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Milagres, existem?

por Thynus, em 15.11.17
 .
Só há duas maneiras de viver a vida: a primeira é vivê-la como se os milagres não existissem. A segunda é vivê-la como se tudo fosse milagre.
 
É possível amar e não ser feliz, é possível ser feliz e não amar, mas amar e simultaneamente ser feliz, isso seria milagre.
Honoré de Balzac  
 

Milagres, existem? 
Claro que sim. Você os vê todos os dias e a toda hora, basta observar a natureza e perceber que em tudo o milagre da vida está presente. 
Vejamos o desabrochar de uma flor. Embora vocês possam querer dar a isso uma explicação científica, ou qualquer outra explicação, eu diria que é o milagre acontecendo na natureza, graças ao próprio milagre da criação do mundo, dos seres vivos, do universo. 
Milagres estão sempre acontecendo. 
(...) Observem a natureza: tudo que é vivo e tem energia renasce. E tudo é energia que flui. Energia não se perde, se transforma. Se nós somos energia, por que não acreditar que somos eternos, só nos transformamos, nos renovamos, evoluímos? 

( Ilana Skitnevsky - Viver, morrer e o depois...)

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publicado às 17:24


FCPorto X Belenenses

por Thynus, em 04.11.17


 



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publicado às 22:46


FCPorto X Leipzig

por Thynus, em 03.11.17

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publicado às 16:23


“O gol é o orgasmo do futebol”

