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A Pítia ou Pitonisa

por Thynus, em 17.01.17
  De fato, penso no antigo erro, logo punido, mas com efeitos que duram até a terceira geração, no desvio de Laio, surdo à voz de Apolo que, três vezes, em seu trono fatídico de Pito, umbigo do mundo, declarou que ele devia morrer sem filhos, se quisesse salvar sua cidade. Cedendo porém ao insensato desejo (Laio está sob o domínio do álcool ao fazer amor com Jocasta), ele engendra sua própria morte, Édipo, o parricida que, no rego sagrado da mãe que o nutriu, ousou plantar uma raiz sangrenta. O delírio havia unido os esposos ensandecidos (ainda o álcool explicando o esquecimento da recomendação de Apolo). Um mar de males lança sobre nós as suas vagas. Cada uma que rebenta ergue outra, três vezes mais forte, a estrondear fervilhando contra a popa da nossa cidade [...] Pois aqui se cumpre o terrível acerto de contas de antigas imprecações.
(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)
 
Sacerdotisa de Delfos (1891), de John Collier; a pítia se inspirava através do pneuma, os vapores que sobem na parte inferior da tela.
 
Os gregos davam o nome de Pitonisas a todas as mulheres que tinham a profissão de adivinhas, porque o deus da adivinhação, Apolo, era cognominado Pítio, quer por haver matado a serpente píton, quer por ter estabelecido o seu oráculo em Delfos, cidade primitivamente chamada Pito.
 
A pítia ou pitonisa propriamente dita era sacerdotisa do oráculo de Delfos. Sentada sobre o trípode ou cadeira alta com três pés, acima do abismo hiante donde brotavam as pretensas exalações proféticas, ela divulgava os seus oráculos uma vez por ano, no começo da primavera.
 
No começo só houve uma Pítia, mais tarde, quando o oráculo mereceu inteiro crédito, elegeram-se muitas sacerdotisas, que se substituíram umas às outras e podiam sempre dar resposta em um caso importante ou excepcional.
 
Antes de sentar na trípode, a Pítia sempre se banhava na fonte de Castália, jejuava três dias, mascava folhas de loureiro, e com religioso recolhimento, cumpria várias cerimônias. terminados esses preâmbulos, Apolo prevenia a sua chegada ao templo que tremia até os alicerces. Então a Pítia era pelos sacerdotes conduzida à trípode. Era sempre em transportes frenéticos que ela se desempenhava das suas funções, dava gritos, uivos e parecia possuída por um deus. Assim que desvendava o oráculo caía numa espécie de aniquilamento, que algumas vezes durava muitos dias. "Muitas vezes, diz Lucano, a morte imediata foi o prêmio do seu sofrimento e do seu entusiasmo".
 
A Pítia era escolhida com cuidado pelos sacerdotes de Delfos, que, por seu turno, eram encarregados da interpretação ou redação dos oráculos. Exigia-se que ela tivesse nascido legitimamente, que tivesse sido educada simplesmente e que essa simplicidade transparecesse em seus costumes. Não devia conhecer nem as essências nem tudo quanto o luxo refinado faz imaginar às mulheres. Era de preferência escolhida em uma casa pobre, onde tivesse vivido na mais completa ignorância de todas as coisas. Era bastante que soubesse falar e repetir o que o deus lhe dissesse. 
 
Nem sempre o oráculo era desinteressado. Mais uma vez, por instigação dos seus ministros, e pelo boca de sua sacerdotisa, Apolo cortejou riqueza e poder. Os atenienses, por exemplo, acusaram a Pítia de se haver deixado corromper pelo ouro de Filipe da Macedônia. 
 
O costume de consultar a Pítia remontava os tempos heróicos da Grécia. Diz-se que foi Femonoe a primeira sacerdotisa do oráculo de Delfos que fez o deus falar em versos hexâmetros, acrescenta-se que ela vivia sob o reinado de Acrício, avô de Perseu.

(Mitologia Grega e Romana - P. Commelin)

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publicado às 18:16

 

Complexo de Édipo em Psicanálise
 
Os subtítulos e os trechos em destaque que apresentam os excertos de Freud e Lacan são de autoria de J.-D.Nasio.
 
FREUD
 

A universalidade do complexo de Édipo
Todas as crianças, sejam quais forem suas condições familiares e socioculturais, vivem essa fantasia universal que é o complexo de Édipo. Seja abandonada, órfã ou adotada pela sociedade, nenhuma criança escapa ao Édipo! Por quê? Porque nenhuma criança escapa à torrente das pulsões nela desencadeadas entre os três ou quatro anos de idade, e porque nenhum adulto de seu círculo imediato consegue evitar desempenhar o papel de alvo das pulsões e de canal para drená-las.
 
“É uma situação que toda criança é chamada a viver e que resulta inevitavelmente de sua longa dependência e de sua vida na casa dos pais, quero falar do complexo de Édipo, assim denominado porque seu conteúdo essencial está na lenda grega do rei Édipo. … O herói grego mata o pai e casa-se com a mãe … sem saber …”1
 
“O menino aqui tem um esquema filogenético a realizar e o consegue, ainda que as experiências de vida pessoal possam não coincidir com ele.”2
 
“[Os] esquemas filogenéticos que a criança carrega ao nascer … são precipitados da história da civilização humana. O complexo de Édipo … é um deles.”3
 
“… ela se viu sob a dominação do complexo de Édipo, mesmo sem saber que essa fantasia universal, em seu caso, tornara-se realidade.”4
 
A descoberta do complexo de Édipo
É a partir das recordações de infância de caráter sexual, evocadas por nossos pacientes adultos, que deduzimos a existência do complexo de Édipo. Não nos esqueçamos de que a recordação é sempre uma reinterpretação muito subjetiva do passado.
 
“As surpreendentes descobertas sobre a sexualidade da criança [complexo de Édipo] foram a princípio proporcionadas pela análise de adultos …”5
 
“Foi por trás dessas fantasias [evocadas por pacientes adultos] que surgiu então o material que permitiu fazer a descrição do desenvolvimento da função sexual [fases libidinais da infância].”6
 
O Édipo foi descoberto por Freud a partir do relato de cenas de sedução que seus pacientes adultos acreditavam ter vivido na infância

O complexo de Édipo não é uma realidade observável, mas uma fantasia sexual forjada pela criança sob a pressão de seu desejo incestuoso. O conteúdo dessa fantasia é freqüentemente uma cena de sedução sexual exercida pelo adulto. Observemos ainda que a fantasia edipiana, embora criada na infância e sempre em ação no adulto neurótico, deverá ser reconstruída pelo analista ao longo do tratamento. Este a reconstrói “no calor da hora”, uma vez que a relação analista/paciente reproduz em ato a relação edipiana.
 
“… fui obrigado a reconhecer que as cenas de sedução jamais haviam acontecido e que não passavam de fantasias forjadas por meus pacientes.”7
 
A recordação de ter sido seduzido sexualmente pelo pai é uma das formas pelas quais o complexo de Édipo pode ser apresentado. A fantasia de sedução não é senão uma variante da fantasia edipiana. Basta um gesto excessivamente carinhoso da parte de um genitor (em geral o pai) para que a criança forje a recordação de um gesto equívoco de sedução sexual.

 
“Diante das cenas de sedução … forjadas por meus pacientes …, vi-me confrontado pela primeira vez ao complexo de Édipo …”8
 
O desejo incestuoso está na origem de todos os desejos humanos

O desejo incestuoso não só é irrealizável, como inconcebível por uma criança de quatro anos. Entretanto, é esse desejo mítico, além e aquém de toda genitalidade, que nós, analistas, supomos na origem de todos os desejos e fantasias humanos.
 
“O desejo de ter um filho com a mãe nunca falta no menino, o desejo de ter um filho do pai é constante na menina, e isso quando são totalmente incapazes de fazer uma idéia clara do caminho que pode levar à realização desses desejos.”9
 
O desejo incestuoso é parcialmente satisfeito em uma fantasia
Ser espancado pelo pai é uma fantasia que satisfaz parcialmente o desejo incestuoso de um menino de ser possuído sexualmente pelo pai. A dor física torna-se então prazer sexual. A propósito, observemos que um incidente traumático de grande violência física ocorrido na infância ou na adolescência pode determinar em um homem a posição sexual passiva (masoquismo) em relação a um parceiro masculino ou feminino que o domina e degrada.

 
“A fantasia de fustigação do menino é, portanto, … uma fantasia passiva, oriunda da posição feminina a respeito do pai.”10
 
O Édipo do menino e da menina
O menino renuncia à mãe porque tem medo, enquanto a menina abandona a mãe que a decepciona e se volta para o pai.
 
“O complexo de Édipo do menino, no qual cobiça a mãe e gostaria de eliminar o pai como rival, desenvolve-se naturalmente a partir da fase de sua sexualidade fálica. Mas a ameaça de castração obriga-o a abandonar essa posição. Sob a impressão do perigo de perder o pênis, o complexo de Édipo é abandonado, recalcado, destruído radicalmente no caso mais normal, e um supereu severo é instituído como seu herdeiro.
O que acontece na menina é quase o contrário. O complexo de castração prepara o complexo de Édipo em vez de o destruir; sob a influência da inveja do pênis, a menina é expulsa da ligação com a mãe e apressa-se a entrar, como em um porto, na situação edipiana.”11
 
As três fases do Édipo da menina
A nosso ver, o Édipo feminino divide-se em três fases. A fase pré-edipiana, na qual a menina em posição masculina deseja a mãe como objeto sexual; a fase que designo como “dor da privação”, durante a qual a menina fica sozinha, mortificada e com inveja do menino; e, finalmente, a fase propriamente edipiana na qual a menina é arrebatada pelo desejo feminino de ser possuída pelo pai.

 
“A vida sexual da mulher divide-se em duas fases, sendo que a primeira tem um caráter masculino, enquanto a segunda é especificamente feminina.”12
 
Entre a primeira e a segunda fase propostas por Freud, intercalo, portanto, um tempo intermediário em que a menina, só e mortificada, adota uma posição masculina de rivalidade.
 
O supereu é nosso pai psíquico
Nosso supereu pode ser muito severo ou muito tolerante, segundo a velocidade e a violência do recalcamento do complexo de Édipo.
 
“O supereu tentará reproduzir e conservar o caráter do pai, e quanto mais intenso for o complexo de Édipo mais rapidamente se dará o recalcamento e mais intenso, também, será o rigor com que o supereu reinará sobre o eu enquanto encarnação dos escrúpulos de consciência, talvez igualmente de um sentimento de culpa inconsciente.”13
 
A neurose é a reativação do Édipo na idade adulta
O complexo de Édipo é a causa da neurose porque as fantasias edipianas, mal recalcadas na infância, reaparecem na idade adulta sob a forma de sintomas neuróticos. Em outras palavras, a neurose de um adulto é explicada pela intensidade com que ele viveu seu prazer sexual de criança e pela violência ou labilidade com que o recalcou.

 
“Eis por que a sexualidade infantil, submetida ao recalcamento, é a força-motriz principal da formação do sintoma, e que o elemento essencial de seu conteúdo, o complexo de Édipo, é o complexo nuclear da neurose.”14
 
“Acreditamos que o complexo de Édipo seja o verdadeiro núcleo da neurose, que a sexualidade infantil, que nele culmina, seja sua condição efetiva e que o que subsiste desse complexo inconsciente represente a disposição do adulto em contrair posteriormente uma neurose.”15
 
“Aprendi a ver que os sintomas histéricos derivam de fantasias [edipianas] e não de fatos reais.”16
 
 
LACAN

 
O Édipo é uma teoria da família
A teoria do Édipo é uma teoria da família e, em particular, a do declínio social da imagem paterna. É justamente esse declínio do papel do pai que estaria na origem das neuroses.

 
“Descobrir que … a repressão sexual e o sexo psíquico estavam sujeitos à regulação e aos acidentes de um drama psíquico da família era fornecer a mais preciosa contribuição para a antropologia do grupo familiar. …Por isso mesmo, Freud veio rapidamente a formular uma teoria da família. Ela se baseava numa dessimetria … na situação dos dois sexos em relação ao Édipo.”17
 
“Não estamos entre os que se afligem com um pretenso afrouxamento dos laços de família. … Mas um grande número de efeitos psicológicos parece-nos decorrer de um declínio social da imagem paterna. … Esse declínio constitui uma crise psicológica. Talvez seja com esse declínio que convenha relacionar o aparecimento da própria psicanálise. O sublime acaso da genialidade talvez não explique, por si só, que tenha sido em Viena … que um filho do patriarcado judaico imaginou o complexo de Édipo. Como quer que seja, foram as formas de neuroses predominantes do século passado que revelaram que elas eram intimamente dependentes das condições da família.”18
 
A fase fálica
Na fase fálica, a criança deseja sexualmente um de seus pais sem consumar, naturalmente, nenhum ato sexual. Em vez de uma genitalidade inexistente, desenvolve-se na criança a fantasia de possuir um Falo todo-poderoso.

 
“Logo antes do período de latência, o sujeito infantil, masculino ou feminino, chega à fase fálica, que indica o ponto de realização do genital. Tudo está ali, até e inclusive a escolha do objeto. Existe, no entanto, alguma coisa que não está ali, a saber, a plena realização da função genital. … Resta, com efeito, um elemento fantasístico, essencialmente imaginário, que é a prevalência do Falo, mediante o que há para o sujeito dois tipos de seres no mundo: os seres que têm o Falo e os que não o têm, isto é, que são castrados.”19
 
A onipotência da mãe
Lacan opõe-se à idéia de que a criança seja habitada por um sentimento de onipotência. Apenas a mãe pode dispor da onipotência, uma vez que a criança a supõe nela. Só há onipotência do Outro, e a primeira castração vivida pela criança é a constatação angustiante de que sua mãe é tão vulnerável quanto ela.
“É errado … que a criança tenha a noção de sua onipotência. Não apenas nada indica, em seu desenvolvimento, que ela a tenha, mas … sua pretensa onipotência e os fracassos que esta encontraria não valem nada nessa questão. O que conta … são as carências, as decepções, que afetam a onipotência materna.”20
 
O pai é uma metáfora
Para Lacan, o pai é o personagem principal do drama edipiano, seja no Édipo masculino, seja no feminino.
 
“Não existe a questão do Édipo quando não existe o pai, e, inversamente, falar do Édipo é introduzir como essencial a função do pai.”21
 
No complexo de Édipo, o status do pai é o de uma metáfora: ele é o significante que vem no lugar de outro significante. O significante “pai” vem no lugar do significante “desejo da mãe”. O pai significa o desejo da mãe. Em outras palavras, para a criança seu pai é também um homem, o homem que a mãe deseja.

 
“Que é o pai? Não digo na família. … A questão toda é saber o que ele é no complexo de Édipo. … É isto: o pai é uma metáfora. … O pai é um significante que substitui um outro significante. Nisso está o pilar, o pilar essencial, o pilar único da intervenção do pai no complexo de Édipo. A função do pai no complexo de Édipo é ser um significante que substitui o primeiro significante introduzido na simbolização, o significante materno. Segundo a fórmula … da metáfora, o pai vem no lugar da mãe.”22
 
Tríade imaginária, quator simbólico

Para Lacan, o triângulo mãe-filho-Falo é uma tríade imaginária pré-edipiana. O Édipo só aparece com a introdução do quarto elemento, o pai. A tríade imaginária torna-se então quator simbólico.A passagem de uma a outra é feita através de uma decepção: a criança fica decepcionada ao saber que não é o Falo de sua mãe. Descobre que o objeto do desejo da mãe está no pai, não nela. Assim, é para o pai, detentor do Falo, que a criança se volta.

 
“… a dialética dos três objetos primeiros [mãe-criança-Falo] e do quarto termo que os abrange a todos, ligando-os na relação simbólica, a saber, o pai. Esse termo introduz a relação simbólica … .”23
 
“… a tríade imaginária, como prelúdio à posta em jogo da relação simbólica, que se faz com a quarta função, a do pai, introduzida pela dimensão do Édipo. O triângulo é em si mesmo pré-edipiano … o quator constitui-se com a entrada em jogo da função paterna, a partir da … decepção fundamental da criança … ela reconhece … não apenas que não é o objeto único da mãe, mas que o interesse da mãe … é o Falo. A partir desse reconhecimento, resta perceber, em segundo lugar, que a mãe é justamente privada, que falta a ela mesma este objeto.”24
 
Lacan e a simbólica do dom

Lacan põe a ênfase na simbólica do dom, seja o dom no sentido de demandar o objeto ao outro, seja o dom no sentido de dar o objeto ao outro. A menina entra no Édipo quando demanda o Falo ao seu pai, o menino sai do Édipo quando – para salvar seu pênis – aceita largar o objeto a que se apega tanto, isto é, sua mãe; ele renuncia à mãe como objeto de desejo.

 
“É na medida em que não possui o Falo que a criança feminina se introduz na simbólica do dom. É na medida em que … se trata de ter ou não o Falo que ela entra no complexo de Édipo. O menino … não é por aí que ele entra, é por aí que ele sai. No fim do complexo de Édipo … é preciso que ele faça dom daquilo que tem.”25
 
Castração e privação
A castração é uma idéia, a privação é um fato. Ao olhar o corpo nu da menina, o menino pensa: “Ela foi castrada”; a menina, examinando-se, constata: “Fui privada dele.” Para o menino, a castração é uma idéia angustiante, a idéia de que o essencial pode lhe faltar; ao passo que, para a menina, a privação é uma constatação dolorosa, a constatação de que lhe falta o essencial que ela julgava ter.
 
“A privação é … em especial o fato de que a mulher não tem pênis, que é privada dele. Esse fato, a assunção desse fato, tem uma incidência constante na evolução de quase todos os casos que Freud nos expõe. …A castração … toma por base a apreensão no real da ausência de pênis na mulher. … [As criaturas femininas] são castradas na subjetividade do sujeito. No real, na realidade, naquilo que é invocado como experiência real, são privadas. …
A própria noção de privação … implica a simbolização do objeto no real. … Indicar que alguma coisa não está ali é supor sua presença possível, isto é, introduzir no real … a simples ordem simbólica. …
Quanto à castração, na medida em que ela é eficaz, experimentada, presente na gênese de uma neurose, incide … sobre um objeto imaginário. Nenhuma castração … é jamais uma castração real.”26
 
O supereu, fruto do Édipo

O supereu, herdeiro do complexo de Édipo, é uma figura da lei introjetada no inconsciente infantil e que dita, como um mestre interior, as escolhas decisivas e cotidianas da existência.
 
“O fim do complexo de Édipo é correlativo da instauração da lei como recalcada no inconsciente, mas permanente. …A lei … é baseada no real, sob forma desse núcleo deixado atrás de si pelo complexo de Édipo, … [núcleo] que sabemos se encarnar em cada sujeito sob as formas mais diversas, mais extravagantes, mais caricatas – que se chama o supereu.”27
 
O Édipo, uma figura do Ideal do eu
Para Lacan, o Édipo é uma via normativa, uma das figuras possíveis do Ideal do eu. O Ideal do eu é o tipo viril ou o tipo feminino que o menino e a menina estão destinados a assumir.
 
“… há no Édipo a assunção do próprio sexo pelo sujeito, isto é, para darmos os nomes às coisas, aquilo que faz com que o homem assuma o tipo viril e com que a mulher assuma um certo tipo feminino … . A virilidade e a feminização são os dois termos que traduzem o que é, essencialmente, a função do Édipo. Encontramo-nos, aí, no nível em que o Édipo está diretamente ligado à função do Ideal do eu.”28
 
“Logo, não basta que o sujeito depois do Édipo desemboque na heterossexualidade, é preciso que o sujeito, menino ou menina, desemboque nela de uma maneira tal que se situe corretamente em relação à função do pai. Eis o centro de toda a problemática do Édipo.”29
 
A castração é transmitida de pai para filho
Que é ser castrado senão constatar dolorosamente que nosso corpo e nossos desejos são limitados? O pai que tive, o pai que sou e o filho que me sucede, todos devem assumir as castrações impostas.

