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Somos a única espécie que possui um mecanismo de comunicação tão sofisticado como a fala. Mas isso não quer dizer que outros animais não sejam capazes de se comunicar de maneira eficiente. A expressão através de sons, gestos, caretas, odores, cores, hormônios, feromônios e posturas corporais é conhecida e documentada. Nossos ancestrais dependiam desses recursos de comunicação. Com o aparecimento da linguagem verbal, essas formas de comunicação perderam importância, mas não deixaram de existir. Expressões faciais e gestos ainda são usados para reforçar nossa comunicação oral, embora, da mesma maneira que o aparecimento do sol todas as manhãs nos impede de observarmos as estrelas, a linguagem falada ofusque todos os demais recursos. Mas será que ainda existem resquícios de outros modos de comunicação? Assim como as estrelas continuam no céu durante o dia, provavelmente nossos métodos primitivos de comunicação também ainda estão presentes em nossa vida. E um experimento recente comprova esse fato.

Pediu-se a um grupo de cinquenta mulheres que gravassem sua voz recitando os números de um a dez. Cada mulher gravou a frase: “One, two, three, four, five, six, seven, eight, nine, ten”. Depois elas voltavam ao laboratório todas as semanas para repetir a gravação, e isso foi feito durante quatro semanas. Após a última gravação, foi determinado o ponto exato do ciclo menstrual em que estavam as mulheres. Desse modo cada uma das quatro gravações pôde ser associada a uma fase do ciclo menstrual.

Em seguida, foram recrutados cinquenta homens. Cada um ouviu as duzentas gravações que as mulheres tinham feito e depois foi instruído a dar uma nota de zero a cem de acordo com a “sensualidade” da voz. Os homens não sabiam como as gravações haviam sido obtidas nem que existiam quatro versões para cada voz. Obtidos os resultados, os cientistas traçaram um gráfico que relacionava a “sensualidade” de cada gravação com o momento do ciclo menstrual em que ela foi feita. O resultado é impressionante. Os homens deram notas significativamente mais altas para as vozes gravadas durante o período fértil das mulheres. O experimento foi repetido com mulheres que tomavam pílulas anticoncepcionais, e nesse caso o efeito não foi detectado. Apesar de surpreendente, o resultado sugere que as mulheres comunicam sua fertilidade através da voz.

Essa observação fica mais fácil de entender se considerarmos o que ocorre na laringe das mulheres. De maneira análoga ao que acontece com os tecidos do útero e da vagina, o tecido das cordas vocais e da laringe sofre os efeitos das variações das taxas de hormônio feminino durante o ciclo menstrual, um fenômeno parecido com o que ocorre com os meninos na puberdade. Em diversos macacos os sons emitidos pelas fêmeas mudam de tom de acordo com sua fertilidade.

Fica demonstrado, portanto, que esse é um dos mecanismos de comunicação ofuscados pelo surgimento da fala. A capacidade de certas pessoas (como videntes e cartomantes) de detectar mensagens não verbais, como expressões faciais, gestos, cheiros e sudorese, pode explicar por que elas parecem “ler” nosso passado. Na verdade é provável que estejam “lendo” exatamente o que transmitimos utilizando nossos métodos primitivos de comunicação. E se elas são capazes de “ler” nosso passado, é claro que vamos acreditar que elas são capazes de “ler” nosso futuro.


(Fernando Reinach - A Longa Marcha dos Grilos Canibais)

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publicado às 09:13

A ciência possui uma arma poderosa para testar se um tratamento tem o efeito esperado: o método duplo-cego randomizado. Seu poder vem do fato de ele permitir que se conheça a eficiência de um tratamento mesmo quando não se sabe como ele atua. Recentemente, esse tipo de estudo foi utilizado para determinar se rezar pelo sucesso de uma operação cardíaca afeta o resultado da operação. E o que se descobriu foi surpreendente.

Apesar do nome complicado, um estudo duplo-cego randomizado é simples. Primeiro se selecionam os pacientes, depois eles são divididos de maneira aleatória em grupos que recebem e que não recebem o tratamento. O mais difícil é garantir que os pacientes, os médicos e todas as pessoas que vão avaliar o resultado do tratamento não saibam a que grupo cada paciente pertence enquanto executam suas tarefas. Daí o nome duplo-cego. Só depois de tudo terminado é que o código é quebrado e os resultados analisados.

Nesse estudo sobre reza e o sucesso de cirurgias cardíacas participaram pacientes de seis hospitais que necessitavam de uma ponte de safena, divididos em três grupos. Os 601 pacientes do primeiro grupo foram informados que comunidades de fiéis rezariam para que “a operação fosse bem-sucedida e que não houvesse complicações”. Os 604 pacientes do segundo grupo foram avisados que talvez eles fossem incluídos no grupo que receberia rezas, e de fato o foram. Os 597 pacientes do terceiro grupo também foram informados que talvez fossem incluídos no grupo que receberia rezas, porém não foram incluídos. No dia da operação, e nos catorze dias subsequentes, os nomes dos pacientes dos grupos “com reza” foram enviados a três igrejas (uma protestante e duas católicas) e lembrados nominalmente em todas as orações e rezas das congregações. Os pacientes dos três grupos foram acompanhados por trinta dias após a cirurgia e suas pequenas complicações documentadas. Terminado o experimento, os cientistas debruçaram-se sobre os dados.

Entre os pacientes do grupo que não recebeu rezas, 51% apresentaram pequenas complicações, como arritmias, febre etc. Entre os que receberam rezas sem saber que as receberiam, o resultado foi estatisticamente idêntico, 52% apresentaram complicações. Isso sugere que rezas ministradas nas condições do estudo, em que quem reza não pertence à família e não conhece o paciente, não influenciam o resultado da cirurgia. O surpreendente é que, entre os pacientes que foram avisados de que com certeza receberiam intercessões, 59% apresentaram complicações, um número que, apesar de semelhante, é estatisticamente maior do que os 52% do grupo que recebeu mas não tinha certeza de que receberia.

Esse resultado sugere que os pacientes que sabiam que iriam receber rezas apresentam um número maior de complicações. Os cientistas acreditam que isso pode ser explicado pela tensão extra a que eles estavam submetidos por pensarem algo como: “Se tanta gente está rezando por mim, meu problema deve ser sério”. Portanto, se você decidir pedir a Deus pela saúde de alguém que vai sofrer uma cirurgia, peça, mas não avise o paciente.


(Fernando Reinach - A Longa Marcha dos Grilos Canibais) 

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publicado às 09:12


Um parasita do afeto humano?

por Thynus, em 10.12.16
"Os cães são o nosso elo com o Paraíso. Eles não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. Sentar-se com um cão ao pé de uma colina numa linda tarde, é voltar ao Éden onde ficar sem fazer nada não era tédio, era paz."
 
"Cães amam seus amigos e mordem seus inimigos, bem diferente das pessoas, que são incapazes de sentir amor puro e têm sempre que misturar amor e ódio em suas relações."
 
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A lambida do cão e seus segredos
 

Quando o meio ambiente se modifica, os seres vivos incapazes de se adaptar a ele se extinguem. Por esse motivo, as estratégias utilizadas pelos animais para sobreviver em novos ambientes são muito estudadas pelos biólogos. Meu exemplo favorito é uma espécie que desenvolveu a capacidade de explorar a aptidão humana para dar e receber afeto. Utilizando sua capacidade de parasitar nossa mente, esse animal conseguiu garantir a sobrevivência de sua espécie. Como todo parasita, foi obrigado a abrir mão de sua liberdade, mas valeu a pena: da maneira como o homem vem alterando o planeta, é quase certo que essa espécie será a última do seu grupo a se extinguir, pois associou definitivamente seu destino ao do homem. Trata-se do cão.

