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Tão conectados e tãos sós

por Thynus, em 18.06.17
Quando uso o Facebook não estou agindo sozinho. Entro numa espécie de espaço público, e a cada minuto reajo às pessoas e aos objetos ao meu redor. Posso atualizar meu status, clicar em alguns links recomendados por amigos, e então me ver mergulhado em uma discussão sobre um livro ou um filme, ou debatendo os méritos de uma noitada. É praticamente certo que irei acessar uma dúzia de links em algum lugar e lê-los enquanto navego por dezenas de outros sites, ao mesmo tempo que checo meus e-mails e escuto música ou algum programa de rádio 
(Tom Chatfield)

Como podemos estar sós quando vivemos num mar de gente? Como podemos afirmar que os outros não nos compreendem quando nós próprios não sabemos quem somos e muito menos sabemos pedir aquilo que desejamos?
(Emídio Carvalho - A Sombra Humana)
 
Fui à floresta porque queria viver plenamente, encarar apenas o essencial da vida, e ver se eu poderia aprender o que ela tem a ensinar, para que, quando chegasse a minha hora, eu não descobrisse que não tinha vivido. Não queria viver o que não fizesse parte da vida, e viver é tão bom; e também não queria me resignar de nenhuma forma, exceto quando fosse extremamente necessário. Eu queria viver intensamente e sugar toda a essência da vida... 
(Henry David Thoreau, Walden)


Segundo Tom Chatfield, o mundo está cada vez mais digital. Mais da metade da população adulta do mundo passa mais tempo da vida conectado do que desconectado, seja através da internet, do celular (telemóvel) ou de outra mídia digital. Mas que efeito essa necessidade de estar constantemente conectado está realmente tendo? Tom Chatfield, autor de Como Viver na Era Digital, se propõe a examinar o que a vida conectada está fazendo com as mentes das pessoas. Ele pretende ensinar aos leitores como prosperar em um século digital, sem perder a humanidade.
 
Internet de Todas as Coisas: em cinco anos, o tráfego global das redes móveis deve crescer 13 vezes
 
Ao longo deste livro, tracei oito linhas de argumentação interligadas, que se moviam a partir de percepções individuais de tempo, atenção e compartilhamento, em direção às estruturas que as rodeiam: os valores culturais, políticos e éticos implícitos nos acontecimentos recentes da tecnologia digital. E ofereci conclusões que, espero, sejam úteis sobre o que significa prosperar dentro desses campos.
 Acredito que devemos direcionar nossos olhares para a natureza de nossas experiências, mais do que para as ferramentas que estamos criando, caso desejemos compreender o presente. Devemos aproveitar essas experiências da melhor forma possível – mas também procurar reservar espaços em nossa vida livres dessas tecnologias e tomar o controle de nossa atenção, organizando nosso tempo de forma sábia, em vez de permitir que dispositivos que não são nunca desligados ditem os aspectos de todos os momentos. Isso significa encontrar um equilíbrio entre nossos hábitos de pensamento e de ação – e acreditar que é possível estabelecer diferentes formas de ser e de pensar, em resposta à pressão por estarmos constantemente conectados.
 Devemos, também, procurar entender um pouco da história das ferramentas e dos serviços digitais que utilizamos e olhá-los de maneira crítica, da mesma forma como olhamos outras criações humanas, em vez de habitá-los como uma paisagem. Precisamos aprender não apenas a compartilhar, mas a compartilhar bem – e a fazer parte de comunidades digitais de forma íntegra, que estimule os outros a também ser íntegros. E devemos nos esforçar mais do que nunca para encontrar formas e ocasiões para sermos inteiramente nós mesmos; para nos valermos das riquezas culturais tanto do presente quanto do passado, e para fugir da pressão exercida pelo senso comum e pelas reações coletivas.
 As ferramentas digitais que possuímos fazem com que diferentes formas de atuação pareçam fáceis e livres de consequências. Somos mais livres do que nunca para usar e abusar de outros, ou pelo menos de suas sombras digitais; para espalhar preconceitos e mentiras; para agirmos como meros autômatos em todos os campos, da sexualidade ao trabalho, passando pela criatividade.
 Esse tipo de liberdade possui seus encantos; apesar disso, não é o único futuro possível que vejo estar sendo construído na internet, ou incorporado à arquitetura fundamental de uma era digital. Para cada problema e abuso local, o mundo hoje possui um sistema inédito de compartilhamento de informações e de ação coletiva, aberto e igualitário. Ainda não houve país nem organização capaz de controlá-lo, da mesma forma que nenhum serviço ou tendência – não importa quão poderosos sejam seus charmes ou seus defensores – foi capaz de colonizar integralmente nossa experiência digital.
 Preservar e debater o futuro dessa abertura é tarefa para todos nós, principalmente para aqueles que cobram novas formas de relacionamento entre governos, cidadãos, corporações e associações. As questões em jogo não são sempre as mesmas. E, em alguns lugares, o número dessas questões já é espantosamente grande. Apesar disso, a maior parte das boas oportunidades está apenas começando a surgir.
 Embora possam servir aos desejos e propósitos de grupos privilegiados, as tecnologias digitais também têm se mostrado um extraordinário mecanismo de mudança para aqueles menos favorecidos: a oportunidade de participar da comunidade de um país, das trocas comerciais e dos enormes reinos da cultura, da inovação e das ideias pela primeira vez.
 Compreender e regulamentar esse terreno comum é um desafio comparável aos maiores já empreendidos na história humana; um em que bilhões, não mais apenas milhões, de agentes estão envolvidos e, cada vez mais, integrados. Nessa questão, como em quase tudo, nossos maiores problemas e as respostas promissoras habitam o mesmo local: as comunidades virtuais, repositórios de experiência e orientação, e em exemplos inspiradores ao redor do mundo. Nossas identidades digitais podem ser extremamente vulneráveis, mas em compensação não estamos a mais do que um clique de distância de algo ou alguém capaz de nos ajudar – se soubermos como procurar e o que pedir.
 Por fim, existe a questão relacionada à nossa própria natureza – e aonde nossa inédita capacidade para autossatisfação e distração pode nos levar. A tecnologia pode ser uma fonte de prazer e um caminho em direção à ação no mundo, mas também possui o potencial para desequilibrar a vida dos indivíduos e das sociedades em torno dela. Para fazer parte dessa dicotomia de modo produtivo, precisamos distinguir entre a arena tame, cercada, da liberdade digital, e os desafios normalmente incipientes que a vida nos lança. Um não pode ser substituído pelo outro, nem nos ensinar a lidar com ele de forma completa. Entretanto, acredito que podemos aprender bastante sobre como domesticar (tame) pelo menos algumas áreas de nosso mundo, e a nos conectarmos aos cidadãos de hoje e do futuro.
 Todos esses argumentos e crenças estão calcados em uma perspectiva humanista – da forma como acredito que todas as questões concernentes a como prosperar devem estar. Somos a única medida de nosso próprio sucesso, e essa medida não pode ser estabelecida de modo definitivo.
 Há mais de dois mil anos, Aristóteles usou o termo eudaimonia para descrever a prosperidade e o engrandecimento humanos. Diferentemente de sucesso material ou prazer físico, eudaimonia significa viver no sentido mais humanamente possível. Do ponto de vista etimológico, é composta pela combinação das palavras “bom” e “espírito guardião”, e implica um estado semelhante a ser observado por uma entidade divina.
 Para determinar a natureza da eudaimonia, Aristóteles recorreu a outro conceito, relacionado: areté, que significa virtude ou excelência. Ser o melhor ser humano possível significava atingir a excelência nas formas mais nobres de realização humana. E estas, segundo Aristóteles, eram os campos da virtude e da razão: faculdades exclusivas dos seres humanos, entre todos os seres vivos.
 Uma vida de contemplação virtuosa, hoje, pode estar longe de parecer uma resposta satisfatória – ou viável – para a maioria das pessoas, no que tange à questão da prosperidade. Contudo, parece óbvio, ao olharmos para a situação atual e futura da tecnologia, que nossas realizações e potenciais mais notáveis ainda residam no campo mental e que qualquer forma de excelência esteja intimamente ligada tanto à nossa razão quanto à nossa virtude.
 Afirmar que somos a única medida de nosso próprio sucesso pode ser posto de outra forma: que somos a única medida do sucesso uns dos outros. Assim como palavras, nossas identidades possuem pouco significado fora de contexto. Nós nos inventamos e reinventamos constantemente.
 Hoje em dia, esse processo significa representar um personagem completamente novo em meio à coletividade mutante do mundo digital. A razão – um dos atributos que Aristóteles afirmou ser exclusivo da humanidade – é hoje propriedade também de nossas ferramentas: máquinas cada vez mais complexas, construídas por nós, e que estão ajudando a nos reconstruir em resposta. Entretanto, esse processo não precisa nos diminuir. Pelo contrário, devemos tentar ir cada vez mais fundo no questionamento sobre o que nos faz humanos, em última instância, e o que nos une uns aos outros.
 Como o escritor norte-americano Brian Christian – que se baseia fortemente em Aristóteles – escreveu em seu livro The Most Human Human [O maior humano humano], publicado em 2011, “se existe uma coisa pela qual a humanidade é culpada, há bastante tempo – desde a Antiguidade, pelo menos –, é por uma espécie de altivez, uma espécie de superioridade 7”. Essa superioridade está presente, acima de tudo, no campo intelectual: a percepção da singularidade de nossa mente e de seu indiscutível status privilegiado no universo.
 Hoje, somos desafiados de forma sem precedentes. Somos desafiados pela lógica instantânea e pelas capacidades infinitas de nossas máquinas; pela presença digital de muitos bilhões de seres humanos; por bilhões de vezes essa quantidade de dados; e pelo que isso provoca em nosso senso de altivez e de autoridade. Ao mesmo tempo, estamos diante também de oportunidades inéditas, tanto para a ação quanto para a reflexão.

A escola de Atenas: lições duradouras de como viver uma vida equilibrada, e nenhum iPad à vista

 Prosperar significa enfrentar esses desafios. Será que estamos prontos? Nem todos, e não o tempo todo. Hoje, em uma era de conexões e interconexões que se espalham de modo inédito, tanto as recompensas quanto o preço pelas derrotas são mais altos do que jamais foram. Entretanto, acima de tudo, é preciso começar – ligar, carregar, sintonizar – e descobrir, juntos, o que podemos nos tornar.

(Tom Chatfield - Como Viver na Era Digital)

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publicado às 18:28

Nada é tão nosso como os nossos sonhos.
 
 
O ciclo da vida ao contrário
A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.
 
Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.
 
"Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?"
 
 
Tenha sempre em mente que as preocupações com a morte freqüentemente se disfarçam em trajes sexuais. O sexo é o grande neutralizador da morte, a antítese vital absoluta da morte. (...)
O termo francês para orgasmo, la petite mort ("pequena morte"), aponta para a perda orgásmica do self, que elimina a dor da separação — o "eu" solitário desaparecendo no "nós" fundidos.
(Irvin D. Yalom - Os desafios da terapia)
 

 
 
Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato.
E então, pude relaxar.
Hoje sei que isso tem nome... Auto-estima.

Quando me amei de verdade, pude perceber que minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra minhas verdades.
Hoje sei que isso é...Autenticidade.

Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento.
Hoje chamo isso de... Amadurecimento.
 
Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo.
Hoje sei que o nome disso é... Respeito.
 
Quando me amei de verdade comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável... Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início minha razão chamou essa atitude de egoísmo.
Hoje sei que se chama... Amor-próprio.
 
Quando me amei de verdade, deixei de temer o meu tempo livre e desisti de fazer grandes planos, abandonei os projetos megalômanos de futuro.
Hoje faço o que acho certo, o que gosto, quando quero e no meu próprio ritmo.
Hoje sei que isso é... Simplicidade.
 
Quando me amei de verdade, desisti de querer sempre ter razão e, com isso, errei muitas menos vezes.
Hoje descobri a... Humildade.
 
Quando me amei de verdade, desisti de ficar revivendo o passado e de preocupar com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece.
Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é... Plenitude.
 
Quando me amei de verdade, percebi que minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada.
Tudo isso é... Saber viver!!!
 
Penso que este texto, erroneamente, tem sido atribuído a Charlles Chaplin, sendo seus autores Kim e Alison McMillen.No entanto, penso que toda a filosofia de vida aqui exposta coaduna-se perfeitamente com a eterna mensagem da filmografia deste actor imortal.

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publicado às 22:58

O homem desajeitado em assuntos de relacionamento (“a
fera”), que por amor a uma linda mulher (“a bela”) se aprimora
e se transforma em príncipe – essa imagem fascinante
continua a rondar a cabeça de homens e mulheres. Como
tal “processo de aprimoramento” pode de fato acontecer,
e apenas reciprocamente, é o que nos mostra “Amor e Psique”
na antiga versão original desse conto de fadas.


A história por trás dos personagens de a Bela e a Fera
 
Um musical de sucesso

       O título terrivelmente desafortunado “A bela e a fera” não impediu que nos últimos anos esse musical fizesse enorme sucesso também na Alemanha. O modelo imediato para a peça foi um desenho animado de Walt Disney, que, por sua vez, retoma o conto de fadas francês “La Belle et la Bête”, escrito no século XVIII por madame Leprince de Beaumont, que também se apoiou em uma versão bem mais antiga e detalhada. Além disso, o desenho animado e o musical incorporaram vários personagens e elementos de ação acrescentados pelo autor Jean Cocteau, que filmou o tema em 1945-1946.(1) Também nos irmãos Grimm o tema da fera, que é um príncipe encantado, emerge de forma um tanto minimizada e infantilizada, a saber, no conto de fadas “Branca de Neve e Rosa Vermelha”.

       Ao que parece, para que a fera repugnante, que se transforma graças ao amor de uma jovem bonita, interesse tanto a autores e compositores e atraia o público dessa forma é porque ela deve ser uma fantasia de relacionamento fascinante. De que trata a história? Em todas as versões, a fera é nitidamente do sexo masculino. Ora é um urso desajeitado, ora um monstro feio, colérico, bruto e aparentemente ainda mais perigoso, ora uma mistura de javali, urso e tigre. Bela, a jovem bonita que vai parar no castelo desse monstro em circunstâncias ilustradas de diferentes maneiras, inicialmente sente medo, repugnância e aversão por ele. Porém, com o tempo, surge  uma relação. A bela ganha influência e chega até a exercer um efeito manifestamente tranquilizador e enobrecedor sobre a fera. Apesar disso, por muito tempo ela resiste ao desejo que a fera lhe exprime toda noite. De fato, a fera quer que a bela se case com ela, ou que a ame, ou até, sem mais rodeios, que vá para a cama com ela, e aqui cada versão apresenta pequenas e sutis diferenças. A amada bela parece não ter coragem para dar tal passo, sobretudo porque – pelo menos em uma das versões –, em sonho, sempre lhe aparece um príncipe elegante, que é muito mais agradável e atraente que a fera. No entanto, após diversas situações complicadas e confusas, ela acaba cedendo: confessa seu amor à fera, no momento em que esta se vê à beira da morte. A declaração de amor faz com que a fera se transforme no lindo príncipe que aparecia nos sonhos da bela e com o qual ela poderá finalmente celebrar seu casamento.

       Uma história tocante. Que tipo de imagem pode-se entrever nesse relacionamento entre homem e mulher? A mim parece que se trata da imagem do patriarcado, visto aqui da perspectiva feminina. Traduzido sem rodeios poéticos, o que o conto de fadas exprime é que, “em si” e por natureza, os homens são animais toscos, sem autocontrole e impulsivos. Somente pelo amor da mulher é que se transformam. A repugnância e o medo desse monstro são totalmente justificados. Contudo, o destino da mulher é renunciar a seu belo ideal (o príncipe no sonho), superar com abnegação o medo e a repugnância, entregar-se (ou melhor, render-se) e amar o monstro (e até mesmo estar pronta para dividir a cama com ele!). Depois, pode acontecer de a fera humanizar-se sob sua influência benéfica e aproximar-se de seu ideal – somente por meio de seu amor abnegado, com o qual, na verdade, o homem nada tem a contribuir, a não ser “deixar-se amar”.

       A imagem desse tipo de relacionamento é patriarcal porque não abala a posição dominante do homem. Para quem está de fora, ele é e permanece o “senhor do castelo” que toma as decisões, enquanto a mais nobre missão da mulher é entregar-se a ele de maneira servil. Com seu amor, ela compensa esse aviltamento justamente ganhando poder sobre o homem, escapando, por assim dizer, de sua necessidade de dominar e de sua impulsividade, e domando-o. Dessa forma, a história reflete exatamente o relacionamento entre mulher e homem tal como ele era visto na sociedade burguesa, por exemplo, dos séculos XVIII e XIX: o homem domina da porta de casa para fora (“patriarcado oficial”); porém, dentro de casa, no seio da família, a mulher submete todos a seu suave domínio (“matriarcado não oficial”). Seria esse um modelo de relacionamento ultrapassado na era da igualdade de direitos?

       Sem entrar no mérito da questão, as pessoas foram em massa ao musical, inclusive os jovens e os que se dizem modernos e progressistas. Por acaso estariam com saudade desses “relacionamentos à moda antiga”? Será que as velhas imagens de um tempo passado ainda estão muito mais vivas na alma do que imaginamos? Pode até ser, pois mesmo na sociedade atual costumamos viver a ressurreição de modelos de relacionamento que se acreditavam ultrapassados. Contudo, talvez haja mais alguma coisa em jogo. Talvez a história da bela, da fera e de sua transformação trate de um tema muito profundo e ainda válido, que sempre encontra razão para nos mover. Isso se torna mais claro se não nos detivermos na versão do musical, mas formos buscar as raízes remotas do conto de fadas. Muito provavelmente, trata-se da reprodução de um modelo antigo, que se encontra no âmbito de um romance autobiográfico do escritor romano Apuleio: o conto de Amor e Psique. Nele aparecem quase os mesmos personagens, e no decorrer da ação também há muitos paralelismos. Todavia, em Apuleio, o conjunto recebe um sentido totalmente diferente e contém outra mensagem. Para compreendê-la, ocupemo-nos dessa versão primitiva. A quem não tiver acesso a ela ou achar sua linguagem demasiado difícil, ofereço aqui uma versão resumida.

      
         Resumo do conto
        “Amor e Psique”

         “Havia em uma cidade um rei e uma rainha que tinham três filhas.” A mais nova logo ganhou a fama “de ser tão bela quanto a deusa Vênus”. A comparação com uma mortal desperta o mau humor da deusa. Vênus quer punir a infeliz e, por meio de um terrível oráculo, anuncia aos pais da moça que eles devem abandonar a filha em um rochedo, onde um monstro a tomaria como esposa. E incumbe seu filho Amor de fazer com que ela se apaixone pelo monstro.

         Inesperadamente, Psique encontra no rochedo um belo palácio, no qual se instala com receosa expectativa. Encantado com sua beleza, na escuridão da noite, Amor deita-se a seu lado; porém, com medo da mãe, não quer ser reconhecido. Assim, ameaça a amada de abandoná-la no mesmo instante se ela tentar levantar o véu de sua identidade, e sempre desaparece pouco antes do amanhecer. Psique fica feliz com as visitas afetuosas e apaixonadas. Afora o amante noturno, ela vive sozinha, mas satisfeita no palácio. Em pouco tempo, fica grávida. Ao visitarem-na, suas irmãs invejosas insistem para que ela veja o amante misterioso à luz, para saber se ele é mesmo o monstro que lhe fora profetizado. Psique acaba por ceder à curiosidade delas e à sua própria, e acaba iluminando Amor durante o sono com um lampião a óleo, mantendo ao mesmo tempo uma faca ao alcance da mão. Ao vê-lo, logo se apaixona perdidamente, quer beijá-lo, mas, por descuido, queima-o com uma gota de óleo quente, despertando-o e fazendo com que ele fuja, tomado de ira.

         Para cuidar de sua ferida, Amor volta a se estabelecer junto de Vênus, sua mãe, que se enfurece com o filho desobediente e com Psique, que o seduzira:

         “Que digna harmonia com minha família e sua amabilidade: primeiro você ignora as prescrições da sua mãe, ou melhor, senhora; depois, não apenas deixa de martirizar minha inimiga com um namorico indecente, como também, com seus abraços animados e imaturos para um rapaz da sua idade, chega a deitar-se com ela, de maneira que possivelmente terei de suportar minha inimiga como nora. Mas se você está achando que é o único príncipe e, por causa da minha idade, já não posso conceber, fique sabendo – seu fanfarrão, desmancha-prazeres e mal-educado – que darei à luz um filho muito melhor que você ou, antes, para que você sinta ainda mais vergonha, vou adotar um dos meus escravos domésticos e dar-lhe de presente essas asas, as chamas, o arco e até mesmo as flechas, que não lhe dei para que você os usasse dessa forma...”

