ou um estado da consciência, com a causalidade desse estado.

 

 

7.

 

Erro do livre-arbítrio. — Hoje não temos mais compaixão pelo conceito de “livre-arbítrio”: sabemos bem demais o que é — o mais famigerado artifício de teólogos que há, com o objetivo de fazer a humanidade “responsável” no sentido deles, isto é, de torná-la deles dependente... Apenas ofereço, aqui, a psicologia de todo “tornar responsável”. — Onde quer que responsabilidades sejam buscadas, costuma ser o instinto de querer julgar e punir que aí busca. O vir-a-ser é despojado de sua inocência, quando se faz remontar esse ou aquele modo de ser à vontade, a intenções, a atos de responsabilidade: a doutrina da vontade foi essencialmente inventada com o objetivo da punição, isto é, de querer achar culpado. Toda a velha psicologia, a psicologia da vontade, tem seu pressuposto no fato de que seus autores, os sacerdotes à frente das velhas comunidades, quiseram criar para si o direito de impor castigos — ou criar para Deus esse direito... Os homens foram considerados “livres” para poderem ser julgados, ser punidos — ser culpados: em conseqüência, toda ação teve de ser considerada como querida, e a origem de toda ação, localizada na consciência (— assim, a mais fundamental falsificação de moeda in psychologicis [em questões psicológicas] transformou-se em princípio da psicologia mesma...). Hoje, quando encetamos o movimento inverso, quando nós, imoralistas, buscamos com toda a energia retirar novamente do mundo o conceito de culpa e o conceito de castigo, e deles purificar a psicologia, a história, a natureza, as sanções e instituições sociais, não existem, a nossos olhos, adversários mais radicais do que os teólogos, que, mediante o conceito de “ordem moral do mundo”, continuam a empestear a inocência do vir-a-ser com “culpa” e “castigo”. O cristianismo é uma metafísica do carrasco...

 

 

8.

 

Qual pode ser a nossa doutrina? — Que ninguém dá ao ser humano suas características, nem Deus, nem a sociedade, nem seus pais e ancestrais, nem ele próprio (— o contra-senso dessa última idéia rejeitada foi ensinado, como “liberdade inteligível”, por Kant, e talvez já por Platão).49 Ninguém é responsável pelo fato de existir, por ser assim ou assado, por se achar nessas circunstâncias, nesse ambiente. A fatalidade do seu ser não pode ser destrinchada da fatalidade de tudo o que foi e será. Ele não é conseqüência de uma intenção, uma vontade, uma finalidade próprias, com ele não se faz a tentativa de alcançar um “ideal de ser humano” ou um “ideal de felicidade” ou um “ideal de moralidade” — é absurdo querer empurrar o seu ser para uma finalidade qualquer.50 Nós é que inventamos o conceito de “finalidade”: na realidade não se encontra finalidade... Cada um é necessário, é um pedaço de destino, pertence ao todo, está no todo — não há nada que possa julgar, medir, comparar, condenar nosso ser, pois isto significaria julgar, medir, comparar, condenar o todo... Mas não existe nada fora do todo! — O fato de que ninguém mais é feito responsável, de que o modo do ser não pode ser remontado a uma causa prima, de que o mundo não é uma unidade nem como sensorium nem como “espírito”, apenas isto é a grande libertação — somente com isso é novamente estabelecida a inocência do vir-a-ser... O conceito de “Deus” foi, até agora, a maior objeção à existência... Nós negamos Deus, nós negamos a responsabilidade em Deus: apenas assim redimimos o mundo. —
 
 
(Friedrich Nietzsche - Crepúsculo dos Ídolos)
 
Notas:
44. Lodovico Cornaro (1467-1566): escritor veneziano, autor de Discorsi della vita sobria (1588), obra bastante lida na época e traduzida para o alemão com o título de A arte de alcançar uma idade avançada e sadia.
45. “não é uma carpa”: isto é, não tem dentes.
46. Crede experto: citação de um poema épico sobre a segunda guerra contra Cartago (Punica, viii, 395), do poeta romano Silius Italicus (c. 25-101 d. C.).
47. Nietzsche cita a página da edição Frauenstädt de O mundo como vontade e representação. A citação se acha no capítulo 46 do segundo volume.
48. “as virtudes cristãs”: cf. Epístola de são Paulo aos coríntios i, 13, 13; Blaise Pascal (1623-62): matemático e filósofo francês que, depois de uma forte experiência mística, tornou-se um dos maiores defensores da fé cristã.
49. Cf. Humano, demasiado humano (São Paulo, Companhia das Letras, 2000), seção 39, “A fábula da liberdade inteligível”, e nota correspondente; cf. Platão, Timeu, 68e.
50. sein Wesen [...] abwälzen: “empurrar o seu ser” — nas outras versões: “deslocar o seu ser”, “fazer rolar sua existência”, echar a rodar su ser, far rotolare la sua natura, faire dévier son être, to devolve ones essence, to hand over his nature, to discharge ones being.

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Verdadeiro, falso e construção de sentido em Nietzsche e Deleuze
1.

