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EVANGELHO SEGUNDO TOMÉ, O DIDIMO

por Thynus, em 21.02.17

Certos livros, pela sua própria natureza, não se destinam a todos os homens, porque são direcionados especialmente àqueles que ainda não perderam a esperança, os que buscam o sentido da vida, ou melhor, os não-acomodados. Este é um deles. O Evangelho de Tomé – um Caminho para Deus é como uma seta na encruzilhada, apontando uma estrada segura e confiável para todos os que, à semelhança do filho pródigo, sentem alguma nostalgia, uma angústia metafísica, a saudade de Deus. O Pai nos espera; precisamos voltar à Casa Paterna. Daí, a importância e o peso desta obra, toda ela calcada na fé, ou seja, na fidelidade, harmonia, sintonia ou religação consciencial vivida entre o filho e o Pai, entre a criatura e o seu Criador. De que nos adianta tantas crenças disseminadas pelo mundo, se nos falta a fé, capaz de vivificar a crença, de lhe dar suporte, sentido e finalidade? A fé, que tudo sustenta, alimenta e conduz... Tomé completa, ou complementa, os evangelhos canônicos e, ao comentá-lo, Nelci Silvério de Oliveira nos revela, de maneira clara e precisa, em linguagem simples, intuitiva e sem rodeios, que ao mundo viemos e cá estamos para conhecer e viver a paternidade única de Deus; consequentemente, a fraternidade cósmica de todas as criaturas. E que, se conseguirmos manter o amor – incondicional ao Pai e desinteressado ao próximo –, esse amor nos libertará de toda a ilusão separatista em relação a Deus, conduzindo-nos, verticalmente, ao Seu reino de eterna luz e perfeita alegria, porque Deus é o único e definitivo porto seguro para o nosso ego errante.

(Nelci Silvério de Oliveira)

 

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Estes são os ensinamentos (logia) ocultos expostos por Jesus, o vivo, que Judas Tomé, o gêmeo, escreveu.

(1) E ele disse: "Quem descobrir o significado interior destes ensinamentos não provará a morte."

(2) Jesus disse: "Aquele que busca continue buscando até encontrar. Quando encontrar, ele se perturbará. Ao se perturbar, ficará maravilhado e reinará sobre o Todo."

(3) Jesus disse: "Se aqueles que vos guiam disserem, ‘Olhem, o reino está no céu,’ então, os pássaros do céu vos precederão, se vos disserem que está no mar, então, os peixes vos precederão. Pois bem, o reino está dentro de vós, e também está em vosso exterior. Quando conseguirdes conhecer a vós mesmos, então, sereis conhecidos e compreendereis que sois filhos do Pai vivo. Mas, se não vos conhecerdes, vivereis na pobreza e sereis essa pobreza."

(4) Jesus disse: "O homem idoso não hesitará em perguntar a uma criancinha de sete dias sobre o lugar da vida, e ele viverá. Pois muitos dos primeiros serão os últimos e se tornarão um só."

(5) Jesus disse: "Reconheça o que está diante de teus olhos, e o que está oculto a ti será desvelado. Pois não há nada oculto que não venha ser manifestado."

(6) Seus discípulos o interrogaram dizendo: "Queres que jejuemos? Como devemos orar? Devemos dar esmolas? Que dieta devemos observar?" Jesus disse: "Não mintais e não façais aquilo que detestais, pois todas as coisas são desveladas aos olhos do céu. Pois não há nada escondido que não se torne manifesto, e nada oculto que não seja desvelado."

(7) Jesus disse: "Bem-aventurado o leão que se torna homem quando consumido pelo homem; maldito o homem que o leão consome, e o leão torna-se homem."

(8) E ele disse: "O homem é como pescador sábio que lança sua rede ao mar e a retira cheia de peixinhos. O pescador sábio encontra entre eles um peixe grande e excelente. Joga todos os peixinhos de volta ao mar e escolhe o peixe grande sem dificuldade. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça."

(9) Jesus disse: "Eis que o semeador saiu, encheu sua mão e semeou. Algumas sementes caíram na estrada; os pássaros vieram e as recolheram. Algumas caíram sobre rochas, não criaram raízes no solo e não produziram espigas. Outras caíram em meio a um espinheiro, que sufocou as sementes e os vermes as comeram. E outras caíram em solo fértil e produziram bons frutos; renderam sessenta por uma e cento e vinte por uma."

(10) Jesus disse: "Eu lancei fogo sobre o mundo, e eis que estou cuidando dele até que queime."

(11) Jesus disse: "Este céu passará, e aquele acima dele passará. Os mortos não estão vivos e os vivos não morrerão. Nos dias em que consumistes o que estava morto, vós o tornastes vivo. Quando estiverdes morando na luz, o que fareis? No dia em que éreis um vos tornastes dois. Mas quando vos tornardes dois, o que fareis?"

(12) Os discípulos disseram a Jesus: "Sabemos que tu nos deixarás. Quem será nosso líder?" Jesus disse-lhes: "Não importa onde estiverdes, devereis dirigir-vos a Tiago, o justo, para quem o céu e a terra foram feitos."

(13) Jesus disse a seus discípulos: "Comparai-me com alguém e dizei-me com quem me assemelho." Simão Pedro disse-lhe: "Tu és semelhante a um anjo justo." Mateus lhe disse: "Tu te assemelhas a um filósofo sábio." Tomé lhe disse: "Mestre, minha boca é inteiramente incapaz de dizer com quem te assemelhas." Jesus disse: "Não sou teu Mestre. Porque bebeste na fonte borbulhante que fiz brotar, tornaste-te ébrio. E, pegando-o, retirou-se e disse-lhe três coisas. Quando Tomé retornou a seus companheiros, eles lhe perguntaram: "O que te disse Jesus?" Tomé respondeu: "Se eu vos disser uma só das coisas que ele me disse, apanhareis pedras e as atirareis em mim, e um fogo brotará das pedras e vos queimará."

(14) Jesus disse-lhes: "Se jejuardes, gerareis pecado para vós; se orardes, sereis condenados; se derdes esmolas, fareis mal a vossos espíritos. Quando entrardes em qualquer país e caminhardes por qualquer lugar, se fordes recebidos, comei o que vos for oferecido e curai os enfermos entre eles. Pois o que entrar em vossa boca não vos maculará, mas o que sair de vossa boca – é isso que vos maculará."

(15) Jesus disse: "Quando virdes aquele que não foi nascido de uma mulher, prostrai-vos com a face no chão e adorai-o: é ele o vosso Pai."

(16) Jesus disse: "Talvez os homens pensem que vim lançar a paz sobre o mundo. Não sabem que é a discórdia que vim espalhar sobre a Terra: fogo, espada e disputa. Com efeito, havendo cinco numa casa, três estarão contra dois e dois contra três: o pai contra o filho e o filho contra o pai. E eles permanecerão solitários."

(17) Jesus disse: "Eu vos darei o que os olhos não viram, o que os ouvidos não ouviram, o que as mão não tocaram e o que nunca ocorreu à mente do homem."

(18) Os discípulos disseram a Jesus: "Dize-nos como será o nosso fim." Jesus disse: "Haveis, então, discernido o princípio, para que estejais procurando o fim? Pois onde estiver o princípio ali estará o fim. Feliz daquele que tomar seu lugar no princípio: ele conhecerá o fim e não provará a morte."

(19) Jesus disse: "Feliz o que já era antes de surgir. Se vos tornardes meus discípulos e ouvirdes minhas palavras, estas pedras estarão a vosso serviço. Com efeito, há cinco árvores para vós no Paraíso que permanecem inalteradas inverno e verão, e cujas folhas não caem. Aquele que as conhecer não provará a morte."

(20) Os discípulos disseram a Jesus: "Dize-nos a que se assemelha o reino do céu." Ele lhes disse: "Ele se assemelha a uma semente de mostarda, a menor de todas as sementes. Mas, quando cai em terra cultivada, produz uma grande planta e torna-se um refúgio para as aves do céu."

(21) Maria disse a Jesus: "A quem se assemelham teus discípulos?" Ele disse: "Eles se parecem com crianças que se instalaram num campo que não lhes pertence. Quando os donos do campo vierem, dirão: ‘Entregai nosso campo.’ Elas se despirão diante deles para que eles possam receber o campo de volta e para entregá-lo a eles. Por isso digo: se o dono da casa souber que virá um ladrão, velará antes que ele chegue e não deixará que ele penetre na casa de seu domínio para levar seus bens. Vós, portanto, permanecei atentos contra o mundo. Armai-vos com todo poder para que os ladrões não consigam encontrar um caminho para chegar a vós, pois a dificuldade que temeis certamente ocorrerá. Que possa haver entre vós um homem prudente. Quando a safra estiver madura, ele virá rapidamente com sua foice em mãos para colhe-la. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça."

(22) Jesus viu crianças sendo amamentadas. Ele disse a seus discípulos: "Esses pequeninos que mamam são como aqueles que entram no Reino." Eles lhe disseram: Nós também, como crianças, entraremos no Reino?" Jesus lhes disse: "Quando fizerdes do dois um e quando fizerdes o interior como o exterior, o exterior como o interior, o acima como o embaixo e quando fizerdes do macho e da fêmea uma só coisa, de forma que o macho não seja mais macho nem a fêmea seja mais fêmea, e quando formardes olhos em lugar de um olho, uma mão em lugar de uma mão, um pé em lugar de um pé e uma imagem em lugar de uma imagem, então, entrareis (no Reino).

(23) Jesus disse: Escolherei dentre vós, um entre mil e dois entre dez mil, e eles permanecerão como um só."

(24) Seus discípulos disseram-lhe: "Mostra-nos o lugar onde estás, pois precisamos procurá-lo." Ele disse-lhes: "Aquele que tem ouvidos, ouça! Há luz no interior do homem de luz e ele ilumina o mundo inteiro. Se ele não brilha, ele é escuridão."

(25) Jesus disse: "Ama teu irmão como à tua alma, protege-o como a pupila de teus olhos."

(26) Jesus disse: "Tu vês o cisco no olho de teu irmão, mas não vês a trave em teu próprio olho. Quando retirares a trave de teu olho, então verás claramente e poderás retirar o cisco do olho de teu irmão."

(27) (Jesus disse:) "Se não jejuardes com relação ao mundo, não encontrareis o Reino. Se não observardes o sábado como um sábado, não vereis o Pai."

(28) Jesus disse: "Assumi meu lugar no mundo e revelei-me a eles na carne. Encontrei todos embriagados. Não encontrei nenhum sedento, e minha alma ficou aflita pelos filhos dos homens, porque estão cegos em seus corações e não têm visão. Pois vazios vieram ao mundo e vazios procuram deixar o mundo. Mas no momento eles estão embriagados. Quando superarem a embriaguez, então mudarão sua maneira de pensar."

(29) Jesus disse: "Seria uma maravilha se a carne tivesse surgido por causa do espírito. Mas seria a maior das maravilhas se o espírito tivesse surgido por causa do corpo. Estou realmente surpreso pela forma como essa grande riqueza fez morada nessa pobreza."

(30) Jesus disse: "Onde há três deuses, eles são deuses. Onde há dois ou um, estou com ele."

(31) Jesus disse: "Nenhum profeta é aceito em sua cidade; nenhum médico cura aqueles que o conhecem."

(32) Jesus disse: "Uma cidade construída e fortificada sobre uma montanha elevada não pode cair nem pode ser escondida."

(33) Jesus disse: "Proclamai sobre os telhados aquilo que ouvirdes com vosso próprio ouvido. Pois ninguém acende uma lâmpada e coloca-a debaixo de um cesto, tampouco coloca-a num lugar escondido, mas num candelabro, para que todos que venham a entrar e sair vejam sua luz."

(34) Jesus disse: "Se um cego guia outro cego, ambos cairão numa vala."

(35) Jesus disse: "Não é possível que alguém entre na casa de um homem forte e tome-a à força, a menos que lhe ate as mãos; então será capaz de saquear sua casa."

(36) Jesus disse: "Não vos preocupeis de manhã até a noite e de noite até a manhã com o que vestireis."

(37) Seus discípulos disseram: "Quando tu te revelarás a nós e quando te veremos?" Jesus disse: "Quando vos despirdes sem vos envergonhardes e tomardes vossas vestes e, colocando-as sobre vossos pés, pisardes sobre elas como criancinhas, então (vereis) o filho daquele que vive e não tereis medo."

(38) Jesus disse: "Muitas vezes haveis desejado ouvir essas palavras que vos digo, e não tendes outro de quem ouvi-las. Pois virão dias em que me procurareis e não me encontrareis."

(39) Jesus disse: "Os fariseus e os escribas tomaram as chaves da gnosis. Eles não entraram nem deixaram entrar aqueles que queriam entrar. Vós, no entanto, sede sábios como as serpentes e mansos como as pombas."

(40) Jesus disse: "Uma parreira foi plantada fora do Pai, porém, não sendo saudável, ela será arrancada pela raiz e destruída."

(41) Jesus disse: "Quem tiver algo em sua mão receberá mais, e quem não tiver nada perderá até mesmo o pouco que tem."

(42) Jesus disse: "Tornai-vos passantes."

(43) Seus discípulos disseram-lhe: "Quem és tu para dizer-nos tais coisas?" [Jesus disse-lhes:] "Não percebeis quem sou eu pelo que vos digo, mas vos tornastes como os judeus! Com efeito, eles amam a árvore e odeiam seus frutos ou amam os frutos, mas odeiam a árvore."

(44) Jesus disse: "Quem blasfemar contra o Pai será perdoado e quem blasfemar contra o Filho será perdoado, mas quem blasfemar contra o Espírito Santo não será perdoado nem na terra nem no céu."

(45) Jesus disse: "Não se colhe uvas dos espinheiros nem figos dos cardos, pois eles não dão frutos. O homem bom retira o bem do seu tesouro; o malvado retira o mal de seu tesouro malévolo, que está em seu coração, e diz maldade. Pois da abundância do coração ele retira coisas más."

(46) Jesus disse: "Dentre os que nasceram da mulher, desde Adão até João, o Batista, não há ninguém superior a João, para que não abaixe os olhos [diante dele]. Mas eu digo, aquele dentre vós que se tornar uma criança conhecerá o Reino e se tornará superior a João."

(47) Jesus disse: "É impossível para um homem montar dois cavalos ou retesar dois arcos. E é impossível que um servo sirva a dois senhores, pois ele honra um e ofende o outro. Ninguém bebe vinho velho e logo em seguida deseja beber vinho novo. E não se coloca vinho novo em odres velhos, para que não arrebentem; nem se coloca vinho velho em odres novos, para que não o estraguem. E não se cose pano velho em veste nova, porque ela está arriscada a rasgar."

(48) Jesus disse: "Se os dois fizerem as pazes nesta casa, eles dirão a montanha: ‘Move-te!’ e ela se moverá."

(49) Jesus disse: "Bem aventurados os solitários e os eleitos, pois encontrareis o Reino. Pois, viestes dele e para ele retornareis."

(50) Jesus disse: "Se vos perguntarem: ‘De onde vindes?’ respondei: ‘Viemos da luz, do lugar onde a luz nasceu dela mesma, estabeleceu-se e tornou-se manifesta por meio de suas imagens’. Se vos perguntarem: ‘Vós sois isto?’ digam: ‘Nós somos seus filhos e somos os eleitos do Pai vivo’. Se vos perguntarem: ‘Qual é o sinal de vosso Pai em vós?’, digam a eles: ‘É movimento e repouso’."

(51) Seus discípulos disseram-lhe: "Quando ocorrerá o repouso dos mortos e quando virá o novo mundo?" Ele disse-lhes: "Aquilo que esperais já chegou, mas não o reconheceis."

(52) Seus discípulos disseram-lhe: "Vinte e quatro profetas falaram em Israel e todos falaram de ti." Ele disse-lhes: "Omitistes aquele que vive em vossa presença e falastes dos mortos."

(53) Seus discípulos disseram-lhe: "A circuncisão é benéfica ou não?" Ele disse-lhes: "Se ela fosse benéfica, os pais gerariam filhos já circuncisos de sua mãe. Mas a verdadeira circuncisão, a espiritual, tornou-se inteiramente proveitosa."

(54) Jesus disse: "Bem-aventurados os pobres, pois vosso é o Reino do céu."

(55) Jesus disse: "Aquele que não odiar seu pai e sua mãe não poderá se tornar meu discípulo. E quem não odiar seus irmãos e irmãs e tomar sua cruz, como eu, não será digno de mim."

(56) Jesus disse: "Aquele que conseguiu compreender o mundo encontrou (somente) um cadáver, e quem encontrou um cadáver é superior ao mundo."

(57) Jesus disse: "O Reino do Pai é semelhante ao homem que tem [boa] semente. Seu inimigo veio durante a noite e semeou joio por cima da boa semente. O homem não deixou que arrancassem o joio, dizendo: ‘temo que acabeis arrancando o joio e também o trigo junto com ele. No dia da colheita as ervas daninhas estarão bem visíveis e serão, então, arrancadas e queimadas."

(58) Jesus disse: "Bem-aventurado o homem que sofreu e encontrou a vida."

(59) Jesus disse: "Prestai atenção àquele que vive enquanto estais vivos, para que, ao morrerdes, não fiqueis procurando vê-lo sem conseguir."

(60) [Eles viram] um samaritano carregando um cordeiro a caminho da Judéia. Ele disse a seus discípulos: "Por que o homem está carregando o cordeiro?" Eles disseram-lhe: "Para matá-lo e comê-lo." Ele disse-lhes: "Enquanto o cordeiro estiver vivo, ele não o comerá, mas somente depois que o tiver matado e que o cordeiro se tornar um cadáver." Eles disseram-lhe: "Ele não poderia fazer de outro modo." Ele disse-lhes: "Vós, também, buscai um lugar para vós no repouso, a fim de que não vos torneis um cadáver e sejais devorados."

(61) Jesus disse: "Dois repousarão sobre um leito: um morrerá, o outro viverá." Salomé disse: "Quem és tu homem, que ... te acomodaste em meu divã e comeste à minha mesa?" Jesus disse-lhe: "Eu sou aquele que existe a partir do indivisível. Recebi algumas das coisas de meu pai." [ ... ] "Eu sou seu discípulo." [ ... ] "Por isso digo que, se for destruído, ele estará pleno de luz, mas, se ele estiver dividido, estará pleno de trevas."

(62) Jesus disse: "Eu digo meus mistérios aos [que são dignos de meus] mistérios. Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita."

(63) Jesus disse: "Havia um rico que tinha muito dinheiro. Ele disse: ‘Empregarei meu dinheiro para semear, colher, plantar e encher meu celeiro com o fruto da colheita, para que não me venha a faltar nada’. Essas eram suas intenções, mas naquela mesma noite ele morreu. Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça."

(64) Jesus disse: "Um homem tinha convidados. E quando a ceia estava pronta, mandou seu servo chamar os convidados. O servo foi ao primeiro e disse-lhe: ‘Meu mestre te convida’. O outro respondeu: ‘Tenho dinheiro aplicado com alguns comerciantes. Eles virão me procurar esta noite para que eu lhes dê minhas instruções. Apresento minhas desculpas por não ir à ceia. O servo foi até outro e disse: ‘Meu senhor está te convidando’. Este disse-lhe: ‘Acabo de comprar uma casa e precisam de mim hoje. Não terei tempo’. O servo foi a outro e disse-lhe: ‘Meu senhor está te convidando’. Este disse-lhe: ‘Um amigo vai se casar e coube-me preparar o banquete. Não poderei ir à ceia, peço ser desculpado. O servo foi a outro ainda e disse-lhe: ‘Meu senhor está te convidando’. Este disse-lhe: ‘Acabo de comprar uma fazenda e estou saindo para buscar o rendimento. Não poderei ir, por isso me desculpo’. O servo retornou e disse a seu senhor: ‘Os que convidaste para a ceia mandam pedir desculpas’. O senhor disse ao servo: ‘Vai lá fora pelos caminhos e traze os que encontrares para que possam ceiar. Os homens de negócios e mercadores não entrarão no recinto de meu Pai’."

(65) Ele disse: "Um homem de bem tinha uma vinha. Ele a alugou a camponeses para que cuidassem dela e pagassem-lhe com uma parte da produção. Ele enviou seu servo para que os arrendatários entregassem-lhe o fruto da vinha. Eles pegaram seu servo e o espancaram, deixando-o à beira da morte. O servo voltou e contou a seu senhor o ocorrido. O senhor disse: ‘Talvez não o tenham reconhecido’. Ele enviou outro servo. Os camponeses também o espancaram. Então o proprietário enviou seu filho e disse: ‘Talvez eles tenham respeito por meu filho’. Como os camponeses sabiam que aquele era o herdeiro da vinha, pegaram-no e mataram-no. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça."

(66) Jesus disse: "Mostrai-me a pedra que os construtores rejeitaram; ela é a pedra angular."

(67) Jesus disse: "Se alguém que conhece o todo ainda sente uma deficiência pessoal, ele é completamente deficiente."

(68) Jesus disse: "Bem-aventurados os que são odiados e perseguidos. Mas os que vos perseguirem não encontrarão lugar."

(69) Jesus disse: "Bem-aventurados aqueles que foram perseguidos em seu interior. São eles que realmente conheceram o pai. Bem-aventurados os famintos, porque se encherá o ventre de quem tem desejo."

(70) Jesus disse: "Aquilo que tendes vos salvará se o manifestardes. Aquilo que não tendes em vosso interior vos matará se não o tiverdes dentro de vós."

(71) Jesus disse: "Destruirei esta casa e ninguém será capaz de reconstruí-la [...]"

(72) [Um homem disse-lhe]: "Dize a meus irmãos para que partilhem os bens de meu pai comigo." Ele lhe disse: "Ó, homem, quem me institui partilhador?" Voltando-se para seus discípulos, disse-lhes: "Eu não sou um partilhador, sou?"

(73) Jesus disse: "A colheita é grande mas os operários são poucos. Portanto, implorai ao senhor para que envie operários para a colheita."

(74) Ele disse: "Ó senhor, há muitas pessoas ao redor do bebedouro, mas não há nada na cisterna."

(75) Jesus disse: "Muitos estão aguardando à porta, mas são os solitários que entrarão na câmara nupcial."

(76) O Reino do pai é semelhante ao comerciante que tinha uma consignação de mercadorias e nelas descobriu uma pérola. Esse comerciante era astuto. Ele vendeu as mercadorias e adquiriu a pérola maravilhosa para si. Vós também deveis buscar esse tesouro indestrutível e duradouro, que nenhuma traça pode devorar nem o verme destruir."

(77) Jesus disse: "Eu sou a luz que está sobre todos eles. Eu sou o todo. De mim surgiu o todo e de mim o todo se estendeu. Rachai um pedaço de madeira, e eu estou lá. Levantai a pedra e me encontrareis lá."

(78) Jesus disse: "Por que viestes ao deserto? Para ver um caniço agitado pelo vento? E para ver um homem vestido com roupas finas como vosso rei e vossos homens importantes? Esses usam roupas finas, mas são incapazes de discernir a verdade."

(79) Uma mulher na multidão disse-lhe: "Bem-aventurado o ventre que te portou e os seios que te nutriram." Ele disse-lhe: "Bem-aventurados os que ouviram a palavra do Pai e que realmente a guardaram. Pois virão dias em que direis: "Bem-aventurado o ventre que não concebeu, e os seios que não amamentaram."

(80) Jesus disse: "Aquele que reconheceu o mundo encontrou o corpo, mas aquele que encontrou o corpo é superior ao mundo."

(81) Quem enriqueceu, torne-se rei, mas quem tem poder que possa renunciar a ele."

(82) Jesus disse: "Aquele que está perto de mim está perto do fogo, e aquele que está longe de mim está longe do Reino."

(83) Jesus disse: "As imagens manifestam-se ao homem, mas a luz que está nelas permanece oculta na imagem da luz do Pai. Ele tornar-se-á manifesto, mas sua imagem permanecerá velada por sua luz."

(84) Jesus disse: "Quando vedes vossa semelhança, vós vos rejubilais. Mas, quando virdes vossas imagens que surgiram antes de vós, e que não morrem nem se manifestam, quanto tereis de suportar!"

(85) Jesus disse: "Adão surgiu de um grande poder e de uma grande riqueza, mas ele não se tornou digno de vós. Pois, se tivesse sido digno, não teria experimentado a morte."

(86) Jesus disse: "[As raposas têm suas tocas] e as aves têm seus ninhos, mas o filho do homem não tem nenhum lugar para pousar sua cabeça e descansar."

(87) Jesus disse: "Miserável do corpo que depende de um corpo e da alma que depende desses dois."

(88) Jesus disse: "Os anjos e os profetas virão a vós e darão aquelas coisas que já tendes. E dai vós também a eles as coisas que tendes e dizei a vós mesmos: ‘Quando virão tomar o que é deles?’"

(89) Jesus disse: "Por que lavais o exterior da taça? Não compreendeis que aquele que fez o interior é o mesmo que fez o exterior?"

(90) Jesus disse: "Vinde a mim, pois meu jugo é fácil e meu domínio é suave, e encontrareis repouso para vós."

(91) Eles disseram-lhe: "Dize-nos quem tu és, para que possamos crer em ti." Ele disse-lhes: "Vós decifrastes a face to céu e da terra, mas não reconhecestes aquele que está diante de vós e não soubestes perceber este momento."