         Enquanto isso, Psique erra pelo mundo à procura de seu amado. Vênus a faz prisioneira, manda chicoteá-la, humilha-a e, sem dó nem piedade, impõe-lhe uma série de tarefas que, à coitada, parecem tão impossíveis de ser cumpridas que ela perde completamente a vontade de viver: é obrigada a separar montanhas de cereais, ervilhas, lentilhas e feijões; a escalar rochas íngremes para pegar um pedaço da lã dourada de carneiros agressivos; a buscar da água misteriosa e vigiada por serpentes; e a trazer do reino dos mortos um bálsamo de beleza para a insaciável Vênus.

         Animais, plantas e pedras falantes ficam com pena de Psique e a ajudam a cumprir as tarefas. As formigas separam os grãos. O junco a aconselha a colher a lã nos arbustos, ao cair da tarde, quando os carneiros estivessem dormindo. Uma águia a ajuda a buscar a água, e uma torre não apenas lhe indica a direção do Hades, mas também lhe informa em detalhes quem ela iria encontrar pelo caminho no reino dos mortos e como deveria comportar-se. Quando finalmente consegue pegar o bálsamo de beleza, não aguenta de curiosidade e, contrariando a proibição de Vênus, abre o frasco. Imediatamente cai em sono eterno. No entanto, Amor, que nesse meio-tempo reconheceu seu amor por Psique, passa a agir. Para salvá-la, dirige-se a Zeus, pai dos deuses, para pedir-lhe ajuda. Zeus tem simpatia por Amor e apazigua a vingativa Vênus, concedendo a Psique a imortalidade. Em seguida, comemora-se um matrimônio realmente divino, como convém aos deuses. “... e, no momento oportuno, tiveram uma filha, que chamamos de Prazer
.”(2)

O amor como fusão

       A diferença mais evidente em relação ao conto da bela e da fera é que o amado não é realmente uma fera, mas, na imaginação de Psique, nela se transforma graças à intervenção de suas irmãs. Desse modo, todo o conto recebe um sentido totalmente diferente.

       Amor (em grego, Eros) e Psique são um casal muito jovem, tal como João e Maria. Entre eles, porém, a união erótico-sexual desempenha um papel importante, que, obviamente, não ocorre em João e Maria, uma vez que, do ponto de vista do conto, ambos são irmãos. Sem os freios da censura cristã, Apuleio faz com que Psique enalteça com o máximo entusiasmo o prazer que sente junto ao desconhecido que a visita na escuridão da noite. Trata-se, portanto, de um casal que por muito tempo vive um intenso prazer sexual.

       Amor/Eros é o rapaz alado com arco e flecha, tal como o conhecemos das representações antigas e barrocas, e Psique também parece ser uma moça bastante jovem. É incrivelmente bela e por isso o centro de interesse das pessoas, que veem nela uma nova Vênus (em grego, Afrodite), a incorporação de uma nova deusa do amor. Contudo, como costuma acontecer, essa glorificação externa tem um reverso interno. Psique parece ser uma moça solitária. Seus pais não demonstram empatia nem compreensão em relação a ela. Neles, ela não encontra nenhum amparo quando ameaçada de perigo. Anseia o amor, e esse anseio dirige-se cada vez mais para fora, para um possível parceiro.

       Amor recebe de sua mãe, Vênus, a incumbência de ferir Psique com sua flecha, para que ela – como punição pela “concorrência” – apaixone-se por um monstro. Amor é o típico “filho-amante” das antigas mães deusas, ou seja, é ao mesmo tempo o filho que ela dá à luz e o amante a quem ela
se une – originariamente, era o que fazia a roda do ano avançar do inverno novamente à fértil primavera, personificada por Amor. Do ponto de vista psicológico e já como Apuleio o ilustra, Amor aparece como o protótipo do filho muito ligado e submetido à mãe e, ao mesmo tempo, do filho rebelde, que dela tenta se libertar. O mesmo se dá no conto. Amor não obedece à ordem da mãe. Ao ver Psique dormindo, apaixona-se por ela e assim se torna “infiel” à sua própria mãe.

       Naturalmente, ninguém pode saber disso. Por essa razão, Psique não está autorizada a ver nem a reconhecer Eros. Assim, travam o seguinte acordo: Amor a visita, eles se amam, mas tudo deve ocorrer na escuridão da noite, quando sua figura permanece oculta, e Psique não pode saber quem ele realmente é. Desse modo, encontram-se todas as noites e, juntos, celebram a festa dos sentidos. Por muito tempo, todos parecem satisfeitos com a situação, seja porque nada sabem, seja porque podem desfrutá-la sem serem perturbados.

       O tema, nesse caso, é a intensidade do primeiro amor. Psique finalmente encontrou aquilo que seu coração tanto ansiava, e Amor finalmente escapou à reivindicação de posse de sua mãe. No entanto, tudo precisa acontecer na escuridão. Isso significa duas coisas: 1) na verdade, não são duas pessoas que se encontram, cara a cara. O que vivem é uma fusão, uma união ditosa. Um ainda não “vê” o outro como ser separado dele, como oposto; 2) o que acontece precisa permanecer velado – sob a ameaça de uma separação imediata. Amor exprime essa ameaça, o que é “típico de um filho muito ligado à mãe”. Esta não pode saber de nada; somente assim ele “está autorizado” a viver completamente seu amor por outra mulher. E, quando amanhece, ele volta para junto da mãe, como se nada tivesse acontecido. Porém, inicialmente, isso tampouco é um impedimento, pois é muito bom ficar com a amada na escuridão da noite, e melhor ainda por ser proibido. Todavia, do ponto de vista psicológico, isso significa que esse amor ainda está totalmente na escuridão do inconsciente, não tem um verdadeiro oposto nem uma limitação – interna ou externa. É um amor sincero, intenso, mas profundamente simbiótico, tal como costumamos encontrar nos “primeiros amores”. É bom que seja assim e, em certo sentido, tem de ser assim. O que não é possível é que ele permaneça assim para sempre. Justamente quando esse amor é tão profundo, sincero e intenso, justamente quando, como no conto, os amantes desabrocham e podem viver plenamente seu amor, inicia-se um desenvolvimento que ameaça romper tudo de maneira dolorosa, mas que tem de acontecer para que os amantes cresçam interiormente.

       O despertar de Psique

       No conto, as duas irmãs tornam-se ativas. De modo bastante semelhante às irmãs da bela, em “A bela e a fera”, elas chegam a ser apresentadas como criaturas antipáticas, invejosas, malévolas e profundamente insatisfeitas com seus próprios relacionamentos. No entanto, do ponto de vista psicológico, desempenham um papel muito importante: graças a elas, as seguintes perguntas tornam-se imperiosas para Psique: Quem é, na verdade, aquele a quem todas as noites me uno com tanta felicidade? Por que ele não se mostra? Por que sempre desaparece? Seria ele obrigado a esconder quem verdadeiramente é? Seria ele o monstro em forma de animal, profetizado pelo oráculo, a quem ela se entrega? Ela já não consegue se entregar à fusão simbiótica sem se questionar. Seu amor quer ver. Assim, começa a emergir da escuridão do inconsciente.

       Esse trecho me faz lembrar inúmeros casos semelhantes nas terapias de casais. Depois que o primeiro período de paixão intensa passa, que o cotidiano se instala, que a mulher talvez dê à luz o primeiro filho e o homem comece a fazer carreira... À noite, como antes, ele quer se unir feliz a ela e, de manhã, sai para trabalhar. Ela não sabe o que ele tem, sabe cada vez menos a respeito do que o move, e começa a fazer perguntas, a conversar com as amigas, a ler livros e revistas de psicologia, que ao homem em questão, cuja “paz” ela perturba, geralmente parecem tão antipáticos como no conto de fadas são apresentadas “as irmãs”. Aos poucos, a mulher passa a suspeitar de que não é apenas a grande quantidade de trabalho que o faz chegar tão tarde em casa, e começa a se perguntar: “Será que ele está se afastando de mim?” Sente de maneira cada vez mais clara: agora, que “é dia”, que o cotidiano se instalou, ele já não consegue manter a relação com ela. De repente, outras coisas se tornam mais importantes. Será que ele está tão longe e já não é acessível porque seu coração está preso em outro lugar? Então, ela começa a fazer essas perguntas a si mesma, mas ele nada percebe. Na escuridão da noite, quer novamente se unir a ela.

       Então ela começa a realmente querer saber. Como Psique, pega a “luz” e o “punhal”. Começa a observar melhor (lampião a óleo) e já não aceita ser deixada em segundo plano; ao contrário, passa a pressioná-lo com perguntas (punhal): “Será que tudo na sua profissão é realmente tão importante? A quem você obedece internamente? Às exigências da sua mãe, do seu pai, para quem você sempre precisa ser o máximo? Ou você é um animal explorador, que nada mais tem na cabeça além de sexo e que não se importa nem um pouco comigo?” Ela realmente quer esclarecer a questão, em vez de continuar se unindo “de maneira inconsciente” a ele.

       Infelizmente, na maioria das vezes, ele não suporta a desconfiança, do mesmo modo como seu antigo modelo Amor na história. Assim como o óleo do lampião de Psique queima Amor, abrindo nele uma ferida, o parceiro em questão também se sente perturbado, ferido e magoado com o novo comportamento da mulher. Sente-se assustado, talvez também surpreso, e não quer se sentir assim. Então, acaba se fechando e desaparecendo – como Amor – para nunca mais voltar, pelo menos enquanto ela não parar de usar a luz e o punhal. Para nunca mais voltar no sentido de que externamente se separa (talvez até, como Amor, voltando para sua mãe) e procura uma nova amada “na escuridão”, ou então no sentido de que se entrincheira, mergulha no trabalho e, do ponto de vista anímico e mental, mostra-se cada vez menos presente, mesmo quando, fisicamente, como de costume, volta à noite para casa e quer dormir com ela – que, contudo, passa cada vez mais a rejeitá-lo, “sentindo a necessidade” de reagir de acordo com a sua vivência.

       Infelizmente, muitas vezes a realidade se assemelha ao conto: o homem não suporta a luz, que o fere, e vai embora. Mesmo irritada com a situação, em seu íntimo a mulher muitas vezes se sente exatamente como no conto: profundamente ligada ao homem, sentindo a falta dele, de seu corpo, de seu cheiro, de seu carinho e de sua juventude, que ainda estão impregnados em sua pele. Mas ela já não pode se entregar a ele – pois, para ela, teria de surgir outra qualidade nele, algo que fosse mais claro, mais consciente, fruto de mais diálogo, mais discussão. No entanto, ele rejeita tudo isso abruptamente e, como Eros, desaparece do relacionamento.

       A busca por Eros

       Para as mulheres que vivem essa situação, é importante observar como Psique lida com ela. Psique sofre uma grande dor – como, na maioria das vezes, as mulheres em nosso exemplo. Decidida, vai embora e passa a se dedicar às tarefas que lhe são impostas, as quais tem de resolver sozinha. No conto, ela também não tem escolha. E embora nesse momento se trate apenas dela, a situação igualmente tem algo a ver com Amor/Eros: as tarefas são impostas pela deusa do amor, Vênus/Afrodite, e o objetivo de cumpri-las não é outro senão reencontrar o Eros perdido; contudo, em um estágio novo e mais maduro, e não mais apenas na escuridão inconsciente da noite.

       Na vida real, nesse estágio, a situação fica muito difícil. Justamente na primeira fase da paixão, quando a mulher sentiu o eros de maneira tão intensa na sexualidade conjunta com seu parceiro, surgiu uma forte ligação. Ela não quer abrir mão desse sentimento. Sabe que ele é possível, que pode ser belo, e que, além disso, pode ser com esse homem. Mas também sente que esse amor já não pode ser como tem sido até então. É preciso mudar, estar mais “cara a cara”. Assim, ela se arrisca e passa a se lamentar ao marido, ou ao menos sempre tenta fazer isso, nos momentos bons e ruins. Como isso de nada adianta, às vezes se cala e se fecha, buscando nos filhos e em outras mães alguma compensação... Mas Eros não volta e se afasta cada vez mais! O homem se torna um caso perdido, ao qual talvez ela ainda sirva, e que por vezes tenta educar, como a bela o faz com sua fera, porém ainda sentindo medo e repugnância de sua proximidade física e, por isso, evitando-a obstinadamente.

       Como Psique reage no conto? Ela parte sozinha, ou seja, quando sente claramente que não dá para continuar sem “punhal” e sem “luz”, e quando para o homem isso realmente nada significa além de se ver ferido, frustrado e descoberto, motivo pelo qual ele foge, então de nada adianta ir atrás dele. É doloroso, mas o que se quer mostrar é um claro distanciamento, um caminho próprio. Sigamos agora esse caminho dado pelo exemplo de Psique. Em nossa realidade, porém, isso nem sempre precisa significar uma separação externa. Em primeiro lugar, trata-se de um processo interno, e quero, conscientemente, deixar em aberto em que situação externa ele é realizado.

       Nesse ponto, as descrições do conto tornam-se muito dramáticas. Psique é chicoteada, apanha, pensa várias vezes em suicídio, está sempre desanimada. Ampliados do ponto de vista mítico, aqui se apresentam todos os estados de ânimo que as mulheres podem sentir em situações semelhantes. No entanto, mesmo com todas as dificuldades, Psique não desiste. Não se conforma (“Não há mesmo o que fazer”), tampouco se amargura (“Os homens são mesmo todos iguais”), mas se submete às tarefas que deve cumprir. Sempre encontra ajudantes e aceita o auxílio deles. Isso não é uma coisa óbvia. Às vezes, as mulheres se sentem desamparadas nessa situação, acham que têm de resolver tudo sozinhas e acabam por sobrecarregar-se. Psique aceita ajuda: das formigas, do junco, da águia e da torre. Não pretendo entrar aqui em simbologias complicadas, extraio apenas o essencial delas: ela recebe ajuda e a aproveita, e essa ajuda deve ser múltipla e variada, porque ela está pronta a aceitá-la. Portanto, Psique diz às suas companheiras de destino atuais: não fujam da responsabilidade, não fiquem se lamentando a seus maridos. Além disso, decidir seguir o próprio caminho não significa não aceitar ajuda. Nessa situação, a ajuda dos outros é necessária, e até faz bem aceitá-la!

       Também no que se refere às quatro tarefas que Psique tem de resolver com precisão, não quero entrar na simbologia certamente complexa e profunda. Isso tomaria muito tempo e, a esse respeito, o essencial já foi dito, e não posso nem gostaria de acrescentar nada.(3) Tal como a Gata Borralheira, Psique tem primeiro de separar os grãos e as sementes; depois, tem de pegar flocos de pelo dourados de ovelhas selvagens (provavelmente, pensava-se em carneiros); em terceiro lugar, tem de ir buscar água na fonte que são necessários ao cumprimento das tarefas. Portanto, ela precisa superar as dificuldades e se reerguer, mesmo quando o desânimo se abate sobre ela.

       Assim, Psique está sempre em busca de Eros. Não se desvia de seu objetivo e não se torna amargurada. Esse é um grande perigo que correm as mulheres em uma situação de vida semelhante. Embora tomem as rédeas da própria vida com coragem, perdem ou reprimem o outro lado, o da dedicação, que viveram um dia com o marido. A decepção é tão grande que desistem dele para sempre. Tornam-se parcialmente autoritárias, ativas, criativas e se perdem nas tarefas de ajudar e cuidar das crianças ou na profissão. O outro lado, o da dedicação afetuosa voltada ao marido, se perde. Homens como parceiros possíveis desaparecem de sua vida. O fato de com Psique ter sido diferente revela-se, sobretudo, em sua “desobediência” na quarta tarefa: ela tem de levar a Vênus o frasco com o bálsamo de beleza eterna sem abri-lo, mas o abre para ter acesso à substância... Ou seja, mesmo com toda a “emancipação”, quer ser e permanecer para o marido a mulher bela e cobiçada; além disso, não esconde a falta que sente dele.

       A libertação do amor

       Segundo o conto, ao abrir o frasco, Psique é punida por Vênus com o sono eterno por sua desobediência. Isso significa que esse sono seria eterno se Amor, por sua vez, não reaparecesse e não deixasse de lado todas as considerações: sem levar a mãe em conta, ele intervém. Corre em seu auxílio e a desperta. Assim, emerge da escuridão e – que milagre! – põe um ponto-final em seus segredinhos: socorre Psique – abertamente e diante de todo o mundo, ou seja, diante de sua mãe e de todos os deuses do Olimpo, e roga a Zeus para que ele legalize seu relacionamento com sua amada. Zeus o faz, elevando Psique à condição de deusa e possibilitando, assim, que o matrimônio seja devidamente realizado.

       Portanto, após a última noite de amor, Eros não teria sumido sem deixar rastro, como parece. Também não fizera as pazes com a mãe. Mesmo antes de sua intervenção, o conto narra que Vênus fica sabendo do caso amoroso do filho. Segue-se uma discussão que não passa despercebida. O verdadeiro arquétipo da descompostura materna, que Apuleio faz Vênus passar ao filho muito ligado a ela e que começa a criar asas. Embora Amor esteja se recuperando de suas feridas em um pequeno cômodo tranquilo, de algum modo parece ficar sabendo do que acontece a Psique. Parece acompanhar o caminho percorrido por ela. E, aparentemente, isso o impressiona tanto que, quando ela se vê em apuros, ele acaba deixando todas as considerações de lado, contrariando a estratégia da mãe, despertando Psique do sono mortal e ainda encontrando forças para defendê-la abertamente.

       Do ponto de vista psicológico, o que se poderia dizer a respeito? Certamente há homens que ficam cuidando da ferida causada pelo “punhal” e pelo “óleo do lampião” de sua “Psique” e nada aprendem, a não ser que busquem a próxima escuridão com outra mulher. Internamente, continuam ligados à própria mãe, de maneira que só podem viver seu amor “em segredo” (muitas vezes em relacionamentos externos) – por assim dizer, na escuridão da inconsciência. Mas também há homens cuja ferida os leva a ocupar-se de si mesmos e da própria vida. O acesso de fúria de Vênus no conto indica que isso não é possível sem uma libertação do vínculo com a mãe. Por certo, essa libertação não deve ocorrer sempre de modo tão mítico e dramático como apresentado no conto. Tampouco depende do grau da discussão, e sim dos passos dados rumo à libertação, e, para tanto, é preciso ter muita coragem, uma coragem que muitos homens em idade avançada não conseguem criar.

       No final da nossa história, Amor/Eros desperta da escuridão para uma nova vida. Ele corre para socorrer a corajosa Psique em sua última crise e se coloca abertamente ao seu lado. Isso significa que, no final, Psique não consegue se virar sozinha. Para que o amor possa desabrochar em um plano novo e mais maduro, ou talvez até para que ele volte a florescer, também é necessário o despertar de um “novo” Eros no homem, que o leve a ficar ao lado de sua mulher como um homem completo – mente, corpo e alma – e que dê a esse relacionamento o lugar central em sua vida. O “despertar” da mulher o colocou em crise; o fato de ela o ter pressionado com o punhal e o óleo do lampião o feriu e lhe causou dores, mas essa é a sua chance: de também sair da escuridão, de deixar de ser o jovem preso à mãe, de se tornar o parceiro apaixonado e em pé de igualdade com uma mulher também apaixonada. O conto simboliza esse “despertar”, com a aceitação igualitária do casal por Zeus, no Olimpo dos deuses, e com o fato de que ambos têm um filho que traz o nome de “Prazer”.

       Se a partir disso lançarmos um olhar retrospectivo ao conto da bela e da fera, podemos avaliar novamente a diferença de visão em relação ao que ocorre no relacionamento de um casal: nesse conto, a bela tem de aprender a amar, porém esse amor tem um aspecto de submissão. Não há para ela nenhum desenvolvimento que a leve à independência, tendo ela de renunciar totalmente a seus desejos. Quanto à parte masculina, a fera, tampouco precisa de fato se desenvolver; tem apenas de ser domada e tornar-se um pouco mais caseira para que tudo fique em ordem. Que bom seria! Seria mesmo bom? Acho que não. O melhor caminho é aquele reconhecidamente árduo de Amor e Psique, que nos preenche de verdadeiro prazer quando estamos preparados para percorrê-lo.


 (Jellouschek, Hans.- Espelho, espelho nosso)

NOTAS: 
(1) Cf. a respeito: madame Leprince de Beaumont, Die Schöne und das Tier. Ein Märchen. Posfácio de Maria Dessauer. Frankfurt a. M.: Insel Verlag, 1977, pp. 47-57. 

