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Sobre a psicologia do artista.

por Thynus, em 14.12.17
.Então, o artista é quase que um pecador, porque ele se mistura com Deus e quer, da mesma forma que Deus, criar novos mundos. E se não houvesse esses artistas criando novos mundos, Deus, que só fez um, nos obrigaria a viver nesse já insuportável (há séculos insuportável). E se não fossem os artistas, nós não teríamos o nascimento de sempre novos mundos.

 
"Sou um discípulo do filósofo Dionísio, preferiria antes ser um sátiro a ser um santo” – Nietzsche, Ecce Homo, pr.§2
 
 — Para haver arte, para haver alguma atividade e contemplação estética, é indispensável uma precondição fisiológica: a embriaguez. A suscetibilidade de toda a máquina tem de ser primeiramente intensificada pela embriaguez: antes não se chega a nenhuma arte. Todos os tipos de embriaguez têm força para isso, por mais diversamente ocasionados que sejam; sobretudo a embriaguez da excitação sexual, a mais antiga e primordial forma de embriaguez. Assim também a embriaguez que sucede todos os grandes desejos, todos os afetos poderosos; a embriaguez da festa, da competição, do ato de bravura, da vitória, de todo movimento extremo; a embriaguez da crueldade; a embriaguez na destruição; a embriaguez sob certos influxos meteorológicos, por exemplo, a embriaguez primaveril; ou sob a influência de narcóticos; a embriaguez da vontade, por fim, de uma vontade carregada e avolumada. — O essencial na embriaguez é o sentimento de acréscimo da energia e de plenitude. A partir desse sentimento o indivíduo dá [?] às coisas, força-as a tomar de nós,86 violenta-as — este processo se chama idealizar. Livremo-nos aqui de um preconceito: idealizar não consiste, como ordinariamente se crê, em subtrair ou descontar o pequeno, o secundário. Decisivo é, isto sim, ressaltar enormemente os traços principais, de modo que os outros desapareçam.
 
 
9.
 
Nesse estado, enriquecemos todas as coisas com nossa própria plenitude: o que enxergamos, o que queremos, enxergamos avolumado, comprimido, forte, sobrecarregado de energia. Nesse estado, o ser humano transforma as coisas até espelharem seu poder — até serem reflexos de sua perfeição. Esse ter de transformar no que é perfeito é — arte. Mesmo tudo o que ele não é se torna para ele, no entanto, prazer em si; na arte, o ser humano frui a si mesmo enquanto perfeição. — Seria lícito imaginar um estado oposto, uma específica natureza antiartística do instinto87 — um modo de ser que empobrecesse, diluísse, debilitasse todas as coisas. E, de fato, a história é pródiga em antiartistas assim, em tais famintos da vida: que necessariamente têm de tomar as coisas, consumi-las, fazê-las mais magras. Este é, por exemplo, o caso do genuíno cristão, de Pascal, por exemplo: um cristão que, ao mesmo tempo, fosse artista não existe... Que ninguém seja pueril e mencione Rafael ou algum cristão homeopático do século xix: Rafael dizia Sim, Rafael fazia Sim; portanto, Rafael não era um cristão...88
 
 
10.
 
Que significam os conceitos opostos que introduzi na estética, apolíneo e dionisíaco, os dois entendidos como espécies de embriaguez? — A embriaguez apolínea mantém sobretudo o olhar excitado, de modo que ele adquire a força da visão. O pintor, o escultor, o poeta épico são visionários par excellence. Já no estado dionisíaco, todo o sistema afetivo é excitado e intensificado: de modo que ele descarrega de uma vez todos os seus meios de expressão e, ao mesmo tempo, põe para fora a força de representação, imitação, transfiguração, transformação, toda espécie de mímica e atuação. O essencial continua a ser a facilidade da metamorfose, a incapacidade de não reagir (de forma semelhante a determinados histéricos, que também a qualquer sinal adotam qualquer papel). Para o homem dionisíaco é impossível não entender alguma sugestão, ele não ignora nenhum indício de afeto, possui o instinto para compreensão e adivinhação no grau mais elevado. Ele entra em toda pele, em todo afeto: transforma-se continuamente. — A música, tal como a entendemos hoje, é igualmente uma excitação e descarga geral dos afetos, mas, ainda assim, apenas o vestígio de um mundo de expressão afetiva bem mais pleno, um mero residuum do histrionismo dionisíaco. Para tornar possível a música como arte distinta, foi imobilizado um certo número de sentidos, sobretudo a sensibilidade muscular (ao menos relativamente: pois, num determinado grau, todo ritmo ainda diz algo a nossos músculos): de modo que o homem já não imita e representa com o corpo tudo o que sente. No entanto, esse é o estado dionisíaco normal, o estado original, de toda forma; a música é a especificação dele, lentamente alcançada às expensas das faculdades que lhe são mais afins.
 
 
11.
 
O ator, o mímico, o dançarino, o músico, o poeta lírico são basicamente aparentados em seus instintos e essencialmente um, mas aos poucos se especializaram e separaram um do outro — até chegar à oposição mútua. O poeta lírico ficou unido ao músico por mais tempo; o ator, com o dançarino. — O arquiteto não representa nem um estado dionisíaco, nem um apolíneo: aí é o grande ato de vontade, a vontade que move montanhas,89 a embriaguez da grande vontade que exige tornar-se arte. Os indivíduos mais poderosos sempre inspiraram os arquitetos; o arquiteto sempre esteve sob a sugestão do poder. Na construção devem tornar-se visíveis o orgulho, o triunfo sobre a gravidade, a vontade de poder; arquitetura é uma espécie de eloqüência do poder em formas, ora persuadindo, até mesmo lisonjeando, ora simplesmente ordenando. O mais alto sentimento de poder e segurança adquire expressão naquilo que tem grande estilo. O poder que já não tem necessidade de demonstração; que desdenha agradar; que dificilmente responde; que não sente testemunha ao seu redor; que vive sem consciência de que há oposição a ele; que repousa em si mesmo, fatalista, como uma lei entre as leis: isso fala de si na forma do grande estilo.
 
 (Friedrich Nietzsche - Crepúsculo dos Ídolos)
 
NOTAS
 86. “A partir desse sentimento o indivíduo dá [?] às coisas, força-as a tomar de nós”: Aus diesem Gefühle gibt man an die Dinge ab, man zwingt sie, von uns zu nehmen — na primeira oração não é explicitado o que se dá às coisas a partir do sentimento de embriaguez; ela é assim traduzida nas outras versões: “Em virtude deste sentimento, o homem entrega-se às coisas”; “A partir deste sentimento nos entregamos às coisas”; De este sentimiento hacemos partícipes las cosas; Di questo sentimento si fanno partecipi le cose; Sous lempire de ce sentiment on sabandonne aux choses; Out of this feeling one lends to things; From out of this feeling one gives to things; On the strength of this feeling we give to things.
 87. “uma específica natureza antiartística do instinto”: ein spezifisches Antikünstlertum des Instinkts — nas versões consultadas: “uma peculiar disposição antiartística do instinto”, “um específico movimento antiartístico dos instintos”, un antiartisticismo específico del instinto, una specifica anti-artisticità dellistinto, un état specifique des instincts antiartistiques, a specific anti-artistry by instinct, a specific anti-artisticality of instinct, a specific anti-artistry of the instinct.
88. Rafael (1483-1520): pintor e arquiteto italiano, um dos gênios do Renascimento.
89. “a vontade que move montanhas”: paródia de são Paulo, Epístola aos coríntios i, 13, 2.

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publicado às 01:32


A VIAGEM ATÉ NÓS MESMOS

por Thynus, em 13.12.17

 
Quantos homens sabem observar?
E, desses poucos que sabem, quantos observam a si próprios? “Cada pessoa é o ser mais distante de si mesmo”
 
A VIAGEM ATÉ NÓS MESMOS 
é sempre a mais longa e tortuosa, pois implica dar muitas voltas para encontrar algo que estava tão perto que éramos incapazes de ver.
Não é por acaso que, das três perguntas existenciais clássicas – Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? –, a da identidade venha em primeiro lugar, pois aquele que não sabe quem é dificilmente terá consciência do que deixou para trás ou do destino que tem diante de si.
Tentamos responder à pergunta “Quem somos?” falando sobre nossa profissão e o cargo que ocupamos, mostrando o carro que dirigimos ou mesmo dizendo qual religião professamos, mas esses elementos estão à margem da verdadeira essência de uma pessoa.
Assim como nossos sonhos nos definem, nossa identidade é a sensibilidade que nos distingue dos demais companheiros humanos, é nossa contribuição única para o mundo, nossa missão pessoal.
 Encontrar essa missão pode ser o trabalho de toda uma vida, mas apenas o fato de buscá-la já nos permite saber aonde vamos.

 (Allan Percy - Nietzsche para estressados)

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publicado às 00:42

 

O PRESENTE É 

um estado tão difícil de ser alcançado que a afirmação de Nietzsche não deveria nos chocar se analisássemos bem o que ele está dizendo. Ninguém duvida de que o passado tem influência no que somos, pois, juntamente com nossa herança genética, constituímos o produto de nosso caminhar pelo mundo.
No entanto, o futuro também nos molda, pois, tendo o passado nas costas, construímos o dia a dia de acordo com os objetivos que estabelecemos para nós mesmos. O ideal seria fazer com que o futuro não esteja muito distante de nossos atos – pois isso nos levaria ao terreno da eterna fantasia – e cuidar para que o passado não seja uma carga demasiado pesada.
Viver no passado às vezes pode se transformar em uma doença, que apresenta dois sintomas mais evidentes:
Melancolia recorrente. A evocação de bons momentos do passado pode ser uma fonte de prazer, mas, quando se torna um hábito, acabamos nos privando do presente, que deveria ser a fonte de nossas lembranças futuras.
Rancor. Manter abertas as feridas do passado impede que elas cicatrizem e não nos permite desfrutar o que acontece aqui e agora. Além disso, o tempo tende a deformar o acontecido e, às vezes, um episódio insignificante pode ganhar falsa importância.
 
(Allan Percy - Nietzsche para estressados) 
A roda da fortuna

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publicado às 22:58


Na Terra como no céu

por Thynus, em 10.12.17
 
 
Há quanto tempo vêm as estrelas 
A desvanecer-se 
A luz a enfraquecer...
VANSEN (748-834, China)
 
 
Para a formação da Terra eles disseram 'Terra'.
Ela surgiu de repente, como uma nuvem, como uma bruma, a formar-se, a desabrochar [...]
PN'OL VUH: The Muyun Bnok
 