(92) Jesus disse: "Buscai e encontrareis. No entanto, aquilo que me perguntastes anteriormente e que não vos respondi então, agora desejo vos dizer mas vós não me perguntais sobre aquilo."

(93) [Jesus disse]: "Não deis aos cães o que é sagrado, para que eles não o joguem no lixo. Não atireis pérolas aos porcos, para que eles ..."

(94) Jesus [disse]: "Quem busca, encontrará, e [quem bate] terá permissão para entrar."

(95) [Jesus disse]: "Se tendes dinheiro, não o empresteis a juro, mas dai-o àquele de quem não o recebereis de volta."

(96) Jesus disse: "O Reino do Pai é como [uma certa] mulher. Ela tomou um pouco de fermento, [escondeu-o] na massa, e fez com ela grandes pães. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!"

(97) Jesus disse: "O Reino do Pai é como uma certa mulher que estava carregando um cântaro cheio de farinha. Enquanto estava caminhando pela estrada, ainda distante de casa, a alça do cântaro partiu-se e a farinha foi caindo pelo caminho atrás dela. Ela não se deu conta, pois não tinha percebido o acidente. Quando chegou em casa, colocou o cântaro no chão e percebeu que ele estava vazio."

(98) Jesus disse: "O Reino do Pai é como um certo homem que queria matar um homem poderoso. Em sua própria casa ele desembainhou a espada e enfiou-a na parede para saber se sua mão poderia realizar a tarefa. Então ele matou o homem poderoso."

(99) Os discípulos disseram-lhe: "Teus irmãos e tua mãe estão aguardando lá fora." Ele disse-lhes: "Estes que estão aqui que fazem a vontade de meu Pai são meus irmãos e minha mãe. São eles que entrarão no Reino de meu Pai."

(100) Eles mostraram uma moeda de ouro a Jesus e disseram-lhe: "Os homens de César exigem-nos tributos." Ele disse-lhes: "Dai a César o que é de César, dai a Deus o que é de Deus, e dai a mim o que é meu."

(101) [Jesus disse]: "Quem não odeia seu [pai] e sua mãe como eu não pode se tornar meu [discípulo]. E quem não ama seu [pai e] sua mãe como eu não pode se tornar meu [discípulo]. Porque minha mãe [ ... ], mas [minha] verdadeira [mãe] deu-me a vida."

(102) Jesus disse: "Ai dos fariseus, porque eles são como um cachorro dormindo na manjedoura dos bois, pois eles não comem nem permitem que os bois comam."

(103) Jesus disse: "Feliz do homem que sabe por onde os ladrões vão entrar, porque dessa forma [ele] pode se levantar, passar em revista seu domínio e armar-se antes deles invadirem."

(104) Eles disseram a Jesus: "Vem, oremos e jejuemos hoje." Jesus disse: "Qual foi o pecado que cometi ou em que fui vencido? Porém, quando o noivo deixar a câmara nupcial, então que eles jejuem e orem."

(105) Jesus disse: "Quem conhece o pai e a mãe será chamado filho de prostituta."

(106) Jesus disse: "Quando fizerdes de dois, um, vos tornareis filhos do homem, e quando disserdes: ‘Montanha, move-te!’, ela se moverá."

(107) Jesus disse: "O Reino é como um pastor que tinha cem ovelhas. Uma delas, a maior de todas, extraviou-se. Ele deixou as noventa e nove e foi procurá-la, até encontrá-la. Depois de ter passado por todo esse incômodo, ele disse à ovelha: ‘Eu me interesso por ti mais do que pelas noventa e nove’."

(108) Jesus disse: "Quem beber de minha boca tornar-se-á como eu. Eu mesmo me tornarei ele, e as coisas que estão ocultas ser-lhe-ão reveladas."

(109) Jesus disse: "O Reino é como o homem que tinha um tesouro [escondido] em seu campo sem saber. Após sua morte, deixou o campo para seu [filho]. O filho não sabia [a respeito do tesouro]. Ele herdou o campo e o vendeu. O comprador ao arar o campo encontrou o tesouro. Começou então a emprestar dinheiro a juros a quem queria."

(110) Jesus disse: "Quem encontrou o mundo e tornou-se rico, que renuncie ao mundo."

(111) Jesus disse: "Os céus e a terra se dobrarão diante de vós. E aquele que vive do Vivo não conhecerá a morte. Jesus não disse: ‘Quem se encontra é superior ao mundo?’"

(112) Jesus disse: "Ai da carne que depende da alma; ai da alma que depende da carne."

(113) Seus discípulos disseram-lhe: "Quando virá o Reino?" [Jesus disse]: "Ele não virá porque é esperado. Não é uma questão de dizer: ‘eis que ele está aqui’ ou ‘eis que está ali’. Na verdade, o Reino do Pai está espalhado pela terra e os homens não o vêem."

(114) Simão Pedro disse-lhes: "Que Maria saia de nosso meio, pois as mulheres não são dignas da vida." Jesus disse: "Eu mesmo vou guiá-la para torná-la macho, para que ela também possa tornar-se um espírito vivo semelhante a vós machos. Porque toda mulher que se tornar macho entrará no Reino do Céu."

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publicado às 13:43

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Filosofia, Ética e Sociedade

Até hoje existem três “ismos” importantes que integram a maior parte dos sistemas de crenças da maioria dos seres humanos: o dualismo, o monismo material e o monismo idealista.

O mais popular, dualismo, é também o mais antigo. O dualismo é empiricamente “óbvio” em nossa própria experiência, pois tem uma dicotomia interna/externa. Sem dúvida, esta é a razão para sua popularidade. No pensamento religioso, o dualismo existe como um dualismo Deus-mundo: Deus separado do mundo, porém exercendo influências (causação descendente) sobre ele. Esse dualismo dominou a humanidade por milênios, especialmente no Ocidente. No entanto, no século XVI, Descartes formulou uma versão “moderna” do dualismo mente-corpo, sendo a mente o território de Deus, no qual temos livre-arbítrio, e o corpo (ou mundo físico) o território da ciência determinista. Este dualismo cartesiano – uma trégua entre a ciência e a religião – foi bastante influente no pensamento filosófico acadêmico do Ocidente. Ele também definiu a recente era da filosofia ocidental: a modernidade.

Antes desse período, a sociedade ocidental esteve sob o silêncio da idade das trevas, quando a religião (na forma do cristianismo) dominou a sociedade sem qualquer percalço. A modernidade livrou os cientistas das garras da religião. Então, eles saíram para descobrir o significado do mundo material – as leis da natureza – com o objetivo de obter o poder e o controle sobre elas. E o fizeram com tamanha disposição, com tecnologias de virtuosismo inquestionável, que seu espírito invadiu por completo a sociedade ocidental. Em pouco tempo, a hierarquia religiosa e o feudalismo deram lugar à democracia e ao capitalismo, os eventos que coroaram a sociedade moderna.

Pouco depois, em virtude do sucesso da ciência, as pessoas começaram a questionar a necessidade da trégua entre a ciência e a religião. Na verdade, o dualismo não resiste muito a questões óbvias como, por exemplo: de que modo interagem dois corpos, feitos de duas substâncias completamente diferentes? Como Deus, de substância divina, interage com o mundo material? Como uma mente não material interage com o corpo material?

Essa interação é impossível, se dermos espaço apenas para interações locais mediadas por sinais portadores de energia que viajam pelo espaço e pelo tempo, de um corpo para outro. Uma interação entre o material e o não material seria uma violação da sacrossanta lei de conservação de energia da física. Além disso, há uma pergunta incômoda sobre os meios pelos quais essa interação poderia ocorrer, qual seja: do que é feito o sinal do mediador? Parece que precisamos de um mediador feito das duas substâncias, mas não existe nenhum!

Assim, surgiu o monismo material como alternativa ao dualismo. No monismo material, as dificuldades do dualismo são contornadas simplesmente afirmando-se que não são duas substâncias, e sim apenas uma matéria. A consciência, Deus, nossas mentes e todas as nossas experiências internas são o resultado das interações cerebrais. Estas, em última análise, chegam até as interações das partículas elementares (causação ascendente).

Esta filosofia ganhou muita credibilidade recentemente, não apenas por sua simplicidade, como também porque conglomerados de partículas elementares, como os núcleos atômicos, foram confirmados algumas vezes de maneira espetacular (detonações nucleares).

Mas o sucesso do monismo material também amorteceu o espírito modernista do Ocidente e estabeleceu-se um mal-estar pós-moderno. Afinal, se o materialismo for verdadeiro, não podemos conquistar e controlar a natureza como pensávamos que poderíamos na época do modernismo. Na verdade, nós, humanos, como o resto da natureza, somos máquinas determinadas. Não temos livre-arbítrio, a liberdade de buscar o significado quando achamos necessário. Não há significado no universo-máquina. Nessas circunstâncias, o melhor que podemos fazer é acatar a filosofia do existencialismo: nossas vidas não têm significado – cada um de nós, como indivíduos, cria o significado (essência) em sua vida. Afinal, de algum modo nós existimos. Como não podemos negar nossa existência, podemos jogar o jogo da maneira que parece ser esperado de nós. Fingimos que existe um significado, fingimos que existe o amor em um universo que, no mais, é destituído de sentido e de amor.

Esta saída pessimista e existencialista ao niilismo – com efeito, o filósofo Friedrich Nietzsche colocou de maneira perfeita a mensagem, “Deus está morto” – não durou muito. Alguns cientistas reagiram com o holismo, uma nova ideia originada por um político da África do Sul, Jan Smuts, em seu livro Holismo e evolução, de 1926. Originalmente, foi definida como “a tendência da natureza em formar um todo que é maior do que a soma das partes por meio da evolução criativa”. Muitos cientistas se recusavam a abrir completamente mão de Deus e da religião; e, no holismo, viram uma oportunidade para resgatar Deus, de alguma forma.

De determinado modo, em um pensamento primitivo e animista, Deus existe como um Deus imanente, um Deus da natureza. A ideia é que a própria natureza é animada por Deus. Não é preciso procurar Deus fora deste mundo: Deus está aqui. Usando a linguagem holística, isso pode ser transformado em uma filosofia atraente. O todo não pode ser reduzido às suas partes. Partículas elementares formam átomos; mas átomos são um todo, e, assim, não podem ser reduzidos completamente às partes, as partículas elementares. Algo similar acontece quando os átomos formam moléculas; algo novo emerge no todo que não pode ser reduzido ao nível atômico de existência. Quando as moléculas constituem a célula viva, o novo princípio holístico que emerge pode ser identificado como a vida (Maturana & Varella, 1992; Capra, 1996). Quando as células chamadas neurônios formam o cérebro, o novo princípio holístico emergente pode ser identificado como mente. E a totalidade de toda vida e de toda mente, a totalidade da própria natureza, pode ser entendida como Deus. Algumas pessoas a vêem como Gaia, a mãe-terra, conceito idealizado pelo químico James Lovelock (1982) e pela bióloga Lynn Margulis (1993).

Ao mesmo tempo, esse pensamento holístico deu origem ao movimento ecológico – a atenção à preservação da natureza e à filosofia da ecologia profunda (Devall & Sessions, 1985), a transformação espiritual por meio do amor e da apreciação da própria natureza.

No entanto, os cientistas materialistas fazem uma afirmativa válida: a de que a matéria é fundamentalmente reducionista como milhares de experimentos mostram, e que, por isso, o holismo é uma fantasia filosófica.

Contudo, há, desde a antiguidade, mais uma alternativa ao dualismo além do monismo materialista: o monismo idealista. É interessante observar que no pensamento grego (a maior influência sobre a civilização ocidental), o idealismo monista (apresentado por filósofos como Parmênides, Sócrates e Platão) e o monismo material (formulado por Demócrito) possuem quase a mesma idade. O dualismo encontra problemas porque não pode responder à pergunta sobre sinais de mediação, necessários para que os corpos duplos interajam entre si. Suponha que não exista sinal, suponha que a interação é não local. E agora? A imaginação humana e a intuição chegaram a elevadas alturas desde cedo, e formularam o idealismo não dualista ou monista (também chamado filosofia perene). Deus interage com o mundo porque Deus não está dissociado do mundo. Deus é, ao mesmo tempo, transcendente e imanente no mundo.

Para o dualismo mente-corpo, podemos pensar idealmente desta maneira. Nossa experiência interior, a morada da mente, consiste de um sujeito (o experimentador) e objetos mentais internos, como os pensamentos. O sujeito não apenas experimenta os objetos internos, como também os objetos externos do mundo material. Suponha que afirmamos que existe apenas uma entidade e que a chamamos consciência, que, por sua vez, se divide de alguma maneira misteriosa no sujeito e nos objetos de nossa experiência. A consciência transcende tanto objetos materiais como mentais e também é imanente a eles. Deste modo, as linguagens religiosa e filosófica tornam-se idênticas, exceto por pequenos detalhes linguísticos.

Esta filosofia do idealismo monista nunca foi popular porque é difícil compreender a transcendência sem entender o conceito de não localidade, um conceito quântico. Ainda mais obscuras são as sutilezas da filosofia, como na frase “tudo está em Deus, mas Deus não está em todas as coisas”. O sentido da frase é que Deus nunca pode ser completamente imanente, que sempre há um aspecto transcendente de Deus, ou seja: o infinito nunca pode ser plenamente representado pela finitude! Mas tente explicar isso para uma pessoa mediana!

Entretanto, o idealismo monista foi muito influente no Oriente, em especial na Índia, Tibete, China e Japão, na forma de religiões como o hinduísmo, o budismo e o taoísmo. Estas religiões, não sendo hierarquias organizadas, sempre responderam às mensagens dos místicos que, de tempos em tempos, reafirmaram a validade da filosofia com base em sua própria experiência transcendente.

Os místicos também existiram no Ocidente. Jesus foi um grande místico. Além dele, o cristianismo ocidental teve outros grandes místicos que propuseram o idealismo monista, como, por exemplo, Mestre Eckhart, São Francisco de Assis, Santa Teresa de Ávila, Santa Catarina de Gênova etc. Entretanto, a natureza organizada do cristianismo abafou as vozes dos místicos (e, de modo irônico, inclusive a voz de Jesus) e o dualismo predominou no pensamento oficial do reino cristão.

Como você identifica um místico? Místicos são essas pessoas que deram um salto quântico desde seu ego-mente para descobrir diretamente que existem a percepção e a beatitude além do ego, valores muito maiores em potencial do que costumamos experimentar. Contudo, a chegada mística a uma realidade “mais real” não produz nenhuma transformação comportamental imediata (principalmente no domínio das emoções básicas). Portanto, em termos comportamentais, a maioria dos místicos não costuma impressionar mais do que as pessoas comuns. Precisamos aceitar a palavra dos místicos por suas “verdades” e, através dos tempos, cientistas e líderes sociais têm relutado em fazê-lo!

Além disso, há um sério obstáculo às formulações filosóficas tradicionais do idealismo monista. Tudo é Deus ou consciência, e sendo assim, quão real é a matéria, qual sua importância? Neste ponto, a maioria dos filósofos idealistas assume a postura de que o mundo material é irrelevante, ilusório, apenas algo a ser tolerado e transcendido. É verdade que alguns filósofos idealistas enfatizaram a importância do material, alegando que apenas na forma material é possível esgotar o karma, o que a alma deve fazer para se libertar da necessidade de reencarnar sempre na forma física no mundo material. De modo geral, porém, sempre houve uma assimetria na visão dos idealistas no que concerne à consciência e à matéria. A consciência é a realidade de verdade, e a matéria é um epifenômeno, quase trivial. Isso é parecido com o inverso da crença materialista, que diz que consciência, mente e todas as coisas internas de nossa experiência são banais, sem eficácia causal (uma relação entre uma ou mais propriedades de uma coisa e um efeito dessa coisa). Mas, para um estudo completo, integral da consciência, devemos ultrapassar essas atitudes.

Domínios externo e interno da consciência, objetividades forte e fraca

Obviamente, os estudos materialistas da consciência, da neurofisiologia, da ciência cognitiva etc., estão limitados pelo sistema de crenças dos pesquisadores, mas ninguém pode duvidar de que os dados que eles reuniram são úteis. E as teorias materialistas, embora incompletas, também são úteis. De modo similar, os dados e teorias, reunidos por místicos e pesquisadores da meditação por meio da introspecção do interior, que levaram a muitos relatos de estados superiores de consciência (além dos estados comuns), também devem ser considerados significativos e úteis.

Perceba que aquilo que a ciência materialista estuda é o aspecto da consciência na terceira pessoa (efeitos comportamentais), para o qual é fácil se chegar a um consenso. Os dados satisfazem o critério severo da objetividade forte – são bastante independentes do observador. Em contraste, os místicos e os pesquisadores da meditação estudam o aspecto da consciência na primeira pessoa (experiências sentidas). Precisamos verificar que os dados que estes pesquisadores nos apresentam têm semelhanças, e, portanto, levam a um consenso sobre os estados superiores da consciência. Mas precisamos afrouxar o critério de julgar os dados sob uma objetividade forte (independência do observador: não se aceitam dados subjetivos) e começar a utilizar uma objetividade fraca (invariabilidade em função do observador: os dados devem ser similares de um observador/sujeito para outro). Lembre-se de que, normalmente, em experiências em laboratório de psicologia cognitiva, já aceitamos a objetividade fraca como critério para dados sobre estados normais da consciência. Veja ainda que, como disse o físico Bernard D’Espagnat (1983), há muito tempo a natureza probabilística da física quântica é consistente apenas com a objetividade fraca.

A isso, podemos acrescentar mais um quadrante: a experiência intersubjetiva – dados pouco estudados sobre aspectos de relacionamentos experimentados interiormente. E, para fazer com que isso seja simétrico, podemos acrescentar um quarto quadrante, consistente em dados objetivos sobre agrupamentos de pessoas, como em uma comunidade, por exemplo. Deste modo, obtemos o modelo de quatro quadrantes (ver Figura 3.1), graças, em boa parte, ao filósofo Ken Wilber (2000).
 

Figura 3.1 Os quatro quadrantes da consciência segundo Wilber.

Entretanto, na verdade, este golpe fenomenológico pode se parecer com uma abordagem integrada, mas é apenas seu começo. Há dicotomias em cada quadrante; além disso, ainda não se chegou a nenhuma interação real de todos os quadrantes. A posição do filósofo é elitista: não podemos integrar usando a lógica ou a ciência. Para ver a integração, precisamos atingir estados superiores de consciência.

Será possível superar o preconceito do filósofo, segundo o qual a ciência somente se aplica no nível material da realidade e a razão nunca pode se estender aos níveis superiores de consciência? Creio que este preconceito tem sua origem na crença do filósofo em um dualismo oculto de consciência e matéria, realidade interior e realidade exterior. O filósofo procura evitar o problema do interacionismo (como a consciência e a matéria interagem?) afirmando que a ciência se aplica apenas ao exterior (matéria), e não ao interior (consciência), de modo que não precisamos nos incomodar com a interação de ambos.

Quando o verdadeiro significado da física quântica é compreendido, fica claro que a consciência não pode ser um mero fenômeno cerebral. Além disso, não há necessidade de tratar a mente e os outros objetos internos como epifenômenos do cérebro ou do corpo. Em vez disso, a física quântica e todas as ciências devem se basear na filosofia do idealismo monista: a consciência é a base de toda existência, na qual a matéria, a mente e outros objetos internos existem como possibilidades. Mas tampouco há motivo para destratar a matéria. Esta, em sua capacidade de representar estados mentais sutis, é tão importante quanto o sutil (não material) que reflete. Em outras palavras, o pensamento quântico nos permite tratar a mente e a matéria, as experiências internas e externas, de igual para igual, estendendo importância e eficácia causal às duas.

Deste modo, filosófica e cientificamente (com teoria e evidências), resolvemos o problema metafísico de qual “ismo” está correto e válido – o idealismo monista. Contudo, o pensamento materialista criou uma ferida na psique coletiva da humanidade que, sem atenção ou cura, vem piorando. Nossa tarefa primária consiste em ajudar a curar essa ferida, compartilhando as mensagens filosófica e científica que estão emergindo em toda a humanidade.

Como modernos, sabemos da veracidade da mente e daquilo que ela processa: significado. Este conhecimento levou a uma participação muito mais expansiva nas aventuras da exploração de significados. Quando a modernidade deu lugar à moléstia pós-moderna do materialismo sem significado, nossas instituições e seu legado progressivo de democracia, capitalismo e educação liberal ficaram abalados. Suas bases estão sendo minadas para se criar um novo tipo de hierarquia, estabelecendo novos limites à liberdade, nem um pouco melhores do que aqueles antes lançados pela Igreja e pela dominação feudal. Desta vez, porém, a restrição está na ciência materialista e no cientismo.

O idealismo monista pode levar a um novo tipo de modernismo que chamo transmodernismo, acompanhando o filósofo Willis Harman. O modernismo dualista de Descartes baseou-se no lema “Penso, logo existo”. Em outras palavras, se existe um pensamento, deve existir um pensador. Isto libertou a mente pensante para novas explorações, mas especialmente de invenções que visavam à solução de problemas. Invenções exigem criatividade, mas apenas uma versão limitada dela, que chamo criatividade situacional, idealizada para solucionar um problema dentro de um contexto conhecido de pensamentos. A criatividade situacional é importante, mas em termos práticos significa mais daquilo que já existe: é “pensar dentro da caixa”. O transmodernismo se baseia no lema “Escolho, logo existo”. Ele libera o verdadeiro potencial da mente criativa, não apenas da criatividade situacional, como também daquilo que chamo criatividade fundamental: a capacidade de mudar os próprios contextos, nos quais o pensamento se baseia, e de escolher novos contextos.

Sob o modernismo, não recebemos apenas os benefícios da democracia e do capitalismo, mas também os males do modernismo: o pensamento que situa o homem acima da natureza, a dominação do pensamento sobre o sentimento, que chamo mentalização do sentimento. Sim, criamos indústrias e tecnologias úteis, mas também criamos problemas ambientais que não sabemos resolver.

Precisamos resgatar o espírito modernista e a ênfase sobre a exploração mental, mas sem o lado sombrio de atitudes como homem-sobre-a-natureza ou razão-sobre-sentimento; sem a dependência quase total de hierarquias simples e o isolamento do ego do indivíduo solitário. A nova era do transmodernismo começa com um salto quântico em nossa atitude – do homem sobre a natureza para o homem na natureza, da razão sobre sentimento para a razão integrada ao sentimento, de hierarquias simples para hierarquias entrelaçadas, de separação egóica para ações integradas de ego e consciência quântica/Deus. Apenas assim, estaremos realmente no caminho para o surgimento de uma nova era de vida ética.

Velha e nova ciências: mudança de paradigma

Apresentei o conceito de mudança de paradigma na ciência no Capítulo 1. A antiga ciência se baseia na supremacia da matéria, o monismo material, com seu reducionismo e causação ascendente. O novo paradigma holístico não abre mão do monismo material: tudo é matéria. Mas, no entanto, abre mão da ideia do reducionismo e opta pela filosofia do holismo – o todo é maior do que as partes e não se reduz às partes. Aqui, Deus e a espiritualidade se recuperam no sentido de um Deus imanente – Deus ou uma “consciência Gaia” inseparável à Terra como um todo, com todos os seus organismos. (A teoria ou hipótese Gaia, desenvolvida por James Lovelock, representa tudo o que existe sobre a Terra, coisas vivas ou não, como um complexo sistema de interações que pode ser considerado um único organismo.) Há ainda algo como uma causação descendente, uma autonomia causal de entidades holísticas emergentes em cada nível da organização, que não podem ser reduzidas às partes. Isso é uma causalidade artificial, pois, no final, ela também é determinada por interações materiais, isto é, por uma causação ascendente.

A nova ciência, a ciência dentro da consciência, baseia-se na física quântica e no primado da consciência (idealismo monista) e inclui o antigo paradigma redutivo. Na ciência dentro da consciência, Deus é um agente real, e causalmente eficaz, intervindo por meio da causação descendente. Na ciência dentro da consciência, podemos até tratar corpos sutis sem os problemas usuais do dualismo da interação; podemos falar cientificamente da evolução da natureza divina, a que as religiões aspiram. Contudo, a antiga ciência permanece válida – em seu próprio domínio. No domínio material da experiência consciente, a consciência escolhe o evento da realidade manifestada entre as possibilidades quânticas determinadas pela causação ascendente, a partir do substrato material. E, como os efeitos quânticos são relativamente silenciados na matéria densa, o comportamento dessa matéria é aproximadamente determinista.

Na verdade, até os materialistas reducionistas abrem espaço para Deus. Em um livro chamado Why God won’t go away, Andrew Newberg e Eugene D’Aquili (2001) citaram recentes trabalhos em neurofisiologia para sugerir que Deus e experiências espirituais podem ser explicados simplesmente como fenômenos cerebrais.

De modo similar, os holistas afirmam que Deus e espiritualidade podem ser compreendidos e explorados como fenômenos holísticos emergentes da própria matéria; até o livre-arbítrio e a causação descendente podem ser entendidos como uma aparente autonomia emergente de níveis mais elevados de organização da matéria.