por Thynus, em 29.10.17
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Nada pode despertar mais vergonha do que colocar letras minúsculas em quem as embelezou com maiúsculas. A temeridade é aceita porque, diante do rubor inevitável, é mais importante desfrutar pela enésima vez do melhor poeta futebolístico. Entre muitas outras coisas, isso era Eduardo Galeano (Montevidéu, 1940-13 de abril de 2015), autor dos gols orgásmicos mais líricos, rapsódia “desses cara-sujas que cometem o disparate de driblar (...) pelo puro gozo do corpo que se lança à proibida aventura da liberdade”. Também foi adorador do deus redondo, o futebol, “a única religião que não tem ateus”. Seus fiéis são “torcedores no manicômio” cuja camisa é “a segunda pele” e a única unanimidade é o árbitro, “a quem todos odeiam”.
Como suas pernas de pau não o obedeciam salvo em sonhos, jogou o futebol com a palavra. Com ela, como mendigo do bom futebol, suplicava “por uma linda jogadinha, pelo amor de Deus”, o que chegava a neutralizar sua paixão pelo Nacional e pela Celeste. Até deixou de se importar com as cores daqueles jogadores que lhe ofereciam a alegria “do jogo bem jogado” e, toda vez que começava uma Copa do Mundo, ele e sua companheira Helena colavam na porta de casa o seguinte cartaz: “Fechado por motivo de futebol”. Era seu estádio, “porque não há nada menos vazio que um estádio vazio” e ele se submetia à ditadura da “telecracia”. Ali, como nos campos ao vivo, desfrutava do ídolo, fácil de identificar porque “a bola o procura, o reconhece e necessita dele”. Também se compadecia do jogador no ocaso, “a quem a fama, senhora fugaz, não lhe deixava nem uma carinha de consolo” em seu retiro.
Não sofria só pelo jogador, o ídolo caído. Tinha sentimentos conflitantes com a “orgulhosa e vaidosa bola”. A menina, carícia verbal dos brasileiros, tinha motivos para a petulância: “Bem sabe ela que dá alegria a muitas almas quando se eleva com graça, e que são muitas as almas que se encolhem quando ela cai de qualquer jeito”.
Nessa “triste viagem do prazer ao dever” feita pelo futebol, o gol era um pesadelo, sinal dos tempos modernos. “O gol é o orgasmo do futebol e, assim como o orgasmo, é cada vez menos frequente na vida moderna.” Grande culpa tinham os goleiros, “desmancha-prazeres do gol que bem poderiam ser chamados de mártires, paganinis, penitentes ou palhaços das bofetadas”. Como Zamora, “pânico dos zagueiros”, porque se olhavam para ele “o gol se encolhia e as traves se afastavam até perderem-se de vista”. E Yashin, “braços de aranha e mãos de tenaz”.
Para alívio orgásmico aí estavam os grandes zagueiros, os que faziam do gol um dó de peito. O brasileiro Friedenreich, filho de um alemão e uma lavadeira negra, gênio do Sulamericano de 1919, “que fez mais gols que Pelé” e mudou a geometria de todo um país: “Desde Friedenreich, o futebol brasileiro que é deveras brasileiro não tem ângulos retos, como também não têm as montanhas do Rio nem os edifícios de Niemeyer”. Sem esquecer seu compatriota Leônidas, “a quem na Copa de 34 contaram-lhe seis pernas e disseram que era coisa de magia negra”.
Os primeiros totens brasileiros foram sucedidos por um rei, Pelé: “Quando ia correndo passava através dos rivais, como uma faca. Quando parava, os rivais se perdiam nos labirintos que suas pernas desenhavam. Quando pulava, subia no ar como se o ar fosse uma escada. Quando batia um tiro livre, os rivais que formavam a barreira queriam ficar ao contrário, de cara para a meta, para não perder o golaço”. Com Pelé foi convocado para a seleção alguém que driblava como “um Chaplin em câmera lenta que morreu de sua morte: pobre, bêbado e sozinho”. Tinha o apelido de um passarinho feioso e inútil: Garrincha.
Ao entronizado Pelé só Di Stéfano discutia sua majestade, pois “todo o campo de jogo cabia em seus sapatos”. A Flecha jogou no Real Madrid com Kopa, “um francês chamado de Napoleão do futebol, porque era baixinho e conquistador de territórios”. E pela margem esquerda do histórico Madrid voava Gento, “um foragido que tinha sua prisão pedida por todas as equipes rivais, a quem às vezes conseguiam prender em cadeias de segurança máxima, mas sempre se safava”. O Madrid, primeiro colonizador da Copa da Europa, era exigido, e muito, pelo poderoso Benfica, que por esses paradoxos do futebol era liderado por Ninguém. Tinha nascido “destinado a lustrar sapatos, vender amendoim ou roubar os distraídos”. Era Eusébio, “um africano de Moçambique o melhor jogador da história de Portugal”.
Também não há dúvida de quem foi o melhor jogador da Holanda. Cruyff foi “um maestro e músico de fila, provocante, trabalhador e talentoso”. O caminho do gênio cor-de-laranja foi cruzado pelo Torpedo Müller, um depredador “disfarçado de vovozinha” para o qual “a rede era a renda do vestido de noiva de uma garota irresistível”. Nos anos oitenta apareceu Platini, que fazia “gols de ilusionista desses que não podem ser verdade”. O mesmo acontecia com o brasileiro Zico, “que metia gols que os cegos queriam que lhes contassem”.
Romário era um personagem de desenho animado, “que ensaiava na favela de sua infância os muitos autógrafos que ia assinar no futuro”. Um futebolista “que subiu à fama sem pagar os impostos da mentira obrigatória: se deu ao luxo de fazer sempre o que queria”. Um enigma este Romário, de pernas arqueadas e traseiro baixo. E nesse jogo nunca lhe faltaram segredos. Como o de Baggio. “Seu futebol tem mistério: as pernas pensam por conta própria, o pé dispara sozinho, os olhos veem os gols antes de ocorrerem”.
E para gigantes futebolísticos de corpos recortados, Maradona e Messi. O cabeludo, “no frígido futebol do fim do século XX, que exige ganhar e proíbe gozar, é dos poucos que demonstra que a fantasia pode ser eficaz”. Ocorre que o Diego “jogou, venceu, mijou e perdeu”. A história de Messi nos dedos de Galeano teve de esperar. Teria merecido uma edição inteira de Sua Majestade o Futebol (1968), mas o escritor uruguaio encerrou sua segunda grande partida literária em 1995. E o fez assim: “Escrevendo ia fazer com as mãos o que nunca ia ser capaz de fazer com os pés, eu não tinha outro remédio além de pedir para as palavras o que a bola, tão desejada, me tinha negado. Desse desafio, e dessa necessidade de expiação, nasceu este livro (...) Não sei se é o que quis ser, mas chegou a sua última página. E eu fico com essa melancolia irremediável que todos sentimos depois do amor e no fim da partida”. Chamou-se Futebol ao Sol e à Sombra. Um incunábulo, gols em verso.
Um ficou de fora. Messi, o último grande assombro para o maior trovador do futebol. Galeano, em uma entrevista ao jornal La Nación, defendeu sua tese da messiologia: “Inventei uma teoria, que fiz chegar até ele pelo diretor técnico da seleção: assim como Maradona tinha a bola amarrada no pé, Messi tem a bola dentro do pé. O que é um fenômeno físico. Inverossímil. A frase chegou até ele. E pelo jeito gostou, porque me mandou uma camisa de presente. Cientificamente é impossível, mas é verdade!”.
Palavra de quem aprendeu com Juan Carlos Onetti que as “únicas palavras que merecem existir são as que melhoram o silêncio”. Uma pena que o futebol não tenha guardado isso, um minuto de silêncio por seu melhor menestrel, um poeta único da bola impressa.
E, perdão, mestre, ter emprestado suas palavras.