(2) Esse resumo toma por base a tradução de A. Schaeffer em E. Neumann, Amor und Psyche: Deutung eines Märchens. Ein Beitrag zur seelischen Entwicklung des Weiblichen. Olten: Walter Verlag, 1971. 

 (3) Cf. Erich Neumann, Amor und Psyche: Deutung eines Märchens. Olten: Walter Verlag, 1971.

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publicado às 18:07

Ele a admira. Ela é a musa que o inspira a uma criatividade
jamais conhecida. Certo dia, porém, ele descobre que a
perdeu. O amor dela desapareceu tal como Eurídice no reino
dos mortos. Ele faz de tudo para reconquistá-la. Mas alguma
coisa sai errado, alguma coisa lhe passa despercebida,
pois, no momento decisivo, ela volta a escapar-lhe – e agora
para sempre. Ele é um homem talentoso, talvez até famoso.
No entanto, no amor, de alguma maneira é inábil,
visto que algo semelhante já lhe ocorreu várias vezes. Por
que será? Talvez com Orfeu a resposta fique mais clara.

Na Antiguidade, os cultos órficos eram uma orientação religiosa que tinha sua origem no poeta Orfeu. Atualmente, Orfeu é menos o fundador de um culto em nossa memória do que parte de um casal especialmente trágico: Orfeu, o poeta mítico, que encantava pessoas, animais e plantas com seu canto, e Eurídice, sua esposa, que lhe foi arrancada pela morte e que ele – graças a seu canto – tentou trazer de volta à vida, perdendo-a no último instante. Com a leitura de antigas lendas heroicas ou com as óperas de Ch. W. Gluck e C. Monteverdi, hoje ainda encenadas, os leitores podem conhecer o desenrolar do trágico acontecimento. Não obstante, segue um breve resumo:

      
         A história de Orfeu e Eurídice

         Orfeu, filho de um rei da Trácia e da musa Calíope, é o poeta e músico mais conhecido das lendas gregas. Seu canto domava animais selvagens e encantava até mesmo as árvores e as rochas. Ao fugir de um homem que queria violentá-la, sua esposa, Eurídice, foi mordida por uma cobra e morreu. Sem suportar a perda, o audacioso Orfeu desceu ao reino dos mortos para buscá-la. Todos que encontrava pelo caminho ficavam tocados com a música de sua lira e com seu canto. Ele conseguiu sensibilizar até mesmo o furioso Hades e fazer com que ele deixasse Eurídice voltar ao mundo dos vivos. Hades lhe impôs uma única condição: Orfeu não podia olhar para trás até ambos estarem seguros à luz do sol. Eurídice seguiu Orfeu pelo caminho escuro, conduzida pelos sons de sua lira. Ao alcançar a luz do sol, Orfeu se virou para ela – e a perdeu para sempre.(1)

O mito de Eurydice e Orfeu fala sobre a força do tempo, do momento oportuno para nos conscientizarmos
 
 Alguma coisa não está certa
       O sofrimento de nosso herói mítico pode ser compreendido por todos e desperta espontaneamente nossa compaixão por ele. Contudo, sempre que encontrei essa história na literatura ou na música, embora eu tenha sentido sua tragicidade, também tive a impressão de que se trata não apenas de um acaso cruel ou de um jogo cínico que os deuses praticam com os mortais para dar-lhes esse fim. Orfeu e Eurídice se amam profundamente. No entanto, parece-me que alguma coisa em seu relacionamento não confere. A pergunta que sempre me surgia era a seguinte: Por que diabos esse Orfeu “tinha” de se virar na saída do Hades, quando estava tão perto do final feliz, e estragar tudo?

       Uma amiga me fez notar um poema de R. M. Rilke, no qual ele reconta essa história a seu modo. Quanto mais me dedico à análise desse poema, tanto mais acredito que Rilke exprime com precisão, por meio de sua linguagem insuperável, embora nem sempre de fácil compreensão, o problema desse relacionamento. Desse modo, ao que parece, quando Orfeu desobedece à condição e olha para trás, pondo com isso tudo a perder, já não se trata absolutamente de ser dominado pelo amor puro. Visto dessa óptica, para mim o casal se torna o modelo de uma constelação de conflitos, que ainda hoje pode ser encontrada com frequência e com a qual podemos aprender muitas coisas. Nem todas as passagens do poema são facilmente compreensíveis. Não obstante, eu gostaria de pedir que os leitores fizessem um esforço para lê-lo integralmente. Quem sentir dificuldade, poderá saltá-lo e voltar a ele no fim do capítulo.


Orfeu. Eurídice. Hermes      

       Eram as minas ásperas das almas.

       Como veios de prata caminhavam

       silentes pela treva. Das raízes

       brotava o sangue que parece aos vivos,

       na treva, duro como pórfiro. Depois

       nada mais foi vermelho.


       Somente rochas,

       bosques imateriais. Pontes sobre o vazio

       e o lago imenso, cinza, cego,

       que sobre o fundo jaz, distante, como

       um céu de chuva sobre uma paisagem.

       Por entre os prados, suave, em plena calma,

       deitado, como longa veia branca,

       via-se o risco pálido da estrada.

       
       Desta única via vinham eles.

       À frente o homem com o manto azul,

       esguio, olhar em alvo, mudo, inquieto.

       Sem mastigar, seu passo devorava a estrada

       em grandes tragos; suas mãos pendiam

       rígidas, graves, das dobras das vestes

       e não sabiam mais da leve lira

       que brotava do lado esquerdo como um feixe

       de rosas dentre ramos de oliveira.

       
       Seus sentidos estavam em discórdia:

       o olhar corria adiante como um cão,

       voltava, presto, e logo andava longe,

       parando, alerta, na primeira curva,

       mas o ouvido estacava como um faro.

       Às vezes parecia-lhe sentir

       a lenta caminhada dos dois outros 

       que o acompanhavam pela mesma senda.

       Mas só restava o eco dos seus passos

       a subir e do vento no seu manto.

       A si mesmo dizia que eles vinham.

       Gritava, ouvindo a voz esmorecer.

       Eles vinham, os dois, vinham atrás,

       em tardo caminhar. Se ele pudesse

       voltar-se uma só vez (se contemplá-los

       não fosse o fim de todo o empreendimento

       nunca antes intentado) então veria

       as duas sombras a seguir, silentes:

       

       o deus das longas rotas e mensagens,

       o capacete sobre os olhos claros,

       o fino caduceu diante do corpo,

       um palpitar de asas junto aos pés,

       e, confiada à mão esquerda: ela.

       A mais amada, essa por quem a lira

       chorou mais que o chorar das carpideiras,

       por quem se ergueu um mundo de chorar,

       um mundo com florestas e com vales,

       estradas, povos, campos, rios, feras;

       um mundo-pranto tendo como o outro

       um sol e um céu calado com seus astros,

       um céu-pranto com estrelas desconformes –

       a mais amada.

       

       Ia guiada pela mão do deus,

       o andar tolhido pelas longas vestes,

       incerto, tímido, sem pressa.

       Ia dentro de si, como esperança,

       e não pensava no homem que ia à frente,

       nem no caminho que subia aos vivos.

       Ia dentro de si. E o dom da morte 


       dava-lhe plenitude.

       Como um fruto em doçura e escuridão,

       estava plena em sua grande morte,

       tão nova que não tinha entendimento.

       

       Entrara em uma nova adolescência

       inviolada. Seu sexo se fechava

       como flor em botão no entardecer

       e suas mãos estavam tão distantes

       de enlaçar o outro ser que mesmo o toque

       levíssimo do guia, o deus ligeiro,

       a magoava por nímia intimidade.

       

       Não era mais a jovem resplendente

       que ecoava nos cantos do poeta,

       nem o aroma do leito do casal

       nem ilha e propriedade de um só homem.

       Estava solta como os seus cabelos,

       liberta como a chuva quando cai,

       exposta como farta provisão.

      

       Agora era raiz.

       

       E quando enfim o deus

       a deteve e, com voz cheia de dor,

       disse as palavras: “Ele se voltou” –

       ela não compreendeu e disse: “Quem?”

       

        Mas pouco além, sombrio, frente à clara

       saída, se postava alguém, o rosto

       já não reconhecível. Esse viu

       em meio ao risco branco do caminho

       o deus das rotas, com olhar tristonho,

       volver-se, mudo, e acompanhar o vulto


       que retornava pela mesma via,

       o andar tolhido pelas longas vestes,

       incerto, tímido, sem pressa.(2)



Duas pessoas que se tornaram estranhas uma para a outra
       Em primeiro lugar, chama a atenção o fato de que, na versão poética que Rilke fez da história, além de Orfeu e Eurídice, o deus Hermes também desempenha um papel, que é o de conduzir Eurídice pela mão ao longo do caminho que leva para fora do reino dos mortos. Possivelmente, Rilke quer marcar com clareza uma importante diferença entre esse deus e Orfeu, pois seu Hermes comporta-se de maneira bastante reservada e cautelosa com Eurídice (“toque levíssimo do guia”), e essa delicadeza cuidadosa está em forte oposição à impaciência e à agitação interna de Orfeu. É como se dois mundos, que nada mais têm em comum, fossem se encontrar e, por isso, a união de um com o outro não pode dar certo.

       De Orfeu, o poema diz que ele está “inquieto” e tem o “olhar em alvo”; que seu passo “devorava a estrada em grandes tragos”; que suas mãos “não sabiam mais” da lira, seu instrumento musical; que seus sentidos estavam “em discórdia”. Nesse “ruído interno”, ele já não consegue distinguir se o que ouve atrás de si são os passos de Eurídice e de Hermes ou se é apenas o eco de seus próprios passos. Em contrapartida, Eurídice, inteiramente “dentro de si”, tem o andar “incerto, tímido e sem pressa”. Envolto por um grande silêncio, seu andar ainda é “tolhido pelas longas vestes”. Ela entra “em uma nova adolescência inviolada”, como se nunca tivesse sido casada com Orfeu. Está tão recolhida dentro de si que até o toque infinitamente cuidadoso de Hermes já lhe parece quase íntimo demais.

       Tal como Rilke a apresenta, tem-se a impressão de que Eurídice – após seu casamento com Orfeu – passa a viver em um novo modo de existência: em uma “nova adolescência”. Por conseguinte, poderíamos entender sua morte também de maneira simbólica: como passagem de uma fase da vida antiga para essa nova. “E o dom da morte dava-lhe plenitude. Como um fruto em doçura e escuridão, estava plena em sua grande morte, tão nova que não tinha entendimento.” Sem compreender direito, ela entrou em uma nova fase de desenvolvimento. Nessa nova fase, surge um forte estranhamento em relação a Orfeu: ela já não é a “jovem resplendente”, anteriormente cantada pelo poeta, e, acima de tudo, já não é “ilha e propriedade de um só homem”! Será então que antes ela se via como sua propriedade e assim permitiu que fosse vista? E será que o termo “morta”, em referência a Eurídice, significa que, para ela, aquele tempo em que ele a cantava como seu ideal de mulher e a possuía como “sua propriedade” finalmente acabara? Alguma coisa acontecera na vida dela para que tenha se desvencilhado de Orfeu e até mesmo adquirido uma distância enorme em relação a ele, que, insistente e impacientemente, a quer de volta.

       Um modelo narcisista de relacionamento

       Aqui me ocorrem muitos casais que tiveram um desenvolvimento muito parecido com esse modelo. O rapaz fez de tudo para conquistar a mulher, transformando-se em um verdadeiro Orfeu para ela, a qual lhe inspirou uma incrível capacidade de expressão e o deixou radiante. Além disso, ela própria aproveitou e desfrutou desse esplendor de ser tão adorada. Por isso, disse “sim”. Contudo, ao mesmo tempo, não percebeu que o homem-Orfeu não estava pensando exatamente nela. Por uma profunda necessidade própria, ele precisava dela para si mesmo. Por isso ornou-se com ela, “incorporou” sua beleza e seu modo amável de ser para se valorizar, transformou-a “em sua propriedade”. Ela tinha de estar integralmente disponível para ele: tinha de corresponder a seu ideal (“a jovem resplendente”), ser seu refúgio (“o aroma do leito do casal”). Ela não se esforçou muito para ser assim e corresponder a esse ideal, e, se não deu certo – pensou –, foi porque não se dedicou o suficiente.

       Do ponto de vista psicológico, trata-se aqui de um modelo “narcisista” de relacionamento, a saber, aquele em que o homem ocupa uma posição narcisista, e a mulher, uma posição que o complementa. Isso significa que o homem tem problemas para ver e respeitar a mulher realmente como um oposto. Ele a vê, antes, como parte de seu próprio eu. Vê nela seu “eu ideal”, com o qual quer se unir e se tornar um único ser. Quando crianças, esses homens foram emocionalmente explorados pelos pais, ou – no jargão especializado – “ocupados de maneira narcisista”. Deviam representar o self ideal da mãe e/ou do pai, no qual estes viam seus desejos e suas esperanças personificados. Não se sentiram valorizados nem amados naquilo que eles próprios eram. Externamente, muitas vezes de fato se desenvolveram até se transformarem nessas pessoas “ideais” que os pais queriam ver neles, tornando-se especialistas brilhantes, artistas e heróis, verdadeiros “Orfeus” de sua espécie. No entanto, internamente, sentem-se pobres e carentes, pois nunca puderam ser eles próprios de verdade, mas sempre tiveram de desempenhar um papel para os pais. Por isso, “ocupam”, por sua vez, sua parceira de maneira “narcisista”. Ou seja, recuperam o “brilho” que internamente lhes falta, por exemplo, na beleza da “jovem resplendente”, com a qual, por meio da fusão, querem tornar seu eu belo e digno de ser amado. Isso significa que eles relacionam a parceira a si mesmos, mas não se relacionam com ela. Não são capazes de se entregar com amor ao outro, mas buscam no amor sempre a salvação de seu eu por meio do outro.

       De modo geral, as parceiras escolhidas por eles são mulheres que aprenderam em sua família de origem a sempre se adaptar bem, a ser filhas carinhosas e brilhantes para seus pais e a dar pouca atenção a si mesmas e à sua necessidade de independência. Repetem, então, o mesmo padrão com seu parceiro. No período da paixão, tudo corre bem, porque se sentem muito importantes para o outro. Porém, com o passar do tempo, percebem que o foco da atenção nunca está nelas, mas sempre “nele”, em todas as circunstâncias. Sentem-se cada vez mais exploradas, expropriadas, e percebem então que têm de se distanciar para não se perderem por completo. Essa “percepção” altera a situação. De repente, têm um estalo e tudo lhes aparece sob outra luz: é a “morte” de Eurídice, a entrada em seu “reino dos mortos”. A mulher já não quer ser apenas “bela” para ele; ela “morre” como a parceira idealizada, que se dedica totalmente a “ele”, e busca outra forma de viver, mesmo que ainda se sinta “insegura” e que ainda não tenha “entendido” direito o que aconteceu.


A crise

       No mito, isso se dá por meio de um evento radical. Não no poema, mas na tradição mítica, relata-se que alguém teria tentado violentar Eurídice. Na fuga, ela pisa em uma cobra e morre por causa de seu veneno. Traduzido na vida real: Teria ela reconhecido subitamente a opressão que estava sofrendo nesse relacionamento? Teria a mordida da cobra sido fatal a ponto de ela reconhecer que já não pode continuar vivendo dessa forma?

       Em todo caso, em situações de relacionamento como as descritas, é comum que a mulher – independentemente dos acontecimentos externos ou das evoluções internas por que passe – reconheça que o modo como ela vivia até então não é mais possível. A parceira que ela fora até aquele momento está morta, por assim dizer. Então ela se retira do relacionamento e vai para o “reino dos mortos”. De repente, já não consegue dormir com ele, fecha-se “como flor em botão no entardecer”, torna-se “inviolada”, como “em uma nova adolescência”, e volta-se inteiramente para dentro de si. Uma fase de individuação, de desenvolvimento da autonomia se estabelece, precipitando o relacionamento do casal em uma profunda crise e subvertendo-o por completo. Concretamente, isso significa que, nesse momento do desenvolvimento, ela realiza uma separação de fato e até externa ou, em todo caso, uma “separação psicológica”, rescindindo o contrato original de parceria, o “contrato de propriedade”.

       E Orfeu? Fica profundamente desesperado e não consegue compreender. Como ela se tornou uma parte dele, acha que não conseguirá viver sem ela. Para reconquistá-la, exige de si coisas quase desumanas. Chega a ir atrás dela no reino dos mortos; ela, a “mais amada”, por quem ele, no poema de Rilke, chora “mais que o chorar das carpideiras”. Em seu pranto, ele faz com que novamente se erga o mundo em que viveram juntos – “estradas, povos, campos, rios, feras”. No que se refere à situação do casal descrita, ocorrem-me de imediato os homens que não conseguem entender que a mulher rescindiu o “contrato de propriedade” (porque, de sua parte, não o percebiam absolutamente como tal). Como Orfeu, tentam de tudo, fazem de tudo, querem tornar possível o impossível. Estão prontos até mesmo a entrar no “reino dos mortos” da terapia de casal, que antes evitavam como a peste. Nesse momento, tal como Orfeu, entoam o comovente canto de lamento e prometem fazer tudo diferente assim que voltarem para “cima”, assim que ela estiver pronta para tentar viver de novo com ele. Ao distanciamento da mulher, os homens reagem quase com pânico e, de repente, se “dispõem a tudo”.

       Tentativa de superação

       Como o Orfeu do mito se dedica com tanta intensidade a ir buscar Eurídice, Hades, senhor do reino dos mortos, permite que ele a leve consigo. Na visão de Rilke, porém, o problema decisivo reside nesse ponto, razão pela qual, no fim, essa busca não dá certo: Eurídice ainda não está muito longe, “ia dentro de si, como esperança”, “e o dom da morte dava-lhe plenitude”. Por acaso isso não significaria que ela ainda se encontra inteiramente em seu próprio processo, que ainda não se desenvolveu a ponto de poder envolver-se novamente com Orfeu e sua vida? Ela “não pensava no homem que ia à frente, nem no caminho que subia aos vivos”, formula Rilke. Novamente em relação a nosso casal, não raro as mulheres acabam aceitando o convite para voltar com o parceiro, embora de algum modo sintam que ainda não estão prontas. No entanto, também querem voltar, também gostariam de acreditar no parceiro e também se sentem com a consciência pesada por causa de sua “viagem rumo à autonomia”; além disso, levam os filhos em conta e assim por diante. Há tantos argumentos “razoáveis” para que voltem, e o homem parece mesmo estar sendo sincero...

       Entretanto, o problema parece ser o seguinte: apesar de todo o esforço sincero, de toda a disposição a sacrificar-se, existe uma coisa que Orfeu ainda não entendeu direito nesse novo modo de ser de Eurídice. Ele ficou abalado com o que aconteceu, quer reconquistá-la com a melhor das intenções, mas não percebe que está querendo reproduzir o antigo estilo de vida. Não sabendo exatamente o que aconteceu com ela, irrita-se com sua insegurança, sua sensibilidade, sua reserva. Ele “já não a ouve atrás de si” e por isso se volta. O ato de “voltar-se para ela” significa que ele “não consegue ser diferente”, que “sente necessidade” de recuperar o controle sobre a situação. De fato se esforça por ela, mas não consegue perceber que, agora que ela se redescobriu, precisa urgentemente se sentir livre e segui-lo do jeito que lhe convém. Em vez disso, ele “sente necessidade” de se voltar, de submetê-la novamente a seu controle.

       No entanto, isso já não é possível. Ela se volta e desaparece para sempre. A dor é muito grande. Na ópera, esse é o momento em que Orfeu canta o comovente lamento: “Ah, eu a perdi, toda a minha felicidade se foi...” Mais emocionante ainda é a representação concisa de Rilke: “Mas pouco além, sombrio, frente à clara saída, se postava alguém, o rosto já não reconhecível. Esse viu [...]”. Uma grande dor “sem rosto”, “sem nome”, portanto, inefável, o imobiliza. Muitas vezes, a dor que o homem-Orfeu sente é mesmo grande, e não é menor a dor também sentida pela mulher-Eurídice. Ela percebe que o desenvolvimento pelo qual passou já não pode ser repelido; o novo, que começa a desabrochar, ainda está fechado “como flor em botão no entardecer”, mas quer abrir a todo custo e viver; ela já não pode renunciar a isso. E sente que o homem-Orfeu não consegue aceitar essa nova situação; percebe que ele permanece alheio a ela e que nada compreende. Isso é muito doloroso, mas ela não pode mudá-lo. Seu caminho a conduz para outra direção – sem ele.