 
“… a castração que atinge o filho, não será também o que o faz ter acesso pela via justa ao que corresponde à função do pai? … E não é isto mostrar que é de pai para filho que a castração se transmite?”30
 
Dolto e o interdito do incesto
Dolto pede aos pais que assumam a castração de não considerar seus filhos como prolongamento de si próprios.
 
“Os pais gostariam de manter o domínio sobre seu filho e de inscrever os frutos da experiência deles em seu pensamento. Isso é trapacear com o interdito do incesto. Ele deve livrar-se de tudo que lhe foi inculcado pelos pais: ‘Abandona pai e mãe’, o que não quer dizer que ele não descobrirá sua herança de outra forma, ele próprio engendrando a partir do que ouviu, não de seus pais mas de sua experiência, de outras pessoas na vida, sob a condição de que isso não seja obrigatório, não esteja na corrente de uma aliança amorosa.”31 Dolto
 
 (J.-D. Nasio - Édipo, O complexo do qual nenhuma criança escapa)
 
 
NOTAS
 
1Abrégé de psychanalyse, Paris, PUF, 14a ed., 1997, p.58 [ed. bras.: “Esboço de psicanálise”, in ESB, vol.23].
2. “À partir de l’histoire d’une névrose infantile”, in Œuvres complètes de Freud, vol.XIII, Paris, PUF, 3a ed., 2005, p.84 [ed. bras.: “Da história de uma neurose infantil”, in ESB, vol.17].
3Cinq psychanalyses, Paris, PUF, 23a ed., 1999, p.418 [ed. bras.: “Da história de uma neurose infantil”, in ESB, vol.17].
4. “Quelques types de caractères”, in L’Inquiétante étrangeté et autres essais, Paris, Gallimard, 1985, p.166 [ed. bras.: “Alguns tipos característicos encontrados na psicanálise”, in ESB, vol.14].
5Ma vie et la psychanalyse, Paris, Gallimard, 1949, p.65 [ed. bras.: “Pósescrito a ‘Um estudo autobiográfico’”, in ESB, vol.20].
6. “Psychanalyse” e “Théorie de la libido”, in Résultats, idées, problèmes, Paris, PUF, 6aed., 1988, p.62 [ed. bras.: “Dois verbetes de enciclopédia”, in ESB, vol.18].
7Freud présenté par lui-même, Paris, Gallimard, 1984, p.57 [ed. bras.: “Um estudo autobiográfico”, in ESB, vol.20].
8. Ibid. p.58.
9. “Un enfant est battu”, in Névrose, psychose et perversion, Paris, PUF, 12a ed., 1997, p.227 [ed. bras.: “Uma criança é espancada”, in ESB, vol.17].
10. Ibid., p.238.
11. “La féminité”, in Nouvelles conferences d’introduction à la psychanalyse, Paris, Gallimard, 1984, p.173 [ed. bras.: “Feminilidade”, in Novas conferências introdutórias à psicanálise (conf.33), ESB, vol.22].
12. “Sur la sexualité feminine”, in La vie sexuelle, Paris, PUF, 13a ed., 1997, p.142 [ed. bras.: “A sexualidade feminina”, in ESB, vol.21].
13Essais de psychanalyse, Paris, Payot, 1981, p.203-4 [ed. bras.: “O eu e o isso”, in ESB, vol.19].
14. “Un enfant est battu”, in Névrose, psychose et perversion, op.cit., p.243.
15. Ibid., p.233.
16. “La féminité”, in Nouvelles conferences d’introduction à la psychanalyse, op.cit., p.161.
17. “Os complexos familiares na formação do indivíduo”, in Outros escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2003, p.53-4.
18. Ibid., p.66-7.
19O Seminário, livro 4, A relação de objeto (1956-57), texto estabelecido por Jacques-Alain Miller, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1995, p.124.
20. Ibid., p.70.
21O Seminário, livro 5, As formações do inconsciente (1957-58), texto estabelecido por Jacques-Alain Miller, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, p.171.
22. Ibid., p.180.
23O Seminário, livro 4, A relação de objeto, op.cit., p.83-4.
24. Ibid., p.81.
25. Ibid. p.125.
26. Ibid., p.223-4.
27. Ibid. p.216.
28O Seminário, livro 5, As formações do inconsciente, op.cit., p.171.
29O Seminário, livro 4, A relação de objeto, op.cit.
30O Seminário, livro 17, O avesso da psicanálise (1969-70), texto estabelecido por Jacques-Alain Miller, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1992, p.114
31. Françoise Dolto, revista Approches, 40, 1980.

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publicado às 21:12

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Direitos e Deveres Humanos
O escritor tcheco Milan Kundera, exilado da antiga Tchecoslováquia comunista na França, comenta em um de seus livros (A imortalidade) que impressionava a ele a capacidade de os ocidentais acreditarem que a vida é pautada por direitos. O que ele queria dizer com isso? Para Kundera, o europeu ocidental supunha que, se queria comida, ele tinha direito a comida. Se ele queria amor, ele tinha direito a amor. Se ele queria o sol, ele tinha direito a sol. Enfim, para esse ocidental, a sociedade era definida como um sistema que deveria produzir para ele. Ledo engano. O que Kundera percebeu é que o europeu ocidental se tornara um mimado, que acha que os direitos são algo garantido. Na vida, como já discutimos antes, nada é garantido.

O filósofo holandês Andreas Kinneging percebeu a mesma coisa que Kundera. Em sua obra Geografia do bem e do mal, ele identifica muito bem a psicologia presente na mente contemporânea que pressupõe ser a vida uma questão de direitos humanos ou civis adquiridos. Antes, um reparo: nem Kundera nem Kinneging nem eu somos contra direitos. Ao contrário, pensamos que, quando achamos que os direitos são naturais e gratuitos, colocamos em risco a delicada economia (e lembre o que eu disse anteriormente sobre a economia ser a ciência da escassez) que sustenta a sociedade rica ocidental, capaz de bancar esses direitos. Kundera, que vivera no regime comunista (aliás, a maior picaretagem da história, coisa que no Brasil ainda se acredi ta, sobretudo a comunidade acadêmica), sabia muito bem que a vida é precária e que os europeus haviam se esquecido disso, graças à grana americana jogada na Europa para impedir que a tragédia comunista engolisse a Europa inteira.

Kinneging percebe que há uma diferença psicológica entre quem pensa em termos de direitos e quem pensa em termos de dever. O mundo contemporâneo pensa em termos de direitos. Esse mundo rico, capitalista bem-sucedido, de gente jovem, saudável, narcisista, que tem poucos filhos e anda de bike. A psicologia dessa gente é: o mundo me deve. Eles operam a partir do que o outro deve prover e não do que eles devem prover. O narcisismo discutido acima é claro na mente de quem pensa em termos de direitos. Ao passo que quem pensa em termos de deveres, pensa em como fazer para que as coisas aconteçam. É evidente que um mundo não pode se sustentar em cima de uma psicologia inundada pela lógica dos direitos, porque, como se sabe há muito tempo, essa lógica é a lógica dos que não têm caráter.

Se pensarmos no que nos diz Twenge sobre a generation me, muitos jovens têm sido educados sob o manto de que a vida dá certo e a felicidade é um direito. O fracasso e o ressentimento seguem seu curso quando a idade chega e a realidade mostra seu enorme grau de indiferença para com todos nós.

 (Pondé, Luiz Felipe - Filosofia para corajosos)

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publicado às 23:32


Metafísica

por Thynus, em 14.01.17
A palavra metafísica tem pedigree na filosofia, seja para defendê-la, seja para atacá-la. Por exemplo, Platão, pai fundador da filosofia, era um metafísico, Nietzsche detestava a metafísica, entre outros nomes grandiosos. Às vezes significa um ensino historicamente datado, como no caso de Platão ou Aristóteles, às vezes significa um tipo de temperamento dado a crenças ou emoções ligadas a um mundo além da matéria, por exemplo, como no caso de muitos religiosos, místicos ou românticos.

A ideia de metafísica nasce com Platão com seu “mundo das ideias perfeitas e imateriais” a partir das quais nosso mundo da matéria teria sido feito como uma cópia imperfeita e corruptível. Para Platão, as imperfeições do mundo e da vida seriam fruto de incompetência do demiurgo (um deusinho vagabundo) que inventou este mundo copiando as ideias eternas e plenas do mundo das ideias. A consequência, ainda que ele nunca tenha usado a palavra metafísica em sua obra (quem usou foi Aristóteles, para dar o título de sua obra sobre o “Ser”), foi fundar todo um campo de reflexão acerca do imaterial, invisível e eterno, coisa que judeus, cristãos e muçulmanos adoraram quan do leram, porque viram nesse mundo a “cabeça de Deus”, ou, no mínimo, sua casa. Quando Aristóte les afirma que existe um “primeiro motor imóvel que tudo move sem ser movido, que tudo condiciona sem ser condicionado, que tudo causa sem ser causado”, e chama isso de theos, e inventa uma parte de seu livro Metafísica (ao pé da letra “o que vem depois da física”, logo, do material) à qual dá o nome de teologia, os religiosos não resistem e dizem: olha aí, Aristóteles conhecia Deus, porque reconhecer Deus é fruto do pensamento!

A metafísica se tornou uma espécie de primeira ciência (no sentido de primeiro saber), que exploraria o mundo das verdades eternas e não materiais, a parte “filosófica” da crença no invisível e imaterial porque Deus, deuses e espíritos seriam imateriais e invisíveis (a menos que quisessem se fazer materiais e visíveis para nós). A metafísica virou um nome usado para se referir a esse mundo das “substâncias imateriais”.

Outra coisa que atormentou e atormenta muita gente é se existe mesmo (como existia para Platão) um bem imaterial e eterno; portanto, se o bem seria algo não criado pelo homem e sua história. Pessoalmente, acho que sim, é criado pelo homem e sua história, mas não acho que saibamos como fazemos isso. Então, apesar de sermos nós que fazemos, parece algo de outro mundo, porque não temos o controle desse processo, ao contrário do que pensam os bobos marxistas e foucaultianos. A ideia de que exista um bem imaterial e eterno alimenta a alma religiosa e metafísica porque ela associa esse bem a Deus. A própria ideia de alma é com frequência vista como metafísica, por isso imaterial e eterna. Mas quando pensamos em alma assim, estamos chegando perto do que podemos chamar de “sobrenatural”, algo que veremos no próximo capítulo.

A filosofia moderna e contemporânea criticou muito a metafísica, chegando mesmo a destruí-la, de certa forma, dizendo que é uma espécie de viagem de platônicos de todos os tipos. Com o nascimento da ciência, a ideia de um mundo imaterial se tornou meio fora de moda, porque o pensamento moderno é muito preocupado com a eficácia e os resultados, e a metafísica não serve para nada, a não ser para nos ajudar a crer em alguma forma de um mundo melhor do que esta em que vivemos, o que pode significar que a metafísica não passa de pânico diante do nada – como pensava um dos maiores antiplatônicos da história da filosofia, Nietzsche.

 (Pondé, Luiz Felipe - Filosofia para corajosos) 

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publicado às 23:31


O sobrenatural

por Thynus, em 14.01.17
Ainda estamos no terreno da religião e da metafísica quando falamos de sobrenatural. A palavra não tem o mesmo pedigree como tem metafísica, porque quando pensamos em sobrenatural, pensamos em filme de terror ou almas penadas à noite na casa da fazenda. Mas ela também tem uma origem digna na filosofia, e essa origem tem a ver com a ideia do que seria além ou acima da natureza ou do natural no homem e no mundo, o que se confunde com a ideia de ação de Deus no mundo. Podemos dizer que a palavra tem um significado na filosofia e outro nas religiões, sendo o primeiro mais ligado à ação de Deus no comportamento humano por meio da graça divina (como dizia Santo Agostinho no início do século V) e o segundo mais ligado a crenças espíritas que associam o sobrenatural a manifestações de espíritos desencarnados no mundo dos homens. Acho este mais importante para pessoas comuns e o anterior mais ligado ao universo filosófico e teológico profissional, por isso vou dar mais atenção ao sentido religioso da expressão: sobrenatural como manifestação do mundo dos mortos. Você já viu alma penada? Ou acredita nelas? Eu não, mas gostaria de conhecer uma.

Na peça Hamlet, de Shakespeare (século XVII), vemos na primeira cena um exemplo que pode nos ajudar a entender o que se quer dizer com manifestação do sobrenatural no sentido do senso comum. O pai do Hamlet assassinado pelo irmão e pela esposa pede vingança ao filho. Não precisamos ir adiante no enredo. A ideia mais comum de sobrenatural é que ele seja o mundo dos mortos que se relacionam com os vivos. Há sempre um vínculo moral entre esses dois mundos em que um influencia o outro. Grande parte das crenças em espíritos se alimenta dessa forma de vínculo. Esse tipo de crença implica uma economia moral entre os dois mundos e também o destino daqueles que morrerão um dia e dos que já morreram. A questão essencial aqui é: por que esses mortos “precisam de nós, meros vivos?”. Porque não existem e são criações humanas. Esses espíritos nunca sabem além do que sabemos: precisamos amar uns aos outros, fazer menos guerra, ter menos poluição e combater o apego material. Quem precisa de espíritos do além para saber que estamos num atoleiro moral neste mundo dos vivos?

Em outra chave, esses mortos nos atormentam porque eles mesmos são uns desgraçados, e a situação deles, talvez, não tenha a ver diretamente conosco, mas com a vida deles enquanto estavam vivos. E eles se envolvem conosco porque podemos lembrar, por exemplo, alguém com quem tiveram vínculos enquanto vivos, como no caso de Drácula e sua esposa reencarnada na personagem do romance Drácula, de Bram Stoker (século XIX), chamada Mina. De qualquer forma, a temática moral se impõe, assim como a da felicidade versus infelicidade. É interessante perceber como os afetos são a marca no mundo do sobrenatural. A crença nessa dimensão pode ocupar a vida de muitas pessoas, mesmo que seja pelo medo que as faz sentir. Resta nos perguntarmos a razão de, depois de tanto conhecimento científico acumulado, tanta gente ainda se sentir atormentada e atraída por esse tipo de coisa. A primeira conclusão é que permanecemos, em alguma medida, na pré-história, amedrontados pela escuridão do mundo e de nós mesmos. Sem dúvida, o materialismo e sua afirmação de que a vida depois da morte é uma ilusão me parecem uma opção mais tranquila do que a ideia de permanecer existindo infinitamente e sob ação de afetos tão fortes, apesar de que acho mais dramática e bela a ideia de uma existência atormentada para sempre do que o repouso na pedra, como afirma o materialismo.

Ninguém em sã consciência pode dizer a última palavra nesse terreno do sobrenatural. A crença, sendo pré-histórica, está fincada em solo humano, e não será um pouco de ciência que a fará desaparecer, mesmo porque, yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay.

  (Pondé, Luiz Felipe - Filosofia para corajosos) 

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publicado às 23:30


Materialismo

por Thynus, em 14.01.17
Essa palavra significa duas coisas em filosofia. A primeira, e mais antiga, e mais importante, data da Grécia e quer dizer o seguinte: tudo o que existe é feito de átomo, e quando morremos tudo acabará. A segunda, mais recente, filha da tradição sociológica (Marx, no século XIX, navega nesse sentido), quer dizer que o mundo do pensamento, dos afetos e das instituições pode ser explicado pelas relações materiais que se tem em sociedade, tais como modos de produção, comércio, guerras, instituições, e por aí vai. Um exemplo simples disso seria: se você anda de ônibus, você ama de um jeito; se você anda de helicóptero, você ama de outro jeito. Entendeu? Amor, aqui, seria função do modo como você se desloca no mundo, que por sua vez seria função de quanta grana você tem, que por sua vez seria função do seu lugar na cadeia produtiva de bens, ou seja, você é agente ativo ou vítima passiva?

A importância desse viés está em nos ajudar (independentemente da viagem louca de Marx e seu comunismo) a pensar a sociedade sem nenhum recurso da metafísica como fundamentação da história. Isto é, não pensar que a história possa ser conhecida sem levar em conta as relações concretas que os homens estabelecem entre si para criar o mundo em que vivem. E também sem imaginar que exista um sentido metafísico para a história, ou que ela esteja indo para algum lugar. A propósito, percebemos o caráter metafísico de Marx na medida em que ele achava que a história estava indo para algum lugar, a saber, o comunismo.

Vou voltar para a forma mais antiga de entender o materialismo, porque ela é que atormenta os seres humanos comuns, como eu e você. O materialismo histórico, como os marxistas chamam sua teoria, apesar de ser bastante sofisticado (e, muitas vezes, delirante quando quer prever o futuro e o comportamento humano em sua totalidade), permanece muito distante da percepção da realidade mais imediata que os meros mortais têm. Apesar de que, de certa forma, o materialismo histórico é construído pelo combate constante que os humanos têm com sua realidade precária e finita, por isso mesmo econômica.

Mas, afinal, tudo é feito só de átomos?

Sim, segundo os gregos antigos, gente como Demócrito (460-370 a.C.), Leucipo (filósofo pré-socrático), Epicuro e o romano Lucrécio (99-55 a.C.). Não só a afirmação materialista (ou atomista) é importante em si, mas as consequências dela, ou seja, não existiria vida após a morte, nem a moral seria fundamentada num bem maior metafísico. E isso é um problema para a maioria de nós, como já falamos antes (eu, como disse, nunca me interessei pela vida após a morte). E mais: se tudo é apenas matéria, e nada existe de metafísico, como ficam os valores como o bem ou a justiça? (Esse problema também já vimos.) O materialismo não é um problema em si, mas o é pelas consequências que decorrem dele. A maioria das pessoas julga que o materialismo nos levaria à depressão e à falta de sentido na vida. Ao caos também. Será?

Muitos filósofos materialistas tentam responder a essas perguntas, e veremos algumas delas aqui. A questão quase sempre é responder ao nosso temor de que o materialismo nos transforme em meros bichos, amontoados de átomos, sem valores, sem alma, sem futuro. Será?

Não para Epicuro e Lucrécio. Mas, para muitos, suas soluções são ou ingênuas ou desesperadas. Vejamos.

Não sabemos muita coisa sobre Demócrito e Leucipo, além de que eles teriam sido os primeiros a falar de átomos como partículas indivisíveis de que tudo seria feito. Até onde se sabe, para eles, o universo, e nós dentro dele, seria composto dessas partículas que se movimentam eternamente e sem destino, formando e desformando corpos maiores e menores, mais densos e menos densos, entre eles nossa alma, uma espécie de ar que se esvai com o último suspiro. Portanto, nada de vida após a morte.

Epicuro e Lucrécio avançaram nessa ideia dizendo que os átomos, por alguma razão, desviavam de sua rota sem destino e batiam uns nos outros, formando e desformando os tais corpos que compõem a matéria total do universo. Para essa virada, eles deram o nome de clinâmen.

Para todos os atomistas antigos, portanto, o fundo da realidade é caótico e sem sentido nenhum. Não se pode deduzir de partículas doidas moral alguma, bem algum, justiça alguma, a não ser a negação de qualquer ordem fundamentada nesse fundo da realidade. É isso que afeta muita gente. Por quê?

Simples. Aqueles que acreditam em Deus ou similares presumem que esse fundo da realidade é Ele ou sua vontade suprema (portanto, um fundo da realidade metafísico e não físico, como os átomos, e que se preocupa conosco acima de tudo). Deus sabe o que faz, porque os crentes pensam que Ele é legal, mesmo que, às vezes, seja um pouco difícil de entender.

Já para caras como Epicuro e Lucrécio, estamos sós nessa. O universo é vazio em termos de planos, suas partículas vagam por espaços infinitos, sem que ninguém saiba nada delas. É essa solidão dos espaços infinitos que aterrorizava gênios como Blaise Pascal no século XVII, após a física atomista newtoniana. Essa solidão grita em nossos ouvidos palavras de espanto. Como enfrentá-la? Estamos aqui num dos corações do drama humano.