Desde que o homem se espalhou pela Terra, os grandes carnívoros têm sofrido com nossa presença. No passado, lobos, tigres e leões não só competiam com o homem por alimentos como também se alimentavam de nossos ancestrais. À medida que o homem avançou sobre diversos ecossistemas e foi aos poucos invadindo seu habitat, eles foram caçados impiedosamente, e hoje muitos já se extinguiram ou estão na lista das espécies em extinção.

A exceção é o cachorro, que, ao entregar seu destino a seu pior inimigo, foi capaz de criar uma estratégia de sobrevivência exemplar. Provavelmente o homem primitivo domesticou o cachorro a fim de aproveitar sua capacidade de vigilância, do mesmo modo que domesticou as vacas para obter seu leite e os cavalos para o transporte. Mas, ao contrário desses animais, o cachorro teve a astúcia de desenvolver uma relação direta com nossa capacidade de criar laços afetivos. Talvez isso tenha ocorrido por causa de seu olhar meigo ou de sua capacidade de balançar o rabo. Não importa, o fato é que esse foi provavelmente o animal que melhor explorou essa característica humana.

Com o passar do tempo, a função dos cães como guardas perdeu importância, e eles começaram a correr o risco de ter sua população reduzida, como ocorreu com os cavalos após o surgimento do automóvel. Mas sua conexão direta com o afeto humano tem garantido o contínuo crescimento da espécie. Nos países desenvolvidos, o homem criou e sustenta uma indústria de bilhões de dólares para suprir esses animais com comidas especiais, roupas, tratamento veterinário, hotelaria e até cuidados psicológicos. Tamanha é a relação de parasitismo dessa espécie com a afetividade humana, que nos países pobres, onde homens passam fome, cães competem com crianças por comida. São poucas as sociedades em que esses animais são sacrificados para servir de alimento.

Mas para conquistar o privilégio de serem sustentados e protegidos pela espécie mais poderosa do planeta, eles tiveram de abrir mão de muitos privilégios, inclusive de sua liberdade reprodutiva: muitas raças de cães entregaram a seus protetores o poder de escolher seus parceiros sexuais. O domínio que esses parasitas exercem sobre o sistema amoroso de seus hospedeiros é de tal ordem que muitos humanos sacrificam seu bem-estar em prol de seus cães. É impressionante o sucesso da estratégia evolutiva dessa espécie, talvez o único caso em que um parasita controla a mente de seu hospedeiro. Reconhecer esse fato só faz aumentar minha admiração pelos cães.


(Fernando Reinach - A Longa Marcha dos Grilos Canibais)

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publicado às 02:04


O ABRAÇO GENITAL

por Thynus, em 03.12.16
E no abraço genital que o ser retorna ao ponto de partida, há o encontro do profano com o divino, é onde reside toda angustia da razão.
 

«Deus» é Natureza, e Cristo é a realização da Lei Natural. Deus (Natureza) criou os órgãos genitais em todos os seres vivos. Assim fez para que eles funcionem de acordo com a lei natural, divina. Portanto, atribuir uma vida de amor natural e divino ao mensageiro de Deus na Terra não é nenhum sacrilégio, nenhuma blasfêmia. É, pelo contrário, o estabelecimento de Deus na profundeza mais limpa do homem. Esta profundeza está presente desde o mais prematuro começo da vida. A procriação só é acrescentada à genitalidade na puberdade. O amor genital divino está presente muito antes da função de procriação; portanto, o abraço genital não foi criado pela Natureza e por Deus apenas com o objectivo de procriação.

(Wilhelm Reich - O Assassinato de Cristo)