(José Sámano, el País)
o orgasmo, é cada vez menos frequente na vida moderna. Não é difícil imaginar, pois, a surpresa que terá sentido ao ver o prazer com que Aboubakar marcou e celebrou no Bessa.

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publicado às 07:15


E assim foi mais um dérbi do Porto

por Thynus, em 28.10.17
 



 



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publicado às 22:49


Pensar mal é tornar mau

por Thynus, em 26.10.17
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Santo Agostinho e o problema do Mal
 
— As paixões tornam-se más e pérfidas quando são consideradas más e pérfidas. Desse modo, o cristianismo conseguiu transformar Eros e Afrodite — grandes poderes passíveis de idealização — em espíritos e gênios infernais, mediante os tormentos que fez surgir na consciência dos crentes quando há excitação sexual. Não é algo terrível transformar sensações regulares e necessárias em fonte de miséria interior, e assim pretender tornar a miséria interior, em cada pessoa, algo regular e necessário? E isso permanece uma miséria escondida e, portanto, de raízes mais profundas: pois nem todos têm a coragem de Shakespeare, ao admitir seu ensombrecimento cristão nesse ponto, como faz nos sonetos. — Então é preciso considerar mau o que deve ser combatido, conservado em certos limites ou, em algumas circunstâncias, banido por completo da mente? Não é próprio de almas vulgares imaginar sempre mau um inimigo? E pode-se chamar Eros de inimigo? As sensações sexuais têm em comum, com aquelas compassivas e veneradoras, que nelas uma pessoa faz bem a outra mediante o seu prazer — tais arranjos benevolentes não se acham com freqüência na natureza! E denegrir justamente um deles e estragá-lo com a má consciência! Irmanar a procriação dos seres humanos à má consciência! — Por fim, essa demonização de Eros teve um desfecho de comédia: o “demônio” Eros veio a tornar-se mais interessante, para as pessoas, do que todos os anjos e santos, graças ao murmúrio e sigilo da Igreja nas coisas eróticas: seu efeito, até em nossa época, foi tornar a história de amor o único verdadeiro interesse comum a todos os círculos — num exagero incompreensível para a Antigüidade, e que um dia dará lugar à risada. Toda a produção de nossos poetas e pensadores, da maior à mais insignificante, é mais que caracterizada pela excessiva importância da história de amor, que nela surge como história principal: por conta disso, talvez a posteridade julgue que em toda a herança da cultura cristã há algo mesquinho e maluco.