Esse coração do drama humano aparece cada vez que o sofrimento bate em nossa porta. Como sobreviver ao medo de que o fundo da realidade seja a contingência (sorte-azar, acaso) dos átomos? Não há ninguém ali para nos consolar? Os medievais falavam muito de consolação da alma porque precisamos de consolação. Os materialistas (que, além dos gregos fundadores, somam gente como Nietzsche, Sartre, Camus, Cioran, entre outros), ao longo da história da filosofia, tentaram algumas formas de acalmar nosso coração amedrontado. Vejamos algumas delas.

Entre os antigos, tentava-se superar esse medo dizendo que na hora da morte não estaríamos presentes, porque, uma vez a morte instalada, não haveria consciência alguma dela, já que é a negação da consciência. Sempre achei essa ideia epicurista ingênua, na medida em que nosso medo não é o nada mas o sofrimento até a morte, além da perda do que significa a vida em si. Mas Epicuro estava em busca de um argumento que acalmasse os crentes diante do medo de que os deu ses nos atormentariam em nossa eternidade. Ao dizer que com a morte não estaríamos mais presentes em lugar algum, Epicuro nos garantia que os deuses nada poderiam fazer contra nós, na medida em que não existiríamos para ser atormentados por eles. Esse aspecto do argumento me parece melhor do que a tentativa de acalmar nosso medo da morte enquanto tal. O repouso na pedra pode ser um fim razoável para uma consciência que não relaxa nunca como a nossa.

Afora Sartre (século XX), que se equivocou feio quando achou que Marx ficaria no lugar de Deus (risadas?), gente como Nietzsche e Camus, filósofos ateus (e, portanto, muito próximos do materialismo enquanto tal), apostou na busca da coragem como virtude máxima, tentando virar o jogo e dizer que a coragem de enfrentar a aparente falta de sentido da vida (intrínseca à ideia de materialismo, finitude e inexistência da fundamentação do bem moral), e não o medo dessa falta de sentido, é que nos daria gosto pela vida. Será?

Será que somos tão corajosos assim? Espero que sim, senão este manual de filosofia para corajosos não terá público. Até porque a coragem não é algo que se compra em free shop. Como toda virtude, como dizia Aristóteles, é um saber prático. Só se sabe o que é coragem quando se é corajoso.

Concordo com Aristóteles, Nietzsche e Camus, mas acho que visões como a materialista levam mais pessoas a remédios ansiolíticos do que à coragem. Somos seres medrosos porque sabemos mais do que devemos e menos do que precisamos. Essa consequência “médica” do materialismo em nada depõe contra ele, uma vez que descreve nosso desespero e não nega a afirmação materialista acerca da finitude humana e da inexistência de uma fundamentação absoluta para o bem – já que o fundo da realidade seria o caos atômico e sua indiferença para com nossa necessidade de sentido.

Enfim, os materialistas terão razão? Acho que sim, mas não há provas nem que sim nem que não. As narrativas espíritas me parecem infantis, mesmo porque os espíritos nunca sabem mais do que nós. Entretanto, nosso desespero é tal que ainda assim a maioria de nós crê neles. A coragem da qual fala Nietzsche e Camus me parece uma ideia muito elegante e muito próxima da virtude heroica: admiramos quem demonstra não ter medo diante do chefe ou de qualquer situação mais dramática na vida, mas, assim como a maioria dos europeus colaborou com os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, creio que continuamos optando pelo medo e pela mentira que servem à nossa sobrevivência. Apesar de a moral sofrer com a teoria materialista, muitos filósofos sustentaram e sustentam que não precisamos de deuses para agir segundo o que é certo (seja lá o que isso for). Isso vamos ver no próximo capítulo, quando enfrentaremos o que chamamos de moral ou ética.

  (Pondé, Luiz Felipe - Filosofia para corajosos) 

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publicado às 23:28


O Édipo da menina

por Thynus, em 09.01.17

Tempo pré-edipiano: a menina é como um menino2
Vou dar seqüência à nossa lenda metapsicológica descrevendo-lhes os quatro tempos do Édipo feminino. Vocês vão logo perceber que entramos em um mundo completamente diferente daquele do Édipo masculino. Ao passo que em um menino de quatro anos coexistem três desejos incestuosos – possuir, ser possuído e suprimir o Outro, na menina da mesma idade há apenas um desejo incestuoso no início: o de possuir a mãe, seguido mais tarde pelo de ser possuída pelo pai. Eu disse “possuir a mãe”, ainda que isso lhes pareça estranho para uma menina. A esse propósito, um esclarecimento. Se respeitamos a acepção corrente da palavra “Édipo” como a atração erótica da criança pelo genitor do sexo oposto, não podemos dizer que a menininha que deseja possuir a mãe esteja no Édipo; ela vive antes um pré-Édipo considerado necessário para acessar o pai e entrar efetivamente no Édipo. Portanto, é sexualizando inicialmente a mãe que a menina poderá em seguida sexualizar o pai. Eis por que Freud chama a etapa preparatória da sexualização do pai de “fase pré-edipiana”. Já o menino não precisa dessa fase preliminar, uma vez que deseja desde logo o genitor do sexo oposto, isto é, a mãe; e a mãe será o único objeto de seu desejo edipiano. Acabo de dizer que o menino sempre tem a mãe como objeto, apesar de, a propósito da fantasia de sedução do menino, ter-lhes mostrado que o pai também pode ser objeto do desejo do filho. Entretanto, classicamente falando, deveríamos dizer que o menino deseja apenas um único objeto sexual, a mãe; ao passo que a menina deseja ambos: antes a mãe, depois o pai.
Estamos na aurora do século XXI e sou obrigado a evocar as incontáveis e apaixonantes discussões travadas pelos psicanalistas nos anos 1930 acerca da importância da fase pré-edipiana na vida de uma mulher. Com efeito, essa fase é essencial para compreendermos a problemática das pacientes neuróticas que recebemos todos os dias. Quando escuto uma mulher, penso sempre na relação dela com a mãe, e, paralelamente, quando escuto um homem, penso mais freqüentemente em sua relação com o pai. Claro que estou em vias de expor uma teoria do Édipo, mas gostaria de fazê-los perceber a incidência do Édipo na clínica e sobretudo fazê-los compreender que o problema das neuroses reside no difícil retorno à idade adulta de um Édipo invertido, isto é, do que era na infância a atração sexual pelo genitor do mesmo sexo. A menina se neurotiza portanto mais facilmente a partir de sua relação com a mãe, e o homem se neurotiza mais facilmente a partir de sua relação com o pai. Assim, deveríamos dizer que a neurose masculina resulta de uma fixação do filho pelo pai e a feminina, de uma fixação da filha pela mãe. Se, como analista, você escuta um homem neurótico, pense sobretudo no pai dele; e, na presença de uma mulher neurótica, pense antes em sua mãe.
Deixemos agora a clínica e consideremos por um instante a expressão consagrada: “entrar no Édipo”. Quando diremos que uma menininha entra no Édipo? Nossa resposta é diferente da relativa ao menino. Este entra diretamente no Édipo porque desde logo deseja sua mãe e abandona o Édipo quando deseja outra mulher que não sua mãe. A menina, por sua vez, entra no Édipo (isto é, sexualiza seu pai) após ter atravessado a fase pré-edipiana durante a qual sexualiza, e depois rejeita, sua mãe, e abandona o Édipo quando deseja outro homem que não seu pai. Uma segunda dessimetria entre o menino e a menina diz respeito à velocidade com que eles saem do Édipo. O menino, como vimos, dessexualiza simultaneamente seus dois genitores de maneira rápida e brutal, ao passo que a menina dessexualiza primeiro a mãe e só depois, mais tarde, muito lentamente, separa-se sexualmente do pai. O menino sai do Édipo em um dia, a menina precisa de muitos anos. Assim, poderíamos dizer que o menino torna-se homem de uma tacada só, ao passo que a menina torna-se mulher progressivamente.
Mas voltemos ao período pré-edipiano, quando a menina deseja a mãe como objeto sexual, adotando perante ela a mesma atitude que o menino edipiano. Assim como ele, ela julga deter um Falo e mostra, por seus comportamentos, ser guiada por fantasias de onipotência fálica e prazer nas quais desempenha um papel sexual ativo em relação à mãe. Exatamente como o menino, ela se sente feliz, forte e orgulhosa; é curiosa, às vezes voyeurista, exibicionista e agressiva. Em suma, durante esse período, a menina é animada pelo desejo incestuoso de possuir a mãe, regozija-se por tê-la toda para si e adota uma posição nitidamente masculina, similar à do menino.
 
Tempo da solidão: a menina sente-se sozinha e humilhada

Ora, ocorrerá um acontecimento crucial que ofuscará o inocente e insolente orgulho da garotinha radiante por se sentir onipotente. Da mesma forma que o menino descobre, visualmente e angustiado, a ausência de pênis no corpo feminino, a menina constata a diferença de aspecto entre seu sexo e o do menino. A reação da menina é imediata; fica decepcionada por não ter o mesmo apêndice que o menino: “Ele tem alguma coisa que eu não tenho!” Até então fiava-se em suas sensações de poder vaginal e clitoridiano, que a confortavam em seu sentimento de onipotência. Agora que viu o pênis, duvida de suas sensações e julga que a fonte do poder não está nela, mas no corpo do outro, no sexo do menino. O impacto da visão do pênis, portanto, foi mais forte que a manifestada em suas sensações erógenas. A imagem desconcertante do pênis prevaleceu sobre seus sentimentos íntimos; o que ela viu aboliu o que ela sentia. A menina vê-se assim dolorosamente despossuída, pois o cetro da força não é mais encarnado por suas sensações erógenas, mas pelo órgão visível do menino. Agora o Falo está no outro e assume doravante a forma de um pênis. É então que, brutalmente, uma imensa ilusão desmorona, provocando um pungente dilaceramento interno. Chamo essa fantasia, na qual a menina sofre com a dor de ter sido privada do precioso Falo, de “fantasia de privação”, ou, mais exatamente, “fantasia da dor de privação”. Enquanto o menino vivia a angústia de ter a perder, a menina vive a dor de ter perdido; enquanto o menino teme uma castração, a menina se ressente de uma privação.
Lembrem-se, a fantasia que levou à resolução do Édipo no menino é uma fantasia de angústia. Temendo perder o Falo venerado que julga deter, o menino é levado a preferir o pênis à mãe. Para a menina, é radicalmente diferente: ela não tem medo de perder, uma vez que acaba de constatar que não tem pênis e que nunca o terá. Ao contrário do menino, ela nada tem a perder. Não, ela não receia perder, não sofre de angústia, sofre de dor, a dor de ter sido privada. Vejam, a angústia prevalece no menino e a dor, na menina. Mas dor por quê? Claro, dor por ter sido privada de um objeto inestimável que ela julgara possuir, mas sobretudo por ter sido enganada. Sim, a menininha sente-se enganada. Alguém todo-poderoso teria mentido para ela fazendo-a acreditar que ela detinha o Falo e que o conservaria eternamente. Mas quem é esse alguém senão sua própria mãe? Uma mãe ontem onipotente e que agora se revela impotente para lhe dar um Falo que ela própria não tem nem nunca teve. Sim, sua mãe também é tão desprovida quanto ela, merecendo apenas desprezo e recriminações.
É nesse exato instante que, despeitada, a menina esquiva-se da mãe e, em sua solidão, fica furiosa por ter sido privada e enganada. A dor de ter sido privada e a de ter sido enganada não passam na verdade de uma única e mesma dor, a qual chamo “dor da humilhação”, isto é, sentir-se vítima de uma injustiça e julgar a auto-imagem ferida. Aqui, a privação e o amor-próprio ferido confundem-se em um único sentimento, o da humilhação. A experiência da privação foi vivida como uma ofensa irreparável ao “legítimo” orgulho de possuir o Falo, como um golpe humilhante infligido em seu narcisismo. Havíamos dito que, para o menino, o objeto narcísico por excelência é seu precioso órgão, o pênis-Falo, e que sua opção por salvá-lo leva-o a renunciar aos pais. Para a menina, ao contrário, o objeto narcísico por excelência não é uma parte de seu corpo, é seu amor-próprio, a imagem cativante de si mesma. O Falo, para a menina, não é o pênis, mas a imagem de si. Ora, a reação imediata ao amor-próprio ferido é reivindicar à mãe o que lhe é devido e se queixar do prejuízo que sofreu. Apenas mais tarde, quando a filha desejar o pai, chegará a época da reparação, da pacificação e da reconciliação com a mãe. Por ora, a menininha está só, pois não tem mais pais para quem se voltar: rejeitou a mãe e ainda não recorreu ao pai. É um período de negra solidão, em que a menina chora seu narcisismo ofendido.
Resumindo, se o menino sai do Édipo para proteger seu narcisismo, eu diria que a menina entra no Édipo, vai ao encontro do pai para pedir-lhe que faça um curativo em seu narcisismo ferido. Formulemos de outra maneira. Para o menino, a salvaguarda de seu pênis-Falo interrompeu o impulso incestuoso em direção à mãe, ao passo que a necessidade de consolação desperta na menina um novo desejo, o de ser possuída pelo pai. Ela abandona a mãe, e, para ser consolada, procura o pai na esperança de ser possuída por ele. No caso do menino, o narcisismo do corpo interrompe o Édipo; no caso da menina, o narcisismo da imagem de si abre para o Édipo.
 
A inveja ciumenta de deter o Falo
Voltemos, porém, um pouco, ao momento em que a menina descobre no menino o pênis-Falo que ela não tem. Ela sofre, sente-se lesada em seu amor-próprio e reivindica, exige mesmo, o que lhe cabe: “Quero esse Falo que me tomaram e o terei nem que tenha que arrancá-lo do menino!”, ela exclama. Essa reivindicação mostra muito bem que a dor da humilhação comutou-se em fúria invejosa de deter o Falo. A menina é desde então presa de um sentimento que a psicanálise chama “inveja do pênis” e que prefiro chamar de “inveja do Falo” para enfatizar que a menina não inveja o órgão peniano do menino, mas o símbolo de potência por ele encarnado aos olhos das crianças. O pênis não a interessa, e, às vezes, inclusive a repugna; o que a interessa e apaixona é o poder que ela lhe atribui e que a deixa com inveja. Mas atenção! Inveja não é sinônimo de desejo. A inveja não é o desejo. Uma coisa é invejar o Falo, outra é desejar o pênis de um homem. Vejam, a menininha tem inveja do Falo, mas a mulher deseja o pênis; a inveja é um sentimento pueril, ao passo que o desejo de pênis é um impulso próprio da maturidade. Assim, para que uma menina venha a desejar o pênis de um homem, deve primeiro transformar-se em mulher, amadurecer seu Édipo, isto é, primeiro sexualizar seu pai e separar-se dele, para, mais tarde, tornar-se a companheira que goza do corpo e do sexo do homem amado. Não, a inveja do Falo é a inveja infantil e ciumenta de uma criança magoada, vingativa e nostálgica, que quer recuperar o símbolo do poder de que julga ter sido despossuída. Observem que, nesse duelo imaginário, ela luta de igual para igual com o menino e adota uma posição de rivalidade viril.
 
Tempo do Édipo: a filha deseja o pai

Eis que agora um novo personagem entra em cena: é o pai maravilhoso, grande detentor do Falo. É quando a menininha magoada e sempre ciumenta volta-se para ele a fim de se refugiar e se consolar, mas também para lhe reivindicar seu poder e sua potência. Quer ser tão forte quanto seu pai e brandir o Falo que a tornaria novamente senhora dos seres e das coisas. A tal pretensão, o pai todo-poderoso de sua fantasia opõe uma recusa inapelável, dizendo-lhe:
“Não, nunca lhe darei a chama da minha força, uma vez que ela cabe à sua mãe!” Naturalmente o pai que fala assim é um personagem caricatural, é o pai fantasiado por uma criança caprichosa e intransigente. Não, um pai adulto nunca falaria dessa forma. Se tivesse de responder a uma demanda tão pueril, antes replicaria: “Não, minha filha, não posso lhe dar o poder absoluto que você me atribui pela simples razão de que ele não existe. O Falo que você me pede é um sonho de criança, ainda que esse sonho seja uma velha quimera que levou os homens a se amarem, mas freqüentemente a se destruírem. Não, ninguém tem o Falo, e ninguém nunca o terá. Meu único poder, minha filha, meu mais dileto poder, é o poder supremo de desejar viver, de lutar a cada instante para fazer o que tenho de fazer, de amar o que faço e tentar transmitir-lhe esse desejo. Cabe a você depois transformá-lo em desejo feminino de amar, parir e criar.”
Essa recusa irrevogável do pai é recebida pela filha como uma bofetada que põe fim a toda esperança de um dia conquistar o mítico Falo. Ela acaba de compreender que nunca o terá e, não obstante, não se resigna. Ao contrário, lança-se agora, com toda a fúria de seu desejo juvenil, nos braços do pai, não mais para lhe arrancar o poder, mas para ser ela mesma a fonte do poder. Sim, ela queria ter o Falo, mas agora quer ir mais longe, quer -lo, ser a coisa do pai. Que significa isso? Isso significa que a menina quer ser, ela própria e por inteiro, o Falo precioso. Em outros termos, quer se tornar a favorita do pai. Em virtude do “não”, primeira recusa paterna, a inveja ciumenta de deter o Falo do pai dá lugar agora ao desejo incestuoso de ser possuída por ele, ser o Falo do pai. Quando a menina era invejosa, adotava uma posição masculina, agora que é desejante engaja-se em uma posição feminina. Ao sentimento masculino de inveja sucede o desejo feminino de ser possuída pelo pai.
Assim, ao sexualizar o pai, ator principal de suas fantasias, a menina entra efetivamente no Édipo. Por sinal, a fantasia de prazer que melhor ilustra o desejo edipiano de ser possuída pelo pai é a de ser sua mulher, esperança freqüentemente manifestada por essa frase: “Quando ficar grande, vou me casar com papai!” Essa entrada no Édipo é também o momento em que a mãe, após ter sido afastada, volta à cena e fascina a filha por sua graça e feminilidade. Com efeito, a mãe, antes tão desacreditada, é agora admirada como mulher amada e modelo de feminilidade. Espontaneamente a menina então aproxima-se da mãe e identifica-se com ela, mais exatamente com o desejo da mãe de agradar seu companheiro e ser amada por ele. O comportamento edipiano da menina inspira-se plenamente no ideal feminino encarnado pela mãe; a criança é toda olhos e ouvidos na observação da mãe e no aprendizado da arte de seduzir o homem. É a idade em que as filhas adoram observar a mãe se maquiando ou se embelezando – ainda que a admiração pela mãe seja duplicada por uma forte rivalidade: toda mãe é então, para a filha, tanto um ideal quanto uma temível rival. Assim, realiza-se o primeiro movimento de identificação da filha com o desejo da mãe, o de ser a mulher do homem amado e dar-lhe um filho.
 