 
Sonho de união total
O desejo de se fundir com outro organismo no abraço genital é tão forte no organismo couraçado como no não couraçado. No organismo couraçado ele será até mais violento, porque a satisfação total está bloqueada. Enquanto a Vida simplesmente ama, a vida couraçada «fode». Onde quer que a Vida se desenvolva livremente nas suas relações de amor, como o faz em todas as outras coisas, ela permite que as suas funções progridam lentamente, desde os primeiros estímulos até à plenitude da alegria no clímax, quer se trate de uma planta que passa da minúscula semente a árvore em flor, e depois a árvore frutífera, como da fé numa ideologia libertadora; da mesma maneira, a Vida deixa amadurecer lentamente as suas relações de amor, do primeiro olhar até ao abandono completo durante o abraço palpitante. A Vida não se precipita para o abraço. Ela não tem pressa, a não ser que um longo período de continência total torne necessária uma descarga instantânea de energia vital. O homem couraçado, trancado na prisão do seu organismo, vai directo à foda. A sua horrível linguagem demonstra as suas disposições emocionais: ele quer «engatar uma mulher», pela força ou pela sedução. Parece absurdo ao homem couraçado ficar a sós, durante certo tempo, com uma pessoa do sexo oposto, sem «tentar agarrá-la» contra a sua vontade, ou sem que ela tenha medo de ser objecto de uma agressão. Assim se explica o hábito do chaperon (pessoa que acompanha e vigia o namoro de jovens não casados, pau-de-cabeleira.), que é uma afronta à dignidade humana. Actualmente esse hábito tende a desaparecer, pois a genitalidade natural começa a ocupar o espírito das pessoas.
A Vida pode partilhar o leito com urna companheira sem pensar no abraço, se faltarem as condições espontâneas para isso. A Vida não começa pela realização, ela encaminha-se para a realização. Ela fá-lo pelo amor e para o amor, assim como em todos os campos nos quais funciona. A Vida não escreve um livro com o fim de ter «também» escrito um livro; não se esforça para encontrar eco nos jornais; não escreve «para as pessoas», mas sobre processos e factos. A Vida constrói uma ponte para que se possa atravessar o rio com segurança e não para obter um prêmio no congresso anual da Ordem dos Engenheiros.
Do mesmo modo, a Vida não pensa logo no abraço quando encontra companhia. A Vida encontra porque encontra. Ela pode separar-se do parceiro, pode caminhar um pouco com ele antes de o deixar, ou então o encontro pode chegar a uma fusão completa. A Vida não tem uma idéia precisa do que o futuro lhe reserva. A Vida aceita o curso natural das coisas. O futuro emerge da corrente contínua do presente, assim como o presente emerge do passado. Claro que pode haver pensamentos, sonhos, esperanças relativos ao futuro; mas, o futuro não governa o presente, como ocorre no domínio da vida couraçada. A Vida, quando flui livremente, interessa-se pelas suas funções e desenvolve certas habilidades que lhe permitem funcionar bem. O biólogo e o médico aprendem a sua arte a partir de uma habilidade que resulta naturalmente da realização de certas funções. A vida couraçada sonha ser um grande médico, um cirurgião célebre e admirado pelas multidões, que tudo fará para obter artigos elogiosos sobre a sua grande clínica nos grandes jornais de um grande país, e, para terminar, põe em caixa gordos honorários. O homem couraçado imagina assim o «sucesso». Este exemplo pode aplicar-se, ad libitum, ao grande führer da nação, ao grande tribuno do povo, ao grande pai dos grandes Russos da grande Rússia, ao maior país do globo. É sempre a mesma música, a mesma antecipação daquilo que deveria desenvolver-se de maneira orgânica, o mesmo hábito de começar pelo fim. A antiga patologia do cancro pretendia começar por elucidar o enigma das células cancerosas e atolou-se na teoria dos germes aéreos. O enigma foi resolvido onde menos se esperava: observando um simples rebento de planta num pouco de água pura e simples. A Vida, ao escrever um livro, não começa pelo título e pelo prefácio. O prefácio e o título são os últimos a serem escritos, pois devem englobar o todo; ora, ninguém pode ter uma visão do conjunto antes de haver terminado o todo. Não se constrói uma casa começando pelos móveis, mas pelos alicerces. Mas o plano dos alicerces deve ser precedido pela idéia geral que se faz do interior da casa quando terminada.
Todos os sonhos do casamento romântico começam pela defloração na noite de núpcias e terminam no esgoto dos conflitos conjugáis. Uma vez mais, é o homem couraçado que impede as pessoas de compreenderem que o casamento cresce lentamente, como a planta que se torna árvore frutífera. Ora, é preciso muito tempo para que uma árvore dê frutos. O amor conjugal nada tem a ver com a certidão de casamento. O amor conjugal desenvolve-se com simplicidade. Não exige esforço. O crescimento progressivo, o acesso a uma nova fase, a descoberta de uma nova maneira de olhar, a revelação de um novo detalhe da sua maneira de ser, agradável ou não, são experiências deliciosas. Elas mantêm-nos em movimento. Elas incitam-nos a mudar dentro das tendências naturais do nosso desenvolvimento. Elas contribuem muito mais para o embelezamento físico do que todos os sabonetes cantados pela publicidade; elas resguardam a capacidade de enrubescer no momento certo. É preciso meses, às vezes anos, para conhecer o corpo do parceiro amoroso. A descoberta do corpo do bem-amado proporcionará uma grande satisfação. Experimentaremos isso ao ultrapassarmos as primeiras dificuldades no ajustamento de dois organismos vivos. Ao homem pode faltar delicadeza nos seus momentos de grande excitação; a mulher pode temer a doçura do abandono involuntário. O homem pode ser muito «rápido» no início, e a mulher muito «lenta», ou vice-versa. A busca da experiência comum do gozo supremo pela fusão completa de dois vibrantes sistemas de energia − a que chamamos macho e fêmea −, esta busca, assim como a procura mútua e silenciosa do caminho até às sensações e vibrações cósmicas do ser amado, são prazeres supremos, límpidos como a água do riacho, deliciosos como o perfume de uma flor na manhã de Primavera. Esta experiência calorosa e durável do amor, do contacto e do abandono recíproco, do prazer dos corpos, é uma servidão perfeitamente digna que acompanha todo o casamento que cresce naturalmente. O abraço genital coroa esta alegria ininterrupta, ele é como o cume que se atinge depois de uma longa escalada, e donde se desce de noite e na tempestade. Mas parte-se ao encontro de novos cumes, que estão muito acima dos vales sombrios.
E cada cume apresenta-se com um aspecto diferente dos precedentes, pois a vida nunca se repete totalmente, mesmo num intervalo de poucos segundos, durante a mesma operação. A sua ambição não é estar «no alto», não é olhar os vales e contar aos outros quantos cumes escalou numa quinzena. A sua atitude fundamental é o silêncio. Prossegue-se a caminhada e fica-se feliz por se ter atingido uma nova altura, após uma ascensão continua. A preparação para a ascensão é tão delicada como a própria ascensão. O repouso no topo da montanha é tão belo como a chegada palpitante, quando os olhos e o corpo descobrem a paisagem. Durante os preparativos e na subida, a pessoa não fica a perguntar-se se conseguirá chegar ao topo. Não inventa um motor de bolso especialmente concebido para lhe fazer galgar os últimos cem metros. Não sufoca o grito de alegria que lhe chega à garganta quando atinge o cume, nem é tomada por cãibras à primeira impressão de prazer. Vive plenamente as diferentes fases da experiência. No fundo, sabe que não é difícil atingir o cume, porquanto cuidou de todos os passos nessa direcção. Está segura de si mesma, pois já escalou outras montanhas e sabe qual a impressão que elas lhe dão. Não permite que ninguém a conduza para o topo, nem imagina o que o seu maldoso vizinho possa estar a pensar ou dizer, se ele souber o que está a fazer. Deixa-os para trás, fazendo a mesma coisa ou sonhando fazê-la.
O abraço natural pleno assemelha-se a essa escalada; não se distingue essencialmente de qualquer actividade vital, importante ou não. Viver na plenitude é abandonar-se ao que se faz. Pouco importa que se trabalhe, que se fale com amigos, que se eduque uma criança, que se escute uma conversa, que se pinte um quadro, que se faça isto ou aquilo.
O abraço genital emerge naturalmente da necessidade − que se desenvolve lentamente − de fundir um corpo com outro. É fácil perceber este traço fundamental observando os pássaros, os sapos, as borboletas, os veados no cio e outros animais que vivem em liberdade. O prazer final da descarga total de energia no orgasmo é o resultado espontâneo da acumulação contínua de prazeres menores. Esses pequenos prazeres podem proporcionar a felicidade, ainda que excitando a necessidade de outros prazeres. Nem sempre esses prazeres menores terminam no prazer supremo. Duas borboletas, macho e fêmea, podem brincar juntas durante horas sem chegar à união. Podem ir mais longe e sobrepor-se, sem haver penetração. Mas uma vez que os sistemas energéticos dos seus corpos se encontrem, vão até o fim. Elas não se frustram uma à outra, a menos que sejam interrompidas por um coleccionador de borboletas ou por um passarinho esfomeado. A excitação do organismo inteiro precede a excitação genital propriamente dita. A potência orgástica é a realização do prazer total dos corpos e não somente do genital. Os órgãos genitais são apenas os instrumentos da penetração física que acontece depois da fusão dos dois campos de energia orgone, fusão esta que se opera muito antes da realização final. Os contactos são suaves. Não se agarra nem se prende, não se segura nem se aperta, não se puxa nem empurra ou belisca o outro. O contacto não vai além do que a situação particular exige. Um homem pode amar ternamente uma mulher durante meses, desejá-la com todo o seu ser, encontrá-la todos os dias, sem fazer outra coisa senão apertar-lhe calorosamente as mãos ou beijá-la nos lábios. Assim que os dois sentirem a necessidade do abraço, este acontecerá inevitavelmente, e ambos escolherão o melhor momento, assim que estejam prontos, sem trocar uma só palavra sobre esse assunto. Mas então a natureza desenvolverá os seus melhores poderes para unificar os dois seres vivos.
Como esses organismos permitiram que o seu amor atingisse, orgânica e progressivamente, o ponto exacto que ELE desejava atingir, e como eles souberam esboçar no momento certo o gesto certo, os seus corpos sabem exactamente como se encontrar no abraço. Cada um procurará as sensações do outro, e nelas encontrará o seu próprio prazer. Cada um descobrirá as inflexões do corpo do outro, tendo consciência do grau de abandono mútuo a cada instante, e escolhendo o caminho perfeitamente certo. Assim, talvez verifiquem que os seus corpos estão dispostos, num primeiro encontro, a ir até certo ponto, e não mais além. Se a fusão genital não emergir naturalmente desta fase, eles não se unirão e separar-se-ão, para sempre ou apenas por algum tempo. Eles procurarão «estruturar» a sua experiência recíproca e habituar-se-ão um ao outro, preparando-se para uma realização mais plena. O prazer não será toldado pela pretensão de possuir o parceiro ou de provar a própria potência. Não se trata de «provar», de «conseguir» ou de «obter» o que quer que seja.
A doce fusão realiza-se ou não. Ela pode acontecer durante alguns instantes e desaparecer em seguida. Ela não pode ser obtida ou mantida pela força. Se ela não for mantida e não crescer, o abraço não terminará na união genital. Se a união genital se produz finalmente sem que seja desenvolvida a doce sensação de fusão, os parceiros lamentar-la-ão em seguida; o seu prazer será turvado e poderá ser anulado para sempre. Assim, o cuidado com um comportamento auto-regulador durante a sobreposição orgonótica do macho e da fêmea é a melhor garantia de um prazer completo.
O orgasmo acontece quando tem de acontecer, e não quando ele ou ela o desejam. Não se pode «querer» um orgasmo e «obtê-lo» como quem obtém uma cerveja num bar.
O orgasmo, na sua verdadeira acepção biológica, é o resultado de um progressivo crescimento de ondas de excitação, e não um produto acabado que se pode conseguir com trabalho árduo. Ele é uma convulsão unitária de uma só unidade energética que, antes da fusão, era constituída por duas unidades e que, terminada a fusão, se separará novamente em duas existências individuais. Do ponto de vista da bioenergética, o orgasmo apresenta-se como a perca total da individualidade própria em benefício de um estado de ser absolutamente diferente: não se trata de obter o orgasmo dele para ela ou dela para ele, como o imaginam os homens mentalmente doentes do século I ou do século XX. A prova é o facto de que um tratamento médico pode fazer desaparecer essa maneira de «obter» o orgasmo, enquanto a autêntica fusão bioenergética não desaparece mas, ao contrário, reforça-se. Esses factos são de importância fundamental.
Sou então dois sujeitos ao mesmo tempo: quero a maternidade e a genitalidade.
 