       Um fato chama a atenção: Eurídice permanece calada o tempo todo. Temos de nos perguntar: Por que ela não esclarece espontaneamente a Orfeu o que está acontecendo? Por que não lhe diz que ele tem de ser cauteloso, que para ela alguma coisa claramente terminou e que outra coisa, irrenunciável, se tornou viva? Por que ela não o convida, não o exorta a prestar atenção nisso, a se abrir para isso ou, pelo menos, a levá-lo em conta? Vejo isso acontecer frequentemente com mulheres que se encontram nesse tipo de situação: elas aprenderam a se adaptar, a ser a “jovem resplendente para ele”. Contudo, embora sintam que é inevitável que se tornem independentes, que tenham seu próprio desenvolvimento e que se tornem autônomas, não têm força para demonstrar tudo isso ao parceiro de modo consciente, formulando, argumentando em seu favor, reclamando e impondo limites. Assim, permanecem caladas e, quando já não suportam, se separam... Por certo, o que realmente as impressiona é que nem sempre é fácil opor alguma coisa aos homens-Orfeus, que são eloquentes e cheios de ideias. Com frequência, as “artes” dessas mulheres fizeram com que esses homens construíssem um muro ao redor de si; como em Orfeu, um impenetrável muro das “lamentações”. Às vezes, calar-se é a única possibilidade de que dispõem para escapar do Orfeu que está sempre se voltando. Porém talvez os relacionamentos muitas vezes pudessem ser salvos se as mulheres se valorizassem antes de maneira clara e decisiva.

       Não quero duvidar da capacidade de mudança desses homens, mas vejo com frequência que somente por meio dessa amarga separação é que homens-Orfeus aprendem de fato a não se voltarem mais, ou seja, a desistirem de tentar manter a parceira sob controle e transformá-la novamente em “sua propriedade”. Com frequência, eles precisam dessa dor da separação. Somente essa dor faz com que aceitem a própria fraqueza e deixem o controle de lado. Somente quando isso se torna possível é que se abrem as portas para o amor.

       Portanto, a dor da separação pode curar. No caso do Orfeu mítico, contudo, até onde sabemos, ela não funcionou. Conforme sugerem as narrativas míticas, após perder Eurídice pela segunda vez, ele se teria finalmente resignado, se imobilizado nessa resignação e perecido, uma vez que Orfeu não inicia nenhum novo relacionamento com outra mulher, passando a se dedicar a um culto ascético e hostil ao corpo e a difundi-lo. Os defensores do culto orgíaco a Dioniso sentem o culto de Orfeu como concorrência e ameaça, e, assim, Orfeu é despedaçado pelas Mênades, as selvagens acompanhantes de Dioniso. É como se o mito de Orfeu quisesse chamar a atenção para um grande perigo: pode-se ser um grande artista, um cantor que arrebata corações, um grande perito e herói e, mesmo assim, fracassar no amor. 



 (Jellouschek, Hans.- Espelho, espelho nosso)

NOTAS:
(1) A esse respeito, cf. Robert von Ranke-Graves, Griechische Mythologie. Quellen und Deutung. Reinbek: Rowohlt Verlag, 1984, pp. 98-101, Rowohlts Enzyklopädie 404.
 

(2)  Augusto de Campos, Rilke: poesia-coisa. Introd., sel. e trad. Augusto de Campos. Rio de Janeiro: Imago, 1994, pp. 41-47. (N. da T.) 


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publicado às 18:25


A OUTRA EURÍDICE

por Thynus, em 13.06.17
O idealista é incorrigível: se é expulso do seu céu, faz um ideal do seu inferno.
 
“Quando de noite ele me chamar para a atração do inferno, irei. Desço como um gato pelos telhados. Ninguém sabe, ninguém vê. Só os cães ladram pressentindo o sobrenatural.” 


Vocês venceram, homens de fora, e refizeram sua história assim como lhes agrada, para condenar a nós, os de dentro, ao papel que vocês gostam de nos atribuir, de potências das trevas e da morte, e o nome que nos deram, os Ínferos, vocês o carregam de tons funestos. Claro que, se todos esquecerem do que de fato aconteceu entre nós, entre Eurídice e Orfeu e mim, Plutão, aquela história toda, ao contrário de como vocês a contam, se realmente ninguém mais recordar que Eurídice era uma das nossas e que nunca tinha habitado a superfície da Terra antes que Orfeu a raptasse de mim com suas músicas mentirosas, então o nosso antigo sonho de fazer da Terra uma esfera viva estará definitivamente perdido.

   Agora já quase ninguém se lembra do que significava fazer viver a Terra: não o que vocês acreditam, recompensados pela dissipação de vida que se pousou na fronteira entre a terra a água o ar. Eu gostaria que a vida se expandisse do centro da Terra, se propagasse às esferas concêntricas que a compõem, circulasse entre os metais fluidos e compactos. Esse era o sonho de Plutão. Só assim se tornaria um enorme organismo vivo, a Terra, só assim se evitaria aquela condição de exílio precário a que a vida teve de se reduzir, com o peso opaco de uma bola de pedra inanimada abaixo de si, e acima o vazio. Vocês nem sequer imaginam mais que a vida podia ser alguma coisa diferente daquilo que acontece lá fora, ou melhor, quase fora, já que acima de vocês e da crosta terrestre ainda existe a tênue crosta do ar. Mas não há comparação com a seqüência de esferas em cujos interstícios nós, criaturas das profundezas, sempre vivemos, e das quais ainda subimos para povoar seus sonhos. A Terra, dentro, não é compacta: é descontínua, feita de cascas sobrepostas de densidades diferentes, até lá embaixo no núcleo de ferro e níquel, que também é um sistema de núcleos, um dentro do outro e cada qual girando separado do outro conforme a maior ou a menor fluidez do elemento.

Vocês querem ser chamados de terrestres, sabe-se lá com que direito porque o verdadeiro nome de vocês seria extraterrestres, gente que está fora; terrestre é quem vive dentro, como eu e como Eurídice, até o dia em que vocês a levaram de mim, enganando-a, para esse fora desolado de vocês.

   O reino de Plutão é este, porque é aqui dentro que sempre vivi, junto com Eurídice, antes, e depois sozinho, numa dessas terras internas. Um céu de pedra girava acima das nossas cabeças, mais límpido que o de vocês, e atravessado, como o seu, por nuvens, ali onde se condensam suspensões de cromo ou de magnésio. Sombras aladas levantam vôo: os céus internos têm suas aves, concreções de rocha leve que descrevem espirais escorrendo para o alto até desaparecerem da vista. O tempo muda de repente; quando descargas de chuva plúmbea se abatem, ou quando saraivam cristais de zinco, não há outra salvação a não ser se infiltrar nas porosidades da rocha esponjosa. Aos intervalos, a escuridão é sulcada por um ziguezague abrasado; não é um raio, é metal incandescente que serpenteia veio abaixo.

   Considerávamos terra a esfera interna na qual acontecia pousarmos, e céu a esfera que cerca aquela esfera: exatamente como vocês fazem, enfim, mas por aqui essas distinções sempre eram provisórias, arbitrárias, já que a consistência dos elementos mudava o tempo todo, e a certa altura percebíamos que o nosso céu era duro e compacto, uma mó nos esmagando, ao passo que a terra era uma cola viscosa, agitada por sorvedouros, pululante de pequenas bolhas gasosas. Eu procurava aproveitar as efusões de elementos mais pesados para me aproximar do verdadeiro centro da Terra, do núcleo que serve de núcleo para todo núcleo, e segurava Eurídice pela mão, guiando-a na descida. Mas cada infiltração que abria seu caminho em direção ao interior expulsava outros materiais e os obrigava a subir para a superfície; às vezes, em nosso afundar éramos envolvidos pela onda que jorrava em direção às camadas superiores e que nos enrolava em seu caracol. Assim tornávamos a percorrer em sentido oposto o raio terrestre; nas camadas minerais abriam-se canais que nos aspiravam e abaixo de nós a rocha tornava a se solidificar. Até nos percebermos sustentados por outro solo e dominados por outro céu de pedra, sem saber se estávamos mais acima ou mais abaixo do ponto de onde havíamos partido.
É próprio do ser humano tornar-se inconsolável diante das perdas e assim como Orfeu, é natural tentar se recuperar das perdas.
 
   Eurídice, assim que via acima de nós o metal de um novo céu se tornando fluido, era dominada pela fantasia de voar. Mergulhava para o alto, atravessava a nado a cúpula de um primeiro céu, de outro, de um terceiro, se agarrava às estalactites que pendiam das abóbadas mais altas. Eu ia atrás dela, um pouco para fazer o seu jogo, um pouco para lembrá-la de retomar o nosso caminho, no sentido oposto. Claro que Eurídice, assim como eu, estava convencida de que o ponto para o qual pendíamos era o centro da Terra. Só tendo alcançado o centro poderíamos chamar de nosso o planeta todo. Éramos os iniciadores da vida terrestre e por isso tínhamos que começar a tornar a Terra viva desde o seu núcleo, irradiando aos poucos a nossa condição para todo o globo. Pendíamos para a vida terrestre, isto é, da Terra e na Terra; não ao que desponta da superfície e vocês acreditam poder chamar de vida terrestre, embora nada mais seja do que mofo dilatando suas manchas na casca rugosa da maçã.

   Sob os céus de basalto, já víamos surgirem as cidades plutônicas que fundaríamos, cercadas por muros de jaspe, cidades esféricas e concêntricas, navegantes sobre oceanos de mercúrio, atravessadas por rios de lava incandescente. Era um corpo vivo-cidade-máquina que gostaríamos que crescesse e ocupasse o globo todo, uma máquina telúrica que utilizaria sua energia desmedida para se construir continuamente, para combinar e permutar todas as substâncias e formas, cumprindo na velocidade de uma sacudida sísmica o trabalho que vocês lá fora tiveram que pagar com o suor de séculos. E essa cidade-máquina-corpo vivo seria habitada por seres como nós, gigantes que dos céus giratórios esticariam seu abraço membrudo sobre gigantas que nas rotações das terras concêntricas se exporiam em sempre novas posições, tornando possíveis sempre novos acoplamentos.

   Era o reino da diversidade e da totalidade que se originaria daquelas misturas e vibrações: era o reino do silêncio e da música. Vibrações contínuas que se propagaram com vagarosidade diversa, conforme as profundidades e as descontinuidades dos materiais, que encrespariam nosso grande silêncio, o transformariam na música incessante do mundo, na qual se harmonizariam as vozes profundas dos elementos.

   Isso para lhes dizer como está errado o seu caminho, a sua vida, na qual trabalho e gozo estão em contraste, em que a música e o barulho estão divididos; isso para lhes dizer como desde então as coisas estavam claras, e o canto de Orfeu nada mais era do que um sinal desse mundo de vocês, dividido e parcial. Por que Eurídice caiu na armadilha? Pertencia inteiramente ao nosso mundo, Eurídice, mas sua índole encantada a levava a preferir todo estado de suspensão, e assim que lhe era permitido pairar em vôo, em saltos, em escaladas das chaminés vulcânicas, a víamos posicionar sua pessoa em torções e pinotes e cabragens e contorções.

Os lugares fronteiriços, as passagens de uma camada terrestre à outra lhe proporcionavam uma tênue vertigem. Eu disse que a Terra é feita de telhados sobrepostos, como invólucros de uma imensa cebola, e que cada teto remete a um teto superior, e todos juntos preanunciam o teto extremo, ali onde a Terra cessa de ser Terra, onde o dentro todo fica do lado de cá, e do lado de lá há apenas o fora. Para vocês, essa fronteira da Terra se identifica com a própria Terra; acreditam que a esfera seja a superfície que a enfaixa, não o volume; sempre viveram naquela dimensão bem achatada e nem sequer supõem que se possa existir alhures e de outro modo; para nós então essa fronteira era alguma coisa que sabíamos existir, mas não imaginávamos poder ver, a não ser que se saísse da Terra, perspectiva que nos parecia, mais do que amedrontadora, absurda. Era ali que era projetado em erupções e jorros betuminosos e grandes sopros tudo aquilo que a Terra expelia das suas vísceras: gases, misturas líquidas, elementos voláteis, materiais de pouca importância, resíduos de todo tipo. Era o negativo do mundo, alguma coisa que não podíamos representar nem mesmo com o pensamento, e cuja idéia abstrata bastava para provocar um arrepio de desgosto, não, de angústia, ou melhor, um aturdimento, uma — justamente — vertigem (aqui está, nossas reações eram mais complicadas do que se pode acreditar, especialmente as de Eurídice), na qual se insinuava uma parte de fascínio, como uma atração pelo vazio, pelo bifronte, pelo último.

   Seguindo Eurídice nessas suas fantasias errantes, tomamos a garganta de um vulcão extinto. Acima de nós, ao atravessar como o aperto de uma ampulheta, abriu-se a cavidade da cratera, grumosa e cinzenta, uma paisagem não muito diferente, em forma e essência, daquelas habituais das nossas profundezas; porém o que nos deixou atônitos foi o fato de a Terra ali parar, não recomeçar a girar sobre si mesma sob outro aspecto, e dali em diante começar o vazio ou, de todo modo, uma substância incomparavelmente mais tênue do que as que tínhamos atravessado até então, uma substância transparente e vibrante, o ar azul.

   Foram essas vibrações que desencaminharam Eurídice, tão diferentes das que se propagam lentas através do granito e do basalto, diferentes de todos os estalidos, os clangores, os cavernosos retumbares que percorrem torpemente as massas dos metais fundidos ou as muralhas cristalinas. Aqui vinham ao seu encontro como um disparar de centelhas sonoras miúdas e puntiformes sucedendo-se numa velocidade para nós insustentável de qualquer ponto do espaço: era uma espécie de cócegas que nos dava uma impaciência desalinhada. Tomou conta de nós — ou ao menos, tomou conta de mim; daqui em diante sou obrigado a distinguir os meus estados de espírito daqueles de Eurídice — o desejo de nos retrairmos no negro fundo de silêncio no qual o eco dos terremotos passa fofo e se perde na distância. Mas para Eurídice, como sempre atraída pelo raro e temerário, havia a impaciência de se apropriar de alguma coisa única, boa ou ruim que fosse.

   Foi naquele instante que a insídia foi detonada: além da borda da cratera o ar vibrou de modo contínuo, aliás, de modo contínuo que continha diversas maneiras descontínuas de vibrar. Era um som que se erguia pleno, se extinguia, retomava volume, e nesse modular-se seguia um desenho invisível estendido no tempo como uma sucessão de cheios e vazios. Outras vibrações se sobrepunham a essa, e eram agudas e bem separadas umas das outras, mas se apertavam em um halo ora doce ora amargo, e se contrapunham ou acompanhavam o curso do som mais profundo, impunham como um círculo ou campo ou domínio sonoro.

   Logo o meu impulso foi subtrair-me daquele círculo, retornar para a densidade acolchoada; e deslizei para dentro da cratera. Mas Eurídice, no mesmo instante, tinha tomado impulso despenhadeiros acima, na direção de onde provinha o som, e antes que eu pudesse retê-la, tinha superado a borda da cratera. Ou foi um braço, ou alguma coisa que pude pensar fosse um braço, que a agarrou, serpentino, e a arrastou para fora; consegui ouvir um grito, o grito dela, que se unia ao som de antes, em harmonia com ele, em um único canto que ela e o desconhecido cantor entoavam, escandido nas cordas de um instrumento, descendo as encostas externas do vulcão.

   Não sei se essa imagem corresponde ao que vi ou ao que imaginei; estava já afundando em minha escuridão, os céus internos se fechavam um a um sobre mim: abóbadas silícicas, telhados de alumínio, atmosferas de enxofre viscoso; e o matizado silêncio subterrâneo ecoava à minha volta, com seus estrondos contidos, com seus trovões sussurrados. O alívio em me descobrir distante da nauseabunda margem do ar e do suplício das ondas sonoras tomou conta de mim junto com o desespero por ter perdido Eurídice. Pronto, estava só; não soubera salvá-la do desespero de ser arrancada da Terra, exposta à continua percussão de cordas estendidas no ar com que o mundo do vazio se defende do vazio. Meu sonho de tornar à Terra viva alcançando com Eurídice o último centro falhara. Eurídice era prisioneira, exilada nas charnecas destampadas do lado de fora.

   Seguiu-se um tempo de espera. Meus olhos densamente espremidos contemplavam paisagens umas sobre as outras preenchendo o volume do globo: cavernas filiformes, cadeias montanhosas empilhadas em lascas e lâminas, oceanos torcidos como esponjas; quanto mais reconhecia com comoção nosso mundo apinhado, concentrado, compacto, tanto mais sofria por Eurídice não estar ali habitando-o.

   Libertá-la tornou-se meu único pensamento: forçar as portas do fora, invadir o exterior com o interior, reanexar Eurídice à matéria terrestre, construir sobre ela uma nova abóbada, um novo céu mineral, salvá-la do inferno daquele ar vibrante, daquele som, daquele canto. Espiava o juntar-se da lava nas cavernas vulcânicas, sua pressão para o alto pelos dutos verticais da crosta terrestre — o caminho era esse.

   Chegou o dia da erupção, uma torre de fagulhas ergueu-se negra no ar acima do Vesúvio decapitado, a lava galopava pelos vinhedos do golfo, forçava as portas de Herculano, esmagava o muladeiro e o animal contra a muralha, arrancava do avaro as moedas, o escravo dos cepos, o cão apertado pela coleira desarraigava a correia e procurava salvação no celeiro. Eu estava ali no meio: avançava com a lava, a avalanche incandescente se retalhava em línguas, em regatos, em serpentes, e na ponta que se infiltrava mais à frente estava eu, correndo em busca de Eurídice. Sabia — alguma coisa me avisava — que ainda era prisioneira do desconhecido cantor: onde quer que eu tornasse a ouvir a música daquele instrumento e o timbre daquela voz, lá estaria ela.

   Corria enlevado pela efusão de lava entre hortas apartadas e templos de mármore. Ouvi o canto e um harpejo; duas vozes se revezavam; reconheci a de Eurídice — mas como estava mudada! — acompanhando a voz desconhecida. Uma inscrição na arquivolta, em letras gregas: Orpheos. Arrebentei a porta, inundei além da soleira. Eu a vi, um só instante, ao lado da harpa. O lugar era fechado e cavo, feito de propósito — dir-se-ia — para que a música se juntasse ali, como numa concha. Uma cortina pesada — de couro, pareceu-me, aliás, estofada como um edredom — fechava uma janela, de modo a isolar sua música do mundo em volta. Assim que entrei, Eurídice puxou a cortina de repente, escancarando a janela: lá fora se abriam a enseada deslumbrante de reflexos e a cidade e as ruas. A luz do meio-dia invadiu a sala, a luz e os sons: um arranhar de violões erguia-se de todos os cantos e o ondulante mugido de cem alto-falantes, e se misturavam a um retalhado crepitar de motores e buzinações. A couraça do ruído estendia-se dali em diante sobre a superfície do globo: a faixa que delimita sua vida de superfície, com as antenas hasteadas nos telhados transformando em som as ondas que, invisíveis e inaudíveis, percorrem o espaço, com os transistores grudados nas orelhas para enchê-las a todo instante da cola acústica sem a qual não sabem se estão vivos ou mortos, com os jukeboxes que armazenam e derramam sons, e a ininterrupta sirene da ambulância recolhendo a cada hora os feridos da carnificina ininterrupta de vocês.

   Contra essa parede sonora, a lava parou. Transpassado pelos espinhos do alambrado de vibrações estrepitantes, ainda fiz um movimento adiante em direção ao ponto onde, por um instante, havia visto Eurídice, mas ela havia desaparecido, desaparecido seu raptor: o canto de onde e do qual viviam estava submerso pela irrupção da avalanche do ruído, eu não conseguia mais distinguir nem ela nem seu canto.

   Recuei, movendo-me para trás na efusão de lava, tornei a subir as encostas do vulcão, tornei a habitar o silêncio, a sepultar-me.

   Ora, vocês que vivem fora, digam-me, se por acaso lhes acontece captar, na densa massa de sons que os cerca, o canto de Eurídice, o canto que a mantém prisioneira e que por sua vez é prisioneiro do não-canto que massacra todos os cantos, se conseguem reconhecer a voz de Eurídice na qual ainda soa o eco distante da música silenciosa dos elementos, digam-me, dêem-me notícias dela, vocês extraterrestres, vocês provisoriamente vencedores, para que eu possa retomar meus planos de trazer Eurídice de volta ao centro da vida terrestre, de restabelecer o reino dos deuses do dentro, dos deuses que habitam a espessura densa das coisas, agora que os deuses de fora, os deuses dos altos Olimpos e do ar rarefeito deram a vocês tudo o que podiam dar, e está claro que não basta.