O paradigma explorado e endossado neste livro é muito mais radical do que qualquer uma destas duas abordagens de Deus. Eu postulo que a base da existência é a consciência e não a matéria. Eu postulo que não apenas a matéria, mas também um corpo energético vital mais sutil, um corpo mental ainda mais sutil e um corpo supramental mais sutil ainda, existem como possibilidades quânticas da consciência. Elas se desenvolvem com o tempo, a partir de interações causais em seu domínio respectivo. Também postulo que, por meio da evolução, rumamos para estados manifestados de consciência que são manifestações cada vez maiores da divindade – as qualidades de Deus, os arquétipos supramentais. O preço que pagamos pela inclusão do sutil em nossa ciência é o multiculturalismo da teoria e a objetividade fraca na seleção de dados.

Preciso enfatizar, uma vez mais, que o Deus para o qual apresento dados científicos é o mesmo Deus vislumbrado pelos místicos e fundadores de todas as grandes tradições religiosas mundiais, embora os ensinamentos das grandes religiões tenham sido diluídos nas representações populares.

No final do século XIX, Friedrich Nietzsche proclamou, por meio de um de seus personagens fictícios, que “Deus está morto”. Isso refletia a preocupação dele com a pouca eficácia do cristianismo popular e ingênuo na sustentação da ética e da moralidade, diante da visão materialista de mundo que a ciência estava rapidamente conseguindo espalhar pelo Ocidente. Em outras palavras, Nietzsche percebeu que o Deus cristão, dualista e popular, está morto. Demonstro neste livro, com o emergente paradigma da ciência baseada no primado da consciência e na física quântica, que Deus vive eternamente como agente de causação descendente, em um papel que se mostraria satisfatório tanto para cientistas quanto para religiosos.

Hoje, independentemente da imagem de Deus que mais o satisfaz, espero que você faça uma avaliação justa das evidências e teorias apresentadas aqui. Afinal, Deus tem sido uma preocupação milenar dos seres humanos, uma preocupação que, segundo suspeito, tem afetado você, ao menos um pouco. Peço-lhe apenas que suspenda seus julgamentos e descrença durante a leitura das partes 2, 3 e 4, onde apresento as evidências.

(Amit Goswami - Deus não está morto,evidências científicas da existência divina)

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Os três fundamentos das religiões

por Thynus, em 19.02.17
As religiões, nosso principal lembrete social da existência de Deus, têm estado conosco há milênios, desde o início das civilizações humanas. Primeiro, eram as religiões primitivas, que viam dois tipos de causas para os eventos – causas que as pessoas podiam controlar (se alguém esfregasse duas pedras, uma contra a outra, provocaria faíscas que ateariam fogo a folhas secas) e causas que pareciam fora do controle humano (desastres naturais, como terremotos, por exemplo). Nossos ancestrais primitivos atribuíam as causas incontroláveis à ação dos deuses: a causação descendente. O conceito inicial de muitos desses agentes de causação descendente acabou dando origem à ideia de um agente – Deus.

Com a passagem do tempo, observamos que o pensamento religioso foi ficando mais sofisticado. O conceito de Deus e da causação descendente ainda existe; mas há um conceito adicional e não menos importante – o conceito da alma individual, ou corpo sutil (expressão coletiva para força vital, mente e consciência). A alma é não física, feita de substâncias sutis, bem diferentes da substância física.

E finalmente veio a descoberta de que os humanos deviam almejar virtudes divinas: qualidades como bondade, caridade e justiça. Se não fizessem isso, estariam cometendo pecados e suas almas seriam punidas após sua morte.

Desenvolvimentos posteriores no pensamento religioso em muito refinaram a imagem de Deus e da causação descendente, a natureza de nossos corpos sutis e as ideias de virtude e pecado. No entanto, essas três ideias ainda são fundamentais para o pensamento religioso. Hoje, praticamente todas as religiões concordam sobre a causação descendente, corpos sutis não materiais e a ideia de ética e moralidade – a capacidade de distinguirmos entre virtude e pecado e de optarmos pela virtude. Estes são os três pilares da religião.

Digo isto antes de apresentar os dados científicos sobre a existência de Deus, pois os cientistas materialistas, em especial os ocidentais, quase sempre lutam contra um Deus de palha, o Deus “sobre-humano” do cristianismo popular, com ideias como o criacionismo, que são fáceis de se refutar (Dawkins, 2006). Porém, considerando-se a física quântica (Goswami, 1993) e inúmeros dados sobre vida após a morte (Goswami, 2001) e medicina alternativa para o corpo sutil (Goswami, 2004), é consideravelmente mais difícil refutar as ideias da causação descendente e de corpos sutis. E quem, em sã consciência, tentaria desmentir a importância das virtudes e dos valores em nossas vidas? É claro que as religiões têm uma teoria para as virtudes e os valores mais plausível do que os biólogos, para quem as virtudes e valores evoluíram da adaptação darwiniana por meio do acaso e da necessidade.

No entanto, os materialistas afirmam algo importante: que é difícil falar de Deus na ciência antes que as religiões esclareçam a questão “o que é Deus” entre elas. Se as religiões ainda brigam entre si sobre qual Deus é superior, como é possível aplicar a Deus uma abordagem monolítica como a da ciência?

Uma resposta a esse tipo de oposição ao estudo de Deus dentro da ciência é que as grandes tradições do mundo, as principais religiões, estão unidas, pelo menos em seu núcleo esotérico, em sua filosofia
não dualista de Deus. No esoterismo, existe a imagem da mente de Deus ou consciência (ou a Grande Vacuidade) como base de toda existência. Nessa base, há o conceito de corpos díspares, sutis (imateriais) e densos (materiais). Os ideais mais elevados da existência humana – bondade amorosa, por exemplo – definem a alma, que tentamos realizar. Quando o fazemos, ficamos livres, iluminados, e nossa ignorância vai embora (Schuon, 1984).

Mas o esoterismo, em si, mantém-se obscuro. O fato é que, no nível popular, a maioria das religiões, até hoje, ensina o dualismo: Deus como algo separado do mundo. E os detalhes da existência dual são bem diferentes de uma religião para outra. Portanto, o argumento suscitado pelo materialista não é válido? Que, de início as religiões concordem, e depois a ciência leve em consideração a questão de Deus.

Ensino religioso: acrta aberta ao ministro Barroso
 
Multiculturalismo

Mas esses cientistas não respeitaram a lição da antropologia cultural. Há algum tempo, os antropólogos culturais têm dito que o conceito de ciência monolítica pode não ser útil, talvez nem mesmo correto. Segundo eles, a ciência deve ser pluralista, dependente de cada cultura. Os cientistas tendem a rejeitar essa posição porque abominam a ideia do caos que surge de diferentes pontos de vista ao mesmo tempo, afirmando-se como princípios explicativos.

Creio que os antropólogos culturais têm razão no que diz respeito aos fenômenos envolvendo corpos sutis. Também acredito que a ciência multicultural não precisa ser necessariamente caótica.

Em geral, o que se percebe é que existe apenas uma física. Para corpos materiais densos, hoje a ideia de uma abordagem pluralista é desnecessária. O sucesso da abordagem reducionista da física resolveu a questão a favor de uma física monolítica de uma vez por todas. Porém, com certeza, isso não é válido para a ciência da psicologia e da medicina, e tampouco para a biologia.

Na psicologia, permanecem três forças poderosas: a psicologia comportamental-cognitiva de Alfred Adler; a psicologia profunda, baseada no conceito do inconsciente da psicanálise freudiana e da psicologia analítica junguiana; e a psicologia humanista/transpessoal com o conceito do superconsciente. Há inúmeros dados a comprovar essas abordagens. Para a psicologia cognitiva de laboratório, a abordagem comportamental está bem aplicada e costuma funcionar. Para a psicoterapia, porém, a psicologia profunda é uma necessidade. E, para a psicologia do bem-estar, a abordagem humanista/transpessoal tem seus atrativos e êxitos. Assim, a área da psicologia é um pouco caótica. Não existe uma maneira adequada de definir o domínio de cada uma dessas três forças, e nenhuma tentativa da psicologia conseguiu integrá-las em um todo coerente.

Na medicina, há duas abordagens bem-conhecidas e bem-sucedidas: a medicina alopática convencional e os diferentes paradigmas da medicina alternativa. Há muita provocação, muito caos e pouca concordância quanto à validade dos diferentes domínios e seus respectivos paradigmas. Será que estamos presos ao caos de uma abordagem pluralista?

Entre biólogos, embora exista uma concordância quase universal sobre um paradigma cujos dois pivôs são a biologia molecular e o (neo)darwinisno, ninguém conseguiu vincular este paradigma e a física, ou distinguir de forma inequívoca a vida da não vida. Mais especificamente, ninguém conseguiu explicar as lacunas nos registros fósseis da evolução. Portanto, uma abordagem da evolução envolvendo o criacionismo e o desígnio inteligente continua a ter apelo popular, até mesmo com o apoio de biólogos sérios. Existem outros pensamentos alternativos de paradigma, e estes estão ganhando força. Um baseia-se na importância do organismo como um todo e o chamamos modelo paradigma organísmico. Contudo, ninguém conseguiu fazer uma conexão entre os paradigmas materialista e organísmico, muito menos uma conexão entre essas duas abordagens e o paradigma do desígnio inteligente.

Afirmo que essas dificuldades da psicologia, da medicina e da biologia são provenientes do fato de que nessas ciências tanto o corpo material denso está envolvido quanto nossos corpos sutis. E, assim, nossas imagens dos corpos sutis ainda não foram refinadas o suficiente para desenvolvermos uma ciência monolítica útil. Agora que temos uma base, o novo paralelismo psicofísico (Figura 1.5, p. 38), para tratar o denso e o sutil com a mesma base, temos a oportunidade para uma abordagem muito necessária, como será demonstrado neste livro.

Eis, portanto, segundo acredito, a resposta à pergunta: “Por que as religiões diferem tanto em seus detalhes?” Porque, diferentemente da física monolítica, as religiões não lidam com o aspecto denso da realidade, ou matéria. Seu tema envolve aquilo que há de mais sutil, ou seja, Deus e alma.

Os materialistas se preocupam e acham que a multiplicidade de crenças religiosas sobre Deus é uma coisa ruim. Diz Sam Harris em The end of faith: religion, terror, and the future of reason: “O ideal da tolerância religiosa – nascida do conceito de que todo ser humano deveria ser livre para acreditar no que quisesse sobre Deus – é uma das principais forças que nos impelem para o abismo”. Esta preocupação surge do foco sobre as diferenças entre as religiões.

Não deveríamos nos preocupar com essas diferenças; deveríamos, na verdade, nos concentrar nas preocupações comuns a todas as religiões, ou seja, os seus três fundamentos: a causação descendente, os corpos sutis e a aquisição do estado divino. Há um núcleo comum nos conceitos religiosos sobre Deus, e é esse núcleo comum que abre espaço para uma abordagem científica.

Novos dados e perspectivas para uma abordagem integrada

Nas partes 2, 3 e 4, abordarei dados científicos a favor de todos os três fundamentos já apresentados, dentro do paradigma maior da ciência dentro da consciência definida no Capítulo 1. Anteriormente, disse que os dados são de dois tipos. Um tipo consiste nas “assinaturas quânticas do divino, escritas com tinta indelével”. O outro tipo pertence ao grupo “perguntas impossíveis exigem respostas impossíveis”, ou corpos sutis. Na verdade, em muitos dos dados atuais, as duas ideias se entrelaçam, ou seja, pertencem ao mesmo tempo aos corpos sutis e também são assinaturas quânticas do divino.

Quando incluímos em nossa ciência os corpos sutis e o pensamento quântico a seu respeito, todas as controvérsias da biologia, medicina e psicologia – o caos criado pelo pensamento “multicultural” e pluralista – dão m

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argem a um novo ponto de vista científico e integrado em cada campo. O multiculturalismo ainda tem sua utilidade, mas o domínio de cada cultura está claramente definido, e pode haver intercâmbio entre eles. Não é melhor assim?

E isto reacende a esperança em mim. Se as diversas abordagens multiculturais para essas ciências da vida podem ser integradas debaixo de um guarda-chuva, a ciência dentro da consciência, então por que as religiões também não podem? Talvez, a nova ciência baseada em Deus, explorada aqui, com todas as evidências de apoio a seu favor, estimule as grandes religiões do mundo a começarem seriamente a dialogar. Talvez, esteja próximo o dia em que teremos conceitos universais de espiritualidade, aplicáveis em benefício da humanidade, na qual cada uma das religiões atuais será um aspecto bem-definido e terá um domínio bem-definido de validade. E, dessa maneira, haverá um intercâmbio ilimitado entre as religiões.

Nos séculos XV e XVI, a religião era o grande inquisidor e a causa de muitas atrocidades cometidas na tentativa de silenciar a ciência. Hoje, porém, em uma irônica inversão de papéis, a ciência sob a influência do materialismo tornou-se o grande inquisidor, exibindo sua arrogância e declarando arbitrariamente Deus e o sutil como sobrenaturais e supérfluos. Mas, como disse antes, essa posição não levará a nada.

Como os políticos influenciados pela ciência materialista começam a forçar uma mudança excessivamente rápida das tradições mais antigas, o efeito é o oposto do esperado. Em vez de realizarem mudanças muito necessárias (como, por exemplo, um tratamento igual para homens e mulheres), participantes dessas religiões tornam-se defensivos e ultraconservadores, e pior: sob a influência materialista, os líderes dessas tradições tornam-se cínicos e abrem mão do significado e da ética, optando pelo poder. Se, em vez disso, a ciência materialista entrar em harmonia com suas próprias deficiências e aceitar o cenário mais amplo da ciência dentro da consciência, pode iniciar um novo diálogo entre materialismo e espiritualidade, duas forças gravitacionais que dividiram a humanidade ao longo de milênios. As consequências sutis desse diálogo provocarão ventos de mudança até mesmo nas antigas tradições religiosas.

(Amit Goswami - Deus não está morto,evidências científicas da existência divina)

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A Ciência da Fé
No século XVIII, o imperador Napoleão chamou o cientista Pierre Simon, marquês de Laplace, e perguntou-lhe porque ele não havia incluído Deus em seu mais recente livro sobre movimento celestial. Dizem que Laplace teria respondido desta maneira: “Majestade, não precisei dessa hipótese específica”.

Faz muito tempo que Laplace viveu mas, até hoje, a “prova” do estabelecimento científico contra a existência de Deus consiste na insistente negativa: “Não precisamos dessa hipótese específica”.

Se a cruzada do estabelecimento científico contra Deus se dirige ao Deus dualista do cristianismo popular, o poderoso imperador, sentado em um trono no espaço exterior que distribui recompensas e castigos, sou simpático a essa cruzada. Mas quando essa mesma cruzada parece incluir o desdém por todo agente causal fora do mundo material, então é chegada a hora de todas as pessoas de bem despertarem e rejeitarem essa “velha” ciência.

Este livro mostra que todas as ciências – física, biologia, psicologia e medicina – necessitam da hipótese da causação descendente, introduzida como uma escolha consciente entre os potenciais quânticos, a fim de compreender seus princípios e dados mais básicos. O agente dessa causação descendente, a consciência quântica, é aquilo que as tradições espirituais esotéricas de todo o planeta chamam Deus, apesar das visões populares.

A teoria e fatos apresentados neste livro como evidências científicas da existência de Deus falam por si sós. Assim, considere:

Não podemos encontrar uma física melhor do que a física quântica: sua teoria é sólida, seus dados comprobatórios são impecáveis.

Não podemos encontrar uma interpretação melhor da física quântica do que a interpretação baseada na consciência idealista, pois é a única interpretação livre de paradoxos.

Não podemos encontrar uma metafísica melhor do que a do primado da consciência para basear nossa ciência, pois apenas esta filosofia abrange todas as nossas experiências, “tudo que for o caso”. (Esta citação foi extraída do Tractatus logico-philosophicus de Ludwig Wittgenstein, que começa com a frase: “O mundo é tudo aquilo que for o caso”.)

Não podemos compreender a criatividade sem o conceito dos saltos quânticos de descontinuidade.

Não podemos encontrar uma explicação para as lacunas fósseis da evolução sem a ideia da causação descendente e da criatividade biológica.

Não podemos encontrar maneiras de distinguir a vida e a não vida, e o consciente e o inconsciente, sem a ideia da hierarquia entrelaçada.

Não podemos resolver os paradoxos da cisão sujeito-objeto em nossa percepção normal, sem os conceitos de causação descendente, hierarquia entrelaçada e não localidade.

Não podemos compreender os abundantes dados experimentais de nossa interconectividade sem a não localidade da consciência.

Não podemos compreender inúmeras informações sobre experiências de quase-morte e reencarnação sem o conceito dos corpos sutis não físicos.

Não podemos compreender a acupuntura e a homeopatia sem o conceito das energias vitais não físicas.

Não podemos compreender o significado e a razão pela qual nosso corpo sofre com sua distorção, contraindo doenças, sem o conceito de uma mente não física.

Não podemos compreender o motivo para a existência das leis físicas e do altruísmo, nem a razão pela qual a ética e os valores influenciam nossa consciência, ou o porquê da cura funcionar, sem o conceito de um corpo supramental não físico.

Não podemos ter uma ciência ética apropriada sem a hipótese da causação descendente e dos corpos sutis.

Não podemos compreender a cura espontânea sem conceitos como causação descendente, saltos quânticos e corpos sutis.

Não podemos nos compreender sem conhecer Deus – nosso ser causal mais profundo, nossa consciência quântica.

Não podemos conhecer nosso futuro evolucionário, e nos prepararmos para ele, sem aceitar a evolução da consciência.

Deus existe. Perceba-o. Viva-o. Ame-o. Desenvolva as energias do amor.

Parafraseando o poeta Rabindranath Tagore:

Na noite violenta
sob o impulso da morte
quando seres humanos rompem
seus limites terrenos condicionados,
será que a ilimitada glória celeste de Deus,
a inteligência supramental,
não irá se revelar?

Sim, irá. A sombria noite da alma, o interlúdio materialista, está quase terminando. Nessa noite sombria, fizemos nosso processamento criativo, algo que os indianos chamam tapasya (prática espiritual que queima impurezas), e estamos desenvolvendo uma nova ciência para nos orientarmos em nossa evolução até o supramental. Ainda falta um pouco até chegarmos, ainda precisamos esperar um pouco, a noite ainda não acabou. Mas as primeiras luzes da nova aurora estão visíveis para todos que desejem ver.

(Amit Goswami - Deus não está morto,evidências científicas da existência divina)
A Matrix enquanto hipótese metafísica

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publicado às 21:53

Jesus viu crianças sendo amamentadas. Ele disse a seus discípulos: "Esses
pequeninos que mamam são como aqueles que entram no Reino." Eles lhe disseram: Nós
também, como crianças, entraremos no Reino?" Jesus lhes disse: "Quando fizerdes do dois
um e quando fizerdes o interior como o exterior, o exterior como o interior, o acima como o
embaixo e quando fizerdes do macho e da fêmea uma só coisa, de forma que o macho não
seja mais macho nem a fêmea seja mais fêmea, e quando formardes olhos em lugar de um
olho, uma mão em lugar de uma mão, um pé em lugar de um pé e uma imagem em lugar de
uma imagem, então, entrareis (no Reino).
 
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Pintei uma cruz hipercúbica na qual o corpo de Cristo torna-se metafisicamente o nono cubo. (Dalí)

Ao dedicar este epílogo a você como cristão, espero que faça jus ao seu título como discípulo de Jesus. Você pode já ter algum mestre neste momento, pode ter tido diversos mestres em seu passado; mas Jesus tem sido sempre seu maior mestre, o que os hindus chamariam sadguru, um verdadeiro guru, um mestre cujo espírito acha-se estabilizado.

A pergunta importante para todos os cristãos é a seguinte: será que o Deus que a ciência está redescobrindo é o mesmo Deus que o cristão? Venho reassegurando isso no seguinte caso: o Deus da nova ciência é o mesmo Deus de que tem falado o cristianismo esotérico e místicos cristãos como Mestre Eckhart e Santa Teresa de Ávila. Contudo, posso demonstrar essa tese comparando os ensinamentos de Jesus com os ensinamentos da física quântica, o que deve remover qualquer dúvida. Pelo menos, é o que espero.

Jesus foi um dos maiores mestres espirituais de todos os tempos. Seus ensinamentos eram passados na forma de enigmas e paradoxos, o que demonstra uma semelhança com as lições da física quântica, que também criam enigmas e paradoxos em nossas mentes. Tanto Jesus quanto a física quântica falam da realidade, mas será que falam da realidade de maneira idêntica? Esta é a grande pergunta. Se estão falando da realidade em termos de metáforas idênticas, por mais enigmáticas e paradoxais que sejam essas metáforas para nossa mente racional, existem motivos para concluir que esses ensinamentos são convergentes. Fundamentalmente, são os mesmos. O Deus de Jesus e a consciência-Deus quântica são a mesma coisa.

O tecido básico da realidade
Ao dedicar este epílogo a você como cristão, espero que faça jus ao seu título como discípulo de Jesus. Você pode já ter algum mestre neste momento, pode ter tido diversos mestres em seu passado; mas Jesus tem sido sempre seu maior mestre, o que os hindus chamariam sadguru, um verdadeiro guru, um mestre cujo espírito acha-se estabilizado.

A pergunta importante para todos os cristãos é a seguinte: será que o Deus que a ciência está redescobrindo é o mesmo Deus que o cristão? Venho reassegurando isso no seguinte caso: o Deus da nova ciência é o mesmo Deus de que tem falado o cristianismo esotérico e místicos cristãos como Mestre Eckhart e Santa Teresa de Ávila. Contudo, posso demonstrar essa tese comparando os ensinamentos de Jesus com os ensinamentos da física quântica, o que deve remover qualquer dúvida. Pelo menos, é o que espero.

Jesus foi um dos maiores mestres espirituais de todos os tempos. Seus ensinamentos eram passados na forma de enigmas e paradoxos, o que demonstra uma semelhança com as lições da física quântica, que também criam enigmas e paradoxos em nossas mentes. Tanto Jesus quanto a física quântica falam da realidade, mas será que falam da realidade de maneira idêntica? Esta é a grande pergunta. Se estão falando da realidade em termos de metáforas idênticas, por mais enigmáticas e paradoxais que sejam essas metáforas para nossa mente racional, existem motivos para concluir que esses ensinamentos são convergentes. Fundamentalmente, são os mesmos. O Deus de Jesus e a consciência-Deus quântica são a mesma coisa.
O tecido básico da realidade

Analise a ideia do tecido básico da realidade. Os materialistas dizem que, em sua base, a realidade se reduz aos tijolos chamados partículas elementares, quarks e elétrons, por exemplo. A causação é uma causação ascendente, a partir dessa base.

Entretanto, a física quântica diz outra coisa. Na física quântica, não há objetos materiais manifestados independentes dos sujeitos – os observadores. Na física quântica, os objetos permanecem como potenciais, ondas de possibilidade, até serem manifestados pelo ato da observação. Objetos quânticos são ondas de possibilidade, mas possibilidades de quê? São possibilidades da consciência. A consciência, e não a matéria, é a base da existência, na qual a matéria existe como possibilidade. Pelo ato da mensuração ou observação quântica, a consciência converte a possibilidade em realidade (ou causa o colapso de ondas em partículas ou coisas) e, ao mesmo tempo, divide-se em um sujeito que vê e em objeto(s) visto(s).

O que Jesus tem a dizer sobre o tecido da realidade? Ele é bem inequívoco, embora um pouco sarcástico com relação aos que apoiam a supremacia material (todas as citações do Evangelho segundo Tomé referem-se ao número da página em Guillaumont et al., 1959):

Seria uma maravilha
se a carne tivesse surgido
por causa do espírito.
Mas seria a maior das maravilhas
se o espírito tivesse surgido
por causa do corpo.
(Tomé, p. 21)

Jesus diz, como um eco com a física quântica, que a carne surgiu por causa do espírito e não o contrário.

Também me agrada muito o fato de Jesus ter dito: “O Espírito é que dá a vida, a carne não serve para nada” (João 3,6; 6,63). Aqui não há apoio para as teorias materialistas da origem da vida, inclusive para a teoria da autopoiese emergente do holista. Mas a frase de Jesus ressoa plenamente com a ideia quântica de que a vida se origina da mensuração quântica em hierarquia entrelaçada, feita pela consciência. Dessa forma, sendo místico, Jesus subestima a carne, a matéria. Agora, na nova ciência, podemos explicitar o papel de contribuição da matéria: tornar possível a manifestação e fazer representações do sutil.

Não localidade e transcendência

O cristianismo popular postula que Deus e o Espírito são separados de nós; e é esse dualismo que faz com que a maioria dos cientistas considere o cristianismo não científico. Se Deus é algo realmente separado de nós, como podemos receber sua orientação e amor? Como a carne, a substância material, pode interagir com o divino não material?

A física quântica possui uma posição diferente. Deus não é separado de nós; Deus vive em nós, em nosso inconsciente. A consciência é a base de tudo, o que nos inclui. Isto repercute muito bem com a frase de Jesus: “O Pai e eu somos um”. E, se você interpretar esta frase considerando que Jesus está falando apenas de si mesmo, que apenas ele é “filho do Pai” e, portanto, idêntico a Ele, os evangelhos dizem outra coisa. Jesus diz, em todo momento, aos seus ouvintes, que todos são filhos de Deus; basta perceber isso:

Quando conseguirdes conhecer a vós mesmos,
então, sereis conhecidos
e compreendereis que
sois filhos do Pai vivo.
(Tomé, p. 3)

A física quântica também ensina: “Você e eu somos um”. A consciência ou Deus causa o colapso de ondas de possibilidade similares em nossos cérebros quando estamos “correlacionados”, dando a cada um de nós a oportunidade de constatar essa ideia de unidade. Esta ideia tem sido comprovada até em laboratório. Se a consciência pode causar o colapso simultâneo de ondas de possibilidade no seu cérebro e no meu, quando estamos correlacionados, devemos estar vinculados por meio da consciência, que é não local e uma unidade para nós dois, e, por inferência, uma unidade para todos nós.