 
Nada vive eternamente, tanto no céu como na Terra. Até as estrelas envelhecem, definham e morrem. Houve uma vez um tempo antes de o Sol e a Terra existirem, um tempo antes de haver dia ou noite, antes, muito antes, de existir alguém para registrar o início para os que viessem depois.
Mesmo assim, imagine o leitor que foi testemunha desse tempo.
Uma vasta massa de gás e poeira está rapidamente a desfazer-se sob seu próprio peso, a rodopiar cada vez mais depressa, a transformar-se, uma nuvem turbulenta e caótica, naquilo que parece ser um disco delgado, nítido e regular. Exatamente no seu centro arde sem chama um fogo rubro e lânguido. Observe lá do alto, por cima do disco, durante 100 milhões de anos e verá a massa central tornar-se mais branca e mais brilhante, até que, após algumas tentativas abortadas e incompletas, explode num clarão, um fogo termonuclear sufocado. Nasceu o Sol. Fielmente, ele brilhará durante os 5 bilhões de anos seguintes — até a matéria dentro do disco ter evoluído para seres capazes de reconstituírem as particularidades da sua origem e da deles próprios. Somente as regiões mais interiores do disco são iluminadas, pois, mais para fora, a luz do Sol não consegue chegar. Mergulhe nos recessos da nuvem para observar as maravilhas que aí se operam. E descobrirá um milhão de pequenos mundos rodopiando em redor do grande fogo central. Aqui e além uns milhares deles, grandes, muitos a girar perto do Sol, mas outros a grandes distâncias, estão destinados a encontrar-se, a fundir-se, a transformar-se na Terra. O disco rodopiante do qual se formam os mundos aglutinou-se a partir da matéria esparsa que salpica uma vasta região do vaco interestelar dentro da galáxia da Via Láctea. Os átomos e partículas que o formam são destroços da evolução galáctica — aqui, um átomo de oxigênio produzido a partir do hélio no inferno incandescente de alguma estrela gigante vermelha há muito extinta; além, um átomo de carbono expelido da atmosfera de uma estrela rica em carbono nalgum sector galáctico muito diferente; agora temos um átomo de ferro que ficou livre para participar na formação do mundo através da poderosa explosão de uma supernova no passado ainda mais distante. 5 bilhões de anos após os acontecimentos que descrevemos, estes mesmos átomos talvez circulem na sua corrente sanguínea.
É aqui, no disco escuro, palpitante e fracamente iluminado, que começa a nossa história: não só a história tal como se passou, mas também um grande número de outras versões que poderiam ter existido se as coisas se tivessem passado de forma um nadinha diferente; a história do nosso mundo e da nossa espécie, mas também a história de muitos outros mundos e formas de vida destinados a nunca existirem. O disco está cheio de murmúrios de futuros possíveis.
Durante a maior parte da sua vida, as estrelas brilham pela transmutação de hidrogênio em hélio. Isto acontece a pressões e temperaturas enormes no seu interior. Há 10 milhões de anos, ou mais, que as estrelas vão nascendo na galáxia da Via Láctea — dentro de grandes nuvens de gás e poeira. Rapidamente se perde quando toda a placenta de gás e poeira que em tempos envolveu e alimentou uma estrela, é devorada pela sua inquilina, ou novamente expelida para o espaço interestelar. Quando,são um pouco mais velhas — mas estamos ainda a falar da infância das estrelas — consegue distinguir-se um disco maciço de gás e poeira com as faixas interiores a girar rapidamente em círculo à volta da estrela e as exteriores movendo-se de forma mais lenta e majestosa. Detectam-se discos idênticos em redor de estrelas que mal saíram da adolescência, mas, neste caso, apenas como leves resquícios do que foram — são, principalmente, poeiras, quase já nenhum gás, e cada grão de poeira é um planeta em miniatura orbitando à volta da estrela central. Nalguns deles conseguimos avistar bandas escuras, isentas de poeiras. Talvez metade das estrelas do céu, mais ou menos tão maciças como o Sol, possuam esses discos. As estrelas mais velhas já não os têm, ou, pelo menos, algo que possamos vislumbrar. O nosso próprio sistema solar retém, até hoje, uma faixa de poeira, muito difusa, em órbita à volta do Sol, chamada nuvem zodiacal, uma reprodução esfiapada do enorme disco do qual nasceram os planetas.
A história que estas observações nos contam é a seguinte: as estrelas formaram-se em grupo a partir de enormes nuvens de gás e poeira. Um bloco de matéria densa atrai o gás e a poeira adjacentes, torna-se maior e mais denso, pode mais eficazmente apropriar-se de mais matéria e lança-se abertamente no processo que o transformará numa estrela.
Quando as temperaturas e pressões dentro dele se tornam demasiado elevadas, os átomos de hidrogênio — de longe o material mais abundante no universo — comprimem-se uns contra os outros e iniciam-se as reações termonucleares. Se isto sucede numa escala suficientemente grande, a estrela acende-se e a escuridão circundante é expulsa. A matéria transforma-se em luz.
A nuvem desfeita começa a girar, achata-se sob a forma de um disco e os grumos de matéria agregam-se — sucessivamente do tamanho de partículas de fumo, grãos de areia, rochas, penedos, montanhas e asteroides.
O crescimento continua mediante a absorção gravitacional dos detritos pelos objetos maiores. As faixas isentas de poeira constituem as zonas de alimentação dos jovens planetas. Mal a estrela central começa a brilhar, liberta também baforadas de hidrogênio que devolvem partículas ao vazio. Talvez algum outro sistema de mundos, destinado a aparecer milhões e milhões de anos mais tarde nalguma região distante da Via Láctea, confira alguma utilidade a esses blocos de construção rejeitados.
Nos discos de gás e poeira que rodeiam muitas estrelas próximas veem-se, digamos, os viveiros nos quais se vão acumulando e fundindo mundos longínquos e exóticos. Por toda a nossa galáxia existem nuvens interestelares imensas, irregulares, encrespadas e escuras como breu, que se desfazem sob a sua própria gravidade e geram estrelas e planetas.
Acontece cerca de uma vez por mês. No universo observável — contendo algo como 100 bilhões de galáxias —, talvez se forme uma centena de sistemas solares em cada segundo. Nessa profusão de mundos, muitos serão áridos e desertos. Outros podem ser luxuriantes e férteis, nos quais seres perfeitamente adaptados às diversas circunstâncias ambientais se desenvolvem, atingem a maturidade e tentam reconstituir os seus primórdios. O universo é incalculavelmente pródigo.
Agora que a poeira assentou e o disco se adelgaça já é possível descortinar o que se passa lá em baixo. Girando em volta do Sol, vê-se um grande número de asteroides, todos em órbitas levemente diferentes.
Pacientemente, continue a observar. Passam-se várias eras. Com tantos corpos a moverem-se assim tão rapidamente, a colisão de mundos é apenas uma questão de tempo. Se observar mais de perto, poderá ver as colisões que ocorrem em quase toda a parte. O sistema solar nasce no meio de uma violência quase inimaginável. Por vezes a colisão é rápida e frontal e de uma explosão devastadora, ainda que silenciosa, nada mais resta do que cacos e fragmentos. Noutras — quando dois asteroides estão em órbitas e velocidades quase idênticas — as colisões são mais como cotoveladas, toques suaves, os corpos ficam unidos, surgindo então um asteroide duplo, maior.
Passada uma ou duas eras, apercebe-se de que vários corpos muito maiores estão a desenvolver-se — mundos que, por sorte, escaparam a uma colisão desintegradora nos primeiros e mais vulneráveis tempos da sua existência. Esses corpos — cada um deles instalado na sua própria zona de alimentação — vão avançando por entre os asteroides mais pequenos e devoram-nos. Cresceram de tal maneira que a sua gravidade lhes limou as irregularidades; estes mundos maiores são esferas quase perfeitas. Quando se aproxima de um corpo mais maciço, ainda que não o bastante para com ele colidir, um asteroide dá uma guinada, a sua órbita altera-se. Na nova trajetória pode vir a embater noutro corpo qualquer, talvez até a desfazê-lo em mil pedaços, a sofrer uma morte pelo fogo ao precipitar-se no interior do jovem sol que consome a matéria que o rodeia ou a ser gravitacionalmente ejectado para a gélida escuridão interestelar.
Poucos são os que se encontram em órbitas tranquilas, sem serem devorados, pulverizados, fritos ou exilados. Esses continuam a crescer.
Acima de uma certa massa, os mundos maiores atraem não só a poeira, mas também grandes fluxos de gás interplanetário. Veja como se desenvolvem; finalmente, cada um está com uma vasta atmosfera de hidrogênio e hélio, a qual envolve um núcleo de rocha e metal. Passam a ser os quatro planetas gigantes: Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno. Verá surgirem então os traços caraterísticos da nuvem envolvente. Colisões de cometas com as luas daqueles planetas cinzelam anéis elegantes, enfeitados, iridescentes e efémeros. Os pedaços de um mundo que explodiu voltam a juntar-se, dando origem a uma nova lua amolgada, esquisita, feita de retalhos. Diante dos seus olhos, um corpo com as dimensões da Terra raspa a superfície de Úrano, fazendo-o tombar para um dos lados, pelo
que de imediato cada um deles alinha os respetivos polos com o longínquo Sol.
Mais para o interior, onde o disco de gás entretanto se dissipou, alguns desses mundos estão a transformar-se em planetas, como a Terra, uma outra categoria de sobreviventes nesta roleta russa gravitacional de aniquilamento de mundos. A acumulação final dos planetas interiores não leva mais de 100 milhões de anos, mais ou menos o equivalente, comparando a existência do sistema solar com a duração média da vida de um ser humano, aos primeiros nove meses. Sobrevive uma zona em forma de donut (rosca) com milhões de planetoides rochosos, metálicos e orgânicos: a cintura de asteroides. Biliões de pequenos corpos celestes gelados, os cometas, mergulhados na escuridão além do planeta mais distante, descrevem lentamente as suas órbitas à volta do Sol.
Estão agora formados os principais astros do sistema solar. A luz do Sol jorra através de um espaço interplanetário transparente e quase isento de poeiras, aquecendo e iluminando os mundos. Estes continuam a correr e a querenar em volta do Sol. Mas observe mais de perto ainda e verá que estão a operar-se outras mudanças.
Recorde-se de que nenhum destes mundos tem querer; nenhum pretende estar numa determinada órbita. Aqueles, porém, que se encontram em órbitas circulares, bem-comportadas, tendem a crescer e a prosperar, ao passo que os que estão em órbitas vertiginosas, rebeldes, excêntricas ou imprudentemente inclinadas tendem a ser afastados. Com o passar do tempo, a confusão e o caos do primitivo sistema solar amainam lentamente, dando lugar a um conjunto de trajetórias firmemente mais ordenadas, simples, regularmente espaçadas e, aos nossos olhos, de uma beleza cada vez maior. Certos corpos celestes são selecionados para sobreviverem, outros para serem destruídos ou exilados. Esta seleção de mundos ocorre através da aplicação de algumas leis do movimento e da gravidade extremamente simples. Não obstante a política de boa vizinhança dos mundos bem-comportados, pode ver-se, de vez em quando, um asteroide nitidamente azougado em rota de colisão. Nem mesmo um astro com a órbita circular mais circunspecta tem qualquer garantia de que não será totalmente aniquilado. Para continuar a sobreviver, um mundo como a Terra tem também de continuar a ter sorte.
É surpreendente o papel que algo muito parecido com a sorte tem em tudo isto. Não é possível saber de antemão qual o asteroide que será despedaçado ou expulso e qual o que, em segurança, atingirá a maturidade como planeta. Existem tantos objetos num conjunto tão complexo de interações mútuas que é muito difícil dizer — olhando apenas para a configuração inicial, de gás e poeira, ou até mesmo de os planetas se terem mormente formado — qual virá a ser a distribuição final dos mundos. Talvez algum outro observador suficientemente avançado possa descobri-lo e predizer o seu futuro — ou até pô-lo em marcha para que, milhares de milhões de anos mais tarde, através de alguma sequência de processos complexa e sutil, surja, lentamente, um desfecho desejado.
Mas isso ainda não é para os seres humanos.
Começamos por uma nuvem caótica e irregular de gás e poeira aos tombos e contrações na noite interestelar e acabamos por ficar com um sistema solar elegante e precioso como uma joia, com uma luz brilhante, com os planetas ordenadamente espaçados, tudo certinho como um relógio.
Os planetas mantêm-se separados, já o percebemos, pois os que não o fizerem acabam por morrer.
É fácil entender o motivo por que alguns dos físicos da Antiguidade que penetraram pela primeira vez na realidade das órbitas coplaneares e sem se interceptarem dos planetas julgaram ver nisso a ação de um criador.
Eram incapazes de conceber qualquer outra hipótese alternativa que explicasse uma precisão e um ordenamento tão grandiosos. Mas, à luz dos conhecimentos atuais, não existe aqui qualquer sinal de orientação divina, nada, pelo menos, fora da física e da química. Vemos, pelo contrário, as provas de um tempo de violência implacável e constante no qual foram, de longe, muito mais os mundos destruídos do que os preservados.
Atualmente sabemos como é que a delicada precisão que o sistema solar agora exibe foi extraída do desordenamento de uma nuvem interestelar rodopiante por leis da Natureza que podemos entender — movimento, gravitação, dinâmica dos fluidos e química física. A aplicação contínua de um processo seletivo irracional pode converter o caos em ordem.
A nossa Terra nasceu nessas circunstâncias há cerca de 4,5 ou 4,6 mil milhões de anos, um pequeno mundo de rocha e metal, o terceiro a contar do Sol. Não devemos, porém, imaginá-la a emergir placidamente para a luz do Sol vinda das suas catastróficas origens. Não houve um só momento em que as colisões de pequenos mundos com a Terra cessassem por completo; ainda hoje objetos celestes embatem na Terra ou é a Terra que os atinge. O nosso planeta exibe cicatrizes inconfundíveis de colisões recentes com asteroides e cometas. Só que a Terra possui mecanismos que enchem ou cobrem essas feridas — cursos de água, correntes de lava, formações montanhosas, tectônica de placas. As crateras mais antigas já desapareceram. A Lua, porém, não usa maquilhagem. Quando olhamos para lá, ou para as Terras Altas do Sul, em Marte, ou ainda para as luas dos planetas exteriores, encontramos uma miríade de crateras resultantes de impactos, empilhadas umas sobre as outras, como um registro de catástrofes de eras passadas. Dado que nós, humanos, devolvemos à Terra pedaços da Lua e determinamos a sua antiguidade, é agora possível reconstituir a cronologia da caraterização e entrever o espetáculocolisional que em tempos deu forma ao sistema solar. Não se tratou apenas de pequenos impactos ocasionais, mas sim de colisões maciças,estonteantes e apocalípticas — é a inevitável conclusão que se tira do registro preservado nas superfícies de mundos próximos.
Agora, na meia-idade do Sol, já esta parte do sistema solar se libertou de quase todos os pequenos corpos celestes azougados. Existe uma mão-cheia de pequenos asteroides que se aproximam da Terra, mas a hipótese de os maiores virem a atingir o nosso planeta é pequena. Alguns cometas visitam esta parte do sistema solar, vindos da sua distante terra natal.
É lá que, ocasionalmente, são empurrados de raspão por alguma estrela de passagem ou nuvem interestelar maciça e próxima — e uma chuva de asteroides gelados precipita-se no interior do sistema solar. Hoje em dia, porém, os grandes cometas atingem a Terra muito raramente.
Dentro em pouco reduziremos o nosso campo visual a um único mundo, a Terra. Vamos examinar a evolução da sua atmosfera, superfície e interior, e as etapas que conduziram à vida, aos animais e a nós. O nosso campo de observação estreitar-se-á então progressivamente e será fácil imaginarmo-nos isolados do cosmos — um mundo autossuficiente a tratar da sua vida. Mas, de fato, a história e o destino do nosso planeta e dos seres que nele vivem têm sido profunda e crucialmente influenciados ao longo de toda a história da Terra, e não apenas na altura das suas origens, pelo que existe lá fora. Os nossos oceanos, o nosso clima, os 'tijolos' da vida, a mutação biológica, as extinções em massa das espécies, o ritmo e o andamento da evolução da vida, nada disso pode ser entendido seimaginarmos a Terra hermeticamente isolada do resto do universo, apenas com uma pequena claridade que goteja do exterior.
A matéria que compõe o nosso mundo unificou-se nos céus. Enormes quantidades de matéria orgânica caíram para a Terra, ou foram produzidas pela luz solar, montando o palco para o aparecimento da vida. Uma vez iniciada, a vida sofreu mutações e adaptou-se a um ambiente variável, em parte sob a influência da radiação e colisões do exterior. Atualmente, quase toda a vida na Terra escoa energia colhida da estrela mais próxima. O exterior e o interior não são compartimentos separados.
Com efeito, cada átomo que está cá dentro já esteve em tempos lá fora5.
Nem todos os nossos antepassados estabeleceram a mesma distinção nítida que nós fazemos entre a Terra e o céu. Alguns reconheceram aligação. Os avós dos deuses do Olimpo, consequentemente antepassados dos humanos, foram, na mitologia dos Gregos antigos, Uranus, deus docéu, e a sua esposa Gaia, deusa da Terra. As antigas religiões da Mesopotâmia tinham a mesma crença. No Egito dinástico inverteu-se o sexoaos deuses: Mit era a deusa do céu e Geb o deus da Terra. Os deuses principais do Konyak Nagas, na fronteira himalaia da Índia, chamam-seatualmente Gawang, 'Terra-céu', e Zangban, 'Céu-Terra'. Os Maias Quiché (do que é agora o México e a Guatemala) chamavam universo de Cahuleu, ou seja, literalmente, 'Céu-Terra'.
É aí que nós vivemos. É daí que viemos. O céu e a Terra são um todo inseparável.
 