 

O mundo verdadeiro, alcançável para o sábio, o devoto, o virtuoso — ele vive nele, ele é ele.

(A mais velha forma da idéia, relativamente sagaz, simples, convincente. Paráfrase da tese: “Eu, Platão, sou a verdade”.)

 

 

2.

 

O verdadeiro mundo, inalcançável no momento, mas prometido para o sábio, o devoto, o virtuoso (“para o pecador que faz penitência”).

(Progresso da idéia: ela se torna mais sutil, mais ardilosa, mais inapreensível — ela se torna mulher, torna-se cristã...)

 

 

3.

 

O mundo verdadeiro, inalcançável, indemonstrável, impossível de ser prometido, mas, já enquanto pensamento, um consolo, uma obrigação, um imperativo.

(O velho sol, no fundo, mas através de neblina e ceticismo; a idéia tornada sublime, pálida, nórdica, königsberguiana.)37

 

 

4.

 

O mundo verdadeiro — alcançável? De todo modo, inalcançado. E, enquanto não alcançado, também desconhecido. Logo, tampouco salvador, consolador, obrigatório: a que poderia nos obrigar algo desconhecido?...

(Manhã cinzenta. Primeiro bocejo da razão. Canto de galo do positivismo.)

 

 

5.

 

O “mundo verdadeiro” — uma idéia que para nada mais serve, não mais obriga a nada —, idéia tornada inútil, logo refutada: vamos eliminá-la!

(Dia claro; café-da-manhã; retorno do bon sens [bom senso] e da jovialidade; rubor de Platão; algazarra infernal de todos os espíritos livres.)

 

 

6.

 

Abolimos o mundo verdadeiro: que mundo restou? o aparente, talvez?... Não! Com o mundo verdadeiro abolimos também o mundo aparente!

(Meio-dia; momento da sombra mais breve; fim do longo erro; apogeu da humanidade; incipit zaratustra [começa Zaratustra].)38
 

(Friedrich Nietzsche - Crepúsculo dos Ídolos)

Notas:
37 -  “königsberguiana”: alusão a Kant, natural e habitante da cidade de Königsberg, na então Prússia (atualmente Kaliningrado, na Rússia). O “imperativo” do item anterior diz respeito, então, ao “imperativo categórico” de Kant.
38 -  “incipit zaratustra”: ou seja, começa a nova era inaugurada por ele. O livro Assim falou Zaratustra começa com uma passagem publicada originalmente no final da primeira edição de A gaia ciência (seção 342), intitulada “Incipit tragoedia” (“Começa a tragédia”), e termina com Zaratustra exclamando: “Esta é a minha manhã, alça-se o meu dia; sobe nesse instante, sobe, ó grande Meio-Dia!”.

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Nossa Senhora do Silêncio

por Thynus, em 06.08.17

 

 

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Nossa Senhora do Silêncio

Às vezes quando, abatido e humilde, a própria força de sonhar se me desfolha e se me seca, e o meu único sonho só pode ser’ o pensar nos meus sonhos, folheio-os então, como a um livro que se folheia e se torna a folhear sem ler mais que palavras inevitáveis. É então que me interrogo sobre quem tu és, figura que atravessas todas as minhas antigas visões demoradas de paisagens outras e de interiores antigos e de cerimoniais faustosos de silêncio. Em todos os meus sonhos ou apareces, sonho, ou, realidade falsa, me acompanhas. Visito contigo regiões que são talvez sonhos teus, terras que são talvez corpos teus de ausência e desumanidade, o teu corpo essencial descontornado para planície calma e monte de perfil frio em jardim de palácio oculto. Talvez eu não tenha outro sonho senão tu, talvez seja nos teus olhos, encostando a minha face à tua, que eu lerei essas paisagens impossíveis, esses tédios falsos, esses sentimentos que habitam a sombra dos meus cansaços e as grutas dos meus desassossegos. Quem sabe se as paisagens dos meus sonhos não são o meu modo de não te sonhar? Eu não sei quem tu és, mas sei ao certo o que sou? Sei eu o que é sonhar para que saiba o que vale o chamar-te o meu sonho? Sei eu se não és uma parte, quem sabe se a parte essencial e real, de mim? E sei eu se não sou eu o sonho e tu a realidade, eu um sonho teu e não tu um Sonho que eu sonhe?

Que espécie de vida tens? Que modo de ver é o modo como te vejo? O teu perfil? Nunca é o mesmo, mas não muda nunca. E eu digo isto porque sei, ainda que não saiba que o sei. O teu corpo? Nu é o mesmo que vestido, sentado está na mesma atitude do que quando deitado ou de pé. Que significa isto, que não significa nada?

A minha vida é tão triste, e eu nem penso em chorá-la; as minhas horas tão falsas, e eu nem sonho o gesto de parti-las.

Como não te sonhar? Como não te sonhar? Senhora das Horas que passam, Madona das águas estagnadas e das algas mortas, Deusa Tutelar dos desertos abertos e das paisagens negras de rochedos estéreis — livra-me da minha mocidade.