Resolução do Édipo: a mulher deseja um homem

Da mesma forma que o pai recusou o Falo à sua filha, nega-se agora, com a mesma firmeza, a tomá-la como objeto sexual, a considerá-la como seu Falo, isto é, a possuí-la incestuosamente. Depois que a primeira recusa – “Não lhe darei minha força!” – permitiu à filha aproximar-se da mãe e com ela identificar-se, a segunda – “Não a quero como mulher!” – leva a filha a identificar-se com a pessoa do pai. Com efeito, produz-se um fenômeno curioso, mas perfeitamente saudável, no desenvolvimento do Édipo feminino: uma vez que a menina não pode ser o objeto sexual do pai, quer ser então como ele. “Já que não quer saber de mim como mulher, então vou ser como você!” Que significa isso? Que a menina aceita recalcar seu desejo de ser possuída pelo pai, sem com isso renunciar à sua pessoa. Enquanto o menino edipiano resigna-se a perder a mãe por covardia, por sua vez, a menina, que nada mais tem a perder, obstina-se audaciosamente a se apoderar do pai. Ela queria ter o Falo, recusaram-lhe; ela quis sê-lo, foi despachada; agora basta, quer tudo, quer o pai por inteiro e o terá! Eis por que digo que a dessexualização do pai é, no fundo, um luto: a menina chora o pai sexualizado e o faz reviver dessexualizado nela. Assim como o enlutado, que, na saída do luto, acaba por se identificar com o defunto, a menina, tendo renunciado ao pai fantasiado, acaba por se identificar com a pessoa do pai real. Ela mata seu pai fantasiado, mas o ressuscita como modelo de identificação. Em outras palavras, a menina deixa de considerar o pai desejável em suas fantasias edipianas e incorpora sua pessoa no eu. Assim, impregna-se de atitudes, gestos e até mesmo desejos e valores morais que caracterizam seu pai no real. Ela é “o retrato escarrado do pai”. Identificada com os traços masculinos do pai depois de se ter identificado com os traços femininos da mãe, a menina enfim abandona a cena edipiana, abrindo-se agora para os futuros parceiros de sua vida de mulher. Notem que as duas identificações constitutivas da mulher – identificação com a feminilidade da mãe e identificação com a virilidade do pai – foram desencadeadas por duas recusas do pai: recusa de dar o Falo à filha e recusa de tomá-la como Falo.
Mas mudemos o tom. O cara a cara a que acabamos de assistir, opondo a filha edipiana ao pai, inspirou-me esse breve e animado diálogo entre nossos dois heróis legendários. Apresso a adverti-los que o pai da cena seguinte é um homem saudável e apaixonado pela mulher!
A menina: Pai, dê-me sua força!
O pai: Não! Não farei nada disso. Não lhe darei minha força. Dou-a à sua mãe.
A menina: Mas então eu queria ser sua força! Por favor, deixe-me ser sua musa, a fonte ardente de sua força. Pai, eu suplico! Olhe para mim! Sou seu objeto mais precioso. Possua-me!
O pai: Não! Está fora de questão! Você não é minha mulher. Já lhe recusei minha força, e aceito ainda menos que você seja a fonte dela.
A menina: Já que é assim, já que você me priva de sua força e não me deixa ser sua musa, então vou me apoderar de você e ser como você, o que me diz disso? Melhor que você! Sim, vou devorá-lo inteirinho e me parecer com você a ponto de andar como você, ter o nariz como o seu, a intensidade do seu olhar, o brilho da sua inteligência ou o ardor da sua ambição. Então serei tão forte quanto você, e, você verá, muito mais forte!
Eis a avidez juvenil, a vontade pugnaz de uma menina que só terá fim quando realizar seu desejo de ser amada e, chegado o momento, esperar um filho. Amar e transmitir a vida, definitivamente, é a missão mais digna que a natureza atribui à mulher. Como se a natureza – se de fato existe uma entidade chamada natureza – a encorajasse, intimando-lhe: “Defenda o desejo com o bico e as garras, proteja o amor e garanta a transmissão da vida!”
Antes de prosseguir, gostaria de lhes dizer o quanto a literatura analítica sobre o Édipo feminino é imensa, rica e repleta de questões. Entretanto, todos os autores convergem para a mesma conclusão, isto é, que a feminilidade permanece um enigma não-resolvido. Porém, uma vez reconhecida nossa ignorância, nem por isso avançamos muito. Da minha parte, tentei aprofundar a lenda da menina edipiana, modelar sua história e propor um roteiro claro e detalhado para ela, um roteiro inspirado pela teoria psicanalítica e a escuta dos meus pacientes. Quis dramatizar minha intuição de que a menina, ao contrário do menino, era animada por uma sede inextinguível de amor e que o crescendo de seu Édipo – “Dê-me! Pegue-me! e Eu o devoro!” – não passava da escalada irresistível de um desejo que perpassa todas as fibras de sua feminilidade.
 
A mais feminina das mulheres tem sempre o pai dentro de si
“Meu pai deixou seu selo em mim: ele impregnou meu desejo, modelou a forma do meu nariz, marcou o ritmo dos meus passos, e, apesar disso, sinto-me a mais feminina das mulheres.”
DECLARAÇÃO DE UMA PACIENTE


Gostaria de me deter ainda por um instante na identificação da filha com a pessoa do pai. Do ponto de vista clínico, vocês não imaginam a importância do pai fantasiado na vida de uma mulher. Ao escutarem uma mulher sofredora, indaguem-se duas coisas. Em primeiro lugar, como já disse, indaguem-se sobre o laço, freqüentemente conflituoso, que ela estabeleceu com o genitor do mesmo sexo, isto é, com sua mãe; depois, indaguem-se qual é o pai que está dentro dela. Sim, uma mulher tem sempre seu pai dentro de si. Sempre que escuto uma paciente, ocorre-me a idéia de que é habitada pelo pai. Seguramente essa identificação não é válida para todas as mulheres, mas quando ela se confirma, e se você for um bom observador, você descobre facilmente o pai nas expressões distraídas do rosto de sua paciente, nas rugas de sua testa, na rudeza de suas mãos, na forma de seu nariz e, sobretudo, em sua maneira espontânea de se comportar e andar. Não é incomum uma mulher adotar inconscientemente o mesmo meneio de cabeça e a mesma postura do pai. Incontestavelmente, o pai fantasiado ocupa um lugar central na vida de uma mulher.
Aqui, penso em uma situação familiar mais clássica. Uma vez identificada com o pai, a filha pode não suportar mais seu verdadeiro pai, seu pai de carne e osso. Freqüentemente, se aborrece com ele e o critica por seus defeitos e fraquezas, ou, simplesmente, por ser o que é. Assim, o pai, quero dizer o verdadeiro pai, o pai que somos, tem diante de si, na pessoa da filha, a encarnação de seu próprio supereu. Sua filha tornou-se para ele, sem que ela o saiba, seu mais temível rival, e ele, para ela, seu mais intolerável espelho.
Uma última observação sobre a patologia da identificação da filha com o pai. Quando essa introjeção não é contrabalançada pela identificação com a mãe, instala-se uma das neuroses femininas mais tenazes, que designo como histeria de amor, que consiste em uma rejeição do laço amoroso. A mulher inteiramente tomada pelo pai fantasiado não consegue empreender uma relação amorosa duradoura; todos os seus receptores de amor estão saturados pela onipresença paterna. Ela não tem namorado mas continua fortemente impregnada pelo pai amado; está sozinha e insatisfeita, mas arrebatada por sua paixão secreta. Não é nem vingativa nem odiosa a respeito do homem, simplesmente aposentou-se da vida amorosa e sexual. Resumindo, prefere preservar seu pai interior a se lançar em uma relação afetiva, sempre frágil, em que se sente exposta ao risco de ser abandonada.
Porém, salvo essa eventual deriva neurótica resultante de uma intensa identificação com o pai, a menina se apropriará diversamente dos traços femininos e masculinos assimilados ao mesmo tempo da mãe e do pai. Este é precisamente o desfecho mais freqüente do Édipo feminino. O fim do Édipo é, com efeito, um comprido caminho, ao longo do qual a menina, ao se tornar mulher, adotará traços masculinos e femininos e transformará progressivamente seu desejo de ser possuída pelo pai em desejo de ser possuída pelo homem amado. Opera-se assim uma lenta dessexualização da relação edipiana com o pai e, correlatamente, a assunção de sua identidade feminina.
Como então é resolvido o Édipo da menina? Proponho-lhes o que poderia ser seu desenlace ideal. A fantasia dolorosa de ter sido privada de um Falo todo-poderoso encerrou-se definitivamente. Agora, a jovem em seu devir mulher esqueceu-se completamente da alternativa pueril de ter ou não ter o Falo. Ela não mede mais seu ser nem seu sexo com a régua de um suposto Falo masculino. Ela fez o luto do Falo ilusório e constata que seu sexo é diferente da falta de um Falo desaparecido. Assim, supera a idéia infantil que faz da mulher uma criatura castrada e inferior e pára de recriminar a mãe e de rivalizar com o homem. A menina descobre a vagina, o desejo de ser penetrada e gozar com o pênis na união sexual; da mesma forma, descobre o útero e seu desejo de carregar um filho do homem amado.
Mais uma palavrinha, antes de concluir, a fim de dissipar um mal-entendido corriqueiro: que a psicanálise, fundadora do conceito de Falo, concebia a mulher como uma criatura castrada e inferior! Isso é um absurdo! A única coisa que a psicanálise fez – e foi uma verdadeira revolução – foi descobrir que os seres humanos são habitados por fantasias tão mórbidas quanto o mais nefasto dos vírus, e que a mais virulenta dessas fantasias é representar a mulher como uma criatura castrada e inferior. Essa fantasia é antes de tudo uma quimera infantil. Sei muito bem que essa representação pueril está igualmente instalada na cabeça de vários adultos neuróticos. São justamente os neuróticos que acham que a mulher é uma criatura castrada – quando, evidentemente, isso é falso. O sexo de uma mulher não é de forma alguma a falta do que quer que seja! A mulher tem seu próprio sexo, e tem orgulho dele; quer se trate de sua vagina, de seus seios, de sua pele ou de todo o seu corpo erógeno, a mulher é feliz por ser o que é. Mas por que dizer que o neurótico, homem ou mulher, considera a mulher uma criatura inferior? Porque é dele próprio que se trata; é ele a mulher fraca! Fixado em sua fantasia infantil, o neurótico vive sob a ameaça de ser castrado. Assim, todas as suas relações afetivas são vividas no modo defensivo: está sempre de prontidão para bloquear qualquer abuso ou humilhação proveniente daqueles que o cercam, daqueles de quem depende e… de quem ele não gostaria nem morto de depender. É como se, em suas fantasias, o neurótico se dissesse: “Eles não me terão! Não sou uma mulherzinha!” Decerto a psicanálise postula que o Falo existe e que a mulher é castrada, mas, vocês entenderam, o Falo é uma ilusão e a mulher é castrada tão-somente na imaginação inconsciente das crianças e dos neuróticos.
 
 
Resumo da lógica do Édipo da menina
A exemplo do menino que nos contou sua travessia edipiana, escutemos agora o depoimento da menina:
 
FIGURA 3
Lógica do Édipo da menina


 (J.-D. Nasio - Édipo, O complexo do qual nenhuma criança escapa)

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publicado às 15:16


O Édipo do menino

por Thynus, em 09.01.17

No começo era o corpo de sensações erógenas1
Por volta de três, quatro anos, todos os meninos focalizam seu prazer sobre o pênis, vivido ao mesmo tempo como órgão, objeto imaginário e emblema simbólico. Nessa idade, o órgão peniano torna-se a parte do corpo mais rica em sensações e impõe-se como a zona erógena dominante, uma vez que o prazer por ele proporcionado à criança torna-se a referência principal de todos os outros prazeres corporais. Antes dessa idade, os locais de prazer eram a boca e, depois, o ânus e a atividade muscular – não esqueçamos que o prazer de andar, correr e agir prevalece em todos os bebês entre dois e três anos –, ao passo que, com quatro, todo prazer corporal, seja qual for o lugar excitado, repercute no nível de seu pequeno pênis sob a forma de um arrepio de prazer. Em outras palavras, se um menino de quatro anos sente prazer em olhar o decote da mãe ou gosta de se mostrar nu em público, ou ainda, excitado pela brincadeira, morde a coxa da irmãzinha, diremos que todos esse prazeres sentidos pela excitação dos olhos, dos dentes ou do corpo inteiro são prazeres que repercutem no nível de seu pequeno sexo e já lhe fazem viver uma excitação genital.
Porém, aos quatro anos, o pênis não é apenas o órgão mais rico em sensações. É também o objeto mais amado e o que reclama todas as atenções. Apêndice visível, facilmente manipulável, erógeno e eréctil, o pênis atrai a mão, assim como a teta atrai os lábios e a língua; o pênis convoca os olhares, atiça a curiosidade dos meninos e das meninas e lhes inspira fábulas, ficções e bizarras teorias infantis. A pregnância imaginária do pênis é tamanha que o menino faz dele seu objeto narcísico mais precioso, a coisa pela qual tem mais apego e orgulho de possuir. Assim, tal culto do pênis eleva o pequeno órgão ao nível de símbolo do poder absoluto e da força viril. Mas atenção! É também, e pelas mesmas razões, vivido como um órgão frágil, excessivamente exposto aos perigos e, por conseguinte, símbolo não apenas do poder, mas também da vulnerabilidade e da fraqueza. Pois bem, quando esse apêndice, eminentemente excitável, nitidamente visível, eréctil, manipulável e tão altamente valorizado torna-se aos olhos de todos – meninos e meninas – o representante do desejo, nós o chamamos de “Falo”. O Falo não é o pênis enquanto órgão. O Falo é um pênis fantasiado, idealizado, símbolo da onipotência e de seu avesso, a vulnerabilidade. Veremos adiante, quando abordarmos em detalhe o Édipo feminino, que a supremacia imaginária e simbólica do pênis é tão forte nessa idade que a menininha também acreditará que possui um Falo. É precisamente esse pênis fantasiado, dito Falo, que dá nome à fase do desenvolvimento libidinal durante a qual acontece a crise edipiana. Com efeito, Freud chama essa fase em que a sexualidade infantil permanece polarizada no Falo de “fase fálica” (cf. p.77-9).
Durante essa fase, as crianças, meninos ou meninas, acham que todas as criaturas do mundo são dotadas de um Falo, isto é, que todas as criaturas são tão fortes quanto elas. Quando, por exemplo, um menino considera que todos têm um Falo, ele pensa: “Todos detêm um órgão peniano como o meu. Todos experimentam as mesmas sensações que eu e todos devem se sentir tão fortes quanto eu.” Observo que essa ficção infantil, essa ilusão de acreditar que o pênis é um atributo universal, é forjada tanto pelo menino quanto pela menina. Ora, eis que a idolatria da criança pelo Falo vai ser acompanhada pela angústia de perdê-lo no menino e pelo sofrimento de havê-lo perdido na menina. Com efeito, nessa idade a criança já fez a experiência de perder os objetos vitais: bebê, perdeu o seio materno que considerava uma parte de si próprio; em seguida fez a experiência de renunciar à mamadeira e se separar de seu primeiro “paninho”; mais tarde, a experiência de defecar e constatar que seu “cocô” separa-se dele; fez também a experiência de perder o status de filho-rei com o nascimento de um irmãozinho ou irmãzinha; e, finalmente, talvez já tenha chorado a morte de um parente. Resumindo, na idade edipiana uma criança é perfeitamente capaz de se representar a perda de um objeto que lhe era caro e temer que ela se repita. Entretanto, para ser mais preciso, eu deveria acrescentar que, desde sua vinda ao mundo, ou melhor, desde as primeiras palpitações de seu corpo embrionário, o pequeno humano já é plenamente capaz de sentir a falta de um objeto vital, e eu diria até a falta pura e simplesmente. Sabemos o quanto um bebê, por menor que seja, sente, sabe e chora de dor quando lhe falta algo essencial. Eis por que eu diria que a aptidão da criança edipiana para perceber a falta é no fundo uma intuição inerente a toda a espécie humana.
Mas retomemos o fio. Peço-lhes agora que guardem a observação referente à ficção de um Falo universal e a referente à capacidade da jovem criança de se representar intuitivamente uma falta, pois essas duas proposições são as premissas indispensáveis para compreendermos como se formam a fantasia de angústia de castração no menino e a fantasia de dor de privação na menina, isto é, para compreendermos como o menino sai do Édipo e como a menina entra nele. Logo voltaremos a isso.
 
Os três desejos incestuosos
Abordemos agora a dinâmica dos desejos incestuosos. Excitado sexualmente e orgulhoso de seu poder, o menino de quatro anos vê eclodir em si uma nova força, um impulso desconhecido: o desejo de ir em direção ao Outro, em direção a seus pais ou, mais exatamente, em direção ao corpo de seus pais para nele encontrar prazer, para nele descobrir o conjunto dos diferentes prazeres erógenos conhecidos antes dessa idade. Eis a novidade do Édipo! Até esse estágio, a criança não conhecia tal floração dos sentidos e nunca tinha sentido desejo tão impetuoso de se apossar do corpo inteiro do Outro e nele encontrar prazer. Que prazer é esse? O desejo é o impulso que nos leva a procurar prazer no enlace com nosso parceiro. Deseja-se sempre uma pessoa em sua carne. Desejar é atirar-se para fora de si em busca da carne do outro; é querer atingir, através da carne, sobre a carne, o gozo mais requintado. Eis o que é o desejo! É nesse aspecto que todo desejo é um desejo sexual. Sexual quer dizer mais que genital. Sexual quer dizer: “Deixa-me olhar teu corpo nu! Acariciá-lo, senti-lo, beijá-lo, devorá-lo e, até mesmo, destruí-lo!” Que corpos? Os corpos daqueles a quem amo me atraem e estão ao alcance da minha mão. E que são eles para uma criança senão seu pai e sua mãe? Como um bichinho travesso, a criança edipiana põe as garras do desejo nas costas de seus pais. Em suma, a criança edipiana é arrastada por um impulso que a leva e pressiona a procurar prazer na troca sensual com os corpos daqueles a quem ama, de quem depende e que também são criaturas desejantes, criaturas que despertam e exercitam seu desejo. Ora, esse desejo imperioso, esse impulso irresistível cuja fonte são as excitações penianas, cujo alvo é o prazer e cujo objeto é o corpo de um dos genitores ou de qualquer outro adulto tutelar, esse impulso é uma expressão do mítico desejo de incesto. Sim, o Édipo é a tentativa infantil de realizar um desejo incestuoso irrealizável. Mas que é o desejo incestuoso? É um desejo virtual, nunca saciado, cujo objeto é um dos pais e cujo objetivo seria alcançar não o prazer físico, mas o gozo. Que gozo? O gozo prodigioso que proporcionaria uma relação sexual plena em que os dois parceiros, criança e adulto genitor, diluiriam em uma total e extática fusão. Naturalmente, esse desejo é um sonho irrealizável, uma maravilhosa história em quadrinhos, o mito grego ou a mais louca e imemorial das fábulas. Esclareço imediatamente que as verdadeiras passagens ao ato incestuosas pai/filha ou pai/filho e mais raramente mãe/filho são estupros relativamente raros e, quando acontecem, nunca proporcionam gozo algum, nem prodigioso nem banal. Nada disso! Ao contrário, a clínica dos casos de incesto revela a extrema pobreza da satisfação obtida pelo adulto perverso e o forte trauma sofrido pela criança. Não. O desejo incestuoso de que lhes falo nada tem a ver com a desgraça do abuso sexual cometido por um pai sobre seu filho. Mas então, vocês me diriam, por que a psicanálise precisa sacralizar o desejo incestuoso e postular que todos os desejos, por ínfimos que sejam, referem-se a um desejo igualmente virtual? Por que o desejo incestuoso é o desejo padrão? Pois bem, o único valor desse desejo insensato de ir para a cama com a mãe e matar o pai é ser a alegoria do louco desejo de retorno ao estado original de beatitude intrauterina. Para a psicanálise, cada um de nossos desejos cotidianos – o prazer sensual de contemplar um quadro ou acariciar o corpo do amado, por exemplo –, cada um desses desejos tenderia, de um ponto de vista teórico, insisto, para a felicidade perfeita de que gozariam dois seres conjugados em Um. O desejo incestuoso, portanto, não é senão uma figura mítica do absoluto, o nome assumido pelo desejo louco de um herói de penetrar sua mãe para encontrar seu ponto de origem nos confins do corpo materno. Para dizê-lo com uma imagem, o desejo incestuoso é o desejo de fusão com nossa terra nutriz.
Uma vez admitido o caráter mítico do desejo incestuoso, distingo três variantes dele no menino. Ressalvemos que os desejos incestuosos não são exclusivamente eróticos, mas antes um condensado de tendências eróticas e agressivas. Assim, há três desejos fundamentais presentes em um menino e em todo ser humano em posição masculina, seja qual for sua idade: o desejo de possuir sexualmente o corpo do Outro, em particular o da mãe; o desejo de ser possuído pelo corpo do Outro, em particular o do pai; e o desejo de suprimir o corpo do Outro, em particular o do pai. Desejo de possuir, desejo de ser possuído e desejo de suprimir, eis os três movimentos fundadores do desejo masculino.
 