O orgasmo é algo que acontece a dois organismos vivos, e não uma coisa que possa «ser produzida». Ele é como a brusca projecção de protoplasma numa amiba que se desloca. Não se pode «ter» um orgasmo com qualquer pessoa. É possível foder com qualquer um pois, para provocar uma descarga de líquido seminal ou um prurido vigoroso, basta friccionar suficientemente os órgãos genitals. Mas o orgasmo é mais do que um forte prurido, do qual se distingue essencialmente. Não se pode «obter» o orgasmo à força de arranhar ou morder. O macho e a fêmea que se arranham ou se mordem procuram, por todos os meios, o contacto bioenergético. O contacto orgástico acontece ao organismo. Não há necessidade de o «fazer». Ele ocorre espontaneamente ao contacto com certos organismos e não ocorre ao contacto com os outros em geral. Deste modo, ele é a base da autêntica moral sexual.
O organismo que fode deve «avançar» rapidamente, para não deixar de «conseguir». Ele «alivia-se» ou «faz amor». O organismo que ama deixa-se submergir na maré das sensações e levar pelo fluxo, senhor de cada movimento, como o canoeiro experimentado no controle da sua embarcação ao descer um rio de montanha. Do mesmo modo, um cavaleiro que sabe montar um puro-sangue deixa-se levar pela sua montada e, ainda assim, domina-a. O organismo esclerosado precisa de grandes esforços, como um corredor cujos pés estivessem amarrados a um peso. Tudo o que ele pode fazer é avançar coxeando. Após uma marcha penosa, ele soçobra, exausto. O organismo que fode mantém a cabeça fria durante o «acto» (esta palavra, por si só, já é reveladora). Ele pode «conseguir», «fazer», «acabar», sempre e em todas as ocasiões, como um touro ou um garanhão fogoso e frustrado, privado de fêmea durante anos. Existem mesmo técnicas particulares e trabalhosas para atrair e seduzir a fêmea. O valor vital de tais actividades pode ser comparado a um reboque que puxa um carro avariado − as duas rodas dianteiras suspensas no ar.
As características internas da função amorosa determinam os diferentes aspectos de todas as actividades do indivíduo. O fodedor conseguirá sempre aquilo que quer; forçará as coisas, esfregará para dentro e para fora, terá técnicas especiais para alcançar os seus objectivos de maneira eficiente; o tipo passivo é vítima daquilo que o activo lhe impõe. O carácter genital, ao contrário, deixa sempre que as coisas funcionem e aconteçam; ele mergulha activamente em tudo o que faz, desde amar uma mulher ou um homem, a montar uma organização ou executar um trabalho.
O fodedor violento e o tipo sofredor serão atraídos pelo carácter genital e tentarão imitá-lo. Deste primeiro impulso do organismo couraçado para imitar Cristo decorre a tragédia, com uma lógica implacável. Ela ocorrerá necessariamente, sempre que estes dois modos de vida se defrontarem, seja qual for a época, país ou camada social. É na Terra de Ninguém, entre os dois campos, que as Crianças do Futuro terão de crescer. Se queremos instaurar um sistema de educação racional, é indispensável reflectir sobre os meios de proteger a criança da peste emocional, conseqüência dessa tragédia. Não há problema de educação, precoce ou tardia, que não decorra, na sua estrutura e realização, das condições que conduzem ao Assassinato de Cristo.
Para o orgonomista analista do carácter do século xx, Cristo possui todas as marcas do carácter genital. Ele nunca poderia ter amado as crianças, as pessoas, a natureza, nunca poderia ter sentido a vida e agido com a graça suprema com que agiu, se tivesse sofrido de frustração genital; pensamentos obscenos, lascívia, crueldade directa ou disfarçada em exigências morais, falsa doçura − enfim, todos os sinais de frustração genital −, não se enquadram na imagem de Cristo tal como nos foi transmitida, e a pergunta surge de maneira espontânea: porque é que ninguém compreendeu isto? Isso está de acordo com o facto de que nenhum biólogo tenha jamais mencionado as pulsações orgonóticas ondulatorias dos seres vivos ou que nenhum especialista em higiene mental tenha mostrado as devastações da frustração genital durante a puberdade.
Cristo nunca poderia ter sido puro como a água de um riacho e alerta como um veado se o seu espírito estivesse cheio das imundícies de uma sexualidade pervertida pela frustração do abraço natural. Não pode haver dúvida: Cristo conheceu o amor físico e as mulheres, como conheceu tantas outras coisa naturais. A bondade de Cristo, a sua capacidade para o contacto, a sua atitude compreensiva em face da fragilidade do homem, das mulheres adúlteras, dos pecadores, das prostitutas, dos pobres de espírito, não se enquadrariam em nenhuma outra imagem biológica de Cristo. Sabemos que houve mulheres que amaram Cristo − mulheres respeitáveis, belas, generosas. Este é um ponto importante se quisermos compreender o seu assassinato final. Qualquer outra concepção é completamente aberrante. Autores independentes, como Renan, exprimiram claramente este pensamento, e todos os que estudaram sem preconceitos a vida de Cristo Conhecem o segredo.
O mais incompreensível do enigma é que esta vida tenha dado origem a uma religião que, em flagrante contradição com o seu fundador, baniu da sua esfera o princípio do funcionamento natural da vida e perseguiu, acima de tudo, o amor físico. Mas até isso encontrará uma explicação racional.