(Italo Calvino - Todas as Cosmicômicas) 

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publicado às 17:15


A DISTÂNCIA DA LUA

por Thynus, em 10.06.17
“Cada um de nós é uma lua e tem um lado escuro que nunca mostra a ninguém.”  
 
“De nada serve ao homem conquistar a Lua se acaba por perder a Terra.”  
 
“Para ser grande, ser inteiro; nada teu exagera ou exclui; ser todo em cada coisa; põe quanto és no mínimo que fazes; assim em cada lago, a lua toda brilha porque alta vive.”  
 
 
Houve tempo, segundo sir George H. Darwin, em que a Lua esteve muito próxima da Terra. Foram as marés que pouco a pouco a impeliram para longe: as marés que a própria Lua provoca nas águas terrestres e com as quais a Terra vai perdendo lentamente energia.
 
Em um tempo em que a Terra e a Lua moravam tão próximas uma da outra era impossível não desejá-la a todo instante. 
Bem sei disso!, exclamou o velho Qfwfq, vocês não podem se lembrar, mas eu posso. A Lua estava sempre sobre nós, desmesurada: no plenilúnio – as noites claras como o dia, mas com uma luz cor de manteiga -, parecia a ponto de explodir; quando chegava a lua nova, rolava pelo céu como um negro guarda-chuva levado pelo vento; e, no crescente, avançava com o chifre de tal forma baixo que parecia prestes a espetá-lo na crista de um promontório e ali ficar ancorada. Mas o mecanismo das fases se processava de modo diverso do de hoje; isso porque eram outras as distâncias do Sol, e as órbitas, bem como a inclinação de não sei bem o quê; daí ocorrerem a todo momento eclipses, com a Terra e a Lua assim tão juntas: imaginem se aquelas duas bolonas não faziam sombra continuamente uma à outra.
A órbita? Elíptica, é claro, elíptica: achatava-se um pouco sobre nós, depois erguia o vôo. As marés, quando a Lua estava em seu ponto mais baixo, se levantavam de tal forma que era impossível contê-las. Havia noites de plenilúnio em que estava tão baixa e as marés tão altas, que para a Lua banhar-se no mar faltava um fio; digamos: poucos metros. Se nunca tentamos subir nela? Claro que sim. Bastava ir até embaixo da Lua, de barco, nela apoiar uma escada portátil e subir.
O ponto em que a Lua passava mais baixo era nos Escolhos de Zinco. Lá íamos nas barquinhas a remo que se usavam então, redondas e chatas, de cortiça. Éramos vários a ir: eu, o capitão Vhd Vhd, a mulher dele, meu primo, surdo, e às vezes também a pequena Xlthlx, que devia ter então uns doze anos. A água naquelas noites era claríssima, prateada que parecia de mercúrio, e dentro dela os peixes, roxos, não podendo resistir à atração da Lua, vinham todos à tona, bem como os polvos e as medusas da cor do açafrão. Havia sempre um vôo de animais minúsculos – pequenos caranguejos, lulas e até mesmo algas leves e diáfanas, eflorescências de corais – que se desprendiam do mar e acabavam na Lua, e lá ficavam dependurados naquele teto calcinado, ou então ficavam ali no ar, como um enxame fosforescente que tínhamos de espantar agitando grandes folhas de bananeira.
Nosso trabalho consistia no seguinte: levávamos na barca uma escada portátil; um a segurava, outro subia por ela, enquanto um terceiro ia remando para baixo da Lua; por isso, era preciso contar com algumas pessoas (de que só me referi às principais). O que estava no alto da escada, à medida que a barca se aproximava da Lua, gritava apavorado:
– Parem! Parem! Se não vou dar uma cabeçada nela! – Era a impressão que nos dava ao vê-la ali em cima de nós tão grande, tão eriçada de farpas cortantes e bordos salientes e serrilhados.
– Agora pode ser diferente, mas então a Lua, ou melhor, o fundo, o ventre da Lua, em suma, a parte que passava mais perto da Terra, quase a ponto de roçá-la, era coberta de uma crosta de escamas pontiagudas. Chegava a parecer o ventre de um peixe e, mesmo o cheiro, pelo que me lembro, era, se não de todo de peixe, levemente mais tênue, como o de salmão defumado.
Na verdade, no alto da escada conseguia-se de fato tocá-la: bastava erguer os braços, apoiando-se no último degrau. Havíamos tomado cuidadosamente as medidas (sem suspeitar ainda que ela estava se afastando); a única coisa para a qual se devia estar bem atento era o lugar onde se punham as mãos. Eu escolhia uma escama que me parecesse sólida (devíamos subir todos, por turnos, em grupos de cinco ou seis), agarrava-a com uma das mãos, e depois com a outra, e imediatamente sentia a escada e a barca escaparem debaixo de mim, e o movimento da Lua arrancar-me da atração terrestre. Sim, a Lua tinha uma força que nos arrancava e de que nos dávamos conta no momento de passagem de uma para a outra; era preciso fazê-lo bem rápido, com uma espécie de cambalhota, agarrar-se às escamas, atirar as pernas para o alto, para então se encontrar de pé sobre o solo lunar. Visto da Terra, era como se estivéssemos dependurados de cabeça para baixo, mas para nós mesmos era a costumeira posição de sempre, e a única coisa que parecia estranha era, ao erguer os olhos, ver-se embaixo a capa cintilante do mar com a barca e os companheiros de cabeça para baixo, a balançar como um cacho de uva na parreira.
Quem demonstrava um talento todo especial naqueles saltos era meu primo surdo. Suas mãos rudes, mal tocavam a superfície lunar (era sempre o primeiro a pular da escada), se tornavam de repente macias e seguras. Encontravam logo o ponto em que deviam apoiar-se para o salto, até parecia que apenas com a pressão das palmas conseguia aderir-se à crosta do satélite. Uma vez tive mesmo a impressão de que a Lua lhe vinha ao encontro no momento em que ele lhe estendia as mãos.
Igualmente hábil se mostrava na descida à Terra, operação ainda mais difícil. Para nós todos, consistia em dar um salto para cima, o mais alto que podíamos, com os braços erguidos (visto da Lua, pois visto da Terra, ao contrário, era mais parecido com um mergulho ou com um nado em profundidade, os braços pendentes), idêntico ao salto da Terra, em suma, só que então nos faltava a escada, porque não havia na Lua nada onde se pudesse apoiá-la. Mas meu primo, em vez de lançar-se de braços erguidos, inclinava-se sobre a superfície lunar de cabeça para baixo como numa cambalhota, e começava a dar pinotes apoiando-se sobre as mãos. Nós, na barca, o víamos retesado no ar como se estivesse segurando a enorme bola da Lua e a fizesse saltitar tocando-a com as palmas das mãos, até que suas pernas ficavam ao nosso alcance e conseguíamos agarrá-lo pelos tornozelos e trazê-lo para bordo.
Agora certamente vão me perguntar que diabo andávamos fazendo na Lua, e eu lhes explico. Íamos recolher o leite, com uma grande concha e um alguidar. O leite lunar era muito denso, como uma espécie de ricota. Formava-se nos interstícios entre uma escama e outra pela fermentação de diversos corpos e substâncias de proveniência terrestre, que se desprendiam dos prados, das florestas e das lagoas que o satélite sobrevoava. Era composto essencialmente de: sumos vegetais, girinos de rãs, betume, lentilhas, mel de abelhas, cristais de amido, ovas de esturjão, bolores, polens, substâncias gelatinosas, vermes, resinas, pimenta, sal mineral, material de combustão. Bastava afundar a concha sob as escamas que recobriam o solo encrostado da Lua e então retirá-la cheia daquela preciosa papa. Não em estado puro, compreende-se; as escórias eram muitas: na fermentação (quando a Lua atravessava grandes extensões de ar tórrido sobre o deserto), nem todos os corpos se fundiam; alguns permaneciam ali cravados: unhas e cartilagens, cravos, pequenos cavalos-marinhos, caroços e pedúnculos, cacos de louça, anzóis de pescar, às vezes até mesmo um pente. Por isso, aquele mingau, depois de recolhido, precisava ser desnatado, passado por um coador. Mas a dificuldade não residia nisso, e sim na maneira de enviá-lo à Terra. Fazíamos assim: mandávamos o conteúdo de cada colherada para o alto, manobrando a concha como se fosse uma catapulta, com ambas as mãos. A ricota voava no ar, e se o impulso fosse bastante forte ia se esborrachar no teto, ou seja, sobre a superfície marinha. Ali chegando, ficava à tona e depois era mais fácil recolhê-la para dentro da barca. Até nesses arremessos, meu primo surdo demonstrava uma aptidão toda especial; tinha força e pontaria; com um lance resoluto conseguia acertar o tiro bem dentro de um balde que da barca lhe estendíamos. Ao passo que eu às vezes fazia um papelão; a colherada não conseguia vencer a força da atração lunar e vinha de volta me acertar no olho.
Ainda não lhes disse tudo a respeito dessas operações em que meu primo era exímio. O trabalho de extrair leite lunar das escamas era para ele uma espécie de brincadeira: em vez de concha, bastava-lhe às vezes meter sob as escamas a mão nua, ou apenas um dedo. Não agia ordenadamente, mas em pontos isolados, deslocando-se aos saltos de um ponto para o outro, como se quisesse pregar peças à Lua, causar-lhe surpresa ou mesmo provocar-lhe cócegas. E, onde quer que metesse a mão, o leite esguichava forte como das tetas de uma cabra. Tanto que nós não fazíamos outra coisa senão ficar por trás e recolher com nossas conchas a substância que ele, ora daqui ora dali, fazia esguichar; mas sempre como que por acaso, pois os itinerários do surdo não pareciam corresponder a nenhum claro propósito prático. Havia pontos que tocava, por exemplo, simplesmente pelo prazer de tocá-los: interstícios entre uma escama e outra, pregas lisas e tenras da polpa lunar. Às vezes, meu primo não as comprimia com os dedos da mão, e sim – num gesto bem calculado de seus pulos – com os artelhos (ele subia na Lua de pés descalços), e isso parecia para ele o máximo do divertimento, a julgar pelos ganidos que emitia sua úvula e pelos novos saltos que se seguiam.
O solo da Lua não era uniformemente escamoso; ele apresentava zonas irregulares e nuas de uma escorregadia argila pálida. Esses espaços macios davam ao surdo a fantasia das cambalhotas ou quase vôos de pássaros, como se quisesse imprimir na pasta lunar toda a sua figura. E foi assim avançando que a certo ponto o perdemos de vista. Na Lua havia extensas regiões que nunca nos despertaram a curiosidade ou nos deram motivo para explorá-las, e era ali precisamente que meu primo desaparecia; minha idéia era que todas aquelas cambalhotas e aqueles beliscões com que se comprazia aos nossos olhos não passavam de uma preparação, um prelúdio, de algo secreto que devia desenrolar-se nas zonas ocultas.
Um estado de espírito todo especial nos invadia naquelas noites ao largo dos Escolhos de Zinco; um humor alegre, mas um tanto hesitante, como se dentro do crânio tivéssemos, em vez do cérebro, um peixe, que flutuasse atraído pela Lua. E assim navegávamos cantando e tocando instrumentos. A mulher do capitão tocava harpa; tinha braços muito compridos, que naquelas noites se mostravam prateados como enguias, e axilas escuras e misteriosas como ouriços-do-mar; e o som de sua harpa era tão doce e agudo, tão doce e agudo que quase não o podíamos suportar, e éramos obrigados a lançar longos gritos, não tanto para acompanhar a música, mas antes para proteger nossos ouvidos.
Medusas transparentes afloravam à superfície marinha, vibravam um pouco e levantavam vôo para a Lua, ondulando. A pequena Xlthlx divertia-se em agarrá-las no ar, porém não era coisa fácil. Certa vez, estirando os bracinhos para apoderar-se de uma, deu um saltinho e encontrou-se, também ela, flutuando no ar. Magrinha como era, faltavam-lhe alguns gramas de peso para que a gravidade a trouxesse de volta para a Terra, vencendo a atração lunar; assim, ficou voando entre as medusas, suspensa sobre o mar. De repente, apavorou-se, começou a chorar, depois riu e se pôs a brincar, aparando no vôo crustáceos e peixinhos, alguns dos quais levava à boca e mordiscava. Manejávamos a barca para nos mantermos por baixo dela; a Lua corria em sua elipse, arrastando atrás de si aquele enxame de fauna marinha pelo céu, e uma longa fileira de algas encaracoladas, com a menina suspensa em meio àquilo tudo. Tinha duas trancinhas finas, a Xlthlx, que pareciam voar por conta própria, retesadas para a Lua: mas ela, enquanto isso, escoiceava, agitava as canelas no ar, como se quisesse combater aquele influxo, e as meias – havia perdido as sandálias no vôo – escorregavam-lhe dos pés e balançavam atraídas pela força terrestre. Em cima da escada, procurávamos agarrá-las.
Fora uma boa idéia a de se pôr a comer os animaizinhos suspensos; quanto mais Xlthlx ganhava peso, mais propendia para a Terra; além do mais, como entre todos aqueles corpos em suspensão o seu era o de maior massa, os moluscos, as algas e o plâncton começaram a gravitar em torno dela, e logo a menina ficou recoberta de minúsculas conchinhas silíceas, couraças quitinosas, carapaças e filamentos de ervas marinhas. E, quanto mais se perdia naquele emaranhado, mais ia se libertando do influxo lunar, até que aflorou a pele do mar e nele mergulhou.
Remamos rápido para socorrê-la e retirá-la da água: seu corpo permanecia imantado, e tivemos trabalho para despojá-la de tudo aquilo que a ela estava agarrado. Moles corais envolviam-lhe a cabeça, e dos cabelos choviam anchovas e camarõezinhos a cada passada de pente; os olhos estavam selados por conchas de moluscos que aderiam às pálpebras com suas ventosas; tentáculos de sépias enrolavam-se em torno de seus braços e do pescoço; e o vestidinho parecia inteiramente tecido de algas e de esponjas. Livramo-la do mais grosso; depois ela, por semanas inteiras, continuou a desprender de si mesma barbatanas e conchas; mas a pele, picotada por minúsculas diatomáceas, ficou para sempre com a aparência – para quem não a observasse bem – de estar coberta de um delicado pulverizar de pintas.
O interstício entre a Terra e a Lua era assim disputado por dois influxos que se equilibravam. Direi mais: um corpo que caía à Terra vindo do satélite permanecia algum tempo ainda carregado de força lunar e se opunha à atração do nosso planeta. Até eu, por grande e gordo que fosse, toda vez que ia lá em cima, custava a reabituar-me com os altos e baixos da Terra, e os companheiros tinham de me agarrar pelos braços e manter-me à força, amontoados sobre mim na barca ondulante, enquanto de cabeça para baixo eu continuava a levantar as pernas para o céu.
– Agarre-se! Agarre-se firme a nós! – gritavam para mim.
E eu, naquele agarrar-me às cegas, acabei certa vez por aferrar uma das mamas da sra. Vhd Vhd, que as tinha redondas e firmes, e esse contato me pareceu gostoso e seguro, exercendo sobre mim uma atração semelhante ou ainda mais forte que a da Lua, principalmente quando naquele mergulho de cabeça eu conseguia com o outro braço cingi-la pela cintura, e dessa maneira passava então de volta a este mundo, e caía de chofre no fundo da barca, até que o capitão Vhd Vhd, para reanimar-me, jogava sobre mim um balde de água.
Foi assim que começou a história de meu enamoramento pela mulher do capitão, e a de meus sofrimentos. Porque não demorei a perceber o que significavam os olhares mais obstinados daquela senhora: quando as mãos de meu primo pousavam seguras sobre o satélite, eu olhava fixo para ela e no seu olhar lia os pensamentos que aquela intimidade entre o surdo e a Lua nela suscitava, e, quando ele desaparecia em suas misteriosas explorações lunares, via-a mostrar-se inquieta, como se estivesse pisando em brasas, e logo tudo me pareceu claro, que a sra. Vhd Vhd estava ficando com ciúmes da Lua e eu com ciúmes de meu primo. Tinha olhos de diamante, aquela sra. Vhd Vhd; faiscavam, quando olhava para a Lua, quase num desafio, como se dissesse: “Não o terás!”. E eu me sentia excluído.
Quem menos se dava conta de toda essa história era o próprio surdo. Quando o ajudávamos na descida, puxando-o – como já lhes expliquei – pelas pernas, a sra. Vhd Vhd perdia toda a reserva esforçando-se para fazê-lo tombar sobre sua própria pessoa, envolvendo-o com seus longos braços argênteos; eu sentia um aperto no coração (nas vezes em que me agarrava a ela, seu corpo era dócil e gentil, mas não se lançava para a frente como no caso de meu primo), enquanto ele permanecia indiferente, perdido ainda em seu êxtase lunar.
Eu reparava no capitão, perguntando a mim mesmo se também ele se dava conta do comportamento da esposa; mas nenhuma expressão se estampava jamais naquele rosto avermelhado pela salsugem, sulcado de rugas alcatroadas. Como o surdo era sempre o último a se desprender da Lua, sua descida era o sinal para que as barcas partissem. Então, com um gesto insolitamente delicado, Vhd Vhd recolhia a harpa do fundo da barca e a estendia à mulher. Ela era obrigada a tomá-la e arrancar-lhe algumas notas. Nada a podia afastar mais do surdo que o som da harpa. Eu ficava cantarolando aquela canção melancólica, que diz: “Todo peixe brilhante vem à tona, vem à tona, e todo peixe sombrio vai ao fundo, vai ao fundo…”, e todos, com exceção do surdo, me faziam coro.
Todos os meses, assim que o satélite passava por nós, o surdo reentrava em seu isolado desprezo pelas coisas do mundo; só o aproximar-se do plenilúnio o despertava. Daquela vez eu arranjei as coisas de modo a não estar no grupo dos que subiriam à Lua, a fim de poder ficar na barca junto à mulher do capitão. E eis que, mal meu primo pôs o pé na escada, a sra. Vhd Vhd falou:
– Hoje eu também quero ir lá em cima!
Jamais havia acontecido de a mulher do capitão subir à Lua. Mas Vhd Vhd não se opôs, ao contrário, quase mesmo a empurrou para a escada, exclamando:
– Pois vá!
E todos nos pusemos a ajudá-la e eu a segurava por trás, e a sentia nos meus braços roliça e macia, e para sustentá-la apoiava contra ela as palmas das mãos e o rosto; quando a senti elevar-se à esfera lunar, invadiu-me uma ansiedade por aquele contato perdido, tanto que comecei a correr atrás dela, dizendo:
– Subo eu também para ajudá-la!
Fui contido como se por uma mordaça.
– Você fica quieto aí, pois temos muito o que fazer – ordenou-me o capitão Vhd Vhd sem erguer o tom de voz.
Naquele momento, já as intenções de cada um estavam claras. Contudo, eu nada concluí, e até hoje não estou seguro de haver interpretado tudo com exatidão. Sem dúvida a mulher do capitão havia por muito tempo acalentado o desejo de isolar-se lá em cima com meu primo (ou pelo menos de não deixar que ele se apartasse sozinho com a Lua), mas é possível que seu plano tivesse um objetivo mais ambicioso, talvez mesmo arquitetado em comum acordo com o surdo: esconderem-se os dois lá em cima e permanecerem na Lua um mês inteiro. Pode ser também que meu primo, surdo como era, não tivesse compreendido nada do que ela tentara lhe explicar, ou, melhor ainda, nem mesmo se desse conta de ser objeto dos desejos da senhora. E o capitão? Não esperava outra coisa senão livrar-se da esposa, tanto é verdade que, tão logo a mulher se confinou no espaço, vimo-lo imediatamente entregar-se às suas inclinações e mergulhar no vício, e agora compreendemos por que nada fizera para impedi-la. Mas saberia ele, desde o início, que a órbita da Lua estava se alargando?
Nenhum de nós poderia suspeitar. O surdo, talvez apenas o surdo: da maneira larval com que sabia das coisas, havia pressentido que lhe tocava aquela noite dar adeus à Lua. Por isso, escondeu-se em seus lugares secretos e só reapareceu para voltar a bordo. E a mulher do capitão perdeu tempo em segui-lo: vimo-la atravessar várias vezes a extensão escamosa, para cima e para baixo, e houve um momento em que se deteve a olhar para nós que ficáramos na barca, quase a ponto de nos perguntar se o tínhamos visto.
Sem dúvida havia algo de insólito naquela noite. A superfície do mar, embora tensa como sempre quando era lua cheia, quase arqueada para o céu, parecia manter-se afastada, frouxa, como se o ímã lunar não exercesse sobre ela toda a sua força. Além disso, não se podia dizer que a luz fosse a mesma dos outros plenilúnios, e havia como que um espessamento das trevas noturnas. Os companheiros que estavam lá em cima também deviam dar-se conta do que estava acontecendo, pois lançaram para nós olhares espavoridos. E de suas bocas e das nossas, no mesmo instante, saiu um grito:
– A Lua está se afastando!
Não havia ainda se dissipado o som daquele grito, quando na Lua apareceu meu primo, correndo. Não parecia amedrontado, nem mesmo surpreso: apoiou as mãos no solo na manobra da sua cambalhota de sempre, mas desta vez, depois de haver se lançado no ar, lá ficou, suspenso, como já havia acontecido com a menina Xlthlx; então rodopiou um momento entre a Terra e a Lua, ficou de cabeça para baixo e, com um esforço dos braços como alguém que ao nadar tivesse de vencer a correnteza, dirigiu-se, com insólita lentidão, para o nosso planeta.
Na Lua, os outros marinheiros se apressaram em seguir seu exemplo. Ninguém estava mais pensando em fazer chegar à barca o leite lunar recolhido, nem o capitão os recriminava por isso. Já haviam esperado demais, a distância se tornara difícil de atravessar; embora tentassem imitar o vôo e o nado de meu primo, lá ficaram a bracejar, suspensos em meio ao céu.
– Ajuntem-se! Imbecis! Ajuntem-se! – gritou o capitão.
À sua ordem, os marinheiros tentaram agrupar-se, fazer um bolo, a fim de se lançarem juntos para alcançar a zona de atração da Terra: até que em certo ponto uma cascata de corpos precipitou-se no mar num baque surdo.
Os barqueiros remavam então para recolhê-los.
– Esperem! Está faltando a senhora! – gritei.
A mulher do capitão havia tentado igualmente o salto, mas permanecera flutuando a poucos metros da Lua, e movia molemente no ar seus longos braços argênteos. Trepei na pequena escada e, no vão intento de lhe oferecer um ponto de apoio, estendi a harpa em sua direção.
– Não chega lá! Precisamos ir buscá-la! – E fiz um gesto para lançar-me, brandindo a harpa.
Acima de mim, o enorme disco lunar já não parecia o mesmo de antes, tanto havia diminuído, e olhem que ia até se contraindo cada vez mais como se fosse o meu olhar que o atirasse para longe, e o céu vazio se arreganhasse como um abismo no fundo do qual as estrelas andavam se multiplicando, e a noite derramava sobre mim um rio de vácuo, submergindo-me na ansiedade e na vertigem.
“Tenho medo!”, pensei. “Tenho medo demais para atirar-me! Sou um covarde!”, e naquele momento mesmo me atirei. Nadava pelo céu furiosamente, e estendia a harpa para ela, mas, em vez de vir ao meu encontro, ela se revolvia, ora me mostrando a face impassível, ora o dorso.
– Vamos nos abraçar! – gritei, e já a alcançava, para agarrá-la para sempre, enlaçando os meus membros nos seus. – Vamos nos abraçar para cairmos juntos!
E concentrava minhas forças em me unir o mais estreitamente possível a ela, e minhas sensações no desfrutar a totalidade daquele abraço. Tanto que custei a dar-me conta de que estava em vez disso arrebatando-a de seu estado de libração para fazê-la recair na Lua. Não me dera conta? Ou talvez fosse essa desde o princípio a minha verdadeira intenção? Não havia ainda conseguido formular o pensamento, quando já um grito irrompeu da minha garganta:
– Eu é que vou ficar um mês junto com você! – E até mesmo: – Em cima de você! – gritava, na minha excitação: – Eu em cima de você um mês inteiro! – E naquele momento a queda sobre o solo lunar havia desfeito o nosso abraço, e roláramos eu para um lado e ela para o meio das frias escamas.
Ergui os olhos como fazia sempre que tocava a crosta da Lua, seguro de encontrar acima de mim o mar natal como um teto infinito, e o vi, sim, o vi ainda esta vez, mas muito mais alto, e muito exiguamente limitado por seus contornos de costas, promontórios e escolhos, e como me pareceram pequeninas as barcas e irreconhecíveis os vultos dos companheiros e débeis os seus gritos! Um som chegou-me de pouca distância: a sra. Vhd Vhd havia encontrado a harpa e a acariciava, provocando um acorde triste como um pranto.
Começou um longo mês. A Lua girava lenta em torno da Terra. No globo suspenso já não víamos nossa praia familiar, mas uma sucessão de oceanos profundos como abismos, e desertos de seixos incandescentes, e continentes de gelo, e florestas borbulhantes de répteis, e os paredões rochosos das cadeias de montanhas talhados pela lâmina de rios precipitosos, e cidades palustres, e necrópoles de tufo, e impérios de argila e lama. A distância espalhava sobre todas as coisas uma cor uniforme: as perspectivas estranhas tornavam estranhas todas as imagens; bandos de elefantes e nuvens de gafanhotos percorriam as planícies tão igualmente vastas e densas e fechadas que não havia diferença.
Eu deveria estar feliz: como nos meus sonhos estava sozinho com ela, a intimidade com a Lua tantas vezes invejada a meu primo com a senhora Vhd Vhd era agora um privilégio exclusivo meu, um mês de dias e noites lunares estendia-se ininterrupto diante de nós, a crosta do satélite nos alimentava com seu leite de sabor acidulado e familiar, o nosso olhar se erguia para o mundo onde havíamos nascido, finalmente percorrido em toda a sua multiforme extensão, explorado nas paisagens jamais vistas pelos seres terrestres, ou então contemplava as estrelas que havia além da Lua, enormes como frutos de luz amadurecidos nos recurvos ramos do céu, e tudo ultrapassava as expectativas mais luminosas, mas, em vez disso, era o exílio.
Só pensava na Terra. Era a Terra que fazia com que alguém fosse de fato alguém e não outro qualquer; lá em cima, arrebatado da Terra, era como se eu não fosse mais eu mesmo, nem ela para mim aquela que foi. Estava ansioso por voltar à Terra, e tremia no temor de havê-la perdido. A extensão de meu sonho de amor havia durado apenas aquele instante em que havíamos rodado abraçados entre a Terra e a Lua; privada de seu terreno terrestre, minha paixão só provava a nostalgia lancinante daquilo que nos faltava: um onde, um em torno, um antes, um depois.
Isso era o que eu provava. Mas e ela? Ao me fazer tal pergunta, sentia-me dividido em meus temores. Porque, se ela também só pensasse na Terra, isso podia ser um bom sinal, o de um entendimento afinal alcançado, no entanto podia ser igualmente sinal de que tudo havia sido inútil, de que era ainda só para o surdo que se dirigiam todos os seus desejos. Mas não, nada disso. Ela jamais erguia o olhar para o velho planeta, pálida perambulava por aquelas landes, murmurando nênias e acariciando a harpa, como compenetrada de sua provisória (como eu achava) condição lunar. Significava isso que eu tinha vencido o meu rival? Não; que havia perdido; uma derrota desesperada. Porque ela havia compreendido que o amor de meu primo era apenas pela Lua, e tudo o que ela desejava então era transformar-se em Lua, assimilar-se ao objeto daquele amor extra-humano.
Tendo a Lua completado a sua volta do planeta, eis que nos encontramos de novo sobre os Escolhos de Zinco. Foi com desalento que os reconheci: nem mesmo em minhas mais negras previsões esperava vê-los tão apequenados na distância. Naquele charco de mar os companheiros tinham voltado a navegar, agora sem a escada portátil, que se tornara inútil; mas das barcas ergueu-se como uma selva de longas lanças; cada um deles brandia a sua, disposta em cima de um arpão ou gancho, talvez na esperança de arrancar ainda um pouco da última ricota lunar ou quem sabe para levar a nós pobres lá no alto algum auxílio. Porém, logo se tornou claro que elas não tinham comprimento suficiente para atingir a Lua; e tombavam, ridiculamente curtas, aviltadas, ficando a balouçar nas águas; e houve barcas que, naquela confusão, acabaram por virar. Mas eis que, então, de outra embarcação começou a erguer-se uma vara mais longa, arrastada até ali por sobre a superfície do mar: devia ser de bambu, de muitas e muitas varas de bambu, engastadas umas nas outras, e para erguê-la era preciso proceder com cautela a fim de que – leve como era – as oscilações não a quebrassem, e manobrá-la com muita força e perícia, para que todo aquele peso vertical não desequilibrasse a barca.
E aconteceu: estava claro que a ponta daquela haste havia tocado a Lua, e vimo-la roçar o solo escamoso, nele fazer pressão e apoiar-se um momento, dar quase um pequeno empurrão, e mesmo um forte empurrão que a fazia afastar-se de novo, e depois voltar a feri-la naquele mesmo ponto como em ricochete, e de novo afastar-se. E então reconheci, ou reconhecemos nós dois – eu e a senhora Vhd Vhd -, que era meu primo, não poderia ser outro, a fazer sua última brincadeira com a Lua, um truque dos seus, com a Lua na ponta da vara como se esta estivesse em equilíbrio. E percebemos que sua habilidade não visava a nada, não pretendia obter nenhum resultado prático, até mesmo poderíamos dizer que a estava empurrando mais ainda para longe, a Lua, que estava ajudando esse afastamento, que a queria acompanhar em sua órbita mais distante. E também isso era muito próprio dele: dele que não sabia conceber desejos em contraste com a natureza da Lua e seu curso e seu destino, e, se a Lua agora tendia a distanciar-se dele, pois então se rejubilava com esse afastamento como até agora se rejubilara com sua vizinhança.
Que devia fazer, diante daquilo, a sra. Vhd Vhd? Só naquele instante ela demonstrou até que ponto sua paixão pelo surdo não era um frívolo capricho, e sim um voto sem retorno. Se o que meu primo amava era a Lua distante, ela iria permanecer distante, na Lua. Isso intuí, vendo que ela não dava um só passo em direção ao bambu, apenas voltava a harpa em direção à Terra, alta no céu, beliscando-lhe as cordas. Disse que a vi, mas na realidade foi só com o canto do olho que captei sua imagem, pois mal a haste havia tocado a crosta lunar, eu saltei para agarrar-me a ela, e rápido como uma serpente deslizava pelos nós do bambu, subia com movimentos dos braços e joelhos, leve no espaço rarefeito, como impelido por uma força natural a me ordenar que voltasse à Terra, esquecendo o motivo que me havia feito ir lá em cima, ou talvez mesmo mais consciente que nunca dele e de seu desfecho malogrado, e já a escalada pela haste ondulante chegava ao ponto em que não devia fazer mais esforço algum, apenas deixar-me escorregar de cabeça atraído pela Terra, até que naquela corrida a vara se rompeu em mil pedaços e caí no mar por entre as barcas.
Era o doce retorno, a volta à pátria, entretanto meu pensamento era só de dor por aquela que perdera, e meus olhos se dirigiam para a Lua para sempre inalcançável, procurando-a. E a vi. Estava lá onde a havia deixado, estendida numa praia situada exatamente acima de nossas cabeças, sem dizer nada. Estava da cor da Lua; segurava a harpa de lado e movia uma das mãos em lentos e raros arpejos. Distinguia-se bem a forma do peito, dos braços, dos flancos, assim como agora a recordo, agora que a Lua se tornou aquele círculo achatado e distante, e eu continuo sempre a buscá-la com o olhar mal se mostra no céu o primeiro crescente, e quanto mais vai crescendo, mais imagino vê-la, ela ou qualquer coisa dela, porém nada mais que ela, em cem em mil visões distintas, ela que faz da Lua a Lua e que faz a cada plenilúnio os cães ladrarem a noite inteira e eu com eles.