As três fantasias de prazer
Ora, sem atingir esses três objetivos incestuosos e impossíveis – obter o gozo absoluto de possuir o corpo do Outro; ser possuído pelo Outro, isto é, ser sua coisa e fazê-lo gozar; e, finalmente, obter o gozo absoluto de suprimir o Outro –, o menino cria fantasias que lhe dão prazer ou angústia, mas que, de toda forma, satisfazem imaginariamente seus loucos desejos.
Mas em que consiste uma fantasia? Em uma cena, em geral consciente, destinada a satisfazer de maneira imaginária o desejo incestuoso irrealizável, ou melhor, a satisfazer qualquer desejo, uma vez que todo desejo é uma expressão do desejo incestuoso. Uma fantasia é uma cena imaginária que propicia consolo à criança, tome esse consolo a forma de um prazer ou, como veremos, de uma angústia. Assim, a fantasia tem como função substituir uma ação ideal que teria proporcionado um gozo não-humano por uma ação fantasiada que baixa a tensão do desejo e suscita prazer, angústia ou ainda outros sentimentos, às vezes penosos. Com efeito, a queda da tensão psíquica obtida com a fantasia nem sempre se traduz por distúrbios ou tormentos que, por penosos que sejam, permitem evitar uma fissura irreparável do psiquismo. Por mais espantoso que pareça, a queda da tensão psíquica também pode se traduzir por um sofrimento consciente. Uma crise de choro, por exemplo, pode exercer a função de uma descarga salutar; ou um sintoma fóbico impor-se como um mal menor que protege de outro mal muito mais grave, como uma psicose.
Observemos também que a cena fantasiada não é obrigatoriamente consciente e que ela com freqüência se traduz na vida cotidiana da criança por um sentimento, um comportamento ou uma fala. Um menininho, por exemplo, nunca copulará com a mãe, mas compensará essa impossibilidade com uma fantasia voyeurista em que a imagina nua. Essa fantasia se traduzirá então pela vontade maliciosa de espiar e surpreender a mãe em situações íntimas. Vocês têm aqui a gradação de que falamos: o desejo incestuoso de possuir a mãe, o desejo derivado de ver o corpo nu da mãe, a fantasia de imaginá-lo e, enfim, o gesto malicioso de olhar pelo buraco da fechadura, gesto que põe em ato a fantasia.
Eu gostaria, porém, de interromper um instante a fim de dissipar qualquer confusão entre os termos “sensações”, “desejos”, “fantasias” e “comportamentos”. Sejamos claros. Comecemos pelo começo. Em primeiro lugar, as sensações sentidas despertam o desejo de ir em direção ao corpo do adulto. Em seguida, esse desejo é satisfeito com fantasias que proporcionam prazer à criança. Repito que essas fantasias de prazer raramente são visualizadas mentalmente pelo sujeito. Somos nós, psicanalistas, que as deduzimos a partir da observação dos comportamentos infantis e, sobretudo, a partir da escuta de nossos analisandos adultos. Nós escutamos um paciente, criança ou adulto, e reconstruímos as cenas fantasiadas que governam suas vidas. Ora, subindo um degrau na abstração, diremos que essas cenas são forjadas inconscientemente pelo sujeito para satisfazer imaginariamente seu desejo – desejo voyeurista no nosso exemplo – e, além disso, para satisfazer seu mítico desejo de incesto. Vamos resumir. Fico sabendo que um garotinho espia sua mãe e deduzo disso que está inconscientemente animado por uma cena voyeurista em que sua mãe estaria nua. Considero também que essa cena satisfaz o desejo incestuoso de possuir sua mãe e, mais concretamente, o desejo de devorá-la com os olhos. Em suma, as sensações despertam o desejo, o desejo suscita a fantasia e a fantasia se atualiza através de um sentimento, um comportamento ou uma fala. Por exemplo, ao nos vermos diante de uma emoção, dizemos que ela exprime uma fantasia e que a fantasia satisfaz um desejo, sempre vivificado pelo corpo de sensações.
Estabelecidas essas premissas, vejamos agora como cada um dos três desejos incestuosos se satisfaz imaginariamente graças a uma fantasia de prazer particular. A cada desejo incestuoso corresponde uma fantasia de prazer específica. Qual é então a fantasia específica do desejo incestuoso de possuir o Outro? Na verdade, essa fantasia adota vários roteiros em que a criança desempenha sempre um papel ativo e se sente orgulhosa de impor sua presença ao Outro. A fantasia de possessão manifesta-se por meio dos comportamentos típicos dessa idade, como por exemplo exibir-se de maneira escandalosa, brincar “de papai e mamãe”, brincar “de médico”, bancar o palhaço, dizer palavrões sem conhecer sua significação ou mesmo macaquear posições sexuais. Às vezes o gesto que predomina é o de tocar o corpo de um de seus pais, irmãos ou irmãs ou beijá-lo febrilmente e às vezes mordê-lo ou maltratá-lo. Mas de todos os roteiros de possessão o que exprime mais fielmente o desejo incestuoso de possuir o Outro é o desejo do menino de se apoderar da mãe e tê-la apenas para si.
Gostaria de dar um exemplo. Penso aqui em um menininho de três anos, Martin. É um garoto vivo, malicioso que só, que sua mãe, uma de minhas analisandas, levara um dia ao meu consultório, não tendo conseguido ninguém para ficar com ele. Enquanto a criança brincava na sala de espera contígua ao meu consultório, a mãe me contou em tom de aparte um episódio sobre o filho, que considero uma bela ilustração de uma fantasia de prazer edipiana de possuir a mãe. Saibam que a mãe de Martin é uma moça divorciada, muito bonita e simpática, que mora sozinha com o filho. Ela então me conta: “Adivinhe, doutor, o que me aconteceu com esse traquinas do Martin. Eu estava no banheiro, em trajes sumários, me maquiando – deixo sempre a porta entreaberta – e, de repente, dei um grito: Martin entrara silenciosamente, na ponta dos pés, e me mordera as nádegas antes de fugir correndo, todo orgulhoso e feliz com o que tinha feito.” Peço-lhes que imaginem esse menininho insinuando-se sorrateiramente no banheiro e descobrindo, na altura dos olhos, as nádegas atraentes da mãe. Seu olho se acende, ele se aproxima e, subitamente, morde com vontade. É isto o Édipo! O Édipo é morder as nádegas da mãe! O Édipo não é acariciar ternamente a mamãe, é desejá-la e mordê-la. Isso parece evidente agora que lhes digo, mas essa evidência da natureza sexual do Édipo (o Édipo é uma questão de sexo e não de amor) nem sempre é admitida. O Édipo é o desejo sexual de um menininho que não tem nem cabeça nem corpo para assumi-lo.
Depois dessa primeira fantasia edipiana de possuir a mãe, chegamos à segunda fantasia de prazer, a de ser possuído pelo Outro. A fantasia mais típica do desejo de ser possuído é uma cena em que o menino sente prazer em seduzir um adulto para se tornar seu objeto. Essa fantasia é uma fantasia de sedução sexual em que o menino sedutor imagina-se seduzido pela mãe, por um irmão mais velho ou até mesmo, ainda que isso os surpreenda, pelo próprio pai. Com efeito, um menino pode desempenhar o papel passivo, eminentemente feminino, de ser a coisa do pai e fazê-lo gozar. Mas devemos entender que, se a criança imagina-se seduzida, não apenas ela é vítima passiva de um pai perverso, malvado ou tarado, como também uma sedutora ativa que espera ser seduzida; a criança seduz para ser seduzida. Observemos que, se essa fantasia edipiana de sedução do menino pelo pai imobiliza-se e invade mais tarde a vida do adulto que a criança se tornou, ela medra como um agente nocivo, causa freqüente de uma forma de histeria masculina muito difícil de tratar. Freqüentemente, o tratamento analítico dessa histeria fracassa e esbarra em uma crise conhecida como “pedra de castração” ou, como a chamava Adler, “protesto viril”. Uma vez que nos referimos à clínica, assinalo que a escolha de lhes apresentar o Édipo corresponde acima de tudo ao meu desejo de esclarecer a prática de vocês com seus pacientes adultos. Pois, como vocês perceberam, o interesse do Édipo não é apenas teórico, é principalmente clínico, e a fantasia de sedução é uma ilustração patente disso. Sempre que recebo homens neuróticos que me demandam uma análise, penso em sua fantasia inconsciente de serem a coisa do pai e fazê-lo gozar.
A última fantasia de prazer, a relativa ao desejo de suprimir o Outro, em particular o pai, coloca o sujeito em uma atitude sexual ativa. Digo “sexual” porque destruir o Outro provoca tanto prazer sexual quanto qualquer fantasia edipiana. Um dos comportamentos infantis que melhor traduz a fantasia de matar o pai rival é aquele, muito freqüente, em que o menininho aproveita-se da ausência do pai, em viagem, para brincar de “chefe de família” e, por exemplo, querer partilhar o grande leito conjugal com a mãe.
 
As três fantasias de angústia de castração
As fantasias de prazer – seja aquela em que o menino adota uma atitude sexual ativa como morder a mãe; seja aquela em que adota uma atitude sexual passiva como seduzir para ser seduzido; seja, enfim, aquela em que adota uma atitude sexual ativa de rejeição do pai –, todas essas fantasias são fantasias de prazer que, embora façam a criança feliz, também desencadeiam nela uma profunda angústia: o menininho malicioso teme ser punido por seu pecado, punido com a mutilação de seu órgão viril, símbolo de sua potência, de seu orgulho e de seu prazer. Essa fantasia, em que seria punido com a mutilação de seu Falo, chama-se fantasia de “angústia de castração”. Vamos entender. A ameaça de ser punido com a castração e a angústia daí resultante são uma ameaça e uma angústia fantasiadas. Decerto, um menino pode cometer um erro e ter medo do castigo, mas a fantasia de ser punido com a castração e a angústia daí resultante são inconscientes. Falemos claramente: a angústia de castração não é sentida pelo menino, ela é inconsciente. Este é um ponto importante, pois muitos de vocês gostariam de verificar se um menininho de quatro anos receia efetivamente que lhe mutilem o pênis. Pois bem, respondo-lhes prontamente: salvo exceção, vocês não terão confirmação desse receio. Claro, acontece muitas vezes de determinada mãe, ao ver o filho apalpar o sexo, gritar com ele: “Pare de se bolinar! Seu passarinho não vai voar e ninguém vai comê-lo!” Mas é uma réplica que não suscita no menininho nenhuma angústia de ser castrado. Não. A angústia de castração nunca é consciente. Isso posto, como considerar então as angústias que observamos diariamente nos meninos sob a forma de medos ou pesadelos? Eu diria que essas angústias infantis são as formas clínicas assumidas pela angústia inconsciente de castração. Em suma, não interessa se o menino sofre ou não uma ameaça real e se angustia, o que interessa saber é que, de toda forma, ele é habitado pela angústia inconsciente de castração; enquanto desejar e obtiver prazer, ainda que mínimo, ficará angustiado. A angústia é o avesso do prazer. Angústia e prazer são tão indissociáveis que os imagino como gêmeos paridos pelo desejo. Gostaria de ser bem claro nesse ponto. Da mesma forma que a psicanálise postula a premissa do desejo incestuoso, ela afirma que todos os homens são essencialmente habitados por uma angústia de castração intrínseca ao desejo masculino. Voltaremos a isso quando falarmos da neurose masculina, mas desde já afirmo que a angústia de castração é a medula espinhal do psiquismo do homem. Quanto ao psiquismo da mulher, veremos mais tarde de que estofo emocional é feito.
Dizíamos então que a angústia masculina é o avesso do prazer de fantasiar. Com efeito, não existe prazer edipiano sem a contraparte: a angústia de desejar e de ser punido por isso. Esse par de sentimentos antagônicos, prazer e medo de ser punido, está na base de toda neurose. Podemos desde já dizer que o próprio Édipo é uma neurose infantil, ou melhor, a primeira neurose de crescimento do ser humano. Por quê? Porque a neurose é acima de tudo a ação simultânea de sentimentos opostos e porque a criança edipiana sofre, como um neurótico, com o doloroso conflito entre saborear o prazer de fantasiar e ter medo de ser punido caso persevere. Voltarei muitas vezes a essa idéia cardinal segundo a qual o Édipo é, em si, uma neurose.
Embora já tenhamos afirmado o status inconsciente da angústia de castração sem apresentar situações concretas para justificá-lo, nem por isso certos incidentes da vida da criança deixam de confirmar, se necessário, a existência dessa angústia. Eis o acontecimento incontornável a que se referem todos os teóricos do Édipo. Um dia, o menino vê o corpo nu de uma menininha ou de sua própria mãe e constata, surpreso, que elas não têm pênis-Falo. Se lembrarmos a ilusão infantil segundo a qual todo o mundo possui um Falo, compreenderemos por que o menino então rumina inconscientemente: “Uma vez que existe um ser neste mundo que perdeu seu Falo, também corro o risco de ficar privado dele.” É com essa descoberta que a angústia de castração é definitivamente confirmada.
Temos então três variantes da fantasia de angústia, que devem ser compreendidas como o avesso das três fantasias de prazer:
• Se a fantasia de prazer é morder a mãe ou ter um filho com ela, isto é, possuir o Outro, a ameaça de castração incide sobre o objeto mais precioso: o pênis-Falo, ou seja, sobre a parte do corpo mais investida. Aqui, o agente da ameaça é o pai repressor, que lembra ao menino a Lei do interdito do incesto: “Não possuirás tua mãe nem lhe darás um filho!” Da mesma forma, ele se dirige à mãe, dizendo-lhe: “Não reintegrarás teu filho no teu seio!”
• Se a fantasia de prazer é uma fantasia de sedução, isto é, ser possuído pelo Outro, mais exatamente oferecer-se ao pai, a ameaça de castração incide igualmente sobre o Falo, mas dessa vez considerado menos como apêndice destacável que como símbolo da virilidade. Aqui, o agente da ameaça não é o pai repressor, mas o pai sedutor: o pai é um amante que o menino deseja, mas teme que vá longe demais e abuse dele. Nesse caso, a angústia não é o medo de perder o pênis-Falo, mas de perder a virilidade tornando-se a mulher-objeto do pai. “Tenho medo de ser assediado sexualmente pelo meu pai e de com isso perder minha virilidade.” Insisto em dizer que essa fantasia de sedução do menino pelo pai e a angústia de ser assediado é uma fantasia primordial que pode ser constatada no tratamento analítico dos homens neuróticos.
• E, finalmente, se a fantasia de prazer é uma fantasia de afastar o pai rival, a ameaça de castração incide novamente sobre o pênis-Falo considerado a parte exposta do corpo. Aqui, o agente da ameaça é o pai odiado que intimida a criança para deter seus impulsos parricidas.
Eis, portanto, as três variantes da fantasia de angústia de castração. Na primeira, o pai é um repressor temido; na segunda, é um tarado temido; e, na terceira, é um rival temido. Em todos os casos, o agente da ameaça é o pai e o objeto ameaçado, o pênis-Falo ou seu derivado, a virilidade.
 
Resolução do Édipo do menino:a dessexualização dos pais
O menino desiste da mãe porque tem medo de ser punido em sua carne, ao passo que a menina – como veremos – abandona a mãe que a decepciona e volta-se para o pai.
A que leva à angústia de castração? Pois bem, é ela que precipita o fim da crise edipiana. Com efeito, dilacerado entre suas fantasias de prazer e suas fantasias de angústia, dividido entre a alegria e o medo, o menino é finalmente tomado pelo medo. A angústia, mais forte que o prazer, dissuade a criança de prosseguir sua busca incestuosa e a leva a desistir do objeto de seus desejos. Angustiada, a criança esquiva-se dos pais tomados como objetos sexuais para salvar seu precioso pênis-Falo, isto é, para proteger seu corpo. Com a renúncia aos pais e a submissão à Lei do interdito do incesto, consuma-se assim o momento culminante, o apogeu do complexo de Édipo masculino. Finalmente, a criança consegue preservar seu Falo, mas ao preço de abandonar seus pais sexualizados. Em outros termos, sob ameaça, o menino angustiado tem de escolher entre proteger a mãe ou o pênis. Pois bem, é o pênis que ele protege e é a mãe que ele abandona. Ao renunciar à mãe, dessexualiza globalmente os dois pais e recalca desejos, fantasias e angústia. Aliviado, pode agora abrir-se a outros objetos desejáveis, mas dessa vez legítimos e adaptados às suas possibilidades reais. Somente assim, separada sexualmente dos pais, a criança pode doravante desejar outros parceiros escolhidos fora de sua família.
 
Comparado à mulher, o homem é visceralmente um covarde

Quanto mais o menino for amado pela mãe, mais se tornará um homem viril. E quanto mais orgulhoso for de sua potência, mais se preocupará em defendê-la, suscetível quanto à sua virilidade e ridiculamente sensível ao menor “dodói”. Comparado à mulher, o homem é visceralmente um covarde.
Gostaria aqui de esquematizar a seqüência da crise edipiana do menino. Temos então três tempos: amor pelo pênisangústia de perdê-lorenúncia à mãe. Graças à angústia, o narcisismo do menino, isto é, o amor pelo próprio corpo, o amor por seu pênis-Falo, prevaleceu sobre o desejo pelos pais. Sob ameaça, o narcisismo foi mais forte que o desejo ou, formulado em outras palavras, as pulsões de autoconservação venceram as pulsões sexuais. Insisto em dizer que essa vitória do narcisismo sobre o desejo foi precipitada pela angústia: não se esqueçam de que é por medo de se prejudicar que o menino se esquiva da mãe. Entretanto, a angústia será recalcada, e, freqüentemente, mal recalcada. Com efeito, veremos que a neurose na idade adulta é o retorno da angústia de castração mal recalcada na infância. Porém, fora desse retorno neurótico, é incontestável que a angústia de castração permanece onipresente na relação normal que um homem mantém com seus órgãos genitais e, mais genericamente, com sua virilidade. Apesar de seu recalcamento pela criança edipiana, a angústia, pivô do Édipo do menino, marca para sempre a condição masculina. Com isso, podemos deduzir o quanto a angústia está no centro da vida de um homem. Ela impregna tão fortemente o caráter masculino que não hesito em dizer, e a clínica o comprova, que o homem é uma criatura particularmente medrosa diante da dor física, e preocupado em garantir permanentemente sua virilidade e sua potência. O homem é essencialmente um ser aflito com a perda do poder que julga possuir, ou, para dizê-lo em uma síntese caricatural, o homem é um covarde. Sim, reconheço, nós, homens, somos visceralmente covardes; e essa covardia vem do medo; e o medo vem do narcisismo excessivo do corpo, da atenção inquieta e febril que dirigimos ao nosso corpo. Esclareçamos, da atenção que dedicamos não à aparência ou à beleza do corpo, mas ao seu vigor e, sobretudo, sua integridade. A propósito, ocorre-me aqui uma imagem divertida inspirada nas partidas de futebol, quando os jogadores formam a barreira para bloquear um tiro direto. Nesse momento, por reflexo, colocam as duas mãos cruzadas sobre o sexo para se protegerem da bola. É uma imagem burlesca, que lembra uma fileira de menininhos, todos preocupados com seus corpos, e é também uma ilustração clara da maneira como o homem vive seu sexo como seu mais íntimo calcanhar-de-aquiles. Porém o mais engraçado desse instantâneo futebolístico é constatar que, quando o jogador da equipe adversária bate finalmente a falta, os defensores da barreira, sempre preservando seu sexo, desequilibram-se espontaneamente como se tivessem medo de ser atingidos pela bola, e, às vezes, contra toda a expectativa, saltam no lugar para evitar serem atingidos pela bola, correndo o risco de deixá-la passar entre as pernas e vê-la no fundo das redes! Preocupados em se preservar, negligenciam sua missão, que é bloquear a bola. Da mesma forma, quando sua virilidade está em perigo, o homem fica tão preocupado em protegê-la quanto o jogador em proteger seu sexo. Ele pode arriscar tudo, até sua vida, mas nunca seu orgulho de ser viril. Ora, quem são as criaturas que, na vida de um homem, podem fazer-lhe mal, tomar-lhe o poder, ameaçar sua virilidade ou humilhá-lo senão o pai admirado e temido ou a mulher, isto é, a mulher que rivaliza com ele? Quem pode roubar-lhe a potência senão o pai admirado ou a mulher rival? Em todo caso, não a mãe. Ao contrário, a mãe alimenta sua força e o persuade sobre o destino excepcional que o espera… Eis por que recomendo sempre às mães que exprimam ao filho toda a confiança que depositam nele e o apóiem em seus projetos. Sobretudo que não o apóiem no que diz respeito à sua beleza ou sua imagem, mas ao seu poder de fazer e criar. Com efeito, repetir para ele que ele é bonito e simpático antes reforçaria seu “mau” narcisismo, o da imagem, e enfraqueceria seu eu. Não, decididamente, não é a mãe que ameaça o homem, são antes o pai idealizado e a mãe vingadora. Em suma, para o homem, o sexo, a virilidade e a força são as coisas a serem defendidas a todo custo.
 