(Wilhelm Reich - O Assassinato de Cristo)

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publicado às 18:38


A NECESSIDADE DE SERMOS OLHADOS

por Thynus, em 01.12.16
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A fúria da libido
Todos nós temos necessidade de ser olhados. Podíamos ser divididos em quatro categorias consoante o tipo de olhar sob o qual desejamos viver.

A primeira procura o olhar de um número infinito de olhos anónimos ou, por outras palavras, o olhar do público. É o caso do cantor alemão e da estrela americana, como é também o caso do jornalista de queixo de rabeca. Estava habituado aos seus leitores, e quando o semanário foi proibido pelos russos teve a impressão de ficar com a atmosfera cem vezes mais rarefeita. Para ele, ninguém podia substituir os olhos anónimos. Sentia-se quase a sufocar, até que um dia percebeu que a polícia lhe seguia todos os passos, que o seu telefone estava sob escuta e que chegava a ser discretamente fotografado na rua. De repente, tinha outra vez olhos anónimos a acompanharem-no: já podia voltar a respirar! Interpelava num tom teatral os microfones escondidos na parede. Voltava a encontrar na polícia o público que julgava ter perdido para sempre.

Na segunda categoria, incluem-se aqueles que não podem viver sem o olhar de uma multidão de olhos familiares. São os incansáveis organizadores de jantares e de cocktails. São mais felizes que os da primeira categoria porque, quando estes perdem o público, imaginam que as luzes se apagaram para sempre na sala da sua vida. É o que, mais dia menos dia, lhes acontece a todos. Os desta segunda categoria, estes sim, acabam sempre por conseguir arranjar os olhares de que precisam. Marie-Claude e a filha são deste género.

Vem em seguida a terceira categoria, a categoria daqueles que precisam de estar sempre sob o olhar do ser amado. A sua condição é tão perigosa como a das pessoas do primeiro grupo. Se os olhos do ser amado se fecham, a sala fica mergulhada na escuridão. É neste tipo de pessoas que devemos incluir Tereza e Tomas.

Finalmente, há uma quarta categoria, bem mais rara, que são aqueles que vivem sob os olhares imaginários de seres ausentes. São os sonhadores. Por exemplo, Franz. Foi até à fronteira cambojana unicamente por causa de Sabina. Dentro do autocarro, que a estrada tailandesa faz balouçar violentamente, só sente o seu longo olhar pousado em si.

O filho de Tomas pertence à mesma categoria. Chamar-lhe-ei Simão. (Vai com certeza gostar de ter um nome bíblico como o pai.) O olhar a que aspira, é o olhar dos olhos de Tomas. Por ter-se comprometido com a campanha de assinaturas, foi expulso da faculdade. Namorava a sobrinha de um pároco de aldeia. Casou-se com ela, tornou-se motorista de tractor numa cooperativa, católico praticante e pai de família. Soube que Tomas também vivia no campo e ficou feliz com isso. Afinal o destino tomara as suas vidas simétricas! Foi o que o incitou a escrever-lhe uma carta. Não pedia resposta. Não queria senão uma coisa: que Tomas pousasse o olhar dele sobre a sua vida.

***

Franz e Simão são os sonhadores deste romance. Ao contrário de Franz, Simão não gostava da mãe. Desde a infância que andava à procura do pai. Sempre esteve pronto a acreditar que a injustiça que o pai lhe fizera fora forçosamente provocada por uma ofensa qualquer. Nunca lhe quisera mal por causa disso, recusando-se sempre a aliar-se à mãe, que passava o tempo a dizer mal de Tomas.

Viveu com ela até aos dezoito anos e, depois de acabar o liceu, foi estudar para Praga. Nessa altura, já Tomas andava a lavar janelas. Simão tentou variadíssimas vezes provocar um encontro fortuito na rua com ele. Mas o pai nunca parava.

Se se ligara ao jornalista de queixo de rabeca fora unicamente porque este lhe lembrava o destino do pai. O jornalista nem sequer sabia o nome de Tomas. O artigo sobre Édipo tinha caído no esquecimento e só se lembrou da sua existência quando Simão lhe pediu para ir com ele propor ao pai que assinasse a petição. O jornalista aceitou apenas para ser agradável ao rapaz, de quem gostava bastante.

Quando pensava nesse encontro, Simão tinha vergonha do seu nervosismo. Com certeza que o pai não gostara dele. Em contrapartida, o pai tinha-lhe agradado bastante. Lembrava-se de tudo quanto ele dissera, palavra por palavra, e cada vez lhe dava mais razão. Tinha sobretudo uma fase gravada na memória: “Castigar os que não sabiam o que estavam a fazer, é pura barbaridade." Quando o tio da namorada lhe pôs uma Bíblia entre as mãos, saltou-lhe logo aos olhos o pedido de Jesus: “Perdoai-lhes, que eles não sabem o que fazem.” Bem sabia que o pai era ateu, mas a semelhança das duas frases funcionou para ele como um sinal secreto: o pai aprovava a via que ele escolhera.

Morava no interior já há dois anos, quando recebeu uma carta de tomas convocando-o para visitá-lo. o encontro foi amistoso, Simão sentia-se à vontade, e não gaguejava mais. Provavelmente não chegou a perceber que não se compreendiam muito bem. Uns quatro meses depois recebeu um telegrama dizendo que tomas e sua mulher haviam morrido esmagados sob um caminhão. Foi nessa ocasião que ouviu falar de uma mulher que fora amante de seu pai e que vivia na franca. Procurou seu endereço. Como precisava desesperadamente de um olho imaginário que continuasse a observar sua vida, de vez em quando escrevia-lhe longas cartas.
***

Até ao fim dos seus dias, Sabina nunca mais deixará de receber cartas desse triste epistológrafo aldeão. Muitas não serão sequer abertas, porque o país de onde é originária lhe interessa cada vez menos.

O velhote morreu e Sabina foi viver para a Califórnia. Sempre mais para ocidente, sempre cada vez mais longe da Boémia.

Os seus quadros têm boa aceitação e ela gosta bastante da América. Mas só à superfície. Por baixo, há todo um mundo que lhe é estranho. Sob aquela terra, não tem nem antepassados, nem tios. Tem medo que a encerrem dentro de um caixão e a enterrem debaixo dela.

Fez, portanto, um testamento onde estipula que o seu corpo deverá ser queimado e as suas cinzas deitadas ao vento. Tereza e Tomas morreram sob o signo do peso. Ela quer morrer sob o signo da leveza. Será mais leve do que o ar. Segundo Parménides, é a transformação do negativo em positivo.
 

(Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser)

 
 

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publicado às 17:12


A VELHA CATEDRAL DE AMESTERDÃ

por Thynus, em 01.12.16
De um lado ficam as casas e, através das janelas do rés-do-chão, tão grandes como montras, apercebem-se os minúsculos quartinhos das putas. Estas estão em roupa interior, sentadas à janela em pequenos sofás cheios de almofadas. Só parecem grandes gatos entediados.

O outro lado da rua é ocupado por uma gigantesca catedral gótica do século XIV.

Como um rio a separar dois reinos, entre o mundo das putas e o mundo de Deus, paira o cheiro ácido da urina.

Na parte de dentro da igreja, do antigo estilo gótico não restam senão as paredes, muito altas e despidas, as colunas, a abóbada e as janelas. Não há um único quadro, nem há imagens em sítio nenhum.

