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Nossa relação com o envelhecimento vai mudar. Tudo indica que uma teoria apresentada em 2002 está se confirmando: o envelhecimento é um efeito colateral do nosso sistema de proteção contra o câncer.
Cientistas removem a "imortalidade" das células cancerígenas
 
Todos possuímos genes supressores de tumores, e o mais bem conhecido deles é o p53. Sua função é evitar o aparecimento de tumores, como ficou demonstrado pelo experimento no qual os cientistas removem o gene p53 de camundongos. Sem o gene, os camundongos morrem cedo em virtude do aparecimento de tumores logo após seu nascimento. Acredita-se que todos os dias, em cada um de nós, um grande número de células sofrem mutações e se tornam propensas a se dividir descontroladamente e a se transformar em tumores. Essas células só não dão origem a um grande número de tumores porque nosso organismo conta com um sistema eficiente de supressão de tumores. Esse sistema, cujo ator principal é o gene p53, induz essas células mutantes a cometer suicídio antes de se transformar em tumores. Quando, em contrapartida, o gene p53 de uma célula é danificado, aumentam os riscos de ela virar um tumor. É por esse motivo que podemos detectar mutações no gene p53 em grande parte dos tumores. Essas descobertas transformaram o p53 em herói, um repressor que faz o bem, evitando o aparecimento de tumores malignos.

Mas seria possível bloquear totalmente o aparecimento de tumores aumentando a quantidade de p53 no organismo? Em 2002, com o objetivo de testar essa ideia, foram gerados camundongos transgênicos em que o gene p53 está constantemente ativado. Os cientistas esperavam que esses camundongos ficassem livres de tumores. Isso ocorreu, mas junto com algo inesperado. Os camundongos envelheceram muito mais rápido que os camundongos comuns.

Como a manutenção de um corpo jovem depende da reposição contínua das células, os cientistas atribuíram esse envelhecimento precoce a uma inibição da reposição das células do corpo. Tal resultado sugere que o câncer e o envelhecimento são duas faces da mesma moeda: sem o controle exercido pelos supressores de tumores, morremos cedo de câncer; se aumentamos a supressão de tumores para evitar o câncer, bloqueamos a reposição de células e o envelhecimento ocorre mais cedo.

Agora surge um resultado que parece comprovar tal teoria. Existe, tanto em humanos quanto em camundongos, uma doença genética muito rara cuja principal característica é o envelhecimento precoce do corpo. Quando os cientistas foram investigar o mecanismo responsável por esse aumento na velocidade do envelhecimento, tropeçaram em um velho conhecido. Nessa doença ocorre um aumento anormal da p53, e, mais importante, eles demonstraram que quando se reduz a quantidade de p53 o envelhecimento é retardado. Esse resultado demonstra o envolvimento direto do p53 no processo de envelhecimento e sugere que muito provavelmente a teoria de 2002 está correta. O envelhecimento e a supressão de tumores são dois fenômenos interligados, regulados por um mesmo grupo de genes.

Talvez tenhamos de nos conformar: envelhecer é bom; afinal é o preço que pagamos para chegar à idade adulta livres do câncer.

Mais informações: “Accelerated ageing in mice deficient in Zmpste24 protease is linked to p53 signalling activation”. Nature, vol. 437, p. 564, 2005.

(Fernando Reinach - A Longa Marcha dos Grilos Canibais) 

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publicado às 15:35


Neurônios espelho
 
Por que sorrimos quando vemos alguém sorrir? Ou por que ficamos com olhos marejados quando a protagonista de um filme chora? Já reparou que nos retesamos quando vemos alguém com dor ou sentimos uma vontade incontrolável de bocejar quando alguém boceja? Afinal, o que nos leva a agir de acordo com o que as outras pessoas fazem?
Isso acontece porque, quando vemos alguém fazendo algo, automaticamente simulamos a ação no cérebro, é como se nós mesmos estivéssemos realizando aquele gesto. Isso quer dizer que o cérebro funciona como um “simulador de ação”: ensaiamos ou imitamos mentalmente toda ação que observamos. Essa capacidade se deve aos “neurônios-espelho”, distribuídos por partes essenciais do cérebro (o córtex pré-motor e os centros para linguagem, empatia e dor). Quando observamos alguém realizar essa ação, esses neurônios disparam (daí o nome “espelho”). Por isso, essas células cerebrais são essenciais no aprendizado de atitudes e ações, como conversar, caminhar ou dançar. Eles permitem que as pessoas executem atividades sem necessariamente pensar nelas, apenas acessando o seu banco de memória.
O cérebro funciona como um “simulador de ação”: ensaiamos ou imitamos mentalmente toda ação que observamos.
Os neurônios-espelho foram descobertos por acaso pela equipe do neurocientista Giacomo Rizzolatti, da Universidade de Parma, na Itália. O grupo colocou eletrodos na cabeça de um macaco, um aparato que permitia acompanhar a atividade dos neurônios na região do cérebro responsável pelos movimentos através de um monitor. Cada vez que o macaco cumpria uma tarefa, como apanhar uvas-passa com os dedos, neurônios no córtex pré-motor, nos lobos frontais, disparavam. Quando um aluno entrou no laboratório e levou um sorvete à boca, o monitor apitou (foi uma surpresa para os cientistas, porque o macaco estava imóvel). O mais intrigante é que sempre que o macaco assistia o experimentador ou outro macaco repetir essa cena com outros alimentos os neurônios disparavam.

Mais tarde, exames de neuroimagem mostraram que nós temos neurônios-espelho muito mais sofisticados e flexíveis que os dos macacos. “Nosso conhecimento do motor e a nossa capacidade de ‘espelhamento’ nos permitem compartilhar uma esfera comum de ação com os outros, dentro do qual cada ato motor ou cadeia de atos motores, sejam eles nossos ou dos demais, são imediatamente detectados e intencionalmente compreendidos antes e independentemente de qualquer mentalização”, observa Rizzolati.
A equipe do neurocientista Giovanni Buccino, da Universidade de Parma, usou Ressonância Magnética Funcional (RMF) para medir a atividade cerebral de voluntários enquanto eles assistiam a um vídeo que mostrava sequências de movimentos de boca, mãos e pés. Dependendo da parte do corpo que aparecia na tela, o córtex motor dos observadores se ativava com maior intensidade na região que correspondia à parte do corpo em questão, ainda que eles se mantivessem absolutamente imóveis. Ou seja, o cérebro associa a visão de movimentos alheios ao planejamento de seus próprios movimentos.
Outras experiências mostram que os neurônios-espelho dos macacos ainda são ativados diante de um estímulo indireto, que é associado a uma tarefa. Por exemplo, o som de uma casca de amendoim se quebrando. Isso se deve a neurônios-espelho, audiovisuais que seriam importantes na comunicação gestual desses animais. Nos seres humanos isso também é possível: os neurônios são ativados quando a pessoa imita, complementa uma ação ou quando apenas imagina ela própria realizando essas mesmas ações.
“Os neurônios-espelho mudaram o modo como vemos o cérebro e a nós mesmos, e têm sido considerado um dos achados mais importantes sobre a evolução do cérebro humano”, diz o neurocientista Sérgio de Machado, pesquisador e pós-doutorando do Laboratório de Pânico da UFRJ. “Se a tarefa exige compreensão da ação observada, então as áreas motoras que codificam a ação são ativadas. Isso indica que há uma conexão no sistema nervoso entre percepção e ação, e que a percepção seria uma simulação interna da ação”, completa.