(Friedrich Nietzsche - Aurora, livro I,76)

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publicado às 20:10

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Significação da loucura na história da humanidade
 
— Se, apesar da terrível pressão da “moralidade do costume”, sob a qual viveram todas as comunidades humanas, por muitos milênios antes de nosso calendário, e também, no conjunto, até o dia de hoje (nós habitamos o pequenino mundo das exceções e, por assim dizer, sua zona ruim): — se apesar disso, afirmo, sempre irromperam idéias, valorações, instintos novos e divergentes, isso ocorreu em horripilante companhia: em quase toda parte, é a loucura que abre alas para a nova idéia, que quebra o encanto de um uso e uma superstição venerados. Compreendem por que tinha de ser a loucura? Algo que fosse, em voz e gestos, assustador e imprevisível como os demoníacos humores do tempo e do mar e, portanto, digno de semelhante temor e observação? Algo que ostentasse tão visivelmente o signo da completa involuntariedade como os tremores e a baba de um epiléptico, que parecesse distinguir o louco como máscara e porta-voz de uma divindade? Algo que infundisse, no portador de uma nova idéia, não mais remorsos, mas reverência e temor ante si mesmo, levando-o a tornar-se profeta e mártir dessa idéia? — Enquanto hoje sempre nos dão a entender que ao gênio não foi dado um grão de sal, mas o tempero da loucura, todos os homens de outrora tendiam a crer que onde houver loucura haverá também um grão de gênio e de sabedoria — algo “divino”, como sussurravam. Ou melhor: como exprimiam vigorosamente. “Através da loucura chegaram à Grécia os maiores bens”, disse Platão,8 juntamente com todos os antigos. Avancemos mais um passo: todos os homens superiores, que eram irresistivelmente levados a romper o jugo de uma moralidade e instaurar novas leis, não tiveram alternativa, caso não fossem realmente loucos, senão tornar-se ou fazer-se de loucos — e isto vale para os inovadores em todos os campos, não apenas no da instituição sacerdotal e política: — até mesmo o inovador do metro poético teve de credenciar-se pela loucura.9 (Inclusive em épocas mais brandas continuou associada aos poetas uma certa convenção de loucura: à qual recorreu Sólon, por exemplo, quando incitou os atenienses à reconquista de Salamina.)10 — “Como tornar-se louco, não o sendo e não ousando parecer que o é?”, a este medonho raciocínio se entregaram quase todos os homens de peso da civilização antiga; uma sigilosa doutrina de artifícios e indicações dietéticas propagou-se quanto a isso, junto com o sentimento da inocência e mesmo da santidade de tal reflexão e propósito. As receitas para tornar-se um curandeiro entre os índios, um santo entre os cristãos da Idade Média, um angekok entre os nativos da Groenlândia, um pajé entre os brasileiros, são essencialmente as mesmas: jejum absurdo, prolongada abstenção sexual, ir para o deserto ou subir a uma montanha ou um pilar, ou “pôr-se num velho salgueiro com vista para um lago” e não pensar em nada que não produza arrebatamento e confusão espiritual. Quem ousa lançar um olhar ao deserto das mais amargas e supérfluas aflições da alma, em que provavelmente languesceram os homens mais fecundos de todos os tempos! Ouvir aqueles suspiros dos solitários e transtornados: “Oh, dêem-me loucura, seres celestiais! Loucura, para que eu finalmente creia em mim mesmo! Dêem-me delírios e convulsões, luzes e trevas repentinas, apavorem-me com ardores e calafrios que nenhum mortal até agora sentiu, com fragores e formas errantes, façam-me urrar e gemer e rastejar como um bicho: mas que eu tenha fé em mim mesmo! A dúvida me devora, eu assassinei a lei, a lei me assusta como um cadáver a uma pessoa viva: se eu não for mais do que a lei, serei o mais abjeto dos homens. O novo espírito que está em mim, de onde vem ele, se não de vocês? Provem-me que sou seu; somente a loucura me provará isso”. E com muita freqüência este fervor atingiu muito bem seu objetivo: no tempo em que o cristianismo provou mais fartamente a sua fecundidade em santos e anacoretas, acreditando assim provar a si mesmo, havia imensos manicômios para santos fracassados em Jerusalém, para aqueles que nisso haviam gasto seu último grão de sal.