 
(CARL SAGAN e ANN DRUYAN - SOMBRAS DE ANTEPASSADOS ESQUECIDOS)

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publicado às 16:54

Por mais que surjam embusteiros melhoradores do mundo e prometedores de salvação ou de paraísos ideais, sempre estaremos condenados ao limite de sermos humanos. O super-homem ao qual se refere o grande pensador alemão Friedrich Nietzsche não é aquele super-herói salvador, mas o homem que vive a vida na vida e não recorre a neuroses metafísicas para justificar suas ações.


E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.
E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra.
Quando ouviram isto, redargüidos da consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficou só Jesus e a mulher que estava no meio.
E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?
E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais.

(João 8, 7-11)

 

 

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Jesus e a mulher adúltera

 

Na verdade, após o meu encontro pecaminoso com a moça, os outros terríveis acontecimentos tinham-me quase feito esquecer aquele fato, e por outro lado, logo depois de ter-me confessado com frei Guilherme, o meu ânimo ficou desagravado do remorso que sentira ao despertar, após minha culposa fraqueza, tanto que me parecera ter confiado ao frade, com as palavras, o próprio fardo de que elas eram a voz significativa. Para qual outra coisa serve com efeito o benéfico banho da confissão, senão para descarregar o peso do pecado, e do remorso que comporta, no próprio seio de Nosso Senhor, obtendo com o perdão uma nova leveza aérea da alma, de modo a esquecer o corpo torturado pela maldade? Mas não me libertara completamente. Agora que passeava ao sol pálido e frio daquela manhã invernal, circundado pelo fervor dos homens e dos animais, começava a recordar os acontecimentos passados de modo diferente. Como se de tudo o que acontecera não sobrassem mais o arrependimento e as palavras consoladoras do banho penitencial, mas apenas imagens de corpos e membros humanos. Vinha-me à cabeça superexcitada o fantasma de Berengário inchado de água, e ficava arrepiado de repugnância e de piedade. Depois, como para afastar aquele lêmure, a minha mente se revolvia a outras imagens de que a memória era recente receptáculo, e não podia evitar de ser, evidente aos meus olhos (aos olhos da alma, mas quase como se aparecesse antes aos olhos carnais), a imagem da moça, bela e terrível como exército disposto para batalha.

Prometi a mim mesmo (velho amanuense de um texto nunca escrito antes de agora, mas que durante longos decênios falou em minha mente) ser cronista fiel, e não só por amor à verdade, nem pelo desejo aliás digníssimo de amestrar os meus leitores futuros; mas também para libertar a minha memória sem viço e cansada de visões que a inquietaram durante a vida inteira. E assim mesmo devo dizer tudo, com decência mas sem vergonha. E devo dizer, agora, em letras redondas, o que pensei então e quase tentei esconder de mim mesmo, passeando pela esplanada, pondo-me às vezes a correr para poder atribuir ao movimento do corpo as batidas repentinas do meu coração, detendo-me para admirar o trabalho dos aldeões e iludindo-me que me distraía na sua contemplação, aspirando o ar frio a plenos pulmões, como faz quem bebe vinho para esquecer o temor ou a dor.

Em vão. Eu pensava na moça. A minha carne esquecera o prazer, intenso, pecaminoso e passageiro (coisa vil) que me tinha dado o conjugar-me com ela; mas minha alma não esquecera o seu rosto, e não conseguia ver perversidade nessa recordação, antes palpitava como se naquele rosto resplandecessem todas as doçuras da criação.

Percebia, de modo confuso e quase negando a mim mesmo a verdade do que sentia, que a pobre, conspurcada, impudente criatura que se vendia (quiçá com que insolente constância) a outros pecadores, aquela filha de Eva que, demasiado fraca como todas suas irmãs, fizera tantas vezes comércio da própria carne, era todavia algo de esplêndido e mirífico. O meu intelecto a sabia fonte de pecado, o meu apetite sensitivo a percebia como receptáculo de todas as graças. É difícil dizer o que eu estava experimentando. Poderia tentar escrever que, ainda preso nas tramas do pecado, desejava, culpadamente, vê-la aparecer a todo instante, e quase espiava o trabalho dos operários para observar se, do canto de uma cabana, do escuro de um curral, não apareceria aquela figura que me seduzira. Mas não estaria escrevendo a verdade, ou seja, estaria tentando pôr um véu na verdade para atenuar-lhe a força e a evidência. Porque a verdade é que eu “via” a moça, eu a via nos ramos da árvore desfolhada que palpitavam ligeiramente quando um pássaro enrijecido voava à procura de abrigo; eu a via nos olhos das novilhas que saíam do curral, e a ouvia nos balidos dos cordeiros que cruzavam o meu passeio. Era como se toda a criação me falasse dela, e desejava, sim, muito, revê-la, mas estava pronto no entanto a aceitar a idéia de não revê-la nunca mais, e de não me conjugar nunca mais a ela, contanto que pudesse gozar o gáudio que me percorria aquela manhã, e tê-la sempre perto, mesmo se estivesse, e para a eternidade, distante. Era, tento agora entender, como se todo o universo mundo, que claramente é como que um livro escrito pelo dedo de Deus, em que cada coisa nos fala da imensa bondade do seu criador, em que cada criatura é como escritura e espelho da vida e da morte, em que a mais humilde rosa se faz glosa de nosso caminho terreno, tudo em suma, de outra coisa não falava a não ser do rosto que a custo entrevira nas sombras odorosas da cozinha. Tendia a essas fantasias porque me dizia a mim mesmo (ou melhor, não dizia, porque naquele momento não formulava pensamentos em palavras) que se o mundo inteiro é destinado a falar-me da potência, bondade, e sabedoria do criador, se aquela manhã o mundo inteiro me falava da moça que (pecadora que fosse) era porém sempre um capítulo do grande livro da criação, um versículo do grande salmo cantado pelo cosmo — dizia-me (agora digo), que se isso acontecia não podia não fazer parte do grande desígnio teofânico que rege o universo, disposto em modo de cítara, milagre de consonância e de harmonia. Quase inebriado, gozava então da sua presença nas coisas que via, e através delas desejava-a, satisfazendo-me à vista delas. E, no entanto, sentia uma dor, porque ao mesmo tempo sofria por uma ausência, mesmo sendo feliz com tantos fantasmas de uma presença. É difícil para mim explicar esse mistério de contradição, sinal que o ânimo humano é demasiado frágil e nunca segue diretamente pelas veredas da razão divina, que construiu o mundo como um perfeito silogismo, porém desse silogismo colhe apenas proposições isoladas e freqüentemente desconexas, de onde a nossa facilidade em cair vítima das ilusões do maligno. Era ilusão do maligno o que naquela manhã me deixava assim comovido? Penso hoje que sim, porque era noviço, mas penso que o sentimento humano que me agitava não era mau em si, mas apenas em relação ao meu estado. Porque de per si era o sentimento que move o homem em direção à mulher para que um se conjugue com a outra, como quer o apóstolo das gentes, e ambos sejam carne de uma só carne, e juntos procriem novos seres humanos e se assistam mutuamente da juventude à velhice. Só que o apóstolo assim falou aos que buscam o remédio para a concupiscência e a quem não queira queimar, lembrando porém que bem mais preferível é o estado de castidade, ao qual eu, monge, me consagrara. E por isso eu padecia naquela manhã do que para mim era mal, mas que para outros talvez fosse bem, e bem dulcíssimo, pelo que compreendo agora que a minha perturbação não era devida à maldade de meus pensamentos, dignos e suaves em si, mas à gravidade da relação entre meus pensamentos e os votos que pronunciara. E portanto fazia mal em gozar de uma coisa boa sob uma certa razão, má sob outra, e o meu defeito estava em tentar conciliar com o apetite natural os ditames da alma racional. Agora sei que estava sofrendo do contraste entre o apetite ilícito intelectivo, onde deveria se manifestar o império da vontade, e o apetite elícito sensitivo, sujeito das paixões humanas. De fato actus appetitus sensitivi in quantum habent transmutationem corporalem annexam, passiones dicuntur, non autem actus voluntatis. E o meu ato apetitivo era justamente acompanhado de um tremor do corpo inteiro, de um impulso físico para gritar e para me agitar. O angélico doutor diz que as paixões em si não são más, mas que devem ser moderadas pela vontade guiada pela alma racional. Mas a minha alma racional estava naquela manhã adormecida pelo cansaço, o qual punha freio no apetite irascível, que se volta para o bem e para o mal enquanto termos de conquista, mas não no apetite concupiscível, que se volta para o bem e para o mal enquanto conhecidos. Para justificar a minha irresponsável leviandade de então direi, hoje, e com palavras do doutor angélico, que estava indubitavelmente tomado de amor, que é paixão e lei cósmica, porque mesmo a gravidade dos corpos é amor natural. E por essa paixão fora naturalmente seduzido, porque nessa paixão appetitus tendit in appetibile realiter consequendum ut sit ibi finis motus. Pelo que naturalmente amor facit quod ipsae res quae amantur, amanti aliquo modo uniantur et amor est magis cognitivus quam cognitio. De fato, agora eu via melhor a moça do que a tinha visto na noite anterior, e a entendia intus et in cute, porque nela entendia a mim e em mim ela própria. Pergunto-me agora se aquilo que estava provando era o amor de amizade, em que o semelhante ama o semelhante e quer apenas o bem do outro, ou amor de concupiscência, em que se quer o próprio bem e o carente quer apenas aquilo que o completa. E creio que o amor de concupiscência tinha sido o da noite, no qual queria da moça algo que nunca tivera, enquanto naquela manhã da moça eu não queria nada, e queria apenas o seu bem, e desejava que ela fosse retirada da cruel necessidade que a obrigava a se dar por um bocado de comida, e fosse feliz, nem queria eu pedir-lhe mais nada, mas apenas continuar a pensá-la e a vê-la nas ovelhas, nos bois, nas árvores, na luz serena que envolvia de gáudio a muralha da abadia. Agora sei que a causa do amor é o bem e aquilo que é bem se define por conhecimento, e não se pode amar a não ser aquilo que se aprendeu como bem, enquanto a moça eu a aprendera, sim, como bem do apetite irascível, mas como mal da vontade. Mas então estava presa de muitos e muitos contrastantes impulsos da alma porque o que eu provava era semelhante ao amor mais santo, justamente como o descrevem os doutores: ele provocava-me o êxtase, em que amante e amado querem a mesma coisa (e por misteriosa iluminação eu naquele momento sabia que a moça, em qualquer lugar que estivesse, queria as mesmas coisas que eu próprio queria), e por ela eu tinha ciúme, mas não aquele mal, condenado por Paulo na primeira aos coríntios, que é principium contentionis, e não admite consortium in amato, mas aquele de que fala Dionísio nos Nomes Divinos, em que mesmo Deus é dito ciumento propter multum amorem quem habet ad existentia (e eu amava a moça justamente porque ela existia, e estava contente, não invejoso, que ela existisse). Era ciumento no modo em que para o angélico doutor o ciúme é motus in amatum, ciúme de amizade que induz a mover-se contra tudo aquilo que prejudica o amado (e eu outra coisa não fantasiava naquele instante, senão libertar a moça do poder de quem lhe estava comprando as carnes, conspurcando-a com as suas paixões nefastas).