Questão de empatia
Alguns pesquisadores especulam quanto à verdadeira função desses neurônios. Podemos dizer que o observador estaria simulando mentalmente a ação ou estaria se preparando para agir? O pesquisador húngaro Gergely Csibra, do Departamento de Psicologia do Birkbeck College, no Reino Unido, sugere que o papel dos neurônios-espelho talvez não seja exatamente o de espelhar ou simular a ação, mas de antecipar as possíveis respostas a essa ação. O que nos leva a acreditar que o cérebro é um grande gerador de hipóteses que antecipa as consequências da ação e que permite a tomada de decisão.
Devido a essa capacidade, podemos imaginar aquilo que se passa na mente do outro, colocando-nos no lugar da outra pessoa, compreendendo suas ações. Por exemplo: se vemos uma pessoa chorar por algum motivo, os neurônios-espelho nos permitem lembrar das situações em que choramos e simular a aflição dela. Sentimos empatia por ela, sentimos o que a pessoa está sentindo. “A capacidade de simular a perspectiva do outro estaria na base de nossa compreensão das emoções do outro, de nossos sentimentos empáticos”, diz Machado.
Isso faz toda a diferença, porque é graças a essa capacidade que podemos estabelecer relações sociais. “A predição das emoções do outro é fundamental para o comportamento social. A pessoa não cometerá um ato que é doloroso ou prejudicial ao demais. Isso se deve à empatia, que é a capacidade de interpretar as emoções alheias. O ser humano é dotado da teoria da mente, isto é, a capacidade de se colocar mentalmente no lugar de outra pessoa. Ela é a base do julgamento de intenções”, explica o neurocientista Renato Sabbatini, professor da Faculdade de Medicina da Unicamp.
A empatia seria determinada biologicamente desde o nascimento. “É preciso existir uma maquinaria inata, que nos permite certas capacidades, porque nem tudo em nosso comportamento é aprendido”, observa Sabattini. Ele lembra que os neurônios-espelho ainda são um mecanismo-chave para a aprendizagem. Um exemplo disso é que, desde bebês, somos capazes de imitar expressões faciais dos adultos, instintivamente reproduzimos caras e bocas. Isso acontece porque os neurônios-espelho começam a funcionar logo na primeira infância. Podemos, por exemplo, ampliar as nossas chances de sucesso em alguma tarefa, apreendendo com os “experts”.

Particularidades dos neurônios-espelho
O pesquisador Giovanni Buccino destacou algumas particularidades do seu estudo com os neurônios-espelho:
Os neurônios só são ativados quando o experimentador interage com um objeto (como uma mão pegando uma banana).
Os neurônios não são ativados quando a ação observada for simplesmente imitada, isto é, executada sem a presença do objeto.
Os neurônios não são ativados durante mera apresentação de objetos.
Nossa sobrevivência depende do entendimento das ações, intenções e emoções das outras pessoas.
Experimentos com tomografia por emissão de pósitron mostraram que as áreas ativadas durante a observação de um sujeito pegando um objeto foram:
– sulco temporal superior
– lobo parietal inferior
– giro frontal inferior
(todos no hemisfério esquerdo)
Metáforas
Os neurologistas Paul McGeoch, David Brang e Vilayanur Ramachandran, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, mostraram que é graças aos neurônios-espelho que somos capazes de interpretar metáforas.
Os neurologistas Paul McGeoch, David Brang e Vilayanur Ramachandran, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, mostraram que é graças aos neurônios-espelho que somos capazes de interpretar metáforas.
A empatia envolve regiões do cérebro que existem há mais de 100 milhões de anos e funciona como a “cola” que mantém as sociedades unidas, segundo o primatólogo holandês Frans de Wall, em seu livro “A Era da Empatia”. Como Wall, os cientistas partem do princípio de que os nossos cérebros são produto da seleção natural e que as pressões do ambiente social determinaram quais características deveriam ser mantidas para as gerações futuras (e uma dessas marcas seriam os neurônios-espelho). “A maior parte dos gestos motores, como amarrar os sapatos, é aprendido por imitação, ou seja, tentativa e erro. Isso prevalece no reino animal, principalmente nos vertebrados”, diz Sabbatini.
“Os estudos desses neurônios nos oferecem uma grande contribuição na compreensão da emoção: hoje sabemos que temos um sistema que partilha percepção e ação. O espelhamento permite o compartilhamento de emoções, presente no estado de empatia. Isso nos possibilita formular teorias mais compatíveis com os achados biológicos”, diz a psicóloga Cláudia Passos, que se dedica ao estudo de Ética e Biotecnologias em seu pós-doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia pela UFRJ.
Em “O Cérebro Empático” – Como, Quando e Por que?, a neurocientista alemã Tânia Singer e a filosofa francesa Frederique de Vignemont propõem quatro condições para que a empatia aconteça:
1-) Alguém está num estado afetivo, como medo, raiva ou tristeza, por exemplo.
2-) Esse estado é isomórfico ao estado afetivo da outra pessoa
3-) Esse estado é produzido pela observação ou imaginação do estado afetivo de outra pessoa
4-) A pessoa sabe que a outra pessoa é fonte do seu próprio estado afetivo.
“Os achados de imagem cerebral permitem que sejam identificadas áreas de ‘espelhamento’ do cérebro que são ativadas no estado de empatia, mas não se sabe exatamente como essas áreas cerebrais atuam nos estados da empatia descritos por essas pesquisadoras. Pode ser que um dia possamos ter uma precisão maior do que acontece no cérebro empático”, prevê Cláudia.

Moralidade
Estudos sugerem que as pessoas ajudam mais as outras quando têm empatia por elas, o que explica porque a empatia geralmente é associada ao senso moral, justiça, altruísmo e cooperação. As pesquisas com neurônios-espelho despontam como aliado no debate quanto à natureza de decisões morais. Elas reforçam a tese de que os comportamentos morais têm um traço afetivo porque envolvem a capacidade do indivíduo de sentir as emoções do outro, e dependem do sistema de recompensa (circuitos do cérebro ligados à sensação do prazer).
“Alguns teóricos defendem que as decisões morais são de natureza cognitiva e envolvem um pensamento moral. Mas os experimentos com neurônios-espelho fortalecem a ideia de que as emoções estão na base do sentimento moral. Isso significa dizer que não aprendemos apenas racionalmente, mas também somos educados sentimentalmente”, diz a pesquisadora.


Apesar do entusiasmo da comunidade científica, a filosofia ainda despreza as descobertas das ciências cognitivas e a psicologia moral. “A filosofia sempre operou com distinção entre fato e valor. Esses achados empíricos sobre neurônios-espelho são vistos com desconfiança, embora haja alguns naturalistas que tenham contribuído no diálogo com as ciências”, completa.
A “corrida” em busca desses neurônios em diferentes áreas do cérebro ajudou a lançar luz sobre uma questão que há muito intriga os cientistas: o autismo. Um estudo com ressonância magnética funcional mostra uma falha do mecanismo de espelho nessas crianças. Ao contrário do que ocorre em crianças normais, as crianças autistas não imitam gestos no espelho quando se veem face a face. “Crianças com autismo têm grande dificuldade para, se expressar, compreender sentimentos como medo, alegria ou tristeza, não percebem o significado emocional das ações alheias. O autista tem dificuldade de interagir e se assusta com expressões faciais e ruídos. Tudo indica que há uma falha no sistema de neurônios-espelho”, diz Machado.
Pesquisadores observaram crianças autistas e crianças normais enquanto elas assistiam ao experimentador agarrar um pedaço de comida para comer ou agarrar um pedaço de papel para colocar em um recipiente. A atividade elétrica do músculo envolvido na abertura da boca foi gravada. Os resultados mostraram a ativação dos neurônios correspondentes ao músculo da boca ao ver a comida em crianças normais, mas isso não aconteceu com as crianças autistas. Em outras palavras, enquanto a observação de uma ação feita por outra pessoa interferiu no sistema motor de uma criança normal que observava o movimento, o mesmo não aconteceu não no caso de uma criança autista.
“O autismo está associado a uma deficiência na habilidade de leitura da mente, na capacidade de interpretar as emoções do outro. É verdade que algumas crianças se mostram extremamente eficientes em outras habilidades cognitivas não sociais, como é o caso dos portadores de Síndrome de Asperger. Ainda assim, relatos de pessoas com esta síndrome atestam pouca ou nenhuma capacidade de introspecção”, diz Sabbatini. Pessoas com síndrome de Asperger têm os mesmos traços dos autistas, mas com uma diferença: elas possuem grande capacidade cognitiva, o QI pode variar de normal até níveis muito mais altos.