(Friedrich Nietzsche - Aurora, livro I,14)
 
NOTAS:
8 - Cfr. Fedro 244a
9 - Cfr. Paltão, Íon 533d-534e
10 -  Cfr. Plutarco, Sólon 8
Da loucura à alienação

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publicado às 15:54


Como confeccionar um #ovoescalfado

por Thynus, em 26.10.17
 
Casal mistério
Jamie Oliver está para a culinária assim como Angela Merkel está para a Europa: quando ele fala, nós limitamo-nos a ouvir e obedecer.
(Bem, isto deveria ser um elogio, se calhar a metáfora não foi muito feliz...)
De qualquer forma, percebe a ideia, não é? Jamie Oliver é um deus da cozinha e é por isso que estou há duas horas e 43 minutos de boca aberta com esta sua dica que, como todas as boas dicas, tem tanto de evidente como de eficaz. O conselho é para fazer um delicioso ovo escalfado, redondo e perfeitinho de uma forma fácil e rápida.
O grande problema do ovo escalfado é mantê-lo com um aspecto minimamente decente. Há quem aconselhe a pôr vinagre na água, a fazer um remoinho ou a segurar o ovo dentro de uma concha de sopa durante a cozedura. Eu devo confessar a minha total incapacidade e falta de jeito: mesmo com todos estes conselhos ao mesmo tempo, nunca consigo ficar com um ovo escalfado que não pareça o Monstro do Loch Ness.
Mas agora, como diria João Pinto, o saudoso jogador do Futebol Clube do Porto, a minha vida vai dar uma volta de 360 graus. Tudo o que precisa de fazer é seguir estes seis passos:


  1. Pegue em duas folhas de película aderente;
  2. Coloque-as abertas a forrar uma taça pequena;
  3. Despeje um pouco de azeite por cima delas;
  4. Ponha o ovo lá dentro;
  5. Feche a película com um nó;
  6. E mergulhe tudo na água a ferver.

Quando a clara ficar branca, tire a película da água, retire o ovo lá de dentro e já está. Mais uma enorme vantagem desta técnica imbatível: se quiser temperar o ovo com algum ingrediente especial – ervas, molho de soja, etc. – só tem de colocar o tempero dentro da película aderente.
O ovo fica delicioso e perfeitinho. Tem dúvidas? Então veja aqui passo a passo.
 

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publicado às 12:20


O que é a vida boa?

por Thynus, em 25.10.17

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Hedonismo: O prazer acima de tudo?


Na linguagem corrente, a noção de hedonismo designa uma inclinação amoral para uma vida voltada para o prazer, até mesmo para o vício. Certamente a noção é inexata: Epicuro, o primeiro grande teórico do prazer, entendeu a vida feliz de um modo extremamente cético: sente prazer aquele que não sofre. É o sofrimento, portanto, que é a noção fundamental do hedonismo: somos felizes na medida em que sabemos afastar o sofrimento; e como os prazeres trazem muitas vezes mais infelicidade do que felicidade, Epicuro não recomenda senão os prazeres modestos e prudentes.

A sabedoria epicurista tem um fundo melancólico: atirado a miséria do mundo, o homem constata que o único valor evidente e seguro é o prazer mesmo pequeno, que ele próprio pode sentir: um gole de água fresca, um olhar para o céu (para as janelas de Deus), uma carícia.