O interior da catedral está tão vazio como um ginásio. Tudo o que lá há são filas de cadeiras dispostas de maneira a formarem ao centro um grande quadrado, em torno de um estrado em miniatura sobre o qual se ergue a mesinha do pregador. Atrás das cadeiras, há camarotes de madeira destinados às famílias dos moradores mais ricos.

As cadeiras e os camarotes estão dispostos sem qualquer respeito pela configuração das paredes ou pela disposição das colunas, como se assim manifestassem à arquitectura gótica a sua indiferença e o seu desdém. Há vários séculos já que a fé calvinista transformou a igreja num simples hangar, cuja única função é proteger os fiéis da neve e da chuva.

Franz estava fascinado: aquela sala gigantesca fora atravessada pela Grande Marcha da história.

Sabina lembrou-se que, depois do golpe de Estado comunista, todos os castelos e palácios da Boémia tinham sido nacionalizados e transformados em centros de aprendizagem, casas de repouso ou até em estábulos. Visitara uma vez um desses estábulos; nas paredes de estuque, havia ganchos com anéis de ferro aos quais estavam presas as vacas, que olhavam com um ar sonhador através das janelas para o jardim do palácio onde as galinhas corriam de um lado para o outro.

Franz disse: "Sinto-me fascinado com este vazio. Acumulam-se os altares, os quadros, as esculturas, as cadeiras, os sofás, os tapetes, os livros e depois vem o momento de júbilo libertador em que tudo é varrido como as migalhas de cima de uma toalha. És capaz de imaginar a vassoura de Hércules com que esta catedral foi varrida?”

Sabina apontou para um camarote de madeira. “Os pobres ficavam de pé, e os ricos tinham camarotes. Mas o banqueiro e o pobre tinham uma coisa em comum. Era o ódio à beleza.”

“O que é a beleza?”, perguntou Franz, e veio-lhe imediatamente à cabeça a inauguração de uma exposição onde, daí a dias, tinha de acompanhar a mulher: a vacuidade dos discursos e das palavras, a vacuidade da cultura, a vacuidade da arte.

Na época em que, quando era estudante, trabalhava nos Estaleiros da Juventude e tinha na alma o veneno das alegres fanfarras que brotavam ininterruptamente dos altifalantes, Sabina saíra um domingo de motorizada. Percorreu vários quilómetros de floresta e parou numa aldeiazinha desconhecida, perdida no meio das colinas. Encostou a motorizada à igreja e entrou. Era precisamente a hora da missa. Nessa altura, a religião era perseguida pelo regime comunista e a maior parte das pessoas evitava as igrejas. Sentados nos bancos só havia velhos. Esses não tinham medo do Governo; só tinham medo da morte.

Com uma voz melodiosa, o padre pronunciava uma frase e as pessoas repetiam-na em coro logo a seguir. Era uma litania. As palavras, sempre as mesmas, voltavam continuamente, como um peregrino que não consegue arrancar os olhos da paisagem, como um homem que não consegue dizer adeus à vida. Sentou-se num dos bancos de trás; às vezes fechava os olhos só para ouvir aquela música das palavras, depois voltava a abri-los: imediatamente lhe aparecia a abóbada azul com grandes astros dourados pintados em cima. Cedia ao encantamento.

O que encontrara inesperadamente naquela igreja não fora Deus, mas a beleza. Ao mesmo tempo, tinha perfeita consciência que aquela igreja e aquelas litanias não eram belas em si mesmas, mas que a sua beleza lhes vinha do contraste com os Estaleiros da Juventude onde os seus dias se passavam no meio da barulheira infernal das canções. A missa era bela por lhe ter aparecido súbita e clandestinamente como um mundo traído.

Aprendeu nesse dia que a beleza é um mundo traído. Só podemos encontrá-la quando aqueles que a perseguem a deixam por engano num sítio qualquer. A beleza esconde-se atrás dos cenários de um desfile do 1´.o de Maio. Para dar com ela, primeiro é preciso furar a tela do cenário.

“Nunca tinha ficado fascinado com uma igreja”, disse Franz. Não era nem o protestantismo nem a ascese que o entusiasmavam. Era outra coisa, qualquer coisa de muito pessoal e da qual não se atrevia a falar à frente de Sabina. Parecia-lhe estar a ouvir uma voz que o desafiava a pegar na vassoura de Hércules para varrer da sua vida as inaugurações de Marie-Claude, os cantores de Marie-Anne, os congressos, os colóquios, os discursos inúteis e as palavras vãs. O enorme espaço vazio da catedral de Amesterdão acabava de lhe oferecer a imagem da sua própria liberdade.


(Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser) 

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publicado às 03:23


A FORÇA

por Thynus, em 01.12.16
Na cama de um dos inúmeros hotéis onde faziam amor, Sabina apalpava um braço a Franz e exclamava: “Tens uns músculos incríveis!”

Franz gostava de ouvir este elogio. Levantou-se da cama, agarrou mesmo rente ao chão o pé de uma pesada cadeira de castanho e começou lentamente a tentar levantá-la no ar. Enquanto isso, dizia para Sabina:

Já não tens que ter medo de nada: agora tens-me a mim para te defender! Fui campeão de judo na minha juventude!”

Conseguiu endireitar o braço na vertical sem largar a cadeira e Sabina disse-lhe: “É bom saber que és tão forte!”

Mas, bem lá no fundo, acrescentou para si própria: Franz é forte, mas a força dele está unicamente voltada para fora. Com as pessoas com quem vive, com aqueles que ama. é muito fraco. A fraqueza de Franz chama-se bondade. Franz seria incapaz de dar uma ordem a Sabina. Nunca lhe ordenaria, como Tomas dantes fazia, que deitasse o espelho no chão e se pusesse a passear toda nua em cima dele. Não que a sensualidade lhe falte - não tem é força para dar ordens. Há coisas que só se podem fazer com violência.

O amor físico é impensável sem violência.

Sabina olhava para Franz a passear no quarto brandindo a sua cadeira bem lá no alto; a cena parecia-lhe ridícula e sentiu-se invadida por uma estranha tristeza.

Franz pousou a cadeira e sentou-se com o rosto voltado para Sabina.

“Não que eu não goste de ser forte, disse, mas para que é que me servem uns músculos destes em Genebra”? Uso-os para me enfeitar. São penas de pavão. Nunca parti a cara a ninguém.”

Sabina prosseguia as suas melancólicas reflexões. E se tivesse tido um homem que lhe desse ordens? Que tivesse querido dominá-la. Durante quanto tempo suportaria isso? Nem durante cinco minutos! Portanto, não havia homem que lhe conviesse. Nem forte nem fraco.

Então, perguntou a Franz: “E porque é que de tempos a tempos não te serves da tua força contra mim?

- Porque amar é renunciar à força”, disse Franz, com doçura.

Sabina percebeu duas coisas: primeiro, que aquela frase era bela e verdadeira; segundo, que, com aquela frase, Franz acabara de se desvalorizar para sempre na sua vida erótica.


(Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser) 

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publicado às 03:22


VIVER NA VERDADE

por Thynus, em 01.12.16
É uma fórmula que Kafka utilizou no diário ou numa carta. Franz já não se lembra muito bem onde. Sente-se seduzido por ela. O que será isso de viver na verdade? Uma definição negativa não é difícil: é não mentir, não esconder, não dissimular nada. Desde que conhece Sabina que vive na mentira. Fala à mulher de um imaginário congresso de Amesterdão ou de umas conferências de Madrid que nunca existiram, e em Genebra tem medo de andar na rua com Sabina. Mentir e esconder-se são coisas que o divertem porque nunca as tinha feito. Dão-lhe a mesma sensação de prazer que a primeira gazeta ao melhor aluno da turma.