Agora sei, como diz o doutor, que amor pode prejudicar o amante quando é excessivo. O meu era excessivo. Tentei explicar o que experimentava então, não tento por nada justificar o que experimentava. Falo dos que foram os meus culpáveis ardores da juventude. Eram maus, mas a verdade me obriga a dizer que então os percebi como extremamente bons. E isto sirva para instruir quem, como eu, cair nas malhas da tentação. Hoje, ancião, saberia mil modos de escapar a tais seduções (e me pergunto se deva sentir-me orgulhoso disso, uma vez que estou livre das tentações do demônio meridiano; mas não livre de outras, tanto que me pergunto se o que estou fazendo agora não é culpável aquiescência à paixão terrestre da rememoração, tola tentativa de escapar ao fluxo do tempo e à morte).

Então, salvei-me como por instinto milagroso. A moça me aparecia na natureza e nas obras humanas que me circundavam. Procurei por isso, por um feliz intuito da alma, mergulhar na livre contemplação dessas obras. Observei o trabalho dos vaqueiros que estavam conduzindo os bois para fora do estábulo, dos porqueiros que levavam comida aos porcos, dos pastores que instigavam os cães a reunirem as ovelhas, dos camponeses que traziam farro e milho miúdo aos moinhos e dali saíam com sacos de boa comida. Mergulhei na contemplação da natureza, procurando esquecer os meus pensamentos e procurando apenas enxergar os seres como eles nos aparecem, e esquecer-me da visão deles, alacremente.

Como era belo o espetáculo da natureza não tocada ainda pela sabedoria, freqüentemente perversa, do homem!

Vi o cordeiro, a quem foi dado esse nome como em reconhecimento de sua pureza e bondade. Na verdade o nome agnus deriva do fato de que esse animal agnoscit, reconhece a própria mãe e reconhece a sua voz em meio ao rebanho enquanto a mãe, no meio de muitos cordeiros de forma idêntica e de idêntico balido, reconhece sempre e somente o seu filho, e o alimenta. Vi a ovelha, que ovis é dita ab oblatione, porque servia desde os primeiros tempos aos rituais de sacrifício; a ovelha que, como é seu costume, no decorrer do inverno, procura a erva com avidez e se enche de forragem antes que os pastos sejam queimados pelo gelo. E os rebanhos eram vigiados pelos cães, assim chamados de canor por causa do seu latido. Animal perfeito entre os demais, com superiores dotes de argúcia, o cão reconhece o próprio dono, e é adestrado para a caça às feras no bosque, para a guarda dos rebanhos contra os lobos, protege a casa e os pequenos do seu patrão, e às vezes, em tal função de defesa, é morto. O rei Garamante, que fora capturado por seus inimigos, fora reconduzido à pátria por uma matilha de duzentos cães que atravessaram as fileiras adversárias; o cão de Jasão Lício, após a morte do dono, continua a recusar comida até morrer de inanição; o do rei Lisímaco jogou-se na fogueira do próprio patrão para morrer com ele. O cão tem o poder de curar as feridas lambendo-as com a língua e a língua de seus filhotes pode curar as lesões intestinais. Por natureza costuma utilizar a mesma comida duas vezes, após tê-la vomitado. Sobriedade, que é símbolo de perfeição de espírito, assim como o poder taumatúrgico de sua língua é símbolo da purificação dos pecados, obtida através da confissão e da penitência. Mas que o cão volte ao que vomitou é também sinal de que, após a confissão, retorna-se aos mesmos pecados de antes, e essa moralidade foi-me bastante útil naquela manhã para admoestar o meu coração, enquanto eu admirava as maravilhas da natureza.

Entretanto os meus passos levaram-me aos estábulos dos bois, que estavam saindo em quantidade, guiados por seus vaqueiros. Pareceram-me logo tal qual eram e são, símbolos de amizade e bondade, porque todo boi no trabalho vira-se para procurar seu companheiro de arado, se por acaso ele nesse momento está ausente, e para ele se dirige com afetuosos mugidos. Os bois aprendem obedientes a retornar sozinhos ao estábulo quando chove, e enquanto se abrigam na manjedoura esticam continuamente a cabeça para olhar se lá fora o mau tempo passou, porque ambicionam voltar ao trabalho. E com os bois estavam saindo naquele momento os vitelos que, machos e fêmeas, trazem o seu nome da palavra viriditas ou mesmo de virgo, porque nessa idade eles estão ainda frescos, jovens e castos, e fiz mal e fazia, eu me disse, em ver em seus movimentos graciosos uma imagem da moça não casta. Pensei nestas coisas, em paz novamente comigo e com o mundo, observando o alegre trabalho da hora matutina. E não pensei mais na moça, ou seja, esforcei-me por transformar o ardor que experimentava por ela numa sensação de alegria interior e de paz devota.

Disse a mim mesmo que o mundo era bom, e admirável. Que a bondade de Deus é manifestada também pelas bestas mais horrendas, como explica Honório Augustodunense. É verdade, há serpentes tão grandes que devoram os cervos e nadam pelo oceano, existe a besta cenocroca de corpo de asno, chifres de cabrito montês, peito e fauces de leão, pé de cavalo, mas bipartido como o de boi, um talho da boca que chega até às orelhas, a voz quase humana e, no lugar dos dentes, um único osso sólido. E existe a besta mantícora, de cara de gente, uma tripla fileira de dentes, o corpo de leão, a cauda de escorpião, os olhos glaucos, a cor de sangue e a voz semelhante ao sibilo da serpente, ávida de carne humana. E existem monstros com oito dedos em cada pé, e focinhos de lobo, unhas aduncas, pele de cordeiro e latido de cão, que, em vez de brancos, tornam-se pretos com a velhice, e excedem em muito a nossa idade. E existem criaturas com olhos nos ombros e dois furos no peito em lugar das narinas, porque falta-lhes a cabeça, e outras mais, que moram no rio Ganges, que vivem somente do cheiro de um certo pomo, e quando dele se afastam, morrem. Porém mesmo essas bestas imundas cantam em sua variedade os louvores do criador e a sua sabedoria, como o cão, o boi, a ovelha, o cordeiro e o lince. Como é grande, disse-me então, repetindo as palavras de Vicente de Beauvais, a mais humilde beleza deste mundo, e quão agradável é para o olho da razão o considerar atentamente não só os modos e os números e as ordens das coisas, tão decorosamente estabelecidas por todo o universo, mas também o desenrolar dos tempos que incessantemente se deslindam através de sucessões e quedas, marcados pela morte daquilo que nasceu. Confesso, pecador que sou, com a alma há pouco ainda prisioneira da carne, que fui movido então por uma doçura espiritual para com o criador e a regra do mundo, e admirei com alegre veneração a grandeza e a estabilidade da criação.

 

Nessa boa disposição de espírito encontrou-me meu mestre quando, arrastado por meus pés e sem me dar conta, completando quase o périplo da abadia, achei-me de novo onde nos havíamos deixado duas horas antes. Ali estava Guilherme e o que me disse distraiu-me de meus pensamentos e fez voltar de novo minha mente aos tenebrosos mistérios da abadia.

Guilherme parecia muito contente. Trazia na mão o fólio de Venâncio, que tinha decifrado finalmente. Fomos à sua cela, longe de ouvidos indiscretos, e ele traduziu-me o que lera. Depois da frase em alfabeto zodiacal (secretum finis Africae manus supra idolum age primum et septimum de quatuor), eis o que dizia o texto grego:

 

O veneno tremendo que dá a purificação...
A melhor arma para destruir o inimigo...
Usa as pessoas humildes, vis e feias, tira prazer do defeito delas...
Não devem morrer... Não nas casas dos nobres e dos poderosos, mas

nos vilarejos dos camponeses, após abundante pasto e libações...

Corpos atarracados, rostos disformes.

Estupram virgens, e deitam-se com meretrizes, não malvados, sem temor.
Uma verdade diferente, uma diferente imagem da verdade...
Os venerandos figos.
A pedra desavergonhada rola pela planície... Debaixo dos olhos.
É preciso enganar e surpreender enganando, dizer as coisas ao contrário

do que se acreditava, dizer uma coisa e entender outra.

Para eles as cigarras cantarão da terra.

 

Mais nada, a meu ver, muito pouco, quase nada. Pareciam os delírios de um demente, e disse-o a Guilherme.