Consoladora dos que não têm consolação, Lágrima dos que nunca choram, Hora que nunca soa — livra-me da alegria e da felicidade.

Ópio de todos os silêncios, Lira para não se tanger, Vitral de lonjura e de abandono — faz com que eu seja odiado pelos homens e escarnecido pelas mulheres.

Címbalo de Extrema-Unção, Carícia sem gesto, Pomba morta à sombra, Óleo de horas passadas a sonhar  — livra-me da religião, porque é suave; e da descrença porque é forte.

Lírio fanando à tarde, Cofre de rosas murchas, silêncio entre prece e prece . Enche-me de nojo de viver, de ódio de ser são, de desprezo por ser jovem.

Torna-me inútil e estéril, ó Acolhedora de todos os sonhos vagos; faz-me puro sem razão para o ser, e falso sem amor a sê-lo, ó Água Corrente das Tristezas Vividas; que a minha boca seja uma paisagem de gelos, os meus olhos dois lagos mortos, os meus gestos um esfolhar lento de árvores velhinhas – ó Ladainha de Desassossegos, ó Missa-Roxa de Cansaços, ó Corola, ó Fluido, ó Ascensão!...

Que pena eu ter de te rezar como a uma mulher, e não te querer  como a um homem, e não te poder erguer os olhos do meu sonho como Aurora-ao-contrário do sexo irreal dos anjos que nunca entraram no céu!

 

***

 

Rezo a ti o meu amor porque o meu amor é já uma oração; mas nem te concebo como amada, nem te ergo ante mim como santa.

Que os teus actos sejam a estátua da renúncia, os teus gestos o pedestal da indiferença, as tuas palavras os vitrais da negação.

 

***

 

Esplendor do nada, nome do abismo, sossego do Além...

Virgem eterna antes dos deuses e dos pais dos deuses, e dos pais dos pais dos deuses, infecunda de todos os mundos, estéril de todas as almas...

A ti são oferecidos os dias e os seres; os astros são votos no teu templo, e o cansaço dos deuses volta ao teu regaço como a ave ao ninho que não sabe como fez.

Que do auge da angústia se aviste o dia, e, se nenhum dia se aviste, que seja esse o dia que se aviste!

Esplende, ausência de sol; brilha, luar que cessas...

Só tu, sol que não brilhas, iluminas as cavernas, porque as cavernas são tuas filhas. Só tu, lua que não há, dás às grutas, porque as grutas

Tu és do sexo das formas sonhadas, do sexo nulo das figuras . Mero perfil às vezes, mera atitude outras vezes, outras gesto lento apenas — és momentos, atitudes, espiritualizadas em minhas.

Nenhum fascínio do sexo se subentende no meu sonhar-te, sob a tua veste vaga de madona dos silêncios interiores. Os teus seios não são dos que se pudesse pensar em beijar-se. O teu corpo é todo ele carne-alma, mas não é alma é corpo. A matéria da tua carne, não é espiritual mas é espírito . És a mulher anterior à Queda, escultura ainda daquele barro que  paraíso.

O meu horror às mulheres reais que têm sexo é a estrada por onde eu fui ao teu encontro. As da terra, que para serem têm de suportar o peso movediço de um homem — quem as pode amar, que não se lhe desfolhe o amor na antevisão do prazer que serve o sexo ...? Quem pode respeitar a Esposa sem ter de pensar que ela é uma mulher noutra posição de cópula... Quem não se enoja de ter mãe por ter sido tão vulvar na sua origem, tão nojentamente parido? Que nojo de nós não punge a ideia da origem carnal da nossa alma — daquele inquieto corpóreo de onde a nossa carne nasce e, por bela que seja, se desfeia da origem e se nos enoja de nata.

Os idealistas falsos da vida real fazem versos à Esposa, ajoelham à ideia de Mãe... O seu idealismo é uma veste que tapa, não é um sonho que crie.

Pura só tu, Senhora dos Sonhos, que eu posso conceber amante sem conceber mácula porque és irreal. A ti posso-te conceber mãe, adorando-o, porque nunca te manchaste nem do horror de seres fecundada, nem do horror de parires.

Como não te adorar, se só tu és adorável? Como não te amar se só tu és digna do amor?

Quem sabe se sonhando-te eu não te crio, real noutra realidade; se não serás minha ali, num outro e puro mundo, onde sem corpo táctil nos amemos, com outro jeito de abraços e outras atitudes essenciais de posse? Quem sabe mesmo se não existias já e não te criei nem te vi apenas, com outra visão, interior e pura, num outro e perfeito mundo? Quem sabe se o meu sonhar-te não foi o encontrar-te simplesmente, se o meu amar-te não foi o pensar-em-ti se o meu desprezo pela carne e o meu nojo pelo amor não foram a obscura ânsia com que, ignorando-te, te esperava, e a vaga aspiração com que, desconhecendo-te, te queria?

Não sei mesmo já se não te amei já, num vago onde cuja saudade este meu tédio perene talvez seja. Talvez sejas uma saudade minha, corpo de ausência, presença de Distância, fêmea talvez por outras razões que não as de sê-lo.