Distúrbios neurológicos
Além de compreender melhor nosso comportamento, os estudos sobre neurônios-espelho podem ajudar na solução de questões de ordem prática, como a recuperação de pacientes com perda da função motora. Em 1992, o neurocientista indiano Vilayanur Ramachandran, diretor do Centro do Cérebro e da Cognição da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, criou uma técnica que usa um espelho para tratamento de dor fantasma (pessoas que perderam um braço, por exemplo, sentem dores nesse membro como se ele ainda estivesse lá). A técnica permite que uma rede de neurônios responsáveis pelo controle de uma mão possa ser usada nos movimentos de outra mão numa determinada tarefa. A ideia é reeducar o cérebro com uma simples tarefa, em que a pessoa realiza movimentos com o braço saudável, vendo no espelho como se fosse o braço lesionado. (muito bem ilustrado num episódio de Dr. House).


“Assim é possível enganar o cérebro, fazendo com que ele imite os movimentos do braço lesionado através do reflexo do braço não lesionado no espelho”, diz Machado. A técnica também tem sido empregada para recuperação do movimento em pessoas que sofreram AVC (derrame). Alguns pacientes são mais beneficiados que outros, dependendo do local da lesão e da duração do déficit após o AVC. Estimativas atestam que cerca de um décimo da população mundial será vítima de déficit motor por causa do AVC.
Às vezes, a perda do movimento está ligada também à alteração de visão. Isso acontece porque, nas fases iniciais do derrame, o cérebro apresenta um edema, deixando também temporariamente alguns nervos atordoados e “desligados” que os especialistas chamam de “paralisia aprendida”. “Caso exista ainda neurônios-espelho sobreviventes, a terapia espelho poderia revivê-los”, diz Machado.
Durante a terapia, essas células tanto podem responder a gestos já praticados quanto a não aprendidos. O que significa que a capacidade desses neurônios de reagir à observação de uma tarefa não depende obrigatoriamente da nossa memória. A tendência é imitar, inconscientemente, aquilo que observamos, ouvimos ou percebemos. “Tanto existe reação como aprendizagem durante o processo de reabilitação, há uma dupla função”, diz Machado. Mas ele ressalva: “Se há uma lesão nesse circuito, isso vai levar a um tipo de interferência, talvez não haja integração das informações”.
A antiga visão de que o cérebro é dividido em módulos autônomos com funções específicas e que interagem pouco uns com os outros vem do século passado e a neurologia ainda tem se baseado nela. Uma lesão em um dos módulos traria um problema neurológico irreversível. “Os achados, no entanto, sugerem que é necessário repensar a visão de que o cérebro trabalha de forma seriada e hierárquica com seus módulos e substituí-la por uma nova visão mais dinâmica. O cérebro trabalha de forma integrada em paralelo e não de forma seriada. Existe atividade de várias áreas do cérebro ao mesmo tempo”, diz Machado. Segundo ele, ao invés de pensar os módulos cerebrais como inflexíveis, devemos pensar em um equilíbrio dinâmico como conexões sendo constantemente formadas e reformadas em respostas a mudanças ambientais.

(Roberta de Medeiros in Revsiata Psique Ciência e Vida, edição 76 pp. 24-31)

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publicado às 22:00


A CONDIÇÃO HUMANA

por Thynus, em 25.03.17

 

 

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O "vinho" antes do vinho

 

“Nosso verdadeiro estudo é o da condição humana.”

(Rousseau, Emílio)

 

 

A contribuição da cultura científica

 

O ESTUDO DA CONDIÇÃO humana não depende apenas do ponto de vista das ciências humanas. Não depende apenas da reflexão filosófica e das descrições literárias. Depende também das ciências naturais renovadas e reunidas, que são: a Cosmologia, as ciências da Terra e a Ecologia.

O que essas ciências fazem é apresentar um tipo de conhecimento que organiza um saber anteriormente disperso e compartimentado. Ressuscitam o mundo, a Terra, a natureza – noções que nunca deixaram de provocar o questionamento e a reflexão na história de nossa cultura – e, de uma nova maneira, despertam questões fundamentais: o que é o mundo, o que é nossa Terra, de onde viemos? Elas nos permitem inserir e situar a condição humana no cosmo, na Terra, na vida.

Estamos em um planeta minúsculo, satélite de um Sol de subúrbio, astro pigmeu perdido entre milhares de estrelas da Via-láctea, ela mesma galáxia periférica em um cosmo em expansão, privado de centro. Somos filhos marginais do cosmo, formados de partículas, átomos, moléculas do mundo físico. E estamos não apenas marginalizados, como também perdidos no cosmo, quase estrangeiros, justamente porque nosso pensamento e nossa consciência permitem que consideremos isto...

 

Assim como a vida terrestre é extremamente marginal no cosmo, somos marginais na vida. O homem surgiu marginalmente no mundo animal, e seu desenvolvimento marginalizou-o ainda mais. Somos (aparentemente) os únicos seres vivos, na terra, que dispõem de um aparelho neurocerebral hipercomplexo, e os únicos que dispõem de uma linguagem de dupla articulação para comunicar-se, de indivíduo a indivíduo. Os únicos que dispõem da consciência...

Abrir-se ao cosmo é entrar na aventura desconhecida, onde talvez sejamos, ao mesmo tempo, desbravadores e desviantes; abrir-se à physis é ligar-se ao problema da organização das partículas, átomos, moléculas, macromoléculas, que se encontram no interior das células de cada um de nós; abrir-se para a vida é abrir-se também para as nossas vidas. As ciências do homem retiraram toda significação biológica a estes termos: ser jovem, velho, mulher, homem, nascer, existir, ter pai e mãe, morrer – essas palavras remetem apenas a categorias socioculturais. Só readquirem sentido vivo quando as conceituamos em nossa vida privada. A Antropologia que exclui a vida de nossa vida privada é uma Antropologia privada de vida.

A vida é um fungo que se formou nas águas e na superfície da Terra. Nosso planeta gerou a vida que se desenvolveu de forma líquida no mundo vegetal e animal; nós somos uma ramificação da ramificação dessa evolução dos vertebrados, dos mamíferos, dos primatas, portadores em nós das herdeiras, filhas, irmãs das primeiras células vivas. Pelo nascimento, participamos da aventura biológica; pela morte, participamos da tragédia cósmica. O ser mais corriqueiro, o destino mais banal participa dessa tragédia e dessa aventura.

Michel Cassé, em um banquete no Castelo de Beychevelle, quando um enólogo lhe perguntou o que um astrônomo via em seu copo de vinho bordeaux, respondeu assim: “Vejo o nascimento do Universo, pois vejo as partículas que se formaram nele nos primeiros segundos. Vejo um Sol anterior ao nosso, pois nossos átomos de carbono foram gerados no seio desse grande astro que explodiu. Depois, esse carbono ligou-se a outros átomos nessa espécie de lixeira cósmica em que os detritos, ao se agregarem, vão formar a Terra. Vejo a composição das macromoléculas que se uniram para dar nascimento à vida. Vejo as primeiras células vivas, o desenvolvimento do mundo vegetal, a domesticação da vinha nos países mediterrâneos. Vejo as bacanais e os festins. Vejo a seleção das castas, um cuidado milenar em torno dos vinhedos. Vejo, enfim, o desenvolvimento da técnica moderna que hoje permite controlar eletronicamente a temperatura de fermentação nas tinas. Vejo toda a história cósmica e humana nesse copo de vinho, e também, é claro, toda a história específica do bordelês.”