“Pode ser. E parece sem dúvida mais demente do que é por causa da minha tradução. Conheço o grego demasiado aproximadamente. E mesmo assim, posto que Venâncio fosse louco, ou fosse louco o autor do livro, isso não nos diria por que tantas pessoas, e nem todas loucas, se deram ao trabalho, primeiro de esconder o livro e depois de recuperá-lo...”

“Mas o que está escrito aqui vem do livro misterioso?”

“Trata-se sem dúvida de coisas escritas por Venâncio. Podes vê-lo também tu, não se trata de um pergaminho antigo. E devem ser apontamentos tomados na leitura do livro, de outro modo Venâncio não teria escrito em grego. Ele certamente recopiou, abreviando, as frases que encontrou no volume roubado do finis Africae. Trouxe-o para o scriptorium e pôs-se a lê-lo, anotando o que lhe parecia digno de nota. Depois alguma coisa aconteceu. Ou sentiu-se mal, ou ouviu alguém subindo. Então recolocou o livro, com os apontamentos, embaixo de sua mesa, provavelmente pensando em retomá-lo na noite seguinte. Em todo caso, só partindo deste fólio é que podemos reconstruir a natureza do livro misterioso, é somente da natureza daquele livro que será possível inferir a natureza do homicida. Porque em todo crime cometido para possuir um objeto, a natureza do objeto deveria nos fornecer uma idéia, ainda que pálida, da natureza do assassino. Caso mate por um punhado de ouro, o assassino será pessoa ávida, se, por um livro, estará ansioso por guardar para si os segredos daquele livro. É preciso portanto saber o que diz o livro que nós não temos.”

“E tereis condições, com essas poucas linhas, de saber de que livro se trata?”

“Caro Adso, essas parecem palavras de um texto sagrado, cujo significado vai além da letra. Lendo-o de manhã, após termos falado com o celeireiro, tocou-me o fato de que também aqui se faz menção aos simples e aos camponeses, como portadores de uma verdade diferente daquela dos sábios. O celeireiro deu a entender que alguma estranha cumplicidade o ligava a Malaquias. Que Malaquias tivesse escondido algum perigoso texto heretical que Remigio lhe entregara? Então Venâncio teria lido e anotado alguma instrução misteriosa concernente a uma comunidade de homens grosseiros e vis em revolta contra tudo e contra todos. Mas...”

“Mas?”

“Mas dois fatos estão contra essa minha hipótese. O primeiro é que Venâncio não parecia interessado em tais questões: era um tradutor de textos gregos, não um pregador de heresias... O outro é que frases como aquela dos figos, da pedra ou das cigarras não seriam explicadas por essa primeira hipótese...”

“Quem sabe sejam enigmas com um outro significado”, sugeri. “Ou tendes outra hipótese?”

“Tenho, mas está confusa, ainda. Parece-me, lendo esta página, já ter lido algumas dessas palavras, e vêm-me à mente frases quase iguais que vi algures. Parece-me, antes, que este fólio fala de alguma coisa da qual já se falou nos dias passados... Mas não lembro o quê. Preciso pensar sobre isso. Quem sabe tenha que ler outros livros.”

“Como assim? Para saber o que diz um livro deveis ler outros?”

“Às vezes pode-se proceder assim. Freqüentemente os livros falam de outros livros. Freqüentemente um livro inócuo é como uma semente, que florescerá num livro perigoso, ou, ao contrário, é o fruto doce de uma raiz amarga. Não poderia, lendo Alberto, saber o que poderia ter dito Tomás? Ou lendo Tomás saber o que tinha dito Averroes?”

“É verdade”, disse admirado. Até então pensara que todo livro falasse das coisas, humanas ou divinas, que estão fora dos livros. Percebia agora que não raro os livros falam de livros, ou seja, é como se falassem entre si. À luz dessa reflexão, a biblioteca pareceu-me ainda mais inquietante. Era então o lugar de um longo e secular sussurro, de um diálogo imperceptível entre pergaminho e pergaminho, uma coisa viva, um receptáculo de forças não domáveis por uma mente humana, tesouro de segredos emanados de muitas mentes, e sobrevividos à morte daqueles que os produziram, ou os tinham utilizado.

“Mas então”, eu disse, “de que serve esconder os livros, se pelos livros acessíveis se pode chegar aos ocultos?”

“No decorrer dos séculos não serve para nada. No arco dos anos e dos dias serve para alguma coisa. Vê como nos encontramos de fato perdidos.”

“E então uma biblioteca não é um instrumento para divulgar a verdade, mas para retardar sua aparição?” perguntei estupefato.

“Não sempre e não necessariamente. Neste caso é.”

 

(Umberto Eco - O Nome da Rosa)

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publicado às 17:34

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Críticas à Filosofia Escolástica no Leviatã
 