Os frutos do Édipo: o supereu e a identidade sexual
Uma vez resolvido – eu deveria dizer insuficientemente resolvido, uma vez que a dessexualização dos pais nunca é completa e a angústia, nunca definitivamente recalcada –, o complexo de Édipo masculino terá duas conseqüências decisivas na estruturação da personalidade futura do menino: por um lado o nascimento de uma nova instância psíquica, o supereu, por outro a confirmação de uma identidade sexual nascida por volta dos dois anos de idade e afirmada mais solidamente após a puberdade. O supereu é instituído graças a um gesto psíquico surpreendente: o menino abandona os pais como objetos sexuais e os mantém como objetos de identificação. Uma vez que não pode mais tê-los como objetos de seu desejo, apropria-se deles como objetos do seu eu; na impossibilidade de -los como parceiros sexuais, promete inconscientemente ser como eles – em suas ambições, fraquezas e ideais. Sem poder possuí-los sexualmente, assimila a moral deles. É graças a essa incorporação que a criança integra os interditos parentais que doravante imporá a si mesma. O resultado dessa passagem da sexualidade à moral é o que designamos supereu e os sentimentos que o exprimem: pudor, senso de intimidade, vergonha e delicadeza moral.
O segundo fruto do Édipo é a assunção progressiva da identidade sexual. Antes do Édipo, a criança tinha um conhecimento rudimentar e intuitivo acerca da diferença dos sexos sem ainda ser capaz de se dizer menina ou menino ou afirmar que o pai é um homem e a mãe, uma mulher. No início do Édipo, nem sempre ele consegue identificar o sexo de seu pai, de sua mãe ou de seus irmãos e irmãs. Não esqueçamos que, aos três anos, a linha divisória ainda não passa entre homem e mulher, masculino e feminino, mas entre aqueles que têm o Falo e os que não o têm, entre os fortes e os fracos. Entretanto, o contexto familiar, social e lingüístico, bem como as sensações erógenas que emanam de sua região genital e a sensação de ser atraído pelo pai de sexo oposto, são os fatores que instalarão progressivamente as bases de uma identidade sexual que só será realmente adquirida muito mais tarde, na época da puberdade. É então que o jovem adolescente integrará a idéia de que o pênis é um atributo exclusivo do homem e, se já descobriu a vagina, que a vagina é um atributo exclusivo da mulher. Pouco a pouco, ele se forjará uma identidade sexual de homem e ao mesmo tempo descobrirá que a masculinidade e a feminilidade são antes de tudo comportamentos que não correspondem necessariamente à realidade fisiológica e anatômica de um homem ou de uma mulher. Aprenderá assim que todos os seres humanos, em virtude de sua constituição bissexual, possuem ao mesmo tempo características masculinas e femininas. Daí concluirá, talvez, que a diferença sexual permanece um enigma que não cessa de nos interrogar. O leitor pode desde já se reportar à FIGURA 8, que apresenta um quadro comparativo entre o tipo viril e o tipo feminino. Adianto que esse quadro deve ser lido como o conjunto dos traços dominantes que caracterizam o comportamento de um homem e o de uma mulher do ponto de vista do Édipo, e não como um conjunto de traços normativos.
 
 
Resumo da lógica do Édipo do menino
Antes de abordar o Édipo da menina, gostaria de resumir as diferentes fases atravessadas pelo menino edipiano, dando-lhe a palavra. Vamos escutá-lo:
“Tenho quatro anos. Sinto excitações penianas → Tenho o Falo e julgo-me onipotente → Desejo ao mesmo tempo possuir sexualmente meus pais, ser possuído por eles e eliminar meu pai → Sinto prazer em fantasiar meus desejos incestuosos → Meu pai ameaça me punir me castrando →Vejo o corpo nu de uma menina ou o de minha mãe e constato a ausência de pênis → Sinto mais medo ainda de ser punido → Angustiado, prefiro renunciar a desejar meus pais e salvar meu pênis → Esqueço tudo: desejos, fantasias e angústia → Separo-me sexualmente de meus pais e adoto a moral deles → Começo a compreender que meu pai é um homem e minha mãe uma mulher e a saber pouco a pouco que pertenço à linha dos machos → Mais tarde, na adolescência, minhas fantasias edipianas ressurgirão, mas meu supereu, muito severo nessa idade, vai se opor ferozmente a isso. Essa luta entre fantasias e supereu irá se manifestar por atitudes exageradas e conflituosas próprias da adolescência: pudor exacerbado, inibições, medo da mulher e desprezo por ela, bem como negação dos valores estabelecidos.”
FIGURA 2
Lógica do Édipo do menino

(J.-D. Nasio - Édipo, O complexo do qual nenhuma criança escapa)

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publicado às 15:13

Édipo Rei, de Sófocles, consegue, cinco séculos antes de Cristo, tal a sua importância na história da humanidade, estar presente hoje na base da dramaturgia ocidental, na criação da psicanálise e... nos primórdios do romance policial. Pelo menos nove entre dez estudiosos de literatura policial (a exceção é o filósofo Roger Callois, em seu Le Roman Policièrej situam este marco da tragédia grega como um precursor do gênero de massa que só iria se desenvolver mais de vinte séculos depois. É isso que justifica (mesmo através de um pequeno desvio de "gênero ",já que teatro não é conto, embora ambos sejam narrativas ficcionais, mas com um objetivo, digamos assim, "didático") sua inclusão na nossa antologia, através de um trecho significativo, no qual esta aproximação pelo menos nos enriquece. A tradução, direta do grego, é do competente Mário da Gama Kury.
 
Édipo Rei atravessou os séculos e alcançou uma nova interpretação quando Freud a empregou em sua teoria sobre a formação do inconsciente
 
(...)
 
ÉDIPO
Ah! Filhos meus, merecedores de piedade!
Sei os motivos que vos fazem vir aqui; vossos anseios não me são desconhecidos.
Sei bem que todos vós sofreis mas vos afirmo que o sofrimento vosso não supera o meu.
Sofre cada um de vós somente a própria dor; minha alma todavia chora ao mesmo tempo pela cidade, por mim mesmo e por vós todos.
Não me fazeis portanto levantar agora como se eu estivesse entregue ao suave sono.
Muito ao contrário, digo-vos que na verdade já derramei sentidas, copiosas lágrimas.
Meu pensamento errou por rumos tortuosos.
Veio-me à mente apenas uma solução, que logo pus em prática: mandei Creonte, filho de Meneceu, irmão de minha esposa, ao santuário pítico do augusto Febo para indagar do deus o que me cumpre agora fazer para salvar de novo esta cidade.
E quando conto os muitos dias transcorridos desde a partida dele, sinto-me inquieto com essa demora estranha, demasiado longa.
Mas, quando ele voltar, eu não serei então um homem de verdade se não fizer tudo que o deus ditar por intermédio de Creonte.
 
(Os anciãos do CORO, que se haviam agrupado em volta de Édipo enquanto ele falava, fazem um gesto indicando alguém que se aproxima.)
 
SACERDOTE
Sim, vejo que falaste a tempo; neste instante apontam-me Creonte; ei-lo de volta, enfim.
 
(Entra CREONTE, apressado, coroado de bagas de loureiro com aspecto alegre.)
 
ÉDlPO
Traga-nos ele, deus Apolo, a salvação resplandecente como seu próprio semblante!
 
SACERDOTE
Ele parece alegre; as bagas de loureiro em forma de coroa são um bom sinal.
 
ÉDlPO
Ele já pode ouvir-nos; logo o escutaremos.
(Dirigindo-se a CREONTE.)
Filho de Meneceu, príncipe, meu cunhado, transmite-nos depressa o que te disse o deus!
 
CREONTE
Foi favorável a resposta, pois suponho que mesmo as coisas tristes, sendo para bem, podem tornar-se boas e trazer ventura.
 
ÉDIPO
Mas, que resposta ouviste?
Estas palavras tuas se por um lado não me trazem mais temores por outro são escassas para dar-me alívio.
 
CREONTE
(Indicando os tebanos ajoelhados.)
Se é teu desejo ouvir-me na presença deles, disponho-me a falar.
Ou levas-me ao palácio?
 
ÉDIPO
Quero que fales diante dos tebanos todos; minha alma sofre mais por eles que por mim.
 
CREONTE
Revelarei então o que ouvi do deus.
Ordena-nos Apolo com total clareza que libertemos Tebas de uma execração oculta agora em seu benevolente seio, antes que seja tarde para erradicá-la.
 
ÉDIPO
Como purificá-la? De que mal se trata?
 
CREONTE
Teremos de banir daqui um ser impuro ou expiar morte com morte, pois há sangue causando enormes males à nossa cidade.
 
ÉDIPO
Que morte exige expiação?
Quem pereceu?
 
CREONTE
senhor, outrora rei deste país, antes de seres aclamado soberano.
 
ÉDIPO
Sei, por ouvir dizer, mas nunca pude vê-lo.
 
CREONTE
Ele foi morto: o deus agora determina que os assassinos tenham o castigo justo, seja qual for a sua posição presente.
 
ÉDIPO
Onde os culpados estarão?
Onde acharemos algum vestígio desse crime muito antigo?
 
CREONTE
Em nossa terra, disse o deus; o que se busca encontra-se, mas foge-nos o que deixamos.
 
ÉDIPO
Foi no palácio, foi no campo ou em terra estranha que assassinaram Laio como nos falaste?
 
CREONTE
Disse ele, quando foi, que ia ouvir o deus e nunca mais voltou aos seus, à sua terra.
 
ÉDIPO
Nenhum arauto ou companheiro de viagem viu algo que pudesse orientar-nos hoje?
 
CREONTE
Todos estão agora mortos, salvo um que desapareceu com medo e pouco disse.
 
ÉDIPO
Que disse?
É pouco, mas um mínimo detalhe talvez nos leve a descobertas decisivas se nos proporcionar um fio de esperança.
 
CREONTE
Falou que alguns bandidos encontraram Laio e o trucidaram, não com a força de um só homem pois numerosas mãos se uniram para o crime.
 
ÉDIPO
Como teria ousado tanto o malfeitor sem conspirata em Tebas e sem corrupção?
 
CREONTE
Tivemos essa idéia, mas após o crime nenhum de nós em meio a males mais prementes pôde cuidar naquela hora de vingá-lo.
 
ÉDlPO
Que males, no momento em que o poder caía, vos impediram de aclarar o triste evento?
 
CREONTE
A Esfinge, entoando sempre trágicos enigmas, não nos deixou pensar em fatos indistintos; outros, patentes, esmagavam-nos então.
 
ÉDlPO
Pois bem; eu mesmo, remontando à sua origem, hei de torná-los evidentes sem demora.
Louve-se Febo, sejas tu também louvado pelos cuidados que tiveste quanto ao morto; verás que vou juntar-me a ti e secundar-te no esforço para redimir nossa cidade.
E não apagarei a mácula por outrem, mas por mim mesmo: quem matou antes um rei bem poderá querer com suas próprias mãos matar-me a mim também; presto um serviço a Laio e simultaneamente sirvo à minha causa.
(Dirigindo-se aos tebanos ajoelhados.)
Vamos depressa, filhos!
Vamos, levantai-vos desses degraus!
Levai convosco os vossos ramos de suplicantes; quando decorrer o tempo reúna-se de novo aqui a grei de Cadmos e dedicar-me-ei de todo ao meu intento.
Querendo o deus, quando voltarmos a encontrar-nos teremos satisfeito este nosso desejo, pois o contrário será nossa perdição.
 
SACERDOTE
Sim, filhos meus, ergamo-nos; foi para isso que aqui nos reunimos todos neste dia.
E possa Febo, inspirador das predições, juntar-se a nós, ele também, para salvar-nos e nos livrar deste flagelo para sempre!
 
(Retiram-se ÉDIPO, CREONTE, o SACERDOTE e o povo. Permanece em cena o CORO, composto de anciãos, cidadãos notáveis de Tebas.)
 
CORO
Doce palavra de Zeus poderoso, que vens trazendo da faustosa Delfos à ilustre Tebas?
Tenho meu espírito tenso de medo; tremo de terror, deus salutar de Delos, e pergunto, inquieto, por que sendas me conduzes, novas, talvez, ou talvez repetidas após o lento perpassar dos anos.
Dize-me, filha da Esperança áurea, voz imortal!
Invoco-te primeiro, filha do grande Zeus, eterna Atena, e tua irmã, guardiã de Tebas, Ártemis, que tem assento em trono glorioso na ágora de forma circular, e Febo, que de longe lança flechas: aparecei, vós três, em meu socorro!
Se de outra vez, para afastar de nós flagelo igual que nos exterminava pudestes extinguir as longas chamas da desventura, vinde a nós agora!
Ah! Quantos males nos afligem hoje!
O povo todo foi contagiado e já não pode a mente imaginar recurso algum capaz de nos valer!
Não crescem mais os frutos bons da terra; mulheres grávidas não dão à luz, aliviando-se de suas dores; sem pausa, como pássaros velozes, mais rápidas que o fogo impetuoso as vítimas se precipitam céleres rumo à mansão do deus crepuscular. Tebas perece com seus habitantes e sem cuidados, sem serem chorados, ficam no chão, aos montes, os cadáveres, expostos, provocando novas mortes.
Esposas, mães com seus cabelos brancos, choram junto aos altares, nos degraus onde gemendo imploram compungidas o fim de tão amargas provações.
E o hino triste repercute forte ao misturar-se às vozes lamentosas.
Diante disso, filha rutilante de Zeus supremo, outorga-nos depressa a tua sorridente proteção!
Faze também com que Ares potente, que agora nos ataca esbravejando e sem o bronze dos escudos queima-nos, vá para longe, volte-nos as costas, procure o leito imenso de Anfitrite ou as revoltas vagas do mar Trácio, pois o que a noite poupa o dia mata!
Zeus pai, senhor dos fúlgidos relâmpagos, esmaga esse Ares, Zeus, com teus trovões!
O meu desejo, Apolo, é que dispares com teu arco dourado flechas rápidas, inevitáveis, para socorrer-nos, para nos proteger; o mesmo espero das tochas fulgurantes com que Ártemis percorre os montes lícios; meu apelo também dirijo ao deus da tiara de ouro, epônimo de Tebas, Baco alegre de rosto cor de vinho, companheiro Dêls Mênades, para que avance e traga a todos nós a tão pedida ajuda com seu archote de brilhante chama contra esse deus que nem os deuses preza m!
 
(ÉDIPO reaparece, vindo do palácio, e dirige-se ao CORIFEU.)
 
ÉDIPO
Suplicas proteção e alívio de teus males.
Sem dúvida serão ouvidas tuas preces se deres a atenção devida à minha fala e tua ação corresponder às circunstâncias.
Quero dizer estas palavras claramente, alheio aos vãos relatos, preso à realidade.
Hei de seguir, inda que só, o rumo certo, o indício mais sutil será suficiente.
Já que somente após os fatos alegados honraram-me os tebanos com a cidadania, declaro neste instante em alta voz, cadmeus: ordeno a quem souber aqui quem matou Laio, filho de Lábdaco, que me revele tudo; ainda que receie represálias, fale!
Quem se denunciar não deverá ter medo; não correrá outro perigo além do exílio; a vida lhe será poupada. Se alguém sabe que o matador não é tebano, é de outras terras, conte-me logo, pois à minha gratidão virá juntar-se generosa recompensa.
Mas se ao contrário, cidadãos, nada disserdes e se qualquer de vós quiser inocentar-se por medo ou para proteger algum amigo da imputação de assassinato, eis minhas ordens:
Proíbo terminantemente aos habitantes deste país onde detenho o mando e o trono que acolham o assassino, sem levar em conta o seu prestígio, ou lhe dirijam a palavra ou lhe permitam irmanar-se às suas preces ou sacrifícios e homenagens aos bons deuses ou que partilhem com tal homem a água sacra!
Que todos, ao contrário, o afastem de seus lares pois ele comunica mácula indelével segundo nos revela o deus em seu oráculo.
Eis, cidadãos, como demonstro acatamento ao deus e apreço ao rei há tanto tempo morto.
O criminoso ignoto, seja ele um só ou acumpliciado, peço agora aos deuses que viva na desgraça e miseravelmente!
E se ele convive comigo sem que eu saiba, invoco para mim também os mesmos males que minhas maldições acabam de atrair inapelavelmente para o celerado!
Exorto-vos a proceder assim, tebanos, em atenção a mim, ao deus, por esta terra que em frente aos vossos olhos está perecendo entregue pelos numes à esterilidade.
Ainda que essa purificação forçosa não vos houvera sido imposta pelo deus, não deveríeis deixar Tebas maculada, pois era o morto um homem excelente, um rei; cumpria-vos esclarecer os fatos logo.
Considerando que hoje tenho em minhas mãos o mando anteriormente atribuído a Laio e que são hoje meus seu leito e a mulher que deveria ter-lhe propiciado filhos, e finalmente que se suas esperanças por desventura não houvessem sido vãs, crianças concebidas por uma só mãe teriam estreitado laços entre nós (mas a desgraça lhe caiu sobre a cabeça), por todos esses ponderáveis fundamentos hei de lutar por ele como por meu pai e tomarei as providências necessárias à descoberta do assassino do labdácida, progênie do rei Polidoro, descendente de Cadmos e Agenor, os grandes reis de antanho.
E quanto aos desobedientes, peço aos deuses que a terra não lhes dê seus frutos e as mulheres não tenham filhos deles, e sem salvação pereçam sob o peso dos males presentes ou vítimas de mal muitas vezes maior.
Mas, para vós, cadmeus que concordais comigo, possa a justiça sempre estar do vosso lado e não vos falte nunca a proteção divina!
 
CORIFEU
Escuta, então, senhor; tuas imprecações compelem-me a falar.
Não fui o assassino, nem sei quem foi; cabia a Febo, deus-profeta, que nos mandou punir agora o criminoso, dizer-nos quem outrora cometeu o crime.
 
ÉDIPO
São justas as tuas palavras, mas ninguém detém poder bastante para constranger os deuses a mudar os seus altos designios.
 
CORIFEU
Veio-me à mente uma segunda idéia; exponho-a?
 
ÉDIPO
Mesmo a terceira, se tiveres, quero ouvir.
 
CORlFEU
Sei que Tirésias venerável é o profeta mais próximo de Febo; se lhe perguntares, dele ouviremos a revelação dos fatos.
 
ÉDIPO
Não descurei desse recurso; aconselhado há pouco por Creonte, já mandei buscá-lo.
Espanta-me que ainda não tenha chegado.
 
CORIFEU
E quanto ao mais, só há rumores vãos, remotos.
 
ÉDIPO
Quais os rumores?
Quero conhecê-los todos.
 
CORIFEU
Dizem que Laio foi morto por andarilhos.
 
ÉDIPO
Também ouvi dizer, mas não há testemunhas.
 
CORIFEU
Mas se o culpado for sensível ao temor, não há de resistir quando tiver ciência de tua dura, assustadora imprecação.
 
ÉDIPO
Quem age sem receios não teme as palavras.
 