O conceito de não localidade é sutil e também implica que você e eu estamos vinculados sem quaisquer sinais pelo espaço e pelo tempo. Contudo, também somos manifestações da mesma consciência; é a consciência que é imanente em nós.

Qual a opinião de Jesus sobre esses assuntos? Vamos estudar a conhecida declaração de Jesus: “O reino de Deus está em toda parte, mas as pessoas não o vêem”. Assim, sem dúvida, Jesus conhecia e pregava sobre o Deus imanente no mundo. Mas seria esta uma visão de mundo animista? Não vamos nos apressar. Eis outra frase famosa de Jesus:

Os fariseus perguntaram a Jesus
sobre o momento em que chegaria
o reino de Deus. Jesus respondeu:
“O reino de Deus não surge ostensivamente.
Nem se pode dizer:
‘Está aqui’ ou ‘está ali’,
porque o reino de Deus
está no meio de vocês”.
(Lucas 17,20-21)

Mais uma vez, diz Jesus:
Pois bem, o reino está dentro de vós,
e também está em vosso exterior.
(Tomé, p. 3)

O reino não pode ser localizado; não podemos dizer, ele está aqui ou está em algum outro lugar. Ele está tanto fora como dentro; é tanto transcendente quanto imanente. Tudo está em ressonância com a mensagem da física quântica.

Circularidade, hierarquia entrelaçada e auto-referência

Uma das características mais interessantes da física quântica é a circularidade que existe no efeito do observador: não há colapso sem um observador, mas não há observador (manifestado) sem colapso. A circularidade é uma hierarquia entrelaçada de lógica que nos oferece a auto-referência, a cisão sujeito-objeto experimentada pelo observador. Incrível, mas Jesus já intuía isso, pois disse:

Se vos perguntarem:
“De onde vindes?”
respondei:
“Viemos da luz,
do lugar onde a luz nasceu dela mesma”.
(Tomé, p. 29)

A luz aqui se refere ao Espírito Santo, o self quântico na linguagem da física quântica. Viemos da luz, pois nossa individualidade é fruto do condicionamento. A luz se originou de si mesma, pela circularidade, pela hierarquia entrelaçada.

Jesus e o self quântico

Em páginas anteriores, eu disse que o estágio final da iluminação espiritual é atingido quando a pessoa se posiciona firmemente na consciência quântica, em Deus, sempre que está realizando um processamento inconsciente. Creio que Buda chegou a este estágio de iluminação, pois há muitas histórias sobre sua equanimidade.

Mas Jesus viveu por pouco tempo, e a maior parte do tempo em viveu está envolvida em mistérios e controvérsias. O relato que recebemos sugere que Jesus praticou ocasionalmente a meditação; mas os evangelhos estão repletos daquilo que Jesus disse e de histórias de milagres.

Essas histórias de milagres de Jesus são bastante reveladoras. Naturalmente, os milagres não são realizados no inconsciente e, por isso, não sugerem se Jesus estava firme na consciência quântica ou Deus. Mas os milagres sugerem que, nessas ocasiões, Jesus atuava a partir do self quântico, ou daquilo que no cristianismo é chamado Espírito Santo, ou simplesmente Espírito, escolhendo entre possibilidades situadas além de toda e qualquer limitação.

A ideia é que a criatividade comum – vital e mental – envolve as leis e os contextos codificados no domínio supramental da consciência. Milagres que violam leis físicas, como a conversão de água em vinho, sugerem uma criatividade no plano físico além das leis supramentais da física. Em outras palavras, a pessoa que está fazendo isso tem acesso inconsciente a possibilidades além do supramental, além da limitação das leis quânticas da física, no próprio corpo de êxtase, na consciência turiya.

Desta forma, não surpreende saber que Jesus às vezes falava a partir desse self quântico ou consciência do Espírito, criando muita confusão, como na célebre frase:

Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.
Ninguém vai ao Pai senão por mim.
(João 14,6)

A Igreja cristã explorou essas palavras até a exaustão na perseguição a outras religiões e outros credos. Mas também é confuso para os orientais, quando comparam a frase de Jesus com afirmativas de sábios orientais como: “Aqueles que são iluminados não dizem, aqueles que dizem não são [iluminados]”. Uma pessoa, cuja auto-identidade superou o ego e chegou ao Espírito, não deveria ser humilde? Segundo todos os relatos, Jesus era um homem muito humilde quando estava em seu ego, agindo a partir do estado normal da consciência. As confusões nos dois grupos desaparecem se considerarmos que, quando Jesus faz esse tipo de declaração, Ele está falando do estado não comum e relativamente raro do self quântico. É o mesmo estado não comum a partir do qual realizava milagres que superavam as leis físicas.

E se você ainda tem dúvidas de que, às vezes, Jesus falava a partir do estado não comum do self quântico, entenda porque ele teria feito esta declaração: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou” (João 8,58). Ou algo como: “Assim vocês conhecerão, de uma vez por todas, que o Pai está presente em mim, e eu no Pai” (João 10,38). A pessoa precisa estar no estado da hierarquia entrelaçada do self quântico para perceber a circularidade que dá origem à condição humana.

Jesus e a criatividade

Os discípulos pediram a Jesus: “Diga-nos como é o reino do Céu”.
Ele lhes disse:
“Ele se assemelha a uma semente de mostarda,
a menor de todas as sementes.
Mas, quando cai em terra fértil,
produz uma grande planta
e torna-se um refúgio para as aves do céu”.
(Tomé, p.15)

O que isso significa para você? Por que Jesus enfatiza uma semente que é a menor de todas? É que um insight é um vislumbre do supramental, menor do que outras sementes, os pensamentos que habitualmente lotam nossa psique. Contudo, quando essa semente cai em terra fértil, torna-se uma grande árvore na qual as aves do céu se refugiam. No entanto, quando um insight chega para uma pessoa preparada (terra fértil), produz uma mente transformada (uma grande árvore) onde muitos dos arquétipos (aves do céu) podem ser representados (podem encontrar refúgio). Assim, Jesus conhecia os três estágios da criatividade interior, a preparação, o insight e a manifestação. Ele não mencionou o estágio do processamento inconsciente nessa frase, mas sim em outro lugar:

E Jesus continuou dizendo: “O reino de Deus
é como um homem que espalha a semente na terra.
Depois ele dorme e acorda,
noite e dia, e a semente vai
brotando e crescendo, mas o homem
não sabe como isso acontece”.
(Marcos 4,26-28)

A frase “ele não sabe como isso acontece”, mostra claramente que parte do processamento da criatividade interior, o desenvolvimento do reino do Céu em nosso interior, é inconsciente.

Jesus atingiu a perfeição, estimulando as pessoas a fazer o mesmo:

Portanto, sejam perfeitos
como é perfeito o Pai de vocês
que está no céu.
(Mateus 5,48)

E no que consiste a perfeição? Ela se situa no comando do supramental, por trás da mente – o reino das dualidades:

Jesus lhes disse:
“Quando fizerdes do dois um
e quando fizerdes o interior
como o exterior,
o exterior como o interior,
o acima como o embaixo
e quando fizerdes
do macho e da fêmea uma única coisa,
de forma que o macho não seja mais macho
nem a fêmea seja mais fêmea,
… então, entrareis (no reino)”.
(Tomé, p. 17)

Muitos autores hesitam em atribuir autenticidade ao Evangelho de Tomé. Se for esse o caso, podemos confiar na autenticidade dessas palavras? Vieram mesmo de Jesus? Na minha opinião, se essas palavras foram inseridas por outro autor no texto de Tomé, essa outra pessoa também teria de ser sábia. Deveríamos procurar por evidências históricas de sua presença. E, enquanto não encontrarmos essa pessoa, podemos muito bem atribuir essas palavras a Jesus.

Você percebe como as descobertas e conclusões da nova ciência estão sintonizadas com os ensinamentos de Jesus? Jesus disse, integre o interior e o exterior. Em geral, os místicos enfatizam o mundo interior e menosprezam o exterior. Mas não Jesus; ele sabia que Deus é ambos. Assim como o denso/exterior atrai o materialista, o sutil/interior pode parecer atraente para os conhecedores da consciência. Mas devemos resistir à tentação e fazer apenas um o exterior e o interior.

Do mesmo modo, precisamos integrar o que está acima com o que está embaixo, o transcendente e o imanente, a onda e a partícula, na linguagem quântica. Devemos evitar a tendência do religioso – abraçar o transcendente em preferência ao imanente. Do mesmo modo, devemos evitar a indulgência materialista de acatar apenas o imanente, negando o transcendente.

Por fim, o que Jesus quis dizer ao sugerir que integrássemos homem e mulher? Isso não parece ter nada a ver com a física quântica, não é? Mas penso que Jesus não está falando da integração de nossas tendências psicológicas masculinas e femininas, à maneira de Jung. Creio que ele está falando de masculino-yang e feminino-yin – no sentido da medicina chinesa, os modos criativo e condicionado com que processamos nossos corpos sutis. Os saltos quânticos criativos devem ser seguidos de manifestação. Depois é que devemos transformar – depois é que devemos entrar no reino do Céu.

Se Jesus foi transformado, por que foi tão implacável?

O filósofo Bertrand Russell escreveu:

Há, a meu ver, um defeito muito sério no caráter moral de Cristo, e isso por que Ele acreditava no inferno. Quanto a mim, não acho que qualquer pessoa que seja, na realidade, profundamente humana, possa acreditar no castigo eterno [...] Há, por certo, o texto familiar acerca do pecado contra o Espírito Santo: “Quem falar contra o Espírito Santo não será perdoado, nem neste mundo, nem no futuro” [...] Não me parece, realmente, que uma pessoa dotada de um grau adequado de bondade em sua natureza teria posto no mundo receios e terrores dessa espécie (citado em Mason, 1997, p. 186).

É uma expectativa razoável que uma pessoa transformada veria apenas o potencial de Deus em outro ser humano. Com efeito, o santo transformado Vivekananda, discípulo de Ramakrishna, disse o seguinte sobre seu guru: “Meu guru tem olhos maravilhosos, pois não consegue ver mais o mal em pessoa alguma, vê apenas o potencial divino”. Com efeito, está bem documentado o fato de Ramakrishna tratar prostitutas e brâmanes com o mesmo amor, causando muito desconforto entre estes últimos.

Mas, se Jesus era tão rancoroso, a ponto de condenar as pessoas ao inferno eterno, então por que não nos sentimos como Bertrand Russell e condescendemos Jesus? Como Russell, qualquer cristão moderno pode se sentir assim.

O autor Mark Mason (1997) tratou desse assunto com excelência e recomendo a leitura de seu livro. Mason demonstra que Jesus nunca usou a palavra “inferno” e que, tampouco, teve essa intenção. Primeiro, deve-se a erros de tradução do original grego, e também à manipulação da Igreja cristã medieval, o fato de a imagem de Jesus ter ficado manchada dessa maneira. Mason também argumenta que a palavra “perdoado”, com o significado de falar algo contra o Espírito Santo, também é um infeliz erro de tradução que não está de acordo com o contexto.

Quanto a ser implacável, se analisadas adequadamente, muitas histórias, como a parábola do bom samaritano (Lucas 10,29-37), sugerem o contrário (Mason, 1997). E quem não conhece o episódio em que ele protegeu uma mulher de ser apedrejada até a morte, dizendo: “Quem de vocês não tiver pecado, atire nela a primeira pedra”.

Jesus foi um avatar?

Há mais uma coisa que um cristão moderno pode achar interessante analisar. Os hindus aceitam Jesus como um avatar, que é a palavra por eles utilizada para designar uma pessoa plenamente transformada. Acredita-se que os avatares encarnam na forma humana sempre que o movimento da consciência estagna (sempre que a evolução da consciência se imobiliza). Isso se enquadra com a situação de Jesus?

Na verdade, sim. Os hindus consideram avatares pessoas como Krishna, Buda, Shankara e Ramakrishna porque todos viveram em épocas nas quais a religião e a espiritualidade haviam perdido crédito na vida das pessoas, obscurecidas por forças que promoviam uma atitude não espiritual diante da vida. Esses avatares restauraram a espiritualidade às suas sociedades. De forma análoga, Jesus salvou o judaísmo de um intenso período de estagnação.

Outro paralelo é bem conhecido. Krishna diz, no Bhagavad Gita: “Sou a meta do sábio e sou o caminho”. De forma análoga, Jesus disse: “Sou o Caminho, a Verdade e a Vida”.

E Jesus também disse:

Tenho também outras ovelhas que não são deste curral. Também devo conduzi-las; elas irão escutar a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor.
(João 10,16)

Isso ressoa bem com a declaração de Krishna no Bhagavad Gita:

A cada era retorno
para mostrar o sagrado,
para destruir o pecado do pecador
para estabelecer a justiça.

Dessa forma, são notáveis os paralelos; assim, pergunto mais uma vez, Jesus era um avatar? O conceito de avatar é aceitável para a nova ciência de Deus e da espiritualidade que formamos aqui?

Em outro trabalho (Goswami, 2001) disse que as pessoas que estão completamente transformadas (e outra palavra para isso é “liberadas”) saem do ciclo nascimento-morte-renascimento. Podemos perguntar: o que acontece com suas mônadas quânticas quando morrem, com seus padrões de vida plenamente aperfeiçoados? De maneira científica, devemos admitir que a mônada quântica deve estar potencialmente disponível para uso futuro.

Uso futuro? Como?

Um uso seria invocar esta mônada quântica como um guia espiritual por meio de canalização, o que já é feito. Um hindu tem a opção de adotar Krishna ou Shankara como seu guia espiritual. De modo análogo, um budista tem Buda, um judeu tem Moisés, um muçulmano tem Maomé e um cristão tem Jesus.

Um segundo uso seria atender às necessidades da evolução da consciência. Sempre que a evolução estagna, a pressão evolucionária causa o renascimento da mônada quântica do avatar anterior. Foi por isso que Jesus disse: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou”. Um avatar não acumula karma algum durante sua vida. Ele nasce com o condicionamento aperfeiçoado da mesma mônada quântica aperfeiçoada do avatar anterior.

Muito bem, chegamos lá. Se aquilo que apresentei aqui ajudá-lo a se orientar melhor, como cristão, para a nova ciência integrativa, então considere as palavras de Jesus: “[...] haverá um só rebanho e um só pastor”. Sem dúvida, Jesus anteviu algum tipo de integração de todas as religiões. Será a nova ciência o foco para um diálogo unificador entre todas as religiões do mundo? Cabe a você fazer isso acontecer.
Analise a ideia do tecido básico da realidade. Os materialistas dizem que, em sua base, a realidade se reduz aos tijolos chamados partículas elementares, quarks e elétrons, por exemplo. A causação é uma causação ascendente, a partir dessa base.

Entretanto, a física quântica diz outra coisa. Na física quântica, não há objetos materiais manifestados independentes dos sujeitos – os observadores. Na física quântica, os objetos permanecem como potenciais, ondas de possibilidade, até serem manifestados pelo ato da observação. Objetos quânticos são ondas de possibilidade, mas possibilidades de quê? São possibilidades da consciência. A consciência, e não a matéria, é a base da existência, na qual a matéria existe como possibilidade. Pelo ato da mensuração ou observação quântica, a consciência converte a possibilidade em realidade (ou causa o colapso de ondas em partículas ou coisas) e, ao mesmo tempo, divide-se em um sujeito que vê e em objeto(s) visto(s).

O que Jesus tem a dizer sobre o tecido da realidade? Ele é bem inequívoco, embora um pouco sarcástico com relação aos que apoiam a supremacia material (todas as citações do Evangelho segundo Tomé referem-se ao número da página em Guillaumont et al., 1959):

Seria uma maravilha
se a carne tivesse surgido
por causa do espírito.
Mas seria a maior das maravilhas
se o espírito tivesse surgido
por causa do corpo.
(Tomé, p. 21)

Jesus diz, como um eco com a física quântica, que a carne surgiu por causa do espírito e não o contrário.

Também me agrada muito o fato de Jesus ter dito: “O Espírito é que dá a vida, a carne não serve para nada” (João 3,6; 6,63). Aqui não há apoio para as teorias materialistas da origem da vida, inclusive para a teoria da autopoiese emergente do holista. Mas a frase de Jesus ressoa plenamente com a ideia quântica de que a vida se origina da mensuração quântica em hierarquia entrelaçada, feita pela consciência. Dessa forma, sendo místico, Jesus subestima a carne, a matéria. Agora, na nova ciência, podemos explicitar o papel de contribuição da matéria: tornar possível a manifestação e fazer representações do sutil.
Não localidade e transcendência

O cristianismo popular postula que Deus e o Espírito são separados de nós; e é esse dualismo que faz com que a maioria dos cientistas considere o cristianismo não científico. Se Deus é algo realmente separado de nós, como podemos receber sua orientação e amor? Como a carne, a substância material, pode interagir com o divino não material?

A física quântica possui uma posição diferente. Deus não é separado de nós; Deus vive em nós, em nosso inconsciente. A consciência é a base de tudo, o que nos inclui. Isto repercute muito bem com a frase de Jesus: “O Pai e eu somos um”. E, se você interpretar esta frase considerando que Jesus está falando apenas de si mesmo, que apenas ele é “filho do Pai” e, portanto, idêntico a Ele, os evangelhos dizem outra coisa. Jesus diz, em todo momento, aos seus ouvintes, que todos são filhos de Deus; basta perceber isso:

Quando conseguirdes conhecer a vós mesmos,
então, sereis conhecidos
e compreendereis que
sois filhos do Pai vivo.
(Tomé, p. 3)

A física quântica também ensina: “Você e eu somos um”. A consciência ou Deus causa o colapso de ondas de possibilidade similares em nossos cérebros quando estamos “correlacionados”, dando a cada um de nós a oportunidade de constatar essa ideia de unidade. Esta ideia tem sido comprovada até em laboratório. Se a consciência pode causar o colapso simultâneo de ondas de possibilidade no seu cérebro e no meu, quando estamos correlacionados, devemos estar vinculados por meio da consciência, que é não local e uma unidade para nós dois, e, por inferência, uma unidade para todos nós.

O conceito de não localidade é sutil e também implica que você e eu estamos vinculados sem quaisquer sinais pelo espaço e pelo tempo. Contudo, também somos manifestações da mesma consciência; é a consciência que é imanente em nós.

Qual a opinião de Jesus sobre esses assuntos? Vamos estudar a conhecida declaração de Jesus: “O reino de Deus está em toda parte, mas as pessoas não o vêem”. Assim, sem dúvida, Jesus conhecia e pregava sobre o Deus imanente no mundo. Mas seria esta uma visão de mundo animista? Não vamos nos apressar. Eis outra frase famosa de Jesus:

Os fariseus perguntaram a Jesus
sobre o momento em que chegaria
o reino de Deus. Jesus respondeu:
“O reino de Deus não surge ostensivamente.
Nem se pode dizer:
‘Está aqui’ ou ‘está ali’,
porque o reino de Deus
está no meio de vocês”.
(Lucas 17,20-21)

Mais uma vez, diz Jesus:
Pois bem, o reino está dentro de vós,
e também está em vosso exterior.
(Tomé, p. 3)

O reino não pode ser localizado; não podemos dizer, ele está aqui ou está em algum outro lugar. Ele está tanto fora como dentro; é tanto transcendente quanto imanente. Tudo está em ressonância com a mensagem da física quântica.
Circularidade, hierarquia entrelaçada e auto-referência

Uma das características mais interessantes da física quântica é a circularidade que existe no efeito do observador: não há colapso sem um observador, mas não há observador (manifestado) sem colapso. A circularidade é uma hierarquia entrelaçada de lógica que nos oferece a auto-referência, a cisão sujeito-objeto experimentada pelo observador. Incrível, mas Jesus já intuía isso, pois disse:

Se vos perguntarem:
“De onde vindes?”
respondei:
“Viemos da luz,
do lugar onde a luz nasceu dela mesma”.
(Tomé, p. 29)

A luz aqui se refere ao Espírito Santo, o self quântico na linguagem da física quântica. Viemos da luz, pois nossa individualidade é fruto do condicionamento. A luz se originou de si mesma, pela circularidade, pela hierarquia entrelaçada.
Jesus e o self quântico

Em páginas anteriores, eu disse que o estágio final da iluminação espiritual é atingido quando a pessoa se posiciona firmemente na consciência quântica, em Deus, sempre que está realizando um processamento inconsciente. Creio que Buda chegou a este estágio de iluminação, pois há muitas histórias sobre sua equanimidade.

Mas Jesus viveu por pouco tempo, e a maior parte do tempo em viveu está envolvida em mistérios e controvérsias. O relato que recebemos sugere que Jesus praticou ocasionalmente a meditação; mas os evangelhos estão repletos daquilo que Jesus disse e de histórias de milagres.

Essas histórias de milagres de Jesus são bastante reveladoras. Naturalmente, os milagres não são realizados no inconsciente e, por isso, não sugerem se Jesus estava firme na consciência quântica ou Deus. Mas os milagres sugerem que, nessas ocasiões, Jesus atuava a partir do self quântico, ou daquilo que no cristianismo é chamado Espírito Santo, ou simplesmente Espírito, escolhendo entre possibilidades situadas além de toda e qualquer limitação.

A ideia é que a criatividade comum – vital e mental – envolve as leis e os contextos codificados no domínio supramental da consciência. Milagres que violam leis físicas, como a conversão de água em vinho, sugerem uma criatividade no plano físico além das leis supramentais da física. Em outras palavras, a pessoa que está fazendo isso tem acesso inconsciente a possibilidades além do supramental, além da limitação das leis quânticas da física, no próprio corpo de êxtase, na consciência turiya.

Desta forma, não surpreende saber que Jesus às vezes falava a partir desse self quântico ou consciência do Espírito, criando muita confusão, como na célebre frase:

Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.
Ninguém vai ao Pai senão por mim.
(João 14,6)

A Igreja cristã explorou essas palavras até a exaustão na perseguição a outras religiões e outros credos. Mas também é confuso para os orientais, quando comparam a frase de Jesus com afirmativas de sábios orientais como: “Aqueles que são iluminados não dizem, aqueles que dizem não são [iluminados]”. Uma pessoa, cuja auto-identidade superou o ego e chegou ao Espírito, não deveria ser humilde? Segundo todos os relatos, Jesus era um homem muito humilde quando estava em seu ego, agindo a partir do estado normal da consciência. As confusões nos dois grupos desaparecem se considerarmos que, quando Jesus faz esse tipo de declaração, Ele está falando do estado não comum e relativamente raro do self quântico. É o mesmo estado não comum a partir do qual realizava milagres que superavam as leis físicas.

E se você ainda tem dúvidas de que, às vezes, Jesus falava a partir do estado não comum do self quântico, entenda porque ele teria feito esta declaração: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou” (João 8,58). Ou algo como: “Assim vocês conhecerão, de uma vez por todas, que o Pai está presente em mim, e eu no Pai” (João 10,38). A pessoa precisa estar no estado da hierarquia entrelaçada do self quântico para perceber a circularidade que dá origem à condição humana.
Jesus e a criatividade

Os discípulos pediram a Jesus: “Diga-nos como é o reino do Céu”.
Ele lhes disse:
“Ele se assemelha a uma semente de mostarda,
a menor de todas as sementes.
Mas, quando cai em terra fértil,
produz uma grande planta
e torna-se um refúgio para as aves do céu”.
(Tomé, p.15)

O que isso significa para você? Por que Jesus enfatiza uma semente que é a menor de todas? É que um insight é um vislumbre do supramental, menor do que outras sementes, os pensamentos que habitualmente lotam nossa psique. Contudo, quando essa semente cai em terra fértil, torna-se uma grande árvore na qual as aves do céu se refugiam. No entanto, quando um insight chega para uma pessoa preparada (terra fértil), produz uma mente transformada (uma grande árvore) onde muitos dos arquétipos (aves do céu) podem ser representados (podem encontrar refúgio). Assim, Jesus conhecia os três estágios da criatividade interior, a preparação, o insight e a manifestação. Ele não mencionou o estágio do processamento inconsciente nessa frase, mas sim em outro lugar:

E Jesus continuou dizendo: “O reino de Deus
é como um homem que espalha a semente na terra.
Depois ele dorme e acorda,
noite e dia, e a semente vai
brotando e crescendo, mas o homem
não sabe como isso acontece”.
(Marcos 4,26-28)

A frase “ele não sabe como isso acontece”, mostra claramente que parte do processamento da criatividade interior, o desenvolvimento do reino do Céu em nosso interior, é inconsciente.

Jesus atingiu a perfeição, estimulando as pessoas a fazer o mesmo:

Portanto, sejam perfeitos
como é perfeito o Pai de vocês
que está no céu.
(Mateus 5,48)
“Quando fizerdes do dois um
e quando fizerdes o interior
como o exterior,
o exterior como o interior,
o acima como o embaixo
e quando fizerdes
do macho e da fêmea uma única coisa,
de forma que o macho não seja mais macho
nem a fêmea seja mais fêmea,
… então, entrareis (no reino)”.
 