Modestos ou não, os prazeres só pertencem aquele que os experimenta, e um filósofo, com toda razão, poderia criticar no hedonismo seu fundamento egoísta. Entretanto, na minha opinião, não é o egoísmo que é o calcanhar de Aquiles do hedonismo, mas seu caráter (ah, tomara que eu esteja enganado!) desesperadamente utópico: na verdade, duvido que o ideal hedonista possa se realizar; receio que a vida que ele nos recomenda não seja compatível com a natureza humana.

O século XVIII, com sua arte, fez com que os prazeres saíssem da bruma das interdições morais; fez nascer a atitude que chamamos de libertina e que emana dos quadros de Fragonard, de Watteau, das páginas de Sade, de Crebillon filho e de Duclos. É por isso que o meu jovem amigo Vincent adora esse século e, se pudesse, usaria como distintivo na lapela de seu casaco o perfil do marquês de Sade. Compartilho de sua admiração mas acrescento (sem ser porém ouvido) que a verdadeira grandeza dessa arte não reside numa propaganda qualquer do hedonismo mas em sua análise.

É essa a razão pela qual considero As ligações perigosas de Choderlos de Laclos um dos maiores romances de todos os tempos.

Seus personagens não se ocupam senão da conquista do prazer. No entanto, pouco a pouco, o leitor compreende que é menos o prazer e mais a conquista que os tenta.

Que não é o desejo de prazer mas o desejo de vitória que conduz a dança. Que aquilo que aparece primeiro como um jogo alegre e obsceno se transforma imperceptível e inevitavelmente numa luta de vida e de morte. Mas o que tem em comum a luta com o hedonismo? Epicuro escreveu: 'O homem sábio não procura nenhuma atividade ligada a luta.'

A forma epistolar das Ligações perigosas não é um simples procedimento técnico que poderia ser substituído por outro. Essa forma é eloquente em si mesma e nos diz que tudo aquilo que os personagens viveram foi vivido para ser contado, transmitido, comunicado, confessado, escrito. Num mundo em que tudo se conta, a arma ao mesmo tempo mais facilmente acessível e a mais mortal é a divulgação. Valmont, o herói do romance, envia a mulher que ele seduziu uma carta de ruptura que a destruirá. Ora, foi sua amiga, a marquesa de Merteuil, quem a ditou, palavra por palavra. Mais tarde, essa mesma Merteuil, por vingança, mostra uma carta confidencial de Valmont a seu rival; este irá provocá-lo para um duelo e Valmont morrerá. Depois de sua morte, a correspondência íntima entre ele e Merteuil será divulgada e a marquesa acabará sua vida desprezada, perseguida e banida.

Nada nesse romance é segredo exclusivo de dois seres; todo o mundo parece estar dentro de uma imensa concha sonora em que cada palavra sussurrada ressoa, ampliada, em ecos múltiplos e intermináveis. Quando eu era pequeno, diziam-me que colocando uma concha na orelha ouviria o eterno murmúrio do mar. É assim que, no mundo de Laclos, cada palavra continua audível para sempre. Será isso o século XVIII?

Será isso o paraíso do prazer? Ou será que o homem, sem se dar conta, sempre viveu numa dessas conchas ressonantes? Em todo caso, uma concha ressonante não é o mundo de Epicuro, que ordena a seus discípulos: 'Viverás escondido!

 

(Milan Kundera - A Lentidão)

 

 

Os dias são iguais para todos. Cabe a nós decidirmos se vamos torná-los especiais.

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publicado às 14:40


Sem querer, qurendo

por Thynus, em 25.10.17
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Ame com doçura
 