CORIFEU
(Vendo TIRBIAS aproximar-se.)
Já vejo aproximar-se quem vai descobri-lo. Estão trazendo em nossa direção o vate guiado pelos deuses, único entre os homens que traz em sua mente a lúcida verdade.
 
(Entra TIRÉSIAS, idoso e cego, conduzido por um menino.)
 
ÉDIPO
Tu, que apreendes a realidade toda, Tirésias, tanto os fatos logo divulgados quanto os ocultos, e os sinais vindos do céu e os deste mundo (embora não consigas vê-los), sem dúvida conheces os terríveis males que afligem nossa terra; para defendê-la, para salvá-la, só nos resta a tua ajuda.
Se ainda não ouviste de meus mensageiros, Apolo revelou ao meu primeiro arauto que só nos livraremos do atual flagelo se, descoberto o assassino do rei Laio, pudermos condená-lo à morte ou ao exílio.
Nesta emergência então, Tirésias, não nos faltes, não nos recuses a revelação dos pássaros nem os outros recursos de teus vaticínios; salva a cidade agora, salva-te a ti mesmo, salva-me a mim também, afasta de nós todos a maldição que ainda emana do rei morto!
Estamos hoje em tuas mãos e a ação mais nobre de um homem é ser útil aos seus semelhantes até o limite máximo de suas forças.
 
TIRÉSIAS
Pobre de mim!
Como é terrível a sapiência quando quem sabe não consegue aproveitá-Ia!
Passou por meu espírito essa reflexão mas descuidei-me, pois não deveria vir.
 
ÉDIPO
Qual a razão dessa tristeza repentina?
 
TIRÉSIAS
Manda-me embora!
Assim suportarás melhor teu fado e eu o meu.
Deixa-me convencer-te!
 
ÉDIPO
Carecem de justiça tais palavras tuas e de benevolência em relação a esta terra que te nutriu, pois não quiseste responder.
 
TIRÉSIAS
Em minha opinião a tua longa fala foi totalmente inoportuna para ti.
Então, para que eu não incorra em erro igual.. .
 
(TIRÉSIAS faz menção de afastar-se.)
 
ÉDIPO
Não, pelos deuses, já que sabes não te afastes!
Eis-nos aqui à tua frente, ajoelhados em atitude súplice, toda a cidade!
 
TIRÉSIAS
Pois todos vós sois insensatos.
Quanto a mim, não me disponho a exacerbar meus próprios males; para ser claro, não quero falar dos teus.
 
ÉDIPO
Que dizes?
Sabes a verdade e não a falas?
Queres trair-nos e extinguir nossa cidade?
 
TIRÉSIAS
Não quero males para mim nem para ti.
Por que insistes na pergunta?
É tudo inútil.
De mim, por mais que faças nada saberás.
 
ÉDIPO
Não falarás, então, pior dos homens maus, capaz de enfurecer um coração de pedra?
Persistirás, inabalável, inflexível?
 
TIRÉSIAS
Acusas-me de provocar a tua cólera?
Não vês aquilo a que estás preso e me censuras?
 
ÉDIPO
E quem resistiria à natural revolta ouvindo-te insultar assim nossa cidade?
 
TIRÉSIAS
O que tiver de vir virá, embora eu cale.
 
ÉDIPO
Mas tens de revelar-me agora o que há de vir!
 
TIRÉSIAS
Nada mais digo; encoleriza-te, se queres; cede à mais cega ira que couber em ti!
 
ÉDIPO
Pois bem.
Não dissimularei meus pensamentos, tão grande é minha cólera.
Fica sabendo que em minha opinião articulaste o crime e até o consumaste!
Apenas tua mão não o matou.
E se enxergasses eu diria que foste o criminoso sem qualquer ajuda!
 
TIRÉSIAS
Teu pensamento é este?
Então escuta: mando que obedecendo à ordem por ti mesmo dada não mais dirijas a palavra a esta gente nem a mim mesmo, pois és um maldito aqui!
 
ÉDIPO
Quanta insolência mostras ao falar assim!
Não vês que aonde quer que vás serás punido?
 
TIRÉSIAS
Sou livre; trago em mim a impávida verdade!
 
ÉDIPO
De quem a recebeste?
Foi de tua arte?
 
TIRÉSIAS
De ti; forçaste-me a falar, malgrado meu.
 
ÉDIPO
Que dizes?
Fala novamente!
Vamos!
Fala!
Não pude ainda compreender tuas palavras.
 
TIRÉSIAS
Não percebeste logo?
Queres que eu repita?
 
ÉDIPO
Parece-me difícil entender-te.
Fala!
 
TIRÉSIAS
Pois ouve bem: és o assassino que procuras!
 
(...)

 
(FLÁVIO MOREIRA DA COSTA - OS 100 MELHORES CONTOS DE CRIME E MISTÉRIO DA LITERATURA UNIVERSAL)

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publicado às 15:11


Uma cama cheia de gente

por Thynus, em 06.01.17
Sua cama de casal é um dos lugares mais cheios de gente da face da terra. Está transbordando de pessoas, algumas das quais você nunca viu, mas estão todas ali — todas afetando sua intimidade sexual, olhando por cima de seus ombros e moldando a qualidade do seu prazer sexual.

Não olhe atrás do travesseiro, mas saiba que seus pais estão espiando bem ali! E se você acha que isso é ruim, é melhor também se acostumar com seus sogros, que estão escondidos debaixo do travesseiro de seu cônjuge!

E o que dizer do pé da cama? Ah, ali estão seus irmãos e os de seu cônjuge. Debaixo da cama? É melhor nem começar!

Do que estou falando?

Você chega ao casamento com mais bagagem do que percebe. Essa bagagem formou aquilo que chamo de seu “regulamento” — crenças inconscientes, mas muito poderosas, que você tem sobre como as coisas devem ser feitas (especialmente na cama). Uma grande parte de minha prática de aconselhamento é dedicada a ajudar pessoas a entenderem seu regulamento, porque é ele que determina tudo o que se relaciona à vida de alguém, especialmente a sexualidade.

“Mas, dr. Leman”, você pode dizer, “eu não sabia que tinha um regulamento!”.

Poucos têm consciência disso, mas todos nós ficamos furiosos quando uma regra de nosso regulamento é quebrada. Um marido acabará pagando pelos erros de seu sogro, assim como a esposa pagará caro pelos erros de sua sogra. Você não está se casando com alguém sem passado. Você irá para a cama com uma pessoa que foi indelevelmente marcada pela ordem de nascimento, pelo estilo de criação de filhos adotado por seus pais e por suas experiências do início da infância. Ela pode vir nua para a cama, mas a última coisa que estará é sozinha.

Uma vez que trato em detalhes dos regulamentos em outro livro, Mais velho, do meio ou caçula, neste vou me limitar a falar sobre a maneira como os regulamentos nos afetam na cama.

Gente demais na cama
 

SEU REGULAMENTO SEXUAL

Sheila quer ser surpreendida pelo sexo; ela quer espontaneidade, criatividade e variedade. Ela se irrita com o tédio e quer que seu marido sempre a mantenha na expectativa. Uma das lembranças sexuais favoritas de Sheila é de um dia em que seu marido trouxe para casa um frasco de óleo de bebê e um tecido impermeável para colocar sobre os lençóis da cama. Os dois cônjuges rolaram um por cima do outro e fizeram uma bagunça, mas aquilo foi espontâneo, gerou muitas risadas e Sheila divertiu-se a valer.

Melissa odeia ser surpreendida. Ela quer saber o que vai acontecer com pelo menos 24 horas de antecedência. Se ela e seu marido vão ficar nus ao mesmo tempo, é preciso haver uma toalha debaixo de cada um antes que os parceiros troquem fluídos corporais, de modo a evitar que esses mesmos fluídos toquem o lençol. Os dois devem ter se banhado e todos os dentes devem ter sido escovados trinta minutos antes do início do sexo. A ideia de fazer uma enorme bagunça ou produzir ruídos altos a esfria, em vez de excitá-la. Se o marido de Melissa trouxesse para casa um frasco de óleo de bebê, ela diria: “E o que você acha que vai fazer com isso? Vou levar meio dia só para limpar essa sujeira! Você já tentou remover essa coisa?”.

Por que a diferença?

Téo deseja que sua esposa tenha a iniciativa sexual. Ele adora quando ela o empurra para a cama e pula em cima dele; é a coisa mais estimulante do mundo ver sua mulher participar ativamente do ato sexual e, na verdade, tentar encontrar a posição na qual ela receba maior estímulo. E quando ela expressa a intensidade do prazer que está sentindo, Téo mal pode conter seu entusiasmo.

André precisa estar no controle o tempo todo; ele considera qualquer iniciativa por parte de sua esposa como um desafio à sua masculinidade. Ele decide o que fazer, quando fazer e como fazer, sem dar chance para argumentações.

Por que esses dois homens são tão diferentes?

Uma das grandes armadilhas ao se escrever um livro como este é que não há dois homens ou duas mulheres iguais. Os homens podem ser tão diferentes um do outro quanto os gêneros podem diferir entre si. Ainda que possamos generalizar, todo estereótipo se mostrará falso para alguém, razão pela qual a comunicação individual é tão importante no casamento. Posso lhe dar um conselho sobre o que a maioria dos homens gosta, mas esse mesmo conselho pode, na verdade, enojar seu marido. De fato, não há troca melhor para um casal do que ler este livro em conjunto e discutir os capítulos à medida que eles aparecem.

Qual é a razão dessa grande variedade de estilos no ato de fazer amor? Em 90% dos casos, isso tem a ver com o regulamento de uma pessoa. O regulamento de Sheila diz: “O sexo é mais agradável quando é divertido e espontâneo; a vida é curta demais para fazer alguma coisa da mesma forma duas vezes”. O regulamento de Melissa diz: “O sexo precisa ser controlado por padrões rígidos, a fim de que não saia do controle”. O regulamento de Téo diz que “o sexo é mais significativo quando minha esposa me procura e mostra que me quer”, enquanto o de André diz que “o sexo só é bom quando estou no controle”.

Esses regulamentos são moldados pelas reações que tivemos a nossas experiências na infância, a nossa criação e a nossa ordem de nascimento. Dentro de famílias, os regulamentos normalmente têm algumas semelhanças, mas também terão diferenças marcantes. Em última análise, seu regulamento é algo bastante individual e determina praticamente tudo o que você faz.

A questão dos regulamentos é que eles, em geral, são inconscientes. É provável que Melissa não saiba explicar por que simplesmente precisa ter uma toalha embaixo de si, assim como André não conseguiria colocar em palavras por que ficaria louco se sua esposa tentasse assumir o controle. Mas essas regras inconscientes governam cada ato sexual do qual eles participem.



Entenda seu regulamento sexual

Influências dos pais

Para começar a descobrir quais são essas regras não escritas e frequentemente inconscientes, faça a si mesmo algumas perguntas:



    O que mais me irrita na cama?
    De modo geral, o que mais me satisfaz sexualmente?
    O que me faz perder todo o interesse no sexo?
    O que gera o maior interesse no sexo?
    Que pedido ou atitude sexual mais me amedronta?



Agora, dê um passo atrás e pergunte a si mesmo por que isso acontece. Por que a ideia de sexo oral me enoja, enquanto tantas outras pessoas o acham excitante? Por que deixar as luzes acesas me faz esfriar sexualmente, enquanto excita outras pessoas? Por que preciso que meu cônjuge seja a pessoa que sempre dá início à intimidade sexual?

Parte da resposta pode estar na maneira como você foi criado para pensar no sexo. Algumas pessoas, particularmente oriundas de lares muito religiosos, foram ensinadas que o sexo é algo sobre o que não se deve falar. “Sim, o sexo é necessário para povoar o mundo, mas vamos fingir que ele nem sequer existe no resto do tempo!” Se uma pessoa cresce nesse ambiente, talvez nunca se sinta plenamente livre para deixar isso de lado e desfrutar da experiência sexual em si.

Veja por que você precisa se questionar e trazer a “influência oculta” para a superfície: uma vez que entende a influência, pode decidir se ela é saudável ou não. Pode optar por mantê-la ou, se ela estiver atrapalhando seu casamento, livrar-se dela.

Portanto, faça perguntas a si mesmo. Seus pais eram afetuosos? Você teve o tipo de mãe que sempre batia na mão de seu marido quando ele tentava flertar com ela? Seu pai era excepcionalmente frio em relação a você e sua mãe? Ele usava a mão apenas para ferir e nunca para acariciar? E o mais importante: esse estilo de criação distorceu sua visão da expressão sexual?

Talvez você tenha tido o problema oposto, e seus pais o enojaram por serem libertinos. É possível que, ainda menina, você tenha encontrado alguma pornografia no quarto de seu pai, e a visão daquelas imagens a tenham repugnado, levando-a a dizer: “Nunca farei nada assim”. Ou, pior ainda: você pode ter sofrido abuso, o que a tornou praticamente incapaz de confiar em outro homem. Todo toque lhe parece uma violação, mesmo consciente de que seu marido a ama.

Infelizmente, muitos maridos nem mesmo sabem que a esposa sofreu abuso sexual. Não sei dizer quantas vezes em minha prática de consultório fui o primeiro a descobrir — a primeira pessoa com quem a mulher vítima de abuso conversou sobre sua desgraça. Fico impressionado por verificar que um homem que está casado há dez ou mesmo quinze anos não saiba quanto sofrimento há no passado de sua esposa. O marido acredita que sua mulher é frígida, sem perceber que ela foi paralisada pela dor e pela vergonha — e ele acaba pagando por isso.

A ironia é que uma mulher que sofreu abuso costuma correr para o casamento justamente como uma desculpa para dizer não ao sexo. Ela sabe que o marido não vai usá-la nem abusar dela, de modo que aceita a proposta de casamento com alegria, pensando que, uma vez que esteja dentro das fronteiras seguras do matrimônio, poderá dizer adeus ao sexo. O triste fato de tudo isso é que o homem que realmente ama uma mulher como essa é aquele que acaba enfadado (falaremos mais sobre isso daqui a pouco, mas se você sofreu abuso no passado, recomendo a leitura do livro Lágrimas secretas, do dr. Dan Allender, que considero ser o melhor livro disponível sobre o assunto. Outro livro que toda mulher precisa ler é Intimate Issues, de Linda Dillow.)

Seja qual for o caso, saiba que você foi moldado em profundidade, particularmente pelo pai do sexo oposto. Se o pai de uma mulher abusa dela — sexualmente ou em algum outro aspecto —, ela terá dificuldades para abrir-se sexualmente para seu marido, embora possa ter sido promíscua com muitos namorados. Se, por outro lado, ela teve um relacionamento bastante sadio com o pai, provavelmente terá menos problemas para chegar ao orgasmo, e a tendência é que tenha muito menos inibição na cama. Entregar-se de forma plena ao seu marido será algo natural e seguro para ela.

Um homem que viveu com uma mãe dominadora e controladora pode não gostar de uma esposa sexualmente agressiva. Um homem que recebeu amor bondoso de sua mãe e que foi ensinado a respeitá-la, em geral, não terá muito problema ao tornar-se sexualmente íntimo de sua esposa.



Ordem de nascimento

Seu regulamento também é um produto da ordem de seu nascimento. Se você estivesse em meu consultório, eu começaria lhe fazendo perguntas sobre seus irmãos. Se você for como André, o homem que precisa estar no controle, apostaria facilmente que é primogênito ou filho único. Se acha que sexo e diversão devem andar juntos na maior parte do tempo, imagino que você seja o caçula. Se costuma acolher seu cônjuge, mas raramente inicia o sexo — se é que o faz alguma vez — eu não me surpreenderia se você fosse um filho do meio.

Trato amplamente da questão da ordem de nascimento no livro Mais velho, do meio ou caçula, de modo que farei apenas um resumo aqui. Os caçulas crescem com um enorme e incessante senso de merecimento. Pelo fato de muitas vezes serem mimados e tratados como bebês — não apenas por papai e mamãe, mas também pelos irmãos mais velhos — os caçulas, em geral, crescem e se transformam em “pessoas populares”. São charmosos, com frequência muito engraçados e também claramente exibidos, pessoas que adoram ser o centro das atenções. Contudo, também podem ser manipuladores. Os caçulas tendem a adorar surpresas e estão muito mais abertos a riscos que seus irmãos mais velhos.

Na cama, isso normalmente resulta em desejo de surpresa, espontaneidade e alegria. Os caçulas, de modo geral, serão bastante afetuosos, mas gostarão de ser mimados e de receber cuidados. É melhor dar bastante atenção a cônjuges caçulas!

Os filhos do meio são mais misteriosos. Não temos tempo para explicar a razão disso, mas eles são os mais difíceis de definir, pois podem seguir em várias direções (na maior parte das vezes, essa direção é exatamente oposta à do filho logo acima deles). Em geral, porém, os filhos do meio gostam de paz a todo custo. São os negociadores, os mediadores e os transigentes. Normalmente não são tão assertivos quanto os primogênitos, mas também exigem menos “cuidado e comida” do que um caçula. São mais reservados e costumam ser altruístas ao extremo. Pode ser difícil fazer que um filho do meio de fato diga o que prefere na cama.

Os primogênitos (assim como os filhos únicos) são os representantes de classe, os grandes realizadores, aqueles que gostam de estar no controle e que estão convencidos de que sabem a maneira como tudo deve ser feito. São conhecidos como seres capazes e confiáveis, mas também são perfeccionistas, exigentes e amplamente lógicos. O desejo que têm por controle pode levar alguns a ser poderosos negociantes e outros a gostar de agradar. Se você fizer sexo com alguém do primeiro tipo, sentirá como se tivesse que fazer o possível e o impossível para que tudo dê certo, segundo o que for definido por ele. Se você está casado com alguém do segundo tipo, esse cônjuge vai fazer de tudo para ter certeza de que você se sinta bem — mas essa atitude pode rapidamente parecer mecânica ou forçada.

Existe todo tipo de exceção, mas, de modo geral, você pode aprender bastante sobre si mesmo e sobre seu cônjuge ao considerar a ordem de nascimento de cada um — e como essa ordem de nascimento moldou suas expectativas e seu regulamento sexual.



Primeiras lembranças

O último determinante de seu regulamento sobre o qual falaremos consiste de suas lembranças da infância.[1] Aqueles primeiros eventos (quando você estava no terceiro ano ou antes disso) ajudaram a moldar suas expectativas sobre a vida e sobre a maneira como as coisas devem ser feitas. Você aprendeu que o mundo pode ser um lugar seguro... Ou um lugar perigoso. Desenvolveu a suposição de que as pessoas irão tratá-lo com bondade... Ou irão traí-lo e ameaçá-lo. Por causa daquilo que lhe fizeram, você aprendeu a fazer todas as suposições que hoje considera como certas, e vê seu cônjuge através das lentes dessas lembranças.

Veja um exemplo característico. Um pai promete à filha pequena que vai levá-la para tomar sorvete depois que voltar da loja de ferragens. A filha espera junto à porta por duas horas. Finalmente, papai chega em casa, mas está cheirando a álcool e sua fala é confusa. Naturalmente, ele se esqueceu de tudo relacionado à sua promessa de levá-la para tomar sorvete.

Vinte anos depois, o marido dela promete levá-la para jantar. Ele está justificadamente atrasado quando o pneu do seu carro fura no caminho para casa. Quando enfim consegue chegar, 45 minutos depois do combinado, sua esposa o repreende com dureza. Ele não entende por que tanta irritação, pois não percebe que ela não está gritando apenas com ele — ela está gritando com o pai bêbado.

É vital reconhecer suas tendências baseadas em seu passado e obter um melhor entendimento dessas suposições implícitas. Você só será capaz de editá-las depois de conhecê-las.



Edite seu regulamento

Como palestrante que, nos finais de semana, está mais na estrada do que em casa, já carreguei mais malas do que deveria. Já tive uma mala que chegou a ter dezenas de etiquetas de bagagem. Como você sabe, as companhias aéreas pedem que o passageiro escreva seu nome e endereço naquele pequeno pedaço de papelão, que é preso à mala com um elástico. O problema é que a etiqueta é tão fina e frágil que normalmente dura apenas dois ou três voos antes de rasgar. Nunca removo as partes rasgadas; em vez disso, simplesmente coloco uma nova etiqueta. Assim, depois de alguns anos, acho que tenho mais de cinquenta pequenos pedaços de papel presos na alça da mala — o que faz a bagagem parecer velha e surrada.