Posso pensar-te virgem e também mãe porque não és deste mundo. A criança que tens nos braços nunca foi mais nova para que houvesses de a sujar de a ter no ventre. Nunca foste outra do que és e como não seres virgem portanto? Posso amar-te e também adorar-te porque o meu amor não te possui e a minha adoração não te afasta.

Sê o Dia Eterno e que os meus poentes sejam raios do teu sol possuídos em ti.

Sê o Crepúsculo Invisível e que as minhas ânsias e desassossegos sejam as tintas da tua indecisão, as sombras da tua incerteza.

Sê a Noite Total, torna-te a Noite Única e que todo eu me perca e me esqueça em ti, e que os meus sonhos brilhem, estrelas, no teu corpo de distância e negação...

Seja eu as dobras do teu manto, as joias da tua tiara, e o ouro outro dos anéis dos teus dedos.

Cinza na tua lareira, que importa que eu seja pó? Janela no teu quarto, que importa que eu seja espaço? Hora na tua clepsidra, que importa que eu passe, se por ser teu ficarei, que eu morra se por ser teu não morrer, que eu te perca se o perder-te é encontrar-te?

Realizadora dos absurdos, Seguidora de frases sem nexo . Que o teu silêncio me embale, que a tua me adormeça, que o teu mero-ser me acaricie e me amacie e me conforte, ó heráldica do Além, ó imperial de Ausência; Virgem -Mãe de todos os silêncios, Lareira das almas que têm frio, Anjo da Guarda dos abandonados, Paisagem humana e irreal de triste e eterna Perfeição.

Tu não és mulher. Nem mesmo dentro de mim evocas qualquer coisa que eu possa sentir feminina. É quando falo de ti que as palavras te chamam fêmea, e as expressões te contornam de mulher. Porque tenho de te falar com ternura e amoroso sonho, as palavras encontram voz para isso apenas em te tratar como feminina.

Mas tu, na tua vaga essência, não és nada. Não tens realidade, nem mesmo uma realidade só tua. Propriamente, não te vejo, nem mesmo te sinto. És como que um sentimento que fosse o seu próprio objeto e pertencesse todo ao íntimo de si próprio. És sempre a paisagem que eu estive quase para poder ver, a orla da veste que por pouco eu não pude ver, perdida num eterno Agora para além da curva do caminho. O teu perfil é não seres nada, e o contorno do teu corpo irreal desata em pérolas separadas o colar da ideia de contorno. Já passaste, e já foste e já te amei – o sentir-te presente é sentir isto.

Ocupas o intervalo dos meus pensamentos e os interstícios das minhas sensações. Por isso eu não te penso nem te sinto, mas os meus pensamentos são ogivais de te sentir, e os meus sentimentos góticos de evocar-te.

Lua de memórias perdidas sobre a negra paisagem nítida de vazio  da minha imperfeição compreendendo-se. O meu ser sente-te vagamente, como se fosse um cinto teu que te sentisse. Debruço-me sobre o teu rosto branco nas águas noturnas do meu desassossego, no meu saber que és lua no meu céu para que o causes, ou estranha lua submarina para que, não sei como, o finjas.

Quem pudesse criar o Novo Olhar com que te visse, os Novos Pensamentos e Sentimentos que houvessem de te poder pensar e sentir!

Ao querer tocar no teu manto as minhas expressões cansam o esforço estendido dos gestos das suas mãos, e um cansaço rígido e doloroso gela-se nas minhas palavras. Por isso, curva um voo de ave, que parece que se aproxima e nunca chega, em torno ao que eu quereria dizer de ti, mas a matéria das minhas frases não sabe imitar a substância ou do som dos teus passos ou do rasto dos teus olhares, ou da cor triste e vazia da curva dos gestos que não fizeste nunca.

 

***

 

E se acaso falo com alguém longínquo, e se, hoje nuvem de possível, amanhã caíres, chuva de real sobre a terra, não te esqueças nunca da tua divindade original de sonho meu. Sê sempre na vida aquilo que possa ser o sonho de um isolado e nunca o abrigo de um amoroso. Faz o teu dever de mera taça. Cumpre o teu mister de ânfora inútil . Ninguém diga de ti o que a alma do rio pode dizer das margens, que existem para o limitar. Antes não correr na vida, antes secar de sonhar.

Que o teu génio seja o ser supérflua, e a tua vida a arte de olhares para ela, de seres a olhada, a nunca idêntica. Não sejas nunca mais nada.

Hoje és apenas o perfil criado deste livro, uma hora carnalizada e separada das outras horas. Se eu tivesse a certeza de que o eras, ergueria uma religião sobre o sonho de amar-te. És o que falta a tudo. És o que a cada coisa falta para a podermos amar sempre. Chave perdida das portas do Templo, caminho encoberto do Palácio, Ilha longínqua que a bruma nunca deixa ver...