Sentimos vontade de passar a tarde e a noite num castelo. Muitos deles, na França, foram transformados em hotéis: um quadrado verde perdido numa extensão de feiura desprovida de verde; uma pequena extensão de aleias, de árvores, de pássaros no meio de uma imensa rede de estradas. Estou dirigindo e, pelo retrovisor, observo um carro atrás de mim. A pequena luz a esquerda pisca e o carro todo emite ondas de impaciência. O motorista espera a oportunidade de me ultrapassar; espera esse momento como uma ave de rapina espreita um pássaro.
Vera, minha mulher, me diz: — A cada cinquenta minutos, morre um homem nas estradas da França. Repare bem nesses loucos em volta de nós. São exatamente os mesmos que se comportam com uma prudência extraordinária quando uma senhora de idade é assaltada diante deles na rua. Como podem não ter medo quando estão dirigindo?
O que responder? Talvez isso: o homem curvado em sua motocicleta só pode se concentrar naquele exato momento de seu voo; agarra-se a um fragmento retirado tanto do passado quanto do futuro; é arrancado da continuidade do tempo; está fora do tempo; em outras palavras, está num estado de êxtase; em tal estado, não sabe nada de sua idade, nada de sua mulher, nada de seus filhos, nada de suas preocupações e, portanto, não tem medo, pois a fonte do medo está no futuro e quem se liberta do futuro nada tem a temer.
A velocidade e a forma de êxtase que a revolução técnica deu de presente ao homem. Ao contrário do motociclista, quem corre a pé está sempre presente em seu corpo, forçado a pensar sempre em suas bolhas, em seu fôlego; quando corre, sente seu peso, sua idade, consciente mais do que nunca de si mesmo e do tempo de sua vida.
Tudo muda quando o homem delega a uma máquina a faculdade de ser veloz: a partir de então, seu próprio corpo fica fora do jogo e ele se entrega a uma velocidade que é incorpórea, imaterial, velocidade pura, velocidade em si mesma, velocidade êxtase.
Curiosa aliança: a fria impessoalidade da técnica e as chamas do êxtase.
Lembro-me daquela americana que, há trinta anos, com expressão severa e entusiasmada, uma espécie de apparatchik do erotismo, me deu uma aula (glacialmente teórica) sobre a liberação sexual; a palavra que surgia com maior frequência em seu discurso era a palavra orgasmo; eu contei: quarenta e três vezes. Oculto do orgasmo: o utilitarismo puritano projetado na vida sexual; a eficácia em contraposição ' ociosidade; o coito reduzido a um obstáculo que é preciso ultrapassar o mais rápido possível para chegar a uma explosão extática, único objetivo verdadeiro do amor e do universo.
Por que o prazer da lentidão desapareceu? Ah, para onde foram aqueles que antigamente gostavam de flanar? Onde estão eles, aqueles heróis preguiçosos das canções populares, aqueles vagabundos que vagavam de moinho em moinho e dormiam sob as estrelas?
Será que desapareceram junto com as veredas campestres, os prados e as clareiras, com a natureza? Um provérbio tcheco define a doce ociosidade deles com uma metáfora: eles estão contemplando as janelas de Deus. Aquele que contempla as janelas de Deus não se aborrece; é feliz. Em nosso mundo, a ociosidade transformou-se em desocupação, o que é uma coisa inteiramente diferente; o desocupado fica frustrado, se aborrece, está constantemente a procura do movimento que lhe falta.
Olho pelo retrovisor: ainda é o mesmo carro, que não pode me ultrapassar por causa do trânsito no sentido contrário. Ao lado do motorista está sentada uma mulher; por que será que o homem não lhe conta alguma coisa engraçada? Por que não põe a mão no joelho dela? Em vez disso, amaldiçoa o motorista que, diante dele, não anda rápido o bastante, e a mulher também não pensa em tocá-lo com sua mão, dirige mentalmente com ele e também me amaldiçoa. E penso naquela outra viagem de Paris para um castelo no campo que aconteceu há mais de duzentos anos, a viagem de Madame de T. e do jovem cavalheiro que a acompanhava.
É a primeira vez que estão tão perto um do outro, e a indizível atmosfera de sensualidade que os cerca nasce justamente da lentidão da cadência: balançados pelo movimento da carruagem, os dois corpos se tocam, primeiro sem querer, depois querendo, e a história começa.
 
(Milan Kundera - A Lentidão)

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publicado às 13:17


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