Cícero faz uma honrosa menção de um dos Cássios, severo juiz dos romanos, por causa de um costume que tinha, nas causas criminais (quando o depoimento das testemunhas não era suficiente), de perguntar aos acusadores Cui bono, isto é, que lucro, honra ou outro proveito o acusado obtinha ou esperava pelo fato. Pois entre as conjeturas não há nenhuma que mostre com tanta evidência o autor do que o beneficio da ação. Pela mesma regra pretendo neste lugar examinar quem pode ser que tenha durante tanto tempo dominado o povo nesta parte da cristandade com estas doutrinas contrárias às pacíficas sociedades humanas. Em primeiro lugar, ao seguinte erro, que a atual Igreja agora militante sobre a terra é o reino de Deus (isto é, o reino de glória, ou terra da promissão, não o reino da graça que é apenas uma promessa da terra), estão ligados os benefícios terrenos que se seguem; primeiro, que os pastores e professores da Igreja estão habilitados, como ministros públicos de Deus, ao direito de governar a Igreja e consequentemente (porque a Igreja e o Estado são a mesma pessoa) a serem reitores e governantes do Estado. Por este título é que o Papa prevaleceu sobre os súditos de todos os príncipes cristãos, levando-os a acreditar que desobedecer-lhe era desobedecer ao próprio Cristo, e em todos os diferendos entre ele e outros príncipes (fascinados com a expressão poder espiritual) a abandonar seus legítimos soberanos, o que com efeito é uma monarquia universal sobre toda a cristandade. Pois muito embora tenham primeiro sido investidos no direito de serem os supremos mestres da doutrina cristãs pelos imperadores cristãos, dentro dos limites do império romano (como é reconhecido por eles próprios) com o titulo de Pontifex Maximus, que era um funcionário sujeito ao Estado civil, contudo, depois que o império foi dividido, não foi difícil introduzir junto do povo já a eles sujeito, um outro título, a saber, o direito de São Pedro, não apenas para conservar intacto seu pretenso poder, mas também para ampliá-lo sobre as mesmas províncias cristãs, embora estas não estivessem mais unidas no império de Roma. Este beneficio de uma monarquia universal (considerando o desejo dos homens de terem uma autoridade) constitui uma conjetura suficiente de que os Papas que a ela pretenderam e que durante muito tempo a desfrutaram, eram os autores da doutrina pela qual foi obtida, a saber, que a Igreja agora sobre a terra é o reino de Cristo. Pois aceite isto, tem de se aceitar que Cristo tenha um representante entre nós para dizernos quais são suas ordens. Depois que certas Igrejas renunciaram a este poder universal do Papa, seria razoável esperar que os soberanos civis em todas aquelas Igrejas recuperariam dele tanto quanto era seu próprio direito (antes de o terem deixado ir, embora inadvertidamente) e estava em suas próprias mãos. E na Inglaterra isso aconteceu efetivamente, exceto que aqueles através dos quais os reis administravam o governo da religião, sustentando que seu cargo era de direito divino, pareceram usurpar, se não uma supremacia pelo menos uma independência do poder civil, e pareciam usurpá-lo ao mesmo tempo que reconheciam no rei o direito de despojá-los a seu bel-prazer do exercício de suas funções.
Mas naqueles lugares em que o presbitério assumiu aquele cargo, embora muitas outras doutrinas da Igreja de Roma estivessem proibidas de serem ensinadas, contudo esta doutrina, de que o reino de Cristo já chegou e começou com a ressurreição de nosso Salvador continuou ainda a ser sustentada. Mas cui bono?
Que vantagem esperavam dela? A mesma que os Papas esperavam: ter poder soberano sobre o povo. Pois o que é para os homens excomungar seu legítimo soberano, senão afastá-lo de todos os lugares do serviço público de Deus em seu próprio reino? E com força para lhe resistir, quando ele pela força tenta corrigilos?
Ou o que é, sem autoridade do soberano civil, excomungar uma pessoa senão retirar-lhe sua legítima liberdade, isto é, usurpar um poder ilegítimo sobre seus irmãos? Portanto, os autores destas trevas na religião são o clero romano e o clero presbiteriano.
Neste ponto refiro também todas aquelas doutrinas que lhes servem para manter a posse desta soberania espiritual, depois que foi alcançada. Em primeiro lugar, aquela de que o Papa na capacidade pública não pode errar. Pois quem é que, acreditando ser isto verdade, não lhe obedecerá prontamente em tudo aquilo que lhe aprouver ordenar?
Em segundo lugar, que todos os outros bispos, seja em que Estado for, não recebem seu direito nem imediatamente de Deus, nem mediatamente de seus soberanos civis, mas do Papa, é uma doutrina pela qual acabam existindo em todos os Estados cristãos muitos homens poderosos (pois assim o são os bispos) que são dependentes do Papa e que lhe devem obediência, embora ele seja um príncipe estrangeiro, por meio do que é
capaz de (como muitas vezes o fez) instigar uma guerra civil contra o Estado que não se submeter a ser governado segundo seu prazer e interesse.
Em terceiro lugar, a isenção destes e de todos os outros padres, e de todos os monges e frades, em relação ao poder das leis civis. Pois deste modo muitos súditos de todos os Estados usufruem o beneficio das leis e são protegidos pelo poder do Estado civil, sem contudo pagar nenhuma parte da despesa pública, nem estar sujeitos às penas devidas a seus crimes como os outros súditos, e consequentemente não receiam ninguém exceto o Papa e aderem apenas a ele para defender sua monarquia universal. Em quarto lugar, dar a seus padres (que no Novo Testamento nada mais são do que presbíteros, isto é, anciãos) o nome de sacerdote, isto é, sacrificadores, que era o título do soberano civil e dos seus ministros públicos entre os judeus quando Deus era seu rei. Também o fato de fazer da ceia do Senhor um sacrifico serviu para levar o povo a acreditar que o Papa tinha o mesmo poder sobre todos os cristãos que Moisés e Aarão tinham sobre os judeus, isto é, todo o poder, quer civil, quer eclesiástico, como então tinha o Sumo Sacerdote.
Em quinto lugar, o fato de ensinar que o matrimônio é um sacramento deu ao clero o juízo sobre a legitimidade dos casamentos, e portanto, sobre quais os filhos que são legítimos, e consequentemente sobre o direito de sucessão a reinos hereditários.
Em sexto lugar, a negação do casamento aos padres serviu para assegurar este poder do Papa sobre os reis. Pois se um rei for padre não pode casar e transmitir seu reino a sua posteridade; se não for padre, o Papa passa a pretender ter esta autoridade eclesiástica sobre ele e sobre seu povo. Em sétimo lugar, pela confissão auricular obtém, para a manutenção de seu poder, um melhor conhecimento dos desígnios dos príncipes e dos grandes personagens do Estado civil do que estes podem obter acerca dos desígnios do Estado eclesiástico.
Em oitavo lugar, pela canonização dos santos e pela declaração de quais são mártires, asseguram seu poder na medida em que induzem os homens simples a uma obstinação contra as leis e as ordens de seus soberanos civis até à própria morte, se pela excomunhão dos Papas eles forem declarados hereges ou inimigos da Igreja, isto é (de acordo com sua interpretação), inimigos do Papa. Em nono lugar, asseguram o mesmo pelo poder que atribuem a todos os padres de fazerem Cristo e pelo poder de ordenar a penitência, e de remir ou reter os pecados.
Em décimo lugar, pela doutrina do purgatório, da justificação pelos atos externos e das indulgências, o clero se enriquece.
Em undécimo lugar, por sua demonologia e pelo uso do exorcismo, e outras coisas com isso relacionadas, conservam (ou julgam conservar) mais o povo sob o domínio de seu poder. Finalmente, a metafísica, a ética e a política de Aristóteles, as distinções frívolas, os termos bárbaros, e a linguagem obscura dos escolásticos ensinada nas Universidades (que foram todas erigidas e regulamentadas pela autoridade papal) servem-lhes para evitar que estes erros sejam detectados e para levar os homens a confundirem o ignis fatuus da vã filosofia com a luz do Evangelho. Se estes exemplos não fossem suficientes, poder-se-iam acrescentar outras de suas obscuras doutrinas, cujas vantagens se revelam de forma evidente para o estabelecimento de um poder ilegítimo sobre os legítimos soberanos do povo cristão; ou para a manutenção do mesmo, quando está estabelecido; ou para os bens terrenos, a honra e a autoridade daqueles que o detêm. E portanto pela supracitada regra do cui bono podemos com razão considerar como autores de todas estas trevas espirituais o Papa e o clero romano, e também todos aqueles que tentam colocar no espírito dos homens esta doutrina errônea de que a Igreja agora sobre a terra é aquele Reino de Deus mencionado no Antigo e no Novo Testamento. Mas os imperadores e outros soberanos cristãos, sob cujo governo estes erros e as semelhantes usurpações dos eclesiásticos em seu cargo pela primeira vez surgiram para perturbação de suas possessões e da tranqüilidade de seus súditos, muito embora tenham suportado os mesmos por falta de previsão de suas seqüèlas e por falta de visão profunda dos desígnios de seus mestres, podem contudo ser considerados cúmplices de seu prejuízo próprio e público, pois, sem sua autoridade, desde o início nenhuma doutrina sediciosa teria podido ser pregada publicamente. Digo que podiam ter sido atalhados desde o início, mas, uma vez o povo possuído por esses homens espirituais, não havia nenhum remédio humano que pudesse ser aplicado, nenhum que algum homem fosse capaz de inventar. E quanto aos remédios que Deus devia providenciar, o qual nunca deixou a seu tempo de destruir todas as maquinações dos homens contra a verdade, temos de esperar sua boa vontade, a qual muitas vezes suportou que a prosperidade de seus inimigos, juntamente com sua ambição, chegasse a um ponto tal que sua violência abrisse os olhos que a precaução de seus predecessores tinha antes fechado, e fizesse dá homens abarcar demais para nada segurar, assim como a rede de Pedro rebentou dèvido à luta de uma quantidade demasiado grande de peixes, visto que a impaciência daqueles que lutam para resistir a tal usurpação antes de os olhos de seus súditos estarem abertos, apenas contribuiu para aumentar o poder a que resistiam. Não censuro portanto o Imperador Frederico por deter a agitação em relação a nosso compatriota Papa Adriano, pois tal era a disposição de seus súditos nessa ocasião que, se não o tivesse feito, provavelmente não teria sucedido no império. Mas censuro aqueles que no princípio, quando seu poder estava inteiro, suportaram que essas doutrinas fossem forjadas nas Universidades de seus próprios domínios e contiveram a agitação contra todos os sucessivos Papas, enquanto estes subiam sobre os tronos de todos os soberanos cristãos para os dominar e cáiìsar, quer eles, quer seus povos, a seu beiprazer. Mas assim como as invenções dos homens são tecidas, assim também são desfeitas; o processo é o mesmo, mas a ordem é inversa: a teia começa nos primeiros elementos de poder, que são a sabedoria, a humildade, a sinceridade, e outras virtudes dos apóstolos, a quem todos os povos convertidos obedeceram por reverência e não por obrigação. Suas consciências eram livres, e suas palavras e ações só estavam sujeitas ao poder civil. Mais tarde os presbíteros (à medida que os rebanhos de Cristo aumentavam), reunindo-se para discutirem o que deviam ensinar e portanto obrigando-se a nada ensinar contra os decretos de suas assembléias, fizeram crer que o povo estava por conseguinte obrigado a seguir sua doutrina, e quando ele se recusou a fazê-lo recusaram mantê-lo em sua companhia (a isso se chamou então excomunhão), não por serem infiéis, mas por serem desobedientes. E este foi o primeiro nó em sua liberdade. E aumentando o número de presbíteros, os presbíteros da principal cidade ou província assumiram uma autoridade sobre os presbíteros paroquiais e apropriaram-se do nome de bispos. E este foi um segundo nó na liberdade cristã. Finalmente o bispo de Roma, no que se refere à cidade imperial, assumiu uma autoridade (em parte pela vontade dos próprios imperadores e pelo título de Pontifex Maximus, e finalmente, quando os imperadores estavam enfraquecidos, pelos privilégios de São Pedro) sobre todos os outros bispos do império, o que constituiu o terceiro e último nó, e toda a síntese e construção do poder pontifical. Portanto, a análise ou resolução é pelo mesmo processo, mas começando com o laço que foi o último a ser atado, como podemos ver na dissolução do preterpolítico governo da Igreja na Inglaterra. Primeiro o poder dos Papas foi totalmente dissolvido pela Rainha Isabel e os bispos, que antes exerciam suas funções pelo direito do Papa, passaram depois a exercer o mesmo pelo direito da rainha e seus sucessores, muito embora, retendo a expressão jure divino, se pudesse pensar que eles o recebiam de Deus por direito imediato. E assim foi desatado o primeiro nó. Depois disto os presbiterianos obtiveram ultimamente na Inglaterra a queda do episcopado: e assim foi desamarrado o segundo nó. E quase ao mesmo tempo o poder foi também tirado aos presbiterianos, e deste modo estamos reduzidos à independência dos primitivos cristãos para seguirmos Paulo, ou Cefas ou Apoio, segundo o que cada homem preferir. 0 que, se ocorrer sem luta e sem avaliar a doutrina de Cristo por nossa afeição à pessoa de seu ministro (a falta que o apóstolo censurou aos coríntios), é talvez o melhor. Primeiro, porque não deve haver nenhum poder sobre as consciências dos homens, a não ser da própria palavra, produzindo fé em cada um, nem sempre de acordo com o objetivo daqueles que plantam e regam, mas do próprio Deus que dá a geração; e segundo, porque é desarrazoado naqueles que ensinam que existe tamanho perigo no mais pequeno erro, exigir de um homem dotado de razão própria que siga a razão de qualquer outro homem, ou da maioria de vezes de muitos outros homens, o que é
pouco melhor do que arriscar sua salvação jogando cara ou coroa. Nem deviam esses mestres ficar aborrecidos com esta perda de sua antiga autoridade, pois ninguém melhor do que eles devia saber que o poder é conservado pelas mesmas virtudes com que é adquirido, isto é, pela sabedoria, pela humildade, pela clareza de doutrina e sinceridade de linguagem, e não pela supressão das ciências naturais e da moralidade da razão natural, nem por uma linguagem obscura, nem arrogando-se mais conhecimento do que aquele que realmente possuem, nem por fraudes beatas, nem por essas outras faltas que nos pastores da Igreja de Deus não são apenas faltas, mas também escândalos, capazes de fazer que os homens mais cedo ou mais tarde tropecem na supressão de sua autoridade.
Mas depois que esta doutrina, que a Igreja agora militante é o reino de Deus referido no Antigo e no Novo Testamento, foi aceite no mundo, a ambição e a solicitação de cargos que lhe estão adstritos, e especialmente o grande cargo de ser o representante de Cristo, e a pompa daqueles que obtiveram assim os principais cargos públicos, tornou-se gradualmente tão evidente que perderam a reverência interior devida à
função pastoral, de tal modo que os homens mais sábios, entre aqueles que possuíam qualquer poder no Estado civil, só precisavam da autoridade de seus príncipes para lhes negarem obediência. Pois desde a época em que o bispo de Roma conseguiu ser reconhecido como bispo universal, pela pretensão de suceder a São Pedro, toda sua hierarquia, ou reino das trevas, pode ser comparado adequadamente ao reino das fadas, isto é, às fábulas contadas por velhas na Inglaterra referentes aos fantasmas e espíritos e às proezas que praticavam de noite. E se alguém atentar no original deste grande domínio eclesiástico verá facilmente que o Papado nada mais é do que o fantasma do defunto império romano, sentado de coroa na cabeça sobre o túmulo deste, pois assim surgiu de repente o Papado das ruínas do poder pagão.
Também a linguagem que eles usam, quer nas igrejas, quer nos atos públicos, sendo o latim, que não é comumente usado por qualquer nação hoje existente, o que é senão o fantasma da antiga figura romana?
As fadas, seja qual for a nação onde habitem, só têm um rei universal, que alguns de nossos poetas denominam rei Oberon, mas as Escrituras denominam Belzebu, príncipe dos demônios. Do mesmo modo os eclesiásticos, seja qual for o domínio em que se encontrem, só reconhecem um rei universal, o Papa. Os eclesiásticos são homens espirituais e padres fantasmagóricos. As fadas são espíritos e fantasmas. As fadas e os fantasmas habitam as trevas, as solidões e os túmulos. Os eclesiásticos caminham na obscuridade da doutrina, em mosteiros, igrejas e claustros.
Os eclesiásticos têm suas igrejas catedrais, as quais, seja qual for a vila onde são erguidas, por virtude da água benta e de certos encantos denominados exorcismos, possuem o poder de transformar essas vilas em cidades, isto é, em sedes do império. Também as fadas têm seus castelos encantados e alguns fantasmas gigantescos que dominam as regiões circunvizinhas.
As fadas não podem ser presas nem levadas a responder pelo mal que fazem. Do mesmo modo os eclesiásticos desaparecem dos tribunais da justiça civil.
Os eclesiásticos tiram dos jovens o uso da razão por meio de certos encantos compostos de metafísica e milagres e tradições e Escrituras deturpadas, pelo que estes ficam incapazes seja para o que for exceto para executarem aquilo que lhes for ordenado. Do mesmo modo as fadas, segundo se diz, tiram as crianças de seus berços e transformam-nas em loucos naturais, a que o vulgo chama duendes e que têm tendência para praticar o mal.
As velhas não especificaram em que oficina ou laboratório as fadas fabricam seus encantamentos, mas os laboratórios do clero são bem conhecidos como sendo as Universidades que receberam sua disciplina da autoridade pontifícia.
Quando alguém desagrada às fadas, diz-se que estas enviam seus duendes para beliscá-lo. Os eclesiásticos, quando algum Estado civil lhes desagrada, também mandam seus duendes, isto é, súditos supersticiosos e encantados para beliscarem seus príncipes, pregando a sedição, ou um príncipe encantado com promessas para beliscar outro.
As fadas não se casam, mas entre elas há incubi, que copulam com gente de carne e osso. Os padres também não se casam.
Os eclesiásticos tiram a nata da terra por meio de donativos de homens ignorantes que têm medo deles e por meio de dízimos; o mesmo acontece na fábula das fadas, segundo a qual elas entram nas leitarias e banqueteiam-se com a nata que retiram do leite.
A história também não conta que tipo de dinheiro corre no reino das fadas. Mas os eclesiásticos naquilo que recebem aceitam a mesma moeda que nós, muito embora, quando têm de fazer algum pagamento, o façam com canonizações, indulgências e missas.
A estas e outras semelhanças entre o Papado e o reino das fadas se pode acrescentar mais uma, que assim como as fadas só têm existência na fantasia de gente ignorante, que se alimenta das tradições contadas pelas velhas ou pelos antigos poetas, também o poder espiritual do Papa (fora dos limites de seu próprio domínio civil) consiste apenas no medo, em que se encontra o povo seduzido, de ser excomungado, por ouvir os falsos milagres, as falsas tradições e as falsas interpretações das Escrituras. Não foi portanto muito difícil expulsá-los, a Henrique VIII por seu exorcismo, e à Rainha Isabel pelo dela. Mas quem sabe se este espírito de Roma, que agora desapareceu e que, vagueando por missões através dos lugares desertos da China, do Japão e das índias, ainda produziu escassos frutos, não pode voltar, ou melhor, uma assembléia de espíritos ainda mais maléfica do que ele, para habitar esta casa asseada e limpa, tornando portanto o fim ainda pior do que o princípio? Pois não é só o clero romano que pretende que o Reino de Deus é deste mundo e que portanto ele tem um poder distinto do poder do Estado civil. E isto era tudo o que eu tinha a intenção de dizer no que se refere à doutrina da política. 0 que quando tiver sido por mim revisto apresentarei de boa vontade à censura de meu país. 
 