 

(Fernando Pessoa - O Livro do Desassossego) 

 

 

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História de Nossa Senhora do Silêncio

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publicado às 20:11

A vida  
é um prematuro sonho.  
Só morre  
quem nunca viveu.
(Mia Couto - Vagas e Lumes) 
 

Não há entre os seres humanos,
banalidade maior do que a morte;
em segundo lugar vem o nascimento,
pois nem todos os que morrem chegaram a nascer;
depois vem o matrimónio
(F. Nietzsche - 100 Aforismos sobre o amor, .n.° 87)
 
 
 
 

EM TESE, VIVER É O QUE TODOS NÓS FAZEMOS antes que a morte chegue. Porém, o significado de “viver” varia enormemente de uma pessoa para outra, a ponto de, segundo a filosofia de Oscar Wilde, reduzir-se, para algumas, a um mero “existir”.
Se uma pessoa apenas trabalha, paga as contas e vê os dias passarem, um após o outro, ela flutua nas águas da existência, mas não mergulha nas profundezas da vida.
No livro Un haiku para Alicia (Um haicai para Alicia, numa tradução livre), de Francesc Miralles, a jovem do título pergunta:
Alguma vez você teve a tentação de VIVER? Não digo viver como quem afirma “a vida é assim”; refiro-me a VIVER em letras maiúsculas, mais do que a rotina de “o que se pode fazer?”. Não quero passar pelo mundo na ponta dos pés – manhã, tarde, noite, manhã; de segunda a sexta-feira, com festa no sábado; comer, beber, trabalhar e dormir. [...] Se você quiser me acompanhar, repetirei a pergunta: Alguma vez você teve a tentação de VIVER?
Este livro começa com uma pergunta, caro leitor. Antigamente, para iniciar uma conversa, as pessoas diziam: “Você estuda ou trabalha?” Oscar Wilde nos apresenta uma questão muito mais profunda: VOCÊ EXISTE OU VIVE?


(Allan Percy - Oscar Wilde para Inquietos)

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publicado às 16:47


Nietzsche e as IDEIAS PERIGOSAS

por Thynus, em 04.08.17
“…em quase toda parte, é a loucura que abre alas para a nova ideia, que quebra o encanto de um uso e uma superstição venerados…”
 (Nietzsche) 

A moralidade é a melhor de todas as regras para orientar a humanidade.
Friedrich Nietzsche

Todos os meios pelos quais, até hoje, quis-se tornar moral a humanidade foram fundamentalmente imorais.
Friedrich Wilhelm Nietzsche
.
 
Em uma das reflexões mais interessantes de “Aurora”, em que se propõe a pensar sobre a “gênese da moral”, Nietzsche investiga os “imensos períodos” em que a humanidade viveu sob o jugo da “moralidade do costume”. Ele considera os milênios “que precederam a história mundial (que, no fundo, é apenas ruído acerca das últimas novidades)” como a “verdadeira e decisiva história que determinou o caráter da humanidade” .

Na remota história das primeiras civilizações, Nietzsche aponta que “a moralidade não é outra coisa do que obediência a costumes”, uma obediência “à maneira tradicional de agir e avaliar” . É julgado como moral ou “bom” aquela pessoa que adere aos comportamentos prescritos pelas autoridades da comunidade, “aquele que observa mais frequentemente a lei: que, tal como o brâmane, a toda parte e em cada instante carrega a consciência da lei, de modo que é sempre inventivo em oportunidades de observá-la… o mais moral é aquele que mais sacrifica ao costume.” Ademais, o costume é frequentemente tido como indiscutível e santo, ordenado pelos deuses, inscrito de uma vez para sempre na natureza das coisas.
Em contraste, será considerada imoral toda ação que “não foi realizada em obediência à tradição”, todo comportamento que destoe da regra exigida e sugira uma mudança ou revolução nos costumes, toda pessoa que se destaque da mediania do rebanho e se afaste da comunidade. Os bons são os conformistas; os maus, as ovelhas negras. Nietzsche alega, portanto, que a comunidade julga ser mais “moral” aquele que mais se conforma às regras sociais costumeiras e tradicionais, aquele que mais se prontifica a sacrificar-se por elas; já o indivíduo rotulado de “imoral” ou “mau” é aquele cujas ações ou pensamentos portam a marca do individual, do singular, do inusitado, do imprevisível. Encontramos um exemplo interessante deste procedimento de rotulação do indivíduo destoante como imoral na peça de Ibsen, “O Inimigo do Povo”. Os inovadores e renovadores, portanto, não teriam necessariamente que parecer “imorais” àqueles que julgam a moralidade como conformidade ao rebanho?
BOSCH, "A Nau dos Loucos" 
 