E no que consiste a perfeição? Ela se situa no comando do supramental, por trás da mente – o reino das dualidades:

Jesus lhes disse:
“Quando fizerdes do dois um
e quando fizerdes o interior
como o exterior,
o exterior como o interior,
o acima como o embaixo
e quando fizerdes
do macho e da fêmea uma única coisa,
de forma que o macho não seja mais macho
nem a fêmea seja mais fêmea,
… então, entrareis (no reino)”.
(Tomé, p. 17)

Muitos autores hesitam em atribuir autenticidade ao Evangelho de Tomé. Se for esse o caso, podemos confiar na autenticidade dessas palavras? Vieram mesmo de Jesus? Na minha opinião, se essas palavras foram inseridas por outro autor no texto de Tomé, essa outra pessoa também teria de ser sábia. Deveríamos procurar por evidências históricas de sua presença. E, enquanto não encontrarmos essa pessoa, podemos muito bem atribuir essas palavras a Jesus.

Você percebe como as descobertas e conclusões da nova ciência estão sintonizadas com os ensinamentos de Jesus? Jesus disse, integre o interior e o exterior. Em geral, os místicos enfatizam o mundo interior e menosprezam o exterior. Mas não Jesus; ele sabia que Deus é ambos. Assim como o denso/exterior atrai o materialista, o sutil/interior pode parecer atraente para os conhecedores da consciência. Mas devemos resistir à tentação e fazer apenas um o exterior e o interior.

Do mesmo modo, precisamos integrar o que está acima com o que está embaixo, o transcendente e o imanente, a onda e a partícula, na linguagem quântica. Devemos evitar a tendência do religioso – abraçar o transcendente em preferência ao imanente. Do mesmo modo, devemos evitar a indulgência materialista de acatar apenas o imanente, negando o transcendente.

Por fim, o que Jesus quis dizer ao sugerir que integrássemos homem e mulher? Isso não parece ter nada a ver com a física quântica, não é? Mas penso que Jesus não está falando da integração de nossas tendências psicológicas masculinas e femininas, à maneira de Jung. Creio que ele está falando de masculino-yang e feminino-yin – no sentido da medicina chinesa, os modos criativo e condicionado com que processamos nossos corpos sutis. Os saltos quânticos criativos devem ser seguidos de manifestação. Depois é que devemos transformar – depois é que devemos entrar no reino do Céu.
Se Jesus foi transformado, por que foi tão implacável?

O filósofo Bertrand Russell escreveu:

Há, a meu ver, um defeito muito sério no caráter moral de Cristo, e isso por que Ele acreditava no inferno. Quanto a mim, não acho que qualquer pessoa que seja, na realidade, profundamente humana, possa acreditar no castigo eterno [...] Há, por certo, o texto familiar acerca do pecado contra o Espírito Santo: “Quem falar contra o Espírito Santo não será perdoado, nem neste mundo, nem no futuro” [...] Não me parece, realmente, que uma pessoa dotada de um grau adequado de bondade em sua natureza teria posto no mundo receios e terrores dessa espécie (citado em Mason, 1997, p. 186).

É uma expectativa razoável que uma pessoa transformada veria apenas o potencial de Deus em outro ser humano. Com efeito, o santo transformado Vivekananda, discípulo de Ramakrishna, disse o seguinte sobre seu guru: “Meu guru tem olhos maravilhosos, pois não consegue ver mais o mal em pessoa alguma, vê apenas o potencial divino”. Com efeito, está bem documentado o fato de Ramakrishna tratar prostitutas e brâmanes com o mesmo amor, causando muito desconforto entre estes últimos.

Mas, se Jesus era tão rancoroso, a ponto de condenar as pessoas ao inferno eterno, então por que não nos sentimos como Bertrand Russell e condescendemos Jesus? Como Russell, qualquer cristão moderno pode se sentir assim.

O autor Mark Mason (1997) tratou desse assunto com excelência e recomendo a leitura de seu livro. Mason demonstra que Jesus nunca usou a palavra “inferno” e que, tampouco, teve essa intenção. Primeiro, deve-se a erros de tradução do original grego, e também à manipulação da Igreja cristã medieval, o fato de a imagem de Jesus ter ficado manchada dessa maneira. Mason também argumenta que a palavra “perdoado”, com o significado de falar algo contra o Espírito Santo, também é um infeliz erro de tradução que não está de acordo com o contexto.

Quanto a ser implacável, se analisadas adequadamente, muitas histórias, como a parábola do bom samaritano (Lucas 10,29-37), sugerem o contrário (Mason, 1997). E quem não conhece o episódio em que ele protegeu uma mulher de ser apedrejada até a morte, dizendo: “Quem de vocês não tiver pecado, atire nela a primeira pedra”.
Jesus foi um avatar?

Há mais uma coisa que um cristão moderno pode achar interessante analisar. Os hindus aceitam Jesus como um avatar, que é a palavra por eles utilizada para designar uma pessoa plenamente transformada. Acredita-se que os avatares encarnam na forma humana sempre que o movimento da consciência estagna (sempre que a evolução da consciência se imobiliza). Isso se enquadra com a situação de Jesus?

Na verdade, sim. Os hindus consideram avatares pessoas como Krishna, Buda, Shankara e Ramakrishna porque todos viveram em épocas nas quais a religião e a espiritualidade haviam perdido crédito na vida das pessoas, obscurecidas por forças que promoviam uma atitude não espiritual diante da vida. Esses avatares restauraram a espiritualidade às suas sociedades. De forma análoga, Jesus salvou o judaísmo de um intenso período de estagnação.

Outro paralelo é bem conhecido. Krishna diz, no Bhagavad Gita: “Sou a meta do sábio e sou o caminho”. De forma análoga, Jesus disse: “Sou o Caminho, a Verdade e a Vida”.

E Jesus também disse:
Tenho também outras ovelhas que não são deste curral. Também devo conduzi-las; elas irão escutar a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor.
(João 10,16)

Isso ressoa bem com a declaração de Krishna no Bhagavad Gita:

A cada era retorno
para mostrar o sagrado,
para destruir o pecado do pecador
para estabelecer a justiça.

Dessa forma, são notáveis os paralelos; assim, pergunto mais uma vez, Jesus era um avatar? O conceito de avatar é aceitável para a nova ciência de Deus e da espiritualidade que formamos aqui?

Em outro trabalho (Goswami, 2001) disse que as pessoas que estão completamente transformadas (e outra palavra para isso é “liberadas”) saem do ciclo nascimento-morte-renascimento. Podemos perguntar: o que acontece com suas mônadas quânticas quando morrem, com seus padrões de vida plenamente aperfeiçoados? De maneira científica, devemos admitir que a mônada quântica deve estar potencialmente disponível para uso futuro.

Uso futuro? Como?

Um uso seria invocar esta mônada quântica como um guia espiritual por meio de canalização, o que já é feito. Um hindu tem a opção de adotar Krishna ou Shankara como seu guia espiritual. De modo análogo, um budista tem Buda, um judeu tem Moisés, um muçulmano tem Maomé e um cristão tem Jesus.

Um segundo uso seria atender às necessidades da evolução da consciência. Sempre que a evolução estagna, a pressão evolucionária causa o renascimento da mônada quântica do avatar anterior. Foi por isso que Jesus disse: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou”. Um avatar não acumula karma algum durante sua vida. Ele nasce com o condicionamento aperfeiçoado da mesma mônada quântica aperfeiçoada do avatar anterior.

Muito bem, chegamos lá. Se aquilo que apresentei aqui ajudá-lo a se orientar melhor, como cristão, para a nova ciência integrativa, então considere as palavras de Jesus: “[...] haverá um só rebanho e um só pastor”. Sem dúvida, Jesus anteviu algum tipo de integração de todas as religiões. Será a nova ciência o foco para um diálogo unificador entre todas as religiões do mundo? Cabe a você fazer isso acontecer.

(Amit Goswami - Deus não está morto,evidências científicas da existência divina)

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publicado às 19:27

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O pH do CORPO HUMANO é rigidamente controlado. Basta um desvio, para cima ou para baixo, da ordem de 0,5 em relação ao pH normal de 7,4, e você… morre.
O estado de equilíbrio ácido-base do corpo é modulado por uma sintonia fina e mantido com rigidez maior do que aquela com que o Banco Central regula a taxa de juros. Graves infecções bacterianas, por exemplo, podem ser fatais porque a infecção gera subprodutos ácidos que excedem a capacidade do corpo de neutralização da carga ácida. Do mesmo modo, as doenças renais levam a complicações de saúde porque comprometem a capacidade dos rins de livrar o corpo de subprodutos ácidos.
No dia a dia, o pH do corpo é mantido em 7,4 pelo elaborado sistema de controle em funcionamento. Alguns subprodutos do metabolismo, como o ácido lático, são ácidos, e fazem cair o pH, deflagrando no corpo uma resposta do tipo pânico para reequilibrá-lo. Em sua reação, o corpo recorre a qualquer reserva alcalina disponível, desde o bicarbonato presente na corrente sanguínea até os sais alcalinos de cálcio, como o carbonato de cálcio e o fosfato de cálcio presentes nos ossos. Como é tão crucial manter um pH normal, o corpo sacrificará a saúde dos ossos para manter o pH estável. No grande sistema de triagem que é seu corpo, seus ossos vão virar mingau antes que o sistema permita que seu pH se afaste do valor correto. Quando um feliz equilíbrio alcalino for atingido, seus ossos vão gostar, suas articulações vão gostar.
Embora ambos os extremos de pH sejam perigosos, o corpo se sente melhor com uma leve tendência para o alcalino. Ela é sutil e não se reflete no pH do sangue, mas pode ser evidenciada por alguns métodos, como os que medem a presença de produtos ácidos e alcalinos na urina.
Ácidos que agridem o pH do corpo também podem chegar a ele com a dieta. Há fontes dietéticas de ácido que são óbvias, como os refrigerantes gaseificados que contêm ácido carbônico. Alguns refrigerantes, como as colas, também contêm ácido fosfórico. As enormes cargas de ácido dos refrigerantes gaseificados sobrecarregam a capacidade de seu corpo de neutralizar a acidez até que ela atinja o nível ideal. A constante retirada de cálcio dos ossos, por exemplo, está associada a um número cinco vezes maior de fraturas em alunas do ensino médio que mais consomem colas gaseificadas1.
Entretanto, certos alimentos podem ser fontes não tão óbvias de ácidos, nesse ambiente de pH estritamente controlado. Não importa qual seja a fonte, o corpo precisa neutralizar a alteração da acidez. A composição da dieta pode determinar se o efeito final é de ataque ácido ou alcalino.
As proteínas de produtos animais devem ser a principal fonte de ataque ácido na dieta humana. Carnes como frango, carne de porco e sanduíches de rosbife são, portanto, uma importante fonte de ácido na dieta norte-americana comum. Os ácidos produzidos pelas carnes, como o ácido úrico e o ácido sulfúrico (o mesmo que se encontra na bateria de seu carro e na chuva ácida), precisam ser neutralizados pelo corpo. O produto fermentado das glândulas mamárias bovinas (o queijo!) é outro grupo de alimentos altamente ácidos, especialmente os queijos de baixo teor de gorduras e ricos em proteínas. Resumindo, qualquer alimento derivado de fontes animais, seja ele fresco, fermentado, malpassado, bem passado, com ou sem aquele molho especial, gera um ataque ácido2.
Contudo, os produtos de origem animal podem não ser tão prejudiciais ao equilíbrio do pH como parece de início. Pesquisas recentes sugerem que carnes ricas em proteínas têm outros efeitos, que anulam parcialmente a sobrecarga ácida. A proteína animal exerce um efeito de fortalecimento dos ossos, por meio da estimulação do fator de crescimento semelhante à insulina (IGF-1) [sigla em inglês, insulin-like growth factor], hormônio que aciona o crescimento e a mineralização dos ossos (“semelhante à insulina” refere-se à semelhança na estrutura, não no efeito). A ingestão de proteínas de origem animal, apesar de suas propriedades de geração de ácidos, promove a saúde dos ossos. Crianças, adolescentes e idosos que aumentam a ingestão de proteínas da carne apresentam um aumento do teor de cálcio nos ossos e melhoram seus resultados de densitometria óssea3.
Por outro lado, as frutas, legumes e verduras são os alimentos alcalinos dominantes na dieta. Praticamente tudo o que estiver na seção desses alimentos levará seu pH no sentido alcalino. Da couve crespa à couve-rábano, um generoso consumo de verduras e frutas é útil na neutralização da sobrecarga ácida proveniente dos produtos de origem animal.
 
QUEBRA-OSSOS
A dieta dos caçadores-coletores, composta de carnes, legumes, verduras e frutas, bem como castanhas, sementes e raízes relativamente neutras, geram um efeito final alcalino4. É claro que, com seu empenho, o caçador-coletor não buscava regular o pH do corpo, mas sim evitar as flechas de um conquistador invasor ou as lesões incontroláveis da gangrena. Por isso talvez o equilíbrio ácido-base não desempenhasse um papel importante na saúde e na longevidade dos povos primitivos, que raramente ultrapassavam os 35 anos de idade. Mesmo assim, os hábitos nutricionais de nossos antepassados prepararam o terreno bioquímico para a adaptação do homem moderno à dieta.
Cerca de 10 mil anos atrás, com a introdução dos grãos na dieta, especialmente do mais predominante deles, o trigo, o equilíbrio anteriormente alcalino da dieta humana mudou para ácido. A dieta humana moderna, com abundância de “grãos integrais saudáveis”, mas carente de legumes, verduras e frutas, é altamente sobrecarregada de ácidos, provocando um transtorno chamado acidose. Ao longo dos anos, a acidose vai causando danos a seus ossos.
Como o Banco Central, os ossos, desde o crânio até o cóccix, funcionam como um depósito, não de dinheiro, mas de sais de cálcio. O cálcio, idêntico ao encontrado em rochas e nas conchas de moluscos, mantém os ossos rígidos e fortes. Os sais de cálcio nos ossos estão em equilíbrio dinâmico com o sangue e os tecidos; e constituem uma fonte rápida de material alcalinizante para compensar algum ataque ácido. Contudo, como o dinheiro, a reserva não é infinita.
Embora passemos mais ou menos nossos primeiros 18 anos construindo e fazendo crescer o tecido ósseo, passamos o resto de nossa vida destruindo-o, um processo regulado pelo pH do corpo. A leve acidose metabólica crônica decorrente de nossa dieta tem início na adolescência, agrava-se à medida que envelhecemos e persiste durante nossa oitava década5, 6. O pH ácido retira dos ossos o carbonato de cálcio e o fosfato de cálcio para que o pH do corpo se mantenha em 7,4. O meio ácido também estimula células de reabsorção no interior dos ossos, conhecidas como osteoclastos, a trabalhar cada vez mais depressa para dissolver o tecido ósseo e liberar o precioso cálcio na corrente sanguínea.
O problema surge quando você ingere habitualmente ácidos na dieta e, então, recorre às reservas de cálcio repetidas vezes para neutralizar esses ácidos. Embora os ossos tenham uma grande quantidade de reservas de cálcio, elas não são inesgotáveis. Os ossos acabam por se desmineralizar – isto é, suas reservas de cálcio vão se esgotando. É aí que surgem a osteopenia (desmineralização leve), a osteoporose (desmineralização grave), fraqueza e fraturas7. (A fraqueza e a osteoporose costumam andar de mãos dadas, já que existe uma sintonia entre a densidade óssea e a massa muscular.) Por sinal, tomar suplementos de cálcio é tão eficaz para prevenir a perda óssea quanto seria eficaz, para construir um novo pátio, jogar aleatoriamente sacos de cimento e tijolos no seu quintal.
Uma dieta excessivamente acidificada acabará por se manifestar em fraturas de ossos. Uma análise impressionante da incidência mundial de fraturas de quadril deixou evidente uma ligação espantosa: quanto maior a proporção entre a ingestão proteica de origem vegetal em relação à ingestão proteica de origem animal, menor a ocorrência de fraturas de quadril8. A magnitude da diferença era substancial. Enquanto uma proporção de ingestão de proteína vegetal em relação à de proteína animal de 1:1 ou inferior foi associada a até duzentas fraturas do quadril por 100 mil habitantes, uma proporção de ingestão de proteína vegetal em relação à de proteína animal entre 2:1 e 5:1 foi associada a menos de 10 fraturas do quadril por 100 mil habitantes – uma redução de mais de 95%. (Nos níveis mais altos de ingestão de proteína vegetal, a incidência de fratura do quadril praticamente desapareceu.)
As fraturas que resultam de osteoporose não são exatamente o tipo de fratura causada por uma queda na escada. Elas podem também ser fraturas vertebrais causadas por um simples espirro; uma fratura do quadril por causa de um erro de cálculo da altura do meio-fio; uma fratura do antebraço ao manejar um rolo de pastel.
Os modelos alimentares modernos criam, portanto, uma acidose crônica, que por sua vez leva à osteoporose, fragilidade óssea e fraturas. Aos 50 anos de idade, 53,2% das mulheres podem contar com uma fratura no futuro, da mesma forma que 20,7% dos homens9. Compare esse dado com o risco de 10% de uma mulher de 50 anos vir a contrair câncer de mama; ou com o risco de 2,6% de ela contrair câncer do endométrio10.
Até recentemente, acreditava-se que a osteoporose fosse, em grande parte, um transtorno característico de mulheres na pós-menopausa, que perderam os efeitos protetores dos ossos proporcionados pelo estrogênio. Agora, entende-se que o declínio na densidade óssea começa anos antes da menopausa. No Canadian Multicentre Osteoporosis Study [Estudo Multicêntrico Canadense sobre Osteoporose], que contou com 9.400 participantes, as mulheres começaram a apresentar um declínio na densidade óssea no quadril, nas vértebras e no fêmur aos 25 anos, com um forte declínio que resultou em perda acelerada aos 40 anos. Os homens apresentaram um declínio menos acentuado a partir dos 40 anos11. Tanto homens como mulheres apresentaram outra fase de perda óssea acelerada aos 70 anos ou mais. Aos 80 anos, 97% das mulheres têm osteoporose12.
Portanto, nem mesmo a juventude garante uma proteção contra a perda óssea. Na realidade, com o passar do tempo a perda da resistência óssea é a regra, principalmente em decorrência da leve acidose crônica que criamos com a nossa dieta.
 
O QUE HÁ EM COMUM ENTRE A CHUVA ÁCIDA, AS BATERIAS DE AUTOMÓVEIS E O TRIGO?
Ao contrário de todos os outros alimentos de origem vegetal, os cereais geram subprodutos ácidos, e são os únicos vegetais a fazer isso. Como o trigo é, de longe, o cereal predominante na dieta da maioria dos norte-americanos, ele contribui em termos substanciais para a sobrecarga ácida de uma dieta que inclui carnes.
O trigo está entre as fontes mais poderosas de ácido sulfúrico, produzindo mais ácido sulfúrico por peso do que qualquer carne13. (O trigo é suplantado apenas pela aveia, em quantidade de ácido sulfúrico produzido.) O ácido sulfúrico é perigoso. Deixe-o tocar sua pele e ele causará uma queimadura grave. Se ele atingir seus olhos, você poderá ficar cego. (Vá dar uma olhada nos avisos dispostos em destaque na bateria de seu carro.) O ácido sulfúrico presente na chuva ácida causa erosão em monumentos de pedra, mata árvores e outras plantas e perturba o comportamento reprodutivo de animais aquáticos. O ácido sulfúrico produzido pelo consumo de trigo é, sem dúvida, pouco concentrado. Contudo, mesmo em concentrações muito reduzidas ele é um ácido avassaladoramente poderoso, que supera rapidamente os efeitos neutralizadores de bases alcalinas.
Cereais como o trigo são responsáveis por 38% da carga ácida do norte-americano médio, mais que o suficiente para provocar um desequilíbrio na acidez. Mesmo numa dieta limitada a 35% de calorias de origem animal, acrescentar o trigo altera a acidez final da dieta, que passa de alcalina para acentuadamente ácida14.
Uma forma de aferir a extração de cálcio dos ossos induzida pela acidez consiste em medir a perda de cálcio pela urina. Um estudo da Universidade de Toronto examinou o efeito do aumento do consumo de glúten do pão no nível de cálcio eliminado com a urina. Um maior consumo do glúten aumentava a perda de cálcio numa incrível proporção de 63%, associada ao aumento dos marcadores de reabsorção óssea – isto é, marcadores presentes no sangue que indicam o enfraquecimento dos ossos, o que leva a doenças ósseas, como a osteoporose15.
Então, o que acontece quando você consome uma quantidade substancial de carne e derivados mas não compensa a carga ácida com uma quantidade de produtos vegetais alcalinos como o espinafre, o repolho e os pimentões? Disso resulta uma situação de sobrecarga ácida. O que acontece se os ácidos do consumo de carne não são contrabalançados por vegetais alcalinos e o equilíbrio do pH desloca-se ainda mais para o lado ácido, em decorrência do consumo de cereais, como o trigo? É nessa hora que a coisa fica feia. A dieta passa rapidamente para a condição de elevado teor de ácidos.
Resultado: uma carga ácida crônica que corrói a saúde dos ossos.
 
TRIGO, UM TOPETE POSTIÇO E UM CONVERSÍVEL
Lembra-se de Ötzi? Ötzi era o homem de gelo do Tirol cujo corpo mumificado foi descoberto nas geleiras dos Alpes italianos, preservado desde a morte havia mais de 5 mil anos, por volta de 3300 a.C. Embora resíduos de pão ázimo, feito com trigo einkorn, tivessem sido encontrados no trato gastrointestinal de Ötzi, grande parte do bolo alimentar era de carnes e plantas. A vida e a morte de Ötzi aconteceram 4.700 anos depois de os seres humanos terem começado a incorporar cereais a sua dieta, como o einkorn, tolerante ao frio. Mas na cultura de montanheses de Ötzi, o trigo continuava a ser uma porção relativamente pequena da dieta. Ötzi era basicamente caçador-coletor a maior parte do ano. Na realidade, é provável que ele estivesse caçando, com seu arco e flecha, quando encontrou seu fim violento pelas mãos de outro caçador-coletor.
A abundância de carnes da dieta de humanos caçadores-coletores, como Ötzi, fornecia uma carga substancial de ácido. O maior consumo de carnes por Ötzi em comparação com a maioria dos humanos modernos (de 35 a 55% de calorias provenientes de produtos animais) gerava, portanto, mais ácido sulfúrico e outros ácidos orgânicos.
Apesar do consumo relativamente alto de produtos animais, a abundância de vegetais que não eram cereais na dieta dos caçadores-coletores gerava grandes quantidades de sais de potássio alcalinizantes, como o citrato de potássio e o acetato de potássio, que compensavam a sobrecarga ácida. Estima-se que a alcalinidade das dietas primitivas tenha sido de seis a nove vezes maior que a das dietas modernas, em razão da alta proporção de vegetais16. Disso resultava um pH alcalino da urina, que alcançava a faixa de 7,5 a 9, em comparação com a típica faixa ácida dos tempos modernos, de 4,4 a 717.
Entretanto, o trigo e outros grãos entraram em cena e mudaram o equilíbrio para ácido, acompanhado da perda de cálcio dos ossos. O consumo relativamente modesto de trigo einkorn por Ötzi indica que provavelmente sua dieta era alcalina a maior parte do ano. Em comparação, na fartura de nosso mundo moderno, com estoques ilimitados de alimentos baratos que contêm trigo, presentes em todos os cantos e em todas as mesas, a carga ácida inclina a balança acentuadamente para o lado correspondente à acidez.
Se o trigo e outros cereais são responsáveis por deslocar o pH no sentido da acidez, o que acontece se apenas eliminarmos o trigo da dieta moderna, substituindo as calorias perdidas por outros alimentos vegetais, como verduras, legumes, frutas, feijões e outras leguminosas e castanhas? A balança volta a se inclinar para a faixa do alcalino, simulando o que o caçador-coletor experimentava em relação ao pH18.
O trigo é, portanto, o grande perturbador. Ele é a namorada escandalosa do homem em crise da meia-idade, destruidora de uma família feliz. O trigo altera a dieta, que passa de uma que esperava produzir resultado alcalino para outra que produz resultado ácido, e acaba provocando uma constante extração de cálcio dos ossos.
A solução convencional para a dieta ácida dos “grãos integrais saudáveis” e seus efeitos promotores da osteoporose é a prescrição de medicamentos como o alendronato de sódio e o ibandronato de sódio, que pretendem reduzir o risco de fraturas decorrentes de osteoporose, especialmente as do quadril. O mercado de medicamentos para a osteoporose já ultrapassou os 10 bilhões de dólares por ano, o que é muito dinheiro, mesmo para os cofres abarrotados da indústria farmacêutica.
Mais uma vez o trigo entra em cena com seus peculiares efeitos de danos à saúde, abraçado pelo Departamento de Agricultura e fornecendo novas e generosas oportunidades de faturamento aos gigantes da indústria farmacêutica.
 