(Italo Calvino - Todas as Cosmicômicas)

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MORAL COMO ANTINATUREZA

por Thynus, em 09.06.17
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O cristão, em especial o cristão sacerdote, é um critério de valores. — — Ainda preciso dizer que em todo o Novo Testamento aparece uma única figura digna de respeito? Pilatos, o governador romano. Levar a sério uma questão entre judeus — ele não se persuade a fazer isso. Um judeu a mais ou a menos — que importa?... O nobre escárnio de um romano, ante o qual se comete um impudente abuso da palavra “verdade”, enriqueceu o Novo Testamento com a única frase que tem valor — que é sua crítica, até mesmo sua aniquilação: “que é a verdade?”... [João, 18, 38]
1.
 
Todas as paixões têm um período em que são meramente funestas, em que levam para baixo suas vítimas com o peso da estupidez — e um período posterior, bem posterior, em que se casam com o espírito, se “espiritualizam”. Antes, devido à estupidez na paixão, fazia-se guerra à paixão mesma: conspirava-se para aniquilá-la — todos os velhos monstros da moral são unânimes nisso: “il faut tuer les passions” [é preciso matar as paixões]. A mais célebre formulação disso está no Novo Testamento, naquele Sermão da Montanha em que, diga-se de passagem, as coisas não são observadas do alto. Lá se diz, por exemplo, referindo-se à sexualidade: “se teu olho te escandaliza, arranca-o de ti”;39 felizmente, nenhum cristão age conforme esse preceito. Aniquilar as paixões e os desejos apenas para evitar sua estupidez e as desagradáveis conseqüências de sua estupidez, isso nos parece, hoje, apenas uma forma aguda de estupidez. Já não admiramos os dentistas que extraem os dentes para que eles não doam mais... Com alguma eqüidade se deve admitir, por outro lado, que o conceito de “espiritualização da paixão” não podia absolutamente ser concebido no solo do qual brotou o cristianismo. A Igreja primitiva lutou, como se sabe, contra os “inteligentes”, em favor dos “pobres de espírito”: como se poderia dela esperar uma guerra inteligente contra a paixão? — A Igreja combate a paixão com a extirpação em todo sentido: sua prática, sua “cura” é o castracionismo. Ela jamais pergunta: “Como espiritualizar, embelezar, divinizar um desejo?” — em todas as épocas, ao disciplinar, ela pôs a ênfase na erradicação (da sensualidade, do orgulho, da avidez de domínio, da cupidez, da ânsia de vingança). — Mas atacar as paixões pela raiz significa atacar a vida pela raiz: a prática da Igreja é hostil à vida...
 
 
2.
 
O mesmo recurso, a mutilação, a erradicação, é instintivamente escolhido, na luta contra um desejo, por aqueles que são muito fracos de vontade, muito degenerados para poder impor-se moderação nele: por aquelas naturezas que têm necessidade de La Trappe,40 falando por metáfora (e sem metáfora —), de alguma definitiva declaração de hostilidade, de um abismo entre si mesmas e uma paixão. Os meios radicais são indispensáveis somente para os degenerados; a fraqueza da vontade ou, mais exatamente, a incapacidade de não reagir a um estímulo, é ela mesma apenas outra forma de degenerescência. A hostilidade radical, a inimizade mortal à sensualidade é um sintoma que faz pensar: justifica especulações sobre o estado geral de alguém tão excessivo. — Aliás, essa hostilidade, esse ódio atinge seu auge apenas quando tais naturezas já não têm firmeza bastante sequer para a cura radical, para a renúncia ao seu “diabo”. Observe-se a história inteira dos sacerdotes e filósofos, incluindo os artistas: as coisas mais venenosas para os sentidos não foram ditas pelos impotentes, tampouco pelos ascetas, mas pelos ascetas impossíveis, por aqueles que teriam tido necessidade de ser ascetas...
 
 
3.
 
A espiritualização da sensualidade chama-se amor: ela é um grande triunfo sobre o cristianismo. Um outro triunfo é nossa espiritualização da inimizade. Consiste em compreender profundamente o valor de possuir inimigos: numa palavra, em agir e concluir de modo inverso àquele como antes se agia e se concluía. Em todos os tempos a Igreja quis a destruição de seus inimigos: nós, imoralistas e anticristos, vemos como vantagem nossa o fato de a Igreja subsistir... Também na política a inimizade se tornou agora mais espiritual — muito mais sagaz, pensativa, moderada. Quase todo partido vê que está no interesse de sua autoconservação que o partido oposto não esgote a força; o mesmo vale para a grande política. Sobretudo uma nova criação, o novo Reich, por exemplo, tem mais necessidade de inimigos que de amigos: apenas no antagonismo ele se sente necessário, apenas no antagonismo ele se torna necessário... Não agimos de modo diferente em relação ao inimigo “interior”: também aí espiritualizamos a inimizade, também aí compreendemos o seu valor. Somos fecundos apenas ao preço de sermos ricos em antagonismos; permanecemos jovens apenas sob a condição de que a alma não relaxe, não busque a paz... Nada se tornou mais estranho a nós do que aquele desiderato de antigamente, o da “paz de espírito”, o desiderato cristão; nada nos causa menos inveja do que a vaca moral e a gorda satisfação da boa consciência. Renunciamos à vida grande, ao renunciar à guerra... Em muitos casos, é certo, a “paz de espírito” é apenas um mal-entendido — outra coisa, que não sabe denominar-se mais honestamente. Eis alguns casos, sem rodeios e sem preconceito. “Paz de espírito” pode ser, por exemplo, a suave emanação de uma rica animalidade para o âmbito moral (ou religioso). Ou o começo da fadiga, a primeira sombra que a noite, que toda espécie de noite lança. Ou um sinal de que o ar está úmido, de que ventos meridionais se aproximam. Ou a gratidão, sem o saber, por uma digestão bem-sucedida (às vezes chamada de “amor aos homens”). Ou o acalmar-se do convalescente para quem tudo tem novo sabor e que aguarda... Ou o estado que sucede a uma forte satisfação da paixão que nos domina, o bem-estar de uma rara saciedade. Ou a caducidade de nossa vontade, de nossos desejos, de nossos vícios. Ou a preguiça, que a vaidade convence a adornar-se moralmente. Ou a chegada de uma certeza, até de uma certeza terrível, após uma prolongada tensão e tortura pela incerteza. Ou a expressão de maturidade e maestria em meio ao agir, criar, fazer, querer, o tranqüilo respirar, a atingida “liberdade da vontade”... Crepúsculo dos ídolos: quem sabe? Talvez também apenas uma “paz de espírito”...
 
 
4.
 
Darei formulação a um princípio. Todo naturalismo na moral, ou seja, toda moral sadia, é dominado por um instinto da vida — algum mandamento da vida é preenchido por determinado cânon de “deves” e “não deves”, algum impedimento e hostilidade no caminho da vida é assim afastado. A moral antinatural, ou seja, quase toda moral até hoje ensinada, venerada e pregada, volta-se, pelo contrário, justamente contra os instintos da vida — é uma condenação, ora secreta, ora ruidosa e insolente, desses instintos. Quando diz que “Deus vê nos corações”,41 ela diz Não aos mais baixos e mais elevados desejos da vida, e toma Deus como inimigo da vida... O santo no qual Deus se compraz é o castrado ideal... A vida acaba onde o “Reino de Deus” começa...
 
 
5.
 
Dado que se tenha compreendido o caráter hediondo dessa revolta contra a vida, que se tornou quase sacrossanta na moral cristã, compreendeu-se também, felizmente, uma outra coisa: o que há de inútil, aparente, absurdo, mentiroso numa tal revolta. Uma condenação da vida por parte do vivente é, afinal, apenas o sintoma de uma determinada espécie de vida: se tal condenação é justificada ou não, eis uma questão que não chega a ser levantada. Seria preciso estar numa posição fora da vida e, por outro lado, conhecê-la como alguém, como muitos, como todos os que a viveram, para poder sequer tocar no problema do valor da vida: razões bastantes para compreender que este é, para nós, um problema inacessível. Ao falar de valores, falamos sob a inspiração, sob a ótica da vida: a vida mesma nos força a estabelecer valores, ela mesma valora através de nós, ao estabelecermos valores... Disto se segue que também essa antinatureza de moral, que concebe Deus como antítese e condenação da vida, é apenas um juízo de valor da vida — de qual vida? de qual espécie de vida? — Já dei a resposta: da vida declinante, enfraquecida, cansada, condenada. A moral, tal como foi até hoje entendida — tal como formulada também por Schopenhauer enfim, como “negação da vontade de vida” —, é o instinto de décadence mesmo, que se converte em imperativo: ela diz: “pereça!” — ela é o juízo dos condenados...
 
 
6.
 