NIETZSCHE: “Cada ação individual, cada modo de pensar individual provoca horror; é impossível calcular o que justamente os espíritos mais raros, mais seletos, mais originais da história devem ter sofrido pelo fato de serem percebidos como maus e perigosos, por perceberem a si próprios assim. Sob o domínio da moralidade do costume, toda espécie de originalidade adquiriu má consciência; até hoje, o horizonte dos melhores tornou-se ainda mais sombrio do que deveria ser.” (NIETZSCHE. Aurora. Livro I, #9)
Algumas páginas à frente, Nietzsche explicita ainda mais o que têm em mente quando fala do “horizonte sombrio” daqueles que, “apesar da terrível pressão da moralidade do costume”, ousaram enveredar por caminhos próprios e solitários. O aforismo #14, “significação da loucura na história da humanidade”, diz que “sempre irromperam ideias, valorações, instintos novos e divergentes”, mas que “isso ocorreu em horripilante companhia: em quase toda parte, é a loucura que abre alas para a nova ideia, que quebra o encanto de um uso e uma superstição venerados. (…) Todos os homens superiores, que eram irresistivelmente levados a romper o jugo de uma moralidade e instaurar novas leis, não tiveram alternativa, caso não fossem realmente loucos, senão tornar-se ou fazer-se de loucos – e isto vale para os inovadores em todos os campos…” (Pg. 22). De maneira semelhante, no aforismo #20, Nietzsche, refletindo sobre os que são chamados de criminosos, diz: “Todo aquele que subverteu a lei do costume existente foi tido inicialmente como homem mau.”
Nietzsche enfatiza que o processo de “moralização” de uma criança recém-chegada ao mundo, sua inserção numa cultura específica, o processo pelo qual lhe são impingidas condutas e valores, se dá através de instituições como a Família, o Estado, o Clero. Por exemplo: “Os pais fazem dos filhos, involuntariamente, algo semelhante a eles – a isso denominam ‘educação’ – nenhuma mãe duvida, no fundo do coração, que ao ter seu filho pariu uma propriedade; nenhum pai discute o direito de submeter o filho aos seus conceitos e valorações. (…) E assim como o pai, também a classe, o padre, o professor e o príncipe continuam vendo, em toda nova criatura, a cômoda oportunidade de uma nova posse.” (Além de Bem e Mal, #192)
Não há valores inatos, pois, mas somente valores culturalmente transmitidos. Somente através da educação, com a indispensável dose de coerção nela inclusa, que puderam ser transmitidos às sucessivas gerações que foram nascendo as regras de conduta que as autoridades instituídas julgaram que deviam ser obedecidas. Nietzsche aponta que a tendência gregária do ser humano é acompanhada quase universalmente por uma cisão entre os que mandam e os que obedecem: “sempre, desde que existem homens, houve também rebanhos de homens (clãs, comunidades, tribos, Estados, Igrejas), e sempre muitos que obedeceram, em relação ao pequeno número dos que mandaram… obediência foi até agora a coisa mais longamente exercitada e cultivada entre os homens.” (ABM, #199)
A “moralização” do homem, portanto, só se torna inteligível se levarmos em conta esta tendência do “homem de rebanho” a “aceitar de modo pouco seletivo o que qualquer mandante – pais, mestres, leis, preconceitos de classe, opiniões públicas – lhe grita no ouvido.”
 
 

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publicado às 23:58

Duas grandes ideias sobressaem da conferência sobre as "Origens do Cristianismo", realizada na sexta-feira passada, em Macedo de Cavaleiros: "a revolução que constituiu para a humanidade o momento em que a partir do terceiro dia, após a morte de Jesus, se difundiu a ideia da sua ressurreição e a expansão (e fundação) do cristianismo através de Paulo". Assinalada foi ainda a ideia de que "grande valor para o cristianismo é o Homem, assente no princípio de que não é o homem por causa do sábado, mas o sábado por causa do homem".
O debate sobre as origens do cristianismo, incluído no ciclo de conferências "2000 anos de cristianismo", organizadas no âmbito da Agenda Cultural da Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros, realizado na sexta-feira passada no auditório do Instituto Jean Piaget, constituiu mais um êxito, a avaliar, não só pela afluência de público (cerca de 200 pessoas), mas também pela sua origem (de alguns concelhos do distrito, e não só).
Frei Geraldo Amadeu Coelho Dias
 
A maior curiosidade recaiu sobre a intervenção de frei Geraldo Coelho Dias, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, docente da cadeira de História das Religiões, cuja prática nestas lides ficou expressa logo na introdução que fez citando o "chocante" título do livro "Deus morreu em Jesus Cristo", da autoria de um escritor francês contemporâneo, para marcar o sinal de contradição que para alguns revela "tal mistério".
Frei Geraldo, cuja prática de vida comunitária diz professar, contribuindo com o seu ordenado de professor universitário, baseou a sua intervenção na "centralidade da personalidade de Jesus", cuja doutrina, "sem pretender escandalizar ninguém", está entre os católicos portugueses, numa "situação de conhecimento ao nível da escolaridade primária". A sua abordagem "evangelho de Jesus sobre o evangelho de Jesus" merece, por isso, a explicação de que, "antes dos evangelistas (Lucas, Mateus, Marcos e João), houve, "de facto", o evangelho pregado por Jesus". Considera o professor que "o processo genético sobre os evangelhos é um processo vivo e comunitário, uma espécie de selecção de factos e pregações" onde se revela "a teologia pessoal de cada evangelista tendo em conta a variedade de comunidades para quem eram dirigidos" os textos.