QUADRIS DE TRIGO PARA ACOMPANHAR SUA BARRIGA DE TRIGO
Você já notou que as pessoas que têm barriga de trigo quase sempre têm também artrite em uma articulação ou em mais de uma? Se não percebeu, observe com que frequência alguém que carrega o característico barrigão também manca ou se encolhe de dor no quadril, no joelho ou nas costas.
A osteoartrite é a manifestação mais frequente da artrite no mundo, mais frequente que a artrite reumatoide, a gota ou qualquer outra variedade do problema. A dolorosa perda de cartilagem entre um osso e outro resultou em artroplastias de joelho e de quadril em 773 mil norte-americanos apenas em 201019.
Não se trata de um probleminha qualquer. Mais de 46 milhões de pessoas, ou um em cada sete norte-americanos, receberam de seus médicos o diagnóstico de osteoartrite20. Muitos outros andam manquitolando por aí, sem um diagnóstico formal.
Durante anos, o senso comum foi o de que a artrite comum dos quadris e joelhos era o mero resultado do desgaste natural, como um excesso de quilometragem nos pneus de seu carro. Uma mulher de 50 quilos: joelhos e quadris com probabilidade de durar a vida inteira. Uma mulher de 100 quilos: joelhos e quadris são sacrificados e se desgastam. O excesso de peso em qualquer parte do corpo – nádegas, barriga, tórax, pernas, braços – representa um esforço mecânico que pode danificar as articulações.
A questão, porém, é mais complexa do que parece. A mesma inflamação que tem origem na gordura visceral da barriga de trigo e resulta em diabetes, doença cardíaca e câncer também gera inflamação nas articulações. Já se mostrou que mediadores hormonais inflamatórios como o fator de necrose tumoral alfa, as interleucinas e a leptina inflamam e desgastam o tecido das articulações21. A leptina, em particular, revelou efeitos destrutivos diretos sobre as articulações: quanto maior o grau de sobrepeso (isto é, IMC mais alto), maior a quantidade de leptina no líquido sinovial e maior a gravidade das lesões nas cartilagens e nas articulações22. O nível de leptina nas articulações espelha com exatidão o nível dessa substância encontrado no sangue.
O risco da artrite é, portanto, ainda maior para alguém que tenha gordura visceral do tipo barriga de trigo, como fica evidente pela probabilidade três vezes maior de artroplastia de joelho e quadril em pessoas que tenham uma circunferência maior na altura da cintura23. Também se explica por que articulações que não sofrem com o excesso de peso, como as das mãos e dos dedos, também desenvolvem artrite.
Perder peso, e com ele a gordura visceral, alivia a artrite mais do que se poderia esperar da simples redução da carga representada pelo excesso de peso24. Num estudo realizado com participantes obesos com osteoartrite, houve 10% de melhora nos sintomas e na função das articulações a cada 1% de redução da gordura corporal25.
A preponderância da artrite, as imagens comuns de pessoas massageando as mãos e joelhos doloridos, leva-nos a acreditar que a artrite é uma consequência forçosa do envelhecimento, tão inevitável quanto a morte, os impostos e as hemorroidas. Não é verdade. As articulações têm, de fato, potencial para nos servir pelas oito ou mais décadas de nossa vida… a menos que as destrocemos com agressões repetidas, como a acidez excessiva e as moléculas inflamatórias – por exemplo, a leptina – produzidas pelas células da gordura visceral.
Outro fenômeno que se soma aos ataques induzidos pelo trigo às articulações ao longo dos anos: a glicação. Você deve se lembrar que os produtos de trigo, mais que praticamente todos os outros alimentos, aumentam o nível de açúcar, isto é, de glicose, no sangue. Quanto mais produtos de trigo você consumir, mais sobem, e com maior frequência, as taxas de glicose no seu sangue, e mais glicação ocorre. A glicação representa uma modificação irreversível das proteínas na corrente sanguínea e nos tecidos do corpo, incluídas as articulações, como as dos joelhos, quadris e mãos.
A cartilagem nas articulações é particularmente suscetível à glicação, pois as células das cartilagens têm uma vida muito longa e não se reproduzem. Uma vez lesionadas, não se recuperam. Exatamente as mesmas células cartilaginosas que estão em seu joelho aos 25 anos de idade estarão aí (esperamos) quando você estiver com 80 anos. Logo, essas células são suscetíveis a todos os altos e baixos bioquímicos de sua vida, entre eles suas aventuras com a glicose no sangue. Se as proteínas das cartilagens, como o colágeno e o agrecan, se tornarem glicadas, elas ficarão anormalmente rígidas. Os danos da glicação são cumulativos, tornando a cartilagem quebradiça e inflexível, até ela acabar por se esfarelar26. Resultado: inflamação, dor e destruição das articulações, características principais da artrite.
Portanto, os altos níveis de açúcar no sangue que estimulam o crescimento de uma barriga de trigo, associados à atividade inflamatória das células da gordura visceral e à glicação da cartilagem, levam à destruição dos ossos e do tecido cartilaginoso nas articulações. Ao longo dos anos, isso resulta nos conhecidos sintomas de dor e inchaço nos quadris, joelhos e mãos.
Essa baguete pode parecer inocente, mas ela faz muito mais mal às articulações do que você imagina.
 
Homem anda depois da eliminação do trigo

Jason é um programador de computadores de 26 anos de idade, inteligente e rapidíssimo para captar ideias. Ele veio a meu consultório com sua jovem mulher porque queria ajuda para, simplesmente, ficar “saudável”.

Quando me disse que, ainda bebê, tinha sido submetido a uma complexa cirurgia para reparar um defeito congênito no coração, eu o interrompi de imediato.

– Espere aí, Jason. Acho que você está no consultório errado. Essa não é minha especialidade.

– É, eu sei. Só preciso de sua ajuda para melhorar minha saúde. Estão me dizendo que talvez eu precise fazer um transplante do coração. Estou sempre sem fôlego, e já precisei ser internado para tratar de insuficiência cardíaca. Gostaria de saber se há alguma coisa que se possa fazer para evitar o transplante ou, se eu realmente precisar fazê-lo, gostaria que me ajudasse a ter uma saúde melhor depois.

Achei que isso era razoável e fiz um gesto para Jason ir até a mesa de exames.

– Certo, entendi. Deixe-me auscultá-lo.

Jason levantou-se da cadeira devagar, encolhendo-se visivelmente, e foi se aproximando da mesa em câmara lenta, nitidamente sentindo dor.

– Qual é o problema? – perguntei. Jason sentou-se na mesa de exames e deu um suspiro.

– Dói tudo. Todas as minhas articulações doem. Mal consigo andar. Às vezes, mal consigo sair da cama.

– Você já consultou um reumatologista? – perguntei.

– Já. Três. Nenhum deles conseguiu descobrir o que havia de errado comigo, por isso eles só prescreveram anti-inflamatórios e analgésicos.

– Você já pensou em modificar sua dieta? – perguntei-lhe. – Já vi muita gente conseguir alívio com a simples eliminação do trigo da dieta.

– Trigo? Quer dizer, pão e macarrão? – perguntou Jason, confuso.

– É, trigo: pão branco, pão integral, pão multigrãos, bagels, bolinhos, pretzels, bolachas, cereais matinais, macarrão, panquecas e waffles. Apesar de parecer que isso é a maior parte do que você come, pode confiar em mim, ainda sobra muita coisa para você comer. – Entreguei-lhe um folheto com detalhes de como orientar sua dieta sem o trigo.

– Faça uma experiência. Elimine todo o trigo por apenas quatro semanas. Se você se sentir melhor, já terá sua resposta. Se não sentir nada de diferente, talvez essa não seja a solução para seu caso.

Jason voltou a meu consultório três meses depois. O que me surpreendeu foi o fato de ele entrar na sala com agilidade, sem nenhum sinal de dor nas articulações.

A melhora experimentada por ele tinha sido profunda e quase imediata.

– Depois de cinco dias, eu não conseguia acreditar. Não sentia absolutamente nenhuma dor. Não acreditei que fosse verdade. Tinha de ser uma coincidência. Então comi um sanduíche. Em cinco minutos, quase 80% da dor tinha voltado. Agora, aprendi a lição.

Além disso, outro fato que me impressionou foi que, quando o examinei pela primeira vez, Jason na realidade apresentava uma leve insuficiência cardíaca. Nessa segunda visita ele já não mostrava o menor sinal de insuficiência cardíaca. Com o alívio das dores articulares, ele me disse, também sua respiração melhorara a ponto de ele conseguir correr distâncias curtas e até mesmo jogar uma partida de basquete de baixa intensidade, coisas que não fazia havia anos. Agora, começamos a reduzir gradativamente as medicações que ele estava tomando para a insuficiência cardíaca.

É óbvio que sou um grande defensor de uma vida sem trigo. Mas, quando se assiste a experiências de reviravolta na vida como a de Jason, ainda fico arrepiado de saber que existia uma solução tão simples para problemas de saúde que tinham deixado um homem jovem praticamente inválido.
 
AS DOBRAS DA BARRIGA ESTÃO RELACIONADAS À ARTICULAÇÃO DO QUADRIL
Como aconteceu no caso da perda de peso e do sistema nervoso central, os portadores de doença celíaca podem nos ensinar algumas coisas acerca dos efeitos do trigo sobre os ossos e as articulações.
A osteopenia e a osteoporose são comuns em pessoas que têm doença celíaca e podem estar presentes ainda que não haja sintomas intestinais, afetando até 70% dos portadores de anticorpos celíacos27, 28. Pelo fato de a osteoporose ser tão comum entre os pacientes celíacos, alguns pesquisadores defendem a ideia de que qualquer pessoa com osteoporose deveria se submeter a exames para verificar a presença da doença celíaca. Um estudo da Clínica de Ortopedia da Universidade de Washington encontrou a doença celíaca não diagnosticada em 3,4% dos participantes com osteoporose, em comparação com 0,2% daqueles que não tinham osteoporose29. A eliminação do glúten da dieta de participantes celíacos que tinham osteoporose produziu uma rápida melhora nos valores da densidade óssea – sem o uso de medicamentos para osteoporose.
As razões para a baixa densidade óssea incluem a absorção deficiente de nutrientes, em especial da vitamina D e do cálcio, além do aumento da inflamação que aciona a liberação de citocinas, como as interleucinas, que atuam na desmineralização dos ossos30. A eliminação do trigo da dieta, portanto, não só reduziu a inflamação, como também permitiu uma melhor absorção de nutrientes.
A gravidade das consequências do enfraquecimento dos ossos é realçada por histórias de horror como a da mulher que sofreu dez fraturas da coluna e das extremidades ao longo de 21 anos, a partir dos 57 anos de idade, todas de ocorrência espontânea. Quando ela se tornou inválida em consequência das fraturas, finalmente foi diagnosticada como celíaca31. Em comparação com pessoas que não têm a doença celíaca, os pacientes celíacos têm um risco três vezes maior de sofrer fraturas32.
A questão espinhosa de indivíduos sem sintomas intestinais que apresentam resultados positivos nos exames para anticorpos antigliadina aplica-se também à osteoporose. Num estudo, 12% das pessoas que tinham osteoporose apresentaram resultado positivo nos testes de detecção do anticorpo antigliadina, embora não tivessem nenhum sintoma ou sinal da doença celíaca, ou seja, intolerância ao trigo ou doença celíaca “silenciosa”33.
O trigo pode manifestar-se em transtornos inflamatórios dos ossos, além da osteoporose e das fraturas. Portadores de artrite reumatoide, uma artrite dolorosa e incapacitante que pode deformar as articulações das mãos e dos joelhos, quadris, cotovelos e ombros, podem apresentar sensibilidade ao trigo associada a essa condição. Em um estudo em que pacientes que sofriam de artrite reumatoide, nenhum deles celíaco, submeteram-se a uma dieta vegetariana, sem glúten, foram observados sinais de melhora da artrite em 40% deles, bem como níveis reduzidos de anticorpos antigliadina34. Talvez seja exagero sugerir que o glúten do trigo foi a causa inicial, o estimulador da artrite, mas ele pode, sim, exercer efeitos inflamatórios exacerbados nas articulações tornadas suscetíveis por outras doenças, como a artrite reumatoide.
Segundo minha experiência, a artrite não acompanhada por anticorpos da doença celíaca costuma responder bem à eliminação do trigo da dieta. Algumas das mais impressionantes reviravoltas que já presenciei em saúde dizem respeito à obtenção de alívio de dores articulares incapacitantes. Como os exames convencionais para detecção de anticorpos para doença celíaca deixam de identificar a maioria dessas pessoas, é difícil quantificar e comprovar esse fato, indo além da melhora que as pessoas alegam sentir. Mas isso pode ser uma pista para fenômenos que se mostram mais promissores para o alívio da artrite.
Será que o risco fora do comum para a osteoporose e as doenças inflamatórias das articulações em pacientes celíacos corresponde a uma exacerbação da situação em consumidores de trigo não celíacos e que não apresentam anticorpos ao glúten? Minha suspeita é de que sim, qualquer ser humano que consuma trigo sofre seus efeitos diretos e indiretos de destruição de ossos e articulações, efeitos que apenas se expressam com mais vigor nos celíacos e nos que apresentam resultados positivos para anticorpos ao glúten.
E se, em vez de uma artroplastia total de quadril ou joelho, aos 62 anos de idade, você optasse por substituir totalmente o trigo de sua dieta?
Os efeitos de maior abrangência da perturbação do equilíbrio ácido-base sobre a saúde estão apenas começando a ser avaliados. Qualquer um que tenha assistido a aulas de química elementar entende que o pH é um fator poderoso na determinação de como reações químicas se desenvolverão. Uma pequena mudança no pH pode ter uma influência profunda no equilíbrio de uma reação. O mesmo vale para o corpo humano.
“Grãos integrais saudáveis”, como o trigo, são a causa de grande parte da natureza altamente ácida da dieta moderna. Além da saúde dos ossos, experiências recentes sugerem que uma dieta que privilegie alimentos alcalinos tem o potencial de reduzir o desgaste muscular relacionado à idade, os cálculos renais, a hipertensão sensível ao sal, a infertilidade e doenças renais.
Remova o trigo e experimente uma redução da inflamação nas articulações, uma menor ocorrência de “picos” de glicose no sangue, que provocam a glicação das cartilagens, e desloque o equilíbrio do pH para alcalino. Sem dúvida é melhor que tomar rofecoxib.
 
(WILLIAM DAVIS - BARRIGA DE TRIGO, LIVRE-SE DO TRIGO, LIVRE-SE DOS QUILOS A MAIS E DESCUBRA SEU CAMINHO DE VOLTA PARA A SAÚDE)  
NOTAS:
  1.  Wyshak, G. “Teenaged Girls, Carbonated Beverage Consumption, and Bone Fractures”. Archives of Pediatrics & Adolescent Medicine, jun. 2000; 154(6):610-3.
  2.  Remer, T., Manz, F. “Potential Renal Acid Load of Foods and its Influence on Urine pH”. Journal of the American Dietetic Association, 1995; 95:791-7.
  3.  Alexy, U.; Remer, T.; Manz, F. et al. “Long-Term Protein Intake and Dietary Potential Renal Acid Load Are Associated with Bone Modeling and Remodeling at the Proximal Radius in Healthy Children”. American Journal of Clinical Nutrition, nov. 2005; 82(5):1107-14.
  4.  Sebastian, A.; Frassetto, L. A.; Sellmeyer, D. E. et al. “Estimation of the Net Acid Load of the Diet of Ancestral Preagricultural Homo sapiens and their Hominid Ancestors”. American Journal of Clinical Nutrition, 2002; 76:1308-16.
  5.  Kurtz, I.; Maher, T.; Hulter, H. N. et al. “Effect of Diet on Plasma Acid-Base Composition in Normal Humans”. Kidney International, 1983; 24:670-80.
  6.  Frassetto, L.; Morris, R. C.; Sellmeyer, D. E. et al. “Diet, Evolution and Aging”. European Journal of Nutrition, 2001; 40:200-13.
  7.  Ibid.
  8.  Frassetto, L. A.; Todd, K. M.; Morris Jr., R. C.; Sebastian, A. “Worldwide Incidence of Hip Fracture in Elderly Women: Relation to Consumption of Animal and Vegetable Foods”. Journals of Gerontology Series A: Biological Sciences and Medical Sciences, 2000; 55:M585-92.
  9.  Van Staa, T. P.; Dennison, E. M.; Leufkens, H. G. et al. “Epidemiology of Fractures in England and Wales”. Bone, 2001; 29:517-22.
10.  Grady, D.; Rubin, S. M.; Petitti, D. B. et al. “Hormone Therapy to Prevent Disease and Prolong Life in Postmenopausal Women”. Annals of Internal Medicine, 1992; 117:1016-37.
11.  Dennison, E.; Mohamed, M. A.; Cooper, C. “Epidemiology of Osteoporosis”. Rheumatic Disease Clinics of North America, 2006; 32:617-29.
12.  Berger, C.; Langsetmo, L.; Joseph, L. et al. “Change in Bone Mineral Density as a Function of Age in Women and Men and Association with the Use of Antiresorptive Agents”. Canadian Medical Association Journal, 2008; 178:1660-8.
13.  Massey, L. K. “Dietary Animal and Plant Protein and Human Bone Health: a Whole Foods Approach”. Journal of Nutrition, 133:862S-5S.
14.  Sebastian et al. American Journal of Clinical Nutrition, 2002; 76:1308-16.
15.  Jenkins, D. J.; Kendall, C. W.; Vidgen, E. et al. “Effect of High Vegetable Protein Diets on Urinary Calcium Loss in Middle-Aged Men and Women”. European Journal of Clinical Nutrition, fev. 2003; 57(2):376-82.
16.  Sebastian et al. American Journal of Clinical Nutrition, 2002; 76:1308-16.
17.  Denton, D. The Hunger for Salt. Nova York: Springer-Verlag, 1962.
18.  Sebastian et al. American Journal of Clinical Nutrition, 2002; 76:1308-16.
19.  American Association of Orthopedic Surgeons. “Facts on Hip Replacements”, em http://www.aaos.org/research/stats/Hip_Facts.pdf.
20.  Sacks, J. J.; Luo, Y. H.; Helmick, C. G. “Prevalence of Specific Types of Arthritis and other Rheumatic Conditions in the Ambulatory Health Care System in the United States, 2001-2005”. Arthritis Care and Research, abr. 2010; 62(4):460-4.
21.  Katz, J. D.; Agrawal, S.; Velasquez, M. “Getting to the Heart of the Matter: Osteoarthritis Takes its Place as Part of the Metabolic Syndrome”. Current Opinion in Rheumatology, 28 jun. 2010. (Publicação eletrônica anterior à impressa).
22.  Dumond, H.; Presle, N.; Terlain, B. et al. “Evidence for a Key Role of Leptin in Osteoarthritis”. Arthritis & Rheumatism, nov. 2003; 48(11):3118-29.
23.  Wang, Y.; Simpson, J. A.; Wluka, A. E. et al. “Relationship between Body Adiposity Measures and Risk of Primary Knee and Hip Replacement for Osteoarthritis: a Prospective Cohort Study”. Arthritis Research & Therapy, 2009; 11:R31.
24.  Toda, Y.; Toda, T.; Takemura, S. et al. “Change in Body Fat, but not Body Weight or Metabolic Correlates of Obesity, is Related to Symptomatic Relief of Obese Patients with Knee Osteoarthritis After a Weight Control Program”. Journal of Rheumatology, nov. 1998; 25(11):2181-6.
25.  Christensen, R.; Astrup, A.; Bliddal, H. et al. “Weight Loss: the Treatment of Choice for Knee Osteoarthritis? A Randomized Trial.” Osteoarthritis and Cartilage, jan. 2005; 13(1):20-7.
26.  Anderson, A. S.; Loeser, R. F. “Why is Osteoarthritis an Age-Related Disease?” Best Practice & Research: Clinical Rheumatology, 2010; 24:15-26.
27.  Meyer, D.; Stavropolous, S.; Diamond, B. et al. “Osteoporosis in a North American Adult Population with Celiac Disease”. American Journal of Gastroenterology, 2001; 96:112-9.
28.  Mazure, R.; Vazquez, H.; Gonzalez, D. et al. “Bone Mineral Affection in Asymptomatic Adult Patients with Celiac Disease”. American Journal of Gastroenterology, dez. 1994; 89(12):2130-4.
29.  Stenson, W. F.; Newberry, R.; Lorenz, R. et al. “Increased Prevalence of Celiac Disease and Need for Routine Screening among Patients with Osteoporosis”. Archives of Internal Medicine, 28 fev. 2005; 165(4):393-9.
30.  Bianchi, M. L.; Bardella, M. T. “Bone in Celiac Disease”. Osteoporosis International, 2008; 19:1705-16.
31.  Fritzsch, J.; Hennicke, G.; Tannapfel, A. “Ten Fractures in 21 Years”. Unfallchirurg, nov. 2005; 108(11):994-7.
32.  Vasquez, H.; Mazure, R.; Gonzalez, D. et al. “Risk of Fractures in Celiac Disease Patients: a Cross-Sectional, Case Control Study”. American Journal of Gastroenterology, jan. 2000; 95(1):183-9.
33.  Lindh, E.; Ljunghall, S.; Larsson, K.; Lavö, B. “Screening for Antibodies Against Gliadin in Patients with Osteoporosis”. Journal of Internal Medicine, 1992; 231:403-6.
34.  Hafström, I.; Ringertz, B.; Spångberg, A. et al. “A Vegan Diet Free of Gluten Improves the Signs and Symptoms of Rheumatoid Arthritis: the Effects on Arthritis Correlate with a Reduction in Antibodies to Food Antigens.” Rheumatology, 2001; 1175-9

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publicado às 13:20

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TUDO BEM. QUER DIZER QUE O TRIGO ATRAPALHA seu intestino, estimula excessivamente seu apetite e faz de você o alvo de piadas por causa da barriga de cerveja. Mas será que ele é assim tão nocivo?
Os efeitos do trigo chegam ao cérebro na forma de peptídeos opioides. Mas essas exorfinas polipeptídicas responsáveis por aqueles efeitos entram no cérebro e saem dele, dissipando-se com o tempo. As exorfinas fazem com que seu cérebro lhe passe instruções para comer mais, aumentar o consumo de calorias e raspar, em desespero, as bolachas velhas no fundo do pacote, quando não houver mais nada à mão.
No entanto, todos esses efeitos são reversíveis. Pare de comer trigo e os sintomas desaparecem, o cérebro se recupera e você se sente novamente disposto a ajudar seu filho adolescente a encarar equações de segundo grau.
Mas os efeitos do trigo sobre o sistema nervoso não param por aí. Entre os mais perturbadores efeitos do trigo estão os que ele exerce sobre o próprio tecido cerebral – não “simplesmente” sobre pensamentos e comportamento, mas sobre o próprio cérebro, sobre o cerebelo e sobre outras estruturas do sistema nervoso, com consequências que vão desde a falta de coordenação até a incontinência, de convulsões a demência. E, ao contrário dos fenômenos de dependência, esses efeitos não são totalmente reversíveis.
 