Ao observar a vida das pessoas, como eu faço, é possível descobrir que muitas delas estão do mesmo jeito. Suas “viagens” pela vida deixaram marcas, as quais nem sempre são positivas. Elas foram maltratadas e curvaram sob o peso de viagens anteriores e, com o passar do tempo, adquiriram a aparência de estar caindo aos pedaços.

O problema surge quando se deseja reconstituir essas viagens e fazer isso apenas com fragmentos de informação! Sempre me maravilhei diante de eletricistas que conseguem abrir um aparelho ou uma caixa de força e fazer um reparo no meio de cinquenta cores diferentes de fio. Eu? Enxergo apenas preto e vermelho, e só. Vermelho significa positivo, preto significa negativo, e qualquer outra coisa diferente disso está além da minha capacidade!

Investigar o passado de uma pessoa é mais ou menos como tentar encontrar um curto-circuito no meio de centenas de fios: De onde vem este medo? O que deixou esta cicatriz? O que criou esta expectativa?

A vida de muitas pessoas está repleta de relacionamentos rompidos que deixaram para trás cicatrizes psicológicas. Às vezes um cirurgião precisa ir fundo para remover tecido cicatrizado porque este aumenta demais; de certa maneira, os psicólogos têm de fazer a mesma coisa. Se a área da cicatriz for particularmente profunda, será preciso conversar com um profissional — mas, mesmo assim, penso que esta seção vai ajudá-lo a caminhar na direção certa e levá-lo a fazer as perguntas adequadas.

A boa notícia é que você pode editar seu regulamento. A má notícia é que isso pode ser bem difícil e exigir grande quantidade de tempo. Como acabei de dizer, se você experimentou um trauma severo — abuso sexual, por exemplo —, então precisará de um terapeuta profissional para ajudá-lo a superar essas antigas lembranças e a trágica influência negativa dos pais. Mas muitos leitores podem alcançar melhorias por meio de pequenas escolhas.

Em primeiro lugar, assim que tiver compreendido seu regulamento, procure lembrar-se de que o simples fato de algo lhe ser confortável não faz disso um padrão. Um homem espontâneo precisa aprender que sua esposa pode se sentir ameaçada por sua espontaneidade. Em contrapartida, uma mulher controladora deve entender que sua falta de espontaneidade pode estar abrindo caminho para que seu marido caia diretamente nos braços de outra mulher. A maneira como você enxerga o sexo é a maneira como você enxerga o sexo, mas isso não a transforma na maneira certa, nem na única maneira de enxergar o sexo. Não estou dizendo que não existam absolutos morais; certamente creio que existem. Mas estou afirmando que aquilo que sentimos em relação ao sexo dentro do contexto do casamento pode ser algo bastante individual.

Aqui está um segredo que será explorado mais adiante no livro, mas que é relevante destacar aqui: bons amantes aprendem a conhecer seu parceiro melhor do que conhecem a si próprios. Você precisa parar de ver o sexo através de sua percepção apenas e começar a enxergá-lo através dos olhos de seu cônjuge. Se você entender o regulamento de seu cônjuge, praticamente todos os demais aspectos que vamos discutir neste livro vão se ajustar. Ter um sexo conjugal excelente é aprender a amar outra pessoa da maneira que ela quer ser amada.

Em segundo lugar, tome a decisão de não mais permitir que as falhas de seus pais afetem sua vida sexual conjugal. Pense em suas inclinações e nas áreas relativas à cama em que você sabe que deixa a desejar e pergunte a si mesmo: “É isso o que eu realmente quero dar ao meu cônjuge? Ou ele merece mais?”. Você pode então começar a praticar conscientemente a característica que espera adquirir. A mulher que precisa da toalha sob si deve tentar experimentar uma rapidinha na cozinha, ao menos uma vez. O homem que acha que tem de estar no controle deve deixar sua esposa tomar a iniciativa uma vez. Quando fizer isso, certamente vai descobrir que o mundo não para de girar porque você “quebrou uma regra”. Sua mãe não vai chamá-lo, de lá da sepultura, e lhe dar um sermão, dizendo:“Por que é que você não colocou uma toalha?”. O pastor de sua infância não aparecerá de repente na cozinha querendo saber por que vocês dois tentaram aquela posição. Na verdade, é possível que você descubra que quebrar uma regra pode levá-los a um dos mais agradáveis encontros sexuais que já tiveram nos últimos tempos!

Isso é algo que você precisa começar. Seu cônjuge não pode reescrever seu regulamento; é você que tem de fazer isso. Você precisa ser a pessoa que explora o regulamento, que o avalia e, então, faz planos para mudá-lo. Seja honesta, mas firme, consigo mesma: “Sei que isso me deixa desconfortável. Porém, mais do que o meu conforto, valorizo a felicidade do Felipe, de modo que, apenas desta vez, vou ver se consigo ser um pouco mais ousada”.

Por fim, você precisa se livrar do passado. A única maneira que conheço de ajudar alguém a fazer isso é reconectar-se ao poder de Deus em sua vida. Se pedirmos perdão, Deus removerá a mancha do nosso pecado e nos perdoará, deixando-nos psicologicamente renovados.

Essa é uma realidade espiritual que tenho visto acontecer muitas e muitas vezes. Na mesma medida em que alguns de meus colegas gostam de menosprezar o cristianismo e a fé religiosa em geral, descobri que esse pode ser o mais poderoso método para lidar com feridas, pecados e cicatrizes psicológicas do passado. Não me entenda mal: não sou cristão porque o cristianismo funciona. Sou cristão porque creio que o cristianismo é verdadeiro, mas o fato de que ele também funciona muito bem tem sido de grande auxílio aos meus pacientes e a mim.

Se deseja realmente começar de novo, você precisa se alinhar com os princípios de Deus. Isso significa, primeiro, que, se estiver vivendo com alguém sem que estejam casados, você precisa arrumar a vida para viverem separados. Comecem a namorar de novo, mas mantenham o sexo fora do relacionamento.

Do ponto de vista psicológico, isso é não apenas o ético, mas o correto a se fazer. Hoje em dia, é comum ouvir a expressão “virgens reciclados” — pessoas que um dia foram sexualmente promíscuas (sexualmente ativas, para nossos amigos politicamente corretos), mas que agora decidiram se abster até o casamento. Esse é um modelo bastante saudável a ser seguido por aqueles que perderam a virgindade. Esses casais precisam, para o próprio bem, ver Deus transformando suas vidas com o propósito de construir uma fundação mais forte para seu casamento. Eles precisam experimentar não apenas o perdão de Deus, mas também o poder que ele provê para nos ajudar a resistir à tentação.

Por que isso é tão importante? Deixe-me colocar a questão da seguinte maneira: as chances de sobrevivência de seu casamento se baseiam no seu nível de autocontrole e no de seu cônjuge. Certa vez aconselhei um jovem casal a parar de fazer sexo até que se casassem, e o rapaz respondeu com naturalidade:

— Não sei se consigo ficar três ou quatro meses sem sexo. Se Simone e eu deixarmos de fazer sexo, posso ser tentado a procurá-lo em outro lugar.

Sem nem sequer piscar, virei-me para aquela moça e disse:

— Se ele não consegue manter as mãos longe de você ou de qualquer outra mulher por três meses por falta de disciplina, que esperança pode haver depois que vocês se casarem e ele estiver trabalhando cinco dias por semana, enquanto você fica em casa cercada por filhos pequenos?

As coisas que Deus pede de nós como homens e mulheres solteiros são exatamente as mesmas que constroem em nós as qualidades de caráter de que precisamos como maridos e esposas. Se sabotarmos o processo, traímos a nós mesmos e entramos no casamento sem que estejamos devidamente preparados para um relacionamento feliz e duradouro. Quanto mais converso com casais, mais me convenço de que Deus sabia o que estava fazendo quando prescreveu abstinência de sexo antes do casamento e muito sexo de qualidade depois.

Além de tudo isso, existe de fato um enorme poder purificador em saber que Deus o perdoou por aquilo que você fez. Entretanto, também preciso delicadamente lembrá-lo de que, embora Deus remova a mancha, ele nem sempre remove as consequências. A realidade para muitos dos leitores é que, embora tenham sido perdoados, eles precisam ser como o alcoólico, cuja doutrina é “um dia por vez”. Se você feriu sua alma ao entregar seu corpo a muitos amantes, isso significa que precisará de terapia emocional, espiritual e relacional.

Como tudo na vida, será necessário prosseguir mediante pequenos sucessos. Se tiver lembranças de antigos parceiros sexuais, você precisará aprender, caso a caso, como desviar a atenção de volta para seu cônjuge (falarei mais sobre isso daqui a pouco). Você armazena forças ao aprender a dizer não quando quer dizer sim. Quanto mais fizer isso, mais forte se tornará, e mais autocontrole terá.

Uma vida disciplinada é uma vida alegre, porque, quando internaliza limites, você se protege das coisas que trazem maior dor à sua vida, ao seu casamento e à sua atividade sexual. Imagine-se envolvido em paixão com seu cônjuge e, de repente, outra pessoa lhe vem à mente, estragando uma sessão muito especial de amor.

Essa é a maior lástima. Uma trilha de atitudes sexuais tende a nos seguir. Algumas pessoas possuem tanta bagagem surrada em seu eu psicológico e sexual, tantas pequenas etiquetas com nomes que nunca foram completamente arrancadas, que fica muito difícil não comparar esse homem ou essa mulher que você ama e respeita profundamente com alguém com quem você se envolveu numa noite, muitos anos atrás.

Uma vez que, infelizmente, isso se tornou tão predominante em nossa sociedade, vamos conversar mais sobre como lidar com seu passado sexual.



SEU PASSADO SEXUAL: COMBATENDO AS LEMBRANÇAS

Gostaria de poder dizer que você não precisa se preocupar caso seja sexualmente ativo, pois pode voltar a ser como virgem de novo. Mas se eu dissesse isso, estaria mentindo. Deus vai perdoá-lo, seu cônjuge pode aceitá-lo. Mas, se você já teve uma experiência sexual anterior, é muito mais saudável ser realista. Um “virgem reciclado” ainda traz mais bagagem para o leito conjugal do que um virgem de verdade. Existem razões para Deus pedir que reservemos o sexo para o casamento, e há consequências por ultrapassarmos essa linha.

Para começar, você pode ter lembranças. Para quem já teve outros relacionamentos na vida, as memórias sexuais são um fenômeno natural. Infelizmente, elas podem causar interferência numa vida sexual conjugal sadia. Vários pacientes já me confidenciaram que as lembranças eram um problema significativo, particularmente para aqueles que tiveram uma criação rígida e que não corresponderam a ela. Para as mulheres, a culpa pode ser insuportável em alguns momentos. Ela está fazendo amor com o marido quando, de repente, um ex-namorado lhe vem à mente. Uma vez que o sexo é uma experiência bastante emocional para as mulheres, uma lembrança as priva do significado da relação e lhes rouba o momento.

Os homens, em contrapartida, tendem a comparar as reações físicas, e suas lembranças mais provavelmente se baseiam em comparação. E se uma antiga namorada sabia como tocar em você de uma maneira particularmente satisfatória? E se sua esposa estiver preocupada em não conseguir corresponder à altura? E quando ela toca no assunto, pode dizer que, por enquanto, não chegou perto de agradá-lo como a outra mulher costumava fazer? A dor de tal percepção é bastante profunda. Homens que têm experiências sexuais anteriores também podem ter dificuldades para valorizar a conexão emocional do sexo conjugal, uma vez que eles estão focados mais especificamente no prazer físico.

Não é fácil, mas você precisa começar de novo, e isso significa permitir que seu cônjuge comece de novo também. Lembre-se do que falamos antes: assim que você pediu perdão, Deus o perdoou. Percebo que é fácil ter esse entendimento, mas nem sempre é fácil aceitá-lo emocionalmente. Se eu soubesse como afastar pensamentos, não seria psicólogo: seria mágico! As coisas que desejamos reprimir e nas quais desejamos não pensar, normalmente, são aquelas que nos vêm à mente nos momentos mais impróprios.

Aqui está um pequeno truque: assim que tiver aquela lembrança, comece a conversar com seu marido, dizendo quanto o ama, quanto quer satisfazê-lo, o que ele significa para você ou quão excitada você se sente. Se essa última informação não for verdadeira, pegue as mãos dele e o ajude a agradá-la, de modo que todos os seus pensamentos e palavras conscientes se concentrem nele em vez de pensar em outra pessoa.

Em outras palavras, sua tarefa é reaprender como ter o melhor sexo possível com seu cônjuge. Toda vez que qualquer lembrança se intrometer em sua vida sexual atual, tente tornar o relacionamento sexual com seu cônjuge ainda mais satisfatório. Você se livra do velho ao se concentrar no novo. Esta é uma escolha consciente: “Não vou me concentrar naquela lembrança; em vez disso, vou fantasiar sobre como fazer meu cônjuge gritar de prazer”.

O sucesso dessa medida depende em parte da extensão do dano. Você pode ficar sem escovar os dentes de vez em quando, mas se negligenciar seus dentes por meses ou anos, acabará com gengivite. Se, no momento em que descobrir a doença, você de repente decidir que será o melhor passador de fio dental da vizinhança e começar a escovar os dentes depois de cada refeição, talvez consiga impedir infecções futuras, mas ainda assim precisará se recuperar do dano anterior.

É como um fumante que para de fumar. Como eu mesmo sou um ex-fumante, sei que sou muito mais saudável agora que não acendo um cigarro há mais de 35 anos. Mas embora eu seja muito mais saudável por ter parado, estaria muito melhor se nunca tivesse posto um cigarro na boca pela primeira vez.



CONTAR OU NÃO CONTAR?

Ao lidar com o passado sexual de um casal, a primeira pergunta que normalmente surge na sala de aconselhamento é: “Quanto do nosso passado devemos revelar?”.

Minha resposta é: “O menos possível”.

Seu cônjuge merece saber se está se casando com alguém virgem; também tem o direito de saber se você dormiu com apenas uma pessoa, ou se a sua promiscuidade os coloca na cama com múltiplos parceiros. Seu cônjuge tem esse direito, porque isso pode afetar a decisão dele de casar-se ou não com você — e com razão.

Entretanto, entrar em detalhes traz mais problemas que soluções. Falando de modo geral, não conte segredos sexuais do passado. A única coisa que isso provoca é insegurança; de repente, a conversa muda de “Quero saber tudo sobre você” para algo muito, muito mais feio: “O que você quer dizer quando fala que fez três vezes numa noite?”; “Achei que a ideia da banheira fosse nossa!”. Preste atenção: se Deus quisesse que soubéssemos o que todo mundo está pensando, teria nos feito com uma testa de vidro. É um presente para seu cônjuge deixar algumas lembranças morrerem no passado e continuarem apenas com você.

Uma abordagem muito mais sadia é apenas fazer uma confissão como: “Olha, querida, há algumas coisas no meu passado que eu simplesmente não gostaria que estivessem ali”, e deixar por isso mesmo. Contar qualquer detalhe (“Não tivemos relação, mas realmente passamos do limite naquela noite...”) é um pedido claro para ter problemas. Somente confesse: “Você não está se casando com alguém virgem. Eu gostaria, de verdade, que estivesse, mas não está”.

Se o parceiro insistir, use a mim como desculpa: “Um psicólogo que conheço sugere que o mais saudável para nós dois é que compreendamos que estamos nos casando com pessoas imperfeitas, com passados imperfeitos. Vamos começar do zero e construir o melhor casamento que pudermos, sabendo que, deste ponto em diante, o sexo é algo que será compartilhado exclusivamente entre nós — e quero lhe dar a melhor vida sexual possível”.

Em seguida, recomendo que vocês passem um tempo considerável conversando sobre como será maravilhoso quando finalmente se casarem. A seguir você lerá a carta que uma jovem escreveu para seu noivo apenas seis semanas antes de se casarem. Ao contrário dela, ele tivera experiência sexual, e ela notou a ansiedade dele para saber se ela seria sexualmente responsiva no casamento, especialmente porque, via de regra, era ela quem batia o pé para que eles não fossem longe demais.

A coisa maravilhosa nesta carta é a maneira como a noiva ajuda seu futuro marido a esperar pela intimidade sexual, ao mesmo tempo que cria expectativas para o leito conjugal.



Querido futuro marido

Feliz aniversário! Já se deu conta de que hoje faz exatamente dois anos que nos conhecemos? Tenho de confessar que jamais imaginei que pudesse encontrar um homem com quem me sentisse tão completamente à vontade como me sinto com você. Durante anos lutei com a ideia de que algum dia teria de me casar simplesmente porque essa era a coisa a se fazer. Nunca falei a ninguém sobre isso, mas jamais consegui entender por que alguém desejaria fazer sexo — até que encontrei você. Agora, tudo que posso fazer é manter minhas mãos longe do seu corpo!

Você fez brotar e despertou toda feminilidade que eu havia sepultado no fundo do meu coração. Você me fez querer ser a mulher que me tornei hoje. Quando me olha com aquele ar maroto, você faz meu coração sorrir e palpitar. Eu praticamente derreto de amor por você e o desejo muito.

Daqui a seis semanas, serei sua esposa. Nos dias de hoje, quando todo mundo tem de “se encontrar”, mal posso esperar para ser uma parte de você. A ideia de ser sua esposa me deixa animada e orgulhosa. O que torna tudo isso ainda mais especial é que você se esforçou bastante para nos manter puros. Acho que nunca lhe disse isso de verdade, mas para mim é muito difícil não querer tocá-lo inteiro. Preciso admitir: às vezes me pego fantasiando, eu, totalmente nua, enrolada em seus braços, e nós dois entregando-nos inteiramente um ao outro. Pense nisto: temos apenas seis semanas mais de espera e esse sonho se tornará realidade! Agora você já sabe, eu não pretendo reter nada, de modo que espero que esteja pronto!

Mas quero agradecer-lhe, do fundo do meu coração, por você ser tão disciplinado e por me amar da maneira como me ama, de modo que podemos entrar em nosso casamento com o começo mais positivo e sadio possível. Não consigo lhe dizer quanto seu amor significa para mim, e como você mudou toda a perspectiva que eu tinha sobre a vida. Nunca pude me imaginar desejando me entregar a um homem da maneira como quero me dar a você (você deve estar sorrindo neste momento enquanto lê esta mensagem). Amo você completamente.

Sua para sempre,

Anne



Que carta maravilhosa e que grande exemplo de como uma mulher pode dizer a um futuro marido um pouco impaciente como ela está ansiosa por explorar as delícias da intimidade sexual, ao mesmo tempo que também reforça a importância de esperar.

Alguns dos leitores casados podem ter percebido que, por conta de seu regulamento ou de seu passado sexual, não entregaram uma parte de si mesmos ao cônjuge. Você não entregou o corpo a seu cônjuge da maneira que esta mulher está prometendo entregar-se a seu futuro marido. Talvez você esteja sendo condescendente, mas não desejoso. Você sabe que não está investindo o tempo e a energia que seu marido ou esposa merece. Você permitiu que sua intimidade sexual diminuísse e, francamente, você considerou que o compromisso e a fidelidade de seu cônjuge eram favas contadas.

Posso lhe sugerir que escreva uma carta semelhante? Verifique o que você está retendo, peça perdão a seu cônjuge e então lhe diga o que espera fazer. Não deixe o passado ditar seu futuro. Seu Criador quer que você tenha uma vida sexual estimulante e plena. Com o perdão dele e um pouco de esforço da sua parte para encarar seu passado com honestidade, você pode mudar seu regulamento. Você pode se tornar o tipo de amante que deseja ser e que sabe que seu cônjuge merece.

O que está esperando?


(Kevin Leman - Entre Lençóis)

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publicado às 14:28


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