Consideremos ainda, por fim, que ingenuidade é dizer “assim e assim deveria ser o homem!”. A realidade nos mostra uma fascinante riqueza de tipos, a opulência de um pródigo jogo e alternância de formas: e algum pobre e vadio moralista vem e diz: “Não! o ser humano deveria ser outro!”... Ele sabe até como este deveria ser, esse mandrião e santarrão;42 ele desenha a si próprio no muro e diz “ecce homo!”...43 Mas, mesmo quando o moralista se volta apenas para o indivíduo e lhe diz: “você deveria ser assim e assim!”, ele não deixa de se tornar ridículo. O indivíduo é, de cima a baixo, uma parcela de fatum [fado, destino], uma lei mais, uma necessidade mais para tudo o que virá e será. Dizer-lhe “mude!” significa exigir que tudo mude, até mesmo o que ficou para trás... E, de fato, houve moralistas conseqüentes, que queriam o ser humano de outra forma, isto é, virtuoso, queriam-no à sua imagem, isto é, santarrão: para isso negaram eles o mundo! Tolice nada pequena! Imodéstia nada modesta!... A moral, na medida em que condena em si, não por atenções, considerações, intenções da vida, é um erro específico do qual não se deve ter compaixão, uma idiossincrasia de degenerados que causou dano incomensurável!... Nós, imoralistas, pelo contrário, abrimos nosso coração a toda espécie de entendimento, compreensão, abonação. Nós não negamos facilmente, buscamos nossa distinção em sermos afirmadores. Cada vez mais nossos olhos atentaram para essa economia que necessita e sabe aproveitar tudo o que é rejeitado pelo santo desatino do sacerdote, a doente razão do sacerdote, para essa economia que há na lei da vida, que mesmo das repugnantes espécies do santarrão, do sacerdote, do virtuoso tira sua vantagem — qual vantagem? — Mas nós mesmos, imoralistas, somos aqui a resposta...
 
(Friedrich Nietzsche - Crepúsculo dos Ídolos)
NOTAS:
 
39. Cf. Mateus, 5, 29 (“o olho direito”, diz-se ali); cf. também Mateus, 18, 9, e Marcos, 9, 47; pouco adiante, “pobres de espírito” é outra referência ao Sermão da Montanha.
40. La Trappe: monastério francês (em Soligny, na Normandia) onde foi fundada, em 1664, a ordem dos monges trapistas, conhecida pelo rigor de suas normas.
41. “Deus vê nos corações”: citação de Lucas, 16, 15; logo em seguida, “no qual Deus se compraz”: cf. Mateus, 12, 18.
42. “esse mandrião e santarrão”: dieser Schlucker und Mucker, no original — nas outras versões: “este biltre e hipócrita”, “este fanfarrão e este beato”, ese mentecapto y mojigato, questo smunto bacchettone, ce pauvre diable de cagot, this wretched bigot and prig, this bigoted wretch, this maundering miseryguts.
43. “ecce homo”: “eis o homem” — palavras de Pilatos quando mostrou Jesus Cristo à multidão (João, 19, 5); Nietzsche usou a expressão como título de um poema, no “Prelúdio em rimas alemãs” de A gaia ciência, e como título do seu volume autobiográfico.

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publicado às 00:09


OS “MELHORADORES” DA HUMANIDADE

por Thynus, em 07.06.17
 
 
Por mais que surjam embusteiros melhoradores do mundo e prometedores de salvação ou de paraísos ideais, sempre estaremos condenados ao limite de sermos humanos. O super-homem ao qual se refere o grande pensador alemão Friedrich Nietzsche não é aquele super-herói salvador, mas o homem que vive a vida na vida e não recorre a neuroses metafísicas para justificar suas ações.
 

1.
      Conhece-se minha exigência ao filósofo, de colocar-se além do bem e do mal — de ter a ilusão do julgamento moral abaixo de si. Tal exigência resulta de uma percepção[51] que fui o primeiro a formular: de que não existem absolutamente fatos morais. O julgamento moral tem isso em comum com o religioso, crê em realidades que não são realidades. Moral é apenas uma interpretação de determinados fenômenos, mais precisamente, uma má interpretação. O julgamento moral é parte, como o religioso, de um estágio de ignorância em que falta inclusive o conceito de real, a distinção entre real e imaginário: de modo que “verdade”, nesse estágio, designa coisas que agora chamamos de “quimeras”. Portanto, o julgamento moral nunca deve ser tomado ao pé da letra: assim ele constitui apenas contra-senso. Mas como semiótica[52] é inestimável: revela, ao menos para os que sabem, as mais valiosas realidades das culturas e interioridades que não sabiam o bastante para “compreenderem” a si próprias. Moral é apenas linguagem de signos, sintomatologia: é preciso saber antes de que se trata, para dela tirar proveito.

   2.
      Eis um primeiro exemplo, bastante provisoriamente. Sempre se quis “melhorar” os homens: sobretudo a isso chamava-se moral. Mas sob a mesma palavra se escondem as tendências mais diversas. Tanto o amansamento da besta-homem como o cultivo de uma determinada espécie de homem foram chamados de “melhora”: somente esses termos zoológicos exprimem realidades — realidades, é certo, das quais o típico “melhorador”, o sacerdote, nada sabe — nada quer saber... Chamar a domesticação de um animal sua “melhora” é, a nossos ouvidos, quase uma piada. Quem sabe o que acontece nas ménageries duvida que a besta seja ali “melhorada”. Ela é enfraquecida, tornada menos nociva; mediante o depressivo afeto do medo, mediante dor, fome, feridas, ela se torna uma besta doentia. — Não é diferente com o homem domado, que o sacerdote “melhorou”. Na Alta Idade Média, quando, de fato, a Igreja era sobretudo uma ménagerie[53], os mais belos exemplares da “besta loura”[54] eram caçados em toda parte — foram “melhorados”, por exemplo, os nobres germanos. Mas que aparência tinha depois esse germano “melhorado”, conquistado para o claustro? A de uma caricatura de homem, de um aborto: tornara-se um “pecador”, estava numa jaula, tinham-no encerrado entre conceitos terríveis... Ali jazia ele, doente, miserável, malevolente consigo mesmo; cheio de ódio para com os impulsos à vida, cheio de suspeita de tudo o que ainda era forte e feliz. Em suma, um “cristão”... Em termos fisiológicos: na luta contra a besta, tornar doente pode ser o único meio de enfraquecê-la. Isso compreendeu a Igreja: ela estragou o ser humano, ela o debilitou — mas reivindicou tê-lo “melhorado”...
 
 

        3.

      Tomemos o outro caso do que chamam moral, o do cultivo de uma determinada raça e espécie. O mais formidável exemplo dele é fornecido pela moral indiana, sancionada como religião na forma da “Lei de Manu”[55]. Aí se propõe a tarefa de cultivar não menos que quatro raças de vez: uma sacerdotal, uma guerreira, uma de mercadores e agricultores e, por fim, uma raça de servidores, os sudras. Evidentemente, aí já não estamos entre domadores de animais: uma espécie de homem cem vezes mais branda e mais razoável é o pressuposto para simplesmente conceber o plano de tal cultivo. Respira-se aliviado, quando se deixa o ar cristão de doença e masmorra e se adentra esse mundo mais são, mais elevado, mais amplo. Quão miserável é o Novo Testamento ao lado de Manu, como cheira mal! — Mas também essa organização tinha necessidade de ser terrível — dessa vez não em luta com a besta, mas com a noção oposta a essa, o homem do não-cultivo, o homem-mixórdia, o chandala. E novamente não teve outro recurso para torná-lo inofensivo, fraco, a não ser torná-lo doente — era a luta com o “grande número”. Talvez nada contrarie mais nossa sensibilidade do que essas medidas de proteção da moral indiana. O terceiro edito, por exemplo (Avadana-Sastra i), o “dos vegetais impuros”, decreta que a única alimentação permitida aos chandalas seja alho e cebola, visto que as escrituras sagradas proíbem dar-lhes cereais ou frutos que contenham grãos, ou água, ou fogo. O mesmo edito estabelece que a água que necessitam não pode ser retirada dos rios, nem das fontes ou dos lagos, mas somente das vias de acesso aos pântanos e dos buracos deixados pelos pés dos animais. Igualmente lhes é proibido lavar sua roupa e lavar a si mesmos, pois a água que lhes é concedida graciosamente pode ser usada apenas para matar a sede. Por fim, há a proibição de as mulheres sudras assistirem as mulheres chandalas no parto, e também de essas últimas assistirem uma a outra... — O resultado de tal policiamento sanitário não deixou de aparecer: epidemias assassinas, horríveis doenças venéreas e, depois, novamente a “lei da faca”, prescrevendo a circuncisão dos meninos e a remoção dos pequenos lábios das meninas. — O próprio Manu diz: “Os chandalas são fruto do adultério, do incesto e do crime (— esta é a conseqüência necessária do conceito de cultivo). Eles só devem ter por vestimenta os farrapos dos cadáveres; por louça, vasilhames quebrados; por adornos, pedaços velhos de ferro; por culto religioso, somente os maus espíritos. Eles devem errar entre um lugar e outro sem descanso. É-lhes proibido escrever da esquerda para a direita e servir-se da mão direita para escrever: o uso da mão direita e da escrita da esquerda para a direita é reservado aos virtuosos, às pessoas de raça”. —

         4.

      Essas disposições são muito instrutivas: nelas temos a humanidade ariana, totalmente pura, totalmente primordial — vemos que o conceito de “sangue puro” é o oposto de um conceito inócuo. Por outro lado, torna-se claro em qual povo se eternizou o ódio, o ódio de chandala a essa “humanidade”, onde ele se tornou religião, onde se tornou gênio... Desse ponto de vista os evangelhos são um documento de primeira ordem; e mais ainda o livro de Enoque. — O cristianismo, de raiz judaica e compreensível apenas como produto deste solo, representa o movimento oposto a toda moral do cultivo, da raça, do privilégio: — é a religião antiariana par excellence [por excelência]: o cristianismo[56], a tresvaloração de todos os valores arianos, o triunfo dos valores chandalas, o evangelho pregado aos pobres, aos baixos, a revolta geral de todos os pisoteados, miseráveis, malogrados e desfavorecidos contra a “raça” — a imorredoura vingança chandala como religião do amor...

   5.

      A moral do cultivo e a moral da domesticação são inteiramente dignas uma da outra nos meios de se imporem: podemos colocar como princípio máximo que, para fazer moral, é preciso ter a vontade incondicional do oposto. Este é o grande, o inquietante problema que persegui mais longamente: a psicologia dos “melhoradores” da humanidade. Um fato pequeno e, no fundo, modesto, o da chamada pia fraus [mentira piedosa][57], permitiu-me o primeiro acesso a este problema: a pia fraus, a herança de todos os filósofos e sacerdotes que “melhoraram” a humanidade. Nem Manu, nem Platão, nem Confúcio,[58] nem os mestres judeus e cristãos duvidaram jamais de seu direito à mentira. Não duvidaram de outros direitos... Expresso numa fórmula, pode-se dizer: todos os meios pelos quais, até hoje, quis-se tornar moral a humanidade foram fundamentalmente imorais --
1.
      Conhece-se minha exigência ao filósofo, de colocar-se além do bem e do mal — de ter a ilusão do julgamento moral abaixo de si. Tal exigência resulta de uma percepção que fui o primeiro a formular: de que não existem absolutamente fatos morais. O julgamento moral tem isso em comum com o religioso, crê em realidades que não são realidades. Moral é apenas uma interpretação de determinados fenômenos, mais precisamente, uma má interpretação. O julgamento moral é parte, como o religioso, de um estágio de ignorância em que falta inclusive o conceito de real, a distinção entre real e imaginário: de modo que “verdade”, nesse estágio, designa coisas que agora chamamos de “quimeras”. Portanto, o julgamento moral nunca deve ser tomado ao pé da letra: assim ele constitui apenas contra-senso. Mas como semiótica é inestimável: revela, ao menos para os que sabem, as mais valiosas realidades das culturas e interioridades que não sabiam o bastante para “compreenderem” a si próprias. Moral é apenas linguagem de signos, sintomatologia: é preciso saber antes de que se trata, para dela tirar proveito.

   2.
      Eis um primeiro exemplo, bastante provisoriamente. Sempre se quis “melhorar” os homens: sobretudo a isso chamava-se moral. Mas sob a mesma palavra se escondem as tendências mais diversas. Tanto o amansamento da besta-homem como o cultivo de uma determinada espécie de homem foram chamados de “melhora”: somente esses termos zoológicos exprimem realidades — realidades, é certo, das quais o típico “melhorador”, o sacerdote, nada sabe — nada quer saber... Chamar a domesticação de um animal sua “melhora” é, a nossos ouvidos, quase uma piada. Quem sabe o que acontece nas ménageries duvida que a besta seja ali “melhorada”. Ela é enfraquecida, tornada menos nociva; mediante o depressivo afeto do medo, mediante dor, fome, feridas, ela se torna uma besta doentia. — Não é diferente com o homem domado, que o sacerdote “melhorou”. Na Alta Idade Média, quando, de fato, a Igreja era sobretudo uma ménagerie, os mais belos exemplares da “besta loura” eram caçados em toda parte — foram “melhorados”, por exemplo, os nobres germanos. Mas que aparência tinha depois esse germano “melhorado”, conquistado para o claustro? A de uma caricatura de homem, de um aborto: tornara-se um “pecador”, estava numa jaula, tinham-no encerrado entre conceitos terríveis... Ali jazia ele, doente, miserável, malevolente consigo mesmo; cheio de ódio para com os impulsos à vida, cheio de suspeita de tudo o que ainda era forte e feliz. Em suma, um “cristão”... Em termos fisiológicos: na luta contra a besta, tornar doente pode ser o único meio de enfraquecê-la. Isso compreendeu a Igreja: ela estragou o ser humano, ela o debilitou — mas reivindicou tê-lo “melhorado”...
Melhoradores do mundo e suas obsessões
 

        3.

      Tomemos o outro caso do que chamam moral, o do cultivo de uma determinada raça e espécie. O mais formidável exemplo dele é fornecido pela moral indiana, sancionada como religião na forma da “Lei de Manu”. Aí se propõe a tarefa de cultivar não menos que quatro raças de vez: uma sacerdotal, uma guerreira, uma de mercadores e agricultores e, por fim, uma raça de servidores, os sudras. Evidentemente, aí já não estamos entre domadores de animais: uma espécie de homem cem vezes mais branda e mais razoável é o pressuposto para simplesmente conceber o plano de tal cultivo. Respira-se aliviado, quando se deixa o ar cristão de doença e masmorra e se adentra esse mundo mais são, mais elevado, mais amplo. Quão miserável é o Novo Testamento ao lado de Manu, como cheira mal! — Mas também essa organização tinha necessidade de ser terrível — dessa vez não em luta com a besta, mas com a noção oposta a essa, o homem do não-cultivo, o homem-mixórdia, o chandala. E novamente não teve outro recurso para torná-lo inofensivo, fraco, a não ser torná-lo doente — era a luta com o “grande número”. Talvez nada contrarie mais nossa sensibilidade do que essas medidas de proteção da moral indiana. O terceiro edito, por exemplo (Avadana-Sastra i), o “dos vegetais impuros”, decreta que a única alimentação permitida aos chandalas seja alho e cebola, visto que as escrituras sagradas proíbem dar-lhes cereais ou frutos que contenham grãos, ou água, ou fogo. O mesmo edito estabelece que a água que necessitam não pode ser retirada dos rios, nem das fontes ou dos lagos, mas somente das vias de acesso aos pântanos e dos buracos deixados pelos pés dos animais. Igualmente lhes é proibido lavar sua roupa e lavar a si mesmos, pois a água que lhes é concedida graciosamente pode ser usada apenas para matar a sede. Por fim, há a proibição de as mulheres sudras assistirem as mulheres chandalas no parto, e também de essas últimas assistirem uma a outra... — O resultado de tal policiamento sanitário não deixou de aparecer: epidemias assassinas, horríveis doenças venéreas e, depois, novamente a “lei da faca”, prescrevendo a circuncisão dos meninos e a remoção dos pequenos lábios das meninas. — O próprio Manu diz: “Os chandalas são fruto do adultério, do incesto e do crime (— esta é a conseqüência necessária do conceito de cultivo). Eles só devem ter por vestimenta os farrapos dos cadáveres; por louça, vasilhames quebrados; por adornos, pedaços velhos de ferro; por culto religioso, somente os maus espíritos. Eles devem errar entre um lugar e outro sem descanso. É-lhes proibido escrever da esquerda para a direita e servir-se da mão direita para escrever: o uso da mão direita e da escrita da esquerda para a direita é reservado aos virtuosos, às pessoas de raça”. —

         4.

      Essas disposições são muito instrutivas: nelas temos a humanidade ariana, totalmente pura, totalmente primordial — vemos que o conceito de “sangue puro” é o oposto de um conceito inócuo. Por outro lado, torna-se claro em qual povo se eternizou o ódio, o ódio de chandala a essa “humanidade”, onde ele se tornou religião, onde se tornou gênio... Desse ponto de vista os evangelhos são um documento de primeira ordem; e mais ainda o livro de Enoque. — O cristianismo, de raiz judaica e compreensível apenas como produto deste solo, representa o movimento oposto a toda moral do cultivo, da raça, do privilégio: — é a religião antiariana par excellence [por excelência]: o cristianismo, a tresvaloração de todos os valores arianos, o triunfo dos valores chandalas, o evangelho pregado aos pobres, aos baixos, a revolta geral de todos os pisoteados, miseráveis, malogrados e desfavorecidos contra a “raça” — a imorredoura vingança chandala como religião do amor...

   5.

      A moral do cultivo e a moral da domesticação são inteiramente dignas uma da outra nos meios de se imporem: podemos colocar como princípio máximo que, para fazer moral, é preciso ter a vontade incondicional do oposto. Este é o grande, o inquietante problema que persegui mais longamente: a psicologia dos “melhoradores” da humanidade. Um fato pequeno e, no fundo, modesto, o da chamada pia fraus [mentira piedosa], permitiu-me o primeiro acesso a este problema: a pia fraus, a herança de todos os filósofos e sacerdotes que “melhoraram” a humanidade. Nem Manu, nem Platão, nem Confúcio,[58] nem os mestres judeus e cristãos duvidaram jamais de seu direito à mentira. Não duvidaram de outros direitos... Expresso numa fórmula, pode-se dizer: todos os meios pelos quais, até hoje, quis-se tornar moral a humanidade foram fundamentalmente imorais --


(Friedrich Nietzsche - Crepúsculo dos Ídolos)
 
NOTAS:
  1. “Percepção”: Einsicht— as outras versões trazem: “ponto de vista”, “intelecção”, intuición, idea, examen, insight, idem, idem; cf. Além do bem e do mal (São Paulo, Companhia das Letras, 1992), nota 67. Pouco adiante, “quimeras” foi a versão dada a Einbildungen — as traduções consultadas apresentam: “imaginações”, “construções imaginárias”, imaginaciones, chimere, imagination, imaginings, idem, illusions. 
  2. “semiótica”: Semiotik, no original; o termo é aqui usado, como se vê logo adiante, no sentido médico de “sintomatologia”; cf. outro uso do termo em Ecce homo, “As extemporâneas”, 3. 
  3. “ménagerie, s. f. Coleção de animais exóticos e raros para estudo ou recreio. || Coleção de feras que se mostram em jaulas pelas feiras, etc. || Estábulo, pátios onde se criam animais domésticos” (Domingos de Azevedo, Grande dicionário francês/português, 8a ed., Lisboa, Bertrand, 1984). 
  4. “besta loura”: esta expressão, que viria a se tornar famosa, foi usada primeiramente na Genealogia da moral (dissertação i, 11, e ii, 17); esta parece ser a única outra ocasião em que ela aparece. 
  5. “Lei de Manu”: o mais importante dos tratados jurídico-morais hindus, atribuído ao próprio Manu, filho do deus Brahma e pai da raça humana. Nietzsche encontrou excertos dessa obra no livro Les législateurs religieux: Manou — Moïse — Mahomet, de Louis Jacolliet (Paris, 1876), que muito o impressionou, como se vê por uma carta de maio de 1888 (cf. apêndice deste volume). No código de Manu são estabelecidas as quatro castas indianas, mencionadas em seguida no texto: os sacerdotes (brâmanes), os guerreiros (xátrias), os comerciantes e agricultores (vaixás) e os sudras ou párias, os “intocáveis” (“chandalas”, termo que Nietzsche usará com mais freqüência). 
  6. Tanto na edição de Karl Schlechta como na de Colli e Montinari, não há vírgula após “cristianismo”. Dos demais tradutores, um seguiu à risca o original, um acrescentou um travessão, dois acrescentaram um “é”, e quatro optaram também pela vírgula. 
  7. pia fraus: expressão tirada das Metamorfoses (ix, 711), do poeta romano Ovídio (43 a. C.-18 d. C.); designa um logro realizado com boa intenção; cf. Além do bem e do mal, seção 105.
  8. Confúcio (551-479 a.c): filósofo chinês;sua doutrina foi registrada por seus discípulos nos Analetos