CUIDADO ONDE PISA: O TRIGO E A SAÚDE DO CEREBELO
Imagine que eu coloque uma venda sobre os seus olhos e o solte num quarto desconhecido, cheio de ângulos e cantos estranhos, com objetos dispostos de modo aleatório para você tropeçar. Com alguns passos, é provável que você se descubra batendo de cara na sapateira. Dificuldades desse tipo são enfrentadas por portadores de um transtorno conhecido como ataxia cerebelar. Só que essas pessoas enfrentam problemas como esse estando de olhos abertos.
São aquelas pessoas que você costuma ver usando bengalas e andadores, ou tropeçando numa rachadura na calçada, o que resulta na fratura de uma perna ou do quadril. Alguma coisa prejudicou a capacidade delas de se orientar no mundo, fazendo com que perdessem o controle sobre o equilíbrio e a coordenação, funções centralizadas numa região do sistema nervoso central denominada cerebelo.
A maioria das pessoas que sofrem de ataxia cerebelar consulta um neurologista, e muitas vezes seu transtorno é diagnosticado como idiopático, isto é, uma moléstia espontânea sem causa conhecida. Nenhum tratamento é prescrito, nem foi desenvolvido nenhum tratamento. O neurologista simplesmente sugere um andador, recomenda que sejam removidos potenciais riscos para tropeços em casa e examina a possibilidade de uso de fraldas para adultos devido à incontinência urinária, que acabará por se desenvolver. A ataxia cerebelar é progressiva, agravando-se a cada ano que passa, até o paciente tornar-se incapaz de pentear o cabelo, escovar os dentes ou ir ao banheiro sozinho. Finalmente, mesmo as atividades mais básicas de cuidados pessoais precisarão ser realizadas por outra pessoa. A essa altura, o paciente está próximo da morte, pois uma debilitação tão extrema acelera complicações como a pneumonia e escaras infectadas.
Entre 10 e 22,5% dos celíacos têm envolvimento do sistema nervoso1, 2. De todas as formas de ataxia já diagnosticadas, 20% apresentam anticorpos para o glúten. Entre pessoas com ataxia inexplicada – ou seja, em que nenhuma outra causa possa ser identificada – 50% têm anticorpos para o glúten no sangue3.
O problema: a maioria das pessoas que sofre de ataxia deflagrada pelo glúten do trigo não apresenta sinais nem sintomas de doença intestinal, nenhuma advertência do tipo celíaco que indique a ocorrência de sensibilidade ao trigo.
A resposta imunológica destrutiva responsável pela diarreia e pelas cólicas abdominais da doença celíaca também pode ser direcionada contra o tecido cerebral. Embora desde 1966 já se suspeitasse que a relação entre o glúten e o cérebro estava por trás do comprometimento neurológico, acreditava-se que ele fosse decorrente das deficiências nutricionais que acompanham a doença celíaca4. Mais recentemente, tornou-se claro que o envolvimento do cérebro e de outras partes do sistema nervoso resulta de um ataque imunológico direto às células nervosas. Os anticorpos antigliadina deflagrados pelo glúten podem unir-se às células nervosas conhecidas como células de Purkinje, exclusivas do cerebelo5. O tecido nervoso, nesse caso as células de Purkinje, não tem a capacidade de se regenerar. Uma vez lesionadas, as células de Purkinje cerebelares estão destruídas… para sempre.
Além da falta de equilíbrio e de coordenação, na ataxia cerebelar induzida pelo trigo podem se manifestar fenômenos tão estranhos como, no linguajar hermético da neurologia, o nistagmo (movimento lateral involuntário do globo ocular), a mioclonia (contrações musculares involuntárias) e a coreia (movimentos involuntários caóticos e rápidos dos membros). Um estudo de 104 pessoas com ataxia cerebelar também revelou dificuldades com a memória e com a capacidade verbal, sugerindo que a destruição induzida pelo trigo também pode atingir o tecido cerebral, isto é, o tecido nervoso que constitui o cérebro, sede do raciocínio e da memória6.
A faixa de idade típica para a manifestação de sintomas de ataxia cerebelar induzida pelo trigo é entre os 48 e os 53 anos. Em exames de ressonância magnética do cérebro, 60% dos afetados revelam atrofia do cerebelo, refletindo a destruição irreversível de células de Purkinje7.
Quando da eliminação do glúten do trigo, ocorre somente uma recuperação limitada das funções neurológicas, em razão da baixa capacidade de regeneração do tecido nervoso. A maioria das pessoas simplesmente deixa de piorar assim que cessa o fluxo de glúten8.
O primeiro obstáculo no diagnóstico da ataxia provocada pela exposição ao trigo consiste em encontrar um médico que chegue a levar em conta a possibilidade desse diagnóstico. Esse pode ser o pior dos obstáculos, já que grande parte da comunidade médica continua a abraçar a ideia de que o trigo faz bem à saúde. Uma vez que ele seja levado em consideração, porém, o diagnóstico é um pouco mais difícil que o simples diagnóstico da doença celíaca intestinal, especialmente porque alguns anticorpos (a forma IgA, em particular) não estão envolvidos na doença do sistema nervoso induzida pelo trigo. Some-se a isso um pequeno problema: a maioria das pessoas faz séria objeção a uma biópsia de cérebro; além disso, será necessário um neurologista bem informado para fazer o diagnóstico. O diagnóstico pode se apoiar em uma combinação de fatores, como a suspeita do problema e a presença de marcadores positivos de HLA DQ, além da observação de melhora ou estabilização quando da eliminação do trigo e do glúten da dieta9.
A dolorosa realidade da ataxia cerebelar é que, na grande maioria dos casos, você só sabe que está com o problema quando começa a tropeçar sozinho, a colidir com paredes ou a molhar as calças. Uma vez que o transtorno se manifeste, é provável que seu cerebelo já esteja encolhido e danificado. Interromper totalmente a ingestão de trigo e glúten a essa altura talvez apenas consiga mantê-lo fora da casa de repouso.
Tudo isso se deve aos bolinhos e bagels pelos quais você é louco.
 
DA CABEÇA AOS PÉS: O TRIGO E A NEUROPATIA PERIFÉRICA
Enquanto a ataxia cerebelar se deve às reações imunológicas deflagradas pelo trigo no cerebelo, um transtorno paralelo ocorre nos nervos das pernas, da pelve e de outros órgãos. Chama-se neuropatia periférica.
Uma causa comum da neuropatia periférica é o diabetes. A repetição, ao longo de anos, das elevadas taxas de glicose no sangue provoca lesões nos nervos das pernas, o que causa a redução da sensibilidade (permitindo assim que um diabético pise numa tachinha sem perceber), a diminuição do controle sobre a pressão sanguínea e os batimentos cardíacos, bem como a lentidão no esvaziamento do estômago (gastroparesia diabética), entre outras manifestações de um sistema nervoso desorientado.
Um grau semelhante de caos no sistema nervoso ocorre com a exposição ao trigo. A média de idade da manifestação da neuropatia periférica induzida pelo trigo é 55 anos. Como ocorre no caso da ataxia cerebelar, a maioria dos pacientes não apresenta sintomas intestinais que sugiram a doença celíaca10.
Diferentemente das células de Purkinje, que são incapazes de se regenerar, os nervos periféricos possuem certa capacidade de regeneração, ainda que limitada, uma vez que sejam removidos da dieta o trigo e o glúten; nesse caso, a maioria das pessoas tem pelo menos uma reversão parcial da neuropatia. Num estudo com 35 pacientes afetados por neuropatia periférica e sensíveis ao glúten, com resultados positivos para o anticorpo antigliadina, os 25 participantes que adotaram uma dieta sem trigo e sem glúten melhoraram ao longo de um ano, enquanto os dez participantes do grupo de controle, que não retiraram o trigo e o glúten da dieta, tiveram sua situação agravada11. Foram realizados também estudos sistemáticos da condução nervosa, que revelaram melhora da condução nervosa no grupo de pacientes que deixou de consumir trigo e glúten, bem como deterioração dessa função no grupo que continuou a consumi-los.
Como o sistema nervoso humano é uma teia complexa de células e redes nervosas, a neuropatia periférica deflagrada pela exposição ao glúten do trigo pode se manifestar numa variedade de formas, conforme os grupos de nervos afetados. A perda de sensibilidade nas duas pernas, associada ao baixo controle sobre os músculos desses membros, denominada neuropatia periférica axonal sensitivo-motora, é a forma mais comum do transtorno. Com menor frequência, pode ser afetado apenas um lado do corpo (neuropatia assimétrica); ou pode ser afetado o sistema nervoso autônomo, a parte do sistema nervoso responsável por funções automáticas, como a pressão sanguínea, a pulsação cardíaca e o controle do intestino e da bexiga12. Se o sistema nervoso autônomo for afetado, podem resultar fenômenos como a perda de consciência e a sensação de tontura quando se está em pé, decorrentes do controle falho da pressão sanguínea, a incapacidade de esvaziar a bexiga ou o intestino e uma pulsação cardíaca inadequadamente rápida.
A neuropatia periférica, não importa como se manifeste, é progressiva e irá se agravar cada vez mais, a menos que sejam totalmente removidos da dieta o trigo e o glúten.
 
Livre-se do trigo sem esforço
Quando conheci Meredith, ela soluçava. Tinha vindo me consultar em razão de uma questão cardíaca sem importância (uma variação no eletrocardiograma que se revelou benigna).
– Dói tudo. Principalmente meus pés – disse-me ela. – Já me receitaram todos os tipos de medicação. E eu detesto esses remédios, porque tive uma porção de efeitos colaterais. O que comecei a tomar há apenas dois meses me deixa com tanta fome que não consigo parar de comer. Já engordei 7 quilos!
Meredith descreveu o que estava acontecendo em seu trabalho como professora: ela mal conseguia ficar em pé diante da turma por causa da dor nos pés. Mais recentemente, também tinha começado a duvidar de sua capacidade para andar, já que estava começando um pouco de falta de equilíbrio e coordenação. O simples ato de se vestir de manhã estava tomando cada vez mais tempo por causa da dor, assim como o fato de ela estar cada vez mais desajeitada, o que atrapalhava atividades banais como vestir uma calça. Embora estivesse com somente 56 anos, ela era forçada a usar uma bengala.
Perguntei-lhe se seu neurologista tinha alguma explicação para suas incapacidades.
– Nenhuma. Todos eles dizem que não há justificativa para isso. E que a única coisa que posso fazer é me adaptar. Eles podem me dar medicamentos para a dor, mas é provável que a situação piore. – Foi nesse momento que ela se descontrolou e desatou a chorar de novo.
Só de olhar para Meredith, suspeitei que houvesse algum problema com o trigo. Além da dificuldade evidente que ela teve para entrar no consultório, seu rosto estava inchado e vermelho. Ela descreveu sua luta com o refluxo gastroesofágico, as cólicas e a distensão abdominal, diagnosticadas como síndrome do intestino irritável. Estava com quase 30 quilos de excesso de peso e apresentava um volume discreto de edema (retenção de água) nas panturrilhas e tornozelos.
Por isso sugeri a Meredith que enveredasse pelo caminho sem trigo. Àquela altura, ela estava tão desesperada por qualquer conselho positivo que concordou em tentar. Também assumi o risco de marcar para ela um teste de esforço, que exigiria que ela andasse em ritmo moderado numa esteira com elevação.
Meredith voltou duas semanas depois. Perguntei-lhe se achava que conseguiria fazer o teste de esforço.
– Tranquilamente! Parei com todo o trigo de imediato, assim que saí da consulta. Levou uma semana, mas a dor começou a diminuir. Neste instante, estou com mais ou menos 10% da dor que eu sentia duas semanas atrás. Eu diria que ela quase sumiu. Já parei com um dos remédios para dor e acho que vou parar o outro ainda nesta semana. – Também estava claro que ela já não precisava da bengala.
Ela relatou que o refluxo gastroesofágico e os sintomas do intestino irritável também tinham desaparecido totalmente. E que ela havia perdido 4 quilos no período de duas semanas.
Meredith encarou a esteira sem dificuldade, conseguindo chegar, sem esforço, a 6 quilômetros por hora com uma elevação de 14%.
 
CÉREBRO DE GRÃOS INTEGRAIS
Acho que todos nós estamos de acordo a este respeito: as funções cerebrais “superiores”, como o pensamento, o aprendizado e a memória, deveriam ficar fora do alcance de intrusos. Nossa mente é profundamente pessoal, representando a soma de tudo o que é cada um e suas experiências. Quem vai querer que vizinhos enxeridos ou vendedores agressivos ganhem acesso ao domínio privado da mente? Embora seja fascinante pensar na noção de telepatia, é também realmente assustador imaginar que alguém possa ler nossos pensamentos.
Para o trigo, nada é sagrado. Nem seu cerebelo, nem seu córtex cerebral. Apesar de não conseguir ler seus pensamentos, ele sem dúvida consegue influir no que acontece em sua mente.
O efeito do trigo sobre o sistema nervoso vai além de uma simples influência sobre o humor, a energia e o sono. É possível ocorrer lesão real ao tecido nervoso, como vimos na ataxia cerebelar. Entretanto, o córtex cerebral, o centro da memória e do raciocínio, onde estão armazenados quem você é, sua personalidade e suas lembranças, a “massa cinzenta” do cérebro, também pode ser atraído para a batalha imunológica contra o trigo, resultando em encefalopatia, ou doença do cérebro.
A encefalopatia por glúten manifesta-se na forma de enxaquecas e sintomas semelhantes aos de derrames cerebrais, como a perda de controle sobre um braço ou uma perna, a dificuldade para falar ou dificuldades visuais13, 14. No exame de ressonância magnética do cérebro, aparecem evidências características de lesões no tecido cerebral em torno de vasos sanguíneos. A encefalopatia por glúten também provoca muitos dos sintomas relacionados ao equilíbrio e à coordenação que ocorrem na ataxia cerebelar.
Num estudo particularmente perturbador da Clínica Mayo com 13 pacientes recém-diagnosticados com doença celíaca, também foi diagnosticada demência. Dessas 13 pessoas, nem a biópsia do lobo frontal (isso mesmo, biópsia do cérebro) nem o exame necroscópico do tecido nervoso identificaram alguma outra patologia além da que está associada à exposição ao glúten do trigo15. Antes da morte ou da biópsia, os sintomas mais comuns eram perda de memória, incapacidade para fazer cálculos aritméticos simples, confusão e alteração da personalidade. Dos 13 pacientes, 9 morreram em decorrência de comprometimento progressivo da função cerebral. Isso mesmo: demência fatal decorrente do consumo de trigo.
Em que proporção a deterioração da mente e da memória desses pacientes pode ser atribuída ao trigo? Essa pergunta ainda não foi respondida a contento. No entanto, um grupo de pesquisa britânico dedicado à investigação dessa questão diagnosticou até o momento 61 casos de encefalopatia, aí incluída a demência, decorrentes do glúten do trigo16.
O trigo, portanto, com o desencadeamento de uma resposta imunológica que se infiltra e atinge a memória e a mente, está associado à demência e à disfunção cerebral. A pesquisa que investiga a relação entre o trigo, o glúten e as lesões ao tecido nervoso mal começou, e ainda há muitas perguntas sem resposta, mas o que já sabemos é extremamente perturbador. Tremo só de pensar no que ainda podemos descobrir.
A sensibilidade ao glúten pode também se manifestar na forma de convulsões. As convulsões que surgem em resposta ao trigo costumam ocorrer em jovens, com frequência em adolescentes. Essas convulsões costumam ser do tipo do lobo temporal – isto é, originadas no lobo temporal do cérebro, a região desse órgão localizada na altura das têmporas. As pessoas que sofrem convulsões do lobo temporal sofrem alucinações do olfato e do paladar, experimentam sentimentos emocionais estranhos e inadequados como um medo avassalador sem nenhum motivo e comportamentos repetitivos, como estalar os lábios ou movimentar as mãos. Uma síndrome peculiar de convulsões do lobo temporal, que não reage a medicações para convulsões e é deflagrada pela acumulação de cálcio numa região do lobo temporal denominada hipocampo (responsável pela formação de memórias recentes) foi associada tanto à doença celíaca como à sensibilidade ao glúten (resultado positivo para anticorpos antigliadina e marcadores HLA sem doença intestinal)17.
Pode-se esperar que de 1 a 5,5% dos pacientes celíacos também apresentem diagnóstico de convulsões18, 19. As convulsões do lobo temporal deflagradas pelo glúten do trigo são atenuadas depois da eliminação do glúten da dieta20, 21. Um estudo revelou que epilépticos que sofrem de convulsões generalizadas, muito mais graves (grande mal), tinham uma probabilidade duas vezes maior (19,6% em comparação com 10,6%) de apresentar sensibilidade ao glúten, sem a doença celíaca, na forma de níveis mais elevados de anticorpos antigliadina22.
É preocupante a ideia de que o trigo é capaz de penetrar no sistema nervoso humano e causar alterações mentais, comportamentais e estruturais, chegando, de vez em quando, a provocar convulsões.
 
É O TRIGO OU É O GLÚTEN?
O glúten é o componente do trigo associado decisivamente à deflagração de fenômenos imunológicos destrutivos, quer estes se expressem como doença celíaca, como ataxia cerebelar ou como demência. Contudo, muitos efeitos do trigo sobre a saúde, entre eles os exercidos sobre o cérebro e outros órgãos do sistema nervoso, não têm nada que ver com fenômenos imunológicos desencadeados pelo glúten. As propriedades do trigo de gerar dependência, por exemplo, que se expressam como obsessão e tentação avassaladora e podem ser obstruídas por medicação de bloqueio de opiáceos, não decorrem diretamente do glúten, mas das exorfinas, produto da digestão do glúten. Embora ainda não tenha sido identificado o componente do trigo responsável por desvios comportamentais em portadores de esquizofrenia e em crianças que sofrem de autismo ou TDA/H, é provável que esses fenômenos também sejam decorrentes das exorfinas do trigo, e não de uma resposta imunológica deflagrada pelo glúten. Diferentemente da sensibilidade ao glúten, que em geral pode ser diagnosticada por meio de exames para detectação de anticorpos, ainda não se conhece nenhum marcador que possa ser medido para avaliação dos efeitos das exorfinas.
Os efeitos que não resultam do glúten podem somar-se aos efeitos do glúten. A influência psicológica das exorfinas do trigo sobre o apetite e o impulso, os efeitos do trigo sobre o ciclo da glicose e da insulina e talvez outros efeitos desse cereal que ainda estão por ser descritos podem ocorrer independentemente ou em associação com efeitos imunológicos. Alguém que esteja sofrendo de doença celíaca intestinal não diagnosticada pode ter um estranho e insaciável desejo pelo alimento que provoca lesões em seu intestino delgado, mas também pode manifestar, com o consumo do trigo, taxas de glicose no sangue típicas de diabéticos, além de grandes alterações do humor. Outra pessoa, que não tenha a doença celíaca, pode acumular gordura visceral e apresentar comprometimento neurológico decorrente do consumo do trigo. Outros podem se tornar diabéticos, adquirir sobrepeso, sentir-se irremediavelmente cansados, mesmo sem os efeitos imunológicos intestinais do glúten do trigo ou aqueles que atingem o sistema nervoso. O emaranhado de consequências para a saúde decorrentes do consumo do trigo é realmente impressionante.
A tremenda variedade de formas com que os efeitos neurológicos do trigo podem se manifestar complica a obtenção do “diagnóstico”. Efeitos imunológicos em potencial podem ser aferidos com exames de sangue para detecção de anticorpos. Contudo, efeitos não imunológicos não são revelados por nenhum exame de sangue e são, portanto, mais difíceis de identificar e quantificar.
O mundo do “cérebro de trigo” acaba de abrir uma brecha para a entrada de luz. Quanto maior a intensidade da luz, mais feia se apresenta a situação.

(WILLIAM DAVIS - BARRIGA DE TRIGO, LIVRE-SE DO TRIGO, LIVRE-SE DOS QUILOS A MAIS E DESCUBRA SEU CAMINHO DE VOLTA PARA A SAÚDE)

NOTAS:
  1.  Hadjivassiliou, M.; Sanders, D. S.; Grünewald, R. A. et al. “Gluten Sensitivity: from Gut to Brain”. Lancet, mar. 2010; 9:318-30.
  2.  Holmes, G. K. “Neurological and Psychiatric Complications in Coeliac Disease”. In: Gobbi, G., Anderman, F.; Naccarato, S. et al. (orgs.): Epilepsy and other Neurological Disorders in Celiac Disease. Londres: John Libbey; 1997:251-64.
  3.  Hadjivassiliou, M.; Grünewald, R. A.; Sharrack, B. et al. “Gluten Ataxia in Perspective: Epidemiology, Genetic Susceptibility and Clinical Characteristics”. Brain, 2003; 126:685-91.
  4.  Cooke, W.; Smith, W. “Neurological Disorders Associated with Adult Celiac Disease”. Brain, 1966; 89:683-722.
  5.  Hadjivassiliou, M.; Boscolo, S.; Davies-Jones, G. A. et al. “The Humoral Response in the Pathogenesis of Gluten Ataxia”. Neurology, 23 abr. 2002; 58(8):1221-6.
  6.  Bürk, K.; Bosch, S.; Müller, C. A. et al. “Sporadic Cerebellar Ataxia Associated with Gluten Sensitivity”. Brain, 2001; 124:1013-9.
  7.  Wilkinson, I. D.; Hadjivassiliou, M.; Dickson, J. M. et al. “Cerebellar Abnormalities on Proton MR Spectroscopy in Gluten Ataxia”. Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry, 2005; 76:1011-3.
  8.  Hadjivassiliou, M.; Davies-Jones, G.; Sanders, D. S.; Grünewald, R. A. “Dietary Treatment of Gluten Ataxia”. Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry, 2003; 74:1221-4.
  9.  Hadjivassiliou et al. Brain, 2003; 126:685-91.
10.  Ibid.
11.  Hadjivassiliou, M.; Kandler, R. H.; Chattopadhyay, A. K. et al. “Dietary Treatment of Gluten Neuropathy”. MuscleNerve, dez. 2006; 34(6):762-6.
12.  Bushara, K. O. “Neurologic Presentation of Celiac Disease”. Gastroenterology, 2005; 128:S92-7.
13.  Hadjivassiliou et al. Lancet, mar. 2010; 9:318-30.
14.  Hu, W. T.; Murray, J. A.; Greenway, M. C. et al. “Cognitive Impairment and Celiac Disease”. Archives of Neurology, 2006; 63:1440-6.
15.  Ibid.
16.  Hadjivassiliou et al. Lancet, mar. 2010; 9:318-30
17.  Peltola, M.; Kaukinen, K.; Dastidar, P. et al. “Hippocampal Sclerosis in Refractory Temporal Lobe Epilepsy is Associated with Gluten Sensitivity”. Journal of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry, jun. 2009; 80(6):626-30.
18.  Cronin, C. C.; Jackson, L. M.; Feighery, C. et al. “Celiac Disease and Epilepsy”. Quartely Journal of Medicine, 1998; 91:303-8.
19.  Chapman, R. W.; Laidlow, J. M.; Colin-Jones, D. et al. “Increased Prevalence of Epilepsy in Celiac Disease”. British Medical Journal, 1978; 2:250-1.
20.  Mavroudi, A.; Karatza, E.; Papastravrou, T. et al. “Successful Treatment of Epilepsy and Celiac Disease with a Gluten-Free Diet”. Pediatric Neurology, 2005; 33:292-5
21.  Harper, E.; Moses, H.; Lagrange, A. “Occult Celiac Disease Presenting as Epilepsy and MRI Changes that Responded to Gluten-Free Diet”. Neurology, 2007; 68:533.
22.  Ranua, J.; Luoma, K.; Auvinen, A. et al. “Celiac Disease-Related Antibodies in an Epilepsy Cohort and Matched Reference Population”. Epilepsy & Behavior, maio 2005; 6(3):388-92.

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publicado às 14:51


QUE BARRIGA?

por Thynus, em 13.02.17
O médico que tem conhecimento científico acolhe bem o estabelecimento de um padrão de pão de forma feito em conformidade com as melhores evidências da ciência. […] Tal produto pode ser incluído em dietas tanto para pessoas enfermas como para pessoas saudáveis, com uma nítida compreensão dos efeitos que ele pode ter sobre a digestão e o crescimento.
(Doutor Morris Fishbein, editor Journal of the American Medical Association, 1932)
 
EM SÉCULOS PASSADOS, uma barriga proeminente era uma característica dos privilegiados, um sinal de prosperidade e sucesso, um símbolo de que a pessoa não precisava limpar seus estábulos ou arar suas terras. No século atual, não é preciso arar a própria terra. Hoje, a obesidade foi democratizada. Todo o mundo pode ter um barrigão. Seu pai chamava a dele, uma barriga ainda incipiente de meados do século XX, de “barriga de cerveja”. Mas por que a “barriga de cerveja” também é vista em mães assoberbadas de afazeres, em crianças e na metade de seus amigos e vizinhos que não bebem cerveja?
Eu a chamo de “barriga de trigo”, embora também pudesse chamar esse problema de “cabeça de pretzel”, “intestino de rosquinha” ou “cara de bolacha”, já que não há um sistema no organismo que não seja afetado pelo trigo. No entanto, o impacto do trigo na cintura das pessoas é sua característica mais visível e determinante, uma expressão externa das grotescas deformações sofridas pelos seres humanos com o consumo desse cereal.
Uma “barriga de trigo” representa a deposição de gordura resultante de anos de ingestão de alimentos que acionam a insulina, hormônio responsável pelo armazenamento de gordura. Enquanto algumas pessoas armazenam a gordura no traseiro e nas coxas, a maioria acumula uma gordura deselegante em torno da cintura. Essa gordura “central” ou “visceral” tem características exclusivas. Diferentemente da gordura acumulada em outras áreas do corpo, ela provoca processos inflamatórios, altera as respostas insulínicas e emite sinais metabólicos anormais para o resto do corpo. No homem que tem “barriga de trigo” e não se dá conta disso, a gordura visceral também produz estrogênio, que provoca o desenvolvimento de “seios”.
As consequências do consumo de trigo, porém, não se manifestam apenas na superfície do corpo. O trigo também pode atingir profundamente quase todos os órgãos do corpo, como os intestinos, o fígado, o coração, a glândula tireoide e até mesmo órgãos do sistema nervoso. Na realidade, praticamente não existe nenhum órgão que não seja afetado pelo trigo de algum modo potencialmente prejudicial.
 