(Thomas Hobbes - Leviatã)

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publicado às 01:17

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 "Moralidade como antinatureza" (Nietzsche)
 
Não posso deixar de observar aqui um fato que pode merecer a atenção dos que fazem da natureza humana o objeto de sua investigação. É certo que, em toda religião, por mais sublime que seja a definição verbal que ela ofereça de sua divindade, muitos adeptos, talvez a maioria, procurarão, não obstante, obter o favor divino, não por suas virtudes nem por seus bons costumes, únicas coisas que podem ser agradáveis a um ser perfeito, senão por práticas frívolas, por um zelo imoderado, por êxtases violentos ou pela crença em opiniões misteriosas e absurdas. Só uma pequena parte do Saddas,63 bem como do Pentateuco,64 consiste em preceitos morais, e podemos estar certos de que essa parte foi sempre a menos observada e respeitada.
Quando os antigos ROMANOS foram atacados pela peste, eles nunca atribuíram seus sofrimentos aos seus vícios, nem pensaram em se arrepender ou em se emendar. Eles nunca pensaram que eram os grandes ladrões do mundo, cuja ambição e avareza tornaram a Terra desolada e reduziram nações opulentas à necessidade e à miséria. Eles simplesmente nomearam um ditador a fim de cravar um prego numa porta, e pensaram que por esse meio tinham apaziguado suficientemente sua divindade enfurecida.
Em EGINA, urna facção formou uma conspiração e assassinou selvagem e perfidamente setecentos de seus concidadãos, levando sua fúria ao extremo de cortar as mãos de um miserável fugitivo que tinha se refugiado num templo, com as quais ele agarrava as portas, e, carregado para fora do chão sagrado, imediatamente foi assassinado. 'Por essa impiedade', diz HERÓDOTO (e não por muitos outros assassinatos cruéis), 'eles ofenderam os deuses e contraíram uma culpa inexpiável'.
Além disso, suponhamos, o que nunca acontece, que se encontre uma religião popular que declare expressamente que só a moralidade pode obter o favor divino; suponhamos também que uma ordem de eclesiásticos seja instituída para inculcar essa opinião nos homens por meio dos sermões diários, com toda a arte da persuasão; apesar disso, os preconceitos das pessoas estão tão profundamente arraigados que, por necessidade de alguma outra superstição, eles tornariam o comparecimento das pessoas a esses sermões a parte essencial da religião, em vez de colocá-las no caminho da virtude e dos bens morais. O sublime prólogo das leis de ZALEUCUS não inspirou os LOCRENSES,65 tanto quanto podemos saber, noções mais sólidas dos meios de agradar à divindade do que as noções que eram familiares a outros GREGOS.
Essa observação, então, vale universalmente. Mas podemos ter ainda alguma dificuldade em explicá-la. Não é suficiente observar que em todos os lugares as pessoas rebaixam suas divindades até torná-las semelhantes a si mesmas, e que as consideram simplesmente uma espécie de criaturas humanas de algum modo mais poderosas e inteligentes. Isso não eliminará a dificuldade, pois não existe homem nenhum tão estúpido que não estime, a julgar por sua razão natural, que a virtude e a honestidade são as qualidades mais valiosas que uma pessoa pode possuir. Por que não atribuir o mesmo sentimento à divindade? Por que não fazer com que toda religião, ou sua parte principal, consista nessa realização?
Não é satisfatório dizer que a prática da moralidade é mais difícil que a da superstição - e é, portanto, rejeitada. Pois - para não mencionar as penitências excessivas de Brachmans e de Talapoins - é certo que o ramadã66 dos TURCOS, durante o qual os pobres infelizes, dia após dia, frequentemente nos meses mais quentes do ano e num dos climas mais quentes do mundo, permanecem sem comer nem beber, do nascimento ao pôr do sol - é certo, dizia eu, que o ramadã deve ser muito mais severo que a prática de qualquer dever moral, mesmo para os homens mais corrompidos e depravados. As quatro quaresmas dos MOSCOVITAS e as austeridades de alguns católicos romanos parecem mais desagradáveis que a brandura e a benevolência. Em suma, toda virtude, quando nos reconciliamos com ela sem muito esforço, é agradável. Toda superstição é quase sempre odiosa e opressiva.
Talvez possamos aceitar a seguinte explicação como a verdadeira solução dessa dificuldade. Os deveres que um homem cumpre como amigo ou como pai parecem referir-se simplesmente a seu benfeitor ou a seus filhos, e ele não pode faltar a esses deveres sem romper todos os vínculos da natureza e da moralidade. Uma forte inclinação pode impulsioná-lo a cumpri-los. Um sentimento de ordem e de obrigação moral une sua força à força desses vínculos naturais, e o homem por inteiro, se é verdadeiramente virtuoso, é conduzido ao seu dever sem qualquer esforço ou violência. Ainda no caso das virtudes que são mais austeras e mais dependentes da reflexão, como o espírito público, o dever filial, a temperança ou a integridade, a obrigação moral, tal como a compreendemos, descarta toda a pretensão a um mérito religioso; e a conduta virtuosa não é mais que aquilo que devemos à sociedade ou a nós mesmos. Em tudo isso um homem supersticioso nada descobre que tenha realizado especialmente por causa de sua divindade ou que possa recomendá-lo de um modo particular ao favor e à proteção divina. Não lhe ocorre que o melhor método de servir à divindade é promover a felicidade de suas criaturas. Ele ainda espera por uma assistência mais imediata do ser supremo, a fim de diminuir os terrores que o oprimem. E qualquer prática que se lhe recomende, ainda que não tenha utilidade nenhuma na vida ou ofereça a mais forte resistência às suas inclinações naturais, ele a abraçará logo, graças àquelas mesmas circunstâncias que deveriam fazer com que ele a rejeitasse completamente. Parece-lhe que isso é o mais puramente religioso, na medida em que não deriva da mistura de qualquer outro motivo ou consideração. E se, por sua causa, sacrifica boa parte de seu bem-estar e de sua tranquilidade, crê que seus méritos aumentam conforme se manifesta seu fervor e sua devoção. Se ele devolve algo emprestado ou paga uma dívida, sua divindade não lhe deve obrigação nenhuma, pois tais atos de justiça são os que estava obrigado a cumprir e o que muitos teriam cumprido mesmo que não houvesse deus nenhum no universo. Mas se ele jejua um dia ou se dá a si mesmo uns bons açoites, isso tem, na sua opinião, uma relação direta com a assistência de Deus. Nenhum outro motivo pode levá-lo a tais austeridades. Por meio desses extraordinários sinais de devoção obtém, pois, o favor divino, e pode esperar, como recompensa, proteção e segurança neste mundo - e felicidade eterna no outro.
É por isso que o maior dos crimes tem sido considerado, em muitos casos, compatível com uma piedade e devoção supersticiosas. É por isso, justamente, que se considera arriscado fazer qualquer inferência a favor da moralidade de um homem, a partir do fervor ou do rigor de sua prática religiosa, ainda que ele mesmo acredite na sinceridade desta. Mais ainda: observou-se que as atrocidades mais negras têm sido mais apropriadas para produzir terrores supersticiosos e para aumentar a paixão religiosa. BOMILCAR, tendo formado uma conspiração para assassinar de uma só vez todo o senado de CARTAGO e violar as liberdades de seu país, perdeu a oportunidade por causa de uma preocupação contínua com os presságios e com as profecias. 'Os que empreendem as ações mais criminosas e mais perigosas são em geral os mais supersticiosos', como oportunamente observa um historiador da antiguidade.* Sua devoção e sua fé espiritual aumentam com seus temores. Catilina67 não se satisfez com as divindades estabelecidas e com os ritos aceitos pela religião nacional. Seus terrores inquietos o fizeram procurar novas invenções dessa espécie,* e ele provavelmente nunca teria sonhado com elas se tivesse permanecido um bom cidadão, obediente às leis de seu país.
A isso podemos acrescentar que, depois da execução do crime, surgem remorsos e terrores secretos que não deixam nenhum repouso ao espírito, mas o fazem recorrer a ritos e a cerimônias religiosas como expiação de suas faltas. Tudo o que enfraquece ou perturba as disposições interiores do homem favorece os interesses da superstição; e nada os destrói mais do que uma virtude viril e constante, que nos preserva dos acidentes desastrosos e melancólicos ou que nos ensina a suportá-los. Quando resplandece essa serenidade de espírito, a divindade jamais aparece sob falsas aparências. Porém, quando nos abandonamos às sugestões naturais e indisciplinadas de nossos corações tímidos e ansiosos, atribuímos ao ser supremo, em virtude dos terrores que nos agitam, toda espécie de barbárie; e, em razão dos métodos que adotamos a fim de apaziguá-lo, todas as formas de arbitrariedade. Barbárie e arbitrariedade: essas são as qualidades, ainda que dissimuladas com outros nomes, que formam, como podemos observar do ser supremo, a fim de diminuir os terrores que o oprimem. E qualquer prática que se lhe recomende, ainda que não tenha utilidade nenhuma na vida ou ofereça a mais forte resistência às suas inclinações naturais, ele a abraçará logo, graças àquelas mesmas circunstâncias que deveriam fazer com que ele a rejeitasse completamente. Parece-lhe que isso é o mais puramente religioso, na medida em que não deriva da mistura de qualquer outro motivo ou consideração. E se, por sua causa, sacrifica boa parte de seu bem-estar e de sua tranquilidade, crê que seus méritos aumentam conforme se manifesta seu fervor e sua devoção. Se ele devolve algo emprestado ou paga uma dívida, sua divindade não lhe deve obrigação nenhuma, pois tais atos de justiça são os que estava obrigado a cumprir e o que muitos teriam cumprido mesmo que não houvesse deus nenhum no universo. Mas se ele jejua um dia ou se dá a si mesmo uns bons açoites, isso tem, na sua opinião, uma relação direta com a assistência de Deus. Nenhum outro motivo pode levá-lo a tais austeridades. Por meio desses extraordinários sinais de devoção obtém, pois, o favor divino, e pode esperar, como recompensa, proteção e segurança neste mundo - e felicidade eterna no outro.
E por isso que o maior dos crimes tem sido considerado, em muitos casos, compatível com uma piedade e devoção supersticiosas. E por isso, justamente, que se considera arriscado fazer qualquer inferência a favor da moralidade de um homem, a partir do fervor ou do rigor de sua prática religiosa, ainda que ele mesmo acredite na sinceridade desta. Mais ainda: observou-se que as atrocidades mais negras têm sido mais apropriadas para produzir terrores supersticiosos e para aumentar a paixão religiosa. BOMILCAR, tendo formado uma conspiração para assassinar de tuna só vez todo o senado de CARTAGO e violar as liberdades de seu país, perdeu a oportunidade por causa de uma preocupação contínua com os presságios e com as profecias. 'Os que empreendem as ações mais criminosas e mais perigosas são em geral os mais supersticiosos', como oportunamente observa um historiador da antiguidade.* Sua devoção e sua fé espiritual aumentam com seus temores. Catilina67 não se satisfez com as divindades estabelecidas e com os ritos aceitos pela religião nacional. Seus terrores inquietos o fizeram procurar novas invenções dessa espécie,* e ele provavelmente nunca teria sonhado com elas se tivesse permanecido um bom cidadão, obediente às leis de seu país.
A isso podemos acrescentar que, depois da execução do crime, surgem remorsos e terrores secretos que não deixam nenhum repouso ao espírito, mas o fazem recorrer a ritos e a cerimônias religiosas como expiação de suas faltas. Tudo o que enfraquece ou perturba as disposições interiores do homem favorece os interesses da superstição; e nada os destrói mais do que uma virtude viril e constante, que nos preserva dos acidentes desastrosos e melancólicos ou que nos ensina a suportá-los. Quando resplandece essa serenidade de espírito, a divindade jamais aparece sob falsas aparências. Porém, quando nos abandonamos às sugestões naturais e indisciplinadas de nossos corações tímidos e ansiosos, atribuímos ao ser supremo, em virtude dos terrores que nos agitam, toda espécie de barbárie; e, em razão dos métodos que adotamos a fim de apaziguá-lo, todas as formas de arbitrariedade. Barbárie e arbitrariedade: essas são as qualidades, ainda que dissimuladas com outros nomes, que formam, corno podemos observar universalmente, o caráter dominante da divindade nas religiões populares. E até os sacerdotes, em vez de corrigir essas ideias perversas dos homens, têm-se mostrado dispostos a alimentá-las e a encorajá-las. Quanto mais monstruosa é a imagem da divindade, mais os homens se tornam seus servidores dóceis e submissos, e quanto mais extravagantes são as provas que ela exige para nos conceder sua graça, mais necessário se faz que abandonemos nossa razão natural e nos entreguemos à condução e direção espiritual dos sacerdotes. Pode-se admitir, assim, que os artifícios dos homens agravam nossas enfermidades naturais e as loucuras desse tipo, mas que na origem nunca as engendram. Elas se enraízam mais profundamente no espírito e nascem das propriedades essenciais e universais da natureza humana.
 