Trazemos, dentro de nós, o mundo físico, o mundo químico, o mundo vivo, e, ao mesmo tempo, deles estamos separados por nosso pensamento, nossa consciência, nossa cultura. Assim, Cosmologia, ciências da Terra, Biologia, Ecologia permitem situar a dupla condição humana: natural e metanatural.

Conhecer o humano não é separá-lo do Universo, mas situá-lo nele. Como vimos no capítulo anterior, todo conhecimento, para ser pertinente, deve contextualizar seu objeto. “Quem somos nós?” é inseparável de “Onde estamos, de onde viemos, para onde vamos?”. Pascal já nos havia situado, corretamente, entre dois infinitos, o que foi amplamente confirmado no século XX pela dupla evolução da Microfísica e da Astrofísica. Conhecemos hoje nosso duplo enraizamento: no cosmo físico e na esfera viva.

Claro, novas descobertas ainda vão modificar nosso conhecimento, mas, pela primeira vez na história, o ser humano pode reconhecer a condição humana de seu enraizamento e de seu desenraizamento.

Em meio à aventura cósmica, no extremo do prodigioso desenvolvimento de um ramo singular da auto-organização viva, prosseguimos, à nossa maneira, na aventura da organização. Essa época cósmica da organização, incessantemente sujeita às forças da desorganização e da dispersão, é, também, a época da reunião, e só ela impediu que o cosmo se dispersasse e desaparecesse, tão logo acabara de nascer. Nós, viventes, e, por conseguinte, humanos, filhos das águas, da Terra e do Sol, somos um feto da diáspora cósmica, algumas migalhas da existência solar, uma ínfima brotação da existência terrestre.

Estamos, a um só tempo, dentro e fora da natureza. Somos seres, simultaneamente, cósmicos, físicos, biológicos, culturais, cerebrais, espirituais... Somos filhos do cosmo, mas, até em conseqüência de nossa humanidade, nossa cultura, nosso espírito, nossa consciência, tornamo-nos estranhos a esse cosmo do qual continuamos secretamente íntimos. Nosso pensamento, nossa consciência, que nos fazem conhecer o mundo físico, dele nos distanciam ainda mais.

À nossa ascendência cósmica, à nossa constituição física, temos de acrescentar nossa implantação terrestre. A Terra foi produzida e organizada na dependência do Sol, constituiu-se em complexo biofísico, a partir do momento em que sua biosfera se desenvolveu. Da Terra nasceu, efetivamente, a vida e, na evolução multiforme da vida multicelular, nasceu a animalidade; depois, o mais recente desenvolvimento de um ramo do mundo animal tornou-se humano. Nós domamos a natureza vegetal e animal, pensamos ser senhores e donos da Terra, os conquistadores, mesmo, do cosmo. Mas – como começamos a tomar consciência – dependemos de modo vital da biosfera terrestre e devemos reconhecer nossa muito física e muito biológica identidade terrena.

De modo que podemos, ao mesmo tempo, integrar e distinguir o destino humano dentro do Universo; e essa nova cultura científica permite oferecer um novo e capital conhecimento à cultura geral, humanística, histórica e filosófica, que, de Montaigne a Camus, sempre levantou o problema da condição humana.

A Pré-história torna-se, mais e mais, ciência fundamental da hominização. Esta traz em si o nó górdio animalidade/humanidade. Efetivamente, o processo de hominização de 6 milhões de anos permite-nos imaginar a emergência da humanidade a partir da animalidade. A hominização é uma aventura ao mesmo tempo descontínua - aparecimento de novas espécies: habilis, erectus, neanderrtalensis, sapiens, e desaparecimento das precedentes; surgimento da linguagem e da cultura – e contínua, no sentido em que prossegue em um processo de bipedização, de manualização, de empertigamento do corpo, de cerebralização1, de juvenilização (o adulto conserva os caracteres não especializados do embrião2 e os caracteres fisiológicos da juventude), de complexificação social, processo ao longo do qual surge a linguagem propriamente humana, ao mesmo tempo em que se constitui a cultura: patrimônio dos saberes, know-how, crenças, mitos adquiridos e transmissíveis de geração a geração. Assim, podemos introduzir em nossa reflexão o problema, em parte ainda enigmático, da hominização, mas, ao menos, sabemos hoje que teve início há muitos milhões de anos e adquiriu um caráter não apenas anatômico e genético, mas também psicológico e sociológico, para tornar-se cultural, a partir de um certo período. A hominização resulta em um novo ponto de partida: o humano.

 

Tudo isso deve contribuir para a formação de uma consciência humanística e ética de pertencer à espécie humana, que só pode ser completa com a consciência do caráter matricial da Terra para a vida, e da vida para a humanidade.

Tudo isso deve contribuir, igualmente, para o abandono do sonho alucinado de conquista do Universo e dominação da natureza – formulado por Bacon, Descartes, Buffon, Marx –, que incentivou a aventura conquistadora da técnica ocidental.

 

Os novos conhecimentos, que nos levam a descobrir o lugar da Terra no cosmo, a Terra-sistema, a Terra-Gaia ou biosfera, a Terra-pátria dos humanos, não têm sentido algum enquanto isolados uns dos outros. A Terra não é a soma de um planeta físico, de uma biosfera e da humanidade. A Terra é a totalidade complexa físico-biológica-antropológica, onde a vida é uma emergência da história da Terra, e o homem, uma emergência da história da vida terrestre. A relação do homem com a natureza não pode ser concebida de forma reducionista, nem de forma disjuntiva. A humanidade é uma entidade planetária e biosférica. O ser humano, ao mesmo tempo natural e supranatural, deve ser pesquisado na natureza viva e física, mas emerge e distingue-se dela pela cultura, pensamento e consciência. Tudo isso nos coloca diante do caráter duplo e complexo do que é humano: a humanidade não se reduz absolutamente à animalidade, mas, sem animalidade, não há humanidade.

 

Ao longo dessa aventura, a condição humana foi autoproduzida pelo desenvolvimento do utensílio, pela domesticação do fogo, pela emergência da linguagem de dupla articulação e, finalmente, pelo surgimento do mito e do imaginário... Assim, a nova Pré-história tornou-se a ciência que permite a ressurreição do humano que fora eliminado pelas fragmentações disciplinares.

 

O ser humano nos é revelado em sua complexidade: ser, ao mesmo tempo, totalmente biológico e totalmente cultural. O cérebro, por meio do qual pensamos, a boca, pela qual falamos, a mão, com a qual escrevemos, são órgãos totalmente biológicos e, ao mesmo tempo, totalmente culturais. O que há de mais biológico – o sexo, o nascimento, a morte – é, também, o que há de mais impregnado de cultura. Nossas atividades biológicas mais elementares – comer, beber, defecar – estão estreitamente ligadas a normas, proibições, valores, símbolos, mitos, ritos, ou seja, ao que há de mais especificamente cultural; nossas atividades mais culturais – falar, cantar, dançar, amar, meditar – põem em movimento nossos corpos, nossos órgãos; portanto, o cérebro.

 

A partir daí, o conceito de homem tem dupla entrada: uma entrada biofísica, uma entrada psicossociocultural; duas entradas que remetem uma à outra.

À maneira de um ponto de holograma, trazemos, no âmago de nossa singularidade, não apenas toda a humanidade, toda a vida, mas também quase todo o cosmo, incluso seu mistério, que, sem dúvida, jaz no fundo da natureza humana.

Eis, pois, o que uma nova cultura científica pode oferecer à cultura humanística: a situação do ser humano no mundo, minúscula parte do todo, mas que contém a presença do todo nessa minúscula parte. Ela o revela, simultaneamente, em sua participação e em sua estranheza ao mundo. Assim, a iniciação às novas ciências torna-se, ao mesmo tempo, iniciação a nossa condição humana, por intermédio dessas ciências.