"Estamos no ano 2006"
Segundo Coelho Dias, "não existe uma biografia de Jesus. O que há é "quatro narrativas paralelas escritas por homens de fé, para pessoas de fé, pois Jesus, antes de ser reconhecido como Deus, foi reconhecido como Messias", fundamentando esta tese na asserção de que "o Novo Testamento está latente no Antigo, tal como este está no Novo". É nesta perspectiva que encara a fidelidade de "Jesus ao Antigo Testamento", como forma de "alimentar o espírito messiânico no Novo". Aliás, "o ambiente da época era escatológico, como que se adivinhando o que se iria passar", não lhe parecendo ser por acaso que "Jesus é apresentado por Mateus como Moisés, no sermão da montanha, primeiro sinal da passagem da lei de Talião (dente por dente), para a lei da caridade, pregada por Jesus".
"Jesus da História e o Cristo da fé" é, segundo o conferencista, um tema que tem interessado as várias gerações dos dois últimos milénios", pois é reconhecido desde os filósofos do iluminismo até aos do racionalismo que "Cristo não é um mito, nem uma invenção. É uma figura histórica". Para esta conclusão, não falta sequer, na perspectiva do professor, "o contributo de um escritor judeu do ano 70" que o refere como "homem extraordinário, se é que homem se lhe pode chamar".
Pretendendo situar a vida pública de Jesus, de acordo com os evangelhos, frei Geraldo é de opinião que "não estamos no ano 2001, mas certamente estaremos no ano 2006", pois segundo alguns evangelistas, "a vida pública de Jesus durou um ano, enquanto João (dos primeiros discípulos a seguir Jesus) diz que foram três".

A religião de Paulo
Outro tema controverso é o do rumo que levou a igreja, a partir do ano 70 ("da igreja pregada por Jesus até à igreja cristã"). Por isso é que o conferencista disse que "Jesus nunca quis fundar uma religião" e alega que "a igreja é um movimento e não uma religião". Para o frade, esta "nasce a partir de Paulo", considerando-o mesmo "o grande arauto da religião", a ponto de alguns considerarem que esta até poderia ter adoptado "o nome de paulianismo, em vez de cristianismo". Saulo que era "um intelectual da diáspora dos judeus" transformou-se no "apóstolo dos gentios", a partir da "sua conversão às portas de Damasco".
A história do "projecto de expansão" do cristianismo, levado por Paulo a Chipre, Grécia e "provavelmente até à Península Ibérica", foi o tema da intervenção do segundo orador, Armando Martins, professor da Universidade Clássica de Lisboa, natural de Vale Benfeito (Macedo de Cavaleiros). As convulsões, as crises e o modo como a igreja as ultrapassou, nos primeiros séculos de cristianização, foram os aspectos dominantes do seu discurso. Na sua perspectiva, a cristianização de Portugal fez-se de sul para norte, sendo certo que só a partir do século IV é que começaram a aparecer as primeiras literaturas sobre esse processo.

"O socialismo utópico do princípio"
No debate que se seguiu, José Brinquete, dirigente do PCP, de Bragança, observou que o segundo orador prescindiu dos evangelhos e baseou-se mais na narrativa histórica, concluindo daí que "o cristianismo do primeiro orador não é o mesmo do do segundo". Respondendo, já em jeito de conclusão, frei Geraldo esclareceu que "o cristianismo não pode ser dominador", devendo, pelo contrário "ser a semente da mostarda". Na sua perspectiva, "o império caiu mas a igreja também se imperializou", residindo neste facto "o grande perigo". Para ele "não é só acreditar que Jesus é Deus incarnado, mas também que ele é homem". Por isso, não acredita "na igreja poder", mas sim "na igreja sacrifício", até porque "o ambiente primitivo da comunidade cristã é pobre". "Foi o socialismo utópico do princípio descrito nos Actos dos Apóstolos", conclui.

(Diário de Trás-os-Montes)
O “Cristianismo” é um ente histórico poluído e pervertido demais para ter qualquer poder de influencia de sal na terra.
 

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publicado às 23:56


Nietzsche e as IDEIAS PERIGOSAS

por Thynus, em 04.08.17
“…em quase toda parte, é a loucura que abre alas para a nova ideia, que quebra o encanto de um uso e uma superstição venerados…”
 (Nietzsche) 

A moralidade é a melhor de todas as regras para orientar a humanidade.
Friedrich Nietzsche

Todos os meios pelos quais, até hoje, quis-se tornar moral a humanidade foram fundamentalmente imorais.
Friedrich Wilhelm Nietzsche
.
 
Em uma das reflexões mais interessantes de “Aurora”, em que se propõe a pensar sobre a “gênese da moral”, Nietzsche investiga os “imensos períodos” em que a humanidade viveu sob o jugo da “moralidade do costume”. Ele considera os milênios “que precederam a história mundial (que, no fundo, é apenas ruído acerca das últimas novidades)” como a “verdadeira e decisiva história que determinou o caráter da humanidade” .