OFEGANDO E TRANSPIRANDO NO CORAÇÃO DO PAÍS
Pratico cardiologia preventiva em Milwaukee. Como muitas outras cidades do Meio Oeste, Milwaukee é um bom lugar para morar e criar uma família. Os serviços municipais funcionam bastante bem, as bibliotecas são de primeira qualidade, meus filhos frequentam boas escolas públicas e a população é grande o suficiente para dispor de atrações culturais de cidade grande, como uma excelente orquestra sinfônica e um museu de belas-artes. As pessoas que vivem aqui são bastante simpáticas. Mas… são gordas.
Não quero dizer que são gordinhas. Estou dizendo que são gordas, de verdade. Estou falando de pessoas tão gordas que ficam ofegantes e transpiram ao subir apenas um lance de escadas. De mulheres com apenas 18 anos e quase 110 quilos, de picapes com forte inclinação para o lado do motorista, de cadeiras de rodas de largura dupla, de equipamentos hospitalares inadequados para atender pacientes que levam o ponteiro da balança aos 160 quilos ou mais. (Não é só o fato de eles não caberem no aparelho para tomografia computadorizada ou outro dispositivo para obter imagens, o problema é que, ainda que coubessem, ninguém conseguiria enxergar nada. Seria como tentar determinar se um vulto no oceano turvo é um linguado ou um tubarão.)
Foi-se o tempo em que um indivíduo de 110 quilos ou mais era uma raridade. Hoje é algo comum entre os homens e mulheres que passeiam pelo shopping, algo tão corriqueiro quanto a venda de jeans na Gap. Aposentados têm sobrepeso ou estão obesos, assim como adultos de meia-idade, adultos jovens, adolescentes e até mesmo crianças. Funcionários de escritórios são gordos. Trabalhadores braçais são gordos. Sedentários são gordos, e atletas também. Brancos são gordos, assim como os negros, os hispânicos e os asiáticos. Quem come carne é gordo, e quem é vegetariano também. O povo norte-americano foi contaminado pela obesidade num grau jamais visto na experiência humana. Nenhum perfil demográfico escapou à crise do ganho de peso.
Pergunte ao Departamento de Agricultura dos Estados Unidos ou ao departamento encarregado da saúde pública, e eles lhe dirão que os norte-americanos são gordos porque consomem muito refrigerante e batata frita, tomam muita cerveja e não fazem exercícios. E tudo isso pode mesmo ser verdade. Mas está longe de ser toda a verdade.
Muitas pessoas com sobrepeso estão, de fato, bastante preocupadas com a própria saúde. Pergunte a qualquer um que esteja fazendo a balança chegar aos 110 quilos o que ele acha que aconteceu que justifique um ganho de peso tão incrível. Você pode ficar surpreso com a quantidade de pessoas que não vão dizer: “Eu tomo copos gigantes de refrigerante, como biscoitos recheados e vejo televisão o dia inteiro.” A maioria delas vai dizer alguma coisa do tipo “Não consigo entender. Faço exercícios cinco vezes por semana. Cortei o consumo de gorduras e aumentei o de grãos integrais saudáveis. Mesmo assim parece que não paro de ganhar peso!”
 
COMO CHEGAMOS AQUI?
A tendência nacional para a redução na ingestão de gorduras e colesterol e o aumento na de carboidratos calóricos gerou uma situação singular, na qual produtos feitos com trigo não só ampliaram sua presença em nossa dieta, como também passaram a dominá-la. Para a maioria dos norte-americanos, todas as refeições e lanches incluem alimentos que contêm farinha de trigo. Pode ser o prato principal, o acompanhamento ou a sobremesa – mas é provável que sejam todos eles.
O trigo tornou-se o símbolo nacional da saúde: “Comam mais grãos integrais, é mais saudável”, é o que nos dizem; e a indústria alimentícia adotou a ideia com prazer, criando versões “boas para o coração”, repletas de grãos integrais, de todos os produtos de trigo de que mais gostamos.
A triste verdade é que a proliferação de produtos feitos de trigo na dieta norte-americana corresponde à expansão de nossa cintura. A recomendação de que se reduzisse a ingestão de gorduras e colesterol e se repusessem essas calorias pelo consumo de grãos integrais, feita pelo National Heart, Lung, and Blood Institute [Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue] por intermédio de seu National Cholesterol Education Program [Programa Nacional de Educação sobre o Colesterol], em 1985, coincide exatamente com o início de uma acentuada curva ascendente do peso corporal de homens e mulheres. Por ironia, foi também em 1985 que os Centers for Disease Control and Prevention (CDC) [Centros para Controle e Prevenção de Doenças] começaram a rastrear estatísticas de peso corporal, documentando organizadamente a explosão de obesidade e diabetes que começou naquele mesmo ano.
De todos os grãos que participam da dieta humana, por que escolher o trigo? Porque, em nossa dieta, o trigo é, de longe, a principal fonte da mistura de proteínas conhecida como glúten. A menos que sejam como Euell Gibbons (Euell Gibbons é um norte-americano que se tornou referência por divulgar plantas invasoras e espécies silvestres como comestíveis), a maioria das pessoas não come muito centeio, cevada, espelta, triticale, os trigos bulgur e kamut ou outras fontes menos comuns de glúten. O consumo de trigo supera o de outros grãos que contêm glúten numa proporção de mais de cem para um. O trigo também tem atributos especiais que esses outros grãos não possuem e que o tornam especialmente destrutivo para nossa saúde; falarei sobre eles em capítulos posteriores. No entanto, concentro minha atenção no trigo porque, na grande maioria das dietas norte-americanas, as expressões “exposição ao glúten” e “exposição ao trigo” podem ser usadas uma pela outra. Por esse motivo, costumo usar a palavra “trigo” para referir-me a todos os grãos que contêm glúten.
O impacto do Triticum aestivum, o trigo comum de panificação, e de seus irmãos genéticos sobre a saúde tem amplo alcance, provocando estranhos efeitos desde a boca até o ânus, do sistema nervoso ao pâncreas, afetando desde a dona de casa nos Apalaches até o arbitrador de Wall Street.
Se tudo isso parece loucura, tenha paciência. Faço essas afirmações com a consciência limpa, livre de trigo.
 
EXAGEROS NUTRICIONAIS
Como a maioria das crianças de minha geração, nascidas em meados do século XX e criadas à base de pão de forma branco e bolos de chocolate recheados com chantili, tenho um longo e íntimo relacionamento com o trigo. Minhas irmãs e eu éramos verdadeiros especialistas em cereais matinais, preparávamos nossas próprias misturas individuais das marcas Trix, Lucky Charms e Froot Loops, e bebíamos avidamente o leite doce, em tom pastel, que ficava no fundo da tigela. É claro que a Grande Experiência com os Alimentos Industrializados não terminava com o café da manhã. Para a merenda na escola, minha mãe geralmente preparava sanduíches de manteiga de amendoim ou de uma mortadela do tipo bolonha, um prenúncio dos minirrocamboles de chocolate e creme e tortinhas semelhantes a alfajores embalados em celofane. Às vezes, ela acrescentava também alguns biscoitos de baunilha ou de chocolate recheados com creme. Na hora do jantar, adorávamos as refeições prontas, que vinham embaladas em recipientes individuais de alumínio e permitiam que comêssemos nosso frango empanado, os bolinhos de milho e o crumble de maçãs enquanto assistíamos ao Agente 86.
Em meu primeiro ano na faculdade, de posse de um vale-refeição que me permitia comer tudo o que eu quisesse, empanturrava-me de waffles e panquecas no café da manhã, fettuccine Alfredo na hora do almoço, massa com pão italiano no jantar. Bolinho com sementes de papoula ou bolo de claras na sobremesa? Isso mesmo! Eu não só ganhei um bom pneu em torno da cintura, aos 19 anos de idade, como também me sentia exausto o tempo todo. Nos vinte anos que se seguiram, tentei combater esse efeito bebendo litros de café, esforçando-me para me livrar da espécie de estupor difuso, que persistia, não importava quantas horas eu dormisse por noite.
Entretanto, nada disso chegou realmente a me afetar até eu dar com uma foto que minha mulher tinha tirado de mim, em umas férias com nossos filhos, na época com 10, 8 e 4 anos de idade, em Marco Island, na Flórida. Era o ano de 1999.
Na fotografia, eu estava dormindo na areia, com meu abdome flácido espalhado para cada um dos lados do corpo, minha papada pousada nos braços flácidos, cruzados sobre o peito.
Naquele instante recebi um golpe: eu não precisava perder só uns quilinhos. Estava com, no mínimo, 15 quilos de peso acumulado em torno da cintura. O que meus pacientes deviam pensar, quando eu lhes dava conselhos sobre dieta? Eu não era melhor do que os médicos da década de 1960, que, enquanto recomendavam aos pacientes que levassem uma vida mais saudável, tragavam seus cigarros.
Por que eu estava com aqueles quilos a mais? Afinal de contas, eu corria de cinco a oito quilômetros todos os dias, seguia uma dieta razoável e balanceada, que não incluía quantidades excessivas de carnes ou gorduras, evitava fazer lanchinhos ou comer junk food, preferindo consumir uma boa quantidade dos saudáveis grãos integrais. O que estava acontecendo no meu caso?
É claro que eu tinha minhas suspeitas. Não pude deixar de perceber que nos dias em que comia torradas, waffles ou bagels (Bagel é um pão de massa pré-cozida, posteriormente assado, que tem a forma de uma rosca de uns 15 centímetros de diâmetro e pode ser doce ou salgado) no café da manhã, passava algumas horas sentindo sonolência e letargia. Mas se comesse uma omelete de queijo feita com três ovos, eu me sentia bem. Alguns exames básicos de laboratório, no entanto, realmente me surpreenderam. Triglicerídeos: 350 mg/dL; colesterol HDL (colesterol “bom”): 27 mg/dL. E eu estava diabético, com uma taxa de açúcar em jejum de 161 mg/dL. Corria quase todos os dias, mas estava com sobrepeso e diabético? Devia haver alguma coisa muito errada em minha alimentação. De todas as mudanças que eu fizera nela, em nome da saúde, aumentar minha ingestão de grãos integrais saudáveis fora a mais significativa. Será que os grãos estariam, de fato, me engordando?
Aquele instante em que me dei conta de minha flacidez foi o início de uma viagem, acompanhando o rastro das migalhas, de volta ao momento em que comecei a ter sobrepeso e todos os problemas de saúde que o acompanharam. Contudo, foi quando observei efeitos ainda mais extensos, numa escala maior, além de minha experiência pessoal, que eu me convenci de que, realmente, alguma coisa estranha estava acontecendo.
 
LIÇÕES DE UM EXPERIMENTO SEM TRIGO
Um fato interessante: o pão de trigo integral (cujo índice glicêmico é 72) aumenta a taxa de açúcar no sangue tanto ou mais que o açúcar comum, a sacarose (cujo índice glicêmico é 59). (Atribui-se o valor 100 ao aumento da taxa de açúcar no sangue provocado pela glicose; assim, considera-se que o índice glicêmico da glicose é igual a 100. A capacidade de um alimento específico de aumentar a taxa de açúcar no sangue, em relação à glicose, determina o índice glicêmico desse alimento.) Então, quando eu estava criando uma estratégia para ajudar meus pacientes com sobrepeso e propensos ao diabetes a reduzir a taxa de açúcar no sangue de modo mais eficaz, ficou claro para mim que a maneira mais rápida e simples de obter resultados seria a eliminação de alimentos que causavam um aumento mais acentuado da taxa de açúcar no sangue. Em outras palavras, não o açúcar, mas o trigo. Produzi um folheto simples em que detalhava como substituir alimentos que tinham o trigo como principal ingrediente por alimentos integrais de baixo índice glicêmico, para criar uma dieta saudável.
Três meses depois, meus pacientes fizeram novos exames de sangue. De fato, como eu previra, com apenas raras exceções, a taxa de glicose no sangue (glicemia) tinha, com frequência, passado da faixa correspondente ao diabetes (126 mg/dL ou mais) para índices normais. Sim, diabéticos tinham deixado de ser diabéticos. É isso mesmo: o diabetes, em muitos casos, pode ser curado – não apenas controlado – pela remoção de carboidratos, especialmente o trigo, da dieta. Muitos de meus pacientes tinham também perdido 10, 15, até mesmo 20 quilos.
Todavia, foi o que eu não esperava que me deixou pasmo.
Os pacientes relataram que sintomas de refluxo gástrico tinham desaparecido e que as periódicas cólicas e diarreias da síndrome do intestino irritável haviam acabado. Eles tinham recuperado a energia; conseguiam se concentrar melhor; o sono era mais profundo. Erupções cutâneas tinham desaparecido, até mesmo as que estavam presentes havia anos. A dor causada pela artrite reumatoide se abrandara ou desaparecera, permitindo-lhes reduzir e até mesmo eliminar os medicamentos desagradáveis usados no tratamento do problema. Os sintomas de asma tinham se amenizado ou desaparecido por completo, fazendo com que muitos se desfizessem de seus aparelhos de inalação. Os atletas relataram um desempenho mais uniforme.
Mais magros. Com mais energia. Com o pensamento mais claro. Com os intestinos, as articulações e os pulmões mais saudáveis. Repetidas vezes. Sem dúvida, esses resultados eram razão suficiente para abandonar o trigo.
O que me convenceu ainda mais foram os muitos exemplos de pessoas que eliminaram o trigo da dieta e depois se permitiram consumi-lo como um pequeno prazer: dois pretzels ou um canapé num coquetel. Em questão de minutos, muitos tiveram diarreia, dor e inchaço nas articulações ou experimentaram chiados na respiração. Como se tivesse sido acionado por um interruptor, o fenômeno se repetia.
O que começara como uma simples experiência para tentar reduzir a taxa de açúcar no sangue das pessoas culminou com um insight sobre múltiplos problemas de saúde e perda de peso, que ainda hoje me deixa assombrado.
 
UMA TRIGOTOMIA RADICAL
Para muitos, a ideia de remover o trigo da dieta é, pelo menos psicologicamente, tão dolorosa quanto um tratamento de canal sem anestesia. Para alguns, o processo pode até apresentar efeitos colaterais desconfortáveis, semelhantes ao da privação de cigarros ou do álcool. Mas esse procedimento deve ser seguido para permitir que o paciente se recupere.
Barriga de trigo investiga a seguinte proposição: os problemas de saúde dos norte-americanos, da fadiga à artrite, do desconforto gastrointestinal à obesidade, têm como origem o bolinho de farelo ou a rosca de passas e canela, de aparência inocente, que cada um consome com o café todas as manhãs.
A boa notícia: existe cura para essa condição chamada “barriga de trigo” – ou, se preferirem, “cabeça de pretzel”, “intestino de rosquinha” ou “cara de bolacha”.
O ponto essencial: a eliminação desse alimento, que participa da cultura humana há mais séculos do que Larry King esteve no ar, vai deixá-lo mais esguio, mais esperto, mais ágil e mais feliz. A perda de peso, em particular, pode ocorrer a uma velocidade que não se acreditava possível. E você poderá perder, de modo seletivo, a gordura mais visível, que prejudica a ação da insulina, gera o diabetes, propicia inflamações e causa constrangimento: a gordura da barriga. É um processo que se conclui praticamente sem fome ou privação e que traz uma ampla gama de benefícios para a saúde.
Por que então eliminar o trigo em vez do açúcar, digamos, ou todos os grãos em geral? O próximo capítulo explicará por que o trigo não tem paralelo entre os grãos modernos em sua capacidade de se converter rapidamente em glicose no sangue. Além disso, ainda são pouco compreendidas e mal estudadas a composição genética do trigo e suas propriedades viciantes, causadoras de dependência, que realmente fazem com que comamos ainda mais. O trigo foi associado a literalmente dezenas de enfermidades debilitantes, além daquelas decorrentes do sobrepeso, e se infiltrou em quase todos os aspectos de nossa dieta. Sem dúvida é provável que eliminar o açúcar refinado seja uma boa ideia, já que ele tem pouco ou nenhum valor nutritivo e também influi negativamente em nossa glicemia. No entanto, para obter os melhores resultados por seu esforço, eliminar o trigo é a medida mais fácil e eficaz que você pode tomar para proteger sua saúde e reduzir sua cintura.
 
(WILLIAM DAVIS - BARRIGA DE TRIGO, LIVRE-SE DO TRIGO, LIVRE-SE DOS QUILOS A MAIS E DESCUBRA SEU CAMINHO DE VOLTA PARA A SAÚDE)

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PSICOLOGIA OU MEDICINA?

por Thynus, em 13.02.17
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Orientador profissional esclarece
Quando fui fazer Psicologia, tinha a ilusão de encontrar uma ciência exata. Foi um enorme desaponto perceber o quão obscuras e divergentes eram as teorias apresentadas sobre a natureza humana. Eu até ficava contente com algumas explicações sobre o funcionamento dos neurotransmissores do cérebro, mas não enxergava onde aquilo somava com um entendimento maior do funcionamento do corpo. Então por que não fiz Medicina, já que meu pai é médico e poderia até me ajudar abrindo caminhos na hora de exercer a profissão? Na verdade, essa ideia de fazer Medicina passava pela minha cabeça, mas, quando pensava no tanto que teria que estudar para passar no vestibular, logo a abandonava. Acho que eu não queria tanto assim.
Eu também achava que a medicina ocidental era muito fragmentada.Ela também não tinha a “exatidão” que eu buscava.
As especialidades pareciam brotar em uma curva ascendente sem fim. Conhecemos cada vez mais as partes da máquina, mas não conhecemos o templo grandioso que é o corpo com toda a sua complexidade, com todos os outros níveis corpóreos de densidades mais sutis, como o corpo mental e o emocional.
Os pacientes têm que ir de especialidade em especialidade, pulando de galho em galho, porque o sintoma físico vai mudando de posição, de órgão, de localização, buscando encontrar algum equilíbrio torto. De fato, muitas vezes a raiz do problema está longe de ser descoberta. Hoje entendo que, como todos os outros temas do conhecimento, nada está concluído.
O conhecimento vai evoluindo e as ideias vão se aprimorando, as partes se juntando, as conexões se formando.
Mas uma coisa ainda me incomoda: não damos o valor e o poder que os pensamentos e os sentimentos merecem. Não damos a eles a dimensão e o impacto que exercem em nossa vida diária, em nossas escolhas e qualidade de vida.
Segundo a Psicossomática, a doença é, muitas vezes, um sintoma. A doença física pode representar um pensamento estragado, uma crença errada, um conflito inconsciente. Muito do que acontece com o corpo começou emoutro lugar. O corpo é nossa parte mais densa. É a única peça que conseguimos enxergar e a última impactada por nossos pensamentos.
As doenças começam nas emoções destrutivas não liberadas, não aceitas, não elaboradas.
Quando será que a ciência se fundirá com a espiritualidade? Sem esoterismo, a ciência (se é que isso já não acontece) irá desvendar aos poucos muito mais do que se sabe hoje.Como a tecnologia, que revelou para nós um mundo inteiramente novo, mesmo que já existisse antes. Acredito que a ciência poderá fazer a mesma coisa com a espiritualidade. Poderemos entender muito mais as relações entre mente, emoção e corpo,sem charlatanismo, sem exageros, generalizações, mas com maturidade de raciocínio. E por que não investigarmos mais esse tema? Por que não investirmos em pesquisas sérias? Acho triste a quantidade de dinheiro investida para se fazer descobertas espaciais. Bilhões de dólares...
Leio matérias sobre terem descoberto água em outros planetas e fico chocada. Tem gente que ainda pensa que somos os únicos no universo? Essas pessoas não têm ideia do tamanho desse negócio ainda? Por queseríamos os únicos? Por que não se despende esse dinheiro com coisas melhores? Educação, por exemplo? Por que não aprendemos na escola alguns conhecimentos colocando-os em prática, conhecendo nossas habilidades? Trocando o chuveiro, trocando pneu de carro, fazendo uma comida?
Não aprendemos nada sobre nutrição e nos alimentamos porcamente. Por que não ensinar sobre as emoções? Como se relacionar da melhor forma? Como se comunicar com os outros? Nosso currículo é antigo e não atende às necessidades do mundo de hoje. Por isso talvez eu não tenha me interessado pela matéria de Psicologia Escolar, que na época focava mais em como tentar “consertar” alunos “problemáticos”. Enquanto tivermos este sistema de ensino, enquanto a escola não oferecer um trabalho intenso para os pais, enquanto os pais colocarem a responsabilidade sobre a educação de seus filhos nas escolas, teremos cada vez mais problemas.
Hoje no Brasil, crianças especiais devem ser inseridas na escola comum. Mas, como, se elas tem necessidades especiais? Como, se para que elas se desenvolvam precisam de atenção especializada? Acredito que essa medida traz mais problemas do que soluções. Mas para mim é fácil falar, eu não vivo essas questões no meu dia a dia. Apenas escuto versões de colegas, pacientes e amigos.

(Graziela Bergamini - Viagens de uma Psicóloga em Crise) 

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publicado às 14:18


PRIMEIRO DESASTRE AMOROSO

por Thynus, em 13.02.17
 
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Você é um sucesso ou um desastre na sua vida amorosa?
Houve mais um motivo para eu ter viajado para a Índia.
Eu estava infeliz com meus relacionamentos amorosos. Tinha tido vários “rolos” bestas e nenhum relacionamento sério, nenhum namorado. Sentia-me como uma senhora de sessenta anos solteira, sem esperanças. Como se o tempo já tivesse acabado. Eu já tinha me dado por incompetente nessa área. Com 21 anos...
 Ir para Índia então também era um teste para ver se eu seria boa em alguma coisa. Se eu aguentaria me colocar em uma situação difícil e sair dela ilesa. Eu precisava me valorizar e me sentia valente no que se refere a viagens. Já tinha passado nove meses enclausurada em Dakota do Norte, nos Estados Unidos, quando tinha quinze anos, em um intercâmbio. Terminei a bravíssima tarefa de me manter lá sem ter crises de choro e voltar para o colo da mamãe.Ou melhor: tendo muitas crises de choro, mas aguentando sem mamãe. Voltando ao tema relacionamentos. Ai que difícil...
Sempre fui tímida com meninos, ou melhor, nos primórdios da minha vidinha, eu era mais confiante. Acho que só depois fui “aprendendo” a ser tímida e me esconder. Aos três anos de idade, eu me apaixonei por um garoto de doze.
Era um feriado e fomos para uma fazenda de uns amigos dos meus pais.Lembro de uma cena dele balançando em uma rede branca rendada e eu, apenas de longe, contemplando a paisagem.
Minha mãe conta, que depois que voltamos para casa, eu implorei para que ela telefonasse para o jovem galã por mim, mas ela resistiu. Afinal, o que uma menina de três anos iria falar para um moleque de doze? Enfim, ela acabou cedendo e ligou para ele.Quando me passou o telefone, recebi do outro lado uma voz desdenhosa: – O que você quer,hein,Grá? Devo ter ficado tão desapontada que desliguei. Eu tinha três anos! Meu Deus, o que aconteceu com essa menina ousada?
Com onze anos, eu me apaixonei por um menino em umas férias na praia, mas era incapaz de dar um sorrisinho que fosse para ele. O que eu mais sabia era “dar foras”, trocar soquinhos e jogar pingue-pongue. Criada no meio de meninos, isso é que era legal. Ser menininha era chato e sem graça. Apesarde ser assim, eu não era masculina. Eu devia ser feminina porque me chamavam muito de... argh... bonequinha.
Para mim era como um xingamento. Era como chamarem o Michael J. Fox no filme De volta para o futuro de covarde. Esta era a palavra inimiga: bonequinha. Para mim queria dizer fraquinha, bobinha– e isso eu não podia ser.
 O primeiro caso amoroso que eu teria tido foi com esse menino aos onze anos de idade. Um dia, muito inesperadamente, já de volta em casa depois de longas férias, recebi um bilhete de uma pomba-correio, grande amiga minha, com a seguinte pergunta dele :
 “Grá, você quer namorar comigo? Marque x: Sim Não
 1000000000000000 beijos”.
 Respondi prontamente que sim e entreguei a carta para minha amiga, que era da classe dele.
Depois de uma semana, houve uma festa e eu sabia que iria encontrar“meu namorado”.Assim que cheguei,logo vi onde ele estava e fui direto para o canto mais longe dele possível. Ele veio atrás de mim calmo e confiante. Eu queria morrer de tanta vergonha... Fugi mais uma vez.
“Meu namorado” persistiu indo atrás de mim devagar até que não teve jeito:ele chegou muito mais perto do que eu gostaria e perguntou:
“ Então,Grá, você quer namorar comigo?”
Eu afirmei que sim com a cabeça e os olhos fixados no chão.
– Então, então...
Ele foi chegando mais perto ainda e eu, em um ataque de pânico, virei as costas e disse, indo embora: –Então, tá...
 Mais tarde, na mesma festa, o momento mais triste da minha vida de adolescente. Minha amiga chegou perto de mim e falou:
 –Grá, ele disse para você não levar a mal, mas está tudo acabado.
Fui embora arrasada. Fim da história. Nunca mais o vi.
Tudo bem que eu ainda era bem jovem, mas o medo da proximidade já estava instalado. É claro que se a ausência de medo permitisse, eu não iria além de beijinhos inocentes e seguradas suadas de mãos. Mas estava muito, muito longe, até disso. Fugi do monstro do prazer “como o diabo foge da cruz”.
Esta parte de mim ainda vive e aparece de vez em quando. Medo da sensualidade, sexualidade, libido, vida, movimento, paixão – não só em relação a outro homem, mas também em relação à vida. Então, a partir dos onze anos de idade, repeti esse mesmo padrão de fugir de meninos e, depois, dos homens. Os que não me atraíam eram camaradas; os que me atraíam eram perigosos. Na presença deles, eu não era eu. Criança com a mente em formação tira muitas conclusões erradas sobre a vida e as carrega até o túmulo. Algumas das minhas milhares de conclusões sem sentido foram:
Conclusão número 1: Eu não podia ser natural, feminina, porque significava fraqueza, humilhação. Conclusão número 2: Homens são perigosos, superiores, distantes, poderosos.
Conclusão número 3: Eu sou mulher, sou pequena, sou diferente da família toda, portanto não pertenço ao grupo – deve haver algo errado comigo.
Todas estas conclusões absurdas para um adulto mas lógicas para uma criança foram se fortalecendo com o passar do tempo, tomando mais forma e reafirmando sua falsa validade. Minha percepção, por mais que a realidade se apresentasse diferente, se adequava para se encaixar nessa visão pré-moldada. Foram anos de conflitos internos porque,afinal,outra parte minha queria um relacionamento, queria ser feminina, queria se entregar, sem me sentir humilhada. E ainda, eu me apaixonava com certa facilidade; sempre tinha alguém especial ocupando meu coração.

(Graziela Bergamini - Viagens de uma Psicóloga em Crise)

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publicado às 01:42


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