A contribuição das ciências humanas

 

Paradoxalmente, são as ciências humanas que, no momento atual, oferecem a mais fraca contribuição ao estudo da condição humana, precisamente porque estão desligadas, fragmentadas e compartimentadas. Essa situação esconde inteiramente a relação indivíduo/espécie/sociedade, e esconde o próprio ser humano. Tal como a fragmentação das ciências biológicas anula a noção de vida, a fragmentação das ciências humanas anula a noção de homem. Assim, Lévi-Strauss acreditava que o fim das ciências humanas não é revelar o homem, mas dissolvê-lo em estruturas.

Seria preciso conceber uma ciência antropossocial religada, que concebesse a humanidade em sua unidade antropológica e em suas diversidades individuais e culturais.

À espera dessa religação – desejada pelas ciências, mas ainda fora de seu alcance –, seria importante que o ensino de cada uma delas fosse orientado para a condição humana. Assim, a Psicologia, tendo como diretriz o destino individual e subjetivo do ser humano, deveria mostrar que Homo sapiens também é, indissoluvelmente, Homo démens, que Homo faber é, ao mesmo tempo, Homo ludens, que Homo economicus é, ao mesmo tempo, Homo mythologicus, que Homo prosaicus é, ao mesmo tempo, Homo poeticus. A Sociologia seria orientada para nosso destino social, a Economia para nosso destino econômico; um ensino sobre os mitos e as religiões seria orientado para o destino mítico-religioso do ser humano. De fato, as religiões, mitos, ideologias devem ser considerados em seu poder e ascendência sobre as mentes humanas, e não mais como “superestruturas”.

Quanto à contribuição da História para o conhecimento da condição humana, ela deve incluir o destino, a um só tempo, determinado e aleatório da humanidade. Todas as conseqüências sairiam da conscientização de que a História não obedece a processos deterministas, não está sujeita a uma inevitável lógica técnico-econômica, ou orientada para um progresso imprescindível. A História está sujeita a acidentes, perturbações e, às vezes, terríveis destruições de populações ou civilizações em massa. Não existem “leis” da História, mas um diálogo caótico, aleatório e incerto, entre determinações e forças de desordem, e um movimento, às vezes rotativo, entre o econômico, o sociológico, o técnico, o mitológico, o imaginário. Não há mais progresso prometido; em contrapartida, podem advir progressos, mas devem ser incessantemente reconstruídos. Nenhum progresso é conquistado para todo o sempre.

A História, ainda que esvaziada por algum tempo da noção de acontecimento, de acaso e de “grandes homens”, enriqueceu-se em profundidade. Assim, a tendência ilustrada, cujo exemplo, na França, é a École des Annales (Escola dos Anais), teve a virtude não de se livrar do acontecimento e do eventual, como pensava, mas de se tornar multidimensional, integrando o substrato econômico e técnico, a vida quotidiana, as crenças e ritos, os comportamentos diante da vida e da morte. Mal começa a reconhecer o acontecimento e o eventual, que foram reencontrados há trinta anos, paradoxalmente, na Cosmologia, na Física e na Biologia.

Assim, todas as disciplinas, tanto das ciências naturais como das ciências humanas, podem ser mobilizadas, hoje, de modo a convergir para a condição humana.

 

A contribuição da cultura das humanidades

 

A contribuição da cultura das humanidades para o estudo da condição humana continua sendo fundamental.

Em primeiro lugar, o estudo da linguagem; sob a forma mais consumada, que é a forma literária e poética, ele nos leva diretamente ao caráter mais original da condição humana, pois, como disse Yves Bonnefoy, “são as palavras, com seu poder de antecipação, que nos distinguem da condição animal”. E Bonnefoy enfatiza que a importância da linguagem está em seus poderes, e não em suas leis fundamentais3.

No que concerne à literatura propriamente dita, François Bon constata4, com razão, “que fomos separados da literatura como auto-reflexão do homem em sua universalidade, para colocá-la a serviço da língua veicular... [onde] ela se torna submissa e secundária”. É preciso restituir-lhe sua virtude plena.

A longa tradição dos ensaios – própria de nossa cultura, desde Erasmo, Maquiavel, Montaigne, La Bruyère, La Rochefoucauld, Diderot e até Camus e Bataille – constitui uma farta contribuição reflexiva sobre a condição humana. Mas também o romance e o cinema oferecem-nos o que é invisível nas ciências humanas; estas ocultam ou dissolvem os caracteres existenciais, subjetivos, afetivos do ser humano, que vive suas paixões, seus amores, seus ódios, seus envolvimentos, seus delírios, suas felicidades, suas infelicidades, com boa e má sorte, enganos, traições, imprevistos, destino, fatalidade...

São o romance e o filme que põem à mostra as relações do ser humano com o outro, com a sociedade, com o mundo. O romance do século XIX e o cinema do século XX transportam-nos para dentro da História e pelos continentes, para dentro das guerras e da paz. E o milagre de um grande romance, como de um grande filme, é revelar a universalidade da condição humana, ao mergulhar na singularidade de destinos individuais localizados no tempo e no espaço.

Kundera diz isso muito bem, em L’Art du roman (A Arte do Romance)5. O romance é mais que um romance. Sabemos que o romance, a partir do século XIX, tornou-se prenhe de toda a complexidade da vida dos indivíduos, até da mais banal das vidas. Ele demonstra que o ser mais insignificante tem várias vidas, desempenha diversos papéis, vive uma existência em parte de fantasias, em parte de ações. Dostoïevski demonstrou vivamente a complexidade das relações do sujeito com o outro, as instabilidades do “eu”.

É a literatura que nos revela, como acusa o escritor Hadj Garm’ Oren, que “todo indivíduo, mesmo o mais restrito à mais banal das vidas, constitui, em si mesmo, um cosmo. Traz em si suas multiplicidades internas, suas personalidades virtuais, uma infinidade de personagens quiméricos, uma poliexistência no real e no imaginário, o sono e a vigília, a obediência e a transgressão, o ostensivo e o secreto, pululâncias larvares em suas cavernas e grutas insondáveis. Cada um contém em si galáxias de sonhos e de fantasias, de ímpetos insatisfeitos de desejos e de amores, abismos de infelicidade, vastidões de fria indiferença, ardores de astro em chamas, ímpetos de ódio, débeis anomalias, relâmpagos de lucidez, tempestades furiosas.,.”6.

A poesia, que faz parte da literatura e, ao mesmo tempo, é mais que a literatura, leva-nos à dimensão poética da existência humana. Revela que habitamos a Terra, não só prosaicamente – sujeitos à utilidade e à funcionalidade –, mas também poeticamente, destinados ao deslumbramento, ao amor, ao êxtase. Pelo poder da linguagem, a poesia nos põe em comunicação com o mistério, que está além do dizível.

As artes levam-nos à dimensão estética da existência e – conforme o adágio que diz que a natureza imita a obra de arte – elas nos ensinam a ver o mundo esteticamente.

Trata-se, enfim, de demonstrar que, em toda grande obra, de literatura, de cinema, de poesia, de música, de pintura, de escultura, há um pensamento profundo sobre a condição humana.

Acrescentemos que todo ensino, particularmente de literatura, poesia, música, deveria tomar consciência do fato de que, a partir do século XIX, ocorre uma separação cultural na história européia. Enquanto o mundo masculino adulto, das classes burguesas, é destinado à eficiência, à dominação, à técnica, ao lucro, e o proletariado está sujeito ao trabalho, uma parte do mundo adolescente e do mundo feminino assume a sensibilidade, o amor, a tristeza; e vai expressar, como em nenhuma outra civilização ou época da História, as aspirações e os tormentos da alma humana: é justamente o que enunciam Shelley, Keats, Hovalis, Hölderlin, Nerval, Rimbaud. Enquanto o poderio do Ocidente europeu expande-se sobre o mundo cantando vitórias em todas as batalhas, esses poetas cantam os sofrimentos dos humanos submetidos à crueldade do mundo e da vida. Beethoven, em seu último quatuor, une, indissoluvelmente, a revolta incoercível do muss es sein? a resignação inelutável do es muss sein!. O quinteto de Schubert oferece uma dor que, no entanto, sem deixar de ser dor, transfigura-se no sublime7.