Na remota história das primeiras civilizações, Nietzsche aponta que “a moralidade não é outra coisa do que obediência a costumes”, uma obediência “à maneira tradicional de agir e avaliar” . É julgado como moral ou “bom” aquela pessoa que adere aos comportamentos prescritos pelas autoridades da comunidade, “aquele que observa mais frequentemente a lei: que, tal como o brâmane, a toda parte e em cada instante carrega a consciência da lei, de modo que é sempre inventivo em oportunidades de observá-la… o mais moral é aquele que mais sacrifica ao costume.” Ademais, o costume é frequentemente tido como indiscutível e santo, ordenado pelos deuses, inscrito de uma vez para sempre na natureza das coisas.
Em contraste, será considerada imoral toda ação que “não foi realizada em obediência à tradição”, todo comportamento que destoe da regra exigida e sugira uma mudança ou revolução nos costumes, toda pessoa que se destaque da mediania do rebanho e se afaste da comunidade. Os bons são os conformistas; os maus, as ovelhas negras. Nietzsche alega, portanto, que a comunidade julga ser mais “moral” aquele que mais se conforma às regras sociais costumeiras e tradicionais, aquele que mais se prontifica a sacrificar-se por elas; já o indivíduo rotulado de “imoral” ou “mau” é aquele cujas ações ou pensamentos portam a marca do individual, do singular, do inusitado, do imprevisível. Encontramos um exemplo interessante deste procedimento de rotulação do indivíduo destoante como imoral na peça de Ibsen, “O Inimigo do Povo”. Os inovadores e renovadores, portanto, não teriam necessariamente que parecer “imorais” àqueles que julgam a moralidade como conformidade ao rebanho?
BOSCH, "A Nau dos Loucos" 
 
NIETZSCHE: “Cada ação individual, cada modo de pensar individual provoca horror; é impossível calcular o que justamente os espíritos mais raros, mais seletos, mais originais da história devem ter sofrido pelo fato de serem percebidos como maus e perigosos, por perceberem a si próprios assim. Sob o domínio da moralidade do costume, toda espécie de originalidade adquiriu má consciência; até hoje, o horizonte dos melhores tornou-se ainda mais sombrio do que deveria ser.” (NIETZSCHE. Aurora. Livro I, #9)
Algumas páginas à frente, Nietzsche explicita ainda mais o que têm em mente quando fala do “horizonte sombrio” daqueles que, “apesar da terrível pressão da moralidade do costume”, ousaram enveredar por caminhos próprios e solitários. O aforismo #14, “significação da loucura na história da humanidade”, diz que “sempre irromperam ideias, valorações, instintos novos e divergentes”, mas que “isso ocorreu em horripilante companhia: em quase toda parte, é a loucura que abre alas para a nova ideia, que quebra o encanto de um uso e uma superstição venerados. (…) Todos os homens superiores, que eram irresistivelmente levados a romper o jugo de uma moralidade e instaurar novas leis, não tiveram alternativa, caso não fossem realmente loucos, senão tornar-se ou fazer-se de loucos – e isto vale para os inovadores em todos os campos…” (Pg. 22). De maneira semelhante, no aforismo #20, Nietzsche, refletindo sobre os que são chamados de criminosos, diz: “Todo aquele que subverteu a lei do costume existente foi tido inicialmente como homem mau.”
Nietzsche enfatiza que o processo de “moralização” de uma criança recém-chegada ao mundo, sua inserção numa cultura específica, o processo pelo qual lhe são impingidas condutas e valores, se dá através de instituições como a Família, o Estado, o Clero. Por exemplo: “Os pais fazem dos filhos, involuntariamente, algo semelhante a eles – a isso denominam ‘educação’ – nenhuma mãe duvida, no fundo do coração, que ao ter seu filho pariu uma propriedade; nenhum pai discute o direito de submeter o filho aos seus conceitos e valorações. (…) E assim como o pai, também a classe, o padre, o professor e o príncipe continuam vendo, em toda nova criatura, a cômoda oportunidade de uma nova posse.” (Além de Bem e Mal, #192)
Não há valores inatos, pois, mas somente valores culturalmente transmitidos. Somente através da educação, com a indispensável dose de coerção nela inclusa, que puderam ser transmitidos às sucessivas gerações que foram nascendo as regras de conduta que as autoridades instituídas julgaram que deviam ser obedecidas. Nietzsche aponta que a tendência gregária do ser humano é acompanhada quase universalmente por uma cisão entre os que mandam e os que obedecem: “sempre, desde que existem homens, houve também rebanhos de homens (clãs, comunidades, tribos, Estados, Igrejas), e sempre muitos que obedeceram, em relação ao pequeno número dos que mandaram… obediência foi até agora a coisa mais longamente exercitada e cultivada entre os homens.” (ABM, #199)
A “moralização” do homem, portanto, só se torna inteligível se levarmos em conta esta tendência do “homem de rebanho” a “aceitar de modo pouco seletivo o que qualquer mandante – pais, mestres, leis, preconceitos de classe, opiniões públicas – lhe grita no ouvido.”
 
 

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