OS “MELHORADORES” DA HUMANIDADE

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publicado às 23:20


A linguagem das árvores

por Thynus, em 02.06.17
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Segundo o dicionário, fala é a “faculdade que tem o homem de expressar verbalmente suas ideias, emoções e experiências”. Visto dessa forma, apenas os humanos podem falar, pois esse conceito se limita à nossa espécie. No entanto, não seria interessante descobrir que as árvores também podem se expressar? Claro que elas não produzem sons, por isso não há nada que possam escutar. Os galhos rangem e estalam ao entrar em atrito uns com os outros, e as folhas farfalham, mas esses sons são causados pelo vento, não dependem de ações delas. Acontece que as árvores marcam sua presença de outra forma: por meio dos odores que exalam.
Isso não é novidade para nós, seres humanos; afinal, usamos desodorantes e perfumes. E, mesmo que não usássemos, nosso odor transmite informações ao consciente e ao inconsciente de outras pessoas. Algumas parecem simplesmente não ter cheiro algum, enquanto outras usam o odor para atrair. Segundo a ciência, os feromônios do suor são fundamentais até para decidirmos quem será nosso parceiro, ou seja, com quem queremos ter filhos. Dessa forma, temos uma linguagem aromática secreta, que as árvores demonstraram também ter.
Há cerca de 40 anos cientistas notaram algo interessante na savana da África. As girafas comem a folhagem da Acacia tortilis, uma espécie de acácia que não gosta nem um pouco disso. Para se livrar dos herbívoros, poucos minutos depois de as girafas aparecerem as acácias bombeiam toxinas para as folhas. As girafas sabem disso e partem para as árvores próximas. Mas não tão próximas: primeiro elas pulam vários exemplares e só voltam a comer depois de uns 100 metros. O motivo é surpreendente: as acácias atacadas exalam um gás de alerta (no caso, etileno) que sinaliza às outras ao redor que surgiu um perigo. Com isso, todos os indivíduos alertados se preparam de antemão e também liberam toxinas. As girafas conhecem a tática e por isso avançam savana adentro até encontrarem árvores desavisadas. Ou então trabalham contra o vento, já que é ele que carrega a mensagem aromática, buscando acácias que ainda não detectaram sua presença.
Isso também acontece em outras florestas. Sejam faias, abetos ou carvalhos, as árvores percebem os ataques sofridos. Dessa forma, quando uma lagarta morde com vontade, o tecido da folha danificada se altera e ela envia sinais elétricos, da mesma forma que acontece com o corpo humano. No entanto, esse impulso não se espalha em milissegundos, como no nosso caso, mas a apenas 1 centímetro por minuto. Por isso demora até uma hora para que a substância defensiva chegue às folhas e acabe com a refeição da praga.(ANHÄUSER, M. Der stumme Schrei der Limabohne. In: MaxPlanck-Forschung 3/2007, p. 64-65) As árvores não são rápidas, e mesmo em perigo essa parece ser sua velocidade máxima.
Apesar do ritmo lento, as partes individuais do corpo de uma árvore não funcionam isoladamente. Por exemplo, se as raízes estiverem em dificuldade, a informação se espalhará pela árvore, que liberará uma substância especial pelas folhas. Essa capacidade de produzir diferentes substâncias é outra característica das árvores que as ajuda a identificar quem está atacando.
A saliva de cada espécie de inseto é única e pode ser tão bem classificada que as árvores são capazes de emitir substâncias que atraem predadores específicos desses insetos, que atacarão a praga e em consequência ajudarão as árvores. Os olmos e pinheiros, por exemplo, apelam a pequenas vespas que depositam seus ovos no corpo das lagartas que comem folhas.(Idem) A larva da vespa se desenvolve no interior da praga, que é devorada pouco a pouco, de dentro para fora. Assim as árvores se livram de pragas inconvenientes e podem continuar crescendo livremente. A capacidade de identificar a saliva das pragas comprova outra habilidade das árvores: elas também devem ter uma espécie de paladar.
No entanto, as substâncias odoríferas têm uma desvantagem: elas se dispersam rapidamente com o vento – em geral só são detectadas a, no máximo, 100 metros da árvore que a emitiu. De qualquer forma, como a propagação de sinais dentro da árvore ocorre com muita lentidão, pelo ar a árvore cobre áreas muito mais extensas e alerta partes distantes do próprio corpo com velocidade bem maior.
Muitas vezes as árvores não precisam pedir ajuda específica para se defender dos insetos. O mundo animal registra as mensagens químicas básicas das árvores, sabe qual espécie de árvore está sendo atacada e quais espécies predadoras devem se mobilizar. As que se alimentam do organismo que está atacando a árvore se sentem atraídas.
A árvore também sabe se defender por conta própria. Por exemplo, para matar insetos devoradores ou pelo menos para se tornar desagradável ao paladar do agressor, o carvalho libera, na casca e nas folhas, tanino, uma substância amarga e venenosa. O salgueiro produz salicina, um precursor da aspirina que tem o mesmo efeito que o tanino, mas não em nós, seres humanos: na verdade, o chá de sua casca alivia dores de cabeça e diminui a febre. A árvore precisa de tempo para ativar essa defesa, por isso a cooperação no alerta inicial é fundamental.
As árvores não confiam apenas no ar, pois o cheiro do perigo não alcançaria todas as vizinhas. Para contornar essa limitação, elas enviam mensagens também pelas raízes, que as conectam e não dependem do clima para funcionar bem. Recentemente uma pesquisa chegou à surpreendente conclusão de que os alertas são espalhados não apenas por meios químicos, mas também eletricamente, a 1 centímetro por segundo. Em comparação com o nosso corpo, é uma velocidade baixa, mas no reino animal existem espécies com velocidade de condução elétrica semelhante à das árvores, como as águas-vivas e as minhocas.(Die Intelligenz der Pflanzen) Quando a notícia se espalha, todos os carvalhos bombeiam tanino.
As raízes de uma árvore são muito longas, têm mais que o dobro da extensão da copa. Elas se entrelaçam e aderem às raízes das árvores vizinhas. No entanto, esse contato não acontece em todos os casos, pois na floresta também há árvores solitárias, que não querem se relacionar com as outras. Felizmente, porém, elas não conseguem bloquear os sinais de alarme. Na maioria dos casos as árvores se valem dos fungos para fazer a transmissão rápida das mensagens. Eles funcionam como os cabos de fibra óptica da internet. Os filamentos finos penetram a terra e se entremeiam pelas raízes em uma densidade inimaginável, a ponto de uma colher de chá de terra da floresta conter muitos quilômetros desses “condutores”.(Was sollte ich über die Anwendung von Mykorrhiza-Produkten wissen?)
Ao longo dos séculos, um único fungo pode se estender por muitos quilômetros quadrados e criar uma rede capaz de ligar florestas inteiras. Ele transmite sinais de uma árvore para outra e as ajuda a trocar notícias sobre insetos, secas e outros perigos. Aliás, a ciência já fala da existência de uma “wood wide web” que permeia as florestas. As pesquisas sobre quais e quantas informações são trocadas ainda estão no início. O que já se sabe é que os fungos seguem uma estratégia, calcada na intermediação e no equilíbrio, que às vezes põe em contato diferentes espécies de árvores, mesmo que sejam concorrentes.
Quando as árvores ficam enfraquecidas, talvez não percam apenas a capacidade de defesa, mas também a de se comunicar. Só isso explica por que os insetos escolhem atacar especificamente os espécimes debilitados. É possível que, ao captar os alertas químicos das árvores, eles mordam as folhas ou a casca para testar os indivíduos que não se comunicaram. Esse “silêncio” pode ser causado por uma doença grave, mas também pode se dever à perda da rede de fungos, que deixa a árvore incomunicável. Sem acesso à rede, ela não recebe o sinal de perigo iminente e acaba devorada por lagartas e besouros. Com isso, os espécimes solitários também ficam à mercê dos ataques. Eles podem até parecer saudáveis, mas de fato não fazem ideia do que está acontecendo a seu redor.
Na floresta, os arbustos e gramados também fazem esse tipo de troca (na verdade, possivelmente todas as espécies de plantas). No entanto, nas plantações a vegetação fica em silêncio. As plantas cultivadas não são capazes de se comunicar umas com as outras, seja por cima ou por baixo da terra. São quase surdas-mudas, por isso se tornam presas fáceis para insetos.(Die Intelligenz der Pflanzen) Esse é um dos motivos pelos quais a agricultura moderna usa tanto inseticida. Para estimular a comunicação entre as plantas, os agricultores deveriam aprender mais sobre as florestas e introduzir um pouco da vida selvagem em seus cultivos.
No entanto, a comunicação entre árvores e insetos não gira somente em torno de questões de defesa e doença. Percebemos e até sentimos os muitos sinais de contato positivo entre seres tão diferentes. Falo das agradáveis mensagens enviadas pelas flores. Elas não disseminam o aroma ao acaso ou para nos agradar. Ao enviar essa mensagem, as árvores frutíferas, os salgueiros e as castanheiras estão fazendo um convite às abelhas. Quando atendem ao chamado, os insetos recebem um néctar doce, rico em açúcar, como recompensa pela polinização.
Assim como um outdoor, a forma e a cor das flores também funcionam como um sinal. As árvores se comunicam por meios olfativos, visuais e elétricos (para isso se valem de uma espécie de célula nervosa nas pontas das raízes). E quanto aos sons? Como eu disse, as árvores são silenciosas, porém estudos mais recentes reconsideraram essa afirmação. Monica Gagliano, da Universidade da Austrália Ocidental, auscultou o solo junto com colegas de Bristol e Florença.(GAGLIANO, Monica, et al. Towards understanding plant bioacoustics. In: Trends in plants science, v. 954, p. 1-3) Como não seria nada prático ter árvores em laboratórios, foi mais fácil pesquisar brotos de cereais. E o fato é que os dispositivos de medição logo registraram um leve estalo das raízes a uma frequência de 220 hertz.
Esse fato por si só não significa muita coisa, afinal a madeira morta estala quando queimada. Mas o ruído captado no laboratório também foi ouvido pelas raízes não envolvidas no experimento. Quando eram expostas aos estalos a 220 hertz, as extremidades de suas raízes apontavam para a direção de onde a frequência era emitida. Isso significa que estavam registrando a frequência e, portanto, faz sentido dizer que os brotos “ouviram”.
A possibilidade de haver troca de informações entre plantas por meio de ondas sonoras certamente desperta muita curiosidade. Talvez esta seja a chave para podermos compreender as árvores, descobrir se estão bem e de que precisam. Infelizmente ainda não alcançamos esse ponto, pois a pesquisa na área está apenas começando. Mas, quando ouvir estalos no seu próximo passeio pela floresta, lembre-se de que talvez não seja apenas o vento…

(Wohlleben, Peter - A vida secreta das árvores)
Vibração, música, comunicação estimula crescimento das plantas

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publicado às 12:41


NÃO SOMOS TODOS EGOÍSTAS?

por Thynus, em 31.05.17

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Por um mundo menos babaca

 

 

Determinadas variantes desta pergunta são frequentemente levantadas como objeção àqueles que defendem uma ética de auto-interesse racional. Por exemplo, às vezes: “Cada um faz o que verdadeiramente quer fazer — do contrário, não faria”. Ou; “Ninguém se sacrifica realmente. Já que toda ação proposital é motivada  por algum valor ou meta que o agente deseja, age-se sempre egoisticamente, sabendo-se ou não”.

Para desembaraçar a confusão intelectual envolvida neste ponto de vista, consideremos que fatos da realidade conduzem a uma questão como egoísmo versus auto sacrifício, ou egoísmo versus altruísmo, e o que o conceito de “egoísmo” significa e necessariamente acarreta.

A questão do egoísmo versus auto sacrifício emerge em um contexto ético. A ética é um código de valores que guia as escolhas e ações do homem — as escolhas e ações que determinam o propósito e o rumo de sua vida. Ao escolher suas ações e objetivos, o homem enfrenta alternativas constantes. Para optar, requer um critério de valor — um propósito ao qual suas ações devem servir e visar. “‘Valor’ pressupõe uma resposta à pergunta: de valor para quem e para que?” (A Revolta de Atlas). Qual deve ser o objetivo ou propósito das ações de um homem? Quem deve ser o pretendido beneficiário de suas ações? Deve ele sustentar, como seu propósito moral básico, a realização de sua própria vida e felicidade — ou deveria o seu propósito moral básico servir aos desejos e necessidades de outros?

O choque entre egoísmo e altruísmo repousa em suas respostas conflitantes a estas perguntas. O egoísmo sustenta que o homem é um fim em si mesmo; o altruísmo, que o homem é um meio para os fins de outros. O egoísmo sustenta que, moralmente, o beneficiário de uma ação deveria ser a pessoa que age; o altruísmo, que, moralmente, o beneficiário de uma ação deveria ser outro, e não a pessoa que age.

Ser egoísta é estar motivado pela preocupação com os próprios interesses. Isto exige que se considere o que constitui os interesses de um indivíduo e como alcançá-los — que valores e metas buscar, que princípios e políticas adotar. Se um homem não estiver interessado nesta questão, não se poderá dizer objetivamente que se interessa ou deseja seu auto-interesse; não se pode estar interessado em ou desejar aquilo de que não se tem conhecimento.

O egoísmo vincula: (a) uma hierarquia de valores estabelecida pelo padrão dos auto-interesses de alguém, e (b) a recusa a sacrificar um valor maior a um menor ou a algo carente de valor.

Um homem genuinamente egoísta sabe que somente a razão pode determinar o que é, na verdade, do seu auto-interesse, que buscar contradições ou tentativas de agir em provocação aos fatos da realidade é autodestrutivo — e a autodestruição não é de seu auto-interesse. “Pensar é do auto-interesse do homem; interromper a sua consciência, não. Escolher as suas diretrizes no contexto do seu conhecimento, seus valores e sua vida é do auto-interesse do homem; agir no impulso do momento, sem consideração ao seu contexto de longo prazo, não. Existir como um ser produtivo é do auto-interesse do homem; uma tentativa de existir como um parasita, não. Procurar a vida adequada a sua natureza é do auto-interesse do homem; procurar viver como um animal, não”.

Porque um homem genuinamente egoísta escolhe as suas diretrizes orientado pela razão — e porque os interesses de homens racionais não se chocam — outros homens podem, frequentemente, beneficiar-se de suas ações. Mas o benefício de outros homens não é seu propósito ou objetivo básico; seu próprio benefício são seu propósito básico e objetivo consciente que dirigem suas ações.[Nathaniel Branden, Who is Ayn Rand?, Nova York: Random House, 1962; Paperback Library, 1964]

Para tornar este princípio inteiramente claro, consideremos um exemplo extremo de uma ação, que é, na verdade, egoísta, mas que, convencionalmente, poderia ser chamada de auto sacrifício: a disposição de um homem para morrer a fim de salvar a vida da mulher que ama. De que modo seria este homem o beneficiário de sua ação?

A resposta é dada em A Revolta de Atlas — na cena em que Galt, sabendo estar por ser preso, diz a Dagny: “Se eles tiverem a menor suspeita a respeito do que somos um para o outro, vão colocá-la em uma sessão de tortura — quero dizer, tortura física — diante dos meus olhos, em menos de uma semana. Não vou esperar por isto. Na primeira menção de uma ameaça a você, vou me matar e fazê-los parar bem aí... não preciso lhe dizer que, se eu fizer isto, não será um ato de auto sacrifício. Não me importa viver nas condições deles. Não estou a fim de obedecê-los e não estou a fim de ver você sofrendo um assassinato planejado. Não haverá nenhum valor para buscar depois, disto — e não estou a fim de viver sem valores.” Se um homem ama uma mulher tão intensamente que não quer sobreviver à sua morte, se a vida não pode oferecer-lhe mais nada a este preço, então morrer para salvá-la não é um sacrifício.

O mesmo princípio se aplica a um homem que se encontra em uma ditadura, que conscientemente arrisca a sua vida para obter a liberdade. Para classificar o seu ato de “auto sacrifício”, ter-se-ia que admitir que ele preferiria viver como escravo. O egoísmo de um homem que está disposto a morrer, se necessário, lutando por sua liberdade, repousa no fato de não estar disposto a viver num mundo onde já não é capaz de agir sob o seu próprio juízo — isto é, um mundo onde condições humanas de existência já não são possíveis para ele.

O egoísmo ou não-egoísmo de uma ação deve ser determinado objetivamente, e não pelos sentimentos da pessoa que age. Assim como sentimentos não são armas da cognição, também não são um critério, na ética.

Obviamente, para agir, tem-se de ser movido por algum motivo pessoal: deve-se “querer”, em algum sentido, desempenhar a ação. A questão do egoísmo de uma ação ou do seu não-egoísmo depende, não do fato do indivíduo querer ou não a efetuar, mas apenas do porquê quer fazê-lo. Por que critério escolheu sua ação? Para alcançar qual objetivo?

Se um homem proclamasse que sentira que melhor beneficiaria os outros roubando-os ou assassinando-os, os homens não estariam dispostos a reconhecer altruísmo em suas ações. Pela mesma lógica e razões, se um homem busca um rumo de autodestruição cega, seu sentimento de que ele tem algo a ganhar através disto, não estabelece que suas ações são egoístas.

Se, motivada unicamente por senso de caridade, compaixão, obrigação ou altruísmo, uma pessoa renuncia a um valor, desejo ou objetivo em favor do prazer, desejos ou necessidades de outra pessoa a quem valoriza menos do que aquilo a que renunciou — este é um ato de auto sacrifício. O fato de uma pessoa poder sentir que “quer” fazê-lo, não torna a sua ação egoísta ou estabelece objetivamente que ela é a beneficiária da ação.

Suponha, por exemplo, que um filho escolha a carreira que deseja através de critérios racionais, mas aí renuncie a ela para agradar sua mãe, que prefere que siga uma carreira diferente, que tenha mais prestígio aos olhos dos vizinhos. O garoto acede ao desejo de sua mãe porque aceitou isto como sua obrigação moral: acredita que seu dever como filho consiste em colocar a felicidade de sua mãe acima da sua própria, mesmo que saiba que a exigência da mãe é irracional e mesmo que saiba que está se sentenciando a uma vida de miséria e frustração. É absurdo para os defensores da doutrina “todos somos egoístas” declararem que, já que o garoto está motivado pelo desejo de ser “virtuoso” ou de evitar a culpa, nenhum auto sacrifício está envolvido, e sua ação é verdadeiramente egoísta. O que se evita é a pergunta de por que o garoto sente e deseja de tal forma. Emoções e desejos não são premissas irredutíveis, desprovidas de causa, são o produto das premissas que se aceitou. O garoto “quer” renunciar à sua carreira apenas porque aceitou a ética do altruísmo; crê
ser imoral agir para seu próprio auto-interesse. Este é o princípio que está dirigindo suas ações.

Defensores da doutrina “todos somos egoístas” não negam que, sob a pressão da ética altruísta, os homens podem intencionalmente agir contra sua própria felicidade, a longo prazo. Eles simplesmente afirmam que em algum sentido maior, indefinível, esses homens ainda estão agindo “egoisticamente”. Uma definição de “egoísmo” que inclui e permite a possibilidade de intencionalmente agir contra a felicidade a longo prazo de um indivíduo, é uma contradição em termos.

É apenas o legado do misticismo que permite aos homens imaginarem que ainda estão falando com sentido quando declaram que se pode procurar a felicidade na renúncia a ela.

A falácia básica no argumento “todos somos egoístas” consiste em um equívoco extraordinariamente brutal. É um truísmo psicológico — uma tautologia — pelo qual todo comportamento intencional é motivado. Mas igualar “comportamento motivado” com “comportamento egoísta” é zerar a distinção entre um fato elementar da psicologia humana e o fenômeno da escolha ética. É fugir ao problema central da ética, a saber: o quê motiva o homem?

Um egoísmo genuíno — isto é: um interesse genuíno por saber o que é do auto-interesse do indivíduo, uma aceitação da responsabilidade de conquistá-lo, uma recusa a jamais traí-lo agindo sob caprichos cegos, estado de espírito, impulso ou sentimento do momento, uma lealdade sem compromissos com juízos, convicções e valores próprios — representa uma profunda conquista moral. Aqueles que afirmam que “todos somos egoístas” comumente apresentam sua afirmação como uma expressão de cinismo e desdém. Mas a verdade é que sua afirmação faz à Humanidade um elogio que não merece.

(Setembro de 1962) 

 Nathaniel Branden
 

 (Ayn Rand - A Virtude do Egoísmo - a verdadeira ética do homem: o egoísmo nacional) 

 

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Aqueles que afirmam que “todos somos egoístas” comumente apresentam sua afirmação como uma expressão de cinismo e desdém. Mas a verdade é que sua afirmação faz à Humanidade um elogio que não merece.

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