 

A poesia, que faz parte da literatura e, ao mesmo tempo, é mais que a literatura, leva-nos à dimensão poética da existência humana. Revela que habitamos a Terra, não só prosaicamente – sujeitos à utilidade e à funcionalidade –, mas também poeticamente, destinados ao deslumbramento, ao amor, ao êxtase. Pelo poder da linguagem, a poesia nos põe em comunicação com o mistério, que está além do dizível.

 

As artes levam-nos à dimensão estética da existência e – conforme o adágio que diz que a natureza imita a obra de arte – elas nos ensinam a ver o mundo esteticamente.

 

Trata-se, enfim, de demonstrar que, em toda grande obra, de literatura, de cinema, de poesia, de música, de pintura, de escultura, há um pensamento profundo sobre a condição humana.

 

Acrescentemos que todo ensino, particularmente de literatura, poesia, música, deveria tomar consciência do fato de que, a partir do século XIX, ocorre uma separação cultural na história européia. Enquanto o mundo masculino adulto, das classes burguesas, é destinado à eficiência, à dominação, à técnica, ao lucro, e o proletariado está sujeito ao trabalho, uma parte do mundo adolescente e do mundo feminino assume a sensibilidade, o amor, a tristeza; e vai expressar, como em nenhuma outra civilização ou época da História, as aspirações e os tormentos da alma humana: é justamente o que enunciam Shelley, Keats, Hovalis, Hölderlin, Nerval, Rimbaud. Enquanto o poderio do Ocidente europeu expande-se sobre o mundo cantando vitórias em todas as batalhas, esses poetas cantam os sofrimentos dos humanos submetidos à crueldade do mundo e da vida. Beethoven, em seu último quatuor, une, indissoluvelmente, a revolta incoercível do muss es sein? a resignação inelutável do es muss sein!. O quinteto de Schubert oferece uma dor que, no entanto, sem deixar de ser dor, transfigura-se no sublime7.


Enfim, a Filosofia, se retomar sua vocação reflexiva sobre todos os aspectos do saber e dos conhecimentos, poderia, deveria fazer convergir a pluralidade de seus pontos de vista sobre a condição humana.

A despeito da ausência de uma ciência do homem que coordene e ligue as ciências do homem (ou antes, a despeito da ignorância dos trabalhos realizados neste sentido8), o ensino pode tentar, eficientemente, promover a convergência das ciências naturais, das ciências humanas, da cultura das humanidades e da Filosofia para a condição humana.

Seria possível, daí em diante, chegar a uma tomada de consciência da coletividade do destino próprio de nossa era planetária, onde todos os humanos são confrontados com os mesmos problemas vitais e mortais.

 

(Edgar Morin - A CABEÇA BEM-FEITA, Repensar a reforma / Reformar o pemsamento)

 

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Educação do futuro

 

 

NOTAS:

1 Australopteco (crânio: 508 cm3), Homo habilis (680 cm3), Homo erectus (800 cm3. 1.100 cm3), homem moderno (1.200 cm3.500 cm3).

2 Cf. as indicações em Le Paradigme perdu (op. cit.) sobre os caracteres anatômicos e fisiológicos não especializados do ser humano (pp. 92-100).

3 “L’enseignement de la poésie”, in Quels savoirs enseigner dans les lycées, Ministério da Educação Nacional, CNDP, 1998, pp. 63-67.

4 “Transmettre la littérature: obstacles”, in Relier les connaissances, Éd. du Seuil, 1999.

5 Gallimard, 1986, e col. “Folio”, 1995.

6 Manuscrito inédito.

7 Cf. a máxima beethoveniana durch leiden freude (por meio do sofrimento, a alegria).

8 ... em meus livros L’Homme et la mon (Éd. du Seuil, “Points Essais”, n? 77) e Le Paradigme perdu. La nature humaine (Éd. du Seuil, “Points Essais”, n? 109), assim como a obra coletiva, dirigida por E. Morin e M. Piattelli, L’Unité de l’homme, 3 vol. (Éd. du Seuil, “Points Essais”, n°.’ 91, 92 e 93).

 

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publicado às 16:43


 
EXISTE O TEMPO CRONOLÓGICO e o tempo psicológico, que é subjetivo e está relacionado a cada indivíduo. O tempo psicológico seria nossa percepção do tempo físico e não pode ser mensurado.

O tempo começou a ser medido pelos egípcios e babilônios, que observavam o firmamento para delimitar os meses e as estações. Apesar de hoje termos dispositivos incrivelmente precisos para medir horas, minutos e segundos, o tempo não é igual para todo mundo, já que o cérebro é o verdadeiro responsável por regulá-lo.

O cérebro armazena o que acontece de novo e emocionante enquanto filtra e ignora os fatos considerados comuns. Por isso, temos a sensação de que o tempo anda mais depressa ou mais devagar dependendo do que vivenciamos.

Segundo a revista Redes para la Ciencia (Redes para a ciência), a rotina faz o tempo passar mais rápido, enquanto a quebra dela nos leva a realizar novas conexões neuronais, então sentimos que o tempo transcorre de forma mais lenta.

É por isso que, quando somos crianças, o tempo parece passar mais devagar – tudo é novo e estamos em processo de aprendizagem. À medida que crescemos, passa mais depressa, como se a areia da ampulheta estivesse prestes a acabar.

O tempo físico é o mesmo para todos, mas a forma como o experimentamos depende de nós. Para estender os dias, as horas e os minutos, faça as coisas de um jeito diferente. Procure mudar suas rotinas e seja receptivo à novidade e ao deslumbramento.

A eternidade vive no presente.

(Allan Percy - Einstein para despistados)

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publicado às 20:37


Brincando de Deus

por Thynus, em 22.03.17
Então Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente.
(Gênesis 2,7)

O debate entre aqueles que afirmam que o universo foi criado por Deus e aqueles que pensam que ninguém o criou tem como objecto algo que ultrapassa o nosso entendimento e a nossa experiência. Bem mais real é a diferença entre aqueles que contestam o ser tal como foi dado ao homem (pouca importa como e por quem) e aqueles que a ele aderem sem reservas de espécie nenhuma.Todas as crenças europeias, sejam elas religiosas ou políticas, têm por detrás de si o primeiro capítulo do Génesis, do qual se infere que o mundo foi criado tal como devia ser, que o ser é bom e, por consequência, que procriar é uma coisa boa. Chamemos a esta crença fundamental acordo categórico com o ser.
Se, ainda recentemente, a palavra merda era substituída nos livros por três pontinhos, não era seguramente por uma questão de moral. Apesar de tudo, ninguém pode pretender que a merda seja imoral! O desacordo com a merda é metafísico. O instante da defecção é a prova quotidiana do carácter inaceitável da criação. Pás duas, uma: ou a merda é aceitável (então porque é que se fecham na casa de banho?) ou a maneira como nos criaram é que é inadmissível.
Daqui se infere que o acordo categórico com o ser tem como ideal estético um mundo onde a merda é negada e onde todos se comportam como se ela não existisse. Esse ideal estético chama-se kitsch.
É uma palavra alemã que apareceu em meados do século XIX sentimental e que depois se vulgarizou em todas as línguas. Mas a sua utilização frequente fê-la perder todo o valor metafísico original: o kitsch é, por essência, a negação absoluta da merda; tanto no sentido literal como no sentido figurado, o kitsch exclui do seu campo de visão tudo o que a existência humana tem de essencialmente inaceitável.
(Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser)

Como? O ser humano é apenas um equívoco de Deus? Ou Deus apenas um equívoco do ser humano? 
(Nietzsche - Crepúsculor dos Ídolos) 

É em sua natureza selvagem que o indivíduo se refaz melhor de sua desnatureza, de sua espiritualidade... 
(Nietzsche - Crepúsculo dos Ídolos) 

Célula Sintética – Brincando de Deus? Não! Não é brincadeira.
 