Para Sabina, viver na verdade, não mentir nem a si próprio nem aos outros, só é possível se não houver público nenhum. A partir do momento em que os nossos actos têm uma testemunha, quer queiramos quer não, adaptamo-nos aos olhos que nos observam; e, a partir de então, nada do que fazemos é verdadeiro. Ter um público, pensar num público, é viver na mentira. Sabina despreza aquele tipo de literatura em que o autor revela não só toda a sua intimidade, como também a dos amigos. Quem perde a sua intimidade, perde tudo, pensa Sabina. E quem renuncia voluntariamente a ela é um monstro. Por isso, Sabina não se importa de ter uma relação clandestina. Bem pelo contrário, para ela, é a única maneira de viver “na verdade”.

 Mas Franz, quanto a ele, está seguro de que a divisão da vida em domínio privado e domínio público é a origem de toda a mentira: as pessoas são sempre diferentes em público e em privado. Para Franz,   viver na verdade” é abolir a barreira entre o privado e o público. Cita frequentemente André Breton, quando este dizia que gostaria de ter vivido   numa casa de vidro” aberta a todos os olhares e onde nada fosse secreto.

Ao ouvir a mulher dizer a Sabina: Que jóia horrorosa!”, compreendera que era incapaz de continuar a viver aquela vida dupla. Nesse momento, deveria ter acorrido em defesa de Sabina. Se não o fizera, fora unicamente com medo de trair o seu amor clandestino.

No dia seguinte ao do cocktail, estava de partida para Roma, para passar dois dias com Sabina. As palavras: Que jóia horrorosa!” vinham-lhe constantemente à cabeça e faziam-lhe ver a mulher com outros olhos. Passara a ver uma mulher muito diferente daquela que julgara conhecer. A sua agressividade, invulnerável, espalhafatosa, dinâmica, aliviava-o do peso da bondade que pacientemente carregara durante vinte e três anos de casamento. Lembrou-se do imenso espaço interior da catedral de Amesterdão e voltou a sentir o entusiasmo incompreensível e singular que esse vazio lhe suscitava.

Estava a fazer a mala quando Marie-Claude entrou no quarto; falava dos convidados da véspera, aprovando energicamente certas opiniões que ouvira e condenarão acerbamente outras.

Franz olhou demoradamente para ela e depois disse:   Não vai haver conferência nenhuma em Roma.”

Marie-Claude não entendeu:   Então para que é que lá vais?”

Replicou-lhe:   Tenho uma amante há sete ou oito meses. Não quero ter encontros com ela aqui em Genebra. Por isso é que tenho viajado tanto. Pensei que mais valia prevenir-te.”

Após ter dito estas palavras, foi assaltado pela dúvida: a coragem inicial começava a abandoná-lo. Desviou os olhos para não ter de ver na cara de Marie-Claude o desespero que as suas palavras não podiam deixar de causar-lhe.

Depois de uma curta pausa, ouviu:   Sim, eu também acho que vale mais estar prevenida.”

Isto foi dito num tom de grande firmeza; Franz levantou os olhos: Marie-Claude não estava minimamente perturbada. Continuava a ser a mulher que dizia com uma voz tonitruante:   Que jóia horrorosa! “

Ela prosseguiu:   Visto que tens a coragem de me anunciar que me andas a enganar há sete ou oito meses, já agora também não posso ficar a saber com quem?”

Sempre procedera de modo a não ofender Marie-Claude e a respeitar a mulher que havia nela. Mas o que acontecera à mulher que havia em Marie-Claude? Ou, por outras palavras, o que acontecera à imagem da mãe que associava sempre à da mulher? A sua mãe, a sua mãe triste e magoada, com dois sapatos desemparceirados nos pés, deixara de estar dentro de Marie-Claude; e se calhar nem isso, porque, de fato, nunca lá devia ter estado. Quando o percebeu veio-lhe o ódio ao de cima.

Não tenho razão nenhuma para não te dizer”, disse.

Já que ela não ficara magoada por saber que ele a enganava, saber quem era a rival magoá-la-ia com certeza. Olhando-a bem nos olhos, pronunciou o nome de Sabina.

Pouco depois, foi ter com Sabina ao aeroporto. À medida que o avião ganhava altura, sentia-se cada vez mais leve. Finalmente ao cabo de nove meses, podia começar a viver outra vez na verdade!


(Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser)

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publicado às 03:21


O PESO E A LEVEZA

por Thynus, em 29.11.16
Se, em tudo o que você quer fazer, começar perguntando: “Tenho certeza de que desejo fazê-lo infinitas vezes?”, isso se tornará o centro de gravidade mais sólido para você... Eis o ensinamento de minha doutrina: “Viva de forma a ter de desejar reviver — é o dever —, pois, em todo caso, você reviverá! Aquele para quem o esforço é a alegria suprema, que se esforce! Aquele que ama antes de tudo o repouso, que repouse! Aquele que ama antes de tudo se submeter, obedecer e seguir, que obedeça! Mas que saiba para o que dirige sua preferência, e não recue diante de nenhum meio! É a eternidade que está em jogo!” Essa doutrina é suave para aqueles que nela não têm fé. Ela não tem nem inferno nem ameaças. Aquele que não tem fé não sentirá em si senão uma vida fugidia.
(Nietzsche - A Vontade de Poder) 
 
O que Nietzsche invoca com a doutrina do eterno retorno – que afirma que tudo no universo está em constante movimento, constante mudança – é uma espécie de imperativo categórico pós-teísta. Se Kant defendia que as pessoas deveriam agir somente de acordo com a máxima segundo a qual um ato deveria se tornar uma lei universal, então Nietzsche defendia que elas agissem como se aquele ato fosse se repetir eternamente. Este é o grande propósito que cabe ao homem seriamente após Deus. É o antídoto de Nietzsche para o niilismo de sua época, e é uma luz com a qual ele vislumbrou os novos territórios da experiência e da compreensão humana que viriam a ser explorados por fenomenologistas e existencialistas. Nietzsche lança as bases para a ontologia de Sartre e para os temas que ele explora em suas obras literárias. O desafio constante de Nietzsche é nos mostrar o abismo; a cada esquina, ele nos pergunta: E agora?
(Trombley, Stephen - 50 pensadores que formaram o mundo moderno)


 
O eterno retorno é uma ideia misteriosa de Nietzsche que, com ela, conseguiu dificultar a vida a não poucos filósofos: pensar que, um dia, tudo o que se viveu se há-de repetir outra vez e que essa repetição se há-de repetir ainda uma e outra vez, até ao infinito! Que significado terá este mito insensato?

O mito do eterno retorno diz-nos, pela negativa, que esta vida, que há-de desaparecer de uma vez por todas para nunca mais voltar, é semelhante a uma sombra, é desprovida de peso, que, de hoje em diante e para todo o sempre, se encontra morta e que, por muito atroz, por muito bela, por muito esplêndida que seja, essa beleza, esse horror, esse esplendor não têm qualquer sentido. Não vale mais do que uma guerra qualquer do século XIV entre dois reinos africanos, embora nela tenham perecido trezentos mil negros entre suplícios indescritíveis.