(David Hume - História Natural da Religião)
NOTAS:
 
61 'Mais populares' em outras edições.
 
62Toda essa seção é da maior importância para entendermos os argumentos e as opiniões de Hume sobre a relação entre a moralidade e a religião. Ver também Diálogos sobre a religião natural, parte XII; Investigação sobre o entendimento humano, seção XI; e a explicação da moralidade oferecida na Investigação sobre os princípios da moral, seções 1-5 e 9.
 
63 Livro judaico de preces e orações.
 
64 O Pentateuco é a coleção dos cinco primeiros livros do Velho Testamento atribuídos a Moisés: o Gênesis, o Êxodo, o Levítico, o Números e o Deuteronômio.
 
65 Habitantes de Locros, antiga cidade grega localizada na extremidade meridional da atual Itália.
 
66 O ramadã corresponde ao nono mês do ano muçulmano, considerado sagrado e durante o qual a lei de Maomé prescreve o jejum num período diário entre o alvorecer e o pôr do sol.
 
67 Lúcio Sérgio Catilina (morto em 62 a.C.), governador da província romana da África entre 67-66 a.C. Foi perseguido por corrupção, mas absolvido. Derrotado por Cícero nas eleições para cônsul em 63 e 62, conspirou num golpe revelado por Cícero em seus discursos no Senado. Foi morto pelo exército de Gaio Antonio.

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publicado às 18:03


Medo da morte

por Thynus, em 21.11.17
E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...
 
 
 
 


 
Ruído branco
DON DELILLO
 
Cem anos de solidão
GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ
 
 
Você já se perguntou como as pessoas conseguem funcionar sabendo que podem deixar de existir a qualquer momento? Já acordou no meio da noite suando frio, pregado à cama, por causa do terrível conhecimento de que há uma ameaçadora eternidade de não existência à sua espera?
Você não está só. A consciência da morte é o que nos separa dos animais. E o modo como escolhemos lidar com isso — quer optemos por acreditar em Deus e em vida após a morte, conciliar-nos com a ideia da não existência ou simplesmente reprimir todos os pensamentos a esse respeito — é algo que nos separa uns dos outros.
Jack Gladney, professor de estudos sobre Hitler em uma faculdade do Meio-Oeste dos Estados Unidos, sofre de um medo agudo da morte. Jack é obcecado por quando vai morrer, se é ele ou sua esposa, Babette, quem se vai primeiro (ele torce secretamente para que seja ela) e sobre o tamanho de “buracos, abismos e fendas”. Um dia, ele descobre que Babette tem tanto medo da morte quanto ele. Até aquele momento, sua esposa grande e loira havia estado entre ele e seu medo, representando “a luz do dia e a vida densa”. A descoberta abala sua alma — e as bases de um casamento até então feliz.
Jack explora todos os tipos de argumentação e de filosofias para superar o medo da morte, desde colocar-se dentro do domínio protetor de uma multidão até a reencarnação. (“Como você pretende passar sua ressurreição?”, pergunta um amistoso testemunha de Jeová, como se estivesse perguntando sobre um fim de semana prolongado.) Seu método mais bem-sucedido para aliviar o medo (e se distrair) é sentar-se e observar os filhos dormirem, uma atividade que o faz se sentir “devoto, parte de um sistema espiritual”. Para aqueles com a sorte de ter filhos dormindo à mão, esse é um bálsamo que recomendamos sinceramente, não só para o medo da morte, mas para medos de todos os tipos.
Talvez uma das argumentações de Jack funcione para você. Se não funcionar, pelo menos Ruído branco lhe proporcionará uma associação entre pensamentos de morte e risadas. DeLillo é um escritor divertido, e sua descrição de Jack tentando pronunciar palavras alemãs recebe nosso voto como uma das passagens mais engraçadas da literatura. Procure-a à noite, quando o terror da morte atacar, e testemunhe a metamorfose do medo em risos.
A outra cura para manter junto à cama é Cem anos de solidão. Esse romance sobre a família Buendía, de Macondo, pode ser lido e relido, já que os eventos ocorrem em uma espécie de ciclo eterno, e é tão densamente escrito que você encontrará novos encantos e revelações a cada leitura. Uma vez que a narrativa se estende por um século, a morte aparece com frequência e de forma natural, e os personagens aceitam sua parte na ordem natural das coisas — uma atitude que, com o tempo, pode passar para você.
Se isso não acontecer, continue lendo. De novo e de novo. E uma noite, talvez, quando chegar cansado à última página e voltar ao início, você comece a entender que o fato de todas as coisas boas terem fim, em algum momento, é necessário.

 ( Ella Berthoud e Susan Elderkin - Farmácia literária)
 
 
 

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publicado às 20:16


Morte

por Thynus, em 21.11.17


Pérola
O POETA DE GAWAIN


Metamorfoses
OVÍDIO
 

 
A morte não pode ser adiada para sempre, e, quando chega a hora, precisamos estar prontos. No Ocidente, temos tendência a evitar pensamentos de morte e a ignorar mais ou menos esse fato em nossa vida cotidiana. Foram-se os dias do memento mori, um lembrete diário de que um dia vamos morrer. No entanto, é essencial tanto viver na presença da morte — e, assim, ter a certeza de estar sempre plenamente vivo — como estar preparado com as companhias literárias adequadas. De modo que, quando o momento vier, não cheguemos a um leito de morte — o nosso próprio, ou o de outra pessoa — sem o devido arsenal. Quer seja você quem está morrendo, quer você se encontre na cabeceira de uma pessoa amada enquanto ela deixa este mundo, alguma literatura que console e acalme, e ao mesmo tempo incentive suavemente a aceitação, é uma dádiva inestimável. Você ficará satisfeito por ter se preparado com essas duas obras de atemporal serenidade e grande beleza, seja para ler para si mesmo, se você puder, ou para ler em voz alta, ou para ouvir na voz de alguém.
Nesses momentos mais sérios da vida, precisamos de uma linguagem que possa nos elevar acima do comum. Pérola é um dos mais belos poemas de língua inglesa, escrito, ou pelo menos assim se supõe, pelo mesmo autor de Sir Gawain e o Cavaleiro Verde, a encantadora e evocativa “aventura” de Natal do século XIV. Pérola descreve a perda de uma “pérola de grande valor”, que muitos críticos acreditam que represente a filha de dois anos do poeta; outros defendem que a pérola seja inteiramente alegórica, representando a perda da alma e permitindo deliberadamente muitas interpretações quanto a seu significado. Tão pouco se sabe sobre a vida do poeta que ninguém pode ter certeza dos detalhes biográficos de seu suposto luto; este é inferido do poema, mas o texto, por sua vez, é tão cheio de camada sobre camada de alegorias que uma interpretação segura é impossível. Mas a própria ambiguidade é também o que torna o poema tão rico e irresistível. A agonia da perda expressa, a pureza do amor sentido, a beleza da pérola descrita estão todas intricadamente inseridas em um poema de estrutura notavelmente complexa. O poema é composto de cento e uma estrofes de doze versos cada, habilmente conectados por termos de ligação, enquanto vínculos temáticos criam uma relação entre os dois extremos do texto, produzindo uma estrutura que é, ela mesma, circular — como o ciclo de vida e morte.
Mencionamos tudo isso porque o poema é tão belo, tão primoroso e agradável quanto uma pérola segura na palma da mão. Se você o interpretar literalmente, a “pérola de grande preço” representa a coisa ou pessoa que você mais ama no mundo (e que o agonizante deve, se possível, ter consigo no momento crucial). E, se você que está lendo isso for uma pessoa religiosa, vai se sentir pronto para passar para as mãos de Deus, porque a mensagem cristã é clara, e a pérola aparece como uma camareira dizendo ao poeta que ele deve se colocar sob a misericórdia de Deus para cruzar o rio e entrar no reino.
Tanto os que creem como os que não creem podem derivar conforto do conceito de transformação nessas horas. Porque, mesmo se acreditarmos que a morte é o fim, há um sentido segundo o qual meramente mudamos de forma. Para ajudá-lo a se sentir parte da roda da vida eterna, leia Ovídio, pois sua grande obra, Metamorfoses, é sobre como uma coisa se torna outra, ad infinitum.
Há tudo da vida nessas páginas, dos mitos da criação à vida dos filósofos, de Caos a Eros, da vinda dos deuses às provações de Hércules e Prometeu. Mas o tema central de Ovídio é o amor, o poder que transforma todas as coisas. Por causa de seu desejo, Zeus se transforma em um cisne, um touro, uma chuva de ouro. Por suas investidas contra a honra de suas vítimas, elas se tornam árvores, ninfas da água, aves ou feras. Diana transforma Acteon em um cervo, porque ele fatalmente a viu nua. Narciso se metamorfoseia em uma flor devido a seu amor por si mesmo. E Eco vive para sempre como um som repetitivo, tendo definhado de amor (se não for tarde demais, veja “mal de amor”). Aracne é transformada em aranha porque gostava demais de tecer. Tudo é mutável, nada permanece estático, e todos os seres passam de um estado a outro — não morrendo, mas tornando-se.
E, assim, os versos de Ovídio nos deixam hipnotizados, pois ele escreve sobre mito e lenda, amor e perda, mostrando como permanecemos em flores silvestres, oliveiras e riachos, com nossa vida fluindo de uma forma a outra em infindáveis metamorfoses.
 
( Ella Berthoud e Susan Elderkin - Farmácia literária)
 

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Milagres, existem?

por Thynus, em 15.11.17
 .
Só há duas maneiras de viver a vida: a primeira é vivê-la como se os milagres não existissem. A segunda é vivê-la como se tudo fosse milagre.
 
É possível amar e não ser feliz, é possível ser feliz e não amar, mas amar e simultaneamente ser feliz, isso seria milagre.
Honoré de Balzac  
 

Milagres, existem? 
Claro que sim. Você os vê todos os dias e a toda hora, basta observar a natureza e perceber que em tudo o milagre da vida está presente. 
Vejamos o desabrochar de uma flor. Embora vocês possam querer dar a isso uma explicação científica, ou qualquer outra explicação, eu diria que é o milagre acontecendo na natureza, graças ao próprio milagre da criação do mundo, dos seres vivos, do universo. 
Milagres estão sempre acontecendo. 
(...) Observem a natureza: tudo que é vivo e tem energia renasce. E tudo é energia que flui. Energia não se perde, se transforma. Se nós somos energia, por que não acreditar que somos eternos, só nos transformamos, nos renovamos, evoluímos? 

( Ilana Skitnevsky - Viver, morrer e o depois...)

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