É fato: 99,9% de todas as espécies de plantas e animais que já habitaram nosso planeta estão extintas. Isso mesmo, de cada mil espécies que já viveram na Terra, somente uma ainda está entre nós. A biodiversidade entre as espécies extintas é centenas de vezes maior que a biodiversidade atual. Isso significa que o destino de todas as espécies é a extinção. Aceitar essa realidade é desagradável, mas permite uma melhor compreensão do nosso lugar na história do planeta.

Esse fato já era conhecido por Darwin em 1859, quando ele publicou A origem das espécies. Quando, no século XVII, os paleontólogos começaram a estudar de maneira sistemática as camadas de fósseis, encontraram uma diversidade enorme de animais extintos, a grande maioria sem nenhuma correspondência com os seres vivos existentes. Milhares de dinossauros não deixaram descendentes, e mesmo entre as linhagens que deixaram descendentes diretos, como os cavalos ou os humanos, o número de “parentes” extintos é dezenas de vezes maior que o número de espécies sobreviventes. A conclusão é que a biodiversidade entre as espécies extintas é muito maior que a existente entre as espécies vivas. Desde o século XIX, muito antes de a ecologia surgir como disciplina, todo naturalista sabia que o destino final das espécies é a extinção.

Apesar de nos preocuparmos com o destino do mico-leão- -dourado e condenarmos a devastação da Amazônia, a realidade é que o desaparecimento de espécies é condição necessária para que novas espécies se espalhem pelo planeta. Os cientistas acreditam que a extinção dos dinossauros permitiu que os mamíferos se espalhassem na Terra. Antes de nós, muitas espécies bem-sucedidas causaram tamanho estrago no ambiente em que viviam que terminaram por inviabilizar sua existência. Puni-las com a extinção faz parte do processo de seleção natural. Se o processo de extinção faz parte do processo natural de reposição da vida na Terra, então devemos nos perguntar se é “biologicamente ético” o homem tentar controlar a destruição que ele mesmo vem causando no planeta.

Foi a seleção natural que ao longo do último milhão de anos “criou” o homem. Agora, neste início do século XXI, esse animal, do alto de seu egocentrismo, decidiu controlar o processo de seleção natural, impedindo espécies de se extinguir e tentando controlar a maneira como modifica o meio ambiente. É difícil prever se teremos sucesso, mas a arrogância da nossa espécie é notável. Para quem não acredita que o destino do ser humano depende de um determinismo divino, interferir no processo de nossa própria seleção natural talvez seja a atividade humana que mais se assemelha ao que classificamos como “brincar de Deus”.

Muitos pessimistas acreditam que não será uma minoria de pessoas preocupadas com o meio ambiente que vai mudar o comportamento predatório do bicho homem. Se for verdade, então o processo que determinará nossa extinção já começou.

Mas, visto assim de tão longe, o desaparecimento da raça humana não deve nos entristecer, pois ele permitirá que novos e melhores seres vivos tomem nosso lugar no planeta. Deixaremos de pertencer à minoria das espécies vivas e passaremos a ocupar lugar entre as espécies extintas. Para quem tem filhos e netos, o único consolo é que o último ser humano a se extinguir ainda não nasceu.


(Fernando Reinach - A Longa Marcha dos Grilos Canibais)

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publicado às 23:26

Temos o destino que merecemos. O nosso destino está de acordo com os nossos méritos.
 
Destino não é uma questão de sorte, mas uma questão de escolha; não é uma coisa que se espera, mas que se busca.
William Jennings Bryan  
 
Carrocel de emoções
Esse aforismo de Shakespeare aponta para uma síndrome comum nas pessoas solitárias: a crença de que estão excluídas da doçura do amor ou de que as relações em que podem se envolver são efêmeras e não alimentarão sua alma.

Estar sozinho e desanimado na frente do computador e tentar encontrar alguém ao estilo do filme Mensagem para você, estrelado por Meg Ryan e Tom Hanks, é hoje uma realidade para muita gente.

As redes sociais tornaram-se o grande ponto de encontro entre aqueles que procuram um amor, e é um preconceito infundado pensar que esse tipo de relação não pode ser intensa e duradoura.

Um estudo recente realizado pela Universidade de Chicago com mais de vinte mil casais dos Estados Unidos formados entre os anos de 2005 e 2012, descobriu que um em cada três havia se conhecido on-line. O dado alentador para quem opta pela rede para encontrar o amor é que houve um índice menor de rupturas em relação às uniões que se firmaram pelos canais tradicionais.

Os casais mais felizes eram aqueles que tinham se conhecido de forma mais natural, crescendo no mesmo ambiente, estudando juntos, apresentados por amigos ou em uma comunidade religiosa, em comparação com os que haviam se conhecido de forma pontual em um encontro às cegas, uma boate ou um bar e, inclusive, no trabalho.

E isso também acontecia na internet. Os casais que tinham se conhecido em salas de chat ou em fóruns eram menos felizes do que aqueles que tinham realizado previamente encontros on-line e dedicado o tempo necessário a aprofundar a relação antes de se conhecer pessoalmente.

Portanto, não há por que temer o ciberamor; devemos, sim, ser pacientes e saber abrir a porta quando estivermos convencidos de que vale a pena.


(Allan Percy - Shakespeare para enamorados) 

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publicado às 21:45


450 anos de William Shakespeare
 
Este livro tem como foco a paixão de um casal, mas os domínios do amor não terminam por aí. Como foi dito no prólogo, o amor é o que move o mundo, e as nossas maiores conquistas, tanto as individuais quanto as coletivas, são impulsionadas pelo amor por um sonho.

No caso dos amantes de Verona, é o desejo de Romeu de ficar com Julieta e vice-versa, mas há muitos outros sonhos que alimentam nosso espírito e o mantêm jovem, como afirmava Shakespeare.

O amor à ciência, à leitura, à arte ou a uma determinada atividade pode alimentar o encantamento e nos compensar pelos dissabores de um dia a dia nem sempre poético.

Entretanto, assim como a paixão tem como inimigos a rotina e a falta de criatividade, nossos outros sonhos também têm inimigos à espreita. E eles são basicamente:

    O pessimismo de companhias que, por sua própria passividade, nos desanimam de nossos projetos.
    O medo de não sermos capazes de fazer aquilo a que nos propomos.
    A falta de concretude em nosso objetivo ou a incapacidade de desenvolver um plano viável, passo a passo, para atingir a meta.

Se formos capazes de vencer esses três inimigos dos sonhos realizáveis, conseguiremos ser heróis por amor e viver nossas paixões, quaisquer que sejam.


(Allan Percy - Shakespeare para enamorados) 

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publicado às 21:22

.
 
Durante a fase da conquista, utilizamos várias palavras para nos conhecermos melhor, para entender o outro, compartilhar nossos sentimentos, provocar, fazer sorrir, agradar…

A questão é que, se a relação prosperar, anos depois já teremos usado todos os nossos truques e o que restará serão apenas as piadas do dia a dia. Será que isso vai bastar para preencher o espaço compartilhado com a pessoa amada?

Talvez isso funcione quando voltarmos do trabalho com pouco tempo, muito cansados e com sono, mas o que acontecerá nos finais de semana ou durante as férias?

Absolutamente nada.

De fato, nem sequer precisamos de uma televisão ligada na sala para nos sentirmos confortáveis. Há algo muito mais importante para compartilhar com a pessoa amada quando não há novidades para contar: o silêncio.