Mas algo se alterará nessa guerra do século XIV entre dois reinos africanos se, no eterno retorno, se vier a repetir um número incalculável de vezes?

Sem dúvida que sim: passará a erguer-se como um bloco perdurável cuja estupidez não terá remissão.

Se a Revolução Francesa se repetisse eternamente, a historiografia francesa orgulhar-se-ia com certeza menos do seu Robespierre. Mas, como se refere a algo que nunca mais voltará, esses anos sangrentos reduzem-se hoje apenas a palavras, teorias, discussões, mais leves do que penas, algo que já não aterroriza ninguém. Há uma enorme diferença entre um Robespierre que apareceu uma única vez na história e um Robespierre que eternamente voltasse para cortar a cabeça aos franceses.

Digamos, portanto, que a ideia do eterno retorno designa uma perspectiva em que as coisas não nos aparecem como é costume, porque nos aparecem sem a circunstância atenuante da sua fugacidade. Essa circunstância atenuante impede-nos, com efeito, de pronunciar um veredicto. Poderá condenar-se o que é efémero? As nuvens alaranjadas do poente iluminam tudo com o encanto da nostalgia; mesmo a guilhotina.

Não há muito, eu próprio me defrontei com o fato: parece incrível mas, ao folhear um livro sobre Hitler, comovi-me com algumas das suas fotografias; faziam-me lembrar a minha infância passada durante a guerra; diversas pessoas da minha família morreram nos campos de concentração dos nazistas, mas o que eram essas mortes comparadas com uma fotografia de Hitler que me fazia lembrar um tempo perdido da minha vida, um tempo que nunca mais há-de voltar?

Esta minha reconciliação com Hitler deixa entrever a profunda perversão inerente ao mundo fundado essencialmente sobre a inexistência de retorno, porque nesse mundo tudo se encontra previamente perdoado e tudo é, portanto, cinicamente permitido.

Para Kundera, a leveza decorre da ausência de compromisso, enquanto o peso é a responsabilidade que da sentido e nos mantém com os pés no chão. Essa leveza às vezes é  insustentável quando contrastada com o peso do destino.
 
Se cada segundo da nossa vida tiver de se repetir um número infinito de vezes, ficamos pregados à eternidade como Jesus Cristo à cruz. Que ideia atroz! No mundo do eterno retorno, todos os gestos têm o peso de uma insustentável responsabilidade. Era o que fazia Nietzsche dizer que a ideia do eterno retorno é o fardo mais pesado (das schwerste Gewicht).

Se o eterno retorno é o fardo mais pesado, então, sobre tal pano de fundo, as nossas vidas podem recortar-se em toda a sua esplêndida leveza.

Mas, na verdade, será o peso atroz e a leveza bela?

O fardo mais pesado esmaga-nos, verga-nos, comprime-nos contra o solo. Mas, na poesia amorosa de todos os séculos, a mulher sempre desejou receber o fardo do corpo masculino. Portanto, o fardo mais pesado é também, ao mesmo tempo, a imagem do momento mais intenso de realização de uma vida. Quanto mais pesado

for o fardo, mais próxima da terra se encontra a nossa vida e mais real e verdadeira é.

Em contrapartida, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, fá-lo voar, afastar-se da terra, do ser terrestre, torna-o semi-real e os seus movimentos tão livres quanto insignificantes.

Que escolher, então? O peso ou a leveza?

Foi a questão com que se debateu Parménides, no século VI antes de Cristo. Para ele, o universo estava dividido em pares de contrários: luz-sombra; espesso-fino; quente-frio; ser-não ser. Considerava que um dos pólos da contradição era positivo (o claro, o quente, o fino, o ser) e o outro, negativo. Esta divisão em pólos positivos e negativos pode parecer de uma facilidade pueril. Excepto num caso: o que é positivo: o peso ou a leveza?

Parménides respondia que o leve é positivo e o pesado, negativo. Tinha razão ou não? O problema é esse. Mas uma coisa é certa: a contradição pesado-leve é a mais misteriosa e ambígua de todas as contradições.

(Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser)
O peso insuportável da leveza

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publicado às 03:54


Compaixão

por Thynus, em 28.11.16
Em todas as línguas derivadas do latim, a palavra compaixão forma-se com o prefixo ''com'' e a raiz ''passio'' que, na sua origem, significa sofrimento. Noutras línguas, como, por exemplo, em checo, em polaco, em alemão, em sueco, a palavra traduz-se por um substantivo formado por um prefixo equivalente seguido da palavra ''sentimento'' (em checo: sou-cir; em polaco: wspol-czucie; em alemão: Mit-gefühl; em sueco: med-känsla).

Nas línguas derivadas do latim, a palavra compaixão significa que ninguém pode ficar indiferente ao sofrimento de outrem; ou, de outra maneira: sente-se sempre simpatia por quem sofre. Outra palavra que tem mais ou menos o mesmo sentido, e que é piedade (em inglês pitv, em italiano pierà, etc.), chega até a sugerir uma espécie de indulgência para com o ser que sofre. Ter piedade de uma mulher é sermos mais favorecidos do que ela, é inclinarmo-nos, baixarmo-nos até ela.

Por isso é que a palavra compaixão inspira geralmente uma certa desconfiança; designa um sentimento considerado como de segunda ordem e que não tem grande coisa a ver com o amor. Amar alguém por compaixão é de fato não amar essa pessoa.

Nas línguas em que a palavra compaixão não se forma com a raiz ''passio = sofrimento'' mas com o substantivo ''sentimento'', a palavra é empregue mais ou menos no mesmo sentido, mas dificilmente se pode dizer que designa um sentimento mau ou medíocre. A força secreta da sua etimologia banha a palavra de uma outra luz e dá-lhe um sentido mais lato: ter compaixão (co-sentimento) é poder viver com o outro não só a sua infelicidade mas sentir também todos os seus outros sentimentos: alegria, angústia, felicidade, dor. Esta compaixão (no sentido de soucit, wspolrzurie, Mitgefühl, medkänsla) designa, portanto, a mais alta capacidade de imaginação afectiva, ou seja, a arte da telepatia das emoções. Na hierarquia dos sentimentos, é o sentimento supremo.

Sonhando que estava a enfiar agulhas por baixo das unhas, Tereza traía-se a si própria porque revelava a Tomas que mexia às escondidas nas suas gavetas. Se fosse outra mulher, nunca mais lhe dirigiria palavra. Consciente disso, Tereza dissera-lhe: ''Põe-me na rua!'' Ora, ele não só não a tinha posto na rua como lhe pegara na mão e lhe beijara a ponta dos dedos, já que, nesse momento, sentia a mesma dor que ela por baixo das unhas, como se os dedos de Tereza estivessem directamente ligados ao seu cérebro.

Aquele que não possui o dom diabólico da compaixão (co-sentimento) não pode senão condenar friamente o comportamento de Tereza, porque a vida privada do outro é sagrada e não se devem abrir as gavetas onde ele guarda a sua correspondência pessoal. Mas como a compaixão se tornara o destino (ou a maldição) de Tomas, parecia-lhe que fora ele que se ajoelhara em frente da gaveta da secretária e ficara hipnotizado pelas frases escritas pela mão de Sabina. Compreendia Tereza e não só era incapaz de querer-lhe mal como o seu gesto o fazia amá-la ainda mais.

 (Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser)

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publicado às 21:34


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