Um sinal de uma relação saudável é ser capaz de dividir a ausência – sempre relativa – de sons, seja lendo livros ou contemplando um entardecer pela janela.

O compositor John Cage demonstrou, de maneira contundente, em 4’33’’, a possibilidade de o silêncio ser belo e compartilhado. A peça consiste em 4 minutos e 33 segundos de puro silêncio e pode ser interpretada por uma orquestra inteira em grandes auditórios.

No dia da estreia, a plateia ficou assustada diante daquela peça em que os músicos não se mexiam e o regente mantinha a batuta imóvel, atento apenas ao relógio. Ao atingir os 4 minutos e 33 segundos, o maestro abaixou a cabeça para receber os aplausos.

Os espectadores ficaram comovidos, talvez porque ninguém mais esteja acostumado a abraçar o silêncio, que é uma trilha sonora perfeitamente romântica para a intimidade a dois.


(Allan Percy - Shakespeare para enamorados) 

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publicado às 21:07

.
Se podemos sonhar, também podemos tornar nossos sonhos realidade.
 
O sonho é a satisfação de que o desejo se realize.
Sigmund Freud 
 
A manhã é a juventude do dia; tudo é luminoso, fresco e fácil; sentimo-nos vigorosos e dispomos de todas as nossas faculdades. Não devemos abreviá-la levantando tarde, nem gastá-la em ocupações ou em conversas vulgares; pelo contrário, devemos considerá-la como a quintessência da vida e, por assim dizer, como algo sagrado. Em contrapartida, a tarde é a velhice do dia; estamos abatidos, falantes e atordoados. Cada dia é uma vida em miniatura, onde todo despertar é um pequeno nascimento, cada manhã fresca é uma pequena juventude e cada adormecer na noite é uma pequena morte. Para completar a analogia, poderíamos considerar o desconforto e a dificuldade de despertar como as dores do parto. 
 
O sono é uma porção de morte que tomamos antecipadamente, e por meio da qual recobramos e renovamos a vida exaurida durante o dia. Le sommeil est un emprunt fait à la mort [o sono é um prefácio feito à morte]. O sono pede emprestado da morte para conservar a vida; ou são os juros pagos provisoriamente à morte, que é o pagamento integral do capital. O reembolso total se exige em um prazo tanto maior quanto mais elevados são os juros e mais metodicamente se paga.
(Arthur Schopenhauer - "Aforismos para a Sabedoria de Vida")
 
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Com a imaginação, podemos nos transportar para mundos desejados que quase sempre têm relação com o amor. Quem nunca sonhou na adolescência em encontrar uma alma amiga com a qual se identifique e transformar este mundo cinza em uma rica paleta de cores?

Não é por acaso que praticamente todos os grandes romances e filmes têm uma história de amor central, já que o sentimento amoroso é o Santo Graal de todas as fantasias.

Ao longo da vida, vemos algumas pessoas encontrarem seu companheiro, mas outras parecem relegadas a esperar e continuar sonhando. Será que os solitários não têm a passagem para esse trem?

A vida nos mostra que não é bem assim. Há quem ache sua alma gêmea na enésima tentativa – como veremos mais adiante – e há aqueles que, depois de uma existência solitária, se veem surpreendidos por um romance que os acompanhará até o fim.

Todos os dias, qualquer coisa pode acontecer.

Um dos artistas mais originais do rock alternativo, Daniel Johnston, defende essa fé na felicidade a dois na música “True Love Will Find You in the End”:

O verdadeiro amor o encontrará no final,
Você vai perceber quem era seu amigo.
Não fique triste, (...)
mas não desista até que
o verdadeiro amor o encontre no final.

Essa é uma promessa com uma armadilha:
você só o encontrará se procurá-lo,
porque o amor verdadeiro também está à sua procura.
Como você irá reconhecê-lo se não der um passo para a luz?
Não fique triste, (...)
mas não desista até que
o verdadeiro amor o encontre no final.

(Allan Percy - Shakespeare para enamorados)

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publicado às 23:32

 
No livro Cuentos para pensar (Contos para pensar), o escritor argentino Jorge Bucay narra a sua versão de uma história sobre os presentes dos amantes.
Inquieta é a cabeça que carrega uma coroa
 
Dois jovens eram namorados desde que ela tinha 13 anos e ele, 18. O casal vivia numa pequena comunidade de lenhadores na encosta de uma montanha. Ele, alto, esbelto e musculoso, era lenhador de nascença, por herança e por ofício. Ela, linda e de olhos claros, tinha cabelos louros compridos que chegavam até a cintura.

Quando ela completou 18 anos e ele, 23, todos os moradores uniram esforços para ajudá-los a se casar. Eles foram presenteados com uma parte da floresta e com uma cabana, onde passaram a viver depois de uma festa que durou cinco dias… E moraram lá durante um ano deleitando-se com a companhia um do outro.

Perto do primeiro aniversário de casamento, ela sentiu que deveria fazer algo para provar seu amor profundo ao marido e decidiu ir à cidade ver o que poderia encontrar.

Passando pela joalheria, viu uma bela corrente de ouro. Então lembrou que seu marido adorava apenas um objeto material: o relógio de ouro que o avô dera a ele antes de morrer. Desde garoto, ele o guardava em um estojo de pano, na mesinha de cabeceira ao lado da cama. Toda noite, o pegava, lustrava-o e ficava escutando seu tique-taque por um longo tempo, como quem escuta a voz de um ente querido.

“Esta corrente de ouro seria um presente maravilhoso para usar com o relógio”, pensou, e entrou para perguntar quanto custava.

A angústia a dominou. Era muito mais cara do que ela havia imaginado. Dessa forma, teria que esperar três aniversários para poder comprá-la. Saiu triste da joalheria, se perguntando o que poderia fazer para conseguir o dinheiro.

Ao passar pelo salão de beleza, ela viu um cartaz que dizia: COMPRA-SE CABELO NATURAL.

Ela acariciou seus longos cabelos louros, que não cortava desde os 10 anos, e não hesitou em entrar para perguntar. O dinheiro que lhe ofereceriam se cortasse o cabelo bem curtinho seria o suficiente para comprar a corrente de ouro para o relógio. Não tinha que pensar duas vezes…

No dia do aniversário, os dois apaixonados se abraçaram antes de ele ir trabalhar.

No momento em que o marido desapareceu no caminho que subia o morro, ela desceu para a cidade. Foi ao cabeleireiro e cortou o cabelo bem curto. Em seguida, depois de pegar o dinheiro, dirigiu-se emocionada à joalheria. Lá, comprou a corrente de ouro e uma caixa de madeira, onde colocou o presente, enquanto imaginava a cara dele ao recebê-la.

Ao voltar à cabana, cozinhou a comida preferida do marido e esperou o anoitecer, momento em que ele costumava retornar. Ao contrário dos outros dias, nos quais iluminava a casa quando ele chegava, apagou as luzes, deixando apenas duas velas acesas, e cobriu a cabeça com um lenço florido, porque ele também amava o cabelo da esposa e ela não queria que se desse conta de que o havia cortado.

Haveria tempo depois para explicar que um pequeno sacrifício não era nada quando feito pela pessoa amada…

Logo que o avistou, ela foi se perfumar.

Eles se abraçaram, se beijaram e disseram o quanto se amavam e o quão felizes estavam por viverem juntos. Então ela pegou embaixo da mesa a caixa de madeira que continha a corrente de ouro para o relógio, ao passo que o marido ia até o guarda-roupa, onde havia escondido um presente quando ela não estava.

Enquanto ele abria a caixa, ela rasgou ansiosa o pacote e encontrou dois enormes e caríssimos adornos de cabelo que ele havia comprado… vendendo o relógio de ouro do avô.

(Allan Percy - Shakespeare para enamorados)
 

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publicado